50 • Heirs
Lavik, Norte da Noruega
O que acontece quando nove famílias, onze herdeiros, dois convidados e inúmeros sliters se reúnem para o jantar mais esperado da década? Exatamente no lugar onde tudo começou, a casa nas montanhas de Godric Tenebrae.
Em meio aos últimos ajustes, estava Donna Fletcher se forçando a manter o foco em cada detalhe daquela noite. Contudo, lá no fundo, sua preocupação estava na falta de notícias de %Nalla%, no silêncio agonizante de %Sebastian% para com ela, e na possibilidade de outro ataque surpresa de Andrei. Uma pausa na biblioteca da casa, ela se manteve em silêncio observando o sol da meia-noite compondo a beleza da paisagem, o verão estava tão presente quanto as turbulências dos últimos anos. A matriarca sliter não se conteve em recordar o dia em que ouviu pela primeira vez o choro da filha de Godric, e de como foi a sensação de carregá-la no colo para longe de sua falecida mãe, imaginando como seria seu futuro fugindo da ganância do tio Lionel.
— Senhora, está tudo bem?! — a voz de Carl lhe fez retornar à realidade.
— Sim. — assentiu ela, movendo o olhar para ele — E as famílias?
— Todos estão presentes, senhora, exceto %Sebastian% Dominos e %Nalla% Miller, como previsto. — disse ele, relatando a situação. — Entretanto, temos um contratempo.
— A presença de uma criança. — anunciou ele, engolindo seco — O legítimo %Demeter% Baker chegou acompanhado de sua filha.
Donna soltou um suspiro cansado. Odiava quando seus planejamentos não saíam conforme o calculado, entretanto entendia a necessidade de Baker não deixar a filha distante a nenhum momento nesta altura do jogo.
— Selecione uma sliter para cuidar da criança, teremos conversas de adulto a partir de agora. — ela deu impulso para se retirar do lugar.
— Como desejar. — assentiu ele, acompanhando-a até a sala.
Assim que a sliter se colocou diante dos integrantes do jantar dos herdeiros, seu olhar passou pelos rostos de cada um até chegar ao de %Joseph% Bellorum. Ela respirou fundo e assentindo com o olhar, o herdeiro da família de militares deu início ao seu pronunciamento.
— Boa noite a todos. — disse %Joseph%, colocando-se em frente a lareira — De imediato, já agradeço a presença de cada herdeiro aqui presente.
Seu irmão Vincent pôs-se ao seu lado e Donna do outro, a herdeira Castelatto manteve-se sentada na poltrona próxima, seu olhar empoderado permanecia curioso pelo decorrer daquela noite. Quanto ao Yamazaki, manteve-se de pé ao lado da janela, sendo acompanhado pelo norueguês Ahlberg. Já Catrina Laurento, preferiu ficar mais distante da roda dos herdeiros importantes, afinal só estava ali para representar o pai doente. %Demeter% e %Mia% sentaram-se no sofá de frente para a herdeira italiana, enquanto Annia assentou-se na poltrona ao lado de sua nova aliada, mesmo contra todos os argumentos de Dimitri, a lady de Manhattan optou por fazer aquela viagem na companhia do irmão e cunhada. Carlise Tenebrae de pé ao seu lado, apenas resumia seus pensamentos em o quanto seu pai era o culpado por todo o caos que as famílias estavam tendo. Os convidados Niklaus Savoia e Hale Magnus, também preferiram se manter mais afastados apenas observando o curso do rio.
Assim se iniciava mais uma aliança, agora entre as sociedades que por anos se consideravam inimigas.
— Todos aqui temos um desafeto em comum. — disse o Bellorum, suavizando a situação.
— Desafeto? Está sendo generoso Bellorum. — disse Annia com um tom sarcástico e irritado — Todos aqui têm motivos de sobra para odiar o Andrei.
— O traidor matou o meu avô a sangue frio, então... — Donatella se posicionou concordando com ela — Aniquilar o Andrei se tornou algo pessoal para a família Castelatto.
— Entre na fila então, pois também é pessoal para a família Baker. — %Demeter% concordou ao lançar um olhar atravessado para Carlise.
— Não me olhe assim, Baker. — disse o Tenebrae, em sua defesa — Andrei não tem o nosso sangue, e todos aqui sabem que a mãe dele era de uma família associada aos Draconis.
