Capítulo 31
%Lexi%
Ou pelo menos era essa a impressão que eu estava tendo há várias semanas. O problema é que sempre que eu olhava para trás procurando por alguém, não encontrava nada. No início, desconfiei que pudesse ser algum paparazzi, mas a opção já tinha caído por terra quando nenhum artigo recente saiu sobre mim, tampouco fotos na internet. Não que eu estivesse acessando muito já que tinha desativado todas as minhas redes sociais, e agora eu só tinha uma conta fake no Twitter para acompanhar comentários sobre as expectativas do próximo lançamento de Kate e... Bem, outras coisas.
Eu podia deixar de ser namorada de %Aidan% %Callahan% de uma hora para outra, mas deixar de ser
fã era outra história. Não é como se ele tivesse feito algo para me fazer odiá-lo. Na verdade,
ele devia estar me odiando agora, mas ainda tinha a consideração de me mandar informações sobre a identidade do stalker que vinha nos perturbando.
Sendo bem sincera, se eu fosse a única sendo perturbada por esse cara, eu apenas ignoraria e seguiria em frente. %Aidan% provavelmente faria o mesmo, mas por ele, eu queria que esse cara fosse encontrado. Especialmente se ele fosse a tal esposa reencarnada cheia de rancor por nós dois. Eu queria que essa pessoa fosse pega e ficasse impossibilitada de fazer mal a %Aidan%.
Não tínhamos declarado nosso término publicamente, mas se o stalker fosse bom mesmo, então a essa altura já estaria sabendo que saí de casa. Além disso, %Aidan% tinha compromisso em cerca de duas semanas em Los Angeles e ele não precisava de um escândalo nosso e repórteres o enchendo de perguntas nesse momento, ainda mais quando estava se preparando para um novo álbum.
Eu sabia que ele tinha as músicas prontas, que já tinham sido escolhidas, mas não cheguei a ouvir nenhuma. %Aidan% sempre dava uns retoques antes do lançamento oficial, mas tinha me falado que a capa seria verde e oito músicas seriam lançadas. Eu sabia que ele tinha muito mais que isso naquele estúdio — que eu era praticamente proibida de entrar —, mas também sabia que ele era extremamente seletivo no trabalho.
%Aidan% valorizava planejamentos acima de tudo e odiava imprevistos. Se a capa seria verde era porque ele tinha passado dias, talvez semanas pensando nisso. Se oito músicas foram escolhidas, provavelmente eram as que passavam exatamente o que ele queria transmitir ao público. E obviamente, eu estava bem curiosa para ouvir tudo.
Depois de estacionar o carro para comprar café, continuei andando pela calçada, com aquela mesma impressão de estar sendo seguida. Olhei para trás novamente, mas apenas encontrei uma senhorinha prestes a atravessar a rua e dois homens enormes andando de mãos dadas.
Parei um pouco, fingindo checar o celular, e os dois caras passaram por mim, entrando na mesma cafeteria que eu planejava. Certo, estavam indo para mesmo local então. Os dois pararam na porta, observando o local, e eu segui direto para a fila, antes de eles resolverem se juntar também.
Um deles sorriu, encostando o queixo no ombro do outro, que parecia desconfortável, e deduzi que ele não era muito fã de demonstração de afeto em público. Talvez com receio de ter que encarar o preconceito de alguém, enquanto o outro claramente não se importava.
Eu sabia bem como era aquilo, ter alguém mais aberto ao lado. No início do meu relacionamento com %Aidan%, eu era retraída em público. Os paparazzi andavam interessados em nós e eu não queria esfregar na cara de seus fãs que estava com ele. Nenhum fã quer saber quando ou quem seu ídolo está namorando.
Ficar alheia quanto a isso era bem mais saudável para a maioria de nós. Felizmente, %Aidan% não teve nenhum relacionamento público antes de mim, então a maioria dos fãs achava que ele curtia sexo casual com várias pessoas diferentes e nada de compromisso.
Chegava a ser cômico agora.
%Aidan% não fazia questão de esconder nosso relacionamento, mas, no começo, tive medo de receber ataques nas redes sociais. Recebi mesmo, mas eles eram bem menores se comprados às mensagens cheias de humor dos fãs que não se importaram ou que simplesmente nos apoiaram. Eu ser uma fã de %Aidan% também foi um fator que influenciou bastante nisso, como se milhares de garotas estivessem vivendo uma fanfic através de mim.
Elas provavelmente acabariam comigo se descobrissem que parti o coração dele.
Eu faria isso se fosse elas.
Respirei fundo, me preparando para fazer o pedido, e deixei de lado a ideia de estar sendo seguida. Devia ser só impressão mesmo, porque acho que uma parte de mim sabia que eu poderia ser exposta e cancelada a qualquer momento — não por %Aidan%, mas talvez por algum paparazzi intrometido.
