Capítulo 42
%Aidan%
Cerca de vinte e quatro horas depois da última vez que vi %Lexi%, entrei em casa e a encontrei na cozinha com uma pilha de
kimbap do lado e enrolando mais um.
— Oi. — Ela sorriu, bem-humorada. — Como foi a viagem?
— Tranquila, mas um pouco longa. — Deixei a mala para trás e fui até ela. — Eu tava doido pra chegar em casa.
— Ah, é? E por que a pressa?
— Porque você tá aqui. — A abracei por trás, dando um beijo em seu pescoço.
%Lexi% colocou o último rolinho de
kimbap na pilha e se virou para mim.
— Bem. Poderia ter sido resolvido online se eu não tivesse que assinar uma papelada. A reunião em si foi rápida, mas meu voo só saía depois de meio-dia.
%Lexi% assentiu, mas já sabia daquilo. Eu vinha dando notícias a ela por mensagens, mas sem detalhes.
— Eu assisti três episódios de
Taxi Driver no avião porque fiquei entediada. Você vai ter que me acompanhar depois.
— Que bom que já tem todos então. — Sorri. — Vou assistir hoje à noite.
— Ótimo, porque Kate enviou três capítulos novos de
Oblíquo pra mim e preciso ler.
— Hoje é domingo, %Lexi%.
— E daí? Meu cérebro não aguenta de curiosidade.
Deixei uma risadinha escapar e selei nossos lábios.
— Vou tomar banho e depois venho jantar.
— Tá bom. Não esquece de levar a mala pro quarto.
No nosso quarto, deixei a mala no closet para desfazer depois e segui para o banheiro. Encarei meu próprio reflexo, notando que ainda havia um sorriso idiota no rosto. Era bom voltar a uma rotina, especialmente uma que envolvia %Lexi%. Meu coração estava um pouquinho mais cheio de felicidade desde o momento em que ela decidiu voltar para casa comigo, alguns dias atrás.
Além disso, era um alívio ver %Lexi% superando a perda do bebê da forma como deveria ser: comigo.
Os poucos dias que fiquei sem ela foram angustiantes e só me fez ter ainda mais certeza de nunca querer perdê-la outra vez.
Nós éramos um só. Éramos parceiros. Uma dupla, que funcionava perfeitamente. Ficar sem %Lexi% era como arrancar um pedaço de mim; sua ausência era como um membro fantasma. Eu sabia que ela não estava lá, mas aquele era o nosso lar, e cada cantinho guardava um registro dela.
Eu era um idiota apaixonado mesmo após três anos de relacionamento e dois morando juntos. Honestamente, nossa dinâmica como casal funcionava tão bem que eu acho que me apaixonava um pouco mais a cada dia. Era óbvio que tínhamos nossos momentos de briga, mas eu não conseguia me lembrar de nenhum, já que sempre virava algo sem importância depois.
Não era da nossa natureza ultrapassar os limites do outro, tampouco desrespeitar. E quando decidimos morar juntos, %Lexi% propôs que sempre falássemos se algo nos incomodava, fosse em relação aos outros ou a nós mesmos.
Eu sabia exatamente de onde vinha aquilo. Seus pais tiveram um divórcio terrível quando ela ainda era adolescente e, às vezes, pareciam estranhos dentro de casa. %Lexi% tinha problemas com os dois e fazia anos que ela e %Cami% haviam cortado relações com eles.
Eu também tinha problemas com meu pai e, embora ainda falasse com ele algumas vezes por ano, éramos definitivamente distantes. Mas assim era mais saudável. Eu não tinha paciência nem disposição para lidar com as atitudes dele e, certamente, não havia esquecido que ele havia traído a minha mãe, mesmo ela tendo superado isso há muito tempo.
Felizmente, ele também morava do outro lado do país e todo o contato que tínhamos se resumia a uma ligação diplomática em datas comemorativas. %Lexi% nem mesmo o conhecia, e eu acho que preferia que continuasse assim. Ele não era o tipo de pessoa que ela — muito menos eu — gostava de ter por perto.
Assim, em nosso relacionamento, tentávamos nos comunicar ao máximo para evitar possíveis conflitos. A única vez em que omiti algo que ela deveria saber foi durante sua amnésia pós-acidente, e as consequências foram graves: um término e a perspectiva de perdê-la para sempre.
Eu não queria reviver essa experiência nunca mais.