— Não estamos aqui para discutir quem tem mais culpa na história. — %Joseph% tomou a palavra novamente, num tom mais forte e autoritário — Andrei traiu a todos, e temos que colocar um fim nisso.
— E para que não se iniciasse uma guerra fria entre nós após derrubarmos Hitler, esta noite marcará a extinção da Draconis e todas as suas atividades ilegais, e o nascimento da Millenium, a irmã gêmea da Continuum. — completou Vincent, com o olhar orgulhoso de ter sido um dos idealizadores do projeto, em conjunto com seu irmão e Donatella.
%Joseph% soltou um discreto suspiro cansado, pois já estava sentindo o peso do legado dos Bellorum que carregaria oficialmente. Pois a família de militares era responsável pela ordem e justiça de sua sociedade, e agora se estenderia a aliada também.
— Assim como a família Bellorum tem mantido o cumprimento das leis que fortalecem a Continuum, faremos o mesmo em favor da Millenium. — assegurou %Joseph%, certo de seus deveres — E gostaria da confirmação oficial de todos os herdeiros aqui presente.
Donna deu um passo à frente, e abriu uma pasta de cor rosé que segurava desde o início, com os documentos de oficialização.
— Ao final deste jantar, todos deverão deixar suas assinaturas neste documento para enfim selarem a aliança. — disse a sliter chefe, fechando novamente a pasta — E eu, como a responsável pelas famílias neutras, manterei em minha posse estes documentos.
— E quanto ao Andrei? — indagou Annia, um tanto impaciente e revoltada com as situações vividas — Acho que já perceberam, a ausência de um dos herdeiros da Continuum.
— %Simon% está a caminho e chegará a tempo do jantar ser servido. — assegurou Donna.
— Não me refiro a ele. — esclareceu Annia — Andrei Tenebrae sequestrou a %Nalla%, e o Dominos não está aqui.
— %Sebastian% está cuidando disso pessoalmente. — interviu %Mia%, inteirada do assunto — Sei que está assim por %Nalla% ser sua amiga, mas ela sabe se proteger, melhor do que qualquer um aqui presente.
— O que aconteceu com a %Nalla%? — a voz de Adeline, soou da entrada para o corredor que dava na cozinha.
Ela não tinha muita afinidade com a irmã adotiva, porém admirava a força e determinação da sliter. Seu olhar confuso e preocupado voltou-se para a Fletcher, procurando explicações, a última notícia que tinha da filha perfeita, foi sobre o resgate da bailarina.
— Ao que tudo indica, %Nalla% foi sequestrada por Andrei, assim como fizeram com a minha neta. — contou Donna, abertamente a todos.
— Parece que ele está devendo mais do que pode pagar. — o tom sarcástico de Ahlberg soou na sala, deixando de lado sua surpresa por ver Miller ali — Ele terá que ter mais de sete vidas para pagar por seus pecados.
— Por que não voltamos ao foco? — a voz de Annia soou mais impaciente — Há meses ele parece como um fantasma, primeiro o ataque aos Dominos, depois o atentado ao %Demeter%, então a %Jenie% também sofreu mesmo não sabendo de nada, e agora levou a %Nalla%. O que os Bellorum vão fazer?
— Nós sabemos que se encontrarmos a %Nalla%, temos a possibilidade de encontrar o Andrei. — confirmou Vincent a lógica de Annia, tendo empatia com sua preocupação — Mas, estamos de mãos e pés atados até o Dominos nos dar um sinal.
— %Sebastian% é o único capaz de encontrar a sliter dele. — %Mia% concordou, conhecendo-o muito bem.
— E enquanto isso, ficaremos de braços cruzados? Esperando o Dominos ter a sorte de encontrá-la? — Yamazaki demonstrou a mesma impaciência que o amigo ao seu lado — Estamos perdendo nosso tempo aqui apenas para dizer que não conseguiremos fazer nada em relação ao traidor? Tempo é dinheiro, meus caros.
— Não se preocupe Yamazaki, não está perdendo o seu tempo. — assegurou %Joseph%, mantendo o firmeza de um militar — Está investindo na prosperidade dos seus negócios, afinal, as empresas da sua família estão atoladas de até o pescoço de sonegação fiscal e lavagem de dinheiro, acha que minha família pode resolver isso em dois minutos.
