1 • Bela, Recatada e do Lar
Você sempre pensa que tem a vida perfeita quando teoricamente seus sonhos se realizam, um sentimento de conquista se mantém em seu coração. Mas quando esta vida perfeita se mostra uma rotina diária, será que nossos pensamentos continuam os mesmos? Era assim que eu estava me sentindo. Eu tinha a vida que sonhei na adolescência, claro que tudo aconteceu meio rápido e precoce naquela época. Se tivesse ouvido minha mãe, não teria engravidado aos 17 anos, não teria me casado com meu primeiro e único namorado. Ao contrário disso, teria entrado para a universidade de Princeton e cursado jornalismo, então aos 21 anos já seria estagiária de uma grande revista ou jornal. Apesar dos meus gostos para a culinária me voltarem para a gastronomia, ela sonhava muito com meu futuro.
Jovens inconsequentes. Foi assim que ela nos chamou, ao receber a notícia. Mas eu era sim uma inconsequente romântica que vivia lendo livros do século XIX e sonhando me casar com a versão moderna no Mr. Darcy. Apesar de Carl estar bem longe disso, quando o conheci era o típico popular que jogava basquete e precisava de ajuda nas aulas de literatura e redação. Poderia dizer que fui a garota nerd que conquistou o menino mais cobiçado da escola? Acho que sim. Sophie sempre dizia que eu nasci para viver uma… Como é mesmo que ela fala?
Fanfic! Acho que é isso mesmo. Ela aprendeu a ler essas histórias com uma de suas alunas das aulas de ballet clássico.
No início não foi fácil, ter que amadurecer e criar um filho ao mesmo tempo. Carl se dividiu em dois para dar conta do seu curso de direito e sustentar a casa. Aos poucos com a ajuda dos amigos, principalmente Sophie e Will, nos erguemos e construímos uma família sólida. Agora, após dezesseis anos de casados, passei parte deles pensando que tinha o casamento perfeito e a família feliz. Eu, ele, nosso filho mais velho Joseph e nossa princesinha Molly. Até que Carl mudou de empresa e começou a ficar um pouco distante, o novo escritório de advocacia lhe exigia mais horas de trabalho e menos tempo com a família. O que me preocupava pelas crianças.
Ding dong… O soar a campainha me despertou de mais um devaneio. Parei de mexer a tigela com a massa das panquecas e limpei minha mão no pano de prato. Lembrei-me que Sophie passaria aqui para tomar café da manhã comigo, por isso dobrei a receita da panqueca. Ri de leve ao imaginar que minha amiga esfomeada já estivesse impaciente com minha demora, ao passar pela sala recolhi alguns brinquedos que Molly espalhou mais cedo. Joguei tudo no armário embaixo da escada e segui para a porta. Assim que abri, o olhar de alívio de minha amiga apareceu, assim como sua entrada em rompante.
— Me desculpe, mas só te dou bom dia após usar seu banheiro. — disse ela entrando casa adentro em direção ao lavabo.
— Não disse nada. — segurei o riso dela a acompanhando com meu olhar.
Fechei a porta e voltei para a cozinha. Minha amiga já estava familiarizada com minha casa, era da família e particularmente seu bom gosto por decoração tinha me ajudado a escolher toda a mobília. Parei em frente a bancada da pia e olhei para a janela. Dava vista para a cozinha da casa ao lado, ainda era estranho pensar que em anos ninguém tinha se mudado para lá. Nenhum parente do senhor Omar tinha reclamado a propriedade para si, nem mesmo o governo ou os bancos.
— Tendo mais um dos seus devaneios? — disse Sophie ao entrar na cozinha.
— Não, só estou pensando sobre a casa ao lado. — me voltei para ela e a olhei.
— Se eu fosse algum parente já tinha vendido isso. — ela riu colocando sua bolsa em cima da cadeira — Mas também, quem moraria nessa casa caindo aos pedaços?
— Com uma boa reforma… Tudo é possível.
— Só se rolar uma reforma like a Irmãos a Obra. — retrucou ela ao dar um suspiro longo — Já até me imagino vindo aqui todos os dias pra admirar a bela vista que teremos.
