44 • Sollary’s Secret
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Sollary Hospital, Seattle
Para os cirurgiões apaixonados por um bisturi, nada como uma noite de plantão cheia de adrenalina com um fluxo inesperado de pacientes para distrair a mente e te fazer esquecer os problemas. Essa foi a válvula de escape para %Mia% que seguia tentando se acostumar com a nova realidade, e não se referia ao fato de estar casada, mas sim de ter uma enteada.
— Amiga, você parece acabada. — comentou Hill, assim que ambas entraram na sala dos residentes.
— Acredite, meu cansaço tem sido mais mental que físico. — contou ela, seguindo até o seu armário — Se eu pudesse, ficaria mais um plantão aqui.
— E levar advertência do seu tio em pessoa? — retrucou Hill, retirando sua blusa para trocar por uma camiseta comum — Sabe que a Torres está de olho em você.
— Ah, minha madrinha realmente não me deixa abusar. — confessou %Mia%, um pouco frustrada pegando sua bolsa — Mas tudo bem, é hora de encarar minha realidade doméstica.
— Como está sua vida de casada? — perguntou a amiga, curiosa —Tem se dado bem com sua enteada?
— Não sei, acho que sim. — ela respirou fundo, ao procurar por seu celular escondido dentro da bolsa — Eu não a vejo muito, claro que minha rotina no hospital ajuda com isso, mas… Ela tem ficado mais com a tia dela.
— E você acha isso certo? — Hill a olhou admirada — Eu acho que você deveria se aproximar mais dessa garotinha.
— Que olhar é esse de teorias da conspiração, Hill? — %Mia% manteve sua atenção nela.
— Dizem que a vida imita a arte e eu já vi muitos filmes em que a criança influencia no relacionamento dos pais. — comentou ela — Eu, se fosse você, não deixava a titia do ano tão próxima assim do seu marido.
— Eu confio no Baker e sei os sentimentos dele por mim. — assegurou %Mia%, com firmeza.
— Não falo por ele, você tem que desconfiar é dela, a intrusa. — Hill piscou de leve para a amiga.
Amigas de infância, %Mia% já tinha acompanhado as inúmeras aventuras de amor de Hill e sabia muito bem das muitas desilusões que a mesma teve. Mas uma coisa sua amiga estava certa, ela confiava somente em Baker. Após finalmente achar seu celular, mandou uma mensagem ao marido dizendo estar seguindo para casa e o intimando a chegar antes do jantar.
Ao chegar na recepção, se despediu do segurança da entrada e passando pela porta de saída, paralisou surpresa ao ver %Demeter% encostado em sua moto numa pose atraente para ela, lhe esperando.
— Acabei de te mandar uma mensagem. — disse ela, ao se aproximar dele — O que faz aqui? Não tinha uma entrega importante hoje na oficina?
— Tenho funcionários muito competentes lá. — explicou ele, já puxando sua esposa pela cintura e lhe roubando um beijo — Que tal um final de semana a dois?
— Nem chegamos no final do dia de hoje, senhor Baker, e já está pensando no amanhã? — ela o olhou desconfiada — O que está tramando?
— Eu só quero mais tempo com minha esposa. — ele manteve seus braços envoltos na cintura dela — Passamos por alguns contratempos depois do nosso casamento e, desde então, não conseguimos ter um tempo pra gente.
— Hum… — ela bem que tentou, mas não resistiu e sorriu de leve — E o que me sugere?
— Uma fuga da cidade. — sugeriu ele, com um olhar malicioso — Estive trabalhando nessa possibilidade e arranjei alguns cúmplices.
— Cúmplices? — ela riu baixo, mantendo o olhar curioso — Quem?
— Descobri que sua família tem uma casa nas montanhas ao norte do Canadá. — contou ele, mantendo seu olhar bobo — Vai ser o nosso refúgio de amor, abençoado por seu primo Victor.