O japonês engoliu seco, com raiva nos olhos, aquele era o ponto fraco de cada uma das famílias ex-Draconis. Um passado que desejavam enterrar na cova mais profunda. %Joseph% deu início ao planejamento da limpeza dos negócios das famílias aliadas, explicando que seria demorado, porém a cada etapa, uma nova possibilidade benéfica se abriria para todos. A majestosa construtora Yamazaki seria a primeira, seguido para a empresa de créditos italiana dos Castelatto, depois o escritório de advocacia Ahlberg seria beneficiado, terminando assim com a falida indústria têxtil dos Laurento.
— Ah, finalmente %Simon%. — disse Donna, ao recebê-lo na porta — Achei que não conseguiria chegar a tempo.
— Eu disse que estaria aqui antes do jantar. — ele a cumprimentou, dando um sorriso, porém seu olhar ficou estático quando viu %Jenie% passos atrás — O que a sua neta faz aqui?
— Está surpreso? — perguntou a sliter.
— Um pouco. — ele tentou disfarçar, era a primeira vez que via a bailarina após o rompimento, e seu coração insistia em pulsar mais forte.
— %Jenie% está aqui para ser apresentada a todos como minha herdeira. — revelou Donna, observando a reação do rapaz — Ela está sendo treinada.
— Estou feliz que ela esteja bem. — %Simon% controlou seu olhar enciumado, ao notar que a bailarina estava na companhia de um homem desconhecido, e parecia rir de alguma coisa que ele dizia.
— Venha, vou lhe apresentar aos herdeiros que não conhece. — disse Donna, puxando-o para sala.
Alguns assuntos foram embalados por um tempo entre os herdeiros. %Mia% aproveitou a oportunidade para conhecer melhor Niklaus Savóia, o residente que trabalhava em seu hospital de New Orleans. O interesse de um Sollary Hospital na região de Toscana era um dos motivos da família Magnus ter sido convidada para o jantar. %Demeter% se ausentou por um momento para se certificar se sua filha estava confortável no espaço que Donna improvisou para ela em um dos quartos.
— Papai! — Molly abriu um largo sorriso ao vê-lo — Veio ver tv comigo?
— Não minha pequena, estou aqui apenas para saber se está tudo bem. — disse ele, ao se aproximar da cama e sentar ao lado dela — Está confortável?
— Estou, a tia %Jenie% trouxe pipoca doce pra mim. — contou a criança, apontando para o balde ao lado — Estava muito gostosa.
— Tia %Jenie%?! — ele riu — Sabia que ela é muito amiga do papai?
— Sim, ela me contou, e eu disse a ela que o senhor é o melhor pai do mundo. — Molly sorriu com graça e recebeu um abraço apertado dele — Onde está a tia %Mia%?
— Resolvendo alguns assuntos. — respondeu ele, dando um sorriso carinhoso para ela — Que tal dividir o restante dessa pipoca comigo?
— Papai, mas você não vai jantar com os outros adultos? — os olhos dela ficou confusa.
— Sempre há espaço para pipoca doce dentro de mim. — brincou ele, fazendo algumas cócegas nela, que soltava gargalhadas ao tentar se defender.
Ainda faltavam alguns minutos para o jantar ser servido, voltando à sala, Ichiro aproveitou o momento para se aproximar de Catrina. A jovem que contemplava um quadro pendurado em uma das paredes, apenas se permitiu ouvir toda a conversa inicial em silêncio. Afinal, sua família não tinha tanta voz assim na sociedade, pela falta de capital monetário.
— Devo confessar minha surpresa por vê-la aqui? — disse ele, num seu habitual tom baixo e rouco — Há dois dias, quando sua irmã me pediu afastamento para visitar o vosso pai, achei que ela seria a representante por ser a mais velha.
— Seria realmente ela, mas houve complicações com a saúde de nosso pai e ela resolveu ficar cuidando do que sobrou dos negócios da família. — ela manteve o olhar fixo ao quadro, não tinha muita paciência para o chefe da irmã, pois graças a Yakuza, a falência chegou a casa Laurento — Estou aqui apenas para assegurar que minha família não seja esquecida e dizimada como os…
Ela parou por um momento.
— Não temos culpa da família em que nascemos. — disse ele, mantendo o olhar nela — E se estão nessa situação, é porque provocaram.
— Mas somos responsáveis pelas nossas escolhas, independente de nossas famílias. — ela voltou seu olhar para ele — Seu avô escolheu acabar com o nosso futuro, mesmo podendo demonstrar piedade.
