48 • Dias em família
North Vancouver, Canadá
Dizem que quanto mais cavamos, mais segredos nos desenterramos. Ali estava %Mia% Sollary no porão da casa, enrolada em um cobertor e concentrada em sua leitora, prontuário por prontuário. A madrugada passou e aos primeiros raios de sol pela manhã, finalmente a residente fechou a décima quinta caixa e olhou para seu marido que adormeceu no velho sofá de couro surrado que tinha ali. %Demeter% não a deixaria passar a madrugada sozinha em suas buscas, porém, também não teria paciência para ajudá-la a ler tudo aquilo que visivelmente ele não entenderia, então apenas se fez presente para não deixá-la sozinha.
— Hum... — um sorriso meigo surgiu em seu rosto, ao contemplar a beleza do marido.
Ao se levantar da cadeira, %Mia% deu alguns passos até o sofá e se deitou ao lado de %Demeter%, não tinha muito espaço e lhe pareceu desconfortável a primeira impressão.
— Como conseguiu dormir aqui? — sussurrou ela, incomodada com o desconforto.
— Por que não me acordou? — %Demeter% resmungou baixinho, sorrindo de canto ao sentir o calor do corpo dela, logo ele a envolveu com o braço direito, puxando-a para mais perto ainda — Passou a noite acordada?
— Sim, não consegui parar de procurar. — respondeu ela, sentindo o marido lhe dar um selinho no pescoço, arrepiando de leve seu corpo — Está aqui em algum lugar, só preciso achar.
— Que tal adiarmos essa procura um pouco e curtir nosso momento família, afinal não foi para revirar o passado que viajamos para cá. — expressou ele, lembrando-a do propósito inicial de estarem ali.
— Você tem razão. — sussurrou ela, contra fatos não há argumentos.
— Alguma sugestão para nossa programação de hoje? — perguntou ele, sugestivamente começando a acariciá-la.
— Achei que você já tinha tudo programado? — ela se remexeu um pouco para olhá-lo — Baker, está sem ideias?
Ela riu de leve, em provocação.
— Ideias? — ele sorriu de canto com malícia — Minha querida, só de olhar para você minha mente já se enche de ideias.
— Hum... — ela virou para frente novamente, sentindo o coração acelerado — Me surpreenda então.
— Eu preciso saber se minha esposa conseguirá ficar acordada após uma noite em claro. — instigou ele.
— Por favor, eu já passei 72 horas em um plantão, é claro que vou conseguir levar o dia com minha família. — retrucou ela, achando irrelevante o comentário dele.
— Estou contando com isso. — pronunciou ele, num tom mais baixo, beijando-a no pescoço novamente.
%Mia% sentiu seu corpo arrepiar com os toques do marido, permitindo-o avançar pouco a pouco em suas malícias e intensidade. O que dizer de um Baker apaixonado que não mede esforços para demonstrar todo o seu amor, seja entre quatro paredes ou não, os sentimentos dele sempre seriam evidenciados de forma clara e direta para que não restasse dúvidas ou aberturas para inseguranças de parte de sua esposa.
E quanto mais %Demeter% expressava, mais barreiras continuavam a quebrar dentro de %Mia% e suas muralhas de incertezas.
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Como presumiu, assim aconteceu.
%Demeter% manteve seu sorriso de canto ao observar mais um pouco sua esposa desmaiada em seus braços. É claro que após passar por um plantão pesado no hospital, antes de viajarem e agora mais uma noite em claro procurando respostas no porão daquela casa, faria com que nossa residente se entregasse ao cansaço e não resistisse ao sono. Em muitos momentos, %Mia% se esquecia que não era uma máquina e que seu corpo e mente seguia um longo tempo de estresse e turbulência.
— Bem como eu imaginei... — sussurrou ele, ao erguer seu corpo e se levantar do velho sofá com cautela.
