Depois da Meia-Noite


Escrita porAlly M.
Editada por Natashia Kitamura


Capítulo 38

  Bam. bam. Bam.
  Bam! Bam! Bam!

  Acordei com o barulho de batidas, semelhante ao de uma porta. Olhei ao redor, confusa, mas então tudo ficou em silêncio por um momento. Me levantei e caminhei em direção à porta, ficando parada ali por alguns segundos, ainda um pouco sonolenta e tinha acabado de chegar à conclusão de que eu tinha imaginado aquele barulho depois de adormecer. Uma rápida conferida no relógio me disse que não fazia muito tempo que eu havia pegado no sono, e decidi aproveitar a chance de dormir, já que eu não vinha conseguindo fazer muito isso ultimamente.
  Bam! Bam! Bam!
  A batida recomeçou, dessa vez mais alta, me fazendo virar de uma vez em direção ao som, com os olhos arregalados. Me assustei com meu próprio reflexo no espelho de corpo inteiro que havia em uma parede ao lado da cama e coloquei a mão sobre o peito, sentindo o coração acelerado. Olhei para o espelho durante mais alguns segundos, quase certa de que o barulho tinha vindo daquela direção, o que não parecia fazer sentido algum.
  Bem, isso até uma mão espalmada surgir no vidro de repente, como se alguém estivesse do outro lado. Me sobressaltei, dando um gritinho e desviei o olhar do espelho, incapaz de raciocinar o que diabos estava acontecendo. Um segundo depois, ouvi meu nome sendo chamado ao longe. %Alexa%. %Alexa%. %Alexa%! Bam! A batida novamente. No próximo instante, a voz veio mais alta e eu travei no lugar quando finalmente a reconheci. Olhei novamente para o espelho e dessa vez havia um rosto ali. Não, um reflexo completo, que não era o meu.
  Do outro lado do espelho, %Aidan% me encarava com uma expressão frustrada no rosto, enquanto socava o vidro com força.
  — %Aidan%… — choraminguei, finalmente tomando uma atitude. Dois passos à frente e eu o encarei de perto através do vidro.
  — %Aidan%, eu sinto muito. Sinto muito. A culpa foi minha — murmurei baixinho, tocando o vidro no local onde sua mão estava espalhada.
  %Aidan% me encarou com tristeza e uma lágrima escorreu por seu rosto também. Ele franziu o cenho e socou o outro lado do espelho, onde nossas mãos não estavam espalmadas. Eu não tinha ideia do que estava acontecendo e em determinado momento comecei a balbuciar palavras sem parar.
  — Eu te amo tanto. %Aidan%, por favor, me leva com você. Me deixa ir com você — choraminguei.
  %Aidan% travou a mandíbula, como se aquilo fosse uma decisão difícil e sacudiu a cabeça, negando.
  — Por quê?! — Gritei, socando o espelho com as duas mãos. A moldura tremeu e uma luz prateada surgiu ao redor, mas eu estava incapaz de me importar com mais alguma coisa que não fosse ele, que não fosse em me juntar a ele. — Deveria ser eu no seu lugar!
  %Aidan% balançou a cabeça novamente e vi ele tentar falar novamente. De alguma forma, sua voz continuava distante.
  — %Alexa%, não. Por favor.
  — Mas eu quero! — Soquei o espelho outra vez, frustrada por ele estar me negando aquilo. — Por quê? Por que eu não posso?
  — Porque eu te amo. E você deve ficar.
  A imagem de %Aidan% tremeu de repente e eu arregalei os olhos, amedrontada que ele fosse desaparecer.
  — %Aidan%, não. Não vá, por favor. Eu amo você — murmurei, caindo em prantos quando vi sua imagem sumir bem na minha frente. — Não! Não! Não!
  Soquei o espelho com mais força, sem parar, até que ele finalmente quebrou.

***

  Quatro dias depois que eu soube da morte de %Aidan%, a mãe dele me enviou uma mensagem sobre seu funeral.