— Ah, a casa do tio Gustav. — disse ela, se lembrando da propriedade na cidade de
North Vancouver — Como conseguiu essa proeza? Meu primo tem um ciúmes enorme daquele lugar, foi onde nosso tio viveu os últimos dias.
— Tive uma ajuda especial do Rafaelli. — com um olhar brincalhão ele deu um selinho rápido nela — O que me diz?
— E como ficam as outras duas pessoas envolvidas nessa história? — perguntou ela, curiosa pela outra parte da família.
— Pedi asilo político para elas em Manhattan. — respondeu ele, em tom de brincadeira.
— Sério que Annia aceitou? — por essa %Mia% não esperava.
— Você sabe que não posso deixar Molly desprotegida, apesar dos seus defeitos, ainda confio em minha família. — explicou ele, deixando o olhar mais sério — Tenho certeza que Annia será uma boa tia.
— Hum… Isso é bom, mas a Rosalie concordou? — indagou a residente.
— Ela não tem que concordar, a partir do momento que me pediu ajuda, terá que seguir conforme minhas regras. — a seriedade manteve em seu olhar.
Aquele era um lado que %Mia% não conhecia nele.
— Então? — insistiu ele, suavizando o rosto.
— Acho que a herdeira Sollary pode desaparecer por alguns dias de sua residência. — brincou ela, arrancando um sorriso bobo dele.
— Apenas diga que você tem um paciente que precisa de cuidados particulares. — ele a beijou novamente, com mais intensidade.
Aquele sim era o lado que %Mia% conhecia bem e sempre se surpreendia de tempos em tempos.
— Farei o possível para dar todo o cuidado que esse paciente merece. — garantiu ela.
— Eu vou cobrar. — ele riu — Vamos?
%Mia% assentiu se afastando dele e colocando o capacete do carona. Ambos subiram na moto, e seguiram para seu apartamento. Passando pela porta, %Mia% se dirigiu até o quarto de imediato para tomar um banho e tirar a roupa do hospital, a única coisa que tinha deixado no armário foram seu jaleco e o estetoscópio.
Seus planos para o jantar ainda se mantinham de pé e ao adentrar na cozinha apenas de lingerie, estranhou a ausência do seu marido. A residente que já tinha cada detalhe de sua noite maliciosa esquematizada na cabeça, se pegou confusa e parcialmente frustrada. Foi então que %Demeter% adentrou o apartamento, acompanhado de sua filha e o filhote de cachorro que tinham adotado de um abrigo para animais, especialmente para ela.
— %Demeter%? — %Mia% se abaixou rapidamente, escondendo-se atrás da bancada de refeições, sentindo seu corpo gelar.
— %Mia%? — ele olhou confuso — O que faz aí atrás?
— Não deixe a Molly vir aqui. — pediu ela, segurando o surto interno.
— Ok. — %Demeter% olhou com carinho para filha e sorriu — Querida, fique no sofá com o Kookie, tudo bem?
A garotinha assentiu com o olhar confuso, e se aproximou do sofá se sentando e colocando seu filhote ao lado para brincar com ele. %Demeter% deu alguns passos até a lateral da bancada, encontrando sua esposa ainda agachada e respirando fundo.
— Droga. — disse ele, fechando os olhos, entendendo as intenções de sua esposa e sentindo um gosto amargo do arrependimento.
— Por que não disse que traria ela? — perguntou %Mia%, se sentindo envergonhada pela situação — Achei que a nossa noite seria a dois também.
— Desculpa, eu deveria ter dito antes. — ele a olhou como um cão abandonado.
— Não posso fazer o jantar assim. — disse ela, mantendo a voz tão baixa, que quase parecia um sussurro.
— Um momento. — ele voltou até a poltrona ao lado do sofá e pegou sua blusa de moletom, então retornou para ela e lhe entregou — Me desculpe.
%Mia% pegou de sua mão e vestiu rapidamente, então finalmente pode erguer seu corpo, mantendo o olhar revoltado para ele.
