Capítulo 36
%Aidan%
— O videoclipe é um sucesso — Jace comentou durante a pequena reunião de comemoração da equipe. — As visualizações não param de aumentar. Confesso que nunca achei que um vídeo tão simples fosse ter tanto sucesso.
— Isso é porque a música foi um sucesso — explicou Erika, uma das produtoras executivas. — Devemos tudo isso a %Aidan%, que nunca decepciona em suas composições. Um brinde a isso! — Ela levantou o copo e todos brindaram com suas bebidas.
Até mesmo eu, por educação.
Tinha lançado “Red Shoes” no dia anterior, incluindo um videoclipe da música. O público tinha aceitado bem, mas eu sabia que a maioria estava curiosa sobre o motivo da escolha do tema.
Gravei o vídeo na semana anterior, antes de viajar com %Lexi%, e consistia em apenas eu sentado no chão, com brinquedos infantis ao redor, um berço e os sapatinhos vermelhos que %Lexi% havia deixado para trás. Na edição, havia alguns cortes de fotos sem os nossos rostos passando em um loop rápido, como se fosse uma espécie de falha na imagem, e o bilhete que ela tinha colocado com os sapatinhos. Eu estava de pijama, cantarolando a música que tinha um toque de violão ao fundo, enquanto olhava com carinho para o parzinho minúsculo de crochê.
A música tinha uma letra simples e curta. Falava sobre alguém que tinha ido embora, mas ainda assim tinha lugar especial no meu coração. O vídeo era inteiramente preto e branco, a não ser pelos sapatos. Eu sorria enquanto cantava, mas, no final, deixei uma lágrima escapar.
Era mais do que óbvio o que aquilo significava, mas ainda que o clipe estivesse relacionado a um bebê, eu tomei cuidado para a letra soar ambígua, apenas sobre uma pessoa que se foi e deixou sapatos para trás. Poderia ser qualquer um. As pessoas poderiam se identificar de diversas formas com a música, mas a verdade era que eu a tinha escrito para mim mesmo e para %Lexi%.
Era uma música escrita alguns dias depois de %Lexi% ir embora, em uma tentativa de confortar a mim mesmo, não só sobre a perda do bebê, mas também sobre %Lexi%. De certa forma, eu esperava que ela também encontrasse algum conforto nela.
Eu não fazia ideia se ela havia ouvido, mas imaginava que sim. Ela tinha sido uma das pessoas mais ansiosas por um novo lançamento. Um dia antes de lançar “Red Shoes”, minha equipe divulgou a capa do novo álbum, que estava programado para sair à meia-noite após minha apresentação em Los Angeles, no dia seguinte. Eu já estava na cidade há dois dias. Resolvi viajar antes para me preparar para o festival e me hospedei no hotel onde minha equipe e eu costumávamos ficar, e agora estávamos ali, comemorando um sucesso com o qual eu não conseguia me sentir feliz.
Respirei fundo, bebi o último gole de cerveja, e observei as pessoas sorridentes ao meu redor por um instante, antes de decidir me recolher para o quarto. Uma série de reclamações veio, mas os convenci de que precisava descansar a voz para o dia seguinte.
Lancei um último olhar para Jace, que sorria animado, e ele levantou o próprio copo em um cumprimento antes de eu sair. Ele podia aproveitar os últimos dias como meu gerente o quanto quisesse, mas eu sabia que, em breve, um aviso de demissão viria.
E talvez ainda naquele fim de semana.
***
Ouvi a multidão gritar meu nome repetidamente enquanto observava meu próprio reflexo no espelho da sala de espera. Uma staff tinha acabado de me avisar que eu tinha dois minutos para subir ao palco, então respirei fundo, terminei a dose de whisky que tinha em mãos e saí para me apresentar, tentando ignorar a sensação esquisita no meu peito a cada passo.
Imaginei que devia ser apenas ansiedade, já que aquela era a minha primeira apresentação desde a turnê que finalizei antes do acidente de %Lexi%.