Girei a aliança no dedo enquanto pensava nisso. Evitar a exposição de nós dois foi um dos motivos que me fez mantê-la no dedo. Fazia um mês desde a última vez que eu tinha falado com %Aidan%, e mais que isso desde a última vez que eu o vira. Eu não fazia ideia se ele ainda usava a dele ou não, mas secretamente esperava que sim, ao menos para manter perguntas curiosas longe, já que ele nunca a tirava.
Eu não esperava mais que isso, no entanto. Não era como se eu planejasse começar a sair com outras pessoas, então deixaria que ele decidisse quando anunciar nossa separação.
Depois de comprar café da manhã, segui direto para a editora, e entrei com alguns copos e lanchinhos que eu costumava levar para Andrew e Diana. Mesmo sendo os donos da editora, ambos eram bastante presentes e ficavam imersos nos trabalhos de edição tanto quanto os outros profissionais que trabalhavam lá.
Encontrei os dois no escritório de Andy e coloquei nosso café da manhã cima da mesinha de centro que ele tinha ali. Deliciosos pãezinhos recheados com creme de chocolate jaziam no saco de papel, prontos para adoçar a nossa segunda-feira.
— Por que isso é tão bom? — Diana perguntou, algum tempo depois. — Será que conta como sair da dieta se for numa segunda-feira cheia de reuniões? Tipo, é só pra evitar o estresse com um pouco de açúcar.
— Claro que conta. Não vem com essa de matemática de menina agora, Di — Andrew riu.
— Eu discordo — opinei. — Acho uma ótima opção, desde que seja uma vez na semana e depois só no fim dela.
— Você e seu namorado são os senhores saudáveis, você não pode opinar, %Lexi% — Andy brincou. — Até onde sei, vocês gastam tantas calorias que podiam comer besteiras todos os dias sem engordar.
Eles não sabiam sobre meu término ainda. Apenas %Cami% e Kate, porque não tinha como esconder dela — não quando ela me ajudou a achar a taróloga/xamã que descobriu e me ajudou a entender a maldição.
— E você? Continua fingindo que a academia não existe, Andy? — devolvi. — E por que o meu ex tá falando da minha atual vida sexual, hein? Seu estranho.
— Nem vem, não sou um mero ex. Sou seu amigo, lembra? A gente já passou dessa fase de ficarmos constrangidos, %Lexi%. Eu, hein… — ele retrucou, mordendo mais um pãozinho. — E ainda corro três vezes por semana. Tá mais do que bom pra eu não ser totalmente sedentário.
Diana e eu rimos e tomei um gole de café enquanto ele mastigava como se aquela fosse sua comida favorita no mundo e não uma bomba de açúcar e calorias que faria a maioria das pessoas se arrependerem de comer algumas horas depois. A verdade era que Andrew nem precisava pegar pesado nos exercícios para ter um corpo definido. Ele fazia parte daquela porcentagem irritante de pessoas magras que não precisavam se esforçar quase nada para definir os músculos. Ele não era um cara volumoso como %Aidan%, que tinha um físico construído na academia com bastante proteína.
Andrew era
slim, suave e o estereótipo do nerd gostoso, com óculos de aro fino e armação arredondada que o deixava mais atraente ainda. Foi uma das primeiras coisas que me atraiu nele quando começamos a desenvolver interesse um pelo outro. Mas %Aidan% era... O moreno bad boy e sarcástico dos livros. Tirando o fato de que eu não o achava realmente sarcástico, nem bad boy. Ele tinha a aparência de um, mas o espírito de um lobo leal e companheiro.
Será que Kate estaria interessada em escrever um romance de lobos depois que concluísse a série? Com certeza não. Ela nem curtia muito lobos hoje em dia. Embora o pensamento de ver %Aidan% em mais um personagem literário fosse interessante, suspirei, resignada.
Mas melhor do que isso era saber que ele era como um personagem literário da vida real, escrito por uma mulher — meu tipo favorito.
Eu amava o Dean, e sempre que eu dormia e ia parar em
Tenaz, era como ter pequenos momentos roubados com %Aidan% — mas não era a mesma coisa. Eu ainda vinha sonhando com o livro, mas tinha se tornado menos frequente. O enredo não demoraria para ser concluído, e eu sempre me perguntava se pararia de sonhar quando ele se encerrasse.
Eu achava que sim, mas, por enquanto, eu estava aproveitando os momentos com a skin ranzinza de %Aidan%.
Na história, Dean terminou com Ayla para protegê-la. Quando presenciei isso, não passou pela minha cabeça que um dia
eu fosse terminar com %Aidan% pelo mesmo motivo. Não tínhamos um progenitor mafioso atrapalhando nosso relacionamento, é claro, mas antes fosse algo do tipo. Lidar com esse lance de maldição que se perpetuava me parecia bem mais perturbador e difícil de resolver.
Ayla e Dean tiveram um mal-entendido, mas, na parte onde eu estava, isso já tinha sido resolvido. Na noite em que sonhei com essa cena, acordei chorando e me corroendo de inveja deles.