— Que vista? — perguntei me virando novamente e pegando a tigela de massa.
— Dos irmãos Scott, gente é cada pensamento que aquele Jonathan me causa, que eu sinto vontade de reformar a minha casa toda. — ela riu.
Ouvi o barulho da cadeira se arrastando, certamente ela se sentaria. Eu ri junto, minha amiga realmente não tinha jeito, e seus comentários eram os melhores sempre.
— Sophie, você é casada?! — tentei repreendê-la.
— Mas não sou cega. — ela soltou uma gargalhada — Eu amo o Will, ele é maravilhoso, mas isso não me deixou cega, ainda existem homens mais bonitos que ele no mundo.
— Acho que você agiria assim até se tivesse casada com o Tony Stark. — argumentei mencionando seu personagem favorito.
— Com um Tony Stark do lado querida, eu faria estrago.
Não me contive em soltar uma gargalhada sendo seguida por outra dela. Ficamos rindo por um tempo até que a entrada de Joseph na cozinha nos interrompeu.
— Tia Sophie. — disse ele surpreso ao vê-la.
— Oi querido, bom dia. — ela sorriu para ele e acompanhou seus movimentos com os olhos.
— Bom dia mãe. — ele veio até mim e me abraçou por trás me dando um beijo na bochecha.
— Bom dia querido. — sorri de leve.
— Ai que fofo, não sabia que filhos adolescentes eram carinhosos com a mãe, que inveja agora. — comentou Sophie ao observar as demonstrações de carinho dele.
— Se quiser um, tenha com o seu marido. — devolvi o comentário segurando o riso — Você e o Will já completaram quantos anos juntos? Cinco? Onde estão as crianças?
— Não sou boa parideira como você. — brincou ela.
— Tia Sophie não gosta de crianças. — brincou Joseph — Se lembra do último aniversário da Molly?
Nós soltamos algumas risadas. Aquele evento tinha sido o caos na visão dela.
— Ah por favor, me deem um desconto, aquela crianças não tinham noção de empatia, eu não queria molhar meu cabelo e saí toda encharcada.
— Tia Sophie, o aniversário foi em um clube, o que mais tinha lá era piscina. — Joe riu mais um pouco.
— A verdade é que Sophie tem medo de ser mãe. — afirmei indo até o fogão e acendendo a chama principal.
— Não tenho medo, só não sinto que nasci para essa vida, não ainda. — ela riu — Ser dona de casa já é tão chato, imagina com filhos, você é que tem esse perfil.
Mantive minha atenção na frigideira esquentando, rindo baixo de seus argumentos. Joguei uma concha da massa da tigela. Estava na hora das minhas famosas e irresistíveis panquecas. Joseph arrastou uma cadeira e se sentou ao lado dela, então pegou uma maçã na bandeja de frutas e mordeu.
— Tia Sophie, o que faz aqui tão cedo? — perguntou ele.
— Que pergunta menino, sabe que todo sábado eu tomo café da manhã com sua mãe, é nossa tradição. — respondeu ela.
— Está no futebol com os amigos. — ela começou a bater as unhas na mesa, era uma de suas manias mais recorrentes — Sábado é nosso vale day, cada um fazendo o que quer com os amigos sem cobrança, sem hora pra voltar pra casa.
— Que estranho, mamãe e papai não fazem isso. — retrucou Joe.
— E o trabalho do seu pai deixa?! — se eu bem conhecia minha amiga, ele estava fazendo alguma careta estranha.
As risadas de Joe foram ouvidas com sucesso por mim. Tentei manter ao máximo minha atenção no preparo do café, enquanto ouvia a conversa dos dois.
— E você menino, já arrumou uma namorada?
— Ainda não, mas sou o popular da escola. — se gabou ele.
Não por que era meu filho, mas essa mistura de Carl comigo havia sido muito bem feita. Meu filho me lembrava seu pai mais jovem, bonito e cheio de charme com as garotas. Mas seu sorriso era totalmente igual o meu, singelo e meigo na medida certa. Olhar para ele e Molly era o que me deixava ainda satisfeita por ter seguido com a gravidez quando jovem e me casado com Carl. Admito que tinha me privado de alguns outros desejos, mas como sempre tive o sonho de ter uma linda família e ser a “mãe do ano”, já estava satisfeita.
