41 • Equilíbrio
Le Petit, Seattle
Não há como negar, o coração de %Demeter% estava aflito e ansioso. Seu pulsar ficou mais forte assim que ele ouviu os passos de %Mia% ao subir a escada, com uma ajudinha de seu salto alto. A residente finalmente havia voltado a sua razão, após ficar cinco minutos encarando os degraus, encerrando seu tempo de indecisão. Assim que a porta que estava entreaberta se abriu, o olhar de Baker elevou do chão até encontrar o rosto de sua esposa. Ela respirou fundo e terminou de entrar no escritório, fechando a porta em seguida.
— %Mia% … — assim que %Demeter% iniciou sua fala.
Sollary se impulsionou mais que depressa e lhe interrompeu com um beijo caloroso e intenso. %Demeter% ficou estático de início até que aos poucos sua mente foi despertando e em segundos retribuiu o carinho que vinha de sua esposa. Ele estava surpreso com a reação de %Mia%, entretanto feliz por ela ter agido o contrário que ele imaginou temeroso.
— Devo levar seu gesto como um sinal de paz? — sussurrou ele, segurando o riso.
Ela também tentou controlar seus sentidos com a malícia que sentia emanar dele.
— Quem disse que estávamos brigados? — retrucou ela, com um tom de brincadeira — Imagino que esteja tão perdido quanto eu fiquei, me desculpe por minha reação.
— Uau, %Mia% Sollary pedindo desculpas? — ele elevou sua mão direita até a testa dela — Está com febre?
— Seu chato, deixa de ser bobo. — ela retirou a mão dele, rindo de leve — Não estou doente… Só recebi conselhos sábios de um amigo, que me abriram os olhos.
— Um amigo Dominos? — supôs.
Ela assentiu com um sorriso.
— Você teve mais alguma conversa com a tal tia? — indagou %Mia%, curiosa para saber o restante da história.
— Tal tia?! — ele olhou-a desconfiado e com um sorriso de canto bobo — Está com ciúmes, minha esposa?
— Claro que não, meu marido. — respondeu ela, devolvendo com um olhar debochado, então envolveu seus braços — Só quero me inteirar da história.
— Hum… — ele manteve o sorriso de canto, com um olhar mais malicioso — Acho que essa história pode ficar para depois, afinal… Este lugar tem me dado outras ideias…
%Mia% soltou uma gargalhada boba, já entendendo as intenções indiscretas de Baker.
— Baker, não estamos na sua oficina. — comentou ela, sendo aninhada pelos braços dele.
— E o que nos impede? — sussurrou ele, com um olhar ousado.
E sentindo o primeiro beijo instigante de seu marido em seu pescoço, apenas se rendeu, não se importando com o ambiente em que ambos se encontravam. Afinal, %Simon% era um amigo e entenderia as aventuras românticas do recém-casados ali presente. No final, não se completaria nem vinte e quatro horas do pequeno afastamento do couple Baker-Sollary, e no que dependesse dele, jamais havia uma sequer briga entre ambos.
%Demeter% não havia tido nenhum exemplo de relacionamento estável ou algo do tipo vindo de sua mãe. Em toda a vida ele apenas vivenciou Allison Baker ser uma mulher manipuladora, fria e calculista, mas ele sabia que o único homem que sua mãe tanto desejou na vida, foi aquele do qual nunca conseguiu uma gota de amor. Se o feitiço havia caído contra o feiticeiro, ele não sabia, mas que foi uma surpresa e tanto saber que Dimitri era o pai biológico de Annia. Algo que apenas confirmou que sua mãe, que tanto controlou as outras pessoas, foi controlada por quem menos esperava.
— Não acredito que profanamos o escritório do %Simon%. — %Mia% deixou seu comentário soar com um tom de brincadeira, enquanto ajeitava sua roupa no corpo.
Ele deu uma risada rápida e se encostou na mesa, de braços cruzados observando-a atentamente.
— O que está me olhando? — perguntou ela, ao perceber e olhá-lo de volta.
— Esse vestido é novo. — comentou ele, em tom de afirmação.
— Desde quando conhece meus vestidos? — ela ficou intrigada.
— Está impressionada? — ele riu novamente, e se moveu para se aproximar dela — Já disse que conheço tudo a seu respeito.
— Hum… — ela esticou a mão direita o parando no meio do caminho, dando um espaço considerável entre os dois — E não está com ciúmes? Sabendo que sua esposa está usando um vestido desconhecido?
— Claro que estou. — brincou ele, arrancando um sorriso bobo dela — Mas tenho que admitir, a pessoa que comprou tem muito bom gosto, te deixou ainda mais sexy.
— Seu bobo! — ela riu alto e bateu de leve no ombro dele — Devemos sair à francesa?