  Eu sabia que ele tinha sido cremado há dois dias e tudo o que tinha restado era uma pilha de cinzas. Também fazia quatro dias que eu estava trancada no meu quarto, ou pelo menos algo perto disso, já que %Camille% escondeu todas as chaves, objetos pontiagudos e qualquer peça de vidro que eu pudesse usar para tentar me ferir, incluindo espelhos. Aparentemente, eu tinha tentado tirar minha própria na madrugada seguinte da morte de %Aidan% e quase consegui fazer algo dessa vez, embora não me recordasse de nada.
  Eu lembrava de ver %Aidan% no espelho e de socar o vidro até ele se despedaçar, mas nada depois disso. %Cami% me contou que acordou com meus gritos e quando estava prestes a entrar em meu quarto, ouviu o barulho do espelho se quebrando. O resultado disso foram alguns cortes superficiais nas minhas mãos, uma dor chata no braço engessado — que provavelmente ajudou a espatifar o espelho — e talvez um pequeno trauma na minha irmã, depois de conseguir me impedir a tempo, antes que eu me machucasse de verdade.
  Ela estava tentando se manter firme diante da minha situação, mas, no fundo, eu sabia que minha irmã estava apavorada e fez questão de não me deixar mais sozinha em nenhum momento durante os últimos dias. Quando teve que sair para trabalhar, Andy e Kate se revezaram para ficar comigo.
  Não falei com ninguém durante esses dias. Tive que ser praticamente arrastada para fora da cama para comer e tomar banho, até que comecei a fazer isso no automático após o segundo dia após meu pequeno incidente com o espelho.
  No dia seguinte a ele, quando recebi a mensagem da Sra. %Callahan%, eu já ouvia as músicas que %Aidan% escreveu para nós dois sem parar, me agarrando às memórias que tínhamos feito juntos, agora sendo tudo que restava de nós. Ocasionalmente, novas lágrimas silenciosas fluíam de meus olhos e, às vezes, se transformavam em soluços no meio da noite quando eu não conseguia dormir. Era especialmente difícil agora e eu só apagava quando minha mente exausta me forçava a isso. Sempre que me ouvia chorar, %Cami% acordava ao meu lado e me abraçava em silêncio até eu me acalmar.
  Quando veio a mensagem da Sra. %Callahan% sobre o funeral, mostrei a tela do celular para minha irmã e ela me encorajou a ir e se ofereceu para me acompanhar, mas só tive coragem de fazer isso no final da tarde.
  Ao chegamos ao local do funeral, parei na entrada da sala onde a mãe de %Aidan% estava e %Cami% colocou uma mão nas minhas costas, em um apoio silencioso para que eu seguisse em frente. Por mais que o velório fosse privado, na entrada havia dezenas de flores enviadas pelos fãs de %Aidan%. Havia alguns rostos conhecidos ali, pessoas da equipe dele, e outros que eu não fazia ideia de quem eram.
  A Sra. %Callahan% estava sentada em uma cadeira encostada em uma das paredes da sala, mas se levantava toda vez que alguém vinha lhe oferecer os pêsames. Caminhei hesitante até ela e notei alguns olhares curiosos ao meu redor.
  %Cami% e eu paramos em sua frente e eu mordi o lábio inferior com força, tentando prender o choro. Ela olhou para cima e se pôs de pé quando me viu e, em silêncio, me envolveu em seus braços. Continuamos assim por alguns minutos, sem trocar uma palavra, e choramos juntas até que ela se afastou e passou as mãos pelo meu rosto, afastando minhas lágrimas, exatamente como %Aidan% fazia. Então, com sua voz gentil, disse:
  — Preciso conversar com você depois, meu bem.
  Assenti e me afastei para que outras pessoas pudessem cumprimentá-la e fiquei em um canto atrás de um arranjo de flores, querendo ficar sozinha. %Cami% se sentou ao meu lado em silêncio e segurou minha mão.
  Cerca de uma hora depois, já tinha anoitecido e as visitas pareciam ter cessado por um momento quando a Sra. %Callahan% veio até mim.
