Capítulo 29
Quando %Cami% chegou em casa, pouco depois das seis, eu estava em pé, de frente para o balcão da cozinha, terminando de engolir o resto da porção de
bibimbap que %Aidan% tinha feito para mim. Meus olhos estavam tão inchados que mantê-los abertos estava sendo um pouco difícil.
Eu queria me esconder, apagar, e não pensar em mais nada.
Ficar sem %Aidan% era doloroso demais para que eu lidasse com isso acordada. Mas vê-lo ocasionalmente na skin de Dean também não ajudava muito, quando eu ia parar em
Tenaz. Eu ainda não sabia nem por que continuava indo parar na história, afinal, já tinha recuperado todas as minhas memórias. Eu sabia disso, tinha certeza. Então qual a razão daquilo continuar? Seria um gatilho? Talvez um mecanismo de defesa para me afastar da realidade, mesmo depois de lembrar de tudo?
Suspirei, resignada, me sentindo um lixo. A pior das piores entre todas as perdedoras. Então encarei minha irmã, sentindo meus olhos ficarem úmidos mais uma vez.
— Por que você tem que contar tudo pra ele? Sua fofoqueira — resmunguei de boca cheia, enfiando mais uma colher de comida na boca.
%Cami% suspirou e se aproximou.
— Por que ele é a pessoa que você prometeu nunca deixar ir — ela respondeu, apoiando os braços no balcão. — Você tá fazendo isso unicamente por conta do aborto, %Lexi%?
E lá estava o elefante na sala. Não tínhamos falado sobre aquilo ainda, a lembrança do acidente, do sangue... Do momento em que eu sabia que estava perdendo meu bebê. Mas eu já esperava que %Cami% fosse tocar no assunto em algum momento, especialmente quando ela e %Aidan% conversaram pelas minhas costas.
Já que eu não queria falar, ele fez aquilo por mim.
— Foi um dos motivos — eu admiti, abaixando a cabeça. — Me senti um lixo quando lembrei do acidente. Eu vi o sangue, %Cami%. Eu soube antes de desmaiar, e só juntei um mais um pra confirmar o que tinha acontecido. Eu menstruei há uns dias. Minha barriga não cresceu nada. Se eu tivesse grávida, meu corpo teria mudado.
— Não foi culpa sua. Você foi atropelada, %Alexa%.
— É aí que tá.
Foi culpa minha — enfatizei, encontrando seu olhar mais uma vez. — Se eu não tivesse saído de casa, meu caminho nunca teria cruzado com o daquele cara. Eu não consigo parar de pensar na maldição. Não foi um acidente perder o bebê, foi proposital. Se eu não estivesse grávida, poderia ser só coincidência, mas, quando lembrei... Só consegui pensar nisso, na tal mulher.
— Homem, segundo a xamã — %Cami% corrigiu. — Você não tem ideia de quem seja? Alguém que você tenha conhecido?
— Não, nada. Acho que é o stalker. Há uns dias eu recebi uma mensagem dele no Instagram falando que eu deveria ter morrido no acidente. E isso da morte nos perseguir... E se algo acontecer com %Aidan% ou comigo, só porque estamos juntos?
Minha irmã franziu o cenho, preocupada.
— Você acredita mesmo nisso? Que a solução é romper com ele?
— É o que ele quer, o stalker. Considerando que ele seja a esposa reencarnada. Isso não vai parar nunca enquanto nós não dermos um fim.
— É isso que o seu coração diz, irmã?
— Meu coração não importa agora, %Cami% — respondi, sentindo meu olhos arderem mais uma vez. — Não posso ser egoísta e me dar ao luxo de seguir o que ele diz. Eu amo %Aidan%. Você sabe disso, ele sabe também, mas prefiro ficar sem ele e saber que ele tá vivo do que arriscar perdê-lo de um jeito pior. Mas eu tô bem. A gente vai superar.
— Ah, é? E por que você tá chorando de novo? — ela perguntou, cética, e só então percebi que meu rosto já estava encharcado outra vez.
— Ele cozinhou pra mim. — Solucei, colocando outra colher de comida na boca. Seria até cômico se a situação não fosse trágica. Mesmo depois de magoar %Aidan%, ele ainda dava um jeito de cuidar de mim.