— O que você prefere? — perguntou ele.
— Hum… Prefiro passar a noite com você! — respondeu ela, dando mais um passo para frente dele e ajeitando sua camisa.
Ele piscou de leve e segurou sua mão, então se moveram para sair do escritório. Ao abrirem a porta, deram de cara com Nancy, a gerente do restaurante. O olhar da garota tinha traços de constrangimento e surpresa, ela sabia que o casal estava no escritório, só havia ouvido coisas que não deveria, deixando-a envergonhada.
— Senhor e senhora Baker… — a mulher respirou fundo, mostrando-se serena — O senhor Dominos me pediu para acompanhá-los pela saída dos fundos, assim teriam mais privacidade.
— Uau, ele pensa em tudo. — comentou %Demeter% impressionado.
— Está aí nossa saída à francesa. — concordou %Mia%, assentindo.
Nancy os acompanhou pela lateral até que acessaram a passagem dos funcionários. Da porta de saída até a moto de %Demeter% foi um espaço curto, seguro e principalmente discreto. Ao som do motor ligado, a residente se agarrou na jaqueta do marido e assentiu para que o mesmo os levasse para casa. Não demorou muito até que chegaram ao apartamento de %Mia%, no qual definitivamente seria a morada dele.
— Preciso de um banho. — sussurrou ela, ao seguir em direção ao quarto.
— Que sugestivo, depois eu é que sou o tarado. — brincou ele, enquanto retirava sua jaqueta.
— Eu só disse que preciso de um banho, você quem tem a mente maliciosa demais. — retrucou ela, ao parar no corredor e encará-lo.
— Quando se trata de você, todos os meus pensamentos são maliciosos. — ele sorriu de canto e a segurou pela cintura.
— Eu criei um monstro. — comentou ela, tentando empurrá-lo, mas se desequilibrando ao pisar em falso — Ai.
— O que foi? — perguntou ele, voltando o olhar para o tornozelo da esposa — Machucou?
— Não, eu só pisei em falso. — respondeu ela.
— Tem certeza? — reforçou.
— Tenho sim, está tudo bem. — ela sorriu de leve e piscou — Eu vou tomar um banho e você vai pedir pizza.
— Pizza? — ele riu — Sério?
— Claro que sim, eu não brinco quando o assunto é comida. — ela cruzou os braços ficando séria — E minha favorita é…
— Quatro queijos, eu sei. — disse ele — Só é estranho sairmos da inauguração de um restaurante e chegar em casa pedindo pizza.
— Senti um desejo forte de comer pizza. — ela manteve a suavidade no olhar, enquanto ele ficou intrigado — E não Baker, eu não estou grávida ou algo assim.
— Eu não disse nada. — ele em sua defesa.
— Mas seu olhar te condenou. — explicou ela — Agora vai.
%Mia% deu uma risada rápida da cara dele, enquanto seguia para o banheiro. Assim como pedido, %Demeter% ligou para o serviço de entregas e pediu duas pizzas grandes, uma de quatro queijos e outra de marguerita. Foram longos minutos da residente dentro da banheira relaxando, até que sentiu o cheiro da pizza rescindido no lugar.
— Que cheiro gostoso. — comentou ela, vestida com o roupão de banho, seguindo para a sala.
— A melhor pizza de Seattle, segundo os meus funcionários. — disse ele, ao ajeitar as duas caixas em cima da mesa de centro, juntamente com a caixa de suco natural — Comprei no Post Alley para experimentar.
— Hum… Espero que seja boa mesmo, porque sempre comprei no Zeeks, apesar de ser mais cara, é uma delícia. — ela deu mais alguns passos e pegou a nota fiscal — Eu só estou vendo duas, por que ele cobrou três? — perguntou %Mia%, confusa.
— Eu comprei mais uma e deixei com a Rosalie. — explicou ele — Achei que elas pudessem estar com fome, como sabe, meu apartamento não tem muita coisa interessante.
— Ah… — %Mia% se sentiu incomodada internamente, claro que não seria fácil se acostumar com a inesperada realidade, então teria que ser mais paciente do que imaginou.
— Está tudo bem para você? — perguntou ele, ao olhá-la com seriedade.
— Claro, você não pode deixar sua filha com fome e seja lá quem estiver com ela. — %Mia% tentou disfarçar.
— Eu não sei se Rosalie vai ficar, para ser honesto, eu não pensei em muita coisa depois que o caos foi jogado em nosso meio, só estava preocupado com você e nós. — confessou ele — Mas nada como uma noite de descanso pra colocar as ideias em ordem.
— Do que está falando? — ela cruzou os braços.