  Me levantei e juntei as mãos na frente do corpo, esperando pelo que quer que ela tivesse para falar.
  — Eu vou ao banheiro enquanto vocês conversam — %Cami% avisou, antes de se afastar e sumir de vista.
  Ficamos somente eu e a mãe de %Aidan% na sala e ela suspirou, visivelmente cansada.
  — Eu perdi meu único filho, %Alexa%... Mas você perdeu o amor da sua vida. — Ela me encarou com carinho, mesmo com seus olhos repletos de tristeza.
  Pressionei meus lábios juntos e abaixei a cabeça, até que senti ela colocar algo em minha mão. Um saquinho de veludo preto.
  — Posso jurar que meu filho foi mais feliz com você nos últimos três anos do que no resto da vida dele inteira, querida — ela continuou. — Quero que saiba que sou grata a você por cada momento que o fez feliz. Me entregaram isso há uns dias, mas acho que %Aidan% ia querer que ficasse com você.
  Olhei para ela por um instante e então voltei minha atenção para o saquinho, o abrindo e virando sobre minha mão.
  A aliança de compromisso de %Aidan% caiu sobre minha palma com um toque gelado e eu a apertei na mão, segurando forte, enquanto um soluço escapava de mim.
  — Eu sinto muito, Sra. %Callahan%. Sinto muito — murmurei, minha voz soando áspera pelos dias em silêncio. Então saí correndo, incapaz de passar mais um minuto que fosse ali.
  Pouco depois, me vi do lado de fora do prédio e continuei correndo sem rumo, sem nem prestar atenção na direção que estava indo. O vento gelado batia em meu rosto em meio às lágrimas e pingos de água que começavam a salpicar o chão logo se misturaram a elas, mas isso também não me impediu de continuar correndo até ficar sem fôlego. Parei de correr, colocando as mãos nos joelhos e percebi que havia chegado a um parque infantil, sem ninguém à vista. Tossi sem ar algumas vezes, em meio a lágrimas e soluços.
  Eu ainda segurava a aliança de %Aidan% em uma das mãos, mas com medo de perder, a coloquei no meu polegar direito. Àquela altura, eu já estava completamente encharcada, mas não me importei. Gotas grandes de água continuaram a cair e se acumular ao redor dos meus tornozelos, mas fiquei parada, tremendo dos pés à cabeça.
  — Por que você tá chorando? — Ouvi e me virei depressa, encontrando %Aidan% parado a alguns metros de distância.
  Meu coração acelerou de repente.
  — %Aidan%? — Esfreguei meus olhos para tentar enxergar melhor, mas quando olhei novamente, não havia nada.
  Deixei meus ombros caírem em decepção e suspirei, cansada, achando que tinha imaginado vê-lo outra vez. Respirei fundo por um momento, pensando em ir embora, mas, quando girei o corpo, paralisei no lugar.
  — Oi, amor. — %Aidan% sorriu, inclinando a cabeça para o lado, as duas mãos nos bolsos da calça jeans que usava.
  Ele estava ali. Bem na minha frente. Mais lágrimas se acumularam em meus olhos e os esfreguei outra vez. %Aidan% continuava ali, me encarando com um sorriso no rosto, bem diferente de sua versão no espelho. Franzi o cenho, confusa, sem entender o que estava acontecendo. Eu estava sonhando, por acaso? Até cogitei isso por um momento, então ouvi sua voz, em alto e bom-tom, chamando meu nome.
  — %Aidan%? — murmurei de volta, sem saber o que fazer.
  — Dance comigo, %Lexi%. — Ele me puxou pela mão de encontro a ele e pude jurar que senti o calor emanando de seu corpo, também encharcado pela chuva. %Aidan% vestia preto da cabeça aos pés e parecia tão real que comecei a acreditar que ele estava realmente ali comigo.
  — %Aidan%.
  — Escuta, amor. Eu amo o som da chuva. E se eu colocasse isso em uma música? Andei pensando nisso — ele comentou com um sorriso. — Mas agora, é hora de dançar.