Pegando sua esposa no colo, Baker a levou para o quarto, assim poderia descansar melhor e não ser atormentada pelas muitas dores nas costas que provavelmente teria depois. Ao deitá-la sobre a cama, lhe deu um selinho nos lábios e a cobriu com um lençol, para uma manhã fresca, nada como a brisa que entrava pela janela para embainhar seus sonhos, e ele fez questão de deixar as cortinas em uma posição adequada para escurecer o quarto, porém deixando-o refrescante. Saindo e fechando a porta, seguiu para a sala, sua concentração na esposa adormecida nem mesmo deu-lhe a percepção da filha já acordada no chão da sala a brincar com seu cachorrinho.
— Bom dia, princesa. — disse ele, ao se aproximar dela, e lhe dar um beijo no topo da cabeça.
— Bom dia, papai. — Molly sorriu de forma meiga para ele, continha um olhar feliz.
— Como foi sua noite? — ele se abaixou e se sentou ao lado dela, atento às suas expressões.
— Bem, mais uma noite eu consegui dormir com o Kookie, sem sufocá-lo.
— Que bom. — ele sorriu, admirado com ela.
— Sim, a tia %Mia% foi bem legal em me ensinar seus truques. — assentiu a garota.
— Você está gostando dela? — perguntou %Demeter%, curioso.
— Sim, ela é mais legal que a tia Rose. — confessou a garota, num tom mais baixo.
— Por quê? — indagou ele, ficando mais interessado na história.
Molly se calou, permanecendo com o olhar voltado ao animal em seu colo. Ela não queria trazer nenhum tipo de problema para sua tia, porém ao mesmo tempo não queria mentir para seu pai, então resolveu omitir seus pensamentos para não criar confusão. Mesmo sendo uma criança muito nova e inicialmente alfabetizada por sua tia, era esperta e inteligente, além de muito observadora, o que a levou a desenvolver uma boa memória fotográfica e auditiva.
— Está tudo bem, se não quiser falar. — disse %Demeter%, ao respirar fundo demonstrando paciência com ela.
— Obrigada, papai. — Molly sorriu novamente, ao olhá-lo com graça — Estou com fome, podemos tomar café da manhã?
— É claro que podemos. — ele sorriu de volta e levantou de imediato — O que você quer comer?
— Não sei... — ela se levantou atrás pensativa — Panquecas?
— Hum... — ele avaliou mentalmente suas habilidades gastronômicas para aquele pedido — É claro que podemos comer panquecas.
— O senhor sabe fazer panquecas? — seu olhar ficou desconfiado.
No curto espaço de tempo, Molly já havia aprendido que o pai era péssimo na cozinha, quando se tratava de refeições complexas, já a sua esposa tinha mãos de fada para cozinhar, entretanto ela não estava ali o que deixava a criança com receio.
— Querida, é para isso que existe o senhor Youtube. — assegurou ele, piscando de leve, fazendo-a rir.
Molly assentiu com a cabeça e sendo pega pela mão, foi para a cozinha na companhia do pai e sua empolgação momentânea. Sentada na banqueta, ficou por alguns minutos observando-o separar os ingredientes e começar o preparo totalmente despreparado. E mesmo com as trapalhadas do pai, ela estava mesmo se divertindo com ele a ponto de surgir gargalhadas em meio ao processo. Em um dado momento %Demeter% pegou um punhado de farinha e soprou no rosto da filha, que se encolheu em risos e fez o mesmo com ele, logo a bagunça se estabeleceu na cozinha com farinha sendo jogada para todos os lados e ambos em risos tendo Kookie correndo em volta de ambos participando da brincadeira. Ao final, as panquecas conseguiram resistir ao desastre que o ambiente sofreu e o cheiro gostoso se espalhou toda a casa, deixando a pequena Molly ansiosa para comer o experimento do pai.
— E então? — perguntou o pai, com as expectativas altas.
— Muito gostoso! — respondeu ela, bem espontânea enquanto saboreava mais um pedaço.
— Mais gostoso que a panqueca da tia %Mia%? — instigou ele — Pode admitir, prometo guardar segredo.
— Eu te amor papai, mas não, a tia %Mia% ainda faz melhor que você e a tia Rose.