— %Mia%. — ele segurou em sua mão, assim que ela passou por ele.
— Essas coisas precisam ser avisadas. — disse ela, demonstrando nitidamente sua chateação — Não somos mais apenas um casal, se torna uma família quando há crianças envolvidas.
Ela se soltou dele e seguiu direto para o quarto. A residente não deu nem chances para as argumentações do marido e logo trancou a porta para que pudesse se acalmar internamente. Passos até o closet, ficou imóvel frente a uma das prateleiras com suas roupas dobradas. O silêncio deu lugar para o som de suas risadas ao finalmente absorver o que tinha acontecido. Se estava rindo de nervoso ou de graça, ela não sabia, mas que agora estava achando aquilo tudo uma loucura, provavelmente sim.
— Serei punido por isso? — perguntou %Demeter%, assim que ela apareceu com suas roupas trocadas e se aproximou do sofá.
— Ainda estou pensando. — ela não deixaria barato para ele, claro.
%Mia% chegando próximo a sua enteada, se sentou no sofá e sorriu de leve. Ela nunca levou jeito com crianças, era um fato que a especialização que jamais pensou foi a pediatria. Mas lá no fundo já tinha pensado em futuramente ter filhos. Agora, com esse inesperado desafio pela frente, ela pretende amolecer um pouco seu coração para conquistar a pequena criança.
— Boa noite, Molly. — disse %Mia%, observando-a.
— Boa noite. — a criança manteve o olhar no filhote.
— Como está indo com o Kookie? — perguntou ela — Ele gostou de dormir na sua cama?
— A tia Rose não deixou ele dormir comigo. — Molly levantou seu olhar para %Mia%, estava parcialmente triste.
— Por quê? — perguntou a residente.
— Ela disse que eu mataria ele esmagado, por ser pequeno. — respondeu a criança de forma inocente.
%Mia% segurou o riso, mas se mostrou solidária a ela.
— Sua tia tem um pouquinho de razão, mas eu tenho um método infalível para isso, posso te mostrar se você quiser dormir aqui hoje. — contou %Mia%, vendo o olhar dela mudar de imediato.
— Posso dormir aqui? — Molly olhou com surpresa para o pai.
— Claro que pode querida, por que a surpresa? — %Demeter% que as olhava com carinho próximo a bancada, se aproximou das duas, intrigado.
— Tia Rose disse que sua esposa brigaria comigo se eu pedisse para dormir aqui. — confessou a criança.
%Mia% olhou para o marido que retribuiu o olhar preocupado para ela. Não que %Mia% acreditasse nas teorias de sua amiga Hill, mas definitivamente não deixaria nenhuma abertura para a intrusa em questão. Mantendo o olhar suave e carinhoso para a criança, a residente segurou em sua mão.
— Molly, sempre que quiser dormir aqui, você pode. — afirmou %Mia%, segura de suas palavras — Esse apartamento também é o seu lar.
— Eu não vou atrapalhar vocês? — perguntou Molly, acanhada.
— Claro que não, querida, somos uma família. — disse %Demeter% se sentando do lado da filha, e sorrindo para ela.
— Acho que tive uma ideia, meio louca e… Muito louca. — %Mia% olhou seriamente para seu marido.
— O que está pensando? — perguntou ele, temeroso pela resposta.
— Não acho que precisamos apenas de um final de semana a dois, precisamos de um final de semana em família. — a firmeza em sua voz, era um sinal para Baker não contestar sua decisão — E quando eu digo família, me refiro a apenas nós três.
— Se realmente quer isso, não vou me opor. — disse Baker, mantendo seu olhar apaixonado para sua esposa.
— Mocinha, você vai dormir hoje aqui e vou te ensinar a como não esmagar seu cachorrinho. Fechado? — %Mia% esticou a mão para ela em sinal de negociação.
— Fechado. — Molly sorriu e apertou a mão dela, com um brilho nos olhos.
— Agora preciso fazer um jantar. — ela piscou de leve para a criança e se levantou.
