46 • Apostas
- Algum lugar do Texas, 2018
Um dia antes…
Pela primeira vez em dias, %Jenie% finalmente conseguiu ter uma longa noite de sono profundo, nem mesmo as constantes dores pelo corpo foram capazes de incomodá-la, incluindo seu joelho enfaixado. A bailarina ainda não havia entendido a lógica de Matthew em seu estilo de luta, e as raras vezes que ela conseguia golpeá-lo, eram na base da sorte de forma não intencional. Ela tinha um grande domínio de seus movimentos quando dançava, entretanto, quando o assunto era os treinos, falhava miseravelmente.
— Está atrasada. — disse ele, com o tom sério ao centro do galpão.
— Não estou, não tem um único raio de sol lá fora. — retrucou ela, um tanto quanto sem paciência para lidar com ele naquele dia.
Collins apenas riu baixo.
A cada dia que conhecia mais o lado determinado de sua aprendiz, mais ele se deixava encantar por ela, mesmo sabendo que um sentimento lhe era proibido. O lado cativante de %Jenie% era tão natural quanto seu sorriso meigo, o que facilitava a aproximação e rápida afeição das pessoas por ela. Matthew já tinha algumas informações e história sobre a bailarina, contadas por Donna. Inegável para ele não admitir que a matriarca Fletcher não mentiu em nenhuma delas, quando assegurou que sua neta jamais desistiria de ser uma sliter, se realmente estivesse decidida a ser uma.
— Do que está rindo? — perguntou ela, ao parar em sua frente e cruzar os braços, revoltada.
— Nada. — ele deu um passo para trás e olhou para a mala que estava ao seu lado — Pegue e venha comigo.
— Outro de nossos passeios sem propósito? — perguntou ela, depois lembrou-se de uma das regras e com sarcasmo — Ah, me esqueci, nada de perguntas.
Desta vez ele segurou o riso. Mantendo-se sério, voltou seu corpo em direção à porta dos fundos, seguindo na frente dela. %Jenie% soltou um suspiro cansado e dando três passos até a mala, a pegou com certa dificuldade por estar pesada. Se tratando de Collins, ela já estava imaginando que passaria por mais uma maratona de corrida, exercícios físicos e um combate no final do dia que a mandaria para a enfermaria. Pois assim era sua rotina diária de treinos, em que chegar parcialmente inteira no final do dia passou a ser sua meta de vida.
Curiosamente, após passarem pelo caminho rotineiro, Matthew pegou uma trilha desconhecida por ela, que dava a oeste do acampamento, bem próximo ao rio Blanco, porém mantendo o devido distanciamento da rodovia de acesso à cidade de Austin. Minutos de caminhada que se transformaram em três horas, cheias de ar puro das árvores e um sutil fundo sonoro com o canto das aves locais. Um belo lugar que transmitia paz e tranquilidade, algo que a muito tempo %Jenie% não tinha em sua vida.
De repente, ele parou permanecendo de costas para ela, o que a deixou intrigada. O olhar de %Jenie% passou por aquelas altas árvores, que escondiam não somente boa parte do céu, como os raios solares que aqueciam aquela manhã. Uma brisa refrescante passou por seu corpo, fazendo-a se lembrar dos muitos acampamentos que participou na adolescência. E juntamente com suas memórias do passado, também vinha a imagem de Bellorum e Dominos para desviar sua atenção.
— O que vem agora? — perguntou ela, não se importando com as muitas regras, estava curiosa pela mudança de direção.
— Aqui é o lugar mais distante que temos da civilização dentro do nosso perímetro. — começou ele, sua explicação do treino daquele dia — Daqui a dois meses será o
Torneio Anual Sliter, e cada instrutor deve apresentar seu aprendiz para a competição, por isso, vou intensificar seu treinamento e te deixar longe das vistas de terceiros.
— Está com medo da sua reputação ser prejudicada? — perguntou %Jenie%, escondendo o deboche no tom de voz.
— Não, não será o fracasso de uma mera aprendiz que vai manchar meu legado. — voltou-se para ela, mantendo a seriedade — Mas sei o quanto você quer provar sua força, por isso estamos aqui.
— Depois das suas palavras de ontem, achei que desistiria de mim. — retrucou ela, surpresa com a resposta.
