Capítulo 35
— Eu te amo. — Ele disse, colocando a mão no meu rosto, o polegar esbarrando propositalmente no meu lábio inferior.
— Eu também te amo, Dean — falei automaticamente, então percebi que não era eu, mas Ayla.
Eu estava de volta a
Tenaz.
Mas tinha algo diferente. Bem ali, diante dos meus olhos, Dean desapareceu e então vi cenários mudando, cenas passando na minha frente com uma velocidade absurda que quase me deixou tonta.
Fechei os olhos por um instante.
— Vem morar comigo, amor — ouvi e abri os olhos, me deparando com Dean. Estávamos dançando e aquilo só podia ser o casamento de Tiana.
A cena passou e novamente fiquei confusa. Fazia alguns dias que eu não sonhava com
Tenaz e nunca era assim, não tão rápido a ponto de eu praticamente nem identificar o que estava acontecendo.
O cenário acelerou mais uma vez e senti meu corpo sendo jogado para trás. No minuto seguinte, eu estava assistindo de terceira pessoa e não mais no corpo de Ayla. Olhei para baixo, constatando que estava no meu próprio corpo, meu cabelo vermelho caindo sobre meus seios.
Em seguida, vi Karina pegar o buquê de Tiana e se abaixar enquanto Ayla o chutava para longe, direto no rosto de Dean. As pessoas riram e me vi fazendo o mesmo. Até que eles se beijaram e... Fim.
Tudo ficou escuro. Eu estava em um breu, sem conseguir enxergar absolutamente nada e então, de repente, um rosto surgiu na minha frente.
Gritei, cambaleando para trás e a Ayla de olhos prateados riu, claramente se divertindo. Ela tinha voltado. A tal entidade que eu não fazia ideia do que era.
— Você devia ter visto sua cara — comentou, ainda sorrindo.
— Isso não tem graça. O que você quer?
— A maldição pode ser quebrada dependendo da escolha que você fizer.
— Você já me disse isso antes. Eu já fiz uma escolha.
— Muito bem, então, se é o que diz. Mas lembre que todas as escolhas têm consequências, sejam boas ou ruins. Está na hora de seguir em frente.
— Quer dizer que eu não vou mais sonhar com o livro?
— O livro acabou, embora mais rápido do que pensei.
— Por que sonhei com isso então?
— Sua mente quis uma fuga, uma distração das coisas ruins. Sempre foi assim.
— E você? Vou parar de te ver também?
— Ouvindo assim até parece que você gosta de mim — debochou ela. — Mas sim, se você já fez sua escolha, não virei mais te encontrar. Irei assistir o desenrolar dessa história de longe.
— Boa sorte, você vai precisar.
E então ela sumiu. Me vi no breu mais uma vez e fechei os olhos, respirando fundo. Quando os abri novamente, encarei um teto branco, em um quarto igualmente branco.
E %Aidan% estava ao meu lado.
— %Lexi%... Graças a Deus. — Ele segurou minha mão direita entre as suas e a beijou.
Tive uma sensação de
déjà vu ao acordar ali. Era quase como da última vez depois do meu atropelamento. Então notei que havia uma tipoia em meu braço esquerdo e meu ombro estava imobilizado.
— Merda... Eu quebrei algum osso? — perguntei ao tentar me sentar. Senti uma dor incômoda nas costelas quando fiz isso.
— Você fraturou duas costelas e deslocou o ombro esquerdo. Os médicos acham que foi o impacto com o cinto de segurança.
— Merda... E o idiota que fez isso?
— A polícia o prendeu. Era o stalker, %Lexi%. Ele confessou tentar te matar — %Aidan% murmurou baixinho.
Engoli em seco, sentindo um arrepio na nuca, mas tentei disfarçar.
— Que bom que não conseguiu então. E o meu carro?
— Seu... Carro? — Ele franziu o cenho, como se estivesse surpreso com a pergunta.
