Capítulo 27
%Aidan%
Na madrugada do dia seguinte, acordei no sofá do meu estúdio com o pescoço e o estômago doendo. Eu não saí dali nenhuma vez e a única coisa que tinha ingerido até então havia sido uma garrafa de água do meu frigobar.
Eu não fazia ideia de quando consegui cair no sono, mas a julgar pelo horário — cinco e meia da manhã —, provavelmente apaguei por menos de três horas. Não havia nem tomado banho, e nem senti vontade de comer, mesmo que meu corpo implorasse por isso. Além da noite mal dormida, agora eu tinha um torcicolo e um estômago vazio clamando por comida desde o instante em que abri os olhos.
%Lexi% me arrastaria dali se me visse negligenciando a mim mesmo. E eu não me importaria nem um pouco, desde que ela estivesse comigo.
A realidade do nosso término me deixava deprimido e angustiado. Meus olhos ardiam só de pensar nisso, e eu nem sabia que alguém podia chorar por tanto tempo até acontecer comigo. E quando meu corpo cansou e a enxaqueca veio, eu me tornei uma casca apática, olhando para o nada, mergulhado em um poço de autopiedade ridículo. Nunca sofri assim por nenhum término, mas também nunca havia namorado alguém por tanto tempo, ou sequer dividido uma casa.
%Lexi% era como uma esposa, ainda que não fôssemos casados. Eu a via assim e a tratava assim. Ela era minha prioridade. Mas era teimosa demais para ficar.
%Lexi% não tinha o direito de me deixar sozinho assim. Eu não dei meu coração a ela para que ela o devolvesse. Não passei três anos com ela para que, de repente, ela ignorasse tudo o que vivemos. Ela tinha tomado uma decisão de cabeça quente, movida pelo estresse e a culpa que sentiu por causa do nosso bebê. Estava colocando pressão sobre si mesma. Nos fazendo sofrer acreditando que era a melhor opção.
E com dor e fome por causa dela.
Você é completamente patético, %Aidan%. Suspirei, cansado, e abri uma gaveta no meu mini armário de lanches em cima do frigobar, tirando uma barra de proteína para comer. Mordi violentamente, mal sentindo o gosto. Parecia que eu estava comendo papel.
— Que palhaçada — murmurei de boca cheia, sentindo os olhos arderem outra vez.
Eu ainda tinha lágrimas para chorar? Pelo visto, sim, já que elas começaram a cair novamente. Me forcei a sair do estúdio para tomar banho, mas parei por um momento na porta do quarto, sem querer entrar ali. Que idiotice. Minha roupas estavam no closet que dividíamos.
Era só a merda de um cômodo, então por que eu estava hesitando?
A resposta veio assim que entrei para pegar as roupas e vi a caixa com os sapatinhos de bebê ainda no chão, esquecida junto com o bilhete. Um nó se formou na minha garganta e eu a recolhi com cuidado, olhando em volta em busca de um lugar para guardar.
No meio disso, vi que uma manga de um casaco de inverno de %Lexi% tinha escapado do nicho e automaticamente a coloquei de volta no lugar. Ela provavelmente tinha escondido os sapatinhos ali. Talvez eu pudesse até ter encontrado antes ao mexer nas roupas dela para encontrar as peças que ela tinha usado em nossos encontros. Se eu soubesse que os sapatinhos estavam ali teria os colocado em outro lugar, mas agora era tarde demais. Talvez devesse deixar os sapatinhos ali mesmo.
Suspirei, levantando o casaco, mas me deparei com uma sacola de plástico enrolada ali. Puxei, notando que havia algo dentro e guardei os sapatinhos antes de ver o que era.
Encontrei a caixa de um teste de gravidez e meu primeiro pensamento foi que %Lexi% tinha guardado para me mostrar o resultado. Mas levou um segundo para perceber que a caixa estava lacrada. Olhei na sacola novamente e encontrei um recibo dobrado.