— Estou falando que amanhã resolveremos como tudo vai ficar. — ele se aproximou dela e descruzou os seus braços — Enquanto isso, vamos aproveitar nossa pizza hoje e que tal um filminho sugestivo?
— O massacre da serra elétrica? — brincou ela, com um tom debochado.
— Depois eu que sou perigoso. — ele fez um olhar de chocado — Estava pensando em algo mais, romântico.
— Romance para mim é uma maratona de Chicago Med. — disse ela, ao se desviar dele e sentar no sofá já pegando o controle.
— Pelo menos você não disse a série que os médicos morrem e os pacientes vivem. — ele segurou o riso esperando o olhar atravessado dela.
— Olhe como você fala de Grey's Anatomy.
— Eu tô mentindo? — %Demeter% a olhou tranquilamente.
— Não, mas também não precisa falar tão abertamente assim, eu ainda não superei a morte do Derek. — reclamou ela, fazendo bico.
— Então é por isso que você não tem assistido mais? — ele riu de leve.
— Não ria de mim, eu não estava preparada para aquela cena. — explicou ela, em sua defesa.
— Tudo bem, vamos de Chicago Med então. — ele segurou o riso e sentou ao lado dela — Mas se você dormir, da próxima vez eu coloco Chicago Fire.
Ela o olhou de forma séria.
— Cada um com a sua preferência, gosto mais dos bombeiros, tem menos sangue. — brincou ele.
— Ha… Ha… Ha… Falou a pessoa que ama se machucar. — ela voltou o olhar para o joelho dele — Como estão esses pinos?
— Normal, não tem doído tanto quanto antes. — respondeu.
— E os analgésicos? — insistiu.
— A Torres mudou minha receita, está tudo bem. — ele pegou o primeiro pedaço e sorriu para ela — Vamos comer?
%Mia% assentiu retribuindo o sorriso e pegando seu pedaço escorrendo queijo. A noite do casal foi mesmo romântica à moda da residente, se servindo de sua pizza favorita e sendo acariciada pelo mecânico que acelerava seu coração. Claro que antes que pudessem chegar no quarto episódio da terceira temporada, Sollary já havia se rendido ao sono e adormecido nos braços dele. %Demeter% ao perceber, apenas pausou o episódio e ficou longos minutos acariciando os cabelos de sua esposa, olhando-a com carinho.
— %Mia%? — sussurrou ele, ao notar que ela ainda vestia o roupão de banho — Amor?
A residente sorriu de leve ao ouví-lo, mantendo seus olhos fechados.
— Eu não estou dormindo. — sussurrou ela, de volta — Por que desligou a TV?
— Eu não desliguei a TV. — ele riu baixo — Acho melhor você vestir seu pijama e irmos dormir.
— Não estou com sono, não quero dormir. — disse em sua teimosia.
— %Mia%, você estava dormindo. — insistiu ele.
— Não estava não. — ela abriu um pouco os olhos — Estava descansando minha vista.
— Sei. — ele a olhou sério.
— Tá bom. — ela assentiu e meio cambaleando, se levantou do sofá.
Em um piscar de olhos, %Demeter% a pegou no colo de surpresa, levando-a para o quarto.
— Baker, eu tenho pernas, sabia? — comentou ela, assim que o mesmo a deixou de pé no centro do quarto.
— Só estava garantindo que você não tropeçasse pelo caminho. — ele piscou de leve e se virou para sair.
— Aonde vai? Me chama para dormir e me abandona no quarto? — ela estranhou.
— Calma, senhora Sollary Baker, eu já volto. — disse ele, saindo pela porta — Preciso recolher as coisas da sala.
Ela assentiu ainda sonolenta e se virou para o closet. Enquanto a residente colocava seu pijama, %Demeter% ao chegar na sala foi recolhendo os copos e guardando o restante dos alimentos na geladeira. Desligou a televisão e ajeitou as almofadas no sofá, então apagou as luzes e retornou para o quarto. Ao chegar, encontrou sua esposa já deitada na cama e completamente adormecida.
— Não está com sono, não. — sussurrou ele, rindo baixo — Você vive com sono.
Ele se espreguiçou um pouco, retirou o celular do bolso da calça e trocou de roupa. Antes de deitar ao lado de %Mia%, Baker pegou novamente o celular e olhou as mensagens que recebeu. Algumas eram de James relatando alguns assuntos da oficina que somente ele poderia resolver, e uma em especial era de sua irmã Annia, comunicando que estava preparando um jantar em comemoração ao casamento deles, juntamente com Joseline Sollary.
Um suspiro cansado surgiu, assim que ele imaginou a possível reação da mulher ao seu lado, quando soubesse da notícia.