— É, meu carro, %Aidan%. Ficou muito destruído?
— Ah... Consideravelmente, eu diria — ele respondeu, com uma mão na nuca. — Tivemos sorte de você não ter ficado presa nele.
— Porra! Eu vou esganar aquele pervertido! — xinguei, irritada. — Meu carro era novinho... — choraminguei.
— Eu te dou outro — %Aidan% ofereceu e o encarei como se ele tivesse falado uma asneira.
— Nem vem. Eu comprei com meu dinheiro. Pelo menos, tem seguro...
— Quando vou poder sair daqui? E aquele idiota? Eu quero ver ele.
— Acho que no fim da tarde você pode ter alta. Precisa ficar em observação por um tempo e esperar o resultado dos exames... A polícia se ofereceu pra vir pegar seu depoimento.
— Não precisa, eu quero ir à delegacia e ver aquele stalker pessoalmente.
— Vão interrogar ele mais tarde. Vou saber se podemos assistir.
— E %Cami%? Você avisou a ela?
— Sim, ela deve estar a caminho se não tiver ficado presa no trânsito.
— Certo. — Assenti e então me lembrei de algo. — E como você sabia que eu tava sendo seguida?
%Aidan% desviou o olhar do meu e apertou os lábios em uma linha fina.
— %Lexi%... — Ah, não. Eu conhecia aquela expressão. Cara de quem tinha feito algo que eu provavelmente não concordaria.
— %Aidan% %Callahan%. É bom você começar a se explicar agora. Você colocou um rastreador em mim? No meu carro?
— Contratei seguranças pra ficarem de olho em você.
— O quê?! Era por isso que eu andava com a impressão de que tava sendo seguida, então? Porque eu realmente tava! Porra, %Aidan%!
— Desculpa por não dizer. Mas eu sabia que você não ia concordar, então pedi a eles para serem discretos.
— É claro que eu não ia! Onde eles estão agora? — eu quis saber. — Quero ver quem são.
%Aidan% assentiu e fez uma rápida ligação. Um minuto depois, dois caras enormes vestidos casualmente entraram no quarto. Minha boca se abriu em choque.
Era o casal que eu tinha visto na cafeteria.
— Não acredito! Então era vocês?
— Sim, senhora. — Um deles respondeu e o reconheci como o mais ranzinza da vez que os vi. — Meu nome é Carter e esse é Louis.
Os dois tinham uma vibe de agentes secretos agora, se reportando a mim como se eu fosse chefe deles. Era até meio cômico.
— Eu não sou casada, Carter. Podem me chamar apenas de %Lexi% — comentei. — Vocês não são um casal, né?
— Não, senhora. Quer dizer... %Lexi% — Louis respondeu. — Na verdade, temos esposas e filhos.
— Que interessante. Vocês são bons atores. Foi um prazer conhecer vocês. Obrigada pela ajuda hoje.
— É nosso trabalho, se-%Lexi% — Carter disse.
Um momento depois, os dois saíram, me deixando sozinha com %Aidan% mais uma vez.
— Você não devia ter feito isso — O encarei. — Não tem nenhuma obrigação comigo.
— O stalker tava solto, %Lexi%. Eu tinha que te proteger de alguma forma. Não me interessa se você é ou não minha namorada. Eu não me arrependo de nada.
— Claro que não — retruquei, irritada. — Mas eu podia me cuidar sozinha.
— Ele teria te matado se meus seguranças não tivessem percebido e atrapalhado — %Aidan% disse, irritado também. — Não vou me desculpar por cuidar de você.
— Por que você é tão teimoso?
— Por que você é tão teimosa?
Respirei fundo, tentando conter a irritação.
— Eu me distanciei pra proteger você, seu idiota! E agora você me diz que tava fazendo o mesmo?
— Pelo menos, estamos de acordo em proteger um ao outro — ele comentou, sem se abalar. — Agora acabou, %Lexi%. O stalker foi pego e não vai mais nos incomodar.