— Só por favor, se lembre da camisinha quando for visitar o quarto da sua namorada. — o conselho de Sophie me trouxe a realidade — Não me vá engravidar uma pobre jovem com sonhos antes do tempo.
— Nossa Sophie. — olhei para ela meio desconfortável por seu comentário — Soou como se minha gravidez tivesse sido o fim do mundo para mim. Olha que filho bonito eu fiz.
— Poderia ter esperado e feito depois. — retrucou ela.
— Você também mamãe?! — meu olhar ficou mais suave.
— Só digo isso porque sofri muito naquela universidade sem você. — ela voltou seu olhar para Joseph — Sabe, namoradas tem amigas, que quer aproveitar uma festa de calouros acompanhada da amiga.
— Eu já entendi tia. — meu filho se levantou rapidamente — Não engravide a namorada, papai já teve essa conversa comigo.
— Já?! — eu o olhei surpresa.
— Pelo menos pra isso ele presta. — comentou Sophie.
— Sophie?! — a repreendi.
— O que? — ela me olhou com inocência.
Tinha que admitir que minha amiga não gostava muito do meu marido, nem ela e nem a minha mãe. Mas eu amava Carl. Tive alguns anos de amor platônico por ele no ensino fundamental e pude me declarar no ensino médio. Joseph segui para a sala, certamente iria esperar pelo café em seu quarto, onde passava a maior parte do tempo jogando League of Legends. Meu filho tinha uma obsessão por games e um sonho maluco de ser jogador profissional no futuro. Algo que Carl jamais permitiria, com certeza.
— E onde está minha pequena joaninha? — perguntou Sophie me olhando atentamente colocar as panquecas prontas no prato.
— Molly está na casa de uma amiguinha, teve uma festa do pijama de aniversário. — expliquei indo abrir o armário para pegar o pote de geléia de morango — Vai voltar amanhã de manhã.
— Noite das garotas hoje? — perguntei.
— Não, noite do casal. — a olhei com uma pitada de malícia — Nosso aniversário de casamento é hoje e planejei um jantar romântico.
— O que? Já? — ela fez outra careta.
— Como assim já, não é todo dia que se comemora 16 anos de casados amiga. — pisquei de leve — Comprei aquela lingerie de renda que você me indicou, vou usá-la.
— Não diga. — a insatisfação era transparente no rosto dela, mas não a culpava por isso — Bem, boa sorte.
— Não me olhei assim, Carl me prometeu que não iria trabalhar muito hoje.
— Já é um absurdo ele trabalhar no sábado. — ela cruzou os braços.
— Você sabe que a InH Associados é uma empresa muito famosa por ter os melhores advogados, meu marido tem que mostrar serviço. Não é fácil nos sustentar. — argumentei.
— Ok. Não está mais aqui quem criticou.
Terminei de colocar as coisas na mesa e após lavar as mãos novamente, me sentei na cadeira de frente para ela.
— Itadakimassu. — disse ela empolgada.
— O que é isso? — fiz uma cara estranha.
— Obrigado pela comida em japonês, estou aprendendo com uma aluna novata. — respondeu ela dando a primeira garfada.
— Olha, daqui a pouco você vira poliglota. — brinquei rindo dos seus gestos engraçados — Já que não passaremos esta noite juntas, o que pretende fazer?
— Não sei, acho que vou dar uma voltinha no shopping e pegar um cinema, estou pensando em chamar a mais nova solteira da turma. — ela colocou outro pedaço e mastigou, saboreando a seu modo — Você sempre se supera com essa panquecas, amiga não sei o que coloca nessa receita, mas fica divino, aliás tudo que você cozinha fica uma delícia, deveria ser dona de restaurante.
— Agradeço a preferência. — ri das caras e bocas que faziam enquanto mastigava — Mas… Acha mesmo que a Annia vai animar sair com você? Ela acabou de ficar viúva.
— Por isso mesmo, ela precisa de um pouco de diversão e distração. — argumentou ela — Annia sofreu muito com a doença do George.
