3 • O jovem vizinho
— Amiga… O que é aquilo?! — disse Sophie ao entrar, assim que abri a porta — Por um minuto eu até esqueci que viria na sua casa e quase me alistei para o clube da varanda.
Eu soltei uma risada rápida e fechei a porta.
— Deixa de ser boba amiga.
— De onde saiu aquele pedaço de mal caminho? Que tentação. — perguntou ela.
— Bem, parece que ele é o novo dono da velha casa do senhor Omar. — respondi tranquilamente indo para a cozinha — A barulheira começou logo pela manhã.
— Nossa, esses dez anos com a casa abandonada compensaram agora. — brincou ela vindo atrás de mim — Só faltou os irmãos Scott pra completar a obra, aí sim eu montaria minha barraca.
— Já tomou café? — perguntei me virando para ela, ignorando seus comentários.
— Sim. — ela se colocou em minha frente e olhou para janela.
Era a primeira vez que minha amiga fazia isso. Era a primeira vez que eu olharia e a casa não estaria mais vazia. Segui seu olhar e vi dois homens colocando algumas caixas na cozinha da casa. Logo %Sebastian% entrou no lugar e trocou algumas palavras com os homens. De forma involuntária seu olhar se voltou para a janela também, e mais uma vez trocamos olhares fixos e imóveis.
— Ele tá olhando. — comentou Sophie, ao me cutucar na cintura — E que olhar.
— Disfarça Sophie. — olhei para minha amiga — E pare de encarar ele.
Me afastei do lugar de onde estava para sair do campo de visão dele, arrastando a Sophie junto.
— Você está maluca?! — a olhei.
— Não, só queria ver mais de perto. — ela fez bico — Quando eu digo que você vive uma fanfic… Agora vai ter uma paisagem bem ao lado, que inveja.
— Deixa o Will ouvir isso. — balancei a cabeça negativamente.
— Eu amo o meu marido ok, sou fiel, mas não cega, quando vejo um homem bonito eu tenho que admitir, e ele sempre concorda comigo. — se defendeu — Ainda diz que tenho bom gosto.
— Sei. — cruzei os braços.
— É sério, e esse seu vizinho novo… O selo Chris Marvel de qualidade é pouco para ele, aquilo é o Universo Marvel inteiro.
— Que exagero Sophie. — tentei segurar o riso.
— Eu não exagero quando o assunto é homem bonito. — garantiu ela — Ou vai me dizer que o babaca do Carl é mais bonito que ele.
— Não, com toda a certeza o %Sebastian% é mais bonito e mais atraente que meu ex marido. — assegurei, ponderando um pouco minha sinceridade — E nem falo isso por ter sido traída.
Essa palavra sempre me causava sensações ruins. Traição. Eu ainda me sentia abalada, mesmo mantendo a cabeça erguida e o sorriso forçado nos lábios para não preocupar as crianças.
— Então a bela recatada já descobriu o nome do pecado que mora ao lado. — ela colocou a mão na cintura fingindo indignação.
— Não começa Sophie. — segurei o riso — Eu estava regando o girassol da varanda quando ele se apresentou.
— E você não fez nada pra isso acontecer?!
— Claro que não, você sabe como sou tímida, no colegial foi o Carl que se aproximou de mim. — expliquei.
— Isso é verdade, maldita hora. — ela suspirou — Mas olha… Você é mesmo uma sortuda.
— Não sou nada, sou apenas a vizinha do lado.
— Ai vizinha do lado. — soou um tom de brincadeira e sarcasmo.
Infelizmente, ela não pode ficar mais tempo de conversa comigo, pois tinha aberto mais uma turma de iniciantes do ballet moderno. Levei minha amiga até a porta que passou mais alguns minutos observando o vizinho, antes de entrar no seu carro. Fiquei rindo dela por um tempo até me lembrar que já deveria estar na cafeteria. Ah não, olhei o relógio na parede e vi que já tinha passado a hora do café. Peguei o celular e liguei para o Finn, que parecia nervoso ao atender.
—
Você me fez perder alguns clientes hoje senhora Godric. — disse ele num tom irônico.
— É Miller, Finn, agora sou apenas Miller. — o corrigi — Continuo sendo a mesma %Nalla% de sempre, só que agora sem o casamento.
—
Ok, %Nalla%, e o que faço agora? Sem a mestre cuca da panqueca? — Me espere amanhã de manhã, e dê mais valor ao meu dom de fazer boas panquecas. — joguei a indireta.