— Não sou de desistir fácil, além do mais, é divertido te ver se machucando. — brincou ele, em provocação.
— Desagradável. — sussurrou ela, e bufou de leve.
— Te dou cinco minutos de alongamento e quero dez voltas entre as árvores. — ordenou ele, dando alguns passos até ela e pegando a mala de suas mãos — Será somente o aquecimento.
— Ok. — %Jenie% começou com um longo espreguiço, sentindo seu corpo ainda travado mesmo depois de toda aquela caminhada.
Em silêncio, a bailarina pode sentir todo o ambiente à sua volta enquanto se alongava, e claro não pode deixar de notar os olhares discretos e fixos de Matthew para ela. Algo que lhe deixava parcialmente envergonhada e constrangida. Uma coisa era certa, a delicada Fletcher não queria se envolver amorosamente com mais ninguém, então não teria a mínima chance de rolar qualquer aproximação entre os dois. Ou pelo menos era isso que ela esperava, por mais atraente e intrigante que seu treinador fosse. Querendo ou não, ela tinha assuntos inacabados com seus passados, algo do qual ela não queria dar atenção e se forçava a esquecer.
Minutos depois, ela iniciou sua corrida de dez voltas pelo perímetro demarcado por ele. Enquanto isso, Collins começou a preparar a próxima atividade que ela iniciaria, algo que %Jenie% jamais imaginou fazer, mas que o futuro que ela ambicionava lhe exigia muita habilidade, conhecimento, concentração e destreza.
— Acho que… — %Jenie% parou de correr e respirou fundo, para retomar seu fôlego, foi quando ela percebeu uma mesa dobrável de madeira com várias armas de fogo em cima — O que é isso tudo?
— Parte das habilidades que você terá que desenvolver. — respondeu ele, com tranquilidade — Um bom sliter deve saber manejar uma arma e ter uma excelente pontaria.
— Nossa… Agora posso dizer que estou surpresa. — sussurrou ela, porém dando para ele ouvir — E como tudo isso chegou aqui?
Matthew sorriu de canto disfarçado e voltou o olhar para a mesa.
— Você trouxe. — respondeu prontamente e apontando para o lado — Na mala.
— Ah… — ela soltou um suspiro fraco e se aproximou dele, olhando para aquela variedade de armas na mesa.
A única vez que tivera a chance de ver tantas em um único lugar foi quando passou a noite com %Joseph% escondido no porão da casa do senhor Bellorum, no qual o xerife tinha muitas guardadas.
— E você vai me explicar sobre todas? — perguntou ela, voltando o olhar para uma em especial, reconhecendo a semelhança com a arma de sua amiga Annia.
— Sim, cada uma tem sua peculiaridade. — assentiu ele, pegando a primeira — Esta é a Cattleya, ela é um revólver Taurus RT 85 de calibre 38, é bem leve e ajuda nas horas mais precisas, existem modelos menores que você pode esconder no tornozelo.
%Jenie% permaneceu em silêncio apenas observando e tentando absorver e digerir as informações.
— Esta é Camellia. — continuou ele, ao pegar a próxima com o olhar atento e de forma cuidadosa, como se segurasse um filho — Uma pistola Glock G25 semiautomática, ela tem capacidade de 16 balas em cada cartucho, é claro que o carregamento é manual… E tem a sua irmã mais nova Violetta, Glock G22, são as melhores que eu tenho, porém não deixarei a Rose com ciúmes, ela é uma 9mm que se torna necessária em momentos oportunos. Além de vossa majestade Azaleia, minha única carabina e a mais antiga de todas, foi minha primeira arma, ganhei em uma briga de bar. Ela é uma Taurus Puma calibre 38 de 12 tiros…
Ele continuou mostrando mais algumas, era nítido seu conhecimento profundo sobre cada uma e como seus olhos brilhavam ao segurá-las. %Jenie% finalmente percebeu que aquele universo não tinha apenas suas peculiaridades, mas a riqueza dos detalhes poderia significar o sucesso e o fracasso no mesmo.
— E por último, minha favorita, a Sakura… — ele pegou a arma com certo orgulho no olhar — Ela é uma espingarda CBC Military 3.0 calibre 12 de 5 tiros, tenho ela há dois anos…
— E todas possuem o nome de uma flor… — comentou %Jenie%, ao interrompê-lo finalmente.
