Capítulo 25
Um segundo depois, %Aidan% estava agachado ao meu lado.
— %Lexi%, o que foi? Você se machucou, o que-
Então ele viu o bilhete, os sapatinhos. Assisti ao exato momento em que ele terminou de ler o bilhete, uma expressão de pura tristeza tomando conta de seu rosto. Eu vi os olhos dele marejarem e então percebi que os momentos que ele parecia triste e culpado pelo meu acidente não significavam apenas isso.
Ele me encarou com carinho e uma lágrima solitária escorreu por seu rosto.
— Eu sinto muito, %Lexi%.
Um soluço então irrompeu de mim. Chorei, desconsolada, sentindo um súbito peso no peito.
— Eu... Você sabia? — consegui perguntar.
— O médico disse que você perdeu o bebê no acidente. A batida foi forte e ele não sobreviveu ao trauma.
— E foi assim que você descobriu — afirmei. Não era uma pergunta, mas %Aidan% assentiu mesmo assim, em silêncio. — Foi por minha causa... Por minha causa, o nosso bebê morreu.
Desviei o olhar dele, pura vergonha tomando conta de mim.
— Não, amor. A culpa é da pessoa que te atropelou. E minha, que não estive com você.
Balancei a cabeça, soluçando outra vez, as lágrimas jorrando de mim como um rio, enquanto pensamentos que nunca cogitei me atingiam. Eu lembrei de tudo, tudo. E não sei dizer se aquilo foi pior ou melhor. Uma parte de mim preferia nunca ter descoberto; a outra, se sentia culpada por causar aquele sofrimento a %Aidan%.
Agora tudo parecia tão óbvio. O dia em que ele apareceu de olhos vermelhos e eu inocentemente perguntei se ele estava gripando, ou se tinha fumado. Não. Ele se escondeu para chorar. Ele estava passando pelo luto do nosso bebê sozinho e eu não fazia ideia, porque ninguém me contou.
Me senti mal até por chorar por aquilo. Eu não tinha direito de lamentar. A culpa era minha. Se eu tivesse ficado em casa, isso não teria acontecido. Eu teria visto %Aidan% no dia seguinte e estaríamos bem. Mas fui egoísta e fiquei chateada por algo que ele nem tinha controle. O meu orgulho ocasionou o meu acidente e a morte do nosso bebê.
Eu estava apavorada em ser mãe. Achei que %Aidan% ia ficar apavorado também, mas ele ficaria feliz. No fundo, eu sabia que sim. Mas como eu seria capaz de encará-lo de agora em diante?
— Você pode sair? Eu quero ficar sozinha — pedi, baixinho.
— Não, %Alexa% — %Aidan% disse, firme. — Não vou te deixar sozinha. Nós podemos passar por isso juntos, amor. Nós temos que passar por isso juntos.
— Eu lembrei de tudo, %Aidan% — confessei, com a voz falha. — Eu saí porque fiquei chateada com você, por não aparecer no dia em que combinamos. Eu vi um filme que você queria ver sozinha, só pra te irritar com spoilers quando a gente fosse assistir juntos. Eu tinha preparado uma surpresa, mas teria que adiar. — Encarei a caixa com os sapatinhos. — Eu nem consigo olhar pra você agora. Não consigo. — Solucei. — Eu não me sinto merecedora nem de chorar pela perda do nosso bebê. Foi minha culpa, minha culpa...
Abracei meus próprios ombros, cravando as unhas em minha pele. Eu merecia sentir dor depois de tudo aquilo. Solucei, correndo as unhas violentamente pelos meus braços, sentindo vergões se formando.
— %Lexi%, não! — %Aidan% me agarrou, passando os braços ao redor de mim, de modo que eu não conseguia mexer os braços. Tentei me afastar, mas foi em vão. Ele continuou me segurando firmemente, como se seus braços fossem feitos de ferro. — Você não pode se machucar, tá ouvindo? Não pode fazer isso consigo mesma! Eu não vou deixar, %Alexa%.