Eu não tinha planejado aquilo, mas estava me rendendo muito bem.
—
Eu serei mais grato a você, e para mostrar isso posso aumentar mais 10 dólares por hora, o que acha? — perguntou ele.
— Acho que por enquanto está bom. — disse abrindo um largo sorriso.
—
Então te espero amanhã. — Até amanhã Finn. — encerrei a ligação e coloquei o celular no bolso da calça.
Sophie tinha me dito que eu deveria montar um portfólio para mim juntamente com meu currículo. Eu não tinha muitas qualificações com certificados, mas ao longo dos anos participei de muitos eventos e concursos e ganhei alguns prêmios, acho que isso poderia contar. Na geladeira tinha sobras do almoço do dia anterior, então assim que as crianças chegarem da escola, eu esquentaria sem problemas. Então, fui até o quarto de Joseph e liguei seu computador, ele tinha me dado a senha e mostrado como montar um bom portfólio infográfico pelo site canva. Eu era meio aérea com essas coisas de tecnologia, e design gráfico, mas tinha alguns programas relacionado a jornalismo e publicidade que me interessavam e eu tinha meu filho para me dar uma mãozinha.
Fiquei concentrada por um tempo no que estava fazendo, pesquisando e vendo tutoriais no youtube, até notar que o barulho da mudança tinha parado. Será que tinham terminado a mudança? Ou foi uma pausa para o almoço? Bem, por mais que a curiosidade vibrasse dentro de mim, eu não tinha nada a ver com a vida do vizinho e tinha outros assuntos para preocupar. Como por exemplo, as contas que estavam chegando e eu não tinha tanto dinheiro para pagar. Não iria pegar da pensão das crianças, era para o futuro deles e não pediria mais nada ao Carl, menos ainda aos meus pais. Joseph tinha se oferecido para vender o computador de gamer dele, porém eu jamais deixaria meu filho se sacrificar assim. Eu tinha algumas coisas que não usava mais, roupas guardadas no fundo do armário, e objetos escondidos no porão de casa. Poderia vendê-los por um bom preço.
— Mãe. — disse Joseph ao aparecer na porta do seu quarto.
— Já chegou. — eu me virei para ele e sorri — Como foi na escola hoje?
— Normal como todos os dias. — ele deixou a mochila no chão perto da cabeceira da cama e se aproximou — Está montando seu portfólio?
— Sim, vi alguns tutoriais para me ajudar a diagramar as páginas, estou me sentindo na pré-história de tão perdida. — voltei meu olhar para a tela do computador — A quanto tempo eu não mexo nessa máquina, preciso me atualizar mais.
— Mãe, você dominou os aplicativos do celular tão rápido, logo vai se apaixonar pelo canvas. — garantiu ele — E o que está colocando aí?
— Hum… — movi a barra lateral mexendo as páginas para mostrar — Eu montei essa capa aqui, e depois coloquei meu currículo para assim ir adicionando as minhas redações, só preciso que me ajude a encontrar imagens bonitas e de qualidade para colocar de ilustração. — fui explicando a ele meu progresso — Sophie disse que é bom ter imagens.
— É uma rede social de compartilhar imagens e fotos, as pessoas postam de tudo um pouco. — explicou ele pegando o mouse e indo na aba de favoritos — Acho que dá pra encontrar imagens boas lá, mas você pode fazer as suas, das receitas que já fez. O que acha?
— Tenho que decidir quais redações colocar primeiro, preciso terminar até terça que vem que é quando a Genevieve volta. — soltei um suspiro fraco.
Não me lembrava onde tinha colocado minhas redações da escola, talvez estivessem na casa dos meus pais.
— Hoje é sexta ainda, vai dar tempo. — disse ele se afastando — Eu tenho treino agora a tarde, acho que vou chegar á noite.
— Treino de que? — perguntei confusa.
— Eu entrei para o time de basquete lembra? Pra evitar o sedentarismo, tenho que praticar esportes. — explicou.
— Ah, verdade. E a Molly? Ainda não apareceu aqui. — estranhei sua ausência.
— O papai apareceu e levou ela para almoçar. — respondeu ele num tom amargurado — Ele me convidou também, mas não quis.
— Carl deveria ter me ligado perguntando se podia, só porque não nos divorciamos oficialmente ele não pode agir assim, Molly é minha responsabilidade agora, a guarda de vocês vai ser minha. — eu me levantei da cadeira — Vou ligar para ele.