— Que tal um desenho enquanto esperamos? — sugeriu %Demeter%, tendo o balançar de cabeça positivo, vindo da filha.
A residente voltou para seu objetivo inicial no espaço da cozinha, relevando as mudanças dos detalhes iniciais. Com uma integrante a mais, %Mia% pensou em fazer algo especial para sua enteada, uma receita caseira que sua mãe sempre fazia quando pequena: hambúrguer caseiro com batata-frita. Não demorou muito até que o cheiro gostoso vindos da cozinha despertasse a atenção de pai e filha, que sorrateiramente se aproximaram da bancada e ficaram sentados cada um em uma baqueta, a observando.
— Estou de olho em vocês dois. — disse %Mia%, enquanto terminava o preparo dos hambúrgueres.
— Está com uma cara boa, o que acha, Molly? — perguntou %Demeter% ao pegar uma batata e morder — Tem coragem de pegar uma?
A menina assentiu com um sorriso sapeca, tímida para e olhando a batata com água na boca.
— Pode pegar, Molly, vou fingir que não estou vendo. — assentiu %Mia%, segurando o riso.
A menina pegou uma batata e jogou rapidamente na boca, mastigando e rindo, juntamente com o pai. %Mia% os acompanhou, lembrando-se de seus momentos de criança com seus pais, algo que lhe trouxe um brilho nos olhos e a certeza que sua decisão de levar Molly para a viagem ao Canadá era o certo a se fazer.
— Eu te amo. — disse %Demeter%, para sua esposa, sem deixar que saísse o som de sua voz, mas de forma que ela entendesse.
O que o fez receber um sorriso apaixonado de resposta. %Mia% finalmente terminou o preparo dos pães e os colocou em uma bandeja, na bancada e retirando uma jarra de suco da geladeira, anunciou que o jantar estava pronto.
— Esse é o melhor jantar que já tive na vida. — disse Molly, de forma acanhada.
— Teremos muitos jantares iguais a esse. — afirmou %Mia%, ao puxar outra baqueta e se sentar de frente para eles.
%Demeter% olhou para sua esposa e piscou de leve, em seguida atacando um dos pães preparados por ela. Aquela tinha sido a primeira vez de %Mia% se aventurando na cozinha com as velhas receitas de família, um momento de descoberta ao notar que não era tão difícil assim cozinhar, quanto achava e de diversão para sua, enfim, família.
— O que acharam? — perguntou ela, curiosa, ao morder mais um pedaço de seu hambúrguer.
— Estou impressionado, confesso, ficou muito bom. — disse %Demeter%.
Molly balançou a cabeça positivamente, pois estava com a boca cheia. Tinha tanto apetite quanto o pai.
— Eu disse que tinha talentos na cozinha, você que não acreditou. — retrucou ela, rindo dele.
— Eu não disse isso. — ele desconversou e riu, então olhou a filha — E você mocinha?
— Obrigada pela comida. — disse Molly, voltando o olhar para %Mia%.
— De nada, minha querida. — a residente sorriu com carinho para ela — Que tal terminarmos o desenho e depois irmos para a cama?
Molly assentiu com a cabeça e desceu da banqueta com a ajuda do pai, voltando para o sofá, onde tinha deixado seu cachorrinho deitado. Enquanto os olhos da criança se mantinham fixos no desenho que tanto gostava de assistir, %Mia% aproveitou para juntar a louça suja e lavar, afinal, seu lado organizado tinha alguns TOCs de limpeza.
— Quer ajuda? — perguntou %Demeter%, ao abraçá-la por trás e beijar seu pescoço.
— Baker… — ela segurou o riso, por ter sentido cócegas e sussurrou — Temos criança em casa.
— Eu sei ser silencioso. — sussurrou ele, de volta, apertando um pouco sua cintura — Ainda estou com a imagem daquela lingerie na minha cabeça.
Ela riu baixo e se virou para ele.