  E então %Aidan% me girou pelo meu braço livre e me puxou de volta, meio desajeitado, quase derrubando nós dois. Uma risada involuntária escapou de mim e, no momento seguinte, me vi dançando uma espécie de valsa exagerada com ele no meio da chuva, tal como tínhamos feito algumas vezes nos últimos três anos ao sermos surpreendidos no meio de um passeio sem nenhum guarda-chuva.
  Às vezes, juntávamos nossos casacos para tentar barrar a água, mas, quando não dava certo, %Aidan% desistia e me puxava para dançar, exatamente como naquele momento. Aquelas eram algumas das minhas memórias favoritas. Com ele, a chuva não parecia tão fria, mesmo que nós dois começássemos a tremer após poucos minutos; e o guarda-chuva não fazia falta, pois tiraria a magia daqueles instantes. Viver isso outra vez me trazia uma sensação de aconchego e de pertencimento.
  Senti meu coração começar a se acalmar quase que instantaneamente.
  A chuva começou a diminuir, mas nós não paramos. Rimos e dançamos por mais alguns minutos até que %Aidan% me girou novamente e minha mão escapou da sua. O mundo ficou silencioso e eu já não ouvia mais a sua voz nem sua risada, como se tivessem sido levadas pelo vento.
  Quando me virei, ele já havia ido.

***

  A próxima coisa de que me lembro daquela noite foi de acordar em um hospital novamente. Já era a terceira vez que aquilo acontecia em menos de seis meses. Mas, diferente das outras, eu estava em uma enfermaria e não era %Aidan% que estava ao meu lado, e sim %Cami%.
  — %Lexi%! Ai, que bom que você acordou — ela disse, meio alarmada, assim que percebeu que eu havia despertado.
  Me sentei na cama e notei que havia um soro sendo injetado em mim.
  — O que é isso? O que aconteceu?
  — É só soro com vitaminas — ela explicou. — A médica falou que você tá desidratada. Alguém te viu dançando sozinha em um parque e disse que você desmaiou de repente, então ela te trouxe até o hospital. Ela ainda tá aqui, faz só uns cinco minutos que cheguei.
  — Quem...? — Comecei a perguntar, no intuito de agradecer quem quer que fosse por não me deixar congelar na chuva, mas antes que eu pudesse fazer isso, uma pessoa apareceu.
  Instantaneamente, eu a reconheci.
  — Oi, %Lexi% — ela me cumprimentou com um sorriso, mas ele não atingiu seus olhos.
  — Sujin?
  Por que a Xamã que consultei estava ali?
  — Você deve estar curiosa por ser justo eu, não é? Posso falar com você por um instante?
  Assenti e %Cami% se levantou, oferecendo a cadeira a ela antes de se afastar para nos dar privacidade.
  Sujin puxou um pouco a cortina da cama e então se sentou. Imediatamente notei que ela estava usando roupas casuais, bem diferentes dos robes e chapéus enfeitados que vestia quando estava atendendo. Se bem que aquilo era até óbvio, não era como se ela fosse andar por aí vestida daquele jeito.
  — Como você...? — tentei formular uma pergunta, em vão.
  Felizmente, Sujin parecia entender exatamente o que eu queria saber.
  — Eu tive uma... Sensação hoje. Que algo ruim poderia acontecer — ela contou. — Não sei por que, mas me vi saindo de casa e perambulando pelas ruas de Nova York sozinha, com um guarda-chuva amarelo na mão. Estava passando por um parque quando te vi dando sozinha, mas... Você não tava sozinha, né?
  Meus olhos se encheram novamente e minha visão embaçou. Abaixei a cabeça e encarei a aliança de %Aidan% em meu polegar.
  Sujin suspirou.
  — Eu fiquei sabendo da sua perda e sinto muito, %Lexi%. Mas acho que foi ele me levou até você.
  — O quê? — A encarei, surpresa.
  — Não é comum, sabe? Mas às vezes acontece e então, quando menos percebo, sou levada até alguém. Hoje apenas coincidiu de você ser uma das minhas clientes. Acho que ele sabia que você ia desmaiar em algum momento e quis ter certeza de que alguém te ajudaria.