— Assim espero. — Suspirei, passando a mão no rosto e notei um curativo na minha testa.
— Você pode voltar pra casa agora — ele comentou baixinho e o encarei novamente. — Pra nossa casa.
— %Aidan%... — Prendi a respiração por um momento. — Não posso voltar com você.
— Por que não? Você disse que terminou comigo por causa do stalker.
— Podemos superar isso juntos, eu te disse. E o problema com o stalker já foi resolvido. O que te impede?
Uma maldição, eu quis dizer. Ou melhor, repetir. Mas sabia que ele não ia acreditar naquilo. %Aidan% achava que eu tinha inventado um monte de lorotas só porque não queria revelar o motivo do nosso término.
— Eu só... Não posso, tá?
— Você não me ama mais? É isso? — ele perguntou e senti cada palavra como uma agulha enfiada no meu coração. — O amor acabou pra você, %Lexi%?
Ele colocou uma mão no rosto e respirou fundo, antes de voltar a me encarar.
— Só quero que seja sincera comigo. Não pode fazer isso nem ao menos uma vez? Vai continuar me deixando no limbo, sem nem saber o motivo que me fez perder você? Eu mereço ao menos isso, %Lexi%. — O lábio inferior dele tremeu, denunciando seu nervosismo, e meu coração se apertou. — Tô cansado de ficar longe de você.
Senti meus olhos arderem e tive que fazer um esforço para não chorar em sua frente.
— Você consegue viver sem mim, %Aidan%. Nós vamos seguir em frente.
— Você não respondeu minha pergunta.
Apertei os lábios, tentando controlar minhas emoções. Eu não queria responder. Não queria magoá-lo mais do que já tinha feito. Mas também sabia que se não fizesse aquilo, ele continuaria insistindo.
— Sim, %Aidan%. Eu... —
te amo demais. Desesperadamente. Como nunca imaginei amar ninguém. — Não te amo mais. Sinto muito.
%Aidan% me encarou com os olhos brilhantes, incrédulo, como se não esperasse mesmo que eu fosse falar aquilo. Então desviou o olhar e assentiu, antes de se levantar.
— Vou tomar um ar — disse, andando até a porta, mas parou com a mão na maçaneta. — Vou acompanhar você no depoimento, %Lexi%. Depois disso, prometo que vou te deixar em paz — acrescentou, sem olhar para mim.
— Certo — respondi, um instante antes dele abrir a porta e sair.
Quando fez isso, me permiti chorar as lágrimas que estava contendo até então.
***
Quando chegamos à delegacia, pouco depois das sete da noite, o advogado de %Aidan% já estava à nossa espera. %Cami% se ofereceu para nos acompanhar também, mas recusei. No fim das contas, eu estava bem após o acidente e não queria que ela bagunçasse sua rotina por minha causa sem necessidade. Então era apenas %Aidan% e eu. Nosso depoimento durou cerca de uma hora e então o detetive responsável nos deixou assistir o interrogatório da sala de observação.
Roy Basset era igualzinho às fotos que %Aidan% havia me enviado. Jovem e com uma expressão amarrada no rosto. Mas havia certa inquietação em seus olhos para alguém que tinha confessado vários crimes de boa vontade após ser pego. E acho que o detetive também notou isso durante o interrogatório, ao arquear uma sobrancelha com uma expressão de desconfiança no rosto.
Ele perguntou sobre os vídeos enviados para mim e %Aidan%, e então os seus motivos, e Roy revelou ter feito isso por não gostar de nos ver juntos, porque não gostava de mim e achava que %Aidan% merecia alguém melhor.
Ele estava repetindo o mesmo que disse nas mensagens.
— Por que quis matar a Srta. %Danforth%? — o detetive perguntou.
— Porque assim ela o deixaria em paz.
— O Sr. %Callahan% e ela revelaram que não estão mais juntos.
— Se não estão, então não deveriam sair juntos.
