Capítulo 40
Assim como da última vez, depois de alguns dias após %Aidan% me visitar no apartamento de %Cami%, ele recebeu informações sobre o suposto stalker.
Roy Basset era só um bode expiatório e eu sabia disso, mas não podia falar nada enquanto ele não fosse pego. E considerando que %Aidan% e eu estávamos juntos novamente, era provável que Jace o mandasse me atacar mais uma vez, especialmente agora que eu tinha voltado a morar com ele.
Um dia após voltar para casa, movida pelo medo de esquecer das informações que eu tinha na minha nova linha de tempo, escrevi uma lista de coisas enquanto trabalhava, lembretes que li repetidamente no intuito de fixar aquelas informações ao menos no meu subconsciente, apenas para o caso de acontecer algo e eu esquecer de tudo repentinamente.
A primeira delas era:
Roy Basset não é o stalker. Ele tem uma avó doente que está internada. Os outros itens variavam em coisas aleatórias sobre Jace, sobre o meu próximo acidente e o que poderia acontecer com %Aidan%. Ele me contou sobre a apresentação em Los Angeles e prometi acompanhá-lo naquela viagem. De jeito nenhum eu o deixaria sozinho perto daquele idiota Jace, ainda mais sabendo que na linha do tempo anterior ele havia surtado bem ali.
Deixei a lista colada na minha mesa, em um local suficientemente visível para que eu pudesse consultá-la sempre. Eu estava trabalhando novamente e já havia relido a lista três vezes naquela manhã. %Aidan% estava trancado no estúdio, mas, na hora do meu intervalo de almoço, ele apareceu para avisar que nossa comida havia chegado. Eu ainda estava proibida de tomar refrigerante por causa da minha suposta gravidez, então não me surpreendi quando ele tirou uma jarra de suco de laranja da geladeira. Tínhamos voltado para nossa dinâmica e rotinas habituais, e ele agia como se nada tivesse acontecido.
— Vou fazer o teste hoje — anunciei, enquanto comíamos. — Mas tô te falando, eu não tô grávida.
— Vamos ver, então. — Ele deu de ombros.
Quase parecia que %Aidan% estava me desafiando. Mas eu sabia que o teste seria negativo porque já tinha feito ele antes. Só que mesmo sabendo disso, quando entrei no banheiro com ele em mãos, logo após o almoço, não deixei de me sentir um pouquinho nervosa.
%Aidan% ficou esperando do lado de fora e parecia um pouco ansioso também. Quando terminei, coloquei o teste de volta na caixa e o deixei entrar. Esperamos o tempo do resultado e, quando isso aconteceu, fui puxando lentamente o teste da caixa até o visor estar completamente descoberto.
Como eu esperava, havia apenas uma linha, e ainda assim senti uma pontada de decepção. Aparentemente, %Aidan% também, já que suspirou, pegou o teste e o jogou no lixo.
— Viu? Eu disse que não tava grávida — falei, bem humorada, mas ele nem mesmo sorriu.
— Você tá decepcionado? — Segurei o rosto dele com uma mão. %Aidan% se inclinou ao toque e beijou a palma da minha mão.
— Não, só... desiludido, eu acho. Já tinha pensado em um zilhão de coisas pra fazer caso você estivesse grávida.
— Ah... Mas é melhor assim, né? Você vai lançar um álbum em breve. O público não precisa de uma fofoca dessas.
%Aidan% não parecia acreditar nisso, mas imaginei que ele não queria prolongar o assunto. Da última vez que engravidei, não foi planejado. Eu fiquei muito ansiosa quando descobri, mas, no fundo, sabia que %Aidan% ficaria feliz. Tínhamos conversado apenas uma vez sobre filhos e ele deixou claro que gostaria de ter ao menos um, mas que a escolha seria sempre minha, já que o corpo era meu. E se não tivéssemos nenhum, tudo bem também.
Aquilo tinha acontecido há mais de um ano e não tínhamos tocado no assunto desde então, mas acho que o aborto mexeu com %Aidan% e talvez comigo também, embora agora eu soubesse — e aceitasse — que perder o bebê não fora minha culpa.