Ele assentiu e se sentou na cadeira em meu lugar. Saí do seu quarto já tirando o meu celular do bolso e entrei no meu quarto, fechando a porta. Digitei seu número e esperei que atendesse.
—
%Nalla%?! — disse ao me atender.
— Joseph me disse que pegou a Molly na escola, deveria ter me ligado. — disse direta e precisa.
— Molly também é minha filha, um pai não pode almoçar com seus filhos? — havia um ar de cinismo em sua voz.
— Você nunca foi de almoçar com seus filhos. — retruquei dando alguns passos até a janela lateral do meu quarto, que dava vista para casa ao lado.
— Mas agora sou, vai se acostumando. — continuou ele.
— Não vou me acostumar, em breve assinaremos oficialmente e você terá que agir conforme a lei. — retruquei com segurança.
Ele disse mais algumas coisas que não me atentei. Minha atenção estava mesmo do lado de fora, assim que toquei a cortina e observei o que acontecia. Aparentemente o caminhão de mudanças já tinha ido embora, assim como os homens de descarregaram a mudança. Então, somente %Sebastian% estava naquela casa, o que explicava o silêncio todo, me perdi um pouco pensando se ele moraria ali sozinho. Pelo que me lembrava da única vez que entrei naquela casa, ela era grande e espaçosa, mesmo parecendo pequena por fora. E o quintal era pouco maior que o meu. Por um breve momento, vi um vulto passar pelo quarto que dava vista para o meu, então me escondi no canto, sentindo meu coração pulsar mais forte. Eu não queria passar uma impressão errada de estar vigiando ele, mas tinha minha parcela de curiosidade.
— %Nalla%?! Você está me ouvindo? — a voz de Carl me despertou.
— Sim Carl, te vejo na segunda-feira para assinarmos os papéis. — disse sem dar espaço para conversas e encerrei a ligação.
Soltei um suspiro fraco e voltei meu olhar para a porta. Joseph estava encostado me olhando como se desconfiasse de algo.
— O que foi? — perguntei.
— O que fazia espiando a janela? — perguntou ele.
— Estava me espionando? — coloquei a mão na cintura — Joseph?!
— Não, eu vim dizer que ia esquentar o almoço. — explicou ele — Mas estou curioso, você já conheceu o novo vizinho?
— Pare de interrogar sua mãe e vá para a cozinha. — disse me movendo até ele — Vamos almoçar.
— Foi só uma pergunta, quando saí para a escola tinha um caminhão parado aí na frente, agora não tem mais. — explicou ele indo em direção as escadas — Não viu nada?
— É, compraram a casa ao lado e já digo que vamos ouvir barulhos de reforma, então vai se acostumando com a nova realidade. — o segui, agindo naturalmente como se não soubesse de muita coisa.
Bem, eu não sabia mesmo, mas…
— O que falou com o papai? — perguntou ele.
— Não é você o espião? Pensei que tivesse ouvido. — brinquei.
— Não tudo. — ele riu junto — Ele disse onde estava com a Molly?
— Não, mas a partir de segunda, ele terá que me dar toda satisfação que eu quiser. — garanti.
— Vocês vão assinar os papéis definitivos na segunda? — ele terminou de descer as escadas e me olhou.
— Sim, a partir de segunda você terá pais divorciados. — confirmei — E se Deus quiser, na terça você terá uma mãe quase jornalista.
Sorri de leve e ele sorriu de volta.
— Estou torcendo por isso. — ele seguiu na frente e entrou na cozinha.
Eu caminhei até o sofá e ajeitei a manta de crochê que jogava por cima, afofei as almofadas e juntei os livros que tinha deixado em cima da mesa de centro, colocando-os na estante. Era sempre assim, toda vez que arrumava a casa, deixava algo para trás e só percebia duas horas depois. Passei meus dedos pelos livros e me lembrei que tinha tempos que não colocava minha leitura em dia, ler ajudava a refinar minhas habilidades de escrita, e tinha visto alguns livros usados em uma livraria/sebo perto do estúdio da Sophie. Segui para a cozinha e Joseph já se encontrava usando meu avental de poá rosa, improvisando algumas coisas no fogão.
— Hum… Estou começando a acreditar que você está tramando algo. — comentei me aproximando dele e olhando para a panela — Primeiro aparece fazendo o café e agora improvisa o almoço. Tem alguma garota na jogada?