— Bom, pelo menos na sua companhia ela vai rir muito.
— Eu sou a alegria do divertida mente. — brincou ela.
Eu me levantei e coloquei três panquecas em outro prato, joguei um pouco de mel por cima e a geleia de morango, então me levantei da cadeira. Deixei minha amiga por um momento e levei o prato até o quarto de Joseph. Como esperado ele já estava com os olhos vidrados naquele computador, fones no ouvido e muita concentração. Me aproximei com cautela e coloquei o prato ao lado onde ele pudesse ver, então acariciando de leve seus cabelos, me afastei dele. Assim que voltei para a cozinha, Sophie já estava embarcando em mais uma rodada de panquecas, me juntei a ela naquela delícia doce de café da manhã.
— Já que esta é a noite do casal, nos vemos na segunda então? — perguntou ela ao pararmos em frente à porta.
— O que está planejando para segunda? — perguntei curiosa.
— Não estou planejando, mas a gente não tinha combinado que você iria naquela entrevista? — explicou ela com um olhar indignado pela minha falta de memória.
Sophie havia mesmo mencionado sobre a mãe de uma de suas alunas do estúdio de dança, que era editora chefe do NT Post. Minha amiga se sentia um pouco incomodada com minha pacata vida de dona de casa, ela desejava mais para mim. Desejava me ver em uma redação escrevendo meus textos impactantes, como a época do ensino médio.
— Ah, a entrevista. — realmente tinha me esquecido.
— Não acredito nisso, %Nalla% é uma oportunidade única, Genevieve ficou encantada com suas redações do ensino médio, imagina você redatora de um jornal famoso. — seu olho brilhou de leve.
— Olhe para mim Sophie, eu não fiz faculdade de jornalismo como minha mãe queria. — deixei minha voz soar séria, mas com sutileza, a chamando para a realidade — Minha vida fanfic não é tão generosa assim.
— Quem disse que um diploma supera um talento nato, eu já te disse que ela ficou apaixonada com suas redações, quando você escrever algo para a coluna feminina do jornal, tenho certeza que fará sucesso, a velha professora Donson sempre te elogiava e dizia que você tinha o dom da escrita. — seus argumentos não paravam.
— Além do mais, eu ainda não conversei sobre isso com Carl. — retruquei.
— E quem disse que aquele macho não alpha manda na sua vida? — ela colocou a mão na cintura, elevando seus olhar empoderado — Apenas comunique a ele que você vai começar a trabalhar fora, você não deve pedir permissão, passou todos esses anos cuidando dessa casa e da sua família, está mais do que na hora de pensar em você, na sua carreia profissional.
— Eu não vou pedir permissão, vou pedir a opinião dele sobre o assunto. — ponderei — Carl é meu marido, preciso saber o que ele acha sobre isso.
— Nós duas sabemos que toda vez que cogitou a falar sobre isso com ele, aquele babaca disse que você já tinha sua rotina cheia. Cheia do que? Das roupas sujas dele?
Não me contive em soltar um riso rápido por suas palavras.
— Eu vou ser sincera com você amiga, oportunidades assim é uma em um milhão, não é todo dia que eu tenho uma aluna filha de uma editora chefe. — seu olhar repreensivo de mãe apareceu.
— Tudo bem mamãe, vou pensar com carinho nessa entrevista. — abri um sorriso singelo para ele e logo recebi um abraço encorajador.
— Segunda às quatro da tarde ok? Passo aqui para te buscar! — ela piscou de leve e pegou na maçaneta da porta — E por favor, nada de se vestir como uma dona de casa desajustada, coloque algo mais formal e estiloso.
— Pode deixar missa simpatia. — brinquei rindo — Vou colocar um preto básico para não errar a mão.
— Te amo amiga. — ela lançou um beijo no ar e abriu a porta — E boa sorte no seu jantar.
— Também te amo, obrigada. — eu ri de leve esperando que ela saísse.