— Sim, todas são minhas namoradas. — brincou ele, colocando a espingarda sobre a mesa — Vamos à prática?
— Eu vou… — ela olhou para mesa, em seguida olhou para ele.
— Não acha que eu falei sobre elas apenas para conhecimento, não é?! — ele riu de leve — Vamos começar com a Magnólia.
%Jenie% não tinha muita escolha, a não ser assentir e iniciar seu treino de tiros. De início, ela aprendeu a montar e desmontar cada arma, para depois avançar para a etapa de recarregar e atirar. Poderia ter sido apenas sorte de principiante ela ter acertado logo no centro do primeiro alvo em seu primeiro tiro, e lá no fundo Matthew sentia que ela tinha talento para o ofício. Contudo, no susto do primeiro, o restante do cartucho a bailarina atirou de olhos fechados. O que causou irritação em Collins.
— Jamais atire de olhos fechados, você é louca? — gritou ele, irritado — Poderia ter me acertado.
— Não é de todo uma má ideia. — brincou ela, em provocação — As árvores não deveriam ser meu alvo já que na vida real, terei que mirar em alvos em movimento.
Ele se impulsionou para argumentar, porém a sua lógica tinha fundamentos.
— Continue com esses alvos, quando achar que está pronta, avançaremos. — disse ele, dando um passo para trás — Recarregue a Magnólia.
Ela assentiu e continuou sua sequência de disparos até a metade do dia. A cada hora, Matthew mudava a posição dos alvos e diminuía o diâmetro demarcado nos papéis. No dia seguinte, a mesma atividade, pela manhã as armas e à tarde combate corpo a corpo. Era notório que o segundo melhor sliter não iria ausentar sua aprendiz que ir para a enfermaria no final do dia, nem que fosse com pelo menos um arranhão no corpo.
— %Jenie%! — disse Meg, assim que a viu passar pela porta — Mais alguns minutos e você encontraria esse lugar repleto de aprendizes enfaixados.
— Não diga… E o que você ainda faz aqui? — ela deu mais alguns passos e sentiu na maca ao lado da nova amiga.
— Estou me escondendo da Joy. — respondeu ela, com um olhar temeroso e bastante amedrontado — Para todos os efeitos, eu não me recuperei do último treino.
— E quem é Joy? — perguntou %Jenie%, curiosa pela história dela.
— Uma das melhores aprendizes que temos, casse A, número 2, ou seja, o topo da cadeia alimentar. — explicou ela, com um suspiro fraco — Eu atravessei o seu caminho, ela me desafiou fazendo uma aposta.
— E que tipo de aposta foi? — indagou a bailarina, mantendo sua atenção nela.
— Meg, se escondendo novamente na enfermaria? — a enfermeira Kim, colocou a mão na cintura com o olhar de desaprovação — É assim que pretende ser uma sliter, fugindo das responsabilidades?
— Mas o que foi a aposta? — perguntou %Jenie%, novamente para entender o que acontecia.
— Ela me desafiou a violar o toque de recolher, ir até o bar
Sweet Home que fica próximo ao rio, e trazer a medalha do velho James. — contou a aprendiz, se encolhendo — Ela pediu o impossível.
— E é tão difícil assim? — indagou %Jenie%.
—
Sweet Home é um bar de motoqueiros gangsters, não é um ambiente muito saudável e menos ainda o lugar em que você sai sem arrumar confusão. — explicou Kim, respirando fundo e se aproximando de %Jenie% para examiná-la — E você Fletcher, o que foi desta vez?
— Meu pulso está doendo, acho que desloquei alguma coisa, eu fui golpear meu treinador e acabei socando uma árvore. — explicou ela, se sentindo uma inútil descoordenada.
— Uau, e eu achei que era ruim em combate corpo a corpo. — sussurrou Meg, segurando o riso com respeito.
O olhar atravessado da senhorita Kim se voltou para ela por um tempo, então retornou a Fletcher, que se mantinha imóvel apenas observando-a.
— Está doendo muito? — perguntou Kim.
