32 • Irmãos à obra
Dominos House, Chicago
Nada como um dia após o outro. Esse era o lema da atual matriarca da família, Sophie Dominos. Uma frase motivacional que sempre utilizava com seus sobrinhos, quando percebia ambos sobrecarregados com suas emoções reprimidas. Tarde de sexta-feira, a única coisa que %Simon% e sua amargura projetavam, era passar um tempo sozinho na adega da casa. Que mais uma vez enfrentou a fúria de um Dominos.
— Olha só, não sou o único que acha que esse lugar precisa de reformas. — brincou %Sebastian% com seu tom irônico.
O chefe da família permaneceu parado na porta olhando o lugar. Em sua mente a lembrança do dia da demissão de sua sliter foi nítida e clara. O que o fez sentir um frio passar por seu corpo, deixando-o parcialmente angustiado. O gosto amargo da distância deu o ar da graça, e adentrando mais, ele fechou a porta.
— O que aconteceu? Não me diga que ela morreu. — continuou o mais velho.
— Não… — %Simon%, que estava deitado no chão, ergueu o corpo e o olhou. — Eu que me matei para ela.
%Sebastian% apenas riu de leve, a passos silenciosos até o irmão e sentou ao seu lado. Não conseguia acreditar nas palavras dele, menos ainda no que fizera.
— Você terminou com ela? — o chefe Dominos franziu o cenho, tentando entender as ações do irmão.
— Será melhor assim. — alegou %Simon%, seguro de sua decisão. — A Continuum achou ela porque me aproximei, não quero colocá-la em risco novamente.
— Ah irmão, pela primeira vez eu não concordo com o que fez, não acha que ela estaria mais segura perto de você? — ele manteve o olhar fixo no caçula. — A vida dela está em risco desde que nasceu, não faz tanta diferença assim, abrir mão dela para protegê-la… Não acho que tenha sido prudente.
— E se fosse o contrário? — %Simon% o olhou.
— Eu morreria pela %Nalla%. — %Sebastian% admitiu sem ao menos pensar em suas palavras para pronunciá-las. — Mas ao contrário da sua bailarina, %Nalla% está longe por outro motivo.
— Qual? — indagou o caçula que até o momento não sabia muito da história.
— Mentir para mim. — respondeu com precisão.
— Eu não vou voltar a trás. — %Simon% voltou o olhar para frente.
— E o que pretende fazer agora? — indagou %Sebastian%.
— Voltarei a Seattle, farei a inauguração do meu restaurante e seguir em frente. — respondeu ele, seus planos. — Claro que, no meio disso, pretendo descobrir onde Andrei Tenebrae se esconde.
— Entra na fila. — brincou o Dominos primogênito. — Quero encontrá-lo tanto quanto todos os outros e tenho um aliado para isso.
— Quem? — %Simon% o olhou.
— Aaron Tenebrae, o irmão gêmeo dele. — respondeu.
Ambos soltaram um suspiro e %Simon% inclinou novamente seu corpo, deitando no chão. Manteve o olhar fixo no teto, enquanto tudo silenciava novamente. Em sua mente um turbilhão de pensamentos e arrependimentos. Ao mesmo tempo que desejava voltar a Los Angeles e mudar suas palavras a %Jenie%, ele temia por sua aproximação lhe prejudicar ainda mais. Assim como o irmão mais velho, ele só desejava não ser um Dominos por um dia, assim poderia pensar com mais liberdade sobre sua vida.
— Quando foi que se tornou tão difícil ser a gente? — perguntou %Simon%.
— Quando a ganância de alguns prevaleceu diante da amizade. — respondeu %Sebastian%, num tom baixo relembrando do passado. — A ganância de um Tenebrae que se espalhou pela Continuum, mas logo será sua queda.
O chefe Dominos se referia ao Lionel, que ao roubar do irmão o controle de sua família, também usurpou o direito de dirigir a sociedade no lugar da família Dominos. A fagulha que faltava para explodir toda a discórdia entre as famílias e ameaças aos herdeiros. Adicionando a peça Andrei Tenebrae que aprendeu com o tio adotivo a ser ambiciono, tudo passou a ser ainda mais perigoso para todos.
— Você não vai mesmo contar? — insistiu %Simon%, sobre o segredo de Miller.
— Lembrar o assunto me faz reviver a dor de quando descobri. — confessou o Dominos chefe.
— Foi tão grave assim? — ele voltou o olhar para o irmão.
— Como você se sentiria se depois de anos convivendo com a %Jenie%, descobrisse que ela tem um marido e duas filhas? — %Sebastian% o olhou com frieza e amargura.
— A %Nalla% o quê? — %Simon% ergueu seu corpo embasbacado com a revelação dele. — Isso é brincadeira.
— Tenho cara de quem está brincando? — o tom sério dele fez o irmão engolir seco.
— Isso é uma loucura, a %Nalla% sempre esteve ao seu lado %Sebastian%, não faz sentido. — argumentou ele.