Alguns minutos depois, %Aidan% me arrastou até o estúdio, ansioso para me mostrar algo. Eu nem mesmo hesitei, embora já tivesse ouvido seu álbum novo inteiro antes, na outra linha de tempo. No entanto, assim que pensei nisso, percebi que a única música de que me lembrava com clareza era "Red Shoes". Franzi o cenho, assimilando aos poucos a constatação da minha memória falha. Não que fosse algo extremamente importante, mas eu havia ouvido o álbum dezenas de vezes na semana de sua morte, em um esforço desesperado para me agarrar a alguma coisa. Além disso, a cena dele aparecendo para mim e me puxando para dançar ainda estava fresca na minha mente. Era doloroso lembrar daquilo e só de pensar nisso, eu já me sentia ansiosa e com vontade de chorar.
Felizmente, %Aidan% me distraiu quando os primeiros acordes de “Red Shoes” começaram a tocar. Sorri para ele, sentindo os olhos arderem e a visão embaçar instantaneamente enquanto eu ouvia a música. %Aidan% entrelaçou nossas mãos e sorriu com carinho. Seus olhos também brilhavam com emoção, e quando minhas lágrimas começaram a cair, ele se juntou a mim. “Red Shoes” era, ao mesmo tempo, triste e reconfortante, mas ouvi-la daquela forma, ao lado dele, me trazia uma sensação diferente. %Aidan% me puxou para um abraço e, mesmo quando a música acabou, continuamos assim, chorando em silêncio. Havia algo de reconfortante em fazer aquilo com ele, em dividir aquela dor.
— Você podia ter me contado antes, sabe? Sobre o aborto — murmurei, afastando-me para encará-lo, ainda abraçada a ele. — Você lidou com isso sozinho enquanto eu era a maluca que tinha acabado de descobrir que namorava seu cantor favorito.
— Eu não podia te sobrecarregar. Você lembrou de uma parte da noite em que nos conhecemos e desmaiou por uns segundos. Você sabe que eu não podia contar, %Lexi%.
— Me sinto mal por você ter descoberto assim. Eu queria fazer uma surpresa.
— Eu sei. Mas vou guardar aqueles sapatinhos com carinho. Podemos ter perdido um bebê, mas não quero esquecer que, por um tempo, ele esteve lá.
— Talvez não fosse pra ser — comentei, lembrando da maldição.
— Talvez não fosse o momento, assim como hoje.
Enterrei o rosto no seu pescoço e respirei fundo, sentindo o cheiro do seu perfume. Senti um nó se formar na minha garganta e o abracei um pouquinho mais forte. Se havia uma memória que eu gostaria de esquecer, era a de quando descobri que ele não estava mais aqui e os dias que se seguiram depois.
— Obrigada pela música, %Aidan%. É reconfortante, espero que seja assim pra você também.
— Agora é — ele admitiu, esfregando minhas costas suavemente.
— Vai ficar tudo bem agora. Nós vamos ficar bem, vou garantir isso — prometi.
***
— Quer dizer que sua mãe vai dar uma festa à fantasia? — perguntei, alguns dias depois.
Eu estava me arrumando para ir ao trabalho, agora que tinha resolvido voltar a trabalhar presencialmente, e %Aidan% tinha acabado de receber uma ligação da mãe, confirmando nossa presença.
— Preciso comprar um presente. Você pode ir comigo?
— Que tal amanhã? O aniversário dela já é na sexta, a gente devia ter ido antes — comentei, incomodada.
Era igual da outra vez, a gente fazendo as coisas em cima da hora. O que significava que alguma coisa também se aproximava. Mas o quê? Tentei lembrar se havia alguma data importante após o aniversário da mãe dele, mas nada. Tinha a impressão de ter anotado algo em uma lista, mas revirei o celular, o tablet, minha mesa e não encontrei nada.
O que eu estava esquecendo?
Será que eu havia sonhado com aquilo?
Se bem que, ultimamente, eu não vinha sonhando com mais nada de que eu me lembrasse depois. Nem mesmo com
Tenaz. Depois que voltei para casa com %Aidan%, tudo parou. Achei uma pena, porque eu queria presenciar Cora %Danforth%, a mãe de Ayla, prendendo James Nam, o pai de Dean. Além de todo o resto do romance, é claro. E o casamento de Tiana! Parecia tão real...