— Pelo seu olhar não parece, você sabe segurar bem uma dor. — elogiou a enfermeira.
— Um sliter não deve demonstrar fraqueza. — sussurrou ela.
— Uau, já gravou a terceira regra. — comentou Meg, impressionada.
— Tenho ouvido isso quase às vinte e quatro horas do dia nos últimos dias. — explicou com um tom cansado.
— Vou enfaixar e colocar uma tala para imobilizar, amanhã te quero aqui para fazermos uma radiografia e ter certeza que não quebrou nada. — ela pegou um algodão e a solução de Polihexam para limpar as feridas que ficaram no dorso da mão dela — Enquanto isso, tente não utilizar a mão direita.
— Eu sou destra. — informou %Jenie%.
— O problema é todo seu. — Kim continuou séria em sua concentração no curativo, enfaixando o pulso dela.
Assim que terminou, a enfermeira expulsou ambas as aprendizes de lá. E para Meg, sua única solução seria enfrentar Joy e sua aposta que poderia lhe render mais humilhação ainda. Ambas caminharam um pouco até que chegaram em frente ao dormitório dos aprendizes, a maioria estavam reunidos no porão onde era o refeitório, se deliciando com o jantar especial daquele dia.
— Então, o que vai te acontecer agora? — perguntou %Jenie%.
— Serei devorada pela selva. — disse num tom dramático, dando um suspiro fraco.
— Posso entrar com você? Nunca tive a oportunidade de conhecer os outros aprendizes. — pediu ela — Estou sempre sendo monopolizada pelo meu treinador.
— Meu sonho é ter um treinador como o Collins. — o olhar de Meg ficou triste.
— Quem treina você? — perguntou %Jenie%, curiosa.
Ela sempre ouvia as histórias dramáticas de Meg, porém nunca soube mais sobre as outras pessoas que viviam naquele lugar. Apenas avistava alguns aprendizes nas poucas horas que tinha de descanso.
— Atualmente, não tenho um treinador fixo. — respondeu a amiga, abaixando o olhar com tristeza — Somente um slitter do top 10 pode ser treinador e nenhum deles quer me treinar.
— Mas e a sua salvadora? — questionou %Jenie%, ao lembrar-se que Anastasia era a quarta melhor.
— Ela não fica mais na academia, deixou de ser slitter oficialmente, além do mais, ela deve ter outras prioridades na vida do que dar atenção pra uma fracassada como eu. — respondeu.
— E como você treina? — indagou a bailarina, tentando entender a logística da amiga.
— Bem, quando não estou na enfermaria, eu assisto alguns treinos e tento repetir sozinha os golpes. — explicou ela, num tom constrangido e envergonhado.
— Eu não imaginava que você tivesse que passar por isso. — %Jenie% se sentiu inconformada pela situação dela, pensando no que poderia fazer para ajudar.
— Mas, não tem problema, pelo menos eu não me machuco tanto quanto os outros. — ela riu, tentando descontrair — Vamos entrar? Estou ansiosa para ver a reação de todos quando me ver do lado da herdeira. Posso te usar para ganhar respeito aqui?
%Jenie% sentiu inocência naquelas palavras que a deixou sensibilizada.
— Você sabe que eu sou pior que você, não é? — retrucou %Jenie%.
— Olha só, o projeto de sliter rindo, será que ela finalmente tomou coragem de pagar a aposta? Ou vai continuar sendo a
vergonha a profissão? — a voz de Joy soou atrás delas, o que as fez virar de imediato.
Sendo proposital ou não, o mais fofoqueiro dos aprendizes estava passando pelo corredor dentro do dormitório, quando avistou Joy e seu grupo de amigos frente às aprendizes. O que certamente resultou no anúncio imediato no refeitório, fazendo todos saírem para acompanhar o embate.
— Essa é a Joy? — perguntou %Jenie%.
— Sim. — ela engoliu seco.
— E pelo visto encontrou uma nova amiga. — o olhar de Joy voltou diretamente para %Jenie% — %Jenie%, não é?! Espero que não esteja pensando que só por ser neta da senhora Donna, está no topo da lista.
— Eu sei muito bem como são as coisas aqui e acredite, meu nome estará no topo e não será por causa da minha avó. — a bailarina devolveu com um olhar superior, de causar orgulho em sua amiga Baker.
