Capítulo 34
%Lexi%
Acordei na cama sozinha.
O quarto estava meio escuro devido às cortinas fechadas, mas não vi sinal de %Aidan%. Depois de um tempo piscando e tentando, de fato, acordar, me sentei na cama. O arrependimento veio no mesmo instante em que senti minha cabeça girar de dor e tontura. Coloquei dois dedos nos olhos e fiquei parada por um momento, rezando para não enjoar. Quando minha visão pareceu melhorar um pouco, levantei a cabeça e avistei um copo de água em cima de uma cômoda, com um remédio de enxaqueca ao lado.
Agradeci mentalmente a %Aidan% por aquilo.
Eu nem sabia como tinha ido parar naquele quarto. Tudo que eu me lembrava da noite passada era de ter dançado e bebido com a mãe dele, depois ele e eu na cozinha bebendo água, e algum momento em que nós dois dançamos. Fazia tempo que eu não tinha amnésia depois de beber.
Mas também fazia tempo que eu tinha bebido. Acho que a última vez foi antes de descobrir a gravidez, então era provável que o álcool tivesse me pegado um pouco mais rápido que o normal.
Depois de tomar o remédio, procurei meu celular e o encontrei embaixo de um travesseiro. Já eram quase onze da manhã e eu não fazia ideia de quanto tempo tinha dormido. Suspirei, ainda me sentindo um pouco zonza, e fui ao banheiro para trocar de roupa e escovar os dentes. Quando saí, já um pouco mais apresentável e me sentindo com um pouquinho mais de vitalidade, desci até a cozinha e encontrei a Sra. %Callahan% tomando café.
— Bom dia.
— Bom dia, querida. Você dormiu bem? Como está se sentindo?
— Sim. Acordei um pouco zonza, mas nada de mais. Fazia um tempo que eu não bebia tanto.
— Ah, sim. Eu também acordei com um pouco de dor de cabeça, acho que foram aqueles drinks, são uma delícia, mas um perigo também — ela comentou com uma risadinha. — Venha comer comigo. — Ela apontou para a mesa.
Me sentei em sua frente e comecei a me servir de uma xícara de café preto.
— E %Aidan%?
— Foi deixar minha irmã no aeroporto, mas já deve estar voltando.
— Ah... — Sorri, sem mostrar os dentes.
Eu não era a pessoa mais sociável do mundo na manhã seguinte a uma bebedeira, mas a mãe de %Aidan% não parecia se importar com isso e continuou puxando assunto comigo.
— Ele me contou sobre vocês, sabe...
Assenti, sem olhar para ela.
— Ele me disse.
— Não sei que motivos você teve, meu bem, mas é nítido que vocês ainda se amam e são apaixonados um pelo outro. Eu me sinto honrada por ter testemunhado o amor de vocês, por mais que não estejam mais juntos.
— Eu não queria terminar, Sra. %Callahan%, mas é complicado...
— Por acaso, %Aidan% fez alguma coisa? — ela perguntou, meio apreensiva. — Ou você se sentiu pressionada pela perda do bebê?
— %Aidan% era perfeito. Eu não poderia imaginar ter um parceiro melhor. Quanto ao bebê... Foi um dos motivos. Sinto muito por fazê-lo sofrer, mas eu tinha que fazer uma escolha e algo me disse que ficar com %Aidan% o prejudicaria.
Ela me encarou em silêncio por um momento, então respirou fundo.
— Espero que tenha feito a escolha certa, então, %Lexi%. E que não se arrependa disso.
Quase ri quando ouvi aquilo.
Nós duas sabíamos que eu já estava arrependida.
Mas infelizmente eu não podia voltar atrás.
***
Quando %Aidan% voltou, cerca de meia hora depois da minha conversa com a mãe dele, eu já tinha voltado para o quarto e começado a arrumar minha mala.
— Oi — ele disse, fechando a porta atrás de si. — Você acordou bem?
— Um pouco zonza e com enxaqueca, mas já tô melhor graças ao remédio que você deixou — comentei, dobrando uma peça, sentada no chão. — Obrigada.
%Aidan% assentiu e então começou a organizar as coisas dele também, em silêncio. Cinco minutos se passaram, e então dez, até que comecei a achar estranho.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntei, enquanto organizava minha bolsa de cosméticos. — Você tá pensativo.