***
Na segunda-feira de manhã, %Lexi% me ofereceu seu carro.
— Fica com ele, pro caso de você precisar. Vou almoçar com Andy e Kate hoje e não vou usar ele.
Eu havia levado o meu para a oficina antes de viajarmos, mas ainda não estava pronto. Honestamente, acho que a culpa era minha, já que falei pro mecânico que ia viajar e não mencionei quando voltaria. Quando entrei em contato, ele disse que o consertaria hoje e ficaria pronto no fim da tarde.
No entanto, eu tinha uma reunião no trabalho e minha opções eram o carro de %Lexi% ou pegar um táxi sempre que precisasse me locomover.
Felizmente, %Lexi% era prática por nós dois.
— Vou te levar pro trabalho, então. Me avisa quando for pra te buscar.
— Tá. Mas vamos passar naquela cafeteria que eu costumo ir, preciso comprar umas coisas.
Dito e feito, algum tempo depois saímos da cafeteria com meia dúzia de bebidas e então estávamos de volta na estrada. %Lexi% me indicou um atalho e nós o pegamos, no entanto, notei algo estranho no retrovisor. Um carro branco, de vidros escuros, nos seguia. Pensei que fosse só coincidência, mas para testar, dei a voltar em um quarteirão duas vezes.
Abri um sorriso irônico quando ele continuou nos seguindo e, um instante depois, meu celular tocou com uma ligação de Louis. %Lexi% atendeu e colocou no viva-voz.
— Senhor, localizamos Roy Basset e ele está seguindo vocês.
— Como é? — ela perguntou, olhando imediatamente para trás. — É o carro branco?
— Sim — Louis e eu respondemos ao mesmo tempo.
— Foi por isso que você passou pelo mesmo quarteirão duas vezes?
— Sim, vou tentar despistar ele. Vocês estão perto?
— Logo atrás, senhor — Louis respondeu.
— Certo. — Desliguei. — Vamos lá.
Acelerei o carro e agradeci mentalmente por não haver muito trânsito naquele momento.
— Toma cuidado, %Aidan% — %Lexi% comentou. — A gente tá perto da editora, tenta virar à direita e então à esquerda, dois quarteirões depois.
— Beleza. — Acelerei mais, sempre de olho no retrovisor. — Liga pra polícia, %Lexi%. Vou tentar levar esse idiota até a editora.
Ela assentiu e entrou em contato enquanto eu continuava a desviar do carro. Estávamos chegando perto da editora e eu já conseguia avistar meus guarda-costas atrás do carro branco, quando, de repente, ele acelerou de uma vez e conseguiu bater na traseira do carro. Foi quando entendi sua intenção e tive uma ideia.
— %Lexi%, vou tentar um coisa, então não surta — falei, logo após ela gritar e xingar Roy pela batida no carro.
— Como assim, não surtar? O que você tá pensando, %Aidan%?
Roy estava tentando bater em nós propositalmente para provocar um acidente e não havia muitas opções para mim.
— Segura firme — foi tudo o que eu disse.
Então fingi perder o controle do carro em direção a um poste e, no último segundo, girei o volante de uma vez, parando o carro na posição contrária.
A batida veio logo depois. Não em nós, mas nele.
— Meu Deus! — %Lexi% arregalou os olhos ao ver a cena, e notei que ela tremia.
O carro de Roy estava completamente destruído na frente, mas ele estava acordado e tentando sair do veículo. Desci para ajudar o idiota e pedi a %Lexi% que chamasse uma ambulância. Havia um corte em sua testa e ele reclamou de dor no ombro, mas permaneceu consciente até meus guarda-costas e a polícia chegarem logo depois.
Roy desmaiou por alguns minutos quando um policial se aproximou, mas retomou a consciência e gemeu de dor quando os socorristas apareceram. Seguimos para o hospital e, enquanto ele era examinado, %Lexi% e eu demos nosso depoimento à polícia, contando o que havia acontecido.
Consegui convencê-la a voltar para o trabalho logo após o policial nos dispensar. Roy ficaria sob vigilância no hospital antes de ser liberado para ir à delegacia. Ele tinha que quebrado uma clavícula e duas costelas, e precisaria ficar mais algumas horas em observação.
Deixei %Lexi% no trabalho e segui para a minha reunião, já um pouco atrasado.
— Você demorou. Achei que não ia vir. Aconteceu alguma coisa? — Jace perguntou, assim que entrei na sala onde ele e o resto da equipe estavam.