— Hum... Que corajosa. — Joy soltou uma gargalhada maldosa — Vou ter o imenso prazer de te derrubar na competição mensal.
%Jenie% mesmo trêmula de insegurança por dentro, não se deixou abater e continuou com o olhar firme.
— Já que a realeza está tão segura assim, porque não compra a briga da nova amiga? — disse outra aprendiz em provocação.
— Mas eu duvido que a Fletcher tenha coragem de infligir as regras, vai desonrar a vovó. — disse um rapaz de cabelos coloridos, num tom de deboche.
— Ah, Bailey, eu aposto que nenhuma das duas consegue cumprir o desafio. — reforçou Joy, mantendo o olhar fixo em %Jenie% — Falta coragem e ousadia nelas.
— Se você quer tanto aquela medalha, porque não pega você mesma? Já que é tão boa aprendiz assim. — %Jenie% rebateu o desafio.
— Eu até pegaria, mas o que provaria a mais, além de eu permanecer sendo a melhor daqui. — retrucou Joy.
%Jenie% respirou fundo, sentindo seus nervos aflorando. Não imaginava que poderia ter alguém mais arrogante e prepotente que seu instrutor ou Stelle Ortiz. Mas lá estava Joy, nem era uma slitter oficial e já se achava a próxima %Nalla% Miller da Academia.
— Já vocês... — o barulho de risadas ao redor deles, fez Joy se sentir ainda mais superior — Eu já imaginava que o projeto de aprendiz não teria coragem, nem mesmo um treinador, ela consegue ter, imagina cumprir um desafio interno.
— Minha avó sabe o que acontece entre os aprendizes? — sussurrou %Jenie%, ao se voltar para a amiga, sua indignação era visível.
— Me conte uma coisa que Donna Fletcher não sabe? Seus segredos tem segredos, ela sempre sabe de tudo. — contou Meg.
— Então, por que ela não intervém? — indagou a bailarina.
— Ela permite desafios e apostas entre aprendizes e slitters, não é uma proibição e nos deixa mais alerta e ajuda em nosso crescimento. — explicou Meg — Podemos até quebrar as regras, só não podemos ser pegos.
%Jenie% respirou fundo. Em choque e tentando assimilar tudo que vivenciava ali. Uma novidade a cada dia…
— Eu aceito o desafio no lugar da Meg, ou melhor, nós duas vamos cumprir juntas. — anunciou %Jenie% em seu impulso de coragem — E se cumprirmos, você terá que desistir de todas as lutas do campeonato mensal e ser a última no ranking por dois meses, e no seu teste final você terá que derrotar uma amiga minha, acho que já ouviu falar de %Nalla% Miller.
Outro som de animação veio dos aprendizes ao redor. Empolgados com a instigante rebatida da Fletcher.
— E se não conseguirem? — questionou Joy, arqueando a sobrancelha direita.
— Eu desisto de ser slitter. — a segurança na voz de %Jenie%, causou espanto a todos.
— Mas não se pode desistir. — sussurrou Meg para ela, de forma temerosa.
— Você sabe que não podemos desistir. — retrucou Joy.
— Pelo que eu soube, existe um limite de tempo para ser aprendiz, e quem não consegue finalizar as metas recebe uma punição rigorosa a cada ciclo não concluído. — argumentou %Jenie% — O que me diz?
— Como você sabe sobre isso? — perguntou Meg.
— Eu gosto de ler e achei o livro de regras na biblioteca. — explicou %Jenie%, a amiga.
— As punições são severas. — reforçou Meg, mantendo o olhar estático para ela.
— Eu sei. — %Jenie% assentiu.
Joy pensou por alguns segundos e finalmente deu sua resposta.
— Eu aceito sua oferta, porém quero outra coisa no lugar da sua desistência. — disse ela, certa da vitória — Afinal, você já vai fracassar por si só.
— O que você quer, então? — perguntou %Jenie%, mantendo a segurança no olhar.
— Você saberá assim que eu ganhar. — disse Joy, esticando a mão para ela — Então, consegue aceitar o desafio sem saber o que pagará quando perder.