— Acho melhor você esquecer… — ela tocou de leve no tórax dele o afastando por centímetros — Faço questão de dormir com a Molly hoje e você no sofá.
— Que mulher vingativa. — ele balançou a cabeça negativamente, com o olhar indignado.
%Mia% riu novamente e espichou a cabeça para olhar sua enteada, avistou a criança com sua atenção total na televisão. Então, voltando-se para seu marido, ela sorriu com malícia e o beijou de leve com doçura. Claro que Baker não se contentaria apenas com aquilo, deixando ainda mais intenso demonstrando seu desejo por sua esposa.
— Baker… — sussurrou ela, recuperando o fôlego.
— Ainda quer dormir com a Molly? — perguntou ele, com um tom sinuoso.
— Filho da mãe. — xingou ela, não querendo dar o braço a torcer, mas demonstrando no olhar o que ele queria.
%Demeter% riu baixo e se afastou ela, seguindo até a filha. Enquanto %Mia% continuou parada onde estava, atordoada pelo fato de seu marido ser tão charmoso quanto sedutor.
— Você é uma deliciosa caixinha de surpresas, Baker. — sussurrou ela, segurando o riso.
De um filme, se passaram dois e finalmente a pequena Molly se rendeu ao sono. Como prometido %Mia% auxiliou seu marido a ajeitar a filha na cama, de uma forma segura para que o seu filhotinho pudesse dormir com ela. A residente ficou na porta, observando a forma carinhosa que ele acariciava os cabelos da filha, lhe dando um beijo na testa em seguida. Surpreendente para ela ver que %Demeter% tinha despertado seu lado paterno com tanta rapidez e facilidade, em poucas semanas.
— Eu deixei a luz do abajur acesa para ela, já que vamos fechar a porta. — disse ele, assim que entraram em seu quarto.
%Mia% assentiu ao se aproximar da escrivaninha e pegar o celular que tinha deixado em cima. Havia algumas mensagens de sua prima Mayah falando sobre o Sollary Hospital de New Orleans, além de uma imagem de um meme de Grey’s Anatomy enviado por seu primo Rafaelli, que a fez rir de imediato.
— Alguma chamada de emergência? — perguntou %Demeter% ao se aproximar dela.
— Não, só algumas mensagens da família, nada demais. — respondeu ela, tendo seu aparelho roubado pelo marido.
— Então, isso não estará mais entre nós. — disse ele, colocando o celular novamente na escrivaninha e a puxando para mais perto — Enfim, sós.
— Você nunca quis tanto desesperadamente dizer isso, não é? — observou ela, segurando o riso.
— Acredite, passei a noite com essa frase na minha cabeça. — ele sorriu com malícia e a beijou no pescoço — Não imagina o quanto me segurei no jantar.
— Bem, não seremos apenas um casal agora. — disse ela, o lembrando a nova realidade.
— Confesso que ter filhos não foi o que imaginei para nosso primeiro ano de casados, ou melhor, primeiro mês. — ele riu um pouco — Mas contanto que esteja comigo, não me importo com os desafios.
— Baker… — ela sorriu com leveza.
— Olhe pelo lado bom, não teremos que trocar fraldas de madrugada. — ele piscou de leve, fazendo-a rir.
— Bobo. — ela bateu de leve em seu ombro — O bobo que eu amo.
%Demeter% em gestos sutis e lentos aproximou seus lábios dos de sua esposa, sentindo a respiração dela. %Mia% sentiu seu corpo mais uma vez estremecer com o toque dele, trazendo arrepios externos com o acelerar do seu coração. Era inegável que a cada noite juntos, ela se apaixonava ainda mais pelo paciente que salvou em meio ao temporal.
E como poderia imaginar que isso aconteceria, mas sim. Ali estava ela, em sua entrega ao homem que conquistou seu coração e a fez esquecer completamente seus desastrosos relacionamentos passados.
— Baker… — sussurrou ela, mais uma vez, sentindo seu corpo arrepiar novamente.