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Na manhã seguinte, %Mia% acordou ouvindo algumas vozes alteradas vindo da sala. Reconhecendo uma delas como a da sua cunhada. O que estaria Annia fazendo ali? Ela se trocou rapidamente e seguiu para sala, quando chegou se deparou com um clima pesado e de confronto de olhares sérios entre os irmãos.
— O que está acontecendo aqui? — só então o olhar de %Mia% se voltou para o canto da sala, onde estavam Rosalie e Molly se escondendo atrás da tia.
— Oi cunhadinha, tudo bem? — Annia abriu um sorriso sarcástico, como se nada estivesse acontecendo — Vim visitar os recém-casados.
— %Demeter%? — ela olhou para o marido.
— Annia veio por outro propósito. — explicou ele, claramente — Ela sabia sobre a Molly.
— Annia? — %Mia% voltou seu olhar chocado para a cunhada.
A chefe Baker por outro lado se manteve serena como sempre. Estava mais preocupada com outros assuntos que desenvolveram a situação até aquele estado.
— %Demeter% faz uma tempestade em um copo de água. — ela voltou o olhar para Rosalie — Eu estava cuidando muito bem de vocês duas, me chateia ter perturbado a lua de mel do meu irmão.
Annia foi sutil em suas palavras, mas o que realmente queria dizer é:
Você estava em segurança e me desobedeceu, não era para meu irmão saber desta forma, então se prepare para arcar com as consequências. — Me desculpe, senhora Baker, mas sabe muito bem meu motivo de vir. — retrucou Rosalie, segura de que nada lhe aconteceria, enquanto estivesse sob a proteção do pai de sua sobrinha.
— Afinal de contas, o que a trouxe aqui? — %Mia% perguntou diretamente ao marido.
— Há três meses a mãe de Molly foi assassinada, e quase chegaram na minha filha. — respondeu %Demeter%, retirando o cartão do bolso — Isso te lembra alguém?
%Mia% pegou o cartão e fixou seu olhar no brasão e nas letras iniciais desenhadas.
— Andrei Tenebrae. — afirmou ela, chegando a conclusão.
— Por isso elas estão aqui. — concluiu ele.
— Como não mataram meu irmão, atacaram sua descendência. — completou Annia com simplicidade — Eu jurei a nossa mãe que não te contaria sobre isso, por isso não contei, não se quebra um juramento de família.
— Mas poderia ter facilitado para que eu descobrisse. — retrucou ele, ainda indignado com a tranquilidade da irmã — Annia, era um direito meu saber.
— E mudaria em quê? Nossa mãe jamais aceitaria um bastardo na família. — disse a Baker, conhecendo quem a criou.
— E você é o quê? — ele não mediu as palavras, mas controlou a raiva.
— Sou adotada legalmente, é diferente. — ela respirou fundo — Vou relevar seu ataque considerando que está chateado e raivoso.
— Ok, o que importa é que a Molly agora está à salvo e %Demeter% descobriu que ela existe. — %Mia% entrou no meio de ambos — O fato a ser avaliado é como ficará essa situação.
A residente olhos para Rosalie.
— Elas ficarão morando no seu apartamento? — continuou Sollary.
— Sim. — disse %Demeter%, ao mesmo tempo que Annia disse — Não.
Ele se voltou novamente para a irmã.
— Seria perigoso demais se as duas ficassem juntas. — argumentou Annia, antes que ele pudesse contestar — Eu já pensei em tudo no caminho para cá, Molly ficará com vocês dois, e Rosalie virá comigo para Manhattan.
— Eu não quero ir com você, prefiro ficar à minha sorte. — Rosalie se opôs de imediato.
— Você não tem o direito de querer nada, então não ouse se negar. — reforçou a Baker com o olhar intimidador.
— Está me ameaçando? — retrucou Rosalie.
— Ah não, querida, ainda não é uma ameaça. — respondeu Annia, com ar irônico.
— Já chega, as duas. — %Demeter% elevou um pouco a voz e respirou fundo.
Ele já não sabia como agir ou reagir a tudo. E %Mia% conseguia sentir nitidamente que precisava apoiá-lo de alguma forma.
— Tudo que essa criança conhece na vida está relacionado à tia. — a residente se pronunciou — Por mais que eu odeie a ideia, acho que por agora, até que a Molly se acostume conosco, seria mais prudente a tia dela ficar por perto.
Mesmo relutante, Annia concordou com a sugestão de %Mia%, que pareceu sensata. Mais alguns pontos daquele acordo foram alinhados entre %Demeter% e a sua irmã, que fez questão de deixar claro que manteria um sliter por perto para observar Rosalie.
Eu apenas desejo esses pequenos confortos
Você não sabe do meu coração,
Que sempre quer fazer mais por você.
- No Other / Super Junior