E eu ainda não conseguia tirá-la da cabeça. Não que eu esperasse conseguir tão cedo depois do que aconteceu na casa da minha mãe, mas ela era como uma coisa fora do lugar, do tipo que você ignora na maior parte do tempo, dizendo a si mesmo que vai arrumar, mas continua lá à medida que os dias passam, como um lembrete constante de que você deveria fazer algo a respeito, mas continua apenas adiando porque não te incomoda muito.
De fato, pensar em %Lexi% não me incomodava, mas sim pensar sobre o que tinha restado de nós: um grande e belo nada.
Eu também havia ficado intrigado com a insistência dela quanto ao stalker. O cara estava preso, mas %Lexi% tinha insistido tanto que Roy era um bode expiatório que, quando a deixei em casa, acabei voltando para a delegacia e pedi ao detetive para não encerrar o caso, mas conduzir uma investigação mais apropriada.
Ele não hesitou. Na verdade, tinha a intenção de fazer isso e contou que, durante o interrogatório, pensou que Roy estivesse mentindo antes mesmo de %Lexi% pedir para entrar na sala e que, após sairmos, constatou exatamente o que ela pensava.
Roy não conhecia nenhuma música minha. Além disso, o celular que ele carregava continha apenas uma ligação suspeita, vinda de um telefone descartável. Nada de aplicativos de redes sociais, fotos ou vídeos na galeria, o que não condizia com a obsessão que ele alegava ter por mim.
No entanto, no dia anterior, recebi uma atualização do meu advogado, informando que Roy tinha um vínculo com alguém. Sua avó estava internada em um hospital e a conta só aumentava, até que, cerca de uma semana atrás, foi quitada por alguém com o sobrenome Keller.
Senti o sangue fugir do meu rosto no momento em que li a mensagem.
O palpite do detetive era que Roy não esperava que o vínculo com sua avó fosse ser descoberto, mas isso foi o suficiente para que eles chegassem a um novo suspeito. E eu só conhecia uma pessoa com aquele sobrenome, alguém que tinha informações suficientes sobre mim para agir como um stalker.
Conversei com meu advogado e notificamos o detetive, que por sua vez notificou a polícia de Los Angeles. Jace seria convocado em breve, mas pedi que isso acontecesse após a apresentação. Aquilo seria um escândalo praticamente concomitante ao lançamento do meu álbum e eu não queria chamar atenção para isso antes de subir ao palco.
A apresentação correu bem e eu consegui manter um sorriso no rosto na maior parte do tempo até chegar em “Red Shoes”, que era a última música.
— Essa música originalmente não faria parte do álbum, mas resolvi incluí-la há algum tempo. É sobre aqueles que se foram, mas que mesmo assim têm um espaço especial no nosso coração. Espero que gostem.
A plateia gritou e logo os primeiros acordes começaram a tocar. Senti um leve frio na barriga, por ser a primeira vez que cantava aquela música ao vivo, mas felizmente correu tudo bem.
Eu ainda tinha um sorriso no rosto quando terminei, embora meus olhos estivessem ardendo e levemente embaçados.
Em seguida, agradeci, me despedi e enfim saí do palco.
***
Quase duas horas depois, eu já estava de volta ao meu quarto de hotel quando bateram à porta. Já passava das onze e meia, mas eu tinha pedido serviço de quarto um pouco tarde. Depois de um show, eu nunca conseguia dormir cedo e certamente não o faria de estômago vazio. Tomei um banho enquanto esperava e, pelo visto, o momento tinha sido perfeito.
Eu ainda estava com uma toalha ao redor do pescoço quando fui atender a porta para pegar a comida. Mas mal a abri, Jace já estava ali, empurrando uma folha de papel contra meu peito.
— Que porra é essa, %Aidan%?! — ele perguntou, entrando no quarto sem permissão.
