Capítulo 26
%Aidan%
Encarei a parede cinza do meu estúdio no exato pontinho em que a tinta cinza tinha descascado, perto do rodapé. Eu estava sentado no sofá que havia ali, abraçando os joelhos, completamente imóvel enquanto absorvia tudo o que tinha acontecido nas últimas seis horas.
Senti meus olhos inchados e úmidos, e lágrimas silenciosas ainda jorravam deles como se vazassem de mim, como se eu fosse um recipiente cheio até a borda.
Talvez eu fosse um mesmo.
Pelas últimas horas, tudo o que fiz foi repassar cada palavra e ação de %Alexa% na minha mente. E cada uma delas eram como facas perfurando meu coração.
Por mais que eu tenha tentado impedir, ela tinha tomado a decisão, mesmo de cabeça cheia. Eu sabia que ela estava sofrendo e que queria me afastar, mas %Lexi% e eu também fizemos uma promessa de deixar o outro ir caso uma das partes não quisesse mais. Eu havia dito a ela que a única possibilidade disso acontecer era se partisse dela, já que nunca seria capaz de deixá-la por livre e espontânea vontade.
Eu amava aquela mulher como nunca tinha amado ninguém na minha vida.
E me sentia inútil por não poder fazer nada. Eu estava impotente e tinha prometido respeitar a decisão dela. E ela me fez prometer aquilo de novo antes de partir com uma mochila nas costas, uma hora depois de terminar comigo.
As cenas passavam repetidamente na minha cabeça.
— %Aidan%... Eu quero terminar.
— O quê? Do que você tá falando?
— Não aguento mais olhar pra você, não depois de tudo.
— %Lexi%, não foi culpa sua. Nós podemos...
— Não, %Aidan%. Eu não quero mais. — A voz dela falhou.
— Eu não aguento. Franzi o cenho, sentindo o coração na garganta.
— É isso, então? Essa é sua resposta? Você vai simplesmente desistir da gente? Acha que terminar vai resolver nossos problemas?
— Acho que a gente devia ter acabado depois do meu acidente. Foi um erro voltar pra cá, sem lembrar de nada. Eu devia ter voltado a morar com minha irmã.
— Não, %Alexa%. Seu lugar é aqui. Comigo. Nós prometemos nunca soltar a mão do outro — retruquei, ouvindo a minha própria voz embargada.
— Não faz isso com a gente, %Lexi%. Por favor.
— Toda vez que você olhar pra mim e eu olhar pra você… Vai ser um lembrete constante do que aconteceu. Eu não quero isso. Não quero que nenhum de nós lembre disso. Não aguento nem ficar aqui.
— Amor, por favor. Eu sei que é difícil, ainda mais depois de lembrar de tudo assim, mas eu tô com você. Podemos passar por isso juntos — tentei convencê-la.
— Eu te amo, %Alexa%.
— Sinto muito, %Aidan%. — Ela chorou em silêncio.
— Mas eu não posso. Sinto muito por quebrar nossa promessa.
— Eu quero ficar sozinha — ela disse, sem me encarar.
— Vou pegar umas coisas e ir pra casa de %Cami%, depois peço pra ela vir pegar o resto. Foi como se meu coração tivesse sido espetado com mil alfinetes. Como se eu tivesse levado um banho de água fria. Como se cada palavra fosse uma facada. Eu não sabia o que fazer além de implorar. Senti minhas próprias lágrimas escorrendo pelo rosto e olhei para o teto. Eu não queria chorar na frente dela, e consegui evitar isso todas as vezes desde que ela voltou para casa, dizendo para mim mesmo que eu precisava ser forte por nós dois; mas naquele momento não me importei.
A ideia de jogar fora tudo o que nós construímos juntos me matava. Ficar sem %Alexa% era pior do que lidar com o lembrete constante da perda do nosso bebê. Se ela queria culpar alguém quanto a isso, então que fosse eu. Ao mesmo tempo, eu a compreendia. Eu tive um mês para me acostumar com a notícia do aborto, ela não. Tentei falar que daria um tempo a ela e depois conversaríamos, mas ela estava irredutível.
— Não quero conversar, %Aidan%. Eu quero ficar sozinha. Vá embora, por favor. Não vou conseguir fazer nada se você tiver aqui.
— Então não vá! — retruquei, frustrado.
— %Alexa%, nós não podemos terminar assim.
— Você prometeu que me deixaria ir se essa fosse minha vontade.
— Acontece que essa não é sua vontade. Eu te conheço. Você tá em choque e magoada, mas-
— Não, %Aidan%. É minha decisão e você prometeu cumprir.
— Por que eu tenho que cumprir minha promessa se você não tá cumprindo a sua? — perguntei, magoado e irritado.
— Eu preciso que você respeite minha decisão e que não venha atrás de mim.
— Eu me recuso! Você pode ir embora agora, se é assim que quer — falei, andando de um lado para o outro no closet, o rosto ainda molhado com lágrimas.
— Mas eu me recuso a desistir de você, %Alexa%. Vai precisar de muito mais que isso pra me afastar de você.
%Alexa% suspirou, parecendo esgotada.
— Você não aguenta olhar pra mim? — Continuei a falar.
— Então vamos trabalhar nisso até você aguentar. Eu não quero te perder, não quero perder o que a gente tem. Eu te amo, droga! Você sabe disso. Eu te falei um milhão de vezes. Não sei mais o que posso fazer pra você entender isso.
— Você pode seguir em frente — ela sugeriu.
— Ser feliz com outra pessoa. Eventualmente, é o que vai acontecer. Me esquece, %Aidan%.
