Capítulo 23
Três dias depois, eu estava me preparando para sair com Kate e %Cami% para uma visitinha a uma taróloga/xamã que atendia em Korea Town, quando %Aidan% perguntou:
— Ter um compromisso de meninas. Faz um tempo que saímos e hoje é a folga de %Cami%, então Kate e eu vamos arrastá-la também.
Ele não precisava saber sobre o tarô. Não era como se eu tivesse garantia de que fosse me ajudar com alguma coisa, mas não custava tentar.
— Tipo um dia de SPA? — ele tentou adivinhar. — Vocês deviam ter um pra relaxar um pouco, eu pago.
— Que gentileza, e agradeço. Mas hoje não. Vamos fazer uma visitinha em Korea Town. Kate quer dar uma olhada em umas coisas pro próximo livro — falei, enquanto guardava o celular na bolsa. — Ela vai passar aqui pra me pegar e vamos encontrar %Cami% lá, então não se preocupe.
— Tá, tudo bem. Me avisa se precisar de alguma coisa. Vou trabalhar um pouco enquanto isso.
É claro que vai. Quando não precisava sair de casa e tinha tempo livre, %Aidan% o gastava se enfurnando no estúdio quando eu também estava trabalhando.
— Tá bom. Até logo. — Me despedi dele com um beijo.
Minutos depois, entrei no carro de Kate. Ela usava um óculos escuro chique de armação quadrada e seu cabelo castanho com mechas coloridas em rosa pastel estava levemente ondulado.
Como escritora, Kate mal saía de casa, a não ser que tivesse algum compromisso. Então se arrumava sempre que podia para gastar as roupas que comprava impulsivamente às vezes. E ser uma pessoa pública e esposa de um astro do rock super conhecido também era mais um motivo para se manter apresentável. Ela nunca sabia quando podia encontrar leitores ou algum paparazzi por aí, mas, no segundo caso, felizmente não acontecia muito quando ela estava sozinha.
Naquele dia, ela tinha escolhido um vestido midi floral branco de alcinha que ia até sua panturrilha e, nos pés, uma sandália simples de tiras, sem salto.
Eu havia me contentado com um short jeans azul e uma camiseta cropped branca bem básica da
Double K, e um par de All Star vermelho. A única coisa que passei na cara foi um lip tint, que ainda usei de blush e sombra.
— Caramba, quanta arrumação. Vai a uma festa? — brinquei, assim que a vi.
— E você? Planeja turistar em Korea Town? Você penteou o cabelo hoje, %Lexi%?
— Ainda não. — Pisquei os olhos, batendo os cílios exageradamente, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. Eu o tinha prendido em um coque com um elástico e estava mais que suficiente. — Mas ninguém vai reparar em mim quando você tá vestida assim, que nem menininha.
Kate sorriu e balançou a cabeça, finalmente dando a partida no carro.
— Korea Town, aí vamos nós.
***
Encontramos %Cami% algum tempo depois, do lado de fora do estúdio da Xamã.
— Tem certeza de que não era a Ayla? — Kate perguntou. — Você não assistiu nada que fizesse o seu subconsciente criar essas imagens?
— A menos que a Ayla seja secretamente uma entidade bizarra de olhos prateados, sim. Tenho certeza, Kate. E não, não assisti nada. Mas como eu disse antes, não faço ideia do que ela tava falando, então a intenção é que essa mulher nos ajude a descobrir.
— E se ela for uma charlatã? — %Cami% perguntou. — Você vai só gastar seu dinheiro à toa.
— É isso ou quebrar a cabeça sozinha. E eu sei que vocês não acreditam cem por cento no que falei e acham que esses sonhos são só um reflexo do meu acidente, mas obrigada por me acompanharem mesmo assim.
— Você sabe que eu acredito nessas coisas também — as duas falaram ao mesmo tempo e se encararam, surpresas.
— Perfeito. — Sorri e puxei as duas para entrarmos no estúdio.
