33 • Valentine's Day - Pt. 1
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Sollary Hospital, Seattle
E lá estava %Mia% Sollary em mais um plantão no hospital da família. A noite havia sido turbulenta graças a um incêndio acidental em um evento beneficente que acontecia no prédio da Associação dos Comerciantes. A residente havia sido realocada na equipe de trauma, um pedido do pai que não se conformava por ela ter escolhido a cardiocirurgia como especialização definitiva. Algo que havia lhe deixado irritada.
— La... la... la... la… — Hill entrou no vestiário cantarolando e notou que %Mia% estava deitada no banco. — Amiga?!
— Hum. — a residente resmungou, permanecendo com os olhos fechados.
— O que faz aqui? Achei que já tinha ido para casa. — comentou ela, olhando o relógio no pulso. — São seis da manhã.
— Eu sei. — %Mia% continuou imóvel. — Eu só precisava de um lugar silencioso e a sala de descanso estava ocupada.
— Por que não foi para casa? — Hill se aproximou do seu escaninho e começou a trocar de roupa, não se importando com a presença dela.
— Eu queria cochilar um pouco, não vou voltar agora, consegui uma cirurgia com o doutor Voith. — explicou a Sollary.
— Você vai fazer uma cardio agora de manhã? Mas a Lins disse que você não estava nesse setor, e não me lembro de nenhum cirurgião com esse nome aqui. — Hill a olhou surpresa.
— Não vai ser aqui, vai ser no Seattle West Medical Center. — respondeu a residente, abrindo os olhos e erguendo seu corpo. — Um ex professor meu vai estar lá e me convidou para auxiliá-lo.
— E você via? — a garota ficou boquiaberta.
— Claro. — assentiu %Mia%. — Primeiro porque ele é o melhor em cirurgia cardio, e segundo, se não posso treinar na minha especialização aqui, procuro em outro hospital.
— Seu pai vai te matar. — comentou a amiga.
— Não me importo, desde que me mate após as minhas seis horas de cirurgia. — %Mia% piscou de leve para a amiga e se levantou. — Você, amanhã?
— Não, minha cara. — disse Hill. — A Lins me escalou para ficar na clínica até a próxima semana.
— Boa sorte. — disse %Mia% fazendo uma careta estranha. — Eu vou para minha cirurgia.
Sollary pegou sua bolsa e o jaleco com empolgação e seguiu para o elevador. Ela já tinha cumprido com suas responsabilidades ali, então em seu tempo livre, poderia utilizá-lo da melhor forma possível. Ao chegar no
Seattle West Medical Center, foi logo recebida pelo cirurgião chefe, doutor Yang.
— É um prazer para nós termos uma Sollary nos auxiliando hoje. — disse o homem com um olhar orgulhoso. — Espero que nossas instalações estejam a altura.
— Por favor, eu é que agradeço o convite do doutor Voith. — disse %Mia% mantendo a humildade. — E falando nele, onde está?
— Já está aguardando a senhorita na sala de preparo. — respondeu Yang. — Me acompanhe.
— Sim, claro. — %Mia% assentiu o seguindo pelos corredores.
Discretamente a residente analisou todo o lugar com seus olhares precisos. O hospital concorrente era tão moderno e com tecnologia de ponta quanto o seu, o que a impressionou de imediato. Chegando na sala de preparo, passou por todos os procedimentos de esterilização para entrar na sala de cirurgia. Visivelmente o doutor Voith estava mais animado do que ela por sua presença ali. A cirurgia começou e a residente aproveitou cada minuto das seis horas dentro da sala para tirar dúvidas e viver o momento. Pôde ter as honras de fechar o paciente e se sentiu com sorte por não ter tido nenhuma complicação.
Infelizmente não iria acompanhar o pós-operatório, mas já se dava por satisfeita ao viver aquela experiência. Após trocar de roupa novamente, o doutor Voith lhe convidou para um café.
— Ando curioso com uma coisa… — comentou Voith após serem servidos pelo atendente. — Me encontrei recentemente com o professor Parker e ele havia mencionado sobre sua inclinação para a neurocirurgia, quando foi que mudou para a cardio?
— Bem… — %Mia% foi pega de surpresa e talvez nem tivesse uma resposta pronta para dar a ele. — A história é longa, confesso que sempre me interessei pela neuro por causa do meu pai, é a especialização dele. E confesso que ambas me chamavam atenção, o que não me deixava escolher com cem por cento de certeza, mas depois que auxiliei na minha primeira cardio, senti que havia encontrado meu lugar.
— Acho que te entendo um pouco, a primeira vez que segurei um coração pulsando em minha mão, senti como segurasse a vida. — contou o homem com os olhos brilhando. — Mas e o seu pai? O conhecendo bem, como conheço… Não aceitou bem, não é?
— Não, me proibiu de entrar numa cirurgia cardio no Sollary Hospital. — ela tomou o primeiro gole. — Me colocou no trauma como um tipo de “punição” eu acho.
Voith riu um pouco, conhecia muito bem o pai da garota.
— E o que pretende fazer? Vai deixar a cardio e voltar para a neuro? — perguntou ele.
— Não sei, estou voltando a ficar confusa novamente. — ela riu baixo e voltou o olhar para o lado.
Observou uma mulher com uma criança nos braços, se aproximando do balcão de atendimento. Por um leve momento %Mia% fitou o olhar na criança e sentiu uma sensação estranha, o olhar da pequena lhe remetia alguém, que ela não conseguia se lembrar no momento. Voltando o olhar para o doutor, continuou conversando mais um pouco com ele até que se despediram. Sollary seguiu para casa, ela pensou em passar na oficina, porém seu corpo cansado demais só desejava relaxar e se desligar de tudo.
E foi o que fez quando entrou no seu apartamento. Apenas trancou a porta, retirou sua roupa e se jogou na banheira de espumas para finalmente ter seu momento de descanso. Após minutos ali, ela colocou o pijama e se deitou na cama, com o notebook ao lado para desfrutar a maratona do momento, da série House. Porém, antes mesmo que pudesse chegar no final do primeiro episódio, suas pálpebras pesadas demais a fez se render ao sono.
— Hum… — ela resmungou, após um longo tempo de sono, sentindo a presença de alguém ao seu lado.
Seu corpo estava aninhado a outro, o que a fez abrir os olhos, tentando absorver a situação. Se remexendo, viu o olhar de %Demeter% para ela, com um sorriso singelo.
— O que faz aqui? — perguntou ela em sussurro.
— Não consegui dormir. — respondeu ele. — Eu te acordei?
— Não. — ela sorriu de leve. — Como foi seu dia?
— Cansativo e perturbador. — ele soltou um suspiro cansado.
— Por quê? — ela esfregou a mão nos olhos e ergueu um pouco seu corpo. — O que aconteceu?
— Nossa madrinha de casamento me ligou. — contou ele, se aconchegando mais no travesseiro.
— Qual delas? — o olhar de %Mia% ficou temeroso.
Até mesmo %Demeter% estava achando muito para sua irmã a forma como conduzia a notícia do noivado dos dois. Talvez pelas coisas estarem estáveis na empresa e Annia não ter nada para lhe distrair, que lhe faça esquecer o irmão. Mas o fato é que Baker tinha passado toda a tarde pensando sobre o futuro dele com %Mia%, e não queria que ninguém interferisse na vida de ambos. Seu desejo de não ter sua vida envolvida diretamente com a Continuum era real e ativo. O que significava que um casamento discreto e simples só seria possível sem a interferência de ambas as famílias.
— O que ela queria? — perguntou %Mia%.
— Falar com minha noiva. — ele respirou fundo.
— Annia ligou para você, querendo falar comigo? — a residente se viu confusa. — Não seria mais lógico ligar para mim?
— Seu celular estava desligado. — pontuou ele.
— Ah, eu estava em uma cirurgia. — ela desviou o olhar para a aliança em seu dedo, pensando no peso que aquilo estava se tornando. — Me desculpe, por…
— Nem ouse terminar. — ele a interrompeu. — Está tudo bem e eu já tive uma ideia.
— Terá que confiar em mim. — ele sorriu de canto.
%Mia% arqueou a sobrancelha direita, intrigada com suas palavras. Na manhã seguinte, a residente fora sequestrada por seu noivo que numa viagem inesperada, seguiram de Seattle para outra cidade. Uma ideia maluca e ao mesmo tempo genial na concepção dela. Algo que somente %Demeter% teria a ousadia de pensar e executar sem o menor problema.
— Você é louco, não é? — comentou ela, rindo de tudo aquilo.
— Por você? Com certeza! — garantiu ele. — Eu prometi que não te deixaria desconfortável, não prometi?
— Sim. — confirmou ela. — Eu só não esperava por isso.
Ela olhou mais uma vez ao seu redor, o jardim da pequena igreja estava tão lindo e iluminado naquele final de tarde, que a residente apenas sentiu-se aquecida por dentro. Jamais imaginou se casar em um lugar assim, sem a presença de seus familiares, mas estava se divertindo com a ideia e com o fato de serem apenas os dois ali. E claro alguns desconhecidos de testemunha.
— Quem em sã consciência se casa de verdade em Vegas? — questionou %Mia%, rindo de leve. — Principalmente nesta data, você sabe que dia é hoje, Baker?
— Claro que sei, dia dos namorados. — ele a segurou pela mão e sorriu de canto. — O dia em que me tornarei para sempre seu.
A Sollary sentiu seu corpo arrepiar de leve. %Demeter% sabia muito bem ser intenso quando queria. Com o coração acelerado, os noivos em fuga se aproximaram do altar improvisado e a cerimônia deu início. Com os olhos brilhando %Mia% apenas saboreava o momento sentindo o olhar de Baker voltado totalmente para ela.
— Senhor %Demeter% Baker, é de livre e espontânea vontade que deseja se casar com a senhorita Sollary? — perguntou o juiz de paz.
— Sim. — disse ele, piscando com malícia para ela.
— Senhorita %Mia% Sollary, é de livre e espontânea vontade que deseja se casar com o senhor Baker? — agora o juiz perguntou para ela.
— Hum… — %Mia% fez um charme inicial, mas assim que o sorriso saiu em seu rosto, confirmou o que estava em seu coração. — Sim.
— Pelos poderes do estado concedidos a mim, eu vos declaro casados. — disse o homem, finalizando a cerimônia. — Pode beijar a noiva.
Não demorou segundo até que os lábios de %Demeter% encontrassem os de %Mia%. Um beijo longo e doce que marcava uma nova etapa naquele relacionamento, que demorou para acontecer, mas finalmente era real e sólido.
— Eu te amo. — %Demeter% se declarou.
— Idem. — disse ela, com seu jeito %Mia% de ser. — Agora não tem mais volta, não vai mais se livrar de mim.
— Sou eu quem deveria dizer isso. — ele riu, envolvendo-a em seus braços pela cintura. — Não vai mais fugir de mim, Sollary.
— Eu não quero fugir de você, Baker.
Outro beijo foi iniciado entre o casal, que resolveu passar mais algum tempo naquele belo e inspirador jardim. Como Baker havia pensado em cada detalhe, a noite prosseguiu com um jantar à luz de velas no terraço do
Village Hotel Cassino. O menu agraciado com um cardápio italiano, regado a romance e muitos olhares apaixonados do noivo.
— Você realmente não deixou nada passar, não é? — comentou %Mia%, ao limpar de leve o canto de sua boca com o guardanapo.
Após alguns petiscos de entrada, ter um canelone de espinafre aos quatro queijos de prato principal a deixou boquiaberta. Até mesmo o vinho
Le Blanc Rosé, deixava mais envolvente o momento.
— Consegui te impressionar? — perguntou ele, com um sorriso bobo.
— Você sempre me impressiona, desde a primeira vez. — afirmou ela.
— Isso é bom. — %Demeter% manteve um brilho no olhar.
Por dentro, Baker estava em êxtase total. Havia valido a pena perseverar e não desistir de ter a oportunidade de conquistar a mulher mais maravilhosa que conhecia. De uma admiração pela, na época, interna que o salvou, seus sentimentos foram crescendo e amadurecendo até que se transformaram em amor e amizade. Ele sabia que podia contar com ela, assim como se colocava como seu ombro amigo e suporte.
— Nossa família vai surtar com a gente. — ela soltou uma risada boba. — Mas esta tem sido a melhor noite da minha vida.
— Nossa noite ainda não terminou. — avisou ele. — Mas, quanto a nossa família, todos sabem o quão discretos desejamos ser.
— Hum… Mas eu não possuo ninguém para ficar em meu lugar, como você tem a Annia. — questionou ela. — Ainda assim, sempre serei vista por todos.
— Esse fardo não precisa carregar sozinha. — %Demeter% segurou em sua mão, entrelaçando seus dedos. — Sabe que pode contar comigo, eu não tenho habilidades com um bisturi, mas…
— Eu sei. — ela sorriu de leve. — Não imagina o quanto sou grata por isso… Por não ter desistido de… Você sabe.
— Acredite, valeu a pena esperar por você… E foi divertido. — ele se levantou da mesa e a induziu a se levantar também. — Me concede essa dança?
— Não sou muito boa com danças. — alegou ela.
— Prometo conduzi-la da melhor forma possível. — assegurou ele.
%Mia% assentiu com um frio na barriga.
%Demeter% a guiou para mais afastado da mesa, e ao som dos músicos que tinha no local, uma cortesia do hotel, ele começou a se mover com leveza. Seu olhar fixo em sua agora esposa, Baker apenas a fez dar pequenos passos se aninhando a ele, para lhe transmitir segurança. A mistura de alegria e descoberta passou pela residente, afinal, a única vez que dançou com alguém que não fosse da sua família ou um Dominos, foi na formatura do ensino médio. O pior é que a jovem teve o leve azar de pisar no pé do garoto durante toda a música.
— Isso não é um sonho, não é? — sussurrou ela.
— Se for, não a deixarei acordar. — sussurrou ele de volta.
Sob a luz da lua, mesmo com o frio do final do inverno. Ambos se sentiam aquecidos internamente. Um calor que foi aumentando gradativamente quando o casal finalmente chegou em sua suíte vip. Com o coração acelerado, %Mia% só conseguia sentir a necessidade de retribuir da forma mais singela e doce o amor que Baker lhe oferecia.
Seus beijos e carinhos sendo cada vez mais intensos a deixava um tanto surpresa e desnorteada ao mesmo tempo. Como se seu agora esposo estivesse se segurando todo aquele tempo. De fato, suas palavras de se entregar totalmente a ela agora faziam sentido. E mesmo que a residente tenha ficado assustada inicialmente, aos poucos seus sentidos e sua entrega já estavam no mesmo ritmo proposto por ele.
— %Demeter% Baker pensativo? — comentou ela, ao notá-lo silencioso demais. — Alguma coisa que o preocupa?
— Só estava ouvindo seu coração bater. — respondeu ele, aninhando mais o corpo dela ao seu. — Por quê?
— Nada… — ela riu baixo. — Esqueci de te dar feliz dia dos namorados…
— Bem… Digamos que para um primeiro dia dos namorados começamos bem...
Ele riu também e respirou fundo.
— Em um curto espaço de tempo, estou eu aqui casada com você. — ela se remexeu na cama e o olhou. — Como conseguiu fazer isso?
— Com o meu charme. — respondeu ele, de forma presunçosa e fofa.
— Seu bobo. — ela manteve o olhar sério.
— Parece que alguém aqui perdeu uma aposta e está preocupada. — ele sorriu de canto com malícia.
— Quem disse que estou preocupada. — ela se afastou um pouco.
Porém ele a puxou para mais perto.
— O que você quer? — perguntou ela.
— Não preciso de mais nada… — assegurou ele. — Você é tudo que eu queria.
%Demeter% se inclinou sobre ela e iniciou mais um de seus beijos intensos e ardentes. Não seria apenas aquela noite, mas Baker havia reservado toda aquela semana para eles, como uma lua de mel nada improvisada. Pelo contrário, cheia de detalhes milimetricamente planejados por ele.
Eu não soube logo de início
Como comecei a te amar
Eu ainda não conheço meu coração
Mas mesmo assim, mesmo assim eu te amo.
- Standy By Me / Boys Over Flowers OST (SHINee)