Ela deu impulso para se retirar.
— Você disse bem, foi o meu avô quem provocou isso, não eu. — ele segurou em seu braço — E sua irmã sabe disso.
— A única coisa que minha irmã sabe, é que o chefe dela é um covarde. — ela o lembrou do passado, enquanto se soltava dele — Ainda não sei como ela se submete a esse sacrifício, depois de toda dor que causou a minha irmã, nesse cenário, você o chefe e ela a funcionária, eu não conseguiria.
Catrina se afastou dele e seguiu em direção a Castelatto que conversava com Hale. Enquanto isso na cozinha os pratos seguiam o curso da montagem para finalmente o jantar ser servido. Apesar de sua presença ser meramente profissional e discreta, a chef Miller havia despertado a curiosidade no maior advogado da capital norueguesa, pois o último encontro que haviam tido, foi no tribunal de Donatella em que a italiana foi sentenciada à prisão pela Interpol.
— Para uma pessoa neutra, você é bem envolvida com a Continuum. — comentou ele, ao se aproximar de Adeline, enquanto segurava sua taça de vinho branco.
— Por mais que eu não queira, sou uma Miller e vim de uma família de sliters. — respondeu ela, mantendo o olhar no prato que decorava — Você estar aqui é que me surpreende, não precisa dos Bellorum para expandir seus negócios e menos ainda legalizá-los, pelo que sei, nenhum deles tem ligação com o crime.
— Uma ajudinha nunca é demais e Yamazaki não confia nos militares, estou aqui para assegurar que tudo realmente esteja dentro da lei e benéfico aos meus amigos. — disse ele, dando uma risada discreta — Como tem estado?
— Bem... Aparentemente. — respondeu ela, ao voltar seu olhar para ele — Acho que consegui um tratado de paz.
— Você sabe que posso te ajudar com este problema, esta adoção foi legal e justa, não precisa se curvar às exigências de uma criança, menos ainda as dele. — Damon manteve seu conselho inicial, pois sentia irritação e ciúmes pela aproximação de uma certa pessoa a ela.
— Eu agradeço sua amizade e sua preocupação, mas está tudo ajustado agora. — assegurou ela, com um sorriso singelo — O que importa para mim é o bem estar do Arthur, nada mais do que isso.
— Você é uma boa pessoa, só não quero que saia prejudicada no final. — revelou ele.
— Não serei. — assegurou ela, sorrindo sutilmente.
Em instantes, Donna adentrou a cozinha, se surpreendendo com a presença de Ahlberg. A sliter manteve alheia a situação, apenas pedindo a chef para que servisse o jantar naquele momento. Antes de se reunir à mesa, %Simon% aproveitou uma pequena brecha e não se conteve ao segurar a mão de %Jenie%, em um momento de distração e puxá-la para longe de todos, ficando a sós com ela na biblioteca.
— O que está fazendo? — perguntou %Jenie%, ao olhá-lo com espanto.
— Queria um momento com você. — disse ele, mantendo seu olhar sereno para ela — Já faz um tempo que nos vimos.
— Faz. — assentiu ela, tentando não se deixar levar por aquele olhar — Você realmente não sabe nada sobre a localização da %Nalla%?
— Não a trouxe aqui para falarmos sobre a %Nalla%. — disse ele, um pouco frustrado — Como já foi dito, meu irmão está cuidando disso.
— O que você quer? — perguntou ela, não entendendo.
— Você. — direto e objetivo.
— %Simon%. — ela sussurrou, respirando fundo.
Seus sentimentos ainda vivos por ele, trouxeram à memória o dia do término. %Jenie% não desejava se sentir daquela forma novamente. %Simon% segurou em sua mão de maneira carinhosa, se aproximando mais, e com a outra acariciou seu rosto, o que a desarmou por alguns instante tempo o suficiente para que ele se inclinasse estrategicamente para lhe beijar.
— %Jenie%?! — a voz de Matthew os interrompeu, assustando a aprendiz.
A bailarina afastou-se depressa do Dominos, respirando fundo e tentando não surtar com o momento.
— Posso saber quem é você? — perguntou %Simon% enciumado com a presença dele.
— Sou o mentor dela, e minha aprendiz não deveria estar aqui. — Matthew manteve o olhar repreensivo para ela — Venha comigo %Jenie%, sua avó nos aguarda.