  — %Aidan% fez isso? Você consegue ouvi-lo?
  — Não. — Ela balançou a cabeça. — Mas você estava em um local sem ninguém por perto e se tivesse continuado sozinha... A médica disse que isso poderia ter provocado uma hipotermia caso não fosse socorrida logo.
  — Entendi — murmurei, assentindo com a cabeça. — Obrigada, Sujin.
  — Agradeça a %Aidan% também. Ele não queria que você se machucasse.
  Tentei engolir o nó que estava em minha garganta, percebendo que ele quis dizer isso através do espelho também. Então lembrei do nosso momento roubado no parque e fechei os olhos, rezando para não esquecer nunca aquela memória.
  — Eu fiquei feliz por um momento, sabe? — desabafei. — De repente ele tava lá… até que não tava mais. Não entendo o que deu de errado, Sujin, sobre a maldição. Eu me afastei de %Aidan% pra proteger ele, pra tentar evitar mais coisas ruins de acontecerem, mas...
  — Você... Se afastou? — Sujin franziu o cenho, confusa. — Foi isso que você entendeu que deveria fazer pra quebrar a maldição?
  — Eu... Não deveria? — A encarei, assustada. — Eu fiz mesmo algo de errado?! %Aidan% morreu porque eu fiz a escolha errada?
  — Ah, %Lexi%... — Sujin me encarou com tristeza. — Eu sinto muito. Achei que tivesse sido clara a mensagem que me foi passada sobre a maldição, você parecia ter entendido. %Aidan% deveria ter sido a sua escolha. Nas outras vidas, a história se repetiu porque você continuou se afastando.
  — O quê?! Você tá me dizendo... Que eu devia só ter seguido em frente com minha vida? Com ele?
  — Era a determinação que vocês dois tinham juntos que quebraria a maldição. Vocês eram amigos, amantes, parceiros. O seu aborto foi um obstáculo que vocês deviam ter superado juntos. As coisas ficariam bem eventualmente, mas...
  — Não. Não, não, não, não. Você tá brincando, né? Então %Aidan% morreu mesmo por minha causa? E eu tenho que viver sabendo disso? Sujin... Qual o sentido de viver se ele não tá mais aqui? — perguntei, com a voz embargada. — Como eu pude ser tão burra?!
  — Eu sinto muito, %Lexi%. Talvez a maldição tenha nublado o seu entendimento e acabamos não percebendo.
  — Não, não. — Sacudi a cabeça, alarmada. — Você tem certeza de que acabou? Não pode ser. A... A entidade ou o que quer que ela seja. Ela se foi. Parei de sonhar com ela e o livro. Não tem alguma forma de eu entrar em contato com ela outra vez?
  — Isso não vai fazer %Aidan% retornar dos mortos, %Lexi%.
  — Mas você pode, não é? Você sabe como fazer isso.
  Sujin respirou fundo, como se estivesse em um dilema sobre o que responder. Então, um instante depois, voltou a falar.
  — Tem uma coisa... Um ritual que posso fazer, mas não há garantia de que vá mesmo funcionar. Se não der certo, posso te dar um talismã também pra você colocar debaixo do travesseiro quando for dormir, ao menos pra te acalmar.
  — Sim, sim, por favor. Faça o ritual, Sujin. Eu preciso falar com ela, ver se tem alguma coisa... Por favor, Sujin, eu pago o valor que for. Só preciso entender… porque parece que eu tô em um pesadelo do qual não consigo acordar.
  — Tudo bem, mas... Eu preciso te dizer algo antes, %Lexi%. Se o ritual der certo e você conseguir o contato… Você tem que saber que esses seres normalmente gostam de barganhar. Você pode ter que oferecer algo em troca do que quer que queira.
  — Tudo bem, isso não importa. Quando você pode fazer?
  — Após a meia-noite seria o ideal. Podemos fazer amanhã se-
  — Não. Vamos fazer hoje mesmo. Assim que eu sair daqui.