— Eu te amo. — declarou ele, ao olhá-la com desejo e amor.
--
A ensolarada manhã de primavera nunca foi tão refrescante quanto nos campos ao leste de
North Vancouver, o refúgio de amor do casal Baker-Sollary, ou melhor, da família BS. Era visível o entusiasmo de Molly quando desceu do carro e se deparou com a beleza da natureza que compunha a paisagem. A criança correu pela grama sendo seguida por seu cachorrinho, pois a única coisa que sempre conheceu em sua vida foi o concreto da cidade juntamente com a nebulosidade dos bairros do subúrbio onde morou com sua tia e mãe.
%Mia% se deixou levar pelas lembranças de criança naquele lugar e entrou na empolgação da criança, se juntando a ela na corrida aos arredores da casa. %Demeter% riu um pouco e aproveitou a distração delas para levar as malas para dentro, deixando em seus respectivos quartos. Baker voltou para sala e retirou o celular do bolso, mesmo o aparelho no silencioso, conseguiu perceber uma chamada de sua irmã.
— Annia. — disse ele, ao atender.
—
Olá irmãozinho? Como está o campo? — perguntou ela, em seu habitual tom de sarcasmo.
— Melhor do que as loucuras de Manhattan. — brincou ele, rindo baixo — Rosalie está em segurança?
—
Fique tranquilo, ela já está instalada em um lugar apropriado, no qual eu posso ficar de olho. — assegurou ela, com firmeza.
—
Bem, espero que neste tempo em família vocês possam ajustar todos os ponteiros da relação de vocês, porque não pretendo deixar Rosalie retornar a Seattle. — anunciou Annia.
— Nunca foi de minha intenção que ela retornasse. — %Demeter% manteve seu tom sério — Darei a Molly a família que ela merece.
—
Que orgulho do meu irmãozinho! — Annia demonstrou entusiasmo na voz —
Temos outro assunto para tratar. —
O jantar dos herdeiros. — revelou ela —
Recebi meu convite esta manhã, o que significa que receberá o seu em breve. — E para quando eles agendaram? — perguntou %Demeter%.
—
Pouco menos de duas semanas. — relatou ela, deixando soar o tom preocupado.
— Algo lhe preocupa, irmã? — %Demeter% se aproximou da janela próximo a lareira e avistou sua mulher e filha brincando um o filhotinho.
Um sorriso espontâneo surgiu em seu rosto
—
Tudo me preocupa, desde que Andrei declarou guerra a todos nós. — respondeu ela —
A última vez que uma reunião assim foi pedida, foi quando a herdeira Tenebrae nasceu e Lionel tomou o lugar do irmão no comando de sua família. — Então o que podemos esperar? — indagou ele.
—
Eu não sei, foram os Bellorum que pediram por isso, o jeito é aceitarmos o convite e esperar para saber o que vai acontecer. — ela respirou fundo do outro lado da linha —
Mas não pense tanto neste assunto, aproveite seus dias de refúgio com sua família e apenas deixe para se preocupar em seu retorno. — Desde quando você é uma irmã tão bondosa? — brincou ele.
—
O casamento faz milagres, sabia? — ela riu um pouco —
Boas férias. — Te aconselho a fazer o mesmo, irmã. — %Demeter% manteve o olhar para o lado externo da casa, vendo as damas de sua vida seguirem para a porta — Nossa família é o nosso bem mais precioso, cada segundo perto é uma dádiva.
—
Fique tranquilo, eu sei muito bem aproveitar meu tempo com minha família. — assegurou ela.
— Está incluindo vosso primogênito nesta frase? — retrucou ele, tocando no passado de sua irmã.
—
Principalmente ele. — garantiu ela —
Nossa mãe terá que se acostumar com o fato de ter dois netos. %Demeter% riu juntamente com sua irmã e ao despedir-se, encerrou a ligação. Instantes depois %Mia% adentrou com a criança carregando o cachorro em seus braços, ambas com as vestes sujas e aos risos. Era um fato que a residente em pouco tempo já tinha conquistado o coração e a afeição da enteada.