Ele fez cara de cão abandonado, fazendo-a rir.
— Então é isso que você faz enquanto estou dormindo? — a voz de %Mia% soou da porta.
— Você ouviu? — ele se fez de inocente.
Ela assentiu com a cabeça e continuou.
— Não adianta tentar, não vai conseguir me superar na cozinha. — ela olhou para Molly e piscou de leve, arrancando um riso rápido e bobo dela.
%Demeter% se sentiu traído pela filha, percebendo a troca de cumplicidade das duas.
— Minha própria filha, sua traidora. — ele se levantou da banqueta, aproximando mais dela — Vou me vingar fazendo chuva de cócegas.
Ele se moveu rapidamente, vendo a filha já se encolher rindo antes mesmo do ataque do pai. %Mia% ficou olhando e rindo juntamente, percebendo um sentimento novo fluindo internamente.
— Socorro, tia %Mia%! — pediu Molly dando gargalhadas.
A residente se aproximou mais, e tocando no pescoço de %Demeter%, deslizou seus dedos de forma sinuosa, fazendo ele perder o foco.
— Isso é golpe baixo, sabia? — disse ele, ao voltar sua atenção para a esposa e lhe roubar um selinho.
— Só estava salvando nossa pequena. — em sua defesa, ela olhou novamente para a criança e piscou de leve.
— Papai, posso brincar lá fora? — perguntou Molly, mudando radicalmente de assunto.
— Claro que pode, querida. — assentiu ele — Mas cuidado para não se machucar.
Ela o abraçou no impulso e desceu da banqueta, correndo em direção a porta.
— Vem Kookie, vamos brincar. — chamou ela, sendo seguida pelo cachorrinho.
O casal ficou em silêncio a observando, até que saiu pela porta dos fundos, fechando-a. Então %Mia% finalmente pode perceber a bagunça que estava no lugar.
— Que furacão passou por essa cozinha? — indagou ela, desacreditada que tudo aquilo pudesse ser resultado de algumas panquecas.
— Bem... — %Demeter% coçou a cabeça, sem conseguir explicações mais plausíveis para ela.
— Você vai limpar tudo, e sozinho. — disse a mulher, em tom de ordem.
— Que malvada, não vai nem me ajudar? — ele fez cara de piedade — Eu sou apenas um pai que lutou arduamente contra o fogão para alimentar uma filha faminta.
Suas palavras soaram um tom dramático e sofrido.
— Sei. — ela soltou uma gargalhada — Não me convenceu.
— %Mia%... — ele deu alguns passos até ela, envolvendo nos braços pela cintura — Eu juro que tentei ser organizado como você...
— Por que me deixou dormindo? — indagou ela, tentando ser forte e resistente ao seu charme.
— Você parecia estar em sono profundo, não quis te acordar. — revelou ele, seu lado preocupado e cuidadoso com a esposa — Por mais que seja
dias em família, quero que descanse também, sei como sua mente tem ficado cansada devido aos problemas do hospital e todo o resto da Continuum.
— Obrigada, por ter planejado esses dias. — ela sorriu um pouco e depois lhe deu um selinho.
— Só isso? — reclamou ele — Estamos sozinhos...
Ela nem mesmo o deixou terminar a queixa e já foi iniciando um beijo de verdade, com direito a toques maliciosos e muita intensidade. %Demeter% jamais conseguiria se segurar com a esposa, então correspondeu na mesma proporção, fazendo ambos os corações acelerarem.
— Eu te amo. — sussurrou ela, o afastando um pouco ao perceber que as coisas poderiam perder o controle ali na cozinha.
Internamente ela queria muito ser agarrada pelo marido ali mesmo, não se importar com os móveis da casa e até mesmo viver a emoção de quebrar a mesa da cozinha. Entretanto, nem tudo são desejos e prazeres, pois havia uma terceira pessoa envolvida ali, que inocentemente permanecia correndo pela grama com seu filhote de cachorro.
