Capítulo 44
Com o caos da noite em que Jace Keller cometeu suicídio, foi impossível impedir que a história do
Stalker de %Aidan% %Callahan% se tornasse pública, especialmente quando era alguém tão próximo a %Aidan% e que gerenciou sua carreira por anos.
Ele não precisava de nenhum escândalo naquele momento, logo após o lançamento de um álbum, mas sabíamos que era apenas uma questão de tempo até todos saberem. Em pouco tempo, fãs começaram a desenterrar informações e pistas de que Jace pudesse ser um stalker e eu descobri que tinha até teorias sobre isso no TikTok.
Era como se eu tivesse encontrado as minhas próprias teorias da conspiração, considerando que todas envolviam Jace, %Aidan% e eu. Até mesmo leituras de tarô haviam sido feitas em relação ao que poderia ter acontecido e algumas até mencionavam uma ligação de séculos que havia sido encerrada. Nelas, Jace era frequentemente citado como alguém que tinha uma obsessão doentia por %Aidan%. Houve uma pessoa que sugeriu que eu poderia ser a amante dele, enquanto Jace seria uma esposa vingativa que reencarnou e lembrou de sua vida passada em algum momento enquanto crescia, algo que estaria atrelado diretamente a algum tipo de maldição que ela mesma poderia ter jogado.
Senti minha pele arrepiar quando ouvi sobre isso. Uma parte de mim queria apenas acreditar que Jace era só um idiota obcecado pelo meu namorado, mas a outra, que tendia a acreditar em coisas esotéricas, estava aliviada de que essa supostamente ligação de séculos já não existia mais — e até um pouco chocada também com a possibilidade de
eu ter sido a
amante. %Aidan% ficou bem estressado com tudo o que aconteceu e durante horas prestamos depoimento para a polícia de Los Angeles. Felizmente, ele havia posicionado o celular em um ângulo que captava toda a sala de estar, então a parte da discussão antes da chegada dos policiais estava toda gravada. Nossas ações foram consideradas legítima defesa, visto que Jace nos atacou primeiro.
Quanto ao resto... Bem, havia quatro testemunhas além de %Aidan% e eu.
Voltamos para Nova York dois dias depois.
Mesmo com parte de sua vida privada exposta ao mundo, o escândalo acabou atraindo muita gente a conhecer %Aidan% e sua música, de modo que parte da atenção indesejada acabou se convertendo em algo bem-vindo. De todo modo, eu estava confiante de que era apenas uma questão de tempo até que as pessoas começassem a deixar aquele assunto de lado, e isso começou a acontecer cerca de um mês depois.
%Aidan% decidiu tirar uma folga da música após o lançamento do novo álbum e pareceu bem feliz com a expectativa de passar alguns meses como dono de casa, enquanto eu saía para trabalhar.
Infelizmente, eu não ganhava dinheiro com royalties, sem precisar fazer absolutamente nada. Felizmente, ele ganhava o suficiente para sobreviver apenas com isso por anos, se quisesse, sem contar as campanhas publicitárias das quais fazia parte.
Quando o inverno chegou, %Aidan% já se encontrava novamente enfurnado no próprio estúdio, incapaz de passar muito tempo sem fazer música, mesmo que não fosse usar nada depois. Eu já tinha perdido a conta de quantas vezes ele havia trabalhado até tarde da noite com a desculpa de que aquele era o horário que mais lhe trazia inspiração.
Foi naquele mês que decidi fazer uma surpresa para ele, mais especificamente na véspera de seu aniversário. Quando deu meia-noite e o calendário virou para 10 de novembro, surpreendi %Aidan% com um bolinho de aniversário grande o suficiente para duas pessoas. Era de seu sabor favorito e estava personalizado, mas eu também não via a hora de comer.
O presente dele, escolhido com a ajuda de %Cami% e Kate, estava em uma caixinha azul envolta de um laço prateado.
Acendi uma velinha antes de bater na porta do estúdio — certas coisas nunca mudam e eu ainda não podia tentar espiar à procura de spoilers de músicas novas — e esperei %Aidan% aparecer.
Ele tomou um leve susto quando viu o bolo que eu coloquei na altura de seu rosto, mas um sorriso tímido, de canto, logo surgiu em seus lábios.
— Feliz aniversário! — Abaixei o bolo e ele riu ao ler a frase que havia nele.
Há 32 anos sendo um grande gostoso, com direito a um bonequinho exibindo o bíceps musculoso.
Ele se afastou para que eu pudesse entrar e fui direto para o sofá, com o bolo em uma mão e a caixinha de presente na outra.