— Mãe?! — ele me olhou estranhando minha insinuação.
— Pelo que conheço dos homens, que não é muito, quando aprendem algo novo é para impressionar alguém. — cruzei os braços e o olhei — Então, quem é?
— Quero impressionar a minha própria mãe. — respondeu — Mostrar que posso ajudar e que não está sozinha. Satisfeita?
— Sou o homem da casa agora, não posso te deixar carregar o peso sozinha. — seus olhos marejaram um pouco.
— Querido. — eu o abracei de leve — Estou feliz por se preocupar comigo, mas eu sou a mãe aqui, então se quer me ajudar, continue sendo o bom filho que é e levando a Molly para a escola.
— Quero fazer mais que isso mãe. — ele me olhou sério.
— Joseph, você ainda é uma criança, de 16 anos, mas uma criança, deve crescer a seu tempo. — pisquei de leve para ele — E quanto a cozinhar, estou feliz por se interessar.
— Bem… Tem outro motivo. —ele desviou o olhar para a panela.
— Quando eu fizer 18, estou pensando em morar sozinho e me mudar para Seoul, lá é o ponto central das melhores equipes de LoL. — explicou ele.
— Você quer morar do outro lado do mundo? — agora estava surpresa.
— Você me disse para seguir meus sonhos. — vi um brilho incomum em meus olhos.
— Se é assim, posso te ensinar a fazer mais que panquecas e risoto de frango. — sorri para ele.
— Te amo mãe. — ele me dei um beijo da testa e voltou sua atenção para o fogão.
Mantive meu sorriso na face. Eu tinha um filho incrível. Me afastei dele e me sentei na cadeira, fiquei observando ele se movimentar enquanto terminava de preparar seu almoço improvisado. Tirei o celular do bolso e desbloqueei a tela, tinha algumas notificações de postagens da Sophie no instagram. Minha amiga era uma professora de dança muito famosa nas redes sociais, e estava se especializando em coreografia para enfim realizar seu sonhos de trabalhar como coreógrafa grandes artistas. Eu tinha o exemplo dela que provava que um casamento não parava sua vida, mas é claro que o fato dela não ter filhos ajudava muito. Ainda que juntos, tanto ela como o Will tinham sua liberdade de ir e vir sem preocupar.
— Bom apetite. — disse Joseph me despertando de meus pensamentos, ao colocar a panela em cima da mesa e acomodar os pratos também — Me diga se eu passei no teste.
— Hum… — me servi do risoto dele.
Como no caso da panqueca, o cheiro estava convidativo. Deu a primeira garfada e saboreei a comida. Meu filho tinha talento também.
— Super aprovado. — sorri para ele — Ficou muito gostoso.
— Também achei. — concordou ele ao provar — Eu já ia me esquecendo, meu amigo Simon me convidou para passar as férias de verão no chalé da família dele. Posso ir?
— Acho que em uma cidade do estado de Oregon. — respondeu ele.
— E você vai sobreviver sem internet? Jogos?
— Se você quiser ir, tem minha autorização. — assegurei — E não se preocupe com seu pai, com ele me entendo eu.
— Você é a melhor mãe do mundo. — ele sorriu.
Depois do almoço Joseph retornou para a escola, para suas aulas extras. Eu fiquei encarregada de lavar as vasilhas sujas, me coloquei diante da pia munida do meu avental de poá e iniciei. Fiquei um tempo em silêncio até começar a cantarolar a trilha sonora do desenho Tarzan, algo que começou aleatoriamente. Elevei meu olhar para a janela por um momento e senti meu corpo congelar. Lá estava o vizinho no centro da cozinha com uma xícara em sua mão, me olhando. Será que ele estava me observando a muito tempo? Eu voltei meu olhar para as vasilhas e terminei rapidamente, então me afastei, com o coração acelerado.
Ao final da tarde, Carl levou Molly para casa. Não trocamos nenhuma palavra, ele ficou na porta, assim que nossa filha despediu, eu fechei em sua cara. Molly parecia feliz por ter passado o dia com ele, algo que me deixou ainda mais intrigada. Pedi para que ela fosse para o quarto tomar banho, enquanto isso eu ligaria para algum serviço delivery, nada de ir para o fogão cozinhar. Joseph também não demorou para chegar, fizemos nossa refeição meio em silêncio. Eu não queria perguntar o que tinha acontecido no almoço de Molly, por mais que estivesse muito curiosa.