— Alguns casais ficam amigos mesmo após o término...
— Mas eles não podem. Não quero.
Tudo o que ele falava parecia automático. E durante todo o processo, ele apertou a mão direita com a esquerda, como se tentasse ficar calmo. O detetive assentiu e estendeu uma prancheta para que ele assinasse um documento. Roy segurou a caneta com a mão esquerda e assinou, empurrando a prancheta de volta para o detetive com a direita. Foi quando eu vi algo no dorso de sua mão, mas estava longe demais para enxergar.
— Eu posso entrar ali? — perguntei para o policial que estava na sala. Quero só fazer uma pergunta.
%Aidan% me encarou como se eu estivesse maluca.
— É só uma pergunta, %Aidan%.
O policial me encarou por um instante e então usou um microfone para pedir permissão ao detetive que o interrogava. Ele assentiu e, no mesmo instante, sai em direção à sala, que ficava na porta ao lado. Respirei fundo e me aproximei da mesa devagar. Roy me olhou com curiosidade e não era bem isso que eu esperava dele. Então meu olhar caiu para suas mãos.
Havia uma cicatriz antiga no dorso de mão direita.
— Você não é o stalker, né? — Sorri e o vi arregalar os olhos levemente.
— Eu sou. Já confessei tudo.
— Não é não. O stalker é destro e não tem uma cicatriz na mão. A menos que não fosse você naqueles vídeos.
— É claro que era! — ele retrucou e então se deu conta do que tinha feito. — Só não apareceu na câmera...
Suspirei e encarei o detetive.
— Acho que alguém contratou ele. Chequem os vídeos e vão ver que a pessoa que fez os vídeos não tem cicatriz. Talvez ele só tenha enviado as mensagens ou deixado alguém usar o endereço de IP dele.
— Certo. Obrigado pela informação, Srta. %Danforth%.
Assenti e voltei a encarar o garoto.
— Você tá seguro aqui. Se alguém te ameaçou, esse é o momento de falar.
E então saí. Um instante depois, %Aidan% me alcançou e me segurou pelo pulso livre, me virando para encará-lo.
— Do que você tava falando?
— Mesmo que não houvesse cicatriz, é muito óbvio. O cara é canhoto.
— E como você tem certeza de que o stalker é destro?
— Adivinha. — Fechei a mão e sacudi no ar.
— Porra, %Lexi%. Você reparou em como o cada se toca?
— Eu gostaria de apagar aquelas cenas da minha mente, se você quer saber. De todo jeito, aquele garoto tem uma cicatriz antiga. E o detetive também tava desconfiado, você não viu?
— O garoto tava só repetindo coisas escritas nas mensagens, %Aidan%. E tava nervoso o tempo todo pra alguém que tinha acabado de confessar os crimes de boa vontade. Não é ele.
— Se não é ele, quem pode ser?
— Não faço ideia. Mas aquele tal de Roy? Aposto que nem conhece suas músicas.
%Aidan% franziu o cenho, preocupado.
— Eu tenho que ir. Tô cansada.
— Não precisa, eu pego um táxi.
— Não, %Alexa% — %Aidan% rebateu com firmeza. — Não pedi sua permissão. Eu vou te levar pra casa. Vamos. — Ele me puxou pela mão, mas eu a puxei de volta.
— Eu posso andar sozinha, então — garanti, me afastando dele.
Por um milésimo de segundo, vi a mágoa cruzar seu olhar, mas %Aidan% disfarçou, fingindo não se importar. Passei na frente dele e andei mais rápido. O caminho até o carro se seguiu em silêncio e permaneceu assim até chegarmos ao endereço de minha irmã.
— Obrigada — murmurei, saindo do carro antes de ouvir uma resposta dele.
%Aidan% foi embora assim que fechei a porta.
Respirei fundo e observei o carro se afastar, algo me dizendo que aquela era provavelmente a última vez que nos veríamos.