Acompanhei com o olhar seus passos em direção ao seu carro. Dei um passo para frente, saindo na varanda e olhei de relance para a velha e abandonada casa da esquerda, logo o outono chegaria e novamente as folhas entupiram a calha da varanda. Ainda me lembrava do transtorno que nos causou no ano passado. Soltei um suspiro fraco e voltei para dentro. Assim que fechei a porta, me espreguicei de leve pedindo a Deus ajuda para faxinar aquele lugar. A pior parte de ser dona de casa era aquilo, o dia da faxina. Eu amava cozinhar com todas as minhas forças, mas quando o assunto era lavar a privada do banheiro, lágrimas escorriam com facilidade.
Ao final da tarde, reservei um tempo para me aprontar. Mas antes tinha que me livrar do adolescente do quarto ao lado. Bati de leve na porta do seu quarto e entrei, como sempre sua atenção estava no computador, seus dedos se movendo com rapidez no teclado e sua perna direita se mexendo involuntariamente. Parecia ansioso para terminar a partida ou nervoso por estar perdendo. Mas pelo menos desta vez estava sem os fones de ouvido.
— Joseph?! — o chamei da porta.
— Oi mãe. — ele manteve seu olhar na tela.
— Já terminou seu jogo? — perguntei dando alguns passos até ele.
— E porque essa bateção de perna aí?
— Entrei em um concurso para fazer parte de uma equipe muito forte, estou esperando sair o resultado.
— Você quer alguma coisa? — ele afastou um pouco a cadeira e se voltou para mim.
— Sim… Quero saber como posso subornar meu filho a passar a noite fora?
Apesar de ser um adolescente popular e cheio de amigos, Joseph tinha vários traços de minha personalidade quieta e caseira. Surreal que ele não gostasse de sair muito e pouco aparecia nas festas clandestinas dos alunos da sua escola. Mas certamente era por este ar misterioso que ele passava para todos que o tornava ainda mais cobiçado pelas meninas da sua idade.
— O que a senhora está planejando para hoje? — ele fez uma careta de curiosidade.
— Você sabe muito bem que hoje é o aniversário de casamento dos seus pais, deveria ajudar né?! — coloquei a mão na cintura o olhando com seriedade.
— Então é por isso que se livrou da Molly? — ele segurou o riso, suavizando a face fingindo certa indignação — Que vergonha mãe.
— Seu abusado, eu não me livrei da sua irmã. Que ao contrário de você tem uma vida social muito intensa e movimentada. — retruquei caminhando até ele.
— O meu charme está em ser reservado e misterioso. — ele piscou para mim e sorriu.
— Estou pedindo com sinceridade filho, por favor! — fiz uma cara de cachorro abandonado para ele.
— Ok mãe, eu saio se você convencer o papai que eu não vou cursar o que ele quer. — meu filho era bom em negociações — Não me vejo de terno o dia todo trabalhando em um escritório de advogados, menos ainda sendo sugado pelo meu chefe.
— Eu te entendo querido, quando minha mãe me disse que eu faria jornalismo, fiquei na defensiva também. — concordei em partes com ela.
— Aí depois ficou grávida de mim.
— Sim, mas isso não vem ao caso agora. — respirei fundo — O máximo que posso fazer por você é convencer seu pai a te deixar ir naquele campeonato que falou, é o máximo.
— Jura? — ele esticou o dedo mindinho.
— Juradinho! — cruzei meu dedo com o dele selando o acordo.
— Eu te amo mãe. — Joseph se levantou da cadeira e me abraçou.
Devolvi o abraço com carinho e amor. Meu ficou era uma fofura, meu coração sempre se aquecia um pouco com seu jeito carinhoso comigo.
— Também te amo querido, e te quero fora daqui em 30 minutos, deixa telefone e endereço da casa que você vai ficar.
— Vou pra casa da vovó. — disse ele indo até a cama e pegando sua mochila.
— Ai Joseph, por favor, eu te libero uma noite para poder se divertir como um adolescente comum e você me caça a casa dos seus avós? — o olhei indignado.
— Lá tem computador e internet.
— É por isso que não tem uma namorada seu gamer. — retruquei.
— Não estou interessado em namorar agora mãe. — ele veio até mim e beijou minha bochecha — E quando eu tiver uma, será a primeira a saber, só ficarei com uma garota que conquistar a senhora primeiro.
