Depois da Meia-Noite


Escrita porAlly M.
Editada por Natashia Kitamura


Epílogo

  Dois anos depois...

  Ajustei os óculos no rosto e continuei a digitar rapidamente, sem tirar os olhos da tela do computador no meu colo.
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  Quando cheguei ao último parágrafo, respirei fundo antes de continuar e testei algumas frases que apaguei cerca de cinco vezes.
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  — Não, assim não... — Tentei digitar novamente, mas parei no meio quando ouvi um gritinho agudo ecoando no corredor, seguido de passos rápidos, alguns bem mais pesados.
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  — Mamãe!
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  — Que mamãe, o quê! Volta aqui, sua pestinha! — Ouvi a voz de %Aidan% dizer no instante em que ela alcançou o sofá, parando em minha frente.
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  Ele parou do outro lado do sofá e colocou as duas mãos na cintura, uma delas segurando um par de sapatinhos vermelhos no estilo boneca.
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  — Que barulho é esse enquanto eu tô trabalhando? — Fingi brigar e então encarei a menininha ao meu lado. Nossa filha. — Ayla %Danforth% %Callahan%, obedeça ao papai e deixe ele colocar seus sapatos.
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  Ela me encarou com seus olhos cinza enormes e, em um gesto dramático demais para uma menina de quinze meses, passou as duas mãos pelo cabelo preto, idêntico ao de %Aidan%, e cruzou os braços antes de levantar um pé.
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  — Quer dizer que eu é que tenho que ir até você, sua espertinha? — ele resmungou, dando a volta no sofá.
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  — A culpa é sua por mimar ela como se fosse uma princesa — rebati. — Eu avisei.
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  — Isso porque ela é a princesa do papai, não é, sua pestinha? — Ele ajoelhou em frente a ela e apertou uma de suas bochechas, deixando-a irritada de propósito. Ayla deixou que ele calçasse os sapatinhos e depois veio até mim e bateu um calcanhar no outro de forma desajeitada.
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  — Ó, mamãe. — Ela bateu novamente.
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  — Agora sim, minha Dorothy tá completa. Vamos tirar uma foto? — %Aidan% tirou o celular do bolso do short e Ayla segurou o vestido com uma mão de cada lado, em uma pose que tínhamos ensinado a ela duas semanas antes.
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  Depois que o papai babão tirou algumas dezenas de fotos, ela subiu no sofá e sentou ao meu lado, olhando com curiosidade para a tela do computador. Ela não tinha permissão para mexer em coisas eletrônicas sem supervisão e %Aidan% e eu meio que evitávamos isso e oferecíamos outros estímulos de entretenimento para ela. Não tínhamos crescido com smartphones fritando nosso cérebro e preferíamos que Ayla não tivesse nenhum estímulo excessivo que pudesse afetar seu desenvolvimento.
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  — Vou tomar banho agora e volto pra ficar com ela pra você poder ir — %Aidan% informou, antes de sair.
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  Era seu aniversário de 34 anos e faríamos uma festa à fantasia. Era a terceira vez que Ayla vestia uma, levando em conta o Halloween do ano passado e o de algumas semanas antes. Quando perguntamos de qual personagem ela queria se fantasiar para o aniversário do papai, sua resposta foi buscar O Mágico de Oz na sua estante de livros infantis e apontar para a Dorothy na capa. Bem inteligente para uma criança da idade dela, mas a Sra. %Callahan% havia me dito que %Aidan% também era assim.
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  — Mamãe tá terminando uma coisa — cochichei, como se fosse um segredo, e ela assentiu, ficando quieta, enquanto eu terminava de digitar.
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  Quando acabei, encarei a tela por alguns segundos, incapaz de acreditar que finalmente havia terminado de escrever meu primeiro livro.
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  Quando contei a Kate, Diana e Andy que eu queria escrever um romance com elementos de fantasia no mundo contemporâneo sobre uma protagonista que esquecia que namorava seu ator favorito há anos e ia constantemente parar dentro de seu livro favorito quando adormecia, enquanto no mundo real ele tentava fazer com que ela se lembrasse deles, a resposta foi unânime: você tem que escrever isso.
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  Mencionei a ideia há cerca de um ano e fiz os primeiros rascunhos algumas semanas depois, antes de realmente começar a escrever.