— Foi minha culpa, minha culpa... — Solucei outra vez. De repente, era tudo o que eu conseguia fazer: chorar e lamentar. Uma parte de mim tinha consciência de que eu estava parecendo descontrolada, que não deveria agir assim, mas eu não me importava. Eu merecia sentir dor, merecia a culpa de ser a responsável por aquilo. Por fazer %Aidan% passar um mês inteiro aguentando sozinho, fingindo que estava bem.
— Amor, por favor. Não faz isso, %Lexi% — %Aidan% murmurou. — Nós vamos superar juntos, eu prometo. Não foi sua culpa, não foi sua culpa.
A gentileza em sua voz me matava. Eu me sentia um ser humano mesquinho e desprezível e, mesmo assim, aquele homem estava ao meu lado.
Ele esteve ao meu lado durante toda a minha recuperação, fazendo de tudo para que eu me lembrasse dele, de nós. %Aidan% me amava como ninguém. Era o tipo de amor que nunca esperei receber um dia, que eu não sabia nem se existia mesmo. O tipo de amor de histórias épicas, que existia apenas em livros. E eu o amava de volta com todo o meu ser; cada pedacinho de mim vibrava por ele, por tê-lo ao meu lado.
Os últimos três anos haviam sido os mais felizes da minha vida, mas eu não merecia essa felicidade.
Eu não merecia o amor de %Aidan%.
Talvez não merecesse ser mãe também, visto como aquilo tudo tinha acabado. A minha ginecologista tinha suspendido o anticoncepcional por conta da gravidez, agora eu sabia. A consulta de retorno era para iniciar o pré-natal, porque ela também era obstetra. De todo modo, eu ainda precisava fazer o teste de gravidez que tinha escondido de %Aidan%. Não sabia nem se eu devia contar aquilo para ele.
Não queria que fosse um lembrete do bebê que tínhamos perdido, tampouco provocar algum tipo de esperança.
Mesmo querendo ficar sozinha, %Aidan% não me largou até eu me acalmar.
Eu solucei e solucei em seu ombro até ficar com dor de cabeça, e senti lágrimas quentes pingando em meu próprio ombro. Ele também estava chorando, em silêncio, enquanto esfregava minhas costas, tentando me consolar.
Mas ninguém estava consolando ele.
Quando meus soluços silenciaram, eu tentei me afastar e, dessa vez, %Aidan% me deixou ir. Por um breve instante, consegui encará-lo, apenas para ver seus olhos vermelhos e inchados também. Ele segurou meu rosto entre as mãos e encostou a testa na minha.
Mordi o lábio inferior para não começar a soluçar outra vez. Eu não conseguia lidar com a bondade dele. %Aidan% deveria estar me culpando, ele devia ter se afastado de mim, não ficado ao meu lado. Eu deveria estar sendo tratada como um párea por fazer aquele homem sofrer quando havia prometido justo o contrário. As nossas promessas... Agora pareciam ter um peso ainda maior depois que me lembrei delas.
De repente, as palavras da Xamã começaram a fazer sentido.
A criança que não vingou. Eu achava que ela estava se referindo à época em que a maldição foi lançada, não que estava se repetindo em todas as minhas vidas. Minha mente começou a trabalhar com o pouco resquício de consciência que me restava.
As minhas escolhas vão influenciar no resultado final. Talvez fosse um sinal. No fim, eu deveria abrir mão de algo importante para que a maldição fosse quebrada.
Respirei fundo, ainda sentindo as lágrimas correrem pelo meu rosto silenciosamente. Eu estava com pensamentos acelerados, raciocinando rápido sobre diversas possibilidades apenas para voltar para a única que eu achava que seria a certa.
A única escolha que eu acho que devia fazer. Por mim, por %Aidan% e pela criança que se foi. Por mais difícil que fosse para nós dois.
Por mais que fosse doer em nós dois, eu tinha que dar um fim naquilo.
Então, respirando fundo mais uma vez, me afastei para encará-lo novamente.
— %Aidan%... Eu quero terminar.