— Por quê? Por que devo esquecer você? Você não pode me obrigar a isso.
— Porque eu não te mereço. — Sua voz falhou novamente.
— Você sempre foi bom demais pra mim e eu decepcionei nós dois por puro egoísmo.
Ela balançou a cabeça, negando. Dei um passo em sua direção e envolvi o rosto dela entre as mãos, a forçando a me encarar.
— Você me odeia? É isso? Não me ama mais?
— %Aidan%, por favor... — Ela tentou se afastar, mas não deixei.
— Olha agora nos meus olhos e diga que não me ama, %Alexa% — exigi, mas ela manteve os olhos firmemente fechados e ficou em silêncio.
— Você não consegue, não é? Por que acha que vou ser feliz com outra pessoa? Por que acha que eu ia querer
isso? Eu quero você, %Alexa%. Só você.
— Eu te amo, %Aidan%. Amo tanto... — ela confessou, chorando baixinho.
— Mas eu não quero mais ficar com você. Sinto muito, mas não posso. Vá embora, por favor — acrescentou, em seguida.
— Por favor, me deixa sozinha. Deixei minhas mãos caírem ao lado do corpo. Senti o ar escapar pelos pulmões de uma vez, a ficha finalmente caindo.
Ela me amava, mas não queria isso. Não queria ficar comigo, mesmo que a distância causasse mais sofrimento a nós dois.
Eu me sentia a pior pessoa do mundo. Como se estivesse tentando forçá-la a ficar. Mas eu não podia fazer isso, independentemente de uma promessa ou não. Se ela não queria minha presença, eu não podia insistir mais do que já tinha feito.
Então passei a mão no rosto, tentando me livrar das lágrimas que insistiam em cair e assenti em silêncio, antes de me virar e sair dali, exatamente como ela havia pedido.
Fiquei um tempo do lado de fora, andando pelo corredor com a mente maquinando em busca de alguma alternativa, mas não conseguia pensar em nada além de "eu te amo... Mas não quero mais ficar você."
Quando %Lexi% finalmente apareceu com uma mochila, me ofereci para levá-la até a casa de %Camille%, mas ela negou, dizendo que havia um táxi esperando na portaria.
Um minuto depois, ela foi embora sem olhar para trás.
Me tranquei no estúdio, o único lugar daquele apartamento que não tinha resquícios de sua presença, e foi onde permaneci pelas últimas horas. Sentindo raiva de mim mesmo por não ter sido capaz de ser suficiente para ela. Pensando no que poderia ter feito para evitar aquilo. Talvez eu devesse ter contado sobre o aborto quando ela acordou no hospital. Talvez eu devesse ter contado
tudo, assim ela teria mais tempo de se acostumar com a notícia e, àquela altura, quando se lembrasse, tivesse agido de forma diferente.
Adiar o inevitável só tornou tudo pior e a culpa era minha. O médico disse que eu poderia contar sobre o aborto se quisesse, mas se ela não lembrava nem de mim, como poderia entender aquilo tudo? %Lexi% ia achar que continuava sonhando. Ou pior, que
eu tinha batido a cabeça em algum lugar e estava sonhando.
Além disso, filhos não era algo sobre o que costumávamos falar. Eu sabia que ela não queria ser mãe e estava bem em não ser pai se essa fosse a vontade dela. O corpo era dela, logo a decisão de termos filhos um dia também. E se ela quisesse, eu também estava bem com isso.
Eu apoiaria a decisão dela sobre isso porque era o que importava para mim. Se tinha algo a que eu era completamente neutro era em relação a ter filhos. Se tivéssemos um, eu o amaria incondicionalmente. Mas se %Lexi% quisesse adotar cinco gatos, então eu seria pai de pet com ela.
Só que agora nada daquilo parecia possível.
Nosso relacionamento parecia ter uma névoa espessa em torno dele, ocultando todo o caminho que podíamos tomar. Não havia direita ou esquerda, estávamos apenas estagnados no lugar, sem saber para onde ir, tomando decisões com base em mágoa, culpa e desespero.
Eu nem cheguei a saber da existência do nosso bebê antes que o perdêssemos, mas o amei mesmo assim. Chorei por ele, por sua chance perdida de viver, culpa de um bandido aleatório que atropelou o amor da minha vida e fugiu em seguida. A polícia nem sequer tinha localizado o cara ainda para fazê-lo pagar pelo crime.
E agora ele tinha causado o fim do nosso relacionamento também. Por que aquilo tinha que acontecer conosco? Por que tudo estava dando errado? Se eu não tivesse me atrasado no nosso aniversário, %Lexi% nunca teria ido àquele shopping. Estaríamos juntos em um restaurante, provavelmente comemorando a vida do nosso bebê, e não lamentando a morte dele.
Estaríamos felizes e bem, nós três.
Mesmo depois do acidente, criei esperanças de que ficaríamos bem quando ela lembrasse de tudo. Pensei que deixar ela lembrar disso sozinha também fosse ser mais saudável. Achei que conversaríamos, choraríamos juntos, e depois seguiríamos em frente. Porque %Lexi% era assim. Enquanto eu era a pessoa mais emotiva do nosso relacionamento, ela era prática e direta. Aceitava as coisas como eram. %Lexi% superava as adversidades. Ela era determinada assim.
Mas então nada tinha saído como eu havia imaginado. Tomei uma decisão errada e agora estava ali, encarando a parede, com o rosto molhado de lágrimas e mergulhado em um poço de tristeza e impotência.
Nossa felicidade havia sido arrancada de nós, e eu não tinha ideia do que fazer para recuperá-la.