%Simon% não conseguiu reagir, porém assim que ela passou por ele, segurou novamente em sua mão.
— Podemos conversar depois? — perguntou ele, segurando em sua mão, na esperança de reatar seu namoro.
— Eu preciso ir. — disse ela, se soltando com leveza — Nos falamos depois.
%Jenie% se afastou dele e seguiu com seu mentor para a sala de jantar. A mesa posta e todos acomodados, o cardápio havia sido milimetricamente detalhado e escolhido por Donna, que sentiu certo alívio por tudo estar correndo como o planejado.
Pelo dentro da sua jurisdição.
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Algum lugar do Texas…
— Até a %Jenie% deve bater mais forte que você. — disse %Nalla%, ao tossir, tendo rir do homem à sua frente, após levar outra sequência de socos.
A jovem estava presa às correntes, praticamente pendurada pelos braços. Já se contava horas ali sendo praticamente torturada pelo capanga. Após ser capturada em Chicago, sob efeito de medicamentos, o Tenebrae a transportou para outro estado a fim de ter vantagens territoriais, por conhecer bem a região em que o cativeiro se situava. Um lugar seco, abafado, quente e bem longe da civilização local, ao norte do estado.
— Sua sliter de merda. — o homem fechou o punho novamente e o moveu para socá-la mais uma vez.
Em um piscar de olhos seu soco foi paralisado por uma terceira pessoa, que segurou seu pulso com precisão. O homem olhou para o lado, um tanto desapontado e raivoso.
— Kevin. — a voz de Andrei soou no ambiente, atraindo a atenção de %Nalla%, que forçou abrir os olhos, já inchados — Não é assim que tratamos nossos convidados.
— Eu sou sua convidada? — ele riu mais um pouco, sentindo fortes dores no estômago — Eu esperava uma suíte cinco estrelas.
— Bem, se você não está morta ainda, então pode-se considerar minha convidada. — disse ele, confirmando suas palavras — É um prazer finalmente vê-la pessoalmente, a sliter perfeita.
— O que você quer? — perguntou ela, forçando a voz — Acha que pode chegar ao Dominos me usando como isca?
— Eu não só acho minha cara, eu tenho certeza, seu chefe moverá céus e terra para te encontrar e a única coisa que preciso fazer é… — ele caminhou até uma cadeira articulável e se sentou — Apenas esperá-lo.
— %Sebastian% não vai cair no seu truque. — assim que ela fechou a boca, um barulho de coisas caindo veio aos fundos do galpão onde estavam.
— Parece que já caiu. — Andrei se levantou com um sorriso de canto, como se previsse os passos de seus adversários.
Um instante de silêncio e o Tenebrae colocou as duas mãos para cima.
— Olha só quem está entre nós… %Sebastian% Dominos. — disse Andrei, num tom debochado.
— Achou mesmo que não te encontraria? — aquela era a voz que a sliter queria e não queria ouvir.
Ela sabia que era uma armadilha, assim como o chefe Dominos. Entretanto, ele não se importava, se houvesse uma mínima chance de salvar sua vida, ele o faria sem hesitar.
— Eu estava contando com isso. — Andrei se virou para ele, observando-o apontar sua arma para ele, então abaixou as mãos e as colocou nos bolsos — Se atirar em mim, ele atira nela.
— Se eu atirar nele primeiro, não terá ninguém para te defender. — %Sebastian% apontou para o capanga.
— Se está contando com os outros lá fora, terá que desistir, pois não existe mais nenhum para contar história. — Dominos manteve a seriedade no olhar, controlando sua atenção entre a sliter que parecia sem forças e ele.
— Bem, acho que terei que pagar para ver. — admitiu Andrei.
Sem pensar nos prós e contras, Dominos apenas puxou o gatilho acertando em Kevin, direto no peito. Assim que o corpo do homem caiu, ele apontou para o inimigo, Andrei se lançou para cima dele, tentando fazê-lo soltar. Ao cair a arma das mãos de %Sebastian%, ambos começaram a trocar socos e chutes em uma luta intensa para saber quem venceria no final. %Nalla%, em seu estado de impotência, apenas assistia em agonia tentando sem sucesso se soltar, ela queria ajudar o homem que não mediria esforços para salvá-la, contudo, era impossível em sua situação.
— Vamos lá, Dominos. — Andrei soltou uma gargalhada provocativa — Não disse que me mataria com suas próprias mãos? Estou aqui.