O lugar era relativamente simples, mas moderno e acolhedor. Uma atendente que não devia ter mais que vinte anos confirmou nosso agendamento e pediu para que aguardássemos na sala de espera por alguns minutos.
— Tem certeza de que ela é boa, Kate? Onde você disse que a conheceu mesmo? — %Cami% perguntou.
— Ela é uma leitora — Kate disse. — Me deu o cartão durante uma sessão de autógrafos e me ofereceu uma leitura grátis, mas eu nunca vim aqui antes.
— E eu achando que vocês já eram amiguinhas — comentei. — Tomara que ela seja boa mesmo.
Menos de cinco minutos depois, a atendente voltou e nos guiou até a salinha onde a taróloga/xamã atendia. Seu nome era Sujin e ela tinha um longo cabelo vermelho, um pouco mais claro que o meu. O estúdio parecia com um daqueles que se vê em doramas coreanos, mas ela não estava vestida com roupas tradicionais.
Na verdade, Sujin estava vestida casualmente, como nós, e não devia ter mais que trinta anos. Ela abriu um sorriso para Kate assim que a viu.
— Olá, meu nome é Sujin, sejam bem-vindas. Fleur, é bom te ver aqui. — Ela disse à Kate, chamando-a pelo pseudônimo. — Quem vai fazer a leitura primeiro?
— Na verdade, só ela. — Kate apontou para mim. — Essa é minha agente, %Alexa%, e ela veio aqui para uma leitura de tarô porque anda tendo uns sonhos estranhos com algum tipo de entidade.
— Entidade, é? — Sujin me encarou, curiosa. — Me conte mais sobre isso.
Respirei fundo e detalhei o mesmo que contei para Kate e %Cami% quando decidi que queria procurar a taróloga. Sujin ouviu em silêncio, assentindo algumas vezes e, quando acabei, ela começou a embaralhar as cartas.
— Pelo que você me disse, talvez esteja enfrentando algum tipo de karma. Algo que vem se repetindo por várias vidas. O espírito está tentando te orientar a fazer o certo.
— Aquela coisa assustadora e temperamental?
— Alguns espíritos são impacientes. Mas vamos ver o que as cartas dizem. Aqui, se concentre na sua pergunta e escolha três cartas usando a mão direita. — Ela abriu o baralho em um leque em cima da mesa.
— O que eu tenho que descobrir? Quero saber se aquele espírito falou de algum karma e que karma é esse.
Retirei as cartas, sem a mínima noção se estava fazendo algo certo, mas acho que estava tudo bem, já que Sujin não disse nada. Ela virou as cartas escolhidas e as analisou por um instante.
— Parece mesmo um karma. Há uma maldição que te persegue. Meus espíritos guias me dizem que esse ciclo vem se repetindo há muito tempo.
— Uma maldição? Que tipo de maldição? — perguntei, trocando um olhar com Kate e minha irmã, que também pareciam surpresas.
Sujin puxou mais uma carta do baralho.
— Aparentemente, você foi feliz por muitas vezes, mas em todas as suas vidas, essa felicidade foi arrancada de você. Havia um homem envolvido. — Ela puxou outra carta e fechou os olhos por alguns segundos, antes de continuar. Provavelmente ouvindo os tais espíritos guias. — Um homem comprometido se apaixonou por você e você por ele. Ele era um cliente.
— Um cliente de quê? — perguntei, confusa.
— Seu. Meus espíritos sugerem que você era uma cortesã e vocês já se conheciam antes do casamento dele. Um casamento arranjado desde a infância, com uma mulher que ele nunca amou ou dividiu a cama. A maldição foi jogada por uma esposa enraivecida, cheia de despeito pelo orgulho ferido. Por sua causa, ela nunca teve o marido que queria e sonhava.
— Mas o que é essa maldição? E continua acontecendo? Como eu quebro isso? Era sobre isso que a coisa do meu sonho falava?
— Um momento — Sujin pediu, levantando a mão.