— Uau, acho que precisam de um banho. — comentou %Demeter%, surpreso com o estado delas.
— Isso eu concordo. — disse %Mia%, ao olhar para o lado — O que acha, Molly?
— Podemos comer primeiro? — pediu a criança.
Era de se esperar por aquilo, já que a última refeição da família tinha sido em uma lanchonete na estrada. E eis aí uma das muitas surpresas de Baker para aquela aventura em família, nada de avião e primeira classe, todo o trajeto de Seattle até a cidade de
North Vancouver, foi feito em seu carro recém comprado especialmente para aquela ocasião. Uma tradicional viagem em família, com a intenção de esquecerem todas as formalidades e pressões de sua realidade envolto a Continuum. Afinal, Dominos e Miller não eram o único casal que ambicionavam ter pelo menos um momento de pessoas normais com rotinas normais e sem preocupação.
— Tudo bem, que tal um sanduíche antes do banho? — sugeriu %Mia%, piscando de leve para a enteada e seguindo até a cozinha.
— De sanduíche eu entendo. — disse %Demeter%, seguindo a esposa e tomando a frente — E a senhora Baker apenas ficará observando seu marido atraente preparando o lanche.
— Hum… Marido atraente? — ela riu, tentando ser debochada, mas acabou tendo um beijo roubado dele.
— Pode tentar desdenhar de mim, mas nunca mais conseguirá negar o óbvio. — disse ele, dando um passo para mais perto do armário e retirando o pacote de pães.
Algo que a surpreendeu, pois até mesmo o abastecimento da casa estava nos esquemas do homem.
— E o que seria esse óbvio? — perguntou ela.
— Que você é louca por mim. — ele piscou de leve para ela, fazendo-a rir baixo.
Sem argumentos, era um fato.
Após o lanche, %Mia% a acompanhou Molly e o cachorro até o quarto reservado para ela, lhe mostrando como funcionava o chuveiro no banheiro privativo a deixou se banhando, enquanto ajeitava suas roupas no armário. Depois, seguindo para seu quarto, a residente adentrou o banheiro da suíte principal e retirou sua roupa para um banho quente.
Sua expectativa era ser rápida, porém seu sugestivo marido lhe surpreendeu ao adentrar no box, fazendo-a demorar mais do que o esperado. Claro que as malícias de %Demeter%, juntamente com suas intenções iniciais do refúgio nas montanhas seriam mais fortes e ardentes do que ela havia imaginado. No final, nem mesmo a presença da pequena Molly, seria impedimento para os planos ousados de Baker para aquele final de semana.
--
Na madrugada de sábado, a Sollary despertou de repente sentindo um pouco de sede. Ao se levantar da cama, olhou para o marido que parecia estar num sono profundo. Deixando-o adormecido, ela saiu do quarto e seguiu pelo corredor até chegar na cozinha, a casa de um andar tinha seus cômodos grandes e muito bem divididos. Ao se aproximar da geladeira, abriu-a e em seguida pegou a garrafa de água, despejando no copo, tomou o primeiro gole despreocupadamente.
— Não deveria tomar água gelada. — a voz de %Demeter% soou, fazendo-a se assustar.
— Que susto, não estava dormindo? — perguntou ela, deixando o copo pela metade na bancada.
— Sabe que tenho o sono leve, ouvi a porta se abrindo. — explicou ele, com o olhar sereno — Fui até o quarto de Molly para ver se estava tudo bem.
— Está dormindo como um pequeno anjo. — respondeu — Perdeu o sono?
— Não, apenas me deu sede. — ela sorriu de leve e voltando-se para o copo, terminou de tomar a água.
— Que aleatório, está me agradecendo pelo quê? — perguntou ela.
— Por tudo. — explicou ele — Principalmente por me amar.
— Baker… — ela sorriu de leve — Estou feliz que não tenha desistido de me conquistar.