  — Tem certeza?
  — Absoluta.

  Cerca de duas horas depois, quando finalmente me vi livre do hospital, tive que convencer minha irmã a me levar até o estúdio de Sujin em Korea Town.
  No meio do caminho, transferi o dobro do valor que ela tinha me cobrado pelo serviço, como forma de demonstrar minha gratidão. Ela tinha ido antes para aprontar o que quer que precisasse, e embora %Camille% não estivesse nada satisfeita com aquela história de ritual, resolveu me apoiar mesmo assim.
  Quando chegamos, tivemos que esperar por mais uma hora até Sujin aparecer em suas vestes de xamã, arrumada da cabeça aos pés. Ela pediu para que eu a acompanhasse sozinha e então me levou até o terraço do prédio. Já não estava mais chovendo e a noite agora estava incrivelmente estrelada.
  Bem ali, havia uma espécie de altar ou algo assim, com itens que eu não fazia ideia do que significava. A única coisa que eu sabia sobre xamanismo era que variava de cultura para cultura, cada uma com suas particularidades.
  Resolvi confiar em Sujin e fiz exatamente o que ela pediu. Sentei sobre meus joelhos em cima de uma almofada vermelha que ela tinha posto em frente ao altar e então Sujin começou a bater em um tambor e usar um chocalho do tipo que eu só havia visto em dramas.
  Ela dançou e dançou ao meu redor e juntei as duas mãos, orando para que aquilo desse certo. Eu estava desesperada, e tentaria de tudo para conseguir contato com aquela entidade mais uma vez. Eu queria uma alternativa, uma última chance de fazer as coisas darem certo. E me agarraria nisso com toda a força e determinação que eu tinha dentro de mim.
  Em certo momento, Sujin começou a diminuir os movimentos de dança e eu senti meus olhos pesarem e meu corpo relaxar de uma vez, como se eu tivesse adormecido de repente.
  Quando abri os olhos novamente, eu estava em um breu com apenas dois pontos brilhantes de luz, que logo percebi serem um par de olhos.
  — Você veio. Demorou mais do que imaginei. — Ela se aproximou, tomando a forma de Ayla.
  — Você sabia que eu viria?
  — Não. Mas tinha um palpite de que você descobriria antes que fosse tarde demais. Não foi o que aconteceu, né? — Ela andou ao meu redor, com um sorrisinho debochado no rosto.
  — Por favor, eu preciso desfazer isso. Se tem algum jeito de trazer %Aidan% de volta, eu... Eu faço o que você quiser.
  — Não há como trazer os mortos de volta à vida, garota. Não seja tola. Não podemos perturbar o universo assim. E o universo não está nem um pouco feliz com você por ter repetido a mesma escolha errada mais uma vez.
  — Eu não sabia! Achei que tivesse entendido!
  — Eu te dei uma dica com Tenaz. Quando você perturbou a cena em que Ayla deveria se machucar, o que aconteceu? — ela perguntou.
  Franzi o cenho.
  — Eu... Acordei com ferimentos em mim.
  — Exatamente. Porque você perturbou o universo do livro — ela explicou. — Quando descobriu sobre a maldição com aquela xamã, pensei que fosse entender, era tão simples... Você me frustra, %Alexa% %Danforth%. E eu estou mais uma vez fadada a assistir essa história se repetir em outra vida. Não gosto disso, sabe? Ver você repetir as mesmas merdas de sempre. Se afastar da pessoa que mais te amou como uma covarde. %Aidan% merecia mais. Ele te defendeu até o fim quando brigou com ela.
  — Eu não queria... — Solucei. Eu não sabia que essa era a resposta...
  Àquela altura, tudo o que eu conseguia fazer direito era chorar. Não me surpreendia estar desidratada depois de tudo.
  — Ah, engula o choro. Você não veio aqui pra isso! — A entidade sibilou, fazendo meu corpo inteiro se arrepiar. — Acha que eu queria também?! Por causa de duas mulheres tolas, eu estou presa nisso há séculos!