%Sebastian% fechou seus punhos e o socou novamente, o derrubando no chão. Jogando seu corpo sobre o de Andrei, ele continuou a socá-lo mais algumas vezes em um choque de adrenalina, induzido pela raiva. Em um dado momento, %Sebastian% segurou no pescoço do homem, disposto a enforcá-lo com as próprias mãos, até que de repente, sentiu uma forte pancada na cabeça, o fazendo cair ao chão desacordado.
— %Sebastian%! — o grito de desespero de %Nalla%, apenas serviu para intensificar a dor que sentiu, física e emocionalmente.
— Nunca espere o silêncio de uma mulher desprezada, Dominos. — Felícia sorriu de canto, ao jogar no chão a barra de ferro que utilizou para derrubá-lo, então esticou a mão para ajudar seu aliado a se levantar — Achei imprudente voltar para Liverpool justo agora, e que bom que minha intuição estava certa.
— Agradeço por sua presença inesperada. — disse Andrei, ao se levantar com dificuldade, sentindo dores faciais devido aos socos recebidos — Calculei errado o ataque do meu inimigo e quase me custou a vida.
— Você disse que ele viria sozinho. — questionou Felícia.
— E ele veio, só não achei que fosse capaz de derrubar todos os meus homens por causa dela. — o olhar de Andrei estava surpreso e admirado para %Nalla%.
— Ah sim, a sliter salvadora… — Felícia deu alguns passos ficando em sua frente — Parece que não consegue nem se salvar agora.
— Você vai se arrepender disso. — disse %Nalla%, sentindo o gosto de sangue em sua boca, misturado a raiva.
— É sério? — Felícia soltou uma gargalhada e fechando seu punho, socou a cara de %Nalla%, sentindo o pulso doer em seguida — Ah…
— O que acha que está fazendo? — perguntou Andrei, ao segurar o pulso dela — Nunca fez isso, não é?
— Não me importo, eu só queria socar a cara dela pelo menos uma vez na minha vida, antes que vê-la queimar até a morte. — explicou Felícia, em sua defesa — E você, %Nalla%, foi um prazer te ver nesse estado.
— Bem, acho que nosso encontro termina aqui. — Andrei derrubou os galões de gasolina, que estavam próximos, para que o líquido se espalhasse pelo lugar — É uma pena, %Nalla%, você é… Não há definições.
Ele se afastou para sair primeiro, enquanto Felícia voltou seu olhar para Dominos desacordado ao chão.
— Se não tivesse me desprezado, poderíamos ter sido o casal mais poderoso da Continuum. — disse ela, em seu devaneio momentâneo.
— Se certifiquei que eu esteja morta até o final do dia… — %Nalla% a olhou com raiva, lutando contra as dores — Porque se eu viver, vai desejar nunca ter nascido.
— Descanse em paz, %Nalla% Miller. — Felícia em seu andar sinuoso, dando altas gargalhadas que ecoavam pelo lugar.
Em um piscar de olhos o incêndio premeditado começou a tomar conta do espaço, deixando a sliter mais nervosa com a sensação de fraqueza que tomava conta do seu psicológico. %Nalla% não tinha saída, não tinha o que ser feito, a única coisa que poderia contar era com o despertar de Dominos. Então, reuniu o pouco de força que tinha para se debater entre as correntes e gritar seu nome.
— %Sebastian%! %Sebastian% levanta! — a dor misturada ao desespero, lhe exigia mais força ainda para gritar — %Sebastian% acorda!
De repente, o soar de alguém que estava ressurgindo dos mortos ao retomar o fôlego, foi o sinal que a sliter precisava para se certificar que havia esperança. Contudo, %Nalla% já estava fraca demais para permanecer consciente a tempo de presenciar seu amado levantar do chão ainda cambaleando e seguir em sua direção para lhe salvar. Inconsciente, o corpo da sliter caiu nos braços de Dominos, assim que ele conseguiu com dificuldade, retirar as muitas correntes do pulso dela, em extremo vermelhos e com as marcas nítidas.
— %Nalla% fala comigo?! — sussurrou ele, com os olhos cheios de lágrimas, tentando manter-se firme para encontrar uma saída para salvá-los — Eu vou te tirar daqui, e te levarei para um lugar seguro.