— Eu também te amo. — declarou ele, entendendo com seu gesto que deveria se comportar por hora.
— Vamos arrumar essa bagunça? — perguntou.
Baker assentiu e após outro beijo, se afastou da esposa.
Sob a supervisão dela, iniciou sua tarefa de deixar tudo limpo e organizado. As horas foram passando e sob a sugestão de %Mia%, a família se deslocou para um rancho que tinha próximo ao terreno da casa. O proprietário, senhor Colter, logo reconheceu a residente, por seu sorriso que parecia com o da falecida mãe. Minutos de conversa falando do passado, o homem lembrou-se do dia em que tio Gustav chegou em sua casa acompanhado de uma criança nos braços, pedindo para escondê-la. O que deixou Sollary com mais curiosidade em encontrar o prontuário da herdeira Tenebrae.
Logo %Demeter% mudou de assunto, para não estragar seu passeio, e com isso aceitou alugar dois cavalos de Colter para dar mais aventura à tarde deles.
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— Foi boa a ideia de colocar o Kookie dentro da roupa, assim ele ficou mais protegido e não caiu do cavalo. — disse %Mia%, impressionada com o improviso do marido.
— Você não foi a única que teve cachorros na infância. — relatou ele, com tranquilidade.
— Tudo bem, senhor gambiarra. — brincou ela, recebendo uma piscada boba dele.
— Foi um dia longo. — comentou %Demeter%, ao voltar o olhar para a filha que dormia abraçada ao cachorrinho no sofá da sala.
— Sim, e a Molly se divertiu muito. — concordou %Mia%, ao se aproximar do marido e abraçá-lo por trás.
Após o retorno da família para casa, a residente havia notado ele bem reflexivo e silencioso, deixando-a curiosa. Atraindo sua atenção, %Mia% lhe deu um beijo na nuca, arrancando um sorriso.
— O que deseja de mim, senhora Sollary-Baker? — brincou ele, sentindo o corpo aquecer com o calor dela.
— Seus pensamentos. — revelou ela, respirando fundo — Passou a tarde calado, eu percebi.
— Sim. — assentiu ele, virando seu corpo para ficar de frente para ela.
— O que houve? Annia ligou? — perguntou ela, se preocupando.
— Não, Annia disse que não iria nos incomodar até retornarmos, mesmo que o mundo queimasse. — contou ele, rindo de leve.
— Annia, sendo Annia. — admitiu ela, o pouco que conhecia a cunhada — Então o que foi?
— Uma coisa que Molly disse, me deixou pensativo o dia todo. — confessou ele, o ponto chave.
— O que ela disse? — indagou a residente.
— Que você era mais legal que a Rose. — sua voz soou mais séria e preocupada.
— Geralmente as crianças não gostam tanto assim das madrastas. — expôs %Mia%, baseado em fatos reais com a atual esposa do pai — Falo por experiência própria, se é que eu posso considerar uma mulher com a mesma idade que eu uma madrasta... Mas, enfim, as palavras de Molly deixam parecer que Rose não é a tia perfeita como imaginamos.
— Isso me levou a pensar, no fato de Rose ter aparecido em nossas vidas mesmo tendo o auxílio da minha irmã. — avaliou %Demeter%, revelando sua inquietação — Tentar entender o real motivo.
— Talvez Molly tenha dito isso porque eu estou tentando conquistar ela, e lhe feito alguns mimos para não sair de malévola... — %Mia% tentou suavizar as palavras da criança — A Rose é a tia, certamente Molly já deve ter ouvido muitos nãos da sua tia...
Baker tentou olhar pelo ponto de vista da esposa. Seu argumento tinha fundamentos.
— Mas é claro que sendo ou não uma boa tia, eu também não confio nela. — afirmou %Mia%, sua palavra final a respeito daquele assunto.
— Obrigado. — %Demeter% sorriu de canto e a beijou com doçura — Por estar ao meu lado, eu realmente não sei o que seria de mim agora se não estivesse comigo.
