Epílogo
Dois anos depois...
Ajustei os óculos no rosto e continuei a digitar rapidamente, sem tirar os olhos da tela do computador no meu colo.
Quando cheguei ao último parágrafo, respirei fundo antes de continuar e testei algumas frases que apaguei cerca de cinco vezes.
— Não, assim não... — Tentei digitar novamente, mas parei no meio quando ouvi um gritinho agudo ecoando no corredor, seguido de passos rápidos, alguns bem mais pesados.
— Que mamãe, o quê! Volta aqui, sua pestinha! — Ouvi a voz de %Aidan% dizer no instante em que ela alcançou o sofá, parando em minha frente.
Ele parou do outro lado do sofá e colocou as duas mãos na cintura, uma delas segurando um par de sapatinhos vermelhos no estilo boneca.
— Que barulho é esse enquanto eu tô trabalhando? — Fingi brigar e então encarei a menininha ao meu lado. Nossa filha. — Ayla %Danforth% %Callahan%, obedeça ao papai e deixe ele colocar seus sapatos.
Ela me encarou com seus olhos cinza enormes e, em um gesto dramático demais para uma menina de quinze meses, passou as duas mãos pelo cabelo preto, idêntico ao de %Aidan%, e cruzou os braços antes de levantar um pé.
— Quer dizer que eu é que tenho que ir até você, sua espertinha? — ele resmungou, dando a volta no sofá.
— A culpa é sua por mimar ela como se fosse uma princesa — rebati. — Eu avisei.
— Isso porque ela é a princesa do papai, não é, sua pestinha? — Ele ajoelhou em frente a ela e apertou uma de suas bochechas, deixando-a irritada de propósito. Ayla deixou que ele calçasse os sapatinhos e depois veio até mim e bateu um calcanhar no outro de forma desajeitada.
— Ó, mamãe. — Ela bateu novamente.
— Agora sim, minha Dorothy tá completa. Vamos tirar uma foto? — %Aidan% tirou o celular do bolso do short e Ayla segurou o vestido com uma mão de cada lado, em uma pose que tínhamos ensinado a ela duas semanas antes.
Depois que o papai babão tirou algumas dezenas de fotos, ela subiu no sofá e sentou ao meu lado, olhando com curiosidade para a tela do computador. Ela não tinha permissão para mexer em coisas eletrônicas sem supervisão e %Aidan% e eu meio que evitávamos isso e oferecíamos outros estímulos de entretenimento para ela. Não tínhamos crescido com smartphones fritando nosso cérebro e preferíamos que Ayla não tivesse nenhum estímulo excessivo que pudesse afetar seu desenvolvimento.
— Vou tomar banho agora e volto pra ficar com ela pra você poder ir — %Aidan% informou, antes de sair.
Era seu aniversário de 34 anos e faríamos uma festa à fantasia. Era a terceira vez que Ayla vestia uma, levando em conta o Halloween do ano passado e o de algumas semanas antes. Quando perguntamos de qual personagem ela queria se fantasiar para o aniversário do papai, sua resposta foi buscar
O Mágico de Oz na sua estante de livros infantis e apontar para a Dorothy na capa. Bem inteligente para uma criança da idade dela, mas a Sra. %Callahan% havia me dito que %Aidan% também era assim.
— Mamãe tá terminando uma coisa — cochichei, como se fosse um segredo, e ela assentiu, ficando quieta, enquanto eu terminava de digitar.
Quando acabei, encarei a tela por alguns segundos, incapaz de acreditar que finalmente havia terminado de escrever meu primeiro livro.
Quando contei a Kate, Diana e Andy que eu queria escrever um romance com elementos de fantasia no mundo contemporâneo sobre uma protagonista que esquecia que namorava seu ator favorito há anos e ia constantemente parar dentro de seu livro favorito quando adormecia, enquanto no mundo real ele tentava fazer com que ela se lembrasse deles, a resposta foi unânime:
você tem que escrever isso. Mencionei a ideia há cerca de um ano e fiz os primeiros rascunhos algumas semanas depois, antes de realmente começar a escrever.
%Aidan% não tinha brincado quando disse que queria ser o primeiro leitor, mas ele e %Cami% enfrentaram um embate, pois ela também queria. Acabei decidindo enviar os novos capítulos para o e-mail dos dois ao mesmo tempo e, desde então, os dois viviam numa espécie de competição para ver quem lia primeiro. Como autora, eu achava extremamente divertido e mal podia esperar para que eles lessem o último capítulo e o epílogo que eu tinha acabado de escrever.
Enviei o arquivo por e-mail e então respirei fundo.
—
Cabô? — Ayla perguntou ao meu lado.
— Acabou. Vamos fazer o penteado agora? — Fechei o computador e o coloquei de lado antes de me levantar e pegá-la nos braços. Fomos até o seu quarto, ao lado do quarto de hóspedes, e a coloquei sentada em sua mini penteadeira.
Então eu amarrei seu cabelo em duas partes com um elástico e uma fita azul de cada lado, da mesma cor do vestido que ela usava. Quando terminei, Ayla me entregou um pote de brilho labial rosado para que eu passasse nela.
— Agora sim, uma bonequinha! — Sorri, dando uns últimos ajustes nas mangas bufantes de seu vestido, enquanto ela me encarava com seus olhos cinza enormes.
Quando ela nasceu, eu não esperava aquela cor, mas então %Aidan% me contou que na família dele havia alguns parentes com olhos daquela cor. No fim, acho que ela puxou mais a ele do que a mim, ao menos na aparência. Nós dois sabíamos que Ayla teria um temperamento forte quando adulta, pois, naquela idade, já expressava o que queria com assertividade. Ela havia nascido em 17 de julho, exatamente um ano após %Aidan% e eu reatarmos nosso relacionamento. Felizmente, tive uma gestação tranquila, mas no fim dela e mesmo sabendo de todos os prós de um parto normal, optei por uma cesariana, já que eu não queria passar por aquele tipo de trauma de jeito nenhum.
Ser mãe era assustador na maioria das vezes, mas felizmente eu tinha uma válvula de segurança em casa com tranquilidade suficiente por nós dois. Quando eu surtava, era %Aidan% que segurava as pontas, o que aconteceu com certa frequência no primeiro ano de vida de Ayla.
Felizmente, quase todas as vezes era apenas uma tempestade em um copo d'água.
— Voltei! — %Aidan% apareceu novamente, já vestido em sua fantasia nada criativa de
O Fantasma da Ópera. Tudo o que ele precisou fazer foi colocar um smoking e uma máscara.
Contudo, meus olhos não tinham do que reclamar.
— Minha vez — falei e corri para o banheiro. Voltei quarenta minutos depois, vestida com a fantasia de Jenna de
De Repente 30. Eu sei, também não era lá muito criativa, mas eu não tinha tempo para algo mais elaborado e precisava de uma fantasia com maquiagem e penteado fáceis, especialmente quando ainda tínhamos que sair de casa para ir ao local da festa.
— Que linda — disse %Aidan%, segurando minha mão e me fazendo dar uma voltinha. — Vai dançar “Thriller” também?
— Só se você for comigo. — Sorri.
— Quem sabe? Mas agora... Hora da foto em família. — Ele pegou Ayla no colo e fomos até a sala, onde nos sentamos no sofá com nossa garotinha no meio, algo que virou tradição quando decidimos registrar o crescimento dela.
Em seguida, selecionou o tempo na câmera que já havia deixado na mesinha de centro mais cedo e esperamos com um sorriso no rosto. No entanto, nos últimos segundos, resolvi mudar a pose e, pelo visto, nossa filha quis fazer o mesmo.
Sem avisar, puxei %Aidan% pela camisa, beijando-o no rosto, e Ayla colocou as mãozinhas nas bochechas, ainda sorrindo para a câmera.
Um instante depois, tínhamos mais um registro de felicidade.