Depois da Meia-Noite


Escrita porAlly M.
Editada por Natashia Kitamura


Capítulo 37

%Lexi%

  Três dias antes

  Esperei até a meia-noite para acompanhar o lançamento da nova música de %Aidan%.
  A capa do álbum novo, que sairia em alguns dias, havia sido divulgada também. Não era verde, mas preto e branco, com vários tons de cinza. Imaginei que %Aidan% tivesse mudado de última hora, embora não fosse de seu feitio modificar algo que havia sido decidido há meses. Também havia duas músicas a mais na lista do álbum, uma delas era o single cujo videoclipe eu estava prestes a ver.
  Por algum motivo, senti um frio na barriga enquanto digitava o título da música na barra de navegação do YouTube no meu tablet. Quando o ícone do vídeo apareceu, cliquei nele e esperei a imagem carregar um pouco antes de dar play.
  Então fui surpreendida por uma série de acordes de violão e a voz de %Aidan% se sobressaindo enquanto ele cantava o que quase parecia como uma canção de ninar. Meus olhos se encheram e jorraram lágrimas silenciosas quando notei o cenário.
  Ele estava sozinho em um quarto com um berço no fundo, brinquedos ao redor e os sapatinhos que comprei quando planejei dar a notícia da gravidez quando ele chegasse de viagem, antes do meu acidente. Os sapatos eram os únicos itens coloridos do vídeo. %Aidan% não olhou para a câmera em nenhum momento e acho que estava absorto demais para fazer isso.
  A letra era sobre nosso bebê, mas poderia muito bem ser sobre qualquer pessoa que tivesse ido embora.

"Você se foi antes de eu chegar
O céu ganhou uma nova estrela brilhante
E a mim restaram apenas esses sapatos vermelhos
Mas não se preocupe, baby
Irei olhar para o céu e sorrir para você
Não mais chorar
Vou te guardar no meu coração
Junto desses sapatos vermelhos
E te amar para sempre"

  Instantaneamente, percebi que %Aidan% tinha escrito aquela música para servir de conforto. Não era nada do que os fãs estavam esperando para o novo álbum, mas todos sabiam que ele por vezes inseria composições baseadas em suas próprias experiências, e algo me dizia que em breve as pessoas iriam especular sobre o tema daquele vídeo. Especialmente quando ele revelou o bilhete que escrevi, além das nossas fotos passando no fundo, mesmo sem revelar nossa identidade.
  Aquela música talvez fosse a sua versão de página virada. Uma parte de mim não conseguia nem imaginar como foi para ele descobrir que eu estava grávida com a notícia de um aborto e ter que lidar com isso sozinho porque eu não podia saber ainda. E quando eu soube, a primeira coisa que fiz foi fugir e deixar para trás aqueles mesmos sapatinhos vermelhos.
  Me senti um lixo por isso, por provocar mais sofrimento em %Aidan% por conta de emoções que hoje, em outras circunstâncias, eu talvez tivesse encarado de outra forma. Mas tudo o que pude associar àquela perda foi a maldição. O maldito stalker tinha provocado aquilo e talvez sua intenção nem fosse tirar apenas a vida do meu bebê, mas a minha também.
  Perdi a conta da quantidade de vezes que assisti o vídeo de “Red Shoes”. Absorvi a voz de %Aidan% como se fosse um abraço aconchegante, o conforto que eu sabia que poderíamos ter encontrado um no outro se eu não tivesse me afastado e o deixado lidar sozinho com os nossos problemas.
  Ele tinha segurado as pontas por mim durante meses e tudo o que fiz por ele foi abandoná-lo e falar que não o amava mais. A maior mentira que já contei, com toda certeza. Mas %Aidan% não se afastaria por completo se eu continuasse dando sinais de que ainda tinha sentimentos por ele. E acho que no fundo ele sabia que eu estava mentindo, mas a mágoa tinha enevoado sua percepção.
  Eu sabia que tinha dado um fim definitivo para nós dois no momento em que disse aquilo. Pensar nisso provocava um aperto no meu peito, mas eu disse para mim mesma que era o melhor para nós dois.
  Eu estava protegendo ele e até mesmo havia revelado sobre a maldição, embora %Aidan% acreditasse que era só invenção minha enquanto bêbada. E era melhor que ele pensasse assim mesmo, pois nunca me deixaria em paz se eu tivesse falado aquilo sóbria, e provavelmente teria me convencido de que era tudo coincidência quando eu sabia que não era.
  Quando o videoclipe acabou pela... não sei qual vez, pois tinha perdido a conta, coloquei o tablet de lado e me deitei para dormir. Ou pelo menos tentar, enquanto lágrimas ainda escorriam por meu rosto já inchado de chorar.