— O que é isso aí? — ele perguntou, curioso, e se sentou ao meu lado.
— Uma coisa que acho que você vai gostar.
%Aidan% arqueou uma sobrancelha, desconfiado, e sem mais delongas, desfez o laço da caixa. Havia outra caixa menor, de veludo preto. Quando ele abriu, encontrou duas correntes e um novo par de alianças de compromisso.
— %Lexi%... — Ele sorriu, bobo, parecendo genuinamente feliz, e então seus olhos encontraram os meus. — Você disse que não queria que eu gastasse dinheiro com isso.
— Mas não falei nada sobre mim. Podemos colocar as antigas nas correntes, como você sugeriu.
No mesmo instante, %Aidan% pegou as correntes, tirou a própria aliança e a enfiou em uma delas, antes de pedir para eu virar e ele colocá-la em mim. Fiz o mesmo com ele e, em seguida, peguei sua nova aliança. Ele estendeu a mão esquerda ao invés da direita.
Eu ri, divertida, e por algum motivo, senti os olhos arderem de emoção.
— Isso é praticamente uma renovação de votos e a gente nem é casado — brinquei.
— Podemos resolver isso facilmente assinando um papel. Mas pra mim, você se tornou minha esposa desde o momento em que aceitou morar comigo — ele disse, e então segurou minha mão esquerda e deslizou a aliança no meu dedo, selando com um beijo.
Senti outro sorriso se abrir no meu rosto e um par de lágrimas escapar dos meus olhos. %Aidan% riu baixinho e as secou por mim, antes de me puxar para um beijo suave. Era tão bom estar assim com ele que, às vezes, era difícil acreditar que eu podia sentir tanta felicidade.
— Então... — comecei, assim que nos afastamos. — Tô ansiosa por esse bolo. O que acha de partirmos logo?
— Ei, eu sou o aniversariante e você é quem tá ansiosa?
— Tô morrendo de vontade de comer ele o dia todo. Quase passei o dedo na cobertura antes de vir pra cá.
— Achei que a gente ia comemorar só mais tarde, à noite, com minha mãe, %Cami% e nossos amigos — ele lembrou.
— E vamos. Mas eu queria um tempo sozinha com você antes. Uma comemoração só nossa... — expliquei. %Aidan% sorriu e tentou se aproximar de novo, mas o empurrei, rindo. — Só que o bolo vem primeiro.
Ele rolou os olhos e pegou a faca que eu havia apoiado ao lado do bolo, então o cortou bem no meio do bonequinho. Em seguida, me entregou o primeiro pedaço e eu o enfiei na boca como se não comesse há dias, gemendo de satisfação com o sabor delicioso antes de engolir.
Então veio o problema. Um enjoo instantâneo se instalou no meu estômago e o que eu tinha acabado de engolir pareceu voltar com tudo. Corri para o banheiro do estúdio e despejei tudo o que havia comido, não apenas o bolo, mas também o jantar de algumas horas antes. Tossi e engasguei, e em um segundo, %Aidan% já estava ao meu lado, esfregando minhas costas. Eu o expulsei do banheiro um minuto depois, quando me vi forte o suficiente, então lavei o rosto e escovei os dentes com uma escova reserva que havia ali.
Encarei meu próprio reflexo e fiz uma careta. Era incrível como vomitar era exaustivo. Num momento você está bem, e no outro parece que acordou de ressaca.
— %Lexi%. — %Aidan% deu duas batidinhas na porta. — Tá tudo bem?
— Sim. Agora tô melhor. — Abri a porta, e o encontrei parado com um olhar de preocupação no rosto. — Não sei o que houve. Foi só eu comer o bolo e...
Puff! — E se você estiver grávida? — ele perguntou como se não fosse nada.
— Não, de jeito nenhum — descartei a ideia. — Minha menstruação nem tá atrasada... Ou tá? — Franzi o cenho, sem ter ideia.
— Por que você não compra um teste e faz amanhã? Só pra descartar.
Fiz uma careta ao ouvir. Eu estava tomando anticoncepcional desde que voltamos para Nova York e minha ginecologista me fez fazer um teste para garantir que não havia nenhum bebê. Eu sempre ficava nervosa antes de fazer um, mas deu negativo. Não disse nada a %Aidan% porque sabia que era protocolo, mas agora era diferente. Seria como da última vez. E eu tinha quase certeza de que não tava grávida.