%Cami% suspirou, parecendo cansada.
— Honestamente, %Lexi%... Eu não sei o que fazer com vocês dois. Não acho que se afastar seja a solução, mas você é teimosa demais. E tá tirando meu cunhado favorito de mim. — ela reclamou, me fazendo rir entre lágrimas.
— Ele é seu único cunhado. Você não tem outra irmã — falei, logo percebendo o erro. — Bem,
ex-cunhado agora.
%Cami% suspirou novamente, e eu enfiei a última colher de comida na boca.
— Eu vou tomar banho — ela avisou, enquanto eu juntava os últimos grãos de arroz para comer. — Mas fico feliz por ele ao menos ter conseguido te fazer comer.
Então se virou e saiu. Um segundo depois, encarei o recipiente vazio que %Aidan% tinha embalado cuidadosamente, e então chorei mais um pouco.
***
Uma semana depois de terminar com %Aidan% e sair de casa, finalmente decidi fazer o teste de gravidez.
Depois de tudo, achei melhor esperar mais alguns dias para descobrir se estava mesmo grávida. E só para garantir, pesquisei na internet se poderia haver algum problema quanto a uma gravidez poucas semanas após um aborto, mas havia muitos casos do tipo aparentemente sem complicações. A ideia de engravidar de novo sabendo que meu corpo poderia rejeitar mais um bebê me apavorava. E ainda me senti culpada por ter pensado que não estava preparada para ser mãe e ter comprado um novo teste, já torcendo para não estar grávida.
No entanto, enquanto esperava o tempo para ver o resultado daquela vez, eu já não sabia mais o que queria. Eu tinha noventa por cento de certeza de que não estava esperando um bebê, mas quando confirmei isso com o teste, fiquei surpresa ao sentir a pontada de decepção que me atingiu ao visualizar uma única listra.
Tirei uma foto e enviei para %Aidan%, sem nenhuma legenda. Ele visualizou cinco minutos depois, mas não respondeu nada.
Era aquilo então, a confirmação que esperávamos.
Eu não tinha ideia do que faria se estivesse grávida, ainda mais separada de %Aidan%, e sabia que não estar era provavelmente melhor para nós dois, considerando nosso término. Mas mesmo assim, meu coração se apertou. A resignação de saber que era o fim de nós dois, colocado entre nós por mim mesma, me atingiu em cheio.
Provavelmente havia esgotado todas as minhas lágrimas na última semana enquanto tentei seguir em frente. Dediquei noventa e cinco por cento da minha atenção ao trabalho durante aquela semana, tentando me ocupar ao máximo enquanto me perdia no mundo literário de Kate, e deu certo na maior parte do tempo.
Aquela era a primeira mensagem que eu trocava com %Aidan% desde a última vez que o vi e como uma maldita masoquista, rolei a janela de nossas conversas, lendo algumas mensagens antigas. Era deprimente, eu era culpada por nosso sofrimento mútuo, mas estava firme em minha decisão.
Eu tinha que proteger ele, nem que para isso eu tivesse que ficar longe. Se a pessoa que queria nosso mal resolvesse agir, por qualquer motivo que fosse, isso poderia terminar mal, assim como todas as outras vezes em nossas vidas passadas.
Eu não contei a ninguém, mas naquela semana voltei para ver a xamã mais uma vez. Eu queria saber mais sobre as minhas vidas passadas, saber se a história da morte nos perseguir significava o que eu estava pensando. As palavras de Sujin ainda faziam minha mente girar, e a confirmação do que eu mais temia veio logo depois.
"Se a escolha errada for feita, a morte os perseguirá. Tirada pelas próprias mãos ou de outrem, a maldição se concretizará mais uma vez e a chance daquele que não viveu a vida e o amor que deveria continuará no limbo." Eu estava certa então. Se ficássemos juntos, um de nós morreria, ou os dois. E a esposa que não teve chance de viver como queria e receber o amor de %Aidan% continuaria do mesmo modo. Eu não achava que me afastar dele daria uma chance para ela, especialmente quando ela era um ele nessa vida e %Aidan% era hétero. Tampouco achava que ele se tornaria amigo de um stalker, mas talvez a distância deixasse sua alma em paz. Se a maldição fosse quebrada assim, em outra vida poderíamos os três ter uma nova chance de ser felizes.