— Eu sei o que eu vi, a imagem de uma família perfeita e uma filha com saudades da mãe. — seu olhar ficou um pouco mais triste e raivoso. — Sem contar com o marido de olhar apaixonado, que me fez sentir vontade de socá-lo até a morte.
— Nunca imaginei algo assim vindo dela. — comentou %Simon% ainda perplexo. — Estou mais chocado por sua reação pacífica.
— Não iria matar ele na frente da filha. — alegou o Dominos, rindo de leve.
— Tem fundamento. — o outro riu junto — Então esse é o motivo real do afastamento dela.
— Sim…. — %Sebastian% respirou fundo e também inclinou o corpo para se deitar no chão. — Mas confesso que realmente continuo confuso com tudo isso.
— Por quê? — %Simon% o olhou.
— Na festa da companhia ela disse para continuar e ir além do seu segredo, para ir até o final. — ele manteve o olhar no teto pensativo. — O que significa que…
— %Nalla%, seus segredos tem segredos. — completou o caçula. — Se existe mais verdade nisso, então deve ir até o final, irmão.
— Eu sei… — %Sebastian% soltou um suspiro fraco e ergueu o corpo novamente, permanecendo sentado. — Só preciso ter coragem para enfrentar o que vou encontrar.
— Acha que ela não seja leal a você? — supôs ele.
— Sempre que me pergunto isso, a imagem dela levando tiros no meu lugar surgem a minha mente. — as emoções de %Sebastian% chegaram fortes naquele momento, sendo obrigado a reprimi-las. — Eu consigo ver no seu olhar que ela me ama, é por isso que nada se encaixa.
— Então definitivamente deve ir até o final. — aconselhou %Simon%.
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Antes de retornar a Seattle, %Simon% passou mais alguns dias com sua família. Por mais que não tivesse interesse em administrar a empresa da família ao lado do irmão, ele precisava aprender a administrar seu próprio restaurante. O que o levou a passar uma semana inteira tendo pequenas aulas com o chefe Dominos sobre finanças, investimentos e contabilidade. Algo necessário a se ter conhecimento, mesmo contratando profissionais da área para se encarregar disso. Afinal de contas, estar somente na cozinha fazendo saborosos pratos era a metade do sucesso de um dono e chefe de cozinha, de um restaurante.
Tarde de domingo, horas antes do seu embarque, %Simon% convidou o irmão para lhe acompanhar em uma caminhada ao pôr-do-sol no Millennium Park. Para relembrar os velhos tempos de liberdade e despreocupação com a vida adulta. Ambos em momentos tristes ou simples comemorações, sempre matavam aula para caminhar por horas sem direção naquele parque. Era a caminhada da reflexão ou da apreciação da natureza.
— Me aguarde em sua inauguração e reserve uma mesa para nossa família. — disse %Sebastian%, após se voltarem para a saída do lugar.
— Claro que a mesa de vocês foi a primeira que reservei. — assegurou ele. — Se você não fosse, tenho certeza que nossas irmãs compareceriam.
— Quem você acha que sou para não lhe prestigiar? — ele se mostrou ofendido.
— Não sei, você é uma caixinha de surpresas. — %Simon% riu.
— Quanta ofensa. — resmungou ele, voltando o olhar para frente.
Logo %Sebastian% por acaso avistou um rosto conhecido. Ele se viu intrigado por aqui e irritado também. Por qual motivo aquela pessoa que tanto odiava estaria fazendo ali em sua cidade. Sua atenção toda se voltou para essas indagações, enquanto manteve o foco na pessoa que adentrava uma cafeteria próxima.
— %Sebastian%? Está me ouvindo? — a voz de %Simon% o despertou do inusitado transe. — Está tudo bem? Parece que viu algo errado.
— Sim, está sim, você aceita um café? — sugeriu o chefe Dominos, com a intenção de se aproximar do local onde a pessoa entrou.
— Bem, agora que disse, comecei a sentir uma necessidade forte de me alimentar. — aceitou o caçula. — Tem aquela cafeteria que costumávamos ir quando éramos mais novos.
— Eu tenho outro lugar em mente. — ele deu o primeiro passo seguindo para a cafeteria em questão.
%Simon% não entendeu a princípio, porém seguiu o irmão. Coffee Kim era uma cafeteria de estilo coreano recém inaugurada na cidade. Talvez seja por isso que %Sebastian% não tinha conhecimento sobre o local. E nem mesmo imaginava o que encontraria lá, ao entrar no estabelecimento. Seu corpo gelou e ao mesmo tempo ardeu de raiva ao se deparar com a cena de Fisher, a pessoa que avistou na rua, sentado em uma mesa na companhia de sua ex-sliter Miller.
— %Nalla%, não olha agora, mas… Uma pessoa conhecida acabou de entrar. — disse Fisher para a mulher, que manteve o olhar sereno para ele.
— Coincidências acontecem. — disse ela, dando um sorriso de canto. — Fique tranquilo, %Sebastian% não vai fazer nada, haja com naturalidade.
— Você realmente confia muito nele. — alegou o homem.