— Nada de mais. — Ele deu de ombros, terminando de fechar um saquinho com roupa suja. — Tirando que você passou a noite toda dando em cima de mim na festa e quando chegamos no quarto, subiu em cima de mim nua... Não, nada de mais.
— Eu... O quê? — Ri, incrédula. — Tá falando sério?
— Eu tô com cara de quem tá mentindo, %Lexi%? — Ele me encarou, sem achar um pingo de graça.
— Eu... Meu Deus! — Coloquei a mão na boca, em choque. — A gente transou?
— Você não lembra de nada, né? — Ele semicerrou os olhos. — Como imaginei.
— A gente transou, não foi? — Que merda. E se aquilo bugasse a minha escolha de me afastar dele? Uma coisa era a gente ir a um evento juntos, mas isso...
— Não, %Lexi%. — %Aidan% interrompeu meus pensamentos. — A gente não transou. Eu nunca faria isso com você bêbada e claramente fora de si.
Uma onda de alívio tomou conta de mim, mas então a vergonha veio com tudo e eu senti meu rosto esquentar.
— Sinto muito, %Aidan%. Por favor, me desculpa. Eu não devia ter feito isso — falei, sem coragem de olhar para ele. — Não sei nem o que dizer...
— Tá, relaxa. Eu consegui te convencer a se vestir e depois a gente só deitou e você ficou falando umas coisas até cair no sono.
— Falando umas coisas? Que tipo de coisa?
— Algo sobre uma maldição ou sei lá. — ele comentou e enrijeci no lugar. — Acho que você se confundiu com algum livro de fantasia ou algo assim. Você falou do stalker, e que terminou comigo pra me proteger, porque esse cara era a reencarnação de uma esposa que tive em outra vida. — Ele riu, parecendo nem acreditar. — Falando assim em voz alta parece mais absurdo ainda. Mas você até falou que visitou uma taróloga com %Cami% e Kate.
— E visitei mesmo — falei sem pensar. — Pra uma pesquisa pro livro da Kate. — Inventei rapidamente. — %Cami% tava de folga e foi com a gente.
— Tá... Enfim. — Ele deu de ombros novamente. — Eu sabia que você não queria me dizer o real motivo do nosso término, mas também não achei que fosse inventar algo do tipo. Deve ter sido a bebida.
— Sinto muito, %Aidan%. Muito mesmo. Eu não queria que fosse assim.
— Você fez sua escolha. E foi bastante difícil aceitar isso, ainda é. Mas eu apreciaria que ao menos controlasse melhor seus impulsos, %Lexi% — ele comentou. — Se você estivesse sóbria ontem... Eu teria feito qualquer coisa que você me pedisse pra fazer com você — acrescentou, com a voz mais baixa.
Levantei o olhar e senti meu corpo esquentar quando vi desejo brilhando em seus olhos. Mais uma vez, desejei que não houvesse maldição nenhuma, muito menos uma escolha que me obrigava a ficar longe dele. Porque se não fosse por isso... Bem, talvez fosse melhor nem pensar no que teria acontecido.
— Não vai acontecer de novo. Prometo que vou ficar longe de você quando a gente voltar pra Nova York e... Logo deve ficar mais fácil pra nós dois. Eu espero.
%Aidan% riu pelo nariz, sua expressão corporal inteira mostrando que ele não acreditava naquilo, mas não falou mais nada.
***
O caminho até o aeroporto foi em quase completo silêncio, se não fosse pelo rádio ligado e as poucas palavras que trocamos com o motorista. Quando chegamos, %Aidan% colocou um boné e uma máscara novamente antes de sair do táxi, e caminhamos juntos pelo aeroporto.
Era pouco mais de cinco da tarde e o meu voo sairia vinte minutos após o dele, que seguiria para Los Angeles. Ainda tínhamos algum tempo livre, então entramos em uma cafeteria para fazer hora. Ele virou o boné para trás quando notou que estávamos em meio a poucas pessoas e algo me chamou a atenção.
Um pequeno cílio tinha caído no canto de seu olho esquerdo.
— Tem uma coisa no seu olho. — Me inclinei para frente, pegando o cílio com o polegar. — Olha, vamos fazer um pedido.
%Aidan% revirou os olhos, mas apertou o polegar contra o meu. Fechei meus olhos por um instante. O último fio de esperança dentro de mim me fez desejar poder voltar no tempo, de uma forma que pudesse escolher ficar com ele.
Abri os olhos e separamos nossos dedos, notando que o cílio tinha ficado grudado no polegar dele.
— Parabéns — falei. — Espero que seu desejo se realize.
%Aidan% encarou o cílio por um momento antes de esfregar o polegar no indicador, se livrando dele. Em seguida, pegou o cardápio.
— Acho que vou comer alguma coisa antes de ir. Não tô a fim de comida de avião — comentou. — Que tal um croissant recheado?
— Vou querer um também. E um frappuccino de chocolate.
— Eu também.
Quando terminamos de comer, faltavam quinze minutos para o voo de %Aidan% sair. Fui com ele até o portão de embarque e, na hora de nos despedir, ele me puxou para um abraço.
Agradeci mentalmente por ele ter tomado àquela atitude porque eu ainda estava com vergonha depois de saber o que tinha aprontado na noite passada. Aproveitei o momento e o abracei o mais forte que pude. Quando nos separamos, %Aidan% abaixou a máscara rapidamente e depositou um beijo na minha cabeça.
— Boa viagem, %Aidan%.
— Pra você também, %Lexi% — murmurou, antes de dar as costas.
Observei ele se afastando aos poucos e respirei fundo, dizendo para mim mesma que a tristeza que agora sentia era a consequência da escolha que eu tinha feito. Não havia outra opção a não ser lidar com isso e seguir em frente.
%Aidan% estava cada vez mais distante.
***
Dois dias depois, quando saí para trabalhar, a sensação de estar sendo seguida voltou com tudo, e não só ela. Eu tinha um pressentimento de que algo aconteceria em breve.
Olhei para os lados e atrás de mim depois de comprar café da manhã na cafeteria de sempre, mas não notei nada.
Foi só quando virei uma esquina a caminho da editora, que vi um carro preto de vidros escuros fazer o mesmo. Intrigada, comecei a dar voltas em um quarteirão só para ter certeza de que ele me seguia. Quando isso aconteceu, pisei no acelerador de repente e tentei despistá-lo. Não funcionou muito bem, por haver pouco movimento onde eu estava. Acelerei um pouco mais e o carro atrás de mim fez o mesmo. Foi então que notei mais um, de cor prateada, seguindo na mesma direção.
— Que porra é essa? — murmurei comigo mesma, enquanto tentava passar por um sinal antes que ele fechasse.
Ouvi meu celular tocando na bolsa, mas estava ocupada demais para atender.
Acelerei mais, ciente de que estava acima do limite de velocidade, mas consegui passar pelo sinal e virar uma esquina e mais outra, finalmente despistando o carro. Meu celular tocou novamente e, com cuidado, o puxei da bolsa.
%Aidan% estava ligando. Que estranho. Eu não estava esperando uma ligação nem tão cedo. Na verdade, não estava esperando nenhuma.
Atendi e coloquei no viva-voz, apoiando o aparelho no colo.
— Oi, %Aidan%.
— %Lexi%, onde você tá agora?
— Perto da editora, por quê?
— Tem alguém te seguindo.
Franzi o cenho.
— Como você sabe disso? — eu quis saber.
— Não importa agora. Eu quero que você tenha calma...
— Eu tô calma! Quero saber como você sabe disso, %Aidan%.
— %Lexi%, eu acho que é o stalker.
— O quê? — Franzi o cenho. — O stalker tá me seguindo?
— Sim, e quero que você-
Não consegui ouvir o resto.
No mesmo instante, alguém me atingiu na traseira do carro, fazendo meu corpo dar um solavanco para frente e perder o controle do volante, batendo em um poste um instante depois. O airbag saiu e minha cabeça girou com o impacto. Senti o ar faltando nos pulmões e uma dor excruciante na região das costelas e no ombro esquerdo. Minha visão escureceu com um líquido escuro e percebi que era sangue.
Eu não conseguia me mexer. Não conseguia nem respirar direito. Meus pulmões estavam queimando com a dificuldade de respirar e a dor só aumentava. Havia fumaça saindo do capô e ouvi a voz de %Aidan% ao longe gritando meu nome.
Me esforcei para falar, mas não tinha forças. A sensação de não poder respirar era terrível e eu estava presa. Meu olhar seguiu para o retrovisor e encontrei o carro preto que me seguia parado atrás de mim.
Meus pulmões queimaram ainda mais.
A porta do motorista se abriu, mas aquela foi a última coisa que consegui ver antes de apagar.