— Você se tornou um bom pai em um curto espaço de tempo, não acho que tenha sido mérito meu. — confessou ela, orgulhosa do marido — Mas, devo admitir que a cada dia consigo me surpreendo com você, meu paciente favorito.
— Eu te amo. — disse ele, abertamente e com clareza como sempre fazia.
Baker jamais teve vergonha de assumir seus sentimentos pela residente, e estava feliz por não ter desistido de conquistá-la, afinal ela é a mulher a quem decidiu entregar não somente o coração, mas a si por completo. Minutos após uma profunda troca de olhares, %Mia% se afastou um pouco dele envergonhada pela forte atração que estava sentindo do marido.
— Temos criança em casa. — brincou ela, ao medir a distância de um braço dele.
— E já não te disse que sei ser silencioso? — ele a olhou com malícia, arrancando riso dela.
— Baker... — ela tentou o repreender sem sucesso, sendo silenciada pelos lábios dele.
%Demeter% com seu jeito bobo e charmoso, a pegou no colo em meio ao beijo, não permitindo que houvesse mesmo nenhum barulho que pudesse acordar a criança. Afinal, não seria um pequeno detalhe como a presença de Molly que o faria ser menos intenso com sua esposa, e esfriar o lado casal que lutou fortemente para construir entre ambos. %Mia% por sua vez, se surpreendeu com a ousadia e sagacidade do marido, mas achou maravilhosa aquela fuga para o quarto estilo filmes românticos dos anos 90.
Dois dias se passaram, com Baker insistindo em prolongar a estadia da família em
North Vancouver longe dos problemas da Continuum. Em uma manhã ensolarada, %Mia% acordou primeiro sentindo-se mais descansada e animada para aquele dia. Após mais uma noite calorosa de amor e horas preciosas de sono nos braços do seu amado, assim como os dias divertidos e cheios de aventuras com a enteada, finalmente ela poderia dizer que havia aproveitado ao máximo sua estadia ali.
Após preparar waffles para o café e deixá-lo no forno para manter longe de insetos, ela se lembrou de sua busca pelo segredo da família, e do dia em que Raffaeli comentou sobre o cofre do tio escondido no closet do quarto principal. Assim, ela retornou ao quarto para retornar a sua busca.
— O que faz aí, senhora Sollary-Baker? — a voz de %Demeter% soou ainda embriagada de sono, enquanto erguia de leve o corpo.
— Estou tentando tirar uma dúvida. — explicou ela — Me lembrei que o cofre do tio Gustav está neste quarto em algum lugar.
—
%Mia% Elizabeth Sollary Baker. — ele a chamou pelo nome completo.
— %Demeter%? — ela se virou para ele.
Ele ergueu mais seu corpo e com o dedo indicador, a chamou novamente. %Mia% respirou fundo, e mesmo contrariada acabou cedendo ao seguir até a cama e se sentar ao seu lado ficando de frente para ele.
— O que combinamos? — perguntou ele, com serenidade ao segurar a sua mão.
— Nada de Continuum até voltarmos. — respondeu ela, diretamente.
— Então? — ele se manteve sério, com o tom mais firme.
— Mas é que... Eu me lembrei de algo e temos uma oportunidade pra descobrir o maior segredo dessa sociedade. — explicou ela, em sua defesa — Eu juro que não quero atrapalhar nosso momento família.
— Nós voltamos amanhã à tarde... — ele entrelaçou seus dedos — Não acha que juntos seria melhor a procura? Eu prometo que te ajudo a procurar esses documentos, mas só amanhã de manhã. Combinado?
— Sim... Combinado. — assentiu ela.
— E o meu beijo para selar nosso acordo? — ele mordeu o lábio inferior, com malícia.
— Só um beijo? — provocou ela.