— Certo — respondi, meio inquieta.
De olhos fechados, seu braço pairou sobre as cartas e ela escolheu uma. Então abriu os olhos e, olhando para frente, ela continuou:
— Um casal apaixonado foi amaldiçoado por uma esposa magoada. Havia uma criança que não vingou, sua e dele. Ela foi morta antes de ter a chance de viver. Lembranças foram esquecidas, e a mulher que rogou a maldição disse que não importa quantas vezes você e ele se encontrassem, a morte os perseguiria de um jeito ou de outro, acabando com toda a felicidade — ela disse, me fazendo arrepiar a cada palavra. — Para que a maldição seja quebrada, escolhas devem ser feitas. Você deve enfrentar seus próprios demônios, aceitar o que aconteceu e quem você é. Lembrar do que é preciso, escolher o que é preciso. Até o seu lado obscuro pode brilhar desde que você aceite a realidade. Suas escolhas influenciam no resultado final. Há um destino selado, mas a maldição o atrapalha. Faça escolhas sábias. Uma vez que você aceite, aquilo que é pra ser, será, como o universo declarou antes da maldição ser instalada.
Sujin então piscou e seus olhos ganharam foco mais uma vez. Eu sentia os olhos ardendo enquanto ainda absorvia cada palavra. Eu estava em choque, ainda um pouco confusa, e definitivamente nem um pouco menos inquieta.
— Meu namorado atual é esse homem? — perguntei, com a voz falha, e senti Kate e %Cami% segurarem minhas mãos.
— Sim, ao que tudo indica. Você é feliz com ele, mas uma catástrofe aconteceu e outra pode acontecer se você não escolher bem.
— Eu sofri um acidente há pouco mais de um mês. Perdi minhas lembranças dele. Recuperei algumas, mas não tudo.
Era muita coisa batendo para ser uma simples coincidência. Fiquei assustada e, aparentemente, Kate e %Cami% também, a julgar pelas expressões em seus rostos enquanto ouviam as palavras da Xamã.
— Pode ser um sinal de que está acontecendo novamente — Sujin respondeu. — Essa mulher provavelmente reencarnou também para fazer mal a vocês dois. Diferente de vocês, a identidade dela é obscura. Não consigo ver se é homem ou mulher, mas ela já te provocou mal. Talvez no acidente.
— Um cara me atropelou e fugiu. Você acha que pode ser a reencarnação dessa mulher?
— Talvez. Ela pode escolher não agir com as próprias mãos também. É só isso que consigo te dizer — Sujin concluiu. — Te desejo sabedoria para enfrentar as dificuldades, %Alexa%. A entidade estava falando de você também, e não apenas do livro.
Saímos de lá alguns minutos depois e, embora eu parecesse tranquila por fora, eu estava um caco por dentro. Kate e %Cami% também estavam sérias e pensativas e não conversamos muito até chegarmos ao restaurante que escolhemos para almoçar.
— Você sabe que pode contar com a gente, não é, %Lexi%? — Minha irmã perguntou, colocando uma mão no meu ombro.
— Conte tudo pra gente, inclusive se você sonhar de novo com a Ayla macabra — Kate acrescentou. — Eu sei que você não quer contar essas coisas pro %Aidan% pra ele não surtar, mas nós podemos te ouvir. E vamos torcer para que tudo dê certo. E que você se lembre do que precisa.
Sim, de novo aquela frase. Lembrar do que eu preciso. Mesmo sem ter ideia do quê.
Suspirei, me sentindo emocionalmente cansada. Sempre me perguntei se merecia a felicidade que tinha. O namorado dos sonhos, o emprego dos sonhos, até a conta bancária dos sonhos... Mas a possibilidade de ter essa felicidade arrancada de mim me apavorava.
Secretamente, orei por proteção, sabedoria e entendimento. Eu não tinha nenhuma religião, mas acreditava em Deus e pedi silenciosamente para que Ele me guiasse pelo caminho certo.