  — Então me ajude! — implorei. — Me diga o que fazer!
  — Eu já te disse, não há como trazer %Aidan% de volta, garota. Mas...
  — O quê? — perguntei, desesperada. — Tem algo, não tem?
  — Há... Uma coisa. Que pode trazer benefícios para nós duas. Assim eu também posso me livrar disso. Aquela xamã barulhenta deve ter te dito algo sobre uma barganha.
  — O que você quer? Eu te dou qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo.
  — Mesmo que você tenha que trocar a sua vida pela de %Aidan%? — Ela arqueou uma sobrancelha.
  — Eu... Sim. Mesmo isso. Prefiro que ele viva feliz e bem do que viver sem ele.
  Ela deu uma gargalhada, parecendo se divertir. Franzi o cenho, com raiva por ela estar debochando dos meus sentimentos, mas desesperada demais para dizer algo.
  — Não seja idiota, não vou pedir sua vida — A entidade voltou a falar, me pegando de surpresa, seu rosto completamente sério dessa vez. — Vocês são predestinados há séculos. Acha mesmo que aquele homem conseguiria viver sem você? Ele já tentou fazer isso antes, em outras vidas. E morreu pelas próprias mãos ou pelas mãos da então esposa, como dessa vez. Você desapareceria deste mundo eventualmente também. Em todas as vezes, você colocou um fim à sua própria vida. E quis fazer isso de novo, não foi?
  Engoli em seco, assustada com tudo o que ela sabia, mas não mais surpresa.
  — E pensar que ele se deu ao trabalho de salvar sua vida hoje. — Ela estalou a língua em desaprovação, antes de continuar. — Eventualmente, vocês reencarnariam e outra vez se encontrariam. A história se repetiria e eu a assistiria tal qual um filme em loop, sempre torcendo por um final diferente, mesmo sabendo que não viria.
  — Então me deixe mudar o final. Por favor. Por favor — implorei mais uma vez. — Eu faço o que você quiser.
  Ela então andou ao meu redor em silêncio por mais um instante, com as duas mãos para trás, como se estivesse pensando a respeito.
  Então parou em minha frente.
  — Muito bem, então — decidiu. — De você, eu só quero uma coisa. Você deve cuidar daquele que não teve a chance de viver.
  — O quê? O que isso significa?
  — Talvez um dia você descubra. Ou não. — Ela deu de ombros. — Está nas suas mãos agora. Se disser sim, posso fazer algo por você uma última vez. Vou te fazer voltar para um momento crucial, mas você terá que ter em mente que, em algum momento, você vai esquecer de mim e dessa conversa. Vai esquecer de tudo o que aconteceu até agora e terá que agir com inteligência. Se der errado dessa vez, você não vai conseguir me encontrar de novo.
  — Sim, sim, sim. Por favor. Eu aceito. Qualquer coisa. Por favor.
  Eu não ia nem sequer pensar duas vezes. Fosse o que fosse que ela queria, eu o faria.
  A entidade sorriu, satisfeita.
  — Ótimo. Mantenha em mente a escolha que deve fazer, %Lexi%. Tente o máximo que conseguir, e aja rápido, pois eventualmente você vai esquecer. Além disso, tem só mais uma coisa.
  — O quê? — eu quis saber.
  — Você não deve dizer a %Aidan% sobre a maldição. Não que ele vá acreditar, claro. Mas talvez pense que você está louca. — Ela deu uma risadinha.
  — Tudo bem, não vou contar. E agora?
  — Agora... — Ela se aproximou e colocou dois dedos em minha testa. — Você deve acordar.
  Seus olhos brilharam em uma luz ofuscante e tive que fechar os meus, colocando as mãos no rosto, tamanha a intensidade da luz. Instintivamente, me agachei para me proteger da luz até que então, sem mais nem menos, ela desapareceu de repente e eu estava de volta ao meu quarto, no apartamento de minha irmã.
  Um segundo depois, me assustei levemente ao ouvir batidas na minha porta, e imediatamente soube quem era.

Capítulo 38
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