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  %Aidan% não tinha brincado quando disse que queria ser o primeiro leitor, mas ele e %Cami% enfrentaram um embate, pois ela também queria. Acabei decidindo enviar os novos capítulos para o e-mail dos dois ao mesmo tempo e, desde então, os dois viviam numa espécie de competição para ver quem lia primeiro. Como autora, eu achava extremamente divertido e mal podia esperar para que eles lessem o último capítulo e o epílogo que eu tinha acabado de escrever.
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  Enviei o arquivo por e-mail e então respirei fundo.
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  — Cabô? — Ayla perguntou ao meu lado.
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  — Acabou. Vamos fazer o penteado agora? — Fechei o computador e o coloquei de lado antes de me levantar e pegá-la nos braços. Fomos até o seu quarto, ao lado do quarto de hóspedes, e a coloquei sentada em sua mini penteadeira.
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  Então eu amarrei seu cabelo em duas partes com um elástico e uma fita azul de cada lado, da mesma cor do vestido que ela usava. Quando terminei, Ayla me entregou um pote de brilho labial rosado para que eu passasse nela.
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  — Agora sim, uma bonequinha! — Sorri, dando uns últimos ajustes nas mangas bufantes de seu vestido, enquanto ela me encarava com seus olhos cinza enormes.
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  Quando ela nasceu, eu não esperava aquela cor, mas então %Aidan% me contou que na família dele havia alguns parentes com olhos daquela cor. No fim, acho que ela puxou mais a ele do que a mim, ao menos na aparência. Nós dois sabíamos que Ayla teria um temperamento forte quando adulta, pois, naquela idade, já expressava o que queria com assertividade. Ela havia nascido em 17 de julho, exatamente um ano após %Aidan% e eu reatarmos nosso relacionamento. Felizmente, tive uma gestação tranquila, mas no fim dela e mesmo sabendo de todos os prós de um parto normal, optei por uma cesariana, já que eu não queria passar por aquele tipo de trauma de jeito nenhum.
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  Ser mãe era assustador na maioria das vezes, mas felizmente eu tinha uma válvula de segurança em casa com tranquilidade suficiente por nós dois. Quando eu surtava, era %Aidan% que segurava as pontas, o que aconteceu com certa frequência no primeiro ano de vida de Ayla.
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  Felizmente, quase todas as vezes era apenas uma tempestade em um copo d'água.
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  — Voltei! — %Aidan% apareceu novamente, já vestido em sua fantasia nada criativa de O Fantasma da Ópera. Tudo o que ele precisou fazer foi colocar um smoking e uma máscara.
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  Contudo, meus olhos não tinham do que reclamar.
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  — Minha vez — falei e corri para o banheiro. Voltei quarenta minutos depois, vestida com a fantasia de Jenna de De Repente 30.
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  Eu sei, também não era lá muito criativa, mas eu não tinha tempo para algo mais elaborado e precisava de uma fantasia com maquiagem e penteado fáceis, especialmente quando ainda tínhamos que sair de casa para ir ao local da festa.
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  — Que linda — disse %Aidan%, segurando minha mão e me fazendo dar uma voltinha. — Vai dançar “Thriller” também?
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  — Só se você for comigo. — Sorri.
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  — Quem sabe? Mas agora... Hora da foto em família. — Ele pegou Ayla no colo e fomos até a sala, onde nos sentamos no sofá com nossa garotinha no meio, algo que virou tradição quando decidimos registrar o crescimento dela.
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  Em seguida, selecionou o tempo na câmera que já havia deixado na mesinha de centro mais cedo e esperamos com um sorriso no rosto. No entanto, nos últimos segundos, resolvi mudar a pose e, pelo visto, nossa filha quis fazer o mesmo.
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  Sem avisar, puxei %Aidan% pela camisa, beijando-o no rosto, e Ayla colocou as mãozinhas nas bochechas, ainda sorrindo para a câmera.
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  Um instante depois, tínhamos mais um registro de felicidade.
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Epílogo
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