Bem, na verdade, eu não tinha certeza de nada... Mas a ideia me apavorava. Acho que mesmo que eu quisesse um bebê, continuaria sendo assustador. Aposto que as mães modelo apenas fingiam que eram tudo às mil maravilhas.
— Tá, de manhã eu faço — concordei. — E lá se vai a nossa comemoração...
— Vamos ver como você vai estar de manhã.
***
Exatamente como da última vez, fiz o teste de gravidez e o enfiei dentro da caixa enquanto esperávamos o tempo necessário para conferir.
%Aidan% estava encostado na pia do banheiro, de braços cruzados, parecendo um poço de tranquilidade, o contrário de mim.
— E se der positivo? — perguntei, aflita.
— Se der positivo, vamos ter um bebê e é isso. — Ele deu de ombros.
— Jura? Eu podia jurar que seria um cachorro que ia sair de dentro de mim.
Ele riu pelo nariz, mas não achei graça.
— Tudo bem, eu me expressei mal. O que quero dizer é que vai ficar tudo bem. Não é o fim do mundo. E você não tá sozinha nessa.
Respirei fundo, tentando me acalmar, e chequei a hora.
— Tá na hora. Você olha. — Entreguei a caixa para ele e coloquei as duas mãos no rosto, sentindo meu coração bater tão forte que parecia que ia sair pela boca.
— Relaxa, amor. Vai ficar tudo bem. Independentemente de qual for o-
De repente, %Aidan% se calou.
— O que foi? — Tirei as mãos do rosto e o vi encarando o teste, atônito. — %Aidan%?
Lentamente, ele virou o teste para mim e eu prendi a respiração ao ver o resultado.
Duas linhas vermelhas. Positivo.
Senti minhas pernas falharem naquele momento e me apoiei na pia, respirando com certa dificuldade.
— Sim — falei, após um momento, quando finalmente consegui puxar o ar decentemente para os meus pulmões. — Acho que vou encarar isso como algo que deveria ter acontecido antes.
Nosso primeiro bebê teria nascido naquele mês se não fosse pelo acidente, mas mantive esse pensamento para mim. Então, pensei comigo mesma que talvez fosse assim que as coisas deveriam ser.
— Nesse caso... — %Aidan% se aproximou e me envolveu em um abraço. — Posso dizer que tô muito feliz?
— Uhum — murmurei, apertando meus braços ao redor dele, com uma bochecha colada em seu ombro. Meus olhos arderam, e me perguntei naquele instante se era resultado da minha apreensão ou do famoso turbilhão de sentimentos imprevisíveis da gravidez. Talvez fosse um pouco dos dois.
%Aidan% se afastou, segurou meu rosto entre as mãos e foi então que notei seus olhos marejados.
— Eu te amo, %Lexi%. Muito mesmo. Obrigado por fazer eu me sentir o homem mais sortudo do mundo, amor.
— Vamos ter um bebê... — sussurrei, meio chocada, sentindo as lágrimas começarem a escorrer.
— Sim, vamos ter um bebê. — %Aidan% riu, e eu o acompanhei. De repente, estávamos chorando juntos, mas agora era um misto de felicidade, nervosismo e esperança pela nova vida que crescia dentro de mim.
— Vamos contar a todo mundo hoje?
— Com certeza, não vou conseguir esconder isso por muito tempo — ele brincou. — Temos que escolher os nomes.
— Ainda temos tempo, não é como se o bebê fosse nascer amanhã — lembrei. — Nem sabemos o sexo ainda.
Algo me dizia que seria uma menina, mas talvez fosse apenas uma impressão maluca. Pelo menos, eu não estava mais enjoada, embora provavelmente não conseguisse ver aquele bolinho de aniversário — que mal comemos — na minha frente nos próximos dias.
Um desperdício, pois estava uma delícia.
— Vamos comemorar, então? — %Aidan% se aproximou, roçando o nariz no meu.
— Sua mãe vai chegar a qualquer momento.
— Minha mãe vai levar pelo menos mais duas horas para chegar aqui; o avião dela nem pousou ainda — ele retrucou com um sorriso.
— Parece que temos tempo de sobra, então. — Sorri de volta, mordendo o lábio inferior de empolgação.
Sem mais nem menos, ele me colocou sobre o ombro, me fazendo rir alto, e seguiu em direção à nossa cama.
A vida dele, a minha e a que crescia dentro de mim. Em meio à felicidade, amor e roupas jogadas no chão, senti o amor expandir entre nós e que as coisas finalmente estavam como deveriam estar.
E com isso, tive a certeza de que mais momentos assim viriam.