Capítulo 24
Depois de um almoço entre amigas, consegui esquecer um pouquinho do meu surto interno ao ficar distraída com conversas aleatórias sobre o cara que %Cami% estava saindo — ainda o loiro bonitão chamado Garrett. Algumas papilas gustativas destruídas pela comida apimentada do restaurante também me ajudaram a tirar o foco da maldição para "eu deveria estar fazendo isso com meu próprio estômago?", enquanto cogitava se uma tigela de
Jjamppong em pleno almoço de quarta-feira tinha sido uma boa ideia.
Depois do almoço, nos separamos e voltei para casa sozinha de táxi, cogitando durante todo o caminho se eu deveria apenas voltar ao trabalho para me distrair. Quando entrei em casa, tudo estava em perfeito silêncio, então supus que %Aidan% provavelmente ainda estava trancado no estúdio.
Enviei uma mensagem para ele avisando que estava em casa e me certificando se ele tinha se alimentado, e recebi uma resposta positiva pouco depois. Me livrei dos tênis no meu closet e andei descalça até o escritório.
Liguei o computador e acessei minha agenda virtual. Não tinha o que fazer naquele dia, já que eu tinha adiantado o trabalho no dia anterior para tirar folga, mas mesmo assim me vi encarando a planilha quadriculada e rolei as páginas aleatoriamente olhando o que eu tinha anotado antes do acidente.
Havia uma parte cheia de estrelinhas na data do meu aniversário de três anos com %Aidan% e, antes disso, várias coisinhas que eu estava planejando em relação à data, como o que vestir, quando lembrar de fazer uma reserva no restaurante, entre outros.
Também descobri que alguns dias antes de %Aidan% voltar de viagem tive uma consulta com a minha ginecologista. Franzi o cenho, sem lembrar daquilo. Imaginei que fosse alguma coisa relacionada ao anticoncepcional que eu estava tomando ou, não sei, algum efeito colateral que tivesse me assustado. Não era incomum eu aparecer no consultório da Dra. Maria, mas o fato de não lembrar me levava a crer que tinha alguma relação com meu controle de natalidade, já que acordei no hospital achando que estava solteira e descobri que tinha um relacionamento de três anos cujas lembranças se apagaram da minha memória.
Cliquei na anotação da consulta para saber se tinha detalhes e umas letrinhas pequenas e
completamente assustadoras chamaram minha atenção.
"Suspender anticoncepcional e retornar após um mês, fazer exames na clínica antes disso". Gelei no mesmo instante. Eu achava que estava tomando anticoncepcional injetável. Que tinha sido renovado antes do acidente. Eu até tive sangramentos de escape e menstruei, então… Espera, eu
menstruei. Isso só podia ser um bom sinal, certo? Sorri, aliviada, mas então enrijeci de novo, lembrando do que %Aidan% e eu tínhamos feito na última sexta-feira, em cima da minha mesa.
Pouco depois da menstruação acabar. Imediatamente procurei o aplicativo que usava para marcar meu período menstrual e rezei para que não tivesse no período fértil. Eu achava que as chances de engravidar após a menstruação eram baixas, mas àquela altura eu já não confiava mais na minha própria mente. E havia uma consulta marcada para o mês passado que eu perdi porque não fazia ideia disso.
Também nem liguei em checar nada de diferente na agenda sendo que eu nem estava trabalhando. Logo, sabia que não tinha nenhum compromisso. Até porque eu lembraria, se tivesse. Se eu soubesse que tinha um namorado, pelo menos. Aposto que %Aidan% não fazia ideia disso e estávamos os dois transando feito coelhos sem nenhuma proteção.
Chequei no aplicativo e confirmei que minha teoria estava certa, havia uma baixa chance de gravidez. Relaxei um pouquinho, mas não o suficiente para ficar totalmente tranquila. Dizia que era uma
baixa chance e não chance
nenhuma. Eu tinha que voltar na ginecologista logo para resolver isso. Já não bastava o lance da tal maldição que me perseguia, agora eu tinha que me preocupar com a possibilidade de ser
mãe. Fazendo uma rápida pesquisa, descobri que testes de gravidez normalmente funcionam entre o sétimo e décimo dia da provável concepção. Fazia cinco dias desde a minha última vez com %Aidan%.
Merda. Eu tinha que fazer um teste.
Só por desencargo de consciência.
De todo jeito, assim como o lance da maldição, resolvi manter aquilo para mim mesma e encomendei um teste em uma farmácia próxima. Com sorte, %Aidan% ainda estaria no estúdio quando chegasse. Pedi mais um remédio para enxaqueca só para disfarçar, caso ele perguntasse o que eu tinha comprado.
Eu esconderia o teste no meu closet e o faria assim que estivesse na data correta. E então voltaria à ginecologista para pedir meu anticoncepcional de volta porque eu não me sentia nem um pouco pronta para ser mãe. %Aidan% e eu nunca tínhamos mencionado filhos, ao menos não depois do acidente, e em nenhuma das lembranças que tive sobre nós. O acidente bagunçou tudo e agora eu tinha mais esse abacaxi para lidar.