***

  Atualmente, aproximadamente nove horas após o acidente de %Aidan%

  Era domingo de manhã e eu estava na cozinha com %Cami% enquanto preparávamos nosso café da manhã.
  Me encostei no balcão da cozinha de olho no meu e-reader e tomei um gole de café com a mão livre, enquanto voltava para a leitura que havia começado na noite anterior. Já fazia alguns dias desde o meu segundo acidente e, felizmente, as dores haviam diminuído.
  %Cami% se afastou com seu prato na mão e se sentou no sofá em frente à TV da sala. A ouvi zapeando os canais aleatoriamente enquanto procurava algo para assistir, até que parou em um que me chamou atenção no mesmo instante.
  — "E agora voltamos com a notícia que deixou muitos fãs abalados. Na noite passada, pouco depois da meia-noite, o cantor %Aidan% %Callahan% foi assassinado por seu gerente, Jace Keller..."
  Senti o corpo inteiro gelar e, no mesmo instante, corri para a frente da TV.
  — %Lexi%... — %Cami% disse em um sussurro, mas meus olhos estavam vidrados na televisão, uma sensação de peso me atingindo a cada palavra que eu ouvia.
  — "Foi descoberto que Keller era um stalker anônimo que vinha incomodando %Aidan% e sua namorada há alguns meses. Policiais que estavam no local informaram que encontraram os dois no meio de uma briga e o gerente quebrou o vidro de proteção da varanda do vigésimo andar e se jogou com %Aidan% pouco depois. Os dois morreram antes que pudessem ser levados ao hospital. Voltaremos com mais notícias breve, mas até lá oferecemos nossos pêsames à família do Sr. %Callahan%, sua namorada, amigos e fãs..."
  — Isso deve ser mentira. %Aidan% se apresentou ontem, ele tava bem! Vou ligar pra ele, deve ser alguma notícia sensacionalista — comentei e saí em direção ao quarto para pegar meu celular. Disquei o número dele e voltei para a sala com o celular no ouvido, andando de um lado para outro apressadamente. A ligação caiu na caixa postal e eu tentei mais duas vezes, em vão.
  — Não pode ser, %Cami%... Eu vou tentar ligar pra mãe dele.
  Achei o contato da Sra. %Callahan% na agenda e liguei. A primeira vez caiu na caixa postal e eu tentei outra vez. Ela atendeu no terceiro toque.
  Parei de andar.
  — Sra. %Callahan%.
  — %Lexi%, querida... — ela murmurou com a voz chorosa e aquilo foi o suficiente para que eu entendesse. No instante seguinte, o celular escorregou na minha mão, a realidade me atingindo com tudo. Caí no chão, perdendo as forças nas minhas próprias pernas e de repente respirar se tornou difícil. Puxei o ar, mas havia uma angústia que me impedia de expandir o peito por completo.
  — %Lexi%... — %Cami% me chamou, se colocando ao meu lado um momento depois. Minha irmã me abraçou e eu senti lágrimas quentes jorrando dos meus olhos sem parar enquanto engasgava com a falta de ar e o aperto em meu peito. — Eu sinto muito, sinto muito, irmã — ela acrescentou, com a própria voz embargada.
  Solucei em seus braços, ainda absorvendo aquela notícia. Como aquilo tinha acontecido? %Aidan% estava tão bem da última vez que eu o tinha visto. E Jace? Ele era o stalker? Por que ele matou %Aidan%? Por quê? Por quê?
  — Eu não- ele não devia morrer. %Cami%, eu- disse que não o amava. Eu disse isso a ele e agora...