— Mamãe. — disse Molly assim que a coloquei na cama.
Mesmo já crescida e com 10 anos, ela ainda tinha um leve costume de me pedir o beijo de boa noite.
— Não vai me perguntar sobre hoje? — indagou ela.
— Acho que sim, papai disse para te contar.
— Porque o papai falou isso? — perguntou Joe aparecendo na porta do quarto.
— Pra mamãe saber que ele não fez nada de errado. — explicou ela.
— Hoje de tarde foi um momento seu com seu pai, não precisa me contar. — disse com um tom gentil e carinhoso — Você gostou de ter passado a tarde com ele?
— Isso é o que importa. — sorri para ela e beijei sua testa.
Então me afastei de sua cama.
— Boa noite querida. — desliguei a luz do quarto.
— Boa noite mamãe. — ela sorriu de leve.
— O que papai quer? — perguntou Joseph.
— Eu não sei meu filho, mas vamos viver nossa vida.
Eu beijei de leve seu rosto e segui para meu quarto, antes de entrar pedi para que não ficasse a noite toda jogando. Assim que entrei e fechei a porta, coloquei o pijama e me deitei. Foi estranho inicialmente dormir sozinha, mas depois de semanas já estava me acostumando. Carl nunca foi um marido presente desde o nascimento da Molly, então já estava mais do que acostumada a ficar sozinha. Na manhã seguinte, acordei um pouco mais cedo do que gostaria, ouvindo o barulho vindo da casa ao lado. Será que as reformas começariam em pleno sábado? Ele podia ter deixado para mais tarde. Cobri a cabeça e virei para o canto, apertei os olhos tentando voltar a dormi. Rolei mais um pouco na cama até me levantar, já que não conseguiria pegar no sono, então iria iniciar meu dia indo mais cedo a cafeteria. Até ter um emprego fixo, eu tinha o acordo de fazer as panquecas todos os dias. Mais horas trabalhadas, mais dinheiro no bolso, e consequentemente mais contas pagas.
Assim que cheguei, cumprimentei Finn e fui direto para a cozinha. Carmen já estava com seu avental a minha espera, ela era a outra cozinheira que trabalhava lá fazendo os outros pratos do cardápio. Afinal, minha função era única e exclusiva de fazer as famosas panquecas especiais. Coloquei meu avental caseiro que sempre levava comigo e lavei as mãos, os ingredientes já previamente separados por Carmen me aguardavam. Minha mania de cantarolar enquanto cozinhava já tinha caído nas graças de Carmen, que geralmente me acompanhava quando sabia a música. A Liberdad Café abria pontualmente às 8 da manhã, e meu expediente ali se estendia até as 11.
— %Nalla%. — disse Finn ao entrar na cozinha.
— Sim?! — eu voltei meu olhar para ele, já estava terminando mais uma remessa de pedido — Algum problema?
— Tem um cliente que insiste em te agradecer pela panqueca. — disse ele.
— Sério? Mas… Acho que não é necessário.
Ele me olhou meio na dúvida também. Eu limpei a mão no pano de prato e me aproximei dele. Finn apontou para o jovem rapaz sentado próximo a caixa registradora. E mais uma vez fui pega pela surpresa assim que meu cérebro se deu conta que o jovem era o novo vizinho. O que ele fazia ali? Bem, é um pouco óbvio pois sua casa estava caindo aos pedaços então nem mesmo uma cozinha ele tinha. E será que sabia cozinhar? Meu coração palpitou de leve, e estranhei sentir um frio na barriga. Engoli seco e caminhando em lentidão, me aproximei dele.
— Bom dia. — disse em cumprimento.
— %Nalla%. — ele me olhou normalmente, sem nenhuma surpresa em me ver.
Espera… Ele lembrava o meu nome. Uau.
— Me disseram que gostou da minha panqueca. — comentei, mantendo minha face suave, sem muitas reações.
— Sim, ela é mesmo muito especial. — ele sorriu de forma fofa e gentil — A melhor que já provei até hoje.
— Muito obrigado pelo café da manhã. — sua voz soou como se eu tivesse preparado somente para ele.
— Disponha, eu preciso ir. — me afastei um pouco para voltar.
— É que, antes de vir tomar o café eu subi no telhado e… Observei que a sua calha está cheia de folhas. — ele parecia escolher as palavras como se precisasse encontrar um motivo forte para falar.