— A gente pode comprar algo que ela goste e viajar na quinta. Vou comprar as passagens hoje mesmo — %Aidan% disse, interrompendo meu devaneio.
— Sua mãe gosta de bolsas — comentei, enquanto passava o batom. — Vou dar uma pesquisada na internet e depois a gente pode ir comprar em algum shopping.
— Sim. Ah, já ia esquecendo de falar, contratei dois guarda-costas pra você.
— O quê? — Me virei para ele. Aquela informação era nova para mim, mas, ao mesmo tempo, era como se não fosse. Eu não tinha ideia do porquê.
— Por causa daquele garoto. Ele te atropelou uma vez, %Lexi%. E se ele for atrás de você de novo?
— Se ele vier, espero que esteja a pé pra eu poder dar um chute nas bolas dele. — Levantei uma perna, mostrando exatamente como faria, e %Aidan% riu, divertido.
— Você tá rindo, mas sabe que eu faria isso mesmo.
— Ah, eu tenho certeza. Mas vou te poupar desse trabalho e deixar isso pra Carter e Louis.
Dei de ombros, não me importando muito.
— Peça pra que eles sejam discretos. Mas eu gostaria de ao menos saber quem são.
— Eu tenho fotos, vou te mostrar.
***
Conheci Carter e Louis brevemente na fila da cafeteria onde eu costumava passar antes do trabalho. Eram enormes e tinham uma aparência meio intimidadora, mas foram bastante gentis. Querendo ou não, era um alívio saber que eles estariam por perto, caso eu precisasse. Pelo menos, enquanto eu estivesse fora de casa.
No edifício onde morávamos, a segurança era pesada e não costumávamos receber ninguém estranho. Na verdade, as únicas pessoas que tinham passe livre para entrar eram Kate, Andrew e %Cami%. Mesmo assim, ninguém nunca aparecia sem avisar. Até os entregadores tinham um acesso controlado e sempre tínhamos que confirmar que estávamos esperando alguma entrega.
Embora trabalhasse a maior parte do tempo em casa, %Aidan% não gostava de trazer colegas de trabalho para seu lar. Ele era o oposto de mim, mas eu sabia que a amizade que eu havia desenvolvido com Kate e Andy não se comparava nem um pouquinho com o relacionamento estritamente profissional que %Aidan% mantinha com sua equipe. Ele saía com Jace e o restante do pessoal às vezes, mas eles nunca visitaram nossa casa. Por causa disso, foram raras as vezes que encontrei algum um deles.
Não que eu estivesse reclamando, é claro. Especialmente sobre o idiota do Jace Keller. Eu não queria aquele cara na minha casa de jeito nenhum, principalmente quando descobri que ele nem estava fazendo seu trabalho direito como gerente de %Aidan%. E minha antipatia por ele piorou mais ainda quando %Aidan% me contou o que ele tinha dito no telefone sobre mim e o nosso término. Babaca. Mas eu também só soube disso quando %Aidan% me disse que queria trocar de gerente após o lançamento do álbum. Deduzi que aquela não tinha sido a única vez que Jace tinha falado alguma besteira sem pensar, disfarçada de brincadeira.
— Não me sinto confortável trabalhando com alguém que menospreza a minha mulher — %Aidan% comentou.
Tínhamos acabado de almoçar e estávamos a caminho de um shopping, em busca de um presente para a mãe dele.
— Eu teria demitido ele desde quando ele te negligenciou com a história do stalker. Você aguentou muito e ainda foi simpático.
— Bem, agora minha simpatia se esgotou. Vou pra LA no sábado pra resolver isso e volto no domingo.
— Não, vai ser muito cansativo pra você. Além disso, você vai pra comigo na próxima semana.
— Tudo bem — assenti, sem discutir.
Não tinha muito o que fazer lá mesmo. E eu ainda teria que trabalhar na segunda.
Quando chegamos no estacionamento do shopping, me senti um pouco ansiosa antes de sair do carro.
— Tá tudo bem? — %Aidan% quis saber.
— Sim, é só que... Eu não vou a um shopping desde o acidente.
— Quer tentar outro lugar?
— Não, eu tô bem. Vamos. — Saí do carro, ainda um pouco ansiosa, mas isso amenizou quando %Aidan% segurou minha mão.