— Eu aceito o desafio com a certeza que serei melhor que você no futuro, e acredite, vai ser divertido ver minha amiga te jogando na lona. — confirmou %Jenie%, ao apertar a mão dela.
— Amiga, estamos falando de %Nalla% Miller, vai mesmo prosseguir com isso? — uma das amigas de Joy, tentou chamá-la a razão.
— Eu tenho certeza que elas não vão conseguir, Dalia. — Joy sorriu de canto, como se soubesse o que poderia acontecer se caso alguém tentasse pegar a tal medalha.
O desafio estava lançado e mais do que consentido por ambas as partes. Entretanto, havia uma pessoa que estava a um passo do surto: Meg. A aprendiz que não conseguia sair do nível 1 de sua categoria, apenas sentia-se trêmula pela afronta da amiga a Joy.
— Te dou até amanhã à noite. — anunciou Joy — Para não dizer que eu não fui legal.
Assim que a classe A número 2 se afastou acompanhada das amigas, o olhar estático de Meg se moveu para %Jenie%.
— O que você fez? — sussurrou ela, boquiaberta.
— Eu não sei, apenas quis agir como minha amigas. — confessou %Jenie%, ao voltar em si e notar o que tinha feito.
— Como vamos conseguir? — perguntou Meg.
— Eu não sei, mas vou pensar em um jeito de fazer isso a todo custo. — %Jenie% sorriu de leve para ela, tentando lhe passar segurança.
Então se afastou da nova amiga e seguiu para a casa principal. Com tantas emoções e agitações acontecendo, somente ao chegar em seu quarto que conseguiu notar que as dores pelos músculos do corpo ainda estavam ali. Com cada parte do corpo latejando, ela pegou uma toalha e seguiu para o banheiro do seu quarto. Nunca tinha desejado tanto sentir as gotas quentes de água sobre suas costas para lhe trazer algum tipo de alívio ou apenas a sensação de estar relaxando. São esses momentos em que ela percebe o quão forte são suas amigas e quanto ela precisa ser, certamente não foi fácil para %Nalla% ser a melhor sliter da sua avó.
— %Jenie%, no que você se meteu?! — sussurrou ela, ao lavar o rosto e molhar seus cabelos.
Assim que desligou o chuveiro, ela se enrolou na toalha e retornou ao quarto. Quando adentrou, seu corpo paralisou de leve, ao dar de cara com Collins encostado em sua janela, com as mãos nos bolsos à sua espera. O coração da bailarina acelerou de leve, não sabendo explicar se era pelo susto de vê-lo ali ou pelo olhar intenso do seu instrutor para ela.
— O que faz aqui? — perguntou ela, se encolhendo um pouco envergonhada pela situação, afinal estava enrolada na toalha.
— Eu só queria saber se está tudo bem. — ele se afastou da janela e caminhou até ela, parando em sua frente — Como está seu pulso?
Assim que ele pegou a mão dela para conferir o estragou, uma gotícula de água caiu do cabelo dela escorrendo por suas costas, o que a fez sentir um arrepio. Matthew a olhou impressionado, pois tinha notado o ocorrido.
— Eu estou bem. — ela soltou sua mão, se afastando dele — E não teremos treino amanhã, a enfermeira Kim quer fazer uma radiografia do meu pulso.
— Se você está bem, não precisa de radiografia. — ele pegou a mão dela novamente com mais força e analisou a sua maneira.
— Ai. — ela tentou se soltar, porém sem sucesso desta vez.
— Você não estava bem? — ele soltou a mão dela, mantendo o olhar sério e inexpressivo.
— Estou, mas não quer dizer que meu estado físico esteja aceitável para voltar aos treinos. — argumentou ela — Eu sou destra.
— Muito bem, já era hora que aprender a atirar com a mão esquerda, te espero antes do amanhecer. — ele deu um passo para trás — E não se preocupe %Jenie%, mesmo que você fosse uma mulher atraente, jamais aconteceria algo entre nós, sentimentos são proibidos para pessoas como eu.