Peguei a folha e examinei o título rapidamente.
— Uma demissão — respondi calmamente e me virei, indo até a pequena cozinha que havia ali enquanto secava o cabelo. O quarto parecia um pequeno apartamento, com uma varanda que dava para a frente do edifício.
Jace andou em meu encalço.
— Por que você tá me demitindo? Eu não fiz um bom trabalho gerenciando você?
— Fez — admiti. — Mas eu não quero mais trabalhar com você.
— E por que não? Estamos juntos há cinco anos!
Eu ri pelo nariz e o encarei.
— Você fala como se a gente tivesse em um relacionamento — zombei. — Você faz um bom trabalho, Jace, mas temos diferenças de personalidade que estão me incomodando há um tempo. Sinto muito.
— Diferenças de personalidade? Como assim? O que eu fiz pra você pensar isso?
Respirei fundo, antes de responder.
— Pra começar... Você vive querendo se intrometer na minha vida pessoal, sabendo que detesto isso. E eu não gostei das coisas que você falou sobre a %Lexi% quando a gente terminou.
— É sobre ela, então? A sua ex? Eu tava tentando te ajudar a superar.
— Falando mal da mulher que eu amo?
— Você é um capacho dela, %Aidan%! Não percebe? Essa mulher te controla!
— %Lexi% pode até mandar em mim se ela quiser, Jace. Se ela me pedir pra ajoelhar diante dos pés dela, eu o farei de bom grado.
— Vai beijar os pés dela também? — debochou.
— Eu
começaria pelos pés — devolvi com um sorriso, vendo-o travar a mandíbula de desgosto.
Peguei meu celular em cima do balcão onde o havia deixado e enviei uma mensagem rápida para meu advogado, solicitando a polícia.
— Inacreditável, %Aidan%! Ela terminou com você há dois meses! Ela não te quer mais, só que você continua agindo assim.
— E, de novo, isso não é da sua conta, Jace. Agora que já estamos esclarecidos, você pode ir embora, por favor? — pedi calmamente, e ele me encarou como se eu tivesse lhe dado um soco.
— Você tá me expulsando agora?
— Tecnicamente, eu nem te convidei pra entrar. Quero ficar sozinho.
— %Aidan%, pense direito. Você não tá sendo profissional. Vai mesmo me demitir por causa de uma mulher que nem tá mais com você?
Exalei o ar de uma vez, sentindo minha paciência se esvair.
— Ela ainda estaria comigo se não fosse por você — falei sem pensar.
E o idiota ainda teve a ousadia de parecer surpreso.
— Como assim? Eu não fiz nada com ela.
— Não. Você só pagou alguém pra fazer, seu imbecil — retruquei com raiva.
— O quê? — Ele pareceu vacilar por um instante.
— Achou que eu nunca fosse descobrir, Jace? Que você é aquele maldito stalker que vinha importunando a mim e a %Lexi% durante meses?
— Do que você tá falando? A polícia pegou esse stalker, era aquele tal de Roy.
— Pegou? — Arqueei uma sobrancelha. — Eu não me lembro de ter contado isso a você. Na verdade, além dos policiais envolvidos, apenas %Lexi%, eu e meu advogado sabíamos. A não ser que você tenha entrado em contato com Roy.
— O que pensa que eu sou, %Aidan%?
— Além de um idiota doente e obcecado? Não faço ideia.
O olhar dele endureceu, perdendo a falsa inocência que fingia.
— Você nunca deveria ter se envolvido com aquela mulher. Eu cheguei primeiro! Devia ser apenas nós dois!
— Do que você tá falando?
— Devia ter acabado no atropelamento dela, mas aquela vadia sobreviveu. E mesmo sem memória, você insistiu em cuidar dela quando ela nem lembrava de você! E continuou feito um cachorrinho. Mas eu… Eu te amei primeiro!
Eu ri, incrédulo, incapaz de me controlar.