— Ah… Eu imagino que sim. — soltei um suspiro — Eu ando com os meus dias tão
ocupados que não contratei ninguém para…
Ocupados, significa sem dinheiro. Aquele era um dos poucos deveres do Carl, e como já não existia mais ele naquela casa.
— Posso limpar para você. — se ofereceu sem cerimônias.
— Eu não tenho como retribuir. — disse abertamente.
— Das próximas vezes, basta colocar mais geléia para mim. — disse se referindo às panquecas.
Próximas vezes? Será que ele frequentaria regularmente a cafeteria?
— Serão ainda mais especiais. — não me contive em sorrir, por gratidão.
O olhar dele me constrangia um pouco. Ao mesmo tempo que era intenso, passava um ar de mistério e segurança. Eu voltei para a cozinha e continuei meus afazeres. Às 11 em ponto, encerrei tudo e recebi o valor das minhas horas trabalhadas. Ao chegar em casa guardei o dinheiro na caixa de sapatos no fundo do guarda-roupas. Ali era meu cofre escondido, onde deixava até minhas contas para lembrar da responsabilidade de ser um adulto com filhos. Após o almoço, me dispus a brincar com Molly no quintal dos fundos, montamos um mini estúdio de desenho, onde eu era a modelo e ela a artista. A cada desenho que ela me mostrava, gerava ainda mais gargalhadas, as quais atiçaram a atenção do vizinho que estava em nosso telhado limpando a calha.
Era estranho ver outro homem fazendo isso, mas um estranho bom. Por mais que eu tentava não olhar, me pegava o observando discretamente de tempos em tempos. Assim que ele desceu, olhei para o relógio em meu pulso, já batia cinco da tarde, tínhamos passado muito tempo em nossa brincadeira.
— Terminei. — disse ele ao se aproximar de mim.
— Muito obrigada, de novo. — sorri de leve e desviei o olhar para minha filha — Molly querida, vamos juntar tudo e guardar, já está ficando tarde.
— Sim mamãe. — ela começou a juntar os papéis.
— Como eu te disse antes, comecei a minha reforma hoje, e a cerca…
— Sim, está mofada do outro lado. — explicou ele.
— Bem, sem problema, me diga quanto vai ficar que eu ajudo com a metade do dinheiro. — me disponibilizei por cordialidade.
E claro que eu não teria esse dinheiro. Talvez se pedisse um empréstimo, que certamente sairia o dobro no final pelos juros, mas.
— Não precisa me ajudar com dinheiro. — disse ele.
— Tenha como uma bonificação pelo barulho que farei todos os dias. — ele sorriu meio sem graça.
Eu poderia respirar aliviada? Sim e tentei ser discreta nisso. Desviei meu olhar dele para Molly que carregava quase tudo para dentro.
— Eu preciso entrar. — disse me afastando dele.
— Claro. — ele deu alguns passos até a abertura que tinha feito da cerca — Boa noite.
Segurei meu coração o quanto pude. Como podia um homem ser tão charmoso com tão pouca idade? Confesso que sempre tive uma queda por homens mais velhos. Carl era alguns meses, mas era mais velho que eu. Mas %Sebastian% tinha algo especial. Bem, olhando assim, meu filho Joseph também conseguia aquela façanha. Ele passou pela abertura e eu entrei em minha casa. Quando cheguei lá dentro, tanto Molly quanto Joe estava de braços cruzados me olhando desconfiados.
— Seja lá o que estiverem pensando, parem agora. — os repreendi antes de qualquer comentário.
— Não estamos pensando nada. — Molly tombou a cabeça dando um sorriso sapeca.
— Então pediu ao nosso vizinho para limpar a calha? Você tem um filho sabia? — Joseph parecia chateado.
— O meu filho tem medo de altura sabia? — retruquei meio sarcástica.
— Todo medo pode ser perdido. — disse emburrado.
— Da próxima vez, você limpa então. — ri de leve — Que tal pizza de novo?
— Eu pensei na sessão pipoca e maratona Harry Potter. — sugeriu Molly.
— Fechado. — disse indo até eles — Vou tomar um banho primeiro e você também mocinha.
— Eu faço a pipoca. — se ofereceu Joe.