Ele passou por ela e seguiu até a porta, deixando-a sem palavras. %Jenie% não sabia o que ele queria dizer com:
“Sentimentos são proibidos para pessoas como eu.” E tinha medo de imaginar que isso fosse algo geral no que dizia respeito a ser um sliter. E por mais que sua amiga %Nalla% tivesse seu romance com o Dominos, as muitas histórias de conflitos e dificuldades que ambos passaram até ficarem juntos, demonstravam fundamentos nas palavras de Matthew. Não que ela estivesse preocupada com sua vida amorosa, já que seguia fugindo das complicações que a mesma lhe reservou.
— Hum… — logo ela foi despertada de seus pensamentos, por uma ligação inesperada de Annia.
Ela ficou olhando o visor por um tempo, até que atendeu a videochamada.
— Annia?! — %Jenie% caminhou até a cama e se sentou — Por que está me ligando?
— Estava com saudades de conversar com minhas amigas, e cheia de curiosidade para saber como está minha sliter favorita. — o olhar de Annia pela tela ressaltava uma mistura de ironia e curiosidade — Que a %Nalla% não me ouça dizendo isso.
Ela soltou uma gargalhada maldosa e boba, então se ajeitou na poltrona em que estava sentada.
— Sua boba. — %Jenie% riu baixo — Como tem passado? Por que não me atendeu anteontem? Precisava tanto de uma amiga para desabafar.
— Aposto que ligou pra %Nalla% primeiro. — perguntou a Baker, num tom de ciúmes.
— Para ser sincera, não. — ela riu.
— Ah amiga, me desculpe por não ter atendido. — ela soltou um suspiro emotivo — Mas estava em meu dia da família, fomos ao zoológico com o nosso pequeno.
— Que fofo, até imagino o quanto Cedric deve estar sendo o pai babão do ano, ele sempre levou jeito com crianças. — comentou.
— Sim, ele é um amor com nosso filho. — assentiu a amiga — Mas me diga, o que queria desabafar?
— São tantas coisas acumuladas que nem sei por onde começar. — seu suspiro foi fraco e cansado.
— Vamos do começo então. — sugeriu Baker.
— Então. — %Jenie% ergueu a mão direita e mostrou-a enfaixada — Isso é só o começo.
— Uau, já estamos assim, ser forte não é fácil amiga. — comentou Annia surpresa — Achei que sua avó pegaria mais leve.
— Não estou treinando com a minha avó. — disse.
— E com quem? — o olhar de Annia ficou mais curioso.
— A pessoa mais prepotente, arrogante e intolerante que eu conheço. — %Jenie% se mostrou raivosa — Matthew Collins.
— E foi antes ou depois desses insultos que ele te deixou atraída? — perguntou Baker, já em provocação.
— Eu não estou atraída por ele. — %Jenie% desconversou surpresa pela colocação dela — Só irritada e não contei a nova.
— Me surpreenda. — instigou Annia.
— Existem desafios entre os aprendizes e eu acabei me envolvendo em um, só queria entender como a %Nalla% sobreviveu a tudo isso. — %Jenie% soltou um suspiro fraco.
— Não seja por isso, vamos perguntar a ela. — Annia apertou alguns botões para iniciar uma chamada tripla, ligando para a sliter.
— Annia, não vamos incomodá-la, pelo que soube, hoje é o noivado da Genevieve. — anunciou a bailarina.
— Já? Nossa o tempo tem passado tão rápido, mas tenho certeza que para as amigas ela tem um tempinho.
Mais alguns instantes e finalmente a ligação foi atendida.
— Posso entender o motivo de ambas me ligarem em conjunto? — perguntou ela.
— %Jenie% que me ligou primeiro. — disse Annia, em sua defesa.
As amigas continuaram a conversa, sempre com as brincadeiras e provocações de Baker. Até que %Nalla% anunciou movimentações estranhas ao seu redor que a fez ligar a moto. Do outro lado da ligação as amigas se pegaram em total apreensão por não poder ajudá-la.
— %Nalla%, não estamos ouvindo o barulho da moto. — disse %Jenie%, do outro lado.
— %Nalla%, fala com a gente. — pediu Annia, controlando seu desespero, sem poder ajudar.
— Acho que não poderão ajudar a amiga de vocês. — disse o homem, ao retirar o celular do casaco e ouvi-la com mais nitidez.
— Andrei Tenebrae. — disse %Jenie%, com o tom meio falho, ao reconhecer aquela voz.
You can call me monster.
- Monster / EXO