Ele não se preocupou em usar um disfarce naquele dia. Usou apenas um boné preto, sem máscara ou óculos escuros e fomos parados cerca de três vezes por fãs pedindo autógrafos e fotos até finalmente chegarmos à loja. Não demoramos muito; saímos de lá depois que cada um comprou uma bolsa para a mãe dele — %Aidan% insistiu que eu não precisava, mas eu quis mesmo assim — e paramos em um quiosque para comprar gelato.
Fui gulosa e peguei um tamanho grande, que era maior do que eu pensava. Quando cheguei à metade, já não queria mais e fiquei enrolando até %Aidan% revirar os olhos e pegar o gelato da minha mão para terminar de comer. Sorri quando ele fez isso e enrosquei o braço no dele, enquanto caminhávamos até a saída. Tive a impressão de que estávamos sendo seguidos e, quando olhei para trás, não muito longe de nós, estavam Carter e Louis, andando lado a lado.
— Seus guarda-costas são bem legais — comentei com %Aidan%. — Embora Carter seja mais fechado e tenha aquela cara de assustador. Onde você encontrou eles?
— Eles costumam me acompanhar em turnê, mas quando tô aqui eu dou uma folga a eles, já que mal saio de casa. A não ser que tenha algum evento que exija proteção.
— Tipo a apresentação de Los Angeles?
— É, tipo isso. — Ele deu de ombros.
Passamos em frente a uma joalheria e %Aidan% parou de repente.
— O que foi? Achou alguma coisa legal? — perguntei. Não era raro ele comprar acessórios. %Aidan% adorava correntes discretas e anéis, embora só os usasse quando ia se apresentar, com exceção da nossa aliança.
— Olha só. Ficaria lindo no seu dedo. — Ele apontou para a imagem de um anel de platina com uma pedra azul-clara e pequenos diamantes ao redor.
— Eu já tenho uma aliança. Não preciso disso.
— E se eu quiser te dar? — Ele me encarou. — Você vai negar?
— Por que isso de repente? — Eu ri. — Se eu aparecer com um anel desses, as pessoas vão pensar que noivamos.
— Então vamos comprar alianças novas e trocar de dedo, assim elas vão pensar que
casamos. — Ei, eu gosto da nossa aliança atual. Tenho apego emocional a ela. Por que você quer trocar?
— Não sei. Acho que queria algo que marcasse o nosso recomeço ou algo assim. Podemos usar as antigas como colares. Eu fico com a sua e você com a minha — ele sugeriu.
Não sei por que, mas a ideia de ficar com a aliança de %Aidan% me trouxe um aperto no coração. Não fazia sentido, mas mesmo assim fiquei relutante.
— Tem certeza? Acho que você nem devia gastar dinheiro com isso.
Ele suspirou, rolando os olhos de forma dramática.
— Tudo bem, você venceu. É só um item material mesmo, o que importa é você estar comigo.
Sorri, satisfeita, e voltamos a andar.
— Faça uma doação com esse dinheiro. Você pode encontrar uma boa causa ao invés de comprar anéis novos.
— Eu vou. — Ele sorriu, meio tímido. — Planejo doar a monetização do vídeo de “Red Shoes” pra um orfanato aqui na cidade. Nenhuma daquelas crianças pediu pra vir ao mundo, e não tiveram nem a chance de ter pais, já que foram abandonadas.
— É uma pena. Mas tenho certeza de que uma doação vai ser bom pra elas. Isso me deixa mais feliz do que alianças novas.
%Aidan% riu baixinho e se inclinou, me dando um beijo no rosto.
— Eu ainda vou te convencer, não se preocupe.
— Tente na semana que vem de novo. Quem sabe um dia você consegue — brinquei.
— Ou quando você tiver bêbada no aniversário da minha mãe. Assim é mais fácil.
Foi minha vez de rir, mas no fundo eu sabia que ele tinha razão. Eu teria que manter a mente de ferro ou %Aidan% conseguiria me convencer a casar com ele no dia seguinte àquele aniversário. E como eu tinha prometido não quebrar mais nenhuma promessa, não teria escapatória. Seria sim ou sim.
Mas a ideia até parecia divertida.