Senti o coração acelerar ao ver que a compra tinha sido feita no dia anterior, junto de uma medicação para enxaqueca. Levou apenas um instante para eu deduzir o que tinha acontecido.
%Lexi% tentou esconder o teste ali e encontrou a caixa com os sapatinhos, o gatilho para o retorno de suas memórias.
Bati a mão no bolso em busca do celular, mas percebi que tinha deixado no estúdio. Um instante depois, me dei conta de que ela provavelmente não estaria disposta a falar comigo. Mas caramba, ela tinha comprado um teste. Será que estava tendo sintomas de gravidez? Se bem que... Ela teve o seu período recentemente, mas...
Fizemos sexo desprotegido por semanas, incluindo uma vez depois do período dela. %Lexi% provavelmente encontrou em algum lugar que não estava tomando anticoncepcional por conta da gravidez, e eu fui burro o suficiente para não me lembrar disso. Também não passou pela minha cabeça que fôssemos voltar a fazer sexo, não quando ela nem se lembrava de mim direito.
— Droga... — Bati na minha própria testa. — %Aidan%, seu burro. Ela é sua fã também.
Não que ser fã fosse motivo suficiente, mas %Lexi% e eu tínhamos dormido juntos na noite em que nos conhecemos. Muito precipitado, mas por algum motivo não me passou na cabeça que fosse acontecer de novo. Pensei que ela ia me estranhar por mais tempo, mas... Talvez fosse o subconsciente dela?
Obviamente, nada disso justificava a minha falta de atenção.
Quanta irresponsabilidade, %Aidan%, seu idiota. E se ela estivesse grávida agora? Eu duvidava que %Lexi% fosse me contar qualquer coisa, mesmo antes de encontrar os sapatinhos. Mas agora eu tinha uma desculpa para falar com ela, mesmo que fosse morrer de ansiedade até isso acontecer.
Eu esperaria mais um dia e tentaria uma conversa, para ter certeza de que ela estava mais calma. Duvidava que %Lexi% fosse querer tocar no assunto agora, então não tinha nada a fazer a não ser esperar.
Peguei minhas roupas e levei para o banheiro. O banho foi rápido, no chuveiro. Eu ainda não queria ficar ali, então voltei para o estúdio logo depois. Achei que um banho pudesse aliviar um pouco o meu humor de merda, mas não adiantou muito. Bem, ao menos eu estava limpo e alimentado — mesmo que fosse só com uma barrinha de proteína.
Peguei meu celular, notando algumas mensagens e ligações perdidas. Uma delas era da minha cunhada, enviada na noite anterior.
%Camille%: O que aconteceu? %Lexi% apareceu falando que vocês terminaram, mas não falou comigo e se trancou no quarto. Eu nem sequer toquei no celular. %Lexi% tinha uma notificação personalizada para ligações e mensagens, então qualquer outra que ouvi foi ignorada.
Havia outra mensagem de %Cami%, de cinco minutos antes.
%Camille%: %Aidan%, tá tudo bem? Quer me encontrar pra gente conversar sobre isso? Tenho um tempo livre pro almoço. Comecei a digitar freneticamente, esclarecendo algumas coisas.
%Aidan%: NÓS não terminamos. ELA terminou comigo. %Alexa% encontrou sapatinhos de bebê que ela mesma escondeu no closet e lembrou de tudo. Um minuto depois, meu celular tocou.
— Oi, %Cami% — respondi em meio a um suspiro.
— Me diz logo como foi isso, %Aidan%. Preciso saber.
Então eu contei tudo o que tinha acontecido e até mesmo o que eu tinha encontrado no closet.
— Um teste de gravidez? Acho que tá cedo pra isso, ela deve ter comprado pra fazer depois — deduziu. — E você parece péssimo.
— Não posso dizer que tô às mil maravilhas — ironizei, mas %Cami% ignorou isso.