Ri, sem humor, e comecei a cutucar minhas gavetas em busca de uma receita ou algo do tipo sobre os tais exames mencionados na agenda que eu deveria fazer, mas tudo o que encontrei foi um cubo mágico todo bagunçado e o bloquinho de papel onde eu tinha anotado que deveria arrumar meu closet.
Bem, quando o teste chegasse, eu poderia usar isso como desculpa.
E aproveitaria para cutucar algumas bolsas para ver se a solicitação de exames estava em algum lugar. E marcar uma nova consulta. Mas, por ora, tudo o que fiz foi pegar o cubo mágico bagunçado e começar a resolvê-lo numa tentativa de esvaziar a mente.
Logo que comecei a fazer os movimentos que decorei anos antes e agora eram simplesmente automáticos, me senti um pouquinho mais leve. Sempre que eu montava um cubo, eu entrava em hiperfoco. Minha mente começava a viajar, tendo pensamentos de várias das coisas mais aleatórias possíveis.
Eu deveria fazer assim pra chegar no passo dois. Tenho que fechar o amarelo, em seguida.
E se eu fizesse banoffee
nesse final de semana? Na verdade, eu poderia fazer hoje mesmo, deu vontade de comer banoffee
depois que passei em frente àquele café coreano cheio de sobremesas bonitinhas.
Talvez %Aidan% esteja criando o próximo masterpiece
de sua carreira nesse exato momento.
E se o último livro da Kate terminasse de um jeito totalmente inesperado? Protagonistas fujões, talvez? O cara já era fujão.
Acho que vou comer iogurte com granola de lanche da tarde. Talvez colocar no YouTube e assistir vídeos de músicas aleatórias.
A Cave Panthers não ia lançar um clipe novo esse mês?
Como será que posso desfazer a maldição que àquela taróloga falou? Que decisão preciso tomar? O que preciso lembrar?
Franzi o cenho, percebendo o rumo que meus pensamentos estavam tomando outra vez, já perto de finalizar a montagem do cubo.
Por que ela mencionou a morte nos perseguindo? Será que tem a ver com o meu acidente? Eu deveria ter morrido?
E se acontecesse algo de novo? Será que eu morreria dessa vez?
Senti o coração acelerar com a possibilidade de algo ruim acontecer, mas tentei convencer a mim mesma de que sofrer por algo que nem se concretizou não adiantaria de nada.
Eu tinha que me concentrar no agora e tentar lembrar da tal coisa importante.
Respirei fundo, sentindo os olhos arderem, mas me controlei para não chorar. Eu não estava nem mesmo de TPM, e %Aidan% perceberia que havia algo me incomodando se me visse de olhos vermelhos.
Depois de alguns instantes, a campainha tocou e corri para atender. Era o entregador da farmácia. Dei uma boa gorjeta a ele por ter que fazê-lo subir até ali e tirei rapidamente a caixa de remédio para enxaqueca da sacola, antes de correr com ela direto para o meu closet.
Ouvi a porta do estúdio abrir no instante que entrei no quarto e apressei o passo.
— %Lexi%? — %Aidan% me chamou e fiquei nervosa. Achei um nicho largo de casacos de inverno e os levantei com uma mão para enfiar a sacola ali, quando senti algo.
Uma caixa. Franzi o cenho, sem entender porque tinha uma caixa ali, e enfiei a sacola no lugar, ao mesmo tempo que puxei a caixa. Era branca, de papelão, e havia um laço vermelho na tampa. A encarei com curiosidade, querendo dar uma rápida espiada antes que %Aidan% me encontrasse ali.
Talvez ele estivesse escondendo um presente surpresa. E que bom que eu era ótima em fingir surpresa, mesmo sabendo que presente ia ganhar.
Assim, não pensei duas vezes antes de puxar a tampa.
Só que em nenhuma realidade alternativa em que eu me enfiasse eu imaginaria que fosse encontrar aquilo. O sorriso se esvaiu de meu rosto no mesmo instante, quando li o bilhete escrito com a minha própria caligrafia.
"Parece que finalmente vamos ter que usar um daqueles quartos vazios do apartamento. Feliz aniversário de três anos, %Aidan%. Agora somos três também". Um par de sapatinhos de bebê jazia ali. Vermelhos, feitos de crochê, e era a coisa mais fofa. Eu os encarei por alguns segundos, perplexa, tentando assimilar o que meu cérebro estava claramente raciocinando muito rápido para me fazer perceber.
Ouvi a voz de %Aidan% ao longe, um pouco abafada, me chamando mais uma vez. Então ficou alta, indicando que ele estava ali também.
Levantei a cabeça para encará-lo, sentindo o rosto encharcado de lágrimas que nem notei caindo, e encontrei seu olhar preocupado e repleto de tristeza mais uma vez.