  Solucei sem parar, incapaz de absorver a dor que estava sentindo.
  — Ele sabia que era mentira, irmã... Tenho certeza de que sabia.
  — Mas eu- Se eu tivesse morrido no acidente... Se eu tivesse, ele estaria bem, %Cami%. Ele estaria-
  Solucei outra vez, não mais conseguindo falar. Por que aquilo estava acontecendo? Eu fiz de tudo para proteger %Aidan% do stalker, me afastei para evitar mais uma tragédia, e mesmo assim...
  Eu nunca havia sentido um sentimento como aquele, tão dolorosamente cru e forte antes. Era como se meu coração estivesse sendo rasgado aos pedaços e eu queria morrer. Não fazia sentido viver em um mundo sem %Aidan%. Eu podia aguentar ficar longe dele e tentar seguir em frente sabendo que ele estava bem, mas isso... Isso era o mais completo absurdo.
  Tudo estava bem e, de repente, o amor da minha vida se foi. A pessoa que me amou e que amei incondicionalmente até o último momento. Eu ainda o amava, o amava tanto. Como superaria sua perda? Como eu poderia sequer acordar no dia seguinte sabendo que ele não estava mais vivo? %Aidan% era uma das pessoas mais cheias de vida que eu conhecia. E mais positivas também, embora ele falasse o mesmo de mim. Quando eu estava frustrada e desmotivada com algo, %Aidan% sempre estava lá, disposto a me mostrar tudo de uma outra perspectiva.
  Eu não conseguia parar de pensar que eu devia ter morrido em seu lugar. Não conseguia parar de pensar que eu ainda deveria morrer. Eu não queria saber de nada. Eu queria estar com %Aidan% como sempre foi nos últimos três anos. Queria mostrar a ele o quanto o amava, o quanto ele era precioso para mim e pedir perdão por todas as vezes que o magoei.
  Queria prometer nunca sair de seu lado, não importa o que acontecesse.
  Se eu soubesse que tudo acabaria assim, eu teria aproveitado cada segundo em sua presença, e teria dado um jeito de ir em seu lugar. Agora tudo que eu conseguia pensar era em me juntar a ele e devo ter dito isso em voz alta pois no instante em que tentei me levantar em busca de algo que me ajudasse a interromper minha própria vida, minha irmã se jogou em cima de mim, usando o peso do próprio corpo para me manter no lugar.
  O rosto de %Cami% também havia sido tomado por lágrimas e ela gritava comigo, falando que não ia me deixar fazer nada que me machucasse. Gritei de frustração o mais alto que pude, incapaz de raciocinar direito e não me importando nem um pouco com isso.
  Eu queria parar aquela dor, eu queria ficar com %Aidan%, mesmo que para isso eu tivesse que tirar minha própria vida.
  Mas %Cami% se agarrou a mim e conseguiu me manter imóvel no lugar, mesmo quando tentei me debater e continuei gritando sem parar. Ela chorou comigo e murmurou palavras de conforto, tentando me acalmar.
  Depois de vários minutos que mais pareceram horas, fui vencida pelo cansaço. Perdi minha voz depois dos gritos e o que restou de mim foi uma casca vazia, apática, olhando para o nada, enquanto lágrimas silenciosas ainda escorriam pelo meu rosto como se tivessem vida própria.
  Então, em algum momento, tudo ficou escuro.

Capítulo 37
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