— Quer almoçar comigo? Vou ter que passar o dia fora mesmo. A gente pode discutir algo.
— Não, não se preocupa. Vou ficar em casa. Não deixa a %Lexi% sozinha quando chegar, tá? Faz ela comer também. Arromba a porta se for preciso.
— Se for preciso, eu chamo
você pra arrombar — %Cami% brincou, mas não havia nenhum humor na voz dela.
Ela provavelmente estava falando sério.
— Sinto muito, %Aidan%. As coisas vão melhorar. Aguenta só mais um pouco.
Encerrei a ligação, mas o celular começou a tocar novamente. Dessa vez, era Jace ligando. Suspirei, sem um pingo de vontade de atender, mas aceitei a ligação mesmo assim.
— Ei, onde você tava? Tô tentando falar com você desde ontem. Preciso confirmar a reunião hoje e-
— Cancela a reunião — o interrompi. — Na verdade, cancele toda a minha agenda pelo resto da semana.
— Como assim, %Aidan%? É sobre o seu álbum. A gente tem que resolver essas pendências e…
Ele continuou a falar, mas eu não estava mais nem prestando atenção.
— Eu nem sei se quero lançar esse álbum, Jace — interrompi seu monólogo outra vez. — Cancela tudo e depois a gente conversa. Eu não tô com cabeça pra isso agora.
— Aconteceu alguma coisa? — Ele quis saber. — É a %Lexi%?
Respirei fundo, sentindo os olhos arderem outra vez.
— %Lexi% e eu terminamos. Preciso de um tempo, então não me incomode. Deixa que eu entro em contato com você depois.
— Ah, nossa. Sinto muito, %Aidan%. Eu entendo, mas... Olha, vai ver foi melhor que isso acontecesse…
— Como é? — Franzi o cenho, irritado. — Tá me zoando, Jace? Você acha que foi pra
melhor? A minha mulher acabou de descobrir que sofreu um aborto e tá se culpando por isso. Um filho da puta atropelou ela, mas ela tá se culpando! E agora que sabe disso, acha que o melhor a fazer é se separar de mim!
— %Aidan% — ele tentou falar, mas o ignorei.
— Não me venha com essa merda de que é pra melhor. Nunca vai ser pra melhor, tá ouvindo? Eu amo a %Alexa% e vou lutar por ela. Então não fale do que você não sabe, porra. Fica na sua.
Eu estava ofegante e irritado pra caralho. Ouvi Jace xingar baixinho e tive vontade de dar um soco na cara dele.
— Uma semana, %Aidan%. Lide com isso e depois volte. Você não vai morrer por causa de um término idiota, e você já passou por isso antes. — O idiota teve a
audácia de falar e juro que comecei a ver vermelho.
— Vai se foder, seu filho da puta! — xinguei, desligando na cara dele em seguida.
Num impulso, atirei o celular na parede, mas me arrependi no mesmo instante. %Lexi% me daria uma bronca se eu quebrasse o celular por raiva. Ela diria que era um desperdício de dinheiro. Além disso, a capinha que eu usava nele tinha sido presente dela. Me levantei para avaliar o estrago, já sentindo o peso da culpa por ter feito aquilo, mas aparentemente estava tudo bem com meu telefone.
Eu só não podia dizer o mesmo do buraco na minha parede. Não era grande, mas agora dava pra ver o concreto. %Lexi% também me xingaria por isso.
O pior de tudo é que eu sentia falta até da %Lexi% briguenta. A incerteza e a espera eram uma tortura para mim. Eu só torcia para que no dia seguinte ela estivesse melhor para falar comigo. A gente não podia ficar assim, eu me recusava.
"Eu te amo, %Aidan%... Mas não quero mais ficar com você". As palavras dela ainda me atormentavam feito uma maldição.
Sacudi a cabeça, como se de alguma forma aquilo pudesse afastar aquela lembrança. Em seguida, respirei fundo novamente, encarando o teto.
Então esperei o tempo passar.