Mantive aquela informação para mim mesma. Eu não precisava discutir aquilo com mais ninguém e o resultado do teste era só mais um sinal de que não era para ser. Quando ouvi as palavras de Sujin, apenas assenti em silêncio e me fui embora sem falar mais nada.
Vivi três anos me sentindo a mulher mais sortuda e amada do mundo. Mesmo que isso tivesse sido arrancado de mim, eu levaria essas memórias comigo para sempre. Para mim, todo o amor, apoio, amizade e cuidado que recebi de %Aidan% eram preciosos. Construímos nosso relacionamento com base em companheirismo e respeito, e ele era o tipo de pessoa que eu admiraria para sempre, mesmo que um dia eu soubesse que ele havia passado a me odiar.
Eu não me via com mais ninguém além de %Aidan%, mas um dia... Quando ele encontrasse um novo amor, mesmo que doesse em mim, eu torceria para dar certo, torceria para que ele tivesse a chance de ser feliz.
%Aidan% era uma das minhas pessoas favoritas no mundo.
Mas a nós, agora só restava seguir em frente. Dar tempo ao tempo e esperar que fosse o suficiente para curar nós dois.
Mais tarde, quando %Cami% chegou, conversei com ela e enviei uma mensagem para %Aidan% falando que iríamos buscar o resto dos meus pertences. Eu não tinha interesse em mobília nem nada do tipo, então levaria apenas as minhas roupas, sapatos e cosméticos.
Eu não precisava de mais coisas que me lembrassem dele. Já bastavam as mensagens e as fotos de nós dois, que eu não havia tido coragem para apagar.
E honestamente, nem sei se teria.
Talvez o máximo que eu fizesse fosse transferir tudo para uma nuvem. De todo jeito, deletar parecia demais. Quase um desrespeito a nós mesmos e tudo o que vivemos. Eu não queria esquecer, apenas não ter lembretes na minha cara toda vez que pegasse o celular.
%Aidan% respondeu minha mensagem poucos minutos depois.
%A%♥: Tudo bem, vou ficar trabalhando no estúdio. Fique o tempo que precisar, não vou atrapalhar. Não vou mais atrás de você, %Lexi%. Estou te deixando ir agora, foi o que imaginei que ele queria dizer, quando li.
No dia seguinte, %Cami% e eu voltamos para o local que foi meu lar nos últimos dois anos. Era cerca de sete da manhã e eu não vi nem ouvi %Aidan%, então deduzi que ele estava trancado no estúdio. Eu sabia que ele tinha comida e bebida lá dentro, além de um pequeno banheiro, então era de se esperar que ele pudesse sobreviver lá dentro por várias horas sem sair.
O apartamento estava silencioso e o único barulho eram das vozes de minha irmã e eu enquanto conversávamos baixinho, decidindo como organizar as coisas.
Havia mais do que eu esperava, então %Cami% deu um jeito e ligou para o tal Garrett bonitão com quem estava saindo, e o convenceu a vir ajudar. Ele tinha uma caminhonete e trouxe um amigo com ele, um cara chamado Jake. Os dois pareciam dois modelos saídos de uma capa de revista e tinham músculos úteis o suficiente para ajudar a carregar as caixas que fomos deixando prontas. Assim, o trabalho que duraria provavelmente o dia todo foi concluído antes do meio-dia.
Era um alívio terminar cedo, mas a sensação de sair daquele apartamento sabendo que nunca mais voltaria era completamente amarga. Mas desde a última visita à xamã, eu vinha me policiando para me lembrar do motivo de estar fazendo aquilo sempre que começava a me martirizar.
Não adiantava de nada continuar me remoendo em um poço de autopiedade. Nada mudaria, mas olhei para trás uma última vez antes de sair e, por alguns segundos, tentei capturar uma lembrança de cada pedacinho daquele lugar. E em meio à triste convicção de que aquele lugar não faria mais parte do meu presente, me virei e fui embora.
Um ciclo havia se encerrado.
E eu esperava que a maldição também.