%Sebastian% olhou em volta, no meio de todo aquele fogo, parecia que não tinham saída. Até que bem ao fundo, avistou o que parecia uma passagem de ar, em meio aos barris vazios. Ele a colocou sobre os ombros e, traçando a rota menos perigosa, atravessou o fogo ao pular uma das ferragens que havia despencado do teto, o corpo de ambos caíram ao chão. E novamente %Sebastian% lutou contra toda a adversidade para carregar no colo o corpo desacordado de %Nalla% até o duto de ar.
— E agora… — ele tossiu um pouco devido a fumaça e olhando em volta, sem ter o que usar de instrumento, ele chutou o gradil do duto até que se soltou.
Foi a luz no fim do túnel para ele, que com dificuldade, puxou %Nalla% consigo por entre a tubulação até saírem do lado de fora. Mais um esforço para se afastar do galpão em chamas que explodiu, gerando um impacto em Dominos que caiu novamente com a silter em seus braços. E já não tendo forças para se manter de pé, as pálpebras dos seus olhos foram ficando cada vez mais pesadas assim como suas vistas escuras.
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Um, dois, afasta!
Nenhuma resposta…
Um, dois, Afasta!
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— Hum… — as vistas doíam, seu corpo parecia dolorido, ele estava vivo.
Entretanto, isso não importava para %Sebastian%, a única coisa que precisava saber era sobre %Nalla%. Seus olhos abriram de repente, se deparando com a iluminação forte do quarto em que estava internado. E por mais que o chefe Dominos havia deixado expresso para Philip, o hacker Fletcher, que não queria que ninguém soubesse de sua missão de resgate, claro que o garoto não o deixaria ir sozinho.
O neto de Donna, seguiu Dominos e ficou observando de longe, todo o ocorrido, principalmente na parte em que avistou Andrei e Felícia saindo juntos no mesmo Mustang amarelo. Foi então que percebeu algo errado, e ao se aproximar do local em chamas, encontrou o casal caído ao chão. O que explicava a presença de %Sebastian% na sede do Laboratório Baker no estado.
— Onde eu estou?! — perguntou %Sebastian% a enfermeira.
[wpdiscuz-feedback id="1gblv3kpop7" question="Comente!" opened="0"] — Está em casa. — a voz de Irina Baker foi reconhecida rapidamente — E a salvo.
Ela manteve o olhar irrepreensível para ele.
— Onde estava com a cabeça, enfrentar o Andrei sozinho e sem um plano fundamentado. — questionou ela, preocupada com o que poderia ter acontecido de pior.
— Onde está a %Nalla%? — indagou ele, não se importando com as palavras dela — Quero vê-la.
— Não poderá fazer isso agora. — disse Irina, com um tom mais firme e temeroso.
— Quero ver a minha sliter. — %Sebastian% levantou o corpo, causando oscilação no aparelho em que estava ligado ao seu corpo.
— %Sebastian%, não faça isso. — Irina tentou impedi-lo com a ajuda de outro enfermeiro.
— Soltem-me. — disse ele, os empurrando com brutalidade.
Mesmo passando por toda aquela situação, o homem ainda tinha forças para lutar contra eles.
— Quero vê-la agora. — disse em tom de ordem.
Irina respirou fundo, assentindo com a cabeça e então indicou o caminho. %Sebastian% teve autorização apenas para vê-la do vidro do lado de fora do quarto. Sua sliter estava ligada aos aparelhos ainda desacordada.
— O que aconteceu com ela?! — perguntou ele, novamente com os olhos lacrimejando, em um misto de sentimento de raiva e medo de perdê-la — Irina, diga que ela vai acordar.
— Não posso lhe dar a certeza, %Nalla% passou por um grande trauma e seu corpo terá um longo processo de recuperação… Por isso ela está em coma. — a doutora manteve o olhar observado ao homem, que se mantinha fixo olhando sua amada — Infelizmente, devido às agressões e torturas que ela deve ter sofrido, os exames que fizemos indicaram que %Nalla% sofreu um abordo espontâneo… Ao que tudo indica, ela estava com doze semanas de gestação.
%Sebastian% fechou os olhos, sentindo como se seu coração estivesse sendo arrancado de dentro dele. A primeira lágrima caiu de seus olhos, juntamente com o seu corpo que desabou ao chão, ficando de joelhos diante da parede que o separava de Miller.
Na escuridão, eu fecho as portas
e em silêncio sinto-me impotente.
- Promise / EXO