Ele riu de leve se impulsionando para beijá-la. Sempre que ambos estavam sozinhos em um ambiente, nunca seria apenas um beijo e %Mia% sabia muito bem... Oficina, sala de descanso do hospital, banco de trás do carro em algum estacionamento vazio, escritório do restaurante de Dominos, adega de vinhos da cobertura do senhor Sollary, jardim de inverno da mansão Baker, sofá velho do porão da casa do tio Gustav, não importava onde estavam %Demeter% sempre dava um jeito de despertar em %Mia% os mais profundos desejos e anseios, para que pudessem desfrutar um ao outro da forma mais sublime e intensa que conseguia. E quanto mais ele a queria, mais ela se entregava ao marido se esquecendo de todas as inseguranças que um dia possuiu relacionadas a ele.
Definitivamente o mecânico aprendiz conseguiu se tornar seu ponto fraco.
— Você sabe mesmo como me tirar o foco. — reclamou ela, aninhada em seus braços após mais uma vez ser vencida pelo charme Baker.
— Você acha? — ele riu, enquanto acariciava seus cabelos.
— Será que Molly já está acordada? — ela perguntou — Quando você a levou na cama?
— Quando estava no banho. — respondeu ele.
— O primeiro ou o segundo banho? — indagou ela, tentando lembrar.
— O primeiro. — ele riu de leve — Não sou um pai desnaturado, não deixaria minha filha dormindo no sofá, enquanto desfruto do calor de um banho com minha esposa, por mais tentador que fosse.
— Que fofo, depois diz que não sabe como ser um bom pai. — brincou ela.
— Eu sei que sou um bom pai... — ele se remexeu na cama, a trazendo para mais perto beijando seu pescoço — E sou um excelente marido!
— Baker... — em sussurro %Mia% tentou não admitir, mais seu corpo arrepiado a denunciou de imediato.
Em um piscar de olhos e interrompendo o momento malicioso do casal, o celular de %Mia% tocou. %Demeter% olhou revoltado para o aparelho e depois para ela, que não foi capaz de se explicar ou defender.
— Me desculpa, eu liguei para ele assim que acordei. — contou ela, já sabendo que viria alguma repreensão de sua parte — Estava ansiosa para saber como estão as coisas no hospital.
Ele respirou fundo, se afastando dela e se deitando novamente, mantendo a atenção ao teto.
— Atenda. — foram suas únicas palavras, mas soaram com frustração e irritabilidade.
%Mia% sem discutir, apenas ergueu seu corpo e pegou o aparelho atendendo a ligação.
— Sim? — disse a residente.
—
%Mia%... Que bom que atendeu. — a voz era de %Simon%, tinha traços de inquietação.
— %Simon%? A que se deve sua ligação? — perguntou ela, surpresa.
—
Preciso da sua ajuda. — pediu ele, como um grito preso de socorro —
Preciso que me ajude com o %Sebastian%. — O que aconteceu com o %Sebastian%? — %Mia%, ergueu mais o corpo se sentando na cama.
Logo %Demeter% ao seu lado se sentou também, tentando entender o que acontecia naquela ligação.
— Levaram a %Nalla%... — a voz de %Simon% falhou um pouco — Andrei levou a %Nalla% e já deve imaginar como ele está.
Assim como o irmão, %Simon% também estava transbordando raiva, pois ainda permanecia vivo em seus pensamentos os aflitos momentos que passou em surto enquanto não tinha nenhuma notícia de %Jenie%.
— Não se preocupe, %Simon%, estou indo para Chicago imediatamente. — assegurou ela com firmeza.
%Mia% encerrou a ligação e voltou o olhar para o marido, que tentava entender o motivo de sua decisão.
— O que aconteceu? — perguntou %Demeter%.
— Andrei Tenebrae levou a %Nalla%. — revelou %Mia%, se sentindo impotente a respeito dos ataques do traidor — Isso tem que acabar, %Demeter%.
— Vá para Chicago, vou passar em Manhattan para ver como minha irmã está. — %Demeter% se levantou da cama para se vestir.
— E a Molly? — indagou ela.
— Ficará comigo. — soou como sua palavra final, sem direitos a argumentos — Molly não vai sair de perto de mim enquanto Andrei estiver vivo.
Someone call the doctor.
- Overdose / EXO