— Não imagina o quanto. — assegurou ela. — Mas vamos ao que interessa. Por que me chamou aqui?
— As crianças estão com saudade da mãe delas. — respondeu ele, seu olhar ficou triste.
— Tem sido dias complicados para mim, mas… Acho que está na hora de mudar de endereço. — respondeu ela, subjetivamente.
Ambos controlaram seus olhares e mantiveram silêncio assim que os irmãos Dominos passaram por sua mesa, que estava mais centralizada no espaço. Somente depois que %Sebastian% sentou de frente para a mesa deles, que %Nalla% direcionou seu olhar para ele e depois voltou para Fisher.
— Você tem certeza? — indagou Fisher.
— Vocês não estão mais seguros em Lawrence, se até mesmo uma Tenebrae sabe onde estão, não quero que a existência das meninas e a sua chegue ao conhecimento de quem não deve. — explicou ela, com mais clareza.
— Então acha que o tal Andrei Tenebrae pode descobrir sobre nós? — Fisher se remexeu na cadeira um tanto preocupado. — %Nalla%, as meninas…
— Não vou deixar que ninguém se aproxime delas, eu prometo. — %Nalla% numa ação espontânea, segurou as mãos de Fisher, mantendo um olhar seguro para ele. — Elas são nossas pequenas pedras preciosas.
— Obrigado por não nos deixar. — o olhar de Fisher ficou mais emocionado para ela, o que a fez sentir um conforto no coração. — Tem sido dias difíceis para nós também, elas perguntam pela mãe e eu não posso dizer a verdade.
— Traga elas para Chicago, é a única forma de eu garantir a segurança de vocês. — pediu ela, sem medo das consequências daquela mudança de planos. — Prometo que não vou ficar mais longe de vocês, agora mais do que nunca preciso estar perto.
Miller sentiu uma pontada de tristeza seguido de angústia.
Ela sabia que, de todos os segredos de sua vida, sua família era o que mais lhe deixava apreensiva e vulnerável. Por um breve momento ela se lembrou do nascimento da primogênita Jullie e de como o olhar doce da pequena lhe fez ter esperança e força para seguir adiante com tudo. Pela primeira vez em meses o coração duro de %Nalla% se encheu de emoção, fazendo uma singela lágrima escorrer em seu rosto. Fisher ergueu a mão e tocou em seu rosto com suavidade para limpar.
O clima estava calmo e sereno, até que uma ação repentina e furiosa de %Sebastian% o fez agarrar Fisher pelo colarinho e socar sua cara, o derrubando no chão. A ação fora tão rápida que nem mesmo %Nalla% conseguiu ter alguma reação imediata. Somente depois que sua mente absorveu o ocorrido, que ela se levantou da cadeira e se colocou entre ambos, impedindo o Dominos de avançar novamente em Fisher.
— O que pensa que está fazendo, %Sebastian% Dominos?! — ela manteve um tom baixo, entretanto sério.
— Saia da minha frente. — ordenou ele, com os olhos fervilhando raiva.
— Não. — retrucou ela, com o olhar firme.
— %Sebastian%, vamos embora. — aconselhou %Simon%, ao tentar segurar o irmão.
— Eu não saio daqui até fazer o que desejo. — ele se manteve imóvel, encarando ela.
— Quando vai aprender a controlar seus impulsos? E pensar antes de agir? — %Nalla% o confrontou confiante por fora, mas por dentro trêmula e temerosa. — Ele não é o seu inimigo e para chegar em Fisher, terá que passar por mim.
— Então é isso? Vai defendê-lo é óbvio, é o seu marido. — %Sebastian% cuspiu as palavras em sua cara. — Você é realmente uma farsa.
Fisher ainda caído no chão olhou para aquela cena confuso e atordoado. Não conseguia entender o motivo de tanta raiva que o Dominos possuía dele.
— Vamos %Nalla%, eu estou bem. — o homem se levantou e segurou no braço dela.
— Não toque nela. — %Sebastian% segurou a mão dele para afastar da sliter.
— Não toque nele. — %Nalla% interferiu novamente, num tom mais rude. — Seu problema é comigo, e pelo que vejo, não levou minhas palavras em consideração.
— O que mais você quer que eu descubra, se tudo o que precisava ver, já vi hoje? — alegou o Dominos. — Não vou deixar que me enlouqueça.
— A verdade liberta não enlouquece ninguém. — ela deu um passo para se afastar e olhou para o irmão caçula. — %Jenie% está sobre a proteção da Darko, espero que esteja em paz com a sua decisão, pois foi o gatilho para ela se declarar abertamente como herdeira no futuro.
— O quê? — %Simon% se mostrou surpreso.
— Leia os jornais. — Miller se afastou na companhia de Fisher, seguindo para a saída.
Novamente a misteriosa sliter deixou no ar seus mistérios e indagações. E não somente o chefe Dominos havia permanecido intrigado, como também o caçula.
Essa melodia triste se assemelha a você
Ela me faz chorar eh eh
Seu aroma é um doce crime
Eu te odeio muito, mas ainda amo você.
- Stay / BlackPink