No domingo, a cafeteria não abria, afinal todos merecem um dia de descanso. Acordei pela manhã esperando ouvir o barulho da reforma ao lado, mas para minha surpresa estava silencioso demais. Troquei de roupa e desci para a cozinha, preparar o café. Aos poucos comecei a ouvir vozes vindo do quintal. Molly ainda estava dormindo, pois tinha passado por seu quarto e a vi esparramada na cama. Será que Joseph tinha chamado algum amigo para o café? Caminhei até a porta e vi ele conversando com %Sebastian%. Senti um aperto no coração, seguido de curiosidade. Sobre o que estariam conversando? Me perdi no tempo ao observá-los. Em um piscar de olhos, ele se distanciaram e Joe seguindo em direção a porta, eu me afastei e fui abrir a geladeira. Assim que ele entrou, mantive minha atenção na geladeira, fingindo pensar no que fazer.
— Mãe, bom dia. — disse ele.
Me mantive em silêncio retirando os ingredientes de dentro da geladeira. O olhei discretamente, ele parecia segurar o riso.
— Hoje teremos ovos mexidos com bacon, para variar. — anunciei.
— Que bom que eu não convidei o vizinho para o café então. — comentou ele.
No susto causado por suas palavras, quase deixei a caixa de leite cair.
— Por que você o convidaria? — o olhei.
— Em agradecimento pela calha. — explicou ele com um olhar analisador.
— Ah… — tentei me fazer a indiferente e voltei minha atenção para o fogão.
Eu não podia demorar muito no preparo do café. Naquele domingo nossa parada para o almoço seria na casa de Sophie. E sempre que eu almoçava lá, tinha que chegar antes e ajudar minha amiga no preparo. Ela era um desastre no fogão.
— Bom dia mamãe, bom dia Joe. — disse Molly ao entrar na cozinha.
— Bom dia pequena. — respondeu Joseph.
— Mamãe, decidi participar do concurso de talentos da escola. — disse ela num tom mais do que empolgado.
— Vivaaaa. — sorri de leve para ela — E qual talento vai mostrar?
— Estou pensando em mostrar meu estilo arrasador de dança. — respondeu.
— Mas faz tempo que você não faz ballet com a tia Sophie. — comentou Joe.
— Tia Sophie disse que iria me ajudar com a coreografia, vou misturar ballet e hip-hop.
— Olha só, ela dança, eu danço. — brinquei.
— Isso mesmo mamãe, eu vi o filme e fiquei fascinada pra fazer igual.
— Vai ter que começar a ensaiar logo então. — aconselhei ela.
— Vou a partir de amanhã, com mais duas amigas. — ela se sentou na cadeira — Posso ensaiar na casa delas após a aula?
— Isso vai interferir nas lições de casa? — perguntei.
— Vou fazer todas eu prometo. — ela levantou a mão direito em juramento.
— Ok, está liberada então, mas na volta seu irmão te busca. — olhei para ele — Você faria isso?
— Para ajudar a miss joaninha? Claro que sim. — ele sorriu e brincou — Eu já falei que deveriam mandar essa menina para o Disney Channel e ganhar dinheiro com ela. Ninguém me ouve.
— Te garanto que eu serei a próxima Hannah Montana. — disse ela animada.
— Uau, nossa estrelinha tem potencial. — a incentivei.
Mesmo com seu amor por desenhar, Molly insistia no sonho de ser uma dançarina atriz. Eu não sabia o que fazer para ajudar e se esse sonho era mesmo real ou passageiro. Mas se precisasse, eu realmente iria apoiá-la até o final, e ajudar a não se perder nesse mundo obscuro que é das celebridades. Após o café, seguimos para a casa da Sophie. Molly e Joseph continuaram a trocar figurinhas no carro sobre eu ter filhos talentosos.
— Ai amiga já estava ficando maluca sem saber o que fazer para o almoço. — disse Sophie assim que eu apareci na cozinha.
Will tinha aberto a porta para nós.
— Estou vendo seu nível de desespero, tirou tudo da geladeira. — comentei.
Apontei para a bancada de preparo e parecia que o supermercado tinha descarregado toda aquela comida.
— Não fala assim. — ela fez bico — Eu não sou boa com isso.
— Isso que dá ter um marido rico e médico, se acostuma a comer em restaurantes. — brinquei com ela.
— Ele se casou comigo, sabendo que eu não sei cozinhar, casou porque quis. — retrucou ela.
— Casei porque te amo sua ingrata. — disse Will da porta com cara fechada — Não me importa se sabe cozinhar ou não, eu sempre cozinho para você.