— Tive um pequeno imprevisto no trânsito — foi tudo o que falei. — Desculpem o atraso.
A reunião durou cerca de quarenta minutos e serviu basicamente para acertar os últimos detalhes do meu álbum digital, que seria lançado no final da semana, e da gravação do videoclipe de “Red Shoes”, que aconteceria no dia seguinte. Minha equipe teria um dia para editar e liberar o vídeo. A filmagem era para ser simples, sem grandes efeitos especiais, e seria gravada em poucos ângulos de uma vez só, então meu objetivo era fazer tudo em um take.
— Então a cor do álbum será verde e vamos ter mais duas faixas? — a designer da equipe perguntou.
Quando tudo terminou, voltei para casa e, algumas horas depois, recebi uma ligação do detetive responsável pelo caso de Roy. Ele havia confessado no hospital que a intenção era atacar %Lexi%, mas ainda seria interrogado sobre os outros atos que cometeu como stalker, incluindo os vídeos obscenos que enviou para ela.
Antes de ir para a delegacia, passei na editora para buscá-la e, alguns minutos mais tarde, nós dois estávamos assistindo ao interrogatório de Roy através de uma salinha de observação.
— Tem algo estranho — %Lexi% comentou, após alguns minutos. — O que é aquilo na mão dele?
— Parece que ele tem uma cicatriz na mão direita — falei, e %Lexi% franziu o cenho. — O que foi?
Em resposta, ela se dirigiu ao policial que também estava na sala e solicitou permissão para entrar.
Mas ela saiu antes que eu terminasse a pergunta. Um segundo depois, apareceu na sala de interrogatório. Sem mais delongas, %Lexi% pediu para Roy assinar seu nome em um papel.
— Não consigo escrever com o braço imobilizado. — Ele apontou com a cabeça.
— Tá dizendo que é canhoto? — %Lexi% perguntou, trocando um olhar com o detetive.
— Sim, mas o que isso tem a ver? Veio aqui só pra me perguntar isso?
— Onde conseguiu essa cicatriz? — Ela apontou para a mão livre dele. — Parece antiga.
— Foi uma queimadura, quando eu era adolescente — Roy respondeu, parecendo meio confuso com a pergunta repentina.
— Você não é o stalker, né? — %Lexi% sorriu e eu arregalei os olhos. — Alguém te contratou. — Em seguida, ela se virou par ao profissional ao seu lado. — Detetive, a pessoa dos vídeos que recebi parecia ser destra e não tinha uma cicatriz. Não acho que seja esse garoto.
— Não, eu sou sim! — Roy rebateu, agitado. — Sou eu, já confessei. Do que você tá falando? Eu usei um filtro!
O detetive arqueou uma sobrancelha e o encarou com descrença. Não parecia surpreso com o que %Lexi% havia dito.
— Obrigado pela dica, Srta. %Danforth%. Vamos continuar o interrogatório e a investigação. Pode ser que demore, então você e o Sr. %Callahan% podem ir caso queiram. Já pegamos todas as informações necessárias com vocês.
%Lexi% assentiu e agradeceu, pouco antes de se retirar e voltar para a salinha.
— Que papo foi aquele? — eu quis saber, assim que saímos pelo corredor. — Como você sabe que o stalker é destro?
— Como você acha que eu sei? Ele usou a mão direita nos vídeos. E, embora eu queira deletar essas memórias da minha cabeça, tenho certeza de que não havia cicatriz nenhuma. E aquele papo de filtro? Quem usa filtro no pau?
— %Lexi%! — Ri pelo nariz, incapaz de me segurar, mesmo sabendo que a situação era séria.
— O quê? Vai dizer que faz sentido?
— Óbvio que não. Só não esperava que você fosse reparar nessas coisas. É muito aleatório.
— Que nada, você que é lerdo demais, %Aidan%. — %Lexi% rolou os olhos e eu ri de novo, incapaz de retrucar.
Ela meio que tinha razão. Meu senso de observação era bem seletivo, já o dela… Bem, %Lexi% literalmente trabalhava com isso sempre que revisava um texto.
— Vamos esperar e ver se o detetive consegue descobrir algo sobre aquele garoto. Se for como você diz, então...
— O stalker ainda tá à solta — ela concluiu.
E não tínhamos ideia de quem poderia ser, a menos que Roy confessasse. Era isso ou voltar à estaca zero.