— Muito fofo da sua parte, mas ela tem que conquistar você primeiro, não serei eu a beijar a garota no seu lugar. — brinquei.
— É que, eu vejo como a vovó trata o papai, sei que ela não gosta dele. — explicou ele.
— Querido, não baseie sua vida amorosa na minha com seu pai. — sorri de leve para ele — Agora vai… E só me volte aqui domingo de tarde.
— Sim senhora. — ele jogou a mochila nas costas e saiu rindo de mim.
Eu segui para meu quarto, iniciaria meu momento spa in house. Enchi a banheira de água bem quente e joguei alguns óleos essenciais de rosas, logo todo o banheiro ficou perfumado. Respirei fundo e me perdi por uns segundos naquele aroma maravilhoso. Entrei dentro da banheira, me encolhendo um pouco pela temperatura da água, então me sentei e relaxei meu corpo. A quanto tempo não fazia isso?! Aproveitar da banheira, tirar algumas horas do meu dia para cuidar de mim. Sophie tem razão quando me critica. Eu deveria cuidar mais de mim e esquecer um pouco os afazeres domésticos, os deveres escolares das crianças, os ternos de marca do Carl.
— Não acredito que estou tendo esses pensamentos. — sussurrei após um longo suspiro.
Terminei o banho e cheguei no quarto novamente. Parei diante do espelho, olhando meu reflexo. Até que não estava nada mal, para uma dona de casa que não frequentava salão de beleza ou academia, como Freya ou a Sophie. Ri de leve e peguei a escova, começando a pentear meus cabelos, assim que terminei deixei novamente em cima da penteadeira e caminhei até o guarda-roupas. Vesti a lingerie de renda vermelha que comprei e por cima o vestido tubinho listrado que ganhei de Carl no último aniversário. Bem, ele não havia comprado diretamente, mas tinha deixado um vale compras da Zara juntamente com uma rosa e um bilhete pedindo desculpas. Não podia cobrar muito, já que Carl tinha uma viagem importante marcada justo para aquele dia.
— Agora sim. — disse ao terminar de me arrumar.
Desci para a cozinha após espirrar perfume em mim, então coloquei a travessa de vidro de lasanha no forno. Encostei na bancada da pia e fiquei esperando até que ficasse pronto, meu olhar se voltou para a janela da casa ao lado. Novamente vendo tudo escuro e vazio. As horas foram passando…
Até que adormeci sentada na cadeira, com a lasanha na minha frente à espera do Carl.
- x -
—
Você é muito boazinha %Nalla%. — questionou Sophie ao telefone —
Se fosse o Will fazendo isso comigo, teria dormido de calça jeans uma semana só pra ele aprender. — O Carl teve uma emergência Sophie, ele me explicou quando chegou em casa. — mantive minha voz suave — E não acho que calça jeans sirva para mim, eu e Carl estamos sem… Já tem um tempo que não temos nada.
—
Isso me deixa ainda mais em choque, vocês estão mesmo casados? — questionou ela incrédula.
— Um relacionamento é muito mais que sexo, além do mais, não vou falar sobre minha intimidade de casal com você, amiga. — suspirei fraco — Preciso desligar, tenho que deixar o almoço pronto para as crianças antes de sair.
—
Mas a entrevista é às quatro? — Eu vou fazer uma surpresa para o Carl hoje, vou até o escritório para almoçar com ele.
—
Olha só, a dona de casa quebrando a rotina de almoçar com as crianças. — brincou ela soltando uma gargalhada ao telefone.
— Foi você mesmo que me aconselhou a quebrar a rotina e fazer coisas novas para avivar meus dias. — retruquei.
—
Estou orgulhosa por isso. —
Então te encontro no central Park para irmos juntas a entrevista. Desliguei o celular e deixei em cima da mesa de canto da sala, então voltei para a cozinha. Não era como Sophie tinha dito, eu ainda estava chateada com Carl, e tivemos uma briga estranha na madrugada de sábado. O que acarretou um grande silêncio entre nós dois no domingo, me levando a almoçar na casa dos meus pais com as crianças. Não queria continuar ignorando meu marido, fingindo não me importar com a presença dele, eu precisava resolver as coisas com ele e assim fazermos as pazes. E nada como um almoço no nosso restaurante favorito para isso, já que ele viajaria na quarta pela manhã, não iria prolongar nosso afastamento.