— Eu jamais desistiria. — ele piscou para ela e se aproximou para pegar seu copo e enchê-lo de água — Como está o hospital?
— Estamos colocando a casa em ordem aos poucos. — contou ela, o observando.
— Mayah está tendo algum problema em New Orleans? — indagou ele, tomando a água em um único gole.
— Tirando que o hospital estava totalmente quebrado. — %Mia% riu de nervoso — Tenho sorte que minha prima é esperta e pensou em um bom plano de recuperação, aos poucos o hospital está voltando a ganhar a confiança da cidade.
— Me impressiona esse seu lado administrativo. — comentou ele, sorrindo de canto.
— Trocaria esse lado por todas as cirurgias do mundo. — confessou ela — Eu definitivamente não nasci para burocracia, minha vida é o bisturi.
— Eu te compreendo. — disse ele, pousando sua mão em sua cintura — Sei muito bem como se sente.
Ela deu um selinho de leve nele, permanecendo pensativa depois.
— Mas pelo menos você teve a opção de não se envolver, já eu não tenho escolha. — a realidade dura de ser a única herdeira Sollary.
— É tenho sorte de ter uma irmã como Annia. — concordou ele e anunciou — E por falar nela, minha irmã me ligou.
— O que Annia queria? — %Mia% se afastou dele e encostou na bancada da pia.
— Aparentemente os Bellorum estão convidando os herdeiros para um jantar. — contou ele, colocando as mãos nos bolsos da calça do pijama — Não sei os detalhes, mas certamente nosso convite já deve ter chegado em Seattle.
— Eu acho até que demorou, diante de tanta coisa acontecendo… Na minha família, na sua, com os Dominos, o sequestro da %Jenie%. — comentou %Mia%, relembrando os fatos — Tudo isso por poder e vingança.
— Será que vão anunciar oficialmente que a %Jenie% é a herdeira? — %Demeter% se sentiu inquieto quanto a exposição da amiga, temia por coisa pior.
— Eu não sei, mas se for, pelo menos o mistério vai acabar e talvez tudo se ajeite, com ela à frente dos Tenebrae, Lionel terá que renunciar ao comando da Continuum e %Sebastian% vai poder assumir como é de direito. — continuou a residente, voltando o olhar para a porta do porão que estava entreaberta.
— Sendo ou não assim, o jeito é esperar para ver o que acontecerá. — ele percebeu a atenção se sua esposa foi para outro lugar — O que foi?
— Nada… — %Mia% se afastou da bancada e caminhou até a porta — Você foi ao porão?
— Sim, precisei de algumas ferramentas para consertar a maçaneta do quarto de Molly. — explicou ele, com o olhar intrigado — Por quê?
— Eu acho que… — ela manteve suas indagações para si e parando diante da porta, a abriu.
Deixando o marido confuso, %Mia% desceu as escadas até o porão e acendendo as luzes, avistou algumas caixas brancas ao fundo. A passos lentos ela se aproximou, reconhecendo a logo do hospital em cada uma daquelas caixas.
— %Mia%? — %Demeter% a seguiu, observando sua aproximação — Está tudo bem?
— São arquivos do hospital. — disse ela, ao abrir uma das caixas e pegar um dos papeis dentro.
— Por que seu primo guardaria arquivos do hospital aqui? — perguntou %Demeter%.
— Você se lembra que Rafaelli disse que alguns documentos do tio Gustav estavam guardados com o Victor? Podem ser esses. — concluiu ela, ao voltar o olhar para ele — E se o prontuário da herdeira está aqui?
— Podemos saber quem é. — completou ele, se interessando pela descoberta.
%Mia% assentiu com o olhar, também curiosa para desvendar o enigma.
Usando o meu coração para sentir, eu sei que você estará ao meu lado
Eu prometo a você, eu quero o nosso “para sempre”
Eu não deixarei ninguém machucar seu coração
Este é o meu único compromisso.
- Promise / EXO