Porque eu queria que tudo fosse só um mal-entendido entre mim e %Aidan% também, fácil de resolver com uma conversa — e sem uma terceira pessoa intrometida carregando uma dor de cotovelo que já durava séculos.
Eu até podia ter optado por terminar meu relacionamento, mas, se um dia encontrasse aquele stalker… ele descobriria o que era levar um chute nas bolas. Eu o faria ver estrelas e passarinhos rodando ao redor da cabeça.
Idiota nojento, pervertido e intrometido. Eu não era mais uma cortesã e ele nem era mais mulher! Podia só ter seguido a vida longe de nós. Ao invés disso, me fez perder um bebê e desistir da minha felicidade pelo bem de %Aidan%.
Ah... Era cansativo, de verdade.
Quando acabei de comer, saí do escritório e fui para a minha mesa para começar a trabalhar com o que quer que eu tivesse que fazer naquele dia — eu precisava checar na agenda primeiro. No entanto, quando fiz isso, não foi em um compromisso de trabalho que fixei meu olhar, mas sim em uma data circulada em vermelho, rodeada de estrelinhas.
O aniversário de sessenta anos da minha sogra era naquela sexta-feira.
Eu tinha esquecido completamente.
Sem pensar muito, disquei o número de %Aidan% e me levantei, para ter um pouco de privacidade.
Eu vinha me policiando para não enviar mensagens para ele, mas aquela era uma situação que não envolvia só a gente. A Sra. %Callahan% era uma querida, e mesmo que eu não fosse mais comparecer em seu aniversário, gostaria ao menos de enviar um presente.
Eu nem sabia se %Aidan% ia. Tínhamos conversado sobre o aniversário dela antes dele voltar de turnê. Eu sabia que a mãe dele queria dar uma festa, mas não se isso ainda estava de pé.
— %Lexi%? — Ele atendeu após o terceiro toque. Meu coração deu um pulo, e meu sangue disparou quando ouvi sua voz rouca murmurar meu nome.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não, é que... Eu acabei vendo na minha agenda a data do aniversário da sua mãe e queria saber se você vai. Ela não ia dar uma festa?
— Vai, sim. Mas eu não sei se eu vou. Talvez. Eu teria que voltar direto pra LA.
— LA? Você não ia só daqui a duas semanas? Quer dizer... — Pigarreei. — É o que diz a sua agenda pública.
— Então você anda olhando minha agenda? — ele perguntou sério, mas consegui identificar uma pitada de diversão em sua voz.
— Ei, antes de tudo, eu sou sua fã. Nunca parei de fazer isso.
— Certo, claro. — Ele suspirou. — Tenho algumas coisas pra resolver na empresa. Eu ia fazer isso quando fosse me apresentar lá, mas achei melhor ir antes. Vou sozinho mesmo.
— Eu não disse a ele que vou.
Como assim ele não avisou ao agente dele que tá indo na sede? — Ah... Certo. — Eu queria saber mais, mas também não queria parecer intrometida. — Você tem tempo essa semana? Eu queria conversar sobre o aniversário da sua mãe. Talvez comprar um presente. Você já comprou alguma coisa? Posso te ligar ou mandar mensagem pra pedir opinião?
— Não, mas... Nós podemos comprar juntos, se você quiser. Eu tô livre essa semana.
Mordi o lábio inferior, debatendo internamente se deveria aceitar ou não... Talvez fosse uma péssima ideia, mas… que mal faria? Já tinha quase dois meses que estávamos separados, certo? %Aidan% parecia bem pelo telefone. A gente tava seguindo em frente. E esse encontro era pela mãe dele, não por nós.
Podíamos separar as coisas, certo?
Não era como se isso fosse mudar algo.
— Você pode almoçar comigo hoje? — perguntei. — Pode escolher o restaurante se quiser.
— Não, você escolhe. Eu vou te pegar. Você tá na editora, né?
— Sim, faz umas semanas que voltei a trabalhar. E a dirigir.
— Ah, claro... Me manda mensagem quando estiver livre.
— Tá... Até mais tarde, %Aidan%.
— Até mais tarde, %Lexi%.
Encerrei a ligação sentindo um frio na barriga. Eu estava nervosa. Bem nervosa, na verdade. Talvez devesse tomar um chá para me acalmar. Sim, era exatamente isso que eu precisava. Caminhei até a copa, onde a equipe fazia lanches rápidos, e comecei a preparar um copo grande e gelado de chá.
Eu não devia estar assim.
Era só o %Aidan%. Eu tinha a manhã toda para me acostumar com a ideia de vê-lo outra vez. Não era nada sério. Passaríamos um tempo juntos resolvendo uma coisa, e depois cada um seguiria seu caminho.
Sim, era só isso. Ia ficar tudo bem.
Ou ao menos eu esperava que sim.