Terminando minha obra prima em forma de refeição, troquei de roupa colocando um terninho básico preto, já que depois eu iria na tal entrevista, peguei minha bolsa bege que cabia o mundo dentro e saí de casa. Chamei um uber que sairia mais barato e segui para a empresa de Carl. O motorista até que foi bem simpático e comunicativo, ao introduzir o assunto sobre o jogo do Chicago Bulls na semana passada, ele parecia ser um grande fã daquele time de basquete. Ao descer do carro, avistei um rosto conhecido, era Mike o “rival” do meu marido na empresa. Um excelente advogado cuja ambição na carreira era se especializar em acordos de nível extraconjugal.
— Mike, bom dia. — disse ao me aproximar dele e o abraçar de leve em cumprimento.
— %Nalla% que surpresa você aqui. — ele retribuiu o abraço e sorriu de volta — A quanto tempo não te vejo.
— Verdade, eu sou meio caseira sabe. — dei a minha desculpa de sempre.
— Entendo, então é por isso que não apareceu na festa do sábado. — comentou ele de forma natural.
— Festa do sábado, como assim? — eu não estava entendendo.
— Ai, que constrangedor agora. — sussurrou ele — Eu achei que soubesse, quando vimos o Carl sozinho lá, achamos que você não tinha ido por causa das crianças.
— Hum… — me senti meio envergonhada e realmente constrangida.
— Me desculpe. — ele também estava sem graça com aquilo.
— A culpa não é sua. — respirei fundo tentando me manter firme — Mas como está a nova promoção? Carl me disse que você agora é diretor do departamento de família, depois que o senhor Hilt se aposentou.
— Ah sim, eu gosto de trabalhar mais com assuntos conjugais e matrimoniais. — explicou ele — Se um dia você quiser se divorciar, me chame. — terminou brincando
Porém num tom de seriedade.
— Agradeço a oferta, vou me lembrar disso. — ri um pouco.
— Claro, vim fazer uma surpresa para o Carl e almoçar com ele.
Agora mais do que nunca ele teria que me dar muitas explicações, sobre ter mentido para mim e não contado sobre a tal festa. Entrei no edifício na companhia de Mike e no elevador apertei para o 5º andar, onde a sala de Carl ficava. Ao sair me despedi de Mike e caminhei pelo corredor até chegar no hall de espera, sua secretária Rose se mantinha concentrada em alguns papéis.
— Rose, o Carl está na sala? — perguntei já me movendo até a porta dele.
— Sim senhora, mas ele está em reunião. — ela se levantou apressadamente para me impedir de entrar — Me deite te anunciar antes.
— Não precisa, eu sou a esposa dele, não preciso ser anunciada.
Talvez eu tivesse deixado ela me anunciar, certo de que eu não iria vivenciar o pior momento da minha vida. Mas como Sophie sempre dizia, mulheres fortes encaram a verdade de frente, mesmo sendo dolorosa na maioria das vezes. Foi o girar da maçaneta e abrir a porta que meu corpo paralisou. Por alguns segundos senti que não tinha nem mesmo mais um coração em meu corpo, pois o mesmo já tinha sido despedaçado. Ver Carl se fundindo a uma mulher em sua mesa de trabalho, fez meu estômago embrulhar e ao mesmo tempo minha mente parar de funcionar. Meu marido tinha uma amante e ela era sua colega de trabalho.
O pior, foi olhar nos olhos dele e não ver nenhum traço de arrependimento ou remorso, mas sim um olhar de alívio. Um olhar de: agora me livrei da minha esposa chata. E foi esse olhar que fez a primeira lágrima cair dos meus olhos.
Eu não posso morder minha língua para sempre
Enquanto você tenta fazer isso parecer legal
Você pode se esconder atrás da suas histórias
Mas não me faça de idiota
Seu amor é só uma mentira.
- Your Love Is a Lie / Simple Plan