— Se olhe no espelho, Jace. Eu gosto de mulheres. Não seja idiota, o que pensou que poderia acontecer entre a gente?
— Eu deveria ter sido mulher também. Já fui uma... Em outra vida.
— O quê? — Franzi o cenho. Que papo era aquele?
— Devíamos ser casados, %Aidan% — ele continuou. — Mas aquela prostituta nojenta
sempre apareceu. Eu não suporto o fato de você sempre ficar que nem um cachorrinho atrás dela e me ignorar.
De repente, senti meu sangue ferver.
— Você tentou matar minha mulher, seu imbecil! — esbravejei. — Duas vezes! E você deve estar realmente doente pra vir com esse papo de casamento pra cima de mim. — Me aproximei dele, apertando os punhos. — Não importa o que você faça, eu
nunca vou parar de amar %Alexa%. Não quero ninguém que não seja ela, me ouviu? Agora dá o fora daqui, Jace. Acabou.
— Não! Eu me recuso! Você tem que pensar, %Aidan%. Seu lugar não é com aquela puta! Eu-
Soquei seu rosto antes que ele pudesse continuar.
Ele colocou a mão na boca, percebendo o sangue em seu lábio cortado. Minha aliança tinha provocado aquilo, mas eu não sentia nem mesmo um pingo de remorso. E, pelo visto, ele percebeu isso, já que sua próxima ação foi vir para cima de mim, seu corpo colidindo com o meu enquanto nos arrastava para a varanda.
Uma batida na porta soou naquele exato momento.
— Sr. %Callahan%? Aqui é a polícia.
— Aqui! A porta tá aberta — gritei, enquanto tentava fazer Jace me soltar.
— Você chamou a polícia? Como se atreve a fazer isso comigo?! — Ele me deu um soco e eu cambaleei um passo para trás, antes de avançar nele de novo.
— Sr. %Callahan%? Recebemos seu chamado. Se não responder agora, iremos entrar mesmo assim.
— Entrem! — gritei mais alto e, um momento depois, a porta foi aberta e dois policiais entraram.
Apontei para o chão, onde Jace havia caído sentado. Eles se aproximaram, cada um com a mão sobre a arma na cintura. Mas antes que pudessem nos alcançar, Jace se levantou e usou um vaso de planta para quebrar o vidro da varanda, alarmando ainda mais os policiais e a mim.
— Que porra você tá fazendo?! — gritei, me afastando da parte quebrada.
— Sr. Keller, mãos para o alto! — Um dos policiais gritou, apontando uma arma para ele.
Jace veio até mim, ignorando o aviso e me agarrou pela camisa, me empurrando para a beirada. Os policiais gritaram ordens, mandando ele me soltar. Eu tentei me soltar dele, consciente de que estávamos perto demais da beirada, que seria arriscado demais os policiais atirarem ou tentarem nos puxar.
— Me solta, seu filho da puta! — Tentei tirar suas mãos da minha camisa, mas ele se agarrou a mim, seus braços como um cinturão ao meu redor.
— Se eu não posso te ter, então ela também não! — ele gritou, e eu arregalei os olhos por um milésimo de segundo, sentindo uma onda de medo e adrenalina me atingir.
Então ele nos atirou do prédio.
Levou cerca de dois segundos até eu sentir o impacto em todos os meus ossos, o ar escapando dos meus pulmões, uma dor absurda em todos os lugares e uma tentativa falha de respirar que me fez engasgar com um líquido que percebi ser meu próprio sangue. Jace estava ao meu lado, imóvel, mas havia a sombra de um sorriso em seu rosto. Engasguei novamente, vendo minha vida passar diante dos meus olhos.
Uma lágrima caiu e pensei no sorriso de %Lexi%, a última memória à qual eu queria me agarrar, enquanto uma estranha consciência do que estava acontecendo tomava conta de mim.
%Lexi%, %Lexi%, %Lexi%, pensei, sem parar.