Capítulo 21
No dia seguinte, acordei com uma fresta de claridade entrando no quarto, mas ainda sem abrir os olhos, me aconcheguei mais a %Aidan%, passando um braço ao redor de sua cintura como se ele fosse um travesseiro gigante.
Infelizmente, ele resolveu se espreguiçar naquele momento, tentando se desvencilhar de mim. Resmunguei baixinho, insatisfeita com a perturbação.
— %Aidan%, não. Fica mais. — Me agarrei a ele.
— Aiden? Que porra é essa, Ayla? — o ouvi dizer e imediatamente abri os olhos, finalmente percebendo o quarto diferente e um Dean, não %Aidan%, um tanto irritado ao meu lado. — Tava sonhando com o seu ex enquanto dormia comigo?
Caramba, ele entendeu Aiden e não %Aidan%. Aiden era o nome artístico de Seojun, o ex de Ayla.
— Eu não sonhei com o Seojun, Dean! Eu falei %Aidan%, não Aiden.
— E quem é %Aidan%? — Ele quis saber.
— Um personagem que tô desenvolvendo — respondi prontamente. — Baseado em você.
— O quê? Tá me zoando, Ayla?
— Não, eu tô falando sério. %Aidan% %Callahan%, um cantor de R&B conhecido no mundo todo, que namora uma agente literária que é fã dele depois de conhecê-la aleatoriamente em um bar.
Um sorriso levantou um dos cantos da boca de Dean. Eu não sabia se ele tava comprando ou não essa ideia, mas foi a primeira coisa que consegui pensar.
— Ah, é? E qual o plot do livro além deles se conhecerem em um bar?
Ah, que espertinho. Tentando me testar. Azar o dele que na minha realidade
nós éramos %Lexi% e %Aidan%.
— O plot não é eles se conhecendo em um bar e sim que os dois namoram há três anos. Mas a agenda de %Aidan% anda muito apertada e a %Lexi% mal consegue ver ele.
— Agora parece com a sua história com o seu ex — ele acusou.
Verdade. Ayla e Seojun terminaram exatamente por isso.
— Mas é diferente. Eles não são como Seojun e eu. E eu ainda tô planejando. Pensei em sei lá, fazer ela ir parar em um universo alternativo, talvez dentro do livro favorito dela.
— Hm, certo... Se você diz — ele resmungou, obviamente não acreditando.
— Ei, o %Aidan% é
mesmo inspirado em você! Ele tem até a mesma tatuagem!
— Tirando o fato de que eu odiaria a exposição que envolve ser uma celebridade. Mas tudo bem, se você diz... — ele repetiu. — Vou fazer o café da manhã, aproveita pra dormir mais um pouco — acrescentou, beijando meu rosto rapidamente.
Observei Dean andar pelo quarto só de cueca até sair em direção à cozinha e em seguida, me acomodei novamente na cama para mais um cochilo.
No instante em que abri os olhos novamente, me vi em pé no campus da universidade, com o celular na mão, e avistei Dean sentado em uma das mesinhas que ele e Ayla costumavam se encontrar às vezes.
Era a cena de término. A história pulou alguns dias, inclusive a noite em que Seojun dormia no apartamento de Ayla; todo mundo tinha se revezado para não deixar ela sozinha, ao menos nos primeiros dias. Mas isso foi uma narração relativamente rápida que Kate fez no livro, provavelmente usando Seojun apenas para deixar Dean mais inseguro, pensando que Ayla estaria mais segura com o ex do que com ele, levando em conta que o ataque dela tinha sido premeditado pelo pai dele.
Aquele velho metido a besta! Ele vivia dando um jeito de se intrometer na vida de Dean e ao invés de aceitar o filho e o trabalho como compositor dele, o nojento só o atacava com palavras, o desprezando em qualquer oportunidade que tivesse, e mesmo assim queria que Dean fosse seu sucessor, por ser filho único.
Um idiota. Como se Dean fosse querer isso. E eu sabia que ele havia inventado que Ayla era namorada de Zico e não dele. Zico era filho caçula de Nicholas Woo e não era qualquer um que tinha coragem de mexer com ele. Não que ele fosse um criminoso como James, o pai de Dean, muito pelo contrário. Mas o Sr. Woo era poderoso. E completamente pacífico se não houvesse nenhuma ameaça.
De um jeito ou de outro, Dean já havia tomado uma decisão. Mesmo que fosse uma decisão
muito burra.
Por conta da insegurança que sentia, as ameaças do pai mais o medo de rejeição de Ayla se descobrisse sobre seus problemas do passado — inclusive que o pai dele tinha mandado matar o pai
dela —, ele achou que se afastar seria a melhor opção.
Mal sabia ele que Ayla já estava ciente de tudo, exceto das ameaças.
Andei até ele e me sentei no banquinho, ainda ciente de que eu tinha o controle sobre o corpo de Ayla.
— Sobre o que quer conversar? — perguntei, em um tom neutro.