— Will. — seus olhos encheram de brilho e ela seguiu até ele — Eu te amo.
— Agora você me ama. — ele sorriu de canto e a beijou.
— Vocês dois. — ri deles.
Para mim, formavam o melhor casal do nosso círculo de amigos, ambos eram um misto de amor e ódio desde os tempos do colégio.
Fanfic que fala?! Ri um pouco mais ao pensar isso.
— Que tal algo simples de rápido? — sugeri.
— Como o que? — perguntou ela.
— Tabule, rosbife e purê de batata. — disse — E como sei que não tem trigo aqui, eu trouxe de casa.
— Por isso que eu amo quando vem almoçar aqui. — ela sorriu.
— Cretina. — disse a ela, eu olhei para Will — Considere hoje seu dia de folga e vai para sala, Joseph com certeza está com a mão coçando para jogar FIFA com você.
— Estou mesmo. — gritou meu filho da sala.
Will bateu em continência e saiu da cozinha.
— Sempre me divirto com vocês dois quando venho aqui. — continuei rindo e retirei o pacote de trigo da bolsa.
— Que bom que te proporcionamos isso. — ela riu junto.
— Vamos então senhora Tenebrae, coloque seu avental lave as mãos e vamos fazer este almoço.
— Sim chefe Miller. — assentiu ela — Hum… Me tira uma curiosidade.
— Diga. — me coloquei em frente a bancada escolhendo o que deixaria lá e o que ela guardaria na geladeira.
— Freya por um acaso quando a vi no supermercado hoje de manhã, comentou sobre ter visto o vizinho limpando sua calha. — iniciou ela — Você esqueceu de me contar algo?
— Então Sophie, não que eu tenha esquecido, só não consegui te ligar. — expliquei — E como viria aqui hoje… Mas que fofoqueira a Freya.
— Querida, pelo que reparei ela tem secado esse vizinho e tanto.
— Nem parece que acabou de se casar. — fui passando os sacos de verduras para que guardasse.
— Querida, Freya está no sexto casamento, já estou esperando pela festa do divórcio que ela sempre dá. — comentou ao abrir a geladeira.
— Credo, não acredito que está falando assim, não tem graça em ver um casamento terminado. — a repreendi.
— Eu sei que não, mas no caso dela, todos foram por conveniência né.
— Tá, mas voltamos ao assunto importante, por que motivo ele fez isso?
— Então, ontem de manhã ele foi na Liberdad Café, e comeu a panqueca especial.
— Sim… E para te deixar mais surpresa, ele pediu para que me chamasse pois queria agradecer pessoalmente pelo café da manhã.
— Foi aí que ele falou que tinha visto a minha calha suja, quando subiu no telhado dele, e se ofereceu pra limpar.
— E você aceitou de imediato. — supôs ela.
— Não, eu disse que não tinha como pagar ele.
— E ele disse que poderia te beijar em troca? — ela deu um sorriso malicioso.
— Para de ler fanfics Sophie.
— Não custa sonhar… Já quero shippar vocês dois, me deixa. — ela fez bico.
— Para de delírios amiga, eu ainda sou casada pela lei.
— Daremos um jeito nisso amanhã.
— E mesmo se não fosse, eu não quero nada de relacionamentos agora, percebi que preciso cuidar de mim mesma, da minha sanidade mental, em meio essa reviravolta que sofri.
— Ok. — ela fez um olhar de tristeza — Mas não vai nem rolar um agradecimento a ele?
— Ele disse que em troca eu poderia colocar mais geléia na panqueca dele.
— O que significa que ele vai continuar indo a cafeteria.
— Estou chocada, a mão da fanfic até treme. — brincou ela — Será que posso escrever uma com essa história?
— Nem começa com suas invenções. — ri dela ao abrir o pacote de trigo — Vamos nos concentrar nesse almoço.
— A gente trabalha com as mãos e com a boca também, tenho fofocas para contar.
Minha amiga não tinha jeito mesmo. Como eu havia dito, não foi algo demorado e no final, Sophie aprendeu mais uma receita que ela não faria sozinha, com certeza. Chegando em casa já de noite, disse as crianças para irem dormir e me tranquei em meu quarto, senti meu corpo tão cansado que só deu tempo de tomar uma ducha e cair na cama. Na manhã seguinte, já acordei com o barulho do vizinho e sua reforma. Saí cedo de casa e cumpri meu horário na cafