38 • Le Petit
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Algum lugar de Seattle...
Se estar casada já era uma grande mudança para Sollary, o fato de seu agora marido ter uma filha a deixava ainda mais desnorteada. No fundo ela entendia que o fato ocorrido da aproximação de Baker com a tal Giulia, foi na época em que ambos nem se conheciam. Mas o argumento de seu lado racional não foi suficiente para que suas emoções a dominasse por completo, fazendo-a sair correndo em direção ao saguão do prédio.
— MIA! — as únicas coisas que ela conseguiu ouvir de seu marido que a gritava também confuso.
Por mais que Baker de imediato impulsionou seu corpo para correr atrás de sua esposa, não obteve sucesso. Perdendo-a de vista, assim que a mesma entrou no elevador. O desespero tomou conta de seu coração, fazendo-o se voltar para ao lado com o pretexto de subir correndo as escadas.
— Baker! — Rosalie gritou seu nome.
— Por que está aqui? — ele tentou ponderar sua voz, percebendo o tom alterado. — Se essa criança é mesmo minha, por que somente agora apareceu?
— Porque a minha irmã está morta! — respondeu ela, deixando sua voz trêmula se elevar também. — Mataram ela e só não fizeram o mesmo com a Molly por sorte.
O corpo de Baker gelou, paralisando sua mente e pensamentos.
— Após a ameaça da sua mãe, saímos do Brooklyn e nos mudamos para o Texas. — ela continuou contando sua história. — Juramos nunca mais mencionar seu nome e esquecer que a sua família e a Continuum existiam, era só nos três, perdemos nossos pais muito novas e nosso desejo era apenas viver nossa vida em paz e longe de tudo isso, mas...
Ela tentou contar as lágrimas formadas no canto do olho.
— Mas? — insistiu ele tentando entender.
— Mas a três meses atrás, alguns homens invadiram nossa casa e a sangue frio assassinaram minha irmã. — continuou Rosalie ao respirar fundo. — A princípio eu achei que fosse a sua mãe ou a sua irmã, alguém da sua família tentando apagar a gente do mapa, até que encontrei esse cartão caído debaixo de um dos móveis quando juntei nossas coisas para fugirmos.
Ela retirou o cartão do bolso e esticou para ele. Baker pegou o e ficou seu olhar no brasão em traços dourados que estava desenhado sobre o fundo preto na frente do cartão. Logo seus punhos se fecharam, deixando a raiva tomar conta do seu interior.
— Eu juro que se não fosse pela segurança da Molly, jamais teria vindo, mas ela é sua filha. — completou Rosalie sentindo uma lágrima escorrer no canto do olho. — Eu tentei lidar com tudo isso sozinha, mas quando saio na rua, sinto que estou sendo seguida e que posso colocar ela em perigo de novo… Não me importo comigo mesma, mas apenas com ela.
Assim que terminou de falar, o olhar de ambos se voltaram para a pequena que estava encolhida atrás de uma coluna. Seus olhos amedrontados despertaram certa ternura em Baker, que começou a jurar internamente que faria o responsável pagar por aquilo.
— Não se preocupe, vocês ficarão seguras agora. — afirmou ele, certo de suas palavras. — Venha comigo.
Ele se voltou para o elevador e apertou o botão, assim que as portas se abriram, Baker as levou para seu apartamento e deixou uma cópia com Rosalie. Mesmo com mais uma preocupação em sua vida, que chegou de forma inesperada, seus pensamentos se mantinham em Sollary.
Ao abrir o apartamento de %Mia%, as luzes estavam todas apagadas. Baker acendeu a primeira no interruptor ao lado e fechou a porta. Não demorou para constatar o óbvio, o apartamento estava vazio e sua esposa nenhum sinal. Pegando o celular no bolso, digitou o número dela e iniciou a ligação:
Oi, aqui é a Drª Sollary, agora Baker, no momento não posso atender, ligue amanhã. — %Mia%, por favor, eu sei que está segurando o celular agora. — disse ele após o sinal. — Me atende, precisamos conversar.
Ele insistiu em ligar mais algumas vezes.
O que Baker menos queria naquele momento era ver sua esposa chateada com algo relacionado a ele, ter uma briga de casal então seria pior que todos os acidentes de moto que teve na vida. Em um vislumbre de raiva por toda a guerra da Continuum, com os olhos marejados de lágrimas, ele socou a parede desejando socar o causador de todo aquele caos gerado.
%Demeter% Baker sempre foi tido como o herdeiro mais tranquilo e pacífico da Continuum, entretanto um homem carregado de fúria era capaz de correr qualquer risco para proteger quem ama.
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Minutos antes...
— %Mia%?! — disse %Simon% ao abrir a porta de seu apartamento.
Seu olhar de surpresa era compreensível, pois como poderia imaginar que o dois toques na porta pudesse ser de sua amiga de infância recém-casada.
— Me deixe entrar, por favor. — pediu ela com os olhos visivelmente lacrimejando.
— Claro. — ele abriu um pouco mais a porta para que ela pudesse entrar, então a fechou em seguida. — Está tudo bem? Você me parece abalada.
— É porque de fato estou. — confirmou ela, indo até o sofá e se sentando.
— Bem... — ele se manteve sereno ao observá-la, mesmo preocupando-se com ela e sugeriu. — Que tal eu preparar um pouco de chá e você me contar o que aconteceu?
%Simon% já estava tão acostumado com conflitos amorosos que não viu problema em tentar ajudar uma amiga. Seguindo para a cozinha, o Dominos pegou a chaleira para esquentar um pouco de água. %Mia% de início se manteve sentada no sofá com o olhar fixo no quadro pendurado na parede à sua frente. Não queria pensar em nada, porém a mente cheia de informações não processadas.
— Estava tudo bem, %Simon%, até que voltamos de lua de mel para casa e a realidade bateu em nossa porta. — iniciou ela, bufando em seguida. — Às vezes ser da Continuum...
— É uma perdição. — completou ele, rindo baixo começando a pensar no que poderia fazer para acalmá-la além do chá. — Esse é um fardo que poucos conseguem carregar, mas o que a Continuum tem a ver com você bater em minha porta?
— Brotou da terra, uma mulher com uma criança contando a história que a irmã teve uma filha com o Baker a cinco anos atrás. — ela segurou as lágrimas. — Você não imagina o quão sem estrutura eu estou me sentindo agora.
— Acredite, eu imagino sim. — sussurrou ele, enquanto continuava a mexer em alguns utensílios do armário embaixo da bancada da pia.
— Minha mente está em plena confusão, quando me dei conta, já estava batendo em sua porta. — confessou ela, controlando o desespero interno. — Não queria ir para casa e ter que ligar com essa enxurrada de informação e no desespero nem imaginei descer para a garagem.
— A quanto tempo conhece o Baker? — perguntou ele.
— Há mais ou menos uns dois anos, quando o socorri no acidente que teve. — respondeu ela. — Foi até noticiado no Continuum Post.
— E a criança tem cinco anos? — reforçou ele.
— Sim. — assentou %Mia%, se pegando um pouco confusa agora. — Bem, ela parece ter cinco anos.
— E o %Demeter% sabia disso? — continuou ele em sua indagação, enquanto continuava concentrado no que preparava na cozinha.
— Não. — afirmou ela, agora num tom seguro. — Pelo pouco que conheço do %Demeter%, ele jamais ocultaria algo tão sério assim de mim, ainda mais depois de todo esse tempo tentando me conquistar.
— Então é provável que tenha a mão da mãe dele envolvida no fato dele não saber. — comentou %Simon%.
— Sim, foi o que a mulher disse, que a irmã foi ameaçada pela Allison para se afastar dele, e só depois descobriu a gravidez e ocultou. — explicou %Mia%. — Eu sei que é ilógico, mas estou com raiva de tudo isso.
— E você está abalada por saber que o %Demeter% é pai de uma criança que nem sabia que existia e que foi de um relacionamento de muitos anos antes de se conhecerem. — %Simon% parou o que estava fazendo, ao concluir o desfecho de tudo e a olhou com certa indignação. — Onde está minha amiga %Mia% Sollary racional que não se deixaria abalar pela situação, mas compreenderia o que aconteceu e estaria ao lado do homem que ama para apoiá-lo?
— %Simon%! — ela o olhou.
— Essa mulher na minha frente não é a %Mia% que eu conheço. — disse Dominos.
— Ai %Simon%, eu também não sei o que aconteceu comigo, eu tinha tanta segurança quando estava sozinha e %Demeter% me desarmou de uma forma tão inesperada que... Eu já nem sei mais como reagir a diversidades como essa. — desabafou a residente, segurando suas emoções. — Só consigo ficar chateada com ele.
— Vou ser o amigo que sempre fui e te aconselhar como um dia fez comigo. — %Simon% suspirou de leve. — Não falei aquelas coisas sobre apoiar o Baker por machismo ou algo assim, mas é que sua situação lembra muito a minha...
— Em quê? — perguntou ela.
— No momento em que %Jenie% mais precisou de mim, eu apenas virei as costas para ela achando estar fazendo o certo, agora corro o risco de nunca mais tê-la de volta. — explicou ele, também segurando seus sentimentos, sentindo um aperto no coração. — Eu sei que as situações são totalmente diferentes uma da outra, mas o fato é que o homem que você ama precisa de você, o que vai fazer? Vai virar as costas pra ele?
%Mia% ficou reflexiva por aquelas palavras, até que sua atenção foi despertada para o celular em seu bolso. Ela apenas olhou no visor o nome de Baker na chamada e colocou o aparelho no sofá ao seu lado. No fundo ela sabia que %Simon% estava certo, mas precisava daquele momento distante para si.
— Posso me dar o direito de ficar com raiva dele apenas por hoje? — indagou ela, num tom manhoso fazendo-o rir.
— Sabe que a casa de um Dominos sempre estará aberta para uma Sollary. — brincou ele.
— Se que não posso fugir dos problemas, mas preciso de um tempo para absorver cada um deles e lidar com tudo tem sido estressante. — ela soltou um suspiro fraco e se manteve a observá-lo.
— Isso inclui a residência? — perguntou.
— Principalmente a residência. — assentiu.
%Simon% ficou em silêncio com a atenção voltada no que fazia em sua bancada. Logo a residente ficou curiosa o bastante para se levantar do sofá e ir até ele.
— O que está aprontando aí? — perguntou ela, curiosa.
— Ainda é dia e tenho certeza que não tomou café da manhã. — respondeu ele. — Estou fazendo panquecas para nosso desjejum.
— Humm... Você bem que podia ensinar o meu marido a cozinhar. — comentou ela. — Baker é uma negação na cozinha.
— Meu marido. — brincou ele, tentando imitá-la.
— Deixa de bobagens. — ela riu dele e ele também.
— Você falou da %Jenie%, como estão? — perguntou ela, curiosa.
— Distantes um do outro, pelo que sei ela está na base da Darko da Rússia. — respondeu ele, tentando não transferir para o alimento que preparava sua melancolia da separação. — Não foi fácil passar o dia dos namorados sem ela.
— Eu lamento que estejam afastados. — disse em consolo.
— Obrigado. — ele sorriu de leve e ao ligar a trempe do cooktop da bancada, olhou para ela — Que tal me acompanhar em uma festa esta noite?
— Uma festa? — ela ficou estática — Olhe minha situação, não sei se tenho cabeça para festa, nem mesmo desejo ir para o hospital hoje.
— Você é %Mia% Sollary, a dona daquele hospital, trabalha quando quer. — brincou ele.
— Vai achando que é tão fácil assim, pergunte ao %Sebastian% se ele vai a empresa quando quer. — retrucou ela, demonstrando seu grau de responsabilidade.
— Pois saiba que ele se ausentou por um tempo. — comentou — E eu tive que lidar com isso.
— A demissão da %Nalla%. — disse %Mia%, se lembrando do assunto mais comentado na Continuum. — Tenho que admitir que é um válido argumento para se ausentar, aquela sliter parece representar cinquenta por cento de tudo que o %Sebastian% é.
— Senti uma ponta de ciúmes? — %Simon% a olhou desconfiado.
— Já passei dessa fase, Dominos, e estou mais do que curada das minhas cicatrizes. — revelou ela — Mas, voltando ao assunto, que festa seria essa?
— A tão esperada festa de inauguração do meu restaurante. — declarou com entusiasmo.
— Uau, finalmente. — ela sorriu de felicidade pelo amigo — Fico feliz que esteja seguindo seus sonhos.
— Sim. — ele sorriu também, voltando a atenção para a frigideira das panquecas — Definitivamente ser um homem de negócios não é para mim e deixo este fardo com %Sebastian%.
— Isso é verdade, não sei como ele consegue gostar disso. — ela riu — Ah, Genevieve me ligou contando do noivado, não acredito que ela será a primeira Dominos a se casar.
— Pois é, %Sebastian% tem suas complexidades com a Miller, minha vida está indefinida e a Jass é muito nova. — explicou %Simon% enquanto finalizava o preparo do café — Ficou para Gen atender o pedido da nossa tia em lhe dar sobrinhos netos.
— Como se ela não tivesse o Nigel para encher a casa. — comentou. — Falando nisso, em um tempo que não ligo para a Bella, da última vez ela me disse que estava em viagem.
— Sim, meu irmão a mandou numa missão de pesquisa de campo. — explicou — Vai entender o que seja isso.
— Se tratando do %Sebastian%... — ela voltou olhar para a janela, num longo suspiro.
As horas foram passando e chegando a noite. %Simon% como um bom anfitrião, pediu para que sua assistente comprasse um vestido casual para que %Mia% pudesse estar apresentável para a festa de inauguração do seu restaurante intitulado de
Le Petit.
%Mia% se encontrou ao entrar no empreendimento do amigo. Sua arquitetura industrial moderna trazia consigo um charme inusitado e a sensação aconchegante era transmitida pela disposição das luminárias com iluminação de cor quente. Toda a decoração lhe deixou admirada e orgulhosa do caçula dos Dominos, que não poupou modéstia em dizer que o projeto havia sido todo planejado por ele. Cada detalhe foi repassado à construtora que executou a obra de reforma do imóvel, desde o layout final até a cor das almofadas, revestimentos e toda decoração por completo.
— Você está de parabéns, aqui ficou maravilhoso. — elogiou ela, com um olhar brilhoso.
— Que bom que gostou, sua opinião é sempre bem-vinda. — agradeceu.
— Só porque sou muito crítica? — perguntou ela, fazendo a ofendida ao olhá-lo.
— Exatamente por isso, sei que se tivesse ficado ruim, falaria sem medo. — brincou rindo — Fique à vontade, eu preciso cumprimentar algumas pessoas.
— Sem problema. — %Mia% permaneceu próxima a entrada para o jardim de inverno, observando seu amigo se afastar.
Por mais que %Simon% dissesse não ter jeito para os negócios, sua desenvoltura comunicativa era de causar inveja. Talvez pela genética dos Dominos, pois sua família tem um vasto histórico de comerciantes bem sucedidos.
— %Mia% Sollary, não imaginava te encontrar aqui. — uma voz masculina conhecida se aproximou dela, o dono mantinha um sorriso de canto disfarçado.
— Carlise Tenebrae. — ela disse seu nome eu alto e bom tom — O que faz aqui em Seattle?
— Estou de passagem, vim prestigiar o Dominos. — respondeu ele.
— Só faltou dizer que ele é seu velho amigo. — sua voz soou debochada.
Todos sabiam que as famílias Tenebrae e Dominos tinham uma rixa oculta, algo que iniciou na geração de seus pais.
— Para ser honesto, esperava um encontro casual com uma sliter. — confessou ele, passando o olhar pelo lugar, procurando sua assistente.
— Desde quando tem assuntos com a %Nalla%? — perguntou ela, intrigada.
— Desde quando a %Nalla% é a única sliter que existe na Continuum? — retrucou ele.
— Ok. — ela riu de leve, pegando uma taça de champanhe da bandeja do garçom que passava por eles — O que achou do restaurante?
— Estou surpreso. — confessou ele, fazendo o mesmo que ela, e pegando uma taça também — Mas sendo um Dominos, eu não esperava menos do %Simon%.
— Cada família com sua especificidade. — comentou ela — E como vão as coisas para você? Soube do cargo de diplomata.
— Como você mesmo disse, cada família com sua especificidade. — ele riu de leve ao dar o primeiro gole — A política é como um quebra cabeças para mim, quanto mais complexo o governo, mais eu me interesso e como sou o herdeiro dos Tenebrae, preciso avançar na minha carreira política para chegar ao parlamento.
— Nada neste mundo consegue ser mais complexo que a Continuum, acredite. — brincou ela rindo também.
— Isso é verdade. — concordou.
Logo o olhar de %Mia% se direcionou para a entrada do lugar, reconhecendo outro rosto.
— Eu não acredito, por que ele está aqui? — sussurrou consigo mesma.
— Qual o problema? — perguntou o Tenebrae olhando para a mesma direção — Mal casou e já quer o divórcio?
— Não soou bem seu comentário. — retrucou ela, deixando sua face mais séria.
Sim. Na entrada estava Baker, trajando vestes formais e um all star básico, sendo recebido pelo dono do restaurante em pessoa.
— Agradeço por ter me ligado. — disse %Demeter%, percorrendo seu olhar pelo lugar até encontrar %Mia% conversando com Carlise.
— Se fosse eu e a %Jenie%, tenho certeza que faria o mesmo. — assegurou ele — Espere no meu escritório no mezanino, vou pedir a ela para ir até você, precisam de privacidade e um território neutro.
— Nunca imaginei que um Dominos pudesse fazer o papel da Suíça. — brincou %Demeter%.
— Apenas suba. — %Simon% segurou o riso e apontou para a escada que levava para o mezanino.
%Demeter% assentiu com o olhar e seguiu para o lugar indicado por ele. Afastando-se da entrada, Dominos se aproximou da amiga, que mantinha um olhar atravessado para ele. Carlise aproveitou a deixa para se retirar dali e seguir até o prefeito da cidade.
— Por que ligou para ele? — perguntou ela, em chateação.
— Acredite, você vai me agradecer amanhã de manhã. — ele sorriu de canto.
— Sei. — ela cruzou os braços seriamente.
— Minha avó sempre me disse que na vida a dois o casal jamais pode dormir brigado. — completou ele — Ele te espera no meu escritório no mezanino.
Ela tinha duas escolhas: fugir dos problemas ou agir racionalmente.
Embora o tempo passe, tem palavras,
Que eu não consigo explicar, afundando no meu coração
"Me desculpe" "eu te amo"
Estou te pedindo para acreditar em mim desta vez.
- Promise / EXO