— Então... Eu andei pensando e... Acho que a gente devia terminar.
— O quê? — Franzi o cenho, tentando fingir surpresa. — Por quê?
Caramba, eu era uma
péssima atriz.
— Acho que isso já foi longe demais, Ayla.
— Como assim, Dean? — Tentei me lembrar dos diálogos daquela cena. — A gente tava bem até ontem... Você acordou e resolveu que não quer mais?
Tá, não era bem isso que a Ayla falava, mas eu tentei. Àquela altura, eu só queria que ela assumisse o controle. Felizmente, aconteceu pouco depois e imediatamente eu senti a mudança de humor me atingir. Uma tristeza e mágoa repentina, um frio na barriga de ansiedade que não era nem de longe bom.
Era como se eu tivesse tomado um banho de água fria. Meus olhos arderam e, de repente, era como se %Aidan% estivesse na minha frente terminando comigo, por mais que eu soubesse que era apenas Dean seguindo o roteiro que Kate havia escrito.
— O que eu quero dizer... É que nós não deveríamos ter passado daquela noite, Ayla. Foi um erro me envolver com você — ele disse e eu o encarei, confusa.
Senti uma lágrima escorrer pelo rosto e desviei o olhar por um instante.
— Quer dizer que esses meses... Não significaram nada pra você? — Me ouvi perguntar, com a voz falha. Aquela era Ayla falando e eram os sentimentos dela que eu estava sentindo, mas era tão real que eu só conseguia me sentir duas vezes mais triste, como se estivesse acontecendo comigo.
— Não, Ayla... — Dean suspirou. — É claro que significou alguma coisa, mas... Eu não posso mais continuar com isso. Sinto muito.
— Ah, você sente muito? — perguntei, irônica. — O que vai dizer agora, Dean? Que o problema é você e não eu?
— Eu acho que nós deveríamos... Ter continuado apenas como amigos desde o início...
Coloquei uma mão na boca e respirei fundo, tentando me acalmar. Aquela era Ayla agindo, mas poderia facilmente ser eu. Sequei as lágrimas que caíram, eu/ela evitando chorar na frente dele, embora já estivesse acontecendo.
— Quer saber, Dean? — Eu ri, sem humor, e o encarei novamente. — Você é muito fodido, sabia? Se não queria um relacionamento, então que terminasse logo o que nós tínhamos. Ah, você não está pronto ainda? Que piada... Você estava perfeitamente bem dois dias atrás. Mas se quer que seja assim... — Me levantei, pronta para ir embora.
— Ayla... — Ele tentou segurar minha mão, mas eu o afastei bruscamente.
— Ayla é o caralho. Vai pro inferno, Dean.
Passei por Zico e Karina em um borrão e escutei minha amiga vir atrás de mim. No instante seguinte, eu estava com ela e Tiana em uma sala, acho que o escritório de Tiana, enquanto Karina xingava Dean com todos os palavrões que conhecia.
Eu ainda estava um caco junto com Ayla, sentindo a dor de uma rejeição que nem era minha. Não conseguia nem sequer imaginar uma possibilidade de me afastar de %Aidan%, considerando tudo o que nós tínhamos vivido juntos. Ainda mais depois de lembrar de mais coisas sobre nós, ainda que minhas memórias não tivessem retornado completamente.
Ele era como meu porto seguro. O amor que eu nunca tinha ousado sonhar em ter. Minha alma gêmea. Meu parceiro em tudo, e a pessoa que mais me apoiava. Pensar em ficar sem %Aidan% era como pensar em arrancar um pedaço de mim mesma, do meu próprio coração.
E eu nunca fui uma pessoa muito afetuosa. Sempre tive uma queda por coisas esotéricas, mas era mais diversão. Eu achava divertido pensar que poderia existir alguém feito para mim por aí, mas nunca pensei que fosse realmente encontrar essa pessoa. Que me aceitava com todas as minhas maluquices, impaciência constante, sem contar os surtos. Alguém que se importava mais do que meus próprios pais fizeram um dia. Alguém que faria de tudo para me proteger.
Sempre que eu pensava em %Aidan%, uma pulga atrás da minha orelha se instalava e eu me perguntava o que eu tinha feito para merecer ele.
Eu não me sentia emocionalmente dependente de %Aidan% e era completamente contra depender de alguém por qualquer motivo que fosse, mas certamente uma parte de mim morreria se um dia ele saísse da minha vida.
Respirei fundo, tentando me acalmar, mas infelizmente Ayla ainda estava no comando. Fechei os olhos e então senti meus ombros serem sacudidos bruscamente.
Abri os olhos, assustada. Então me deparei com %Aidan%, não Dean, me encarando com um olhar cheio de preocupação.
Eu estava de volta a minha realidade, no meu próprio quarto.
E %Aidan% parecia prestes a surtar.
— %Lexi%, graças a Deus. — Ele me envolveu em um abraço forte, angustiado. — Por um momento, achei que você não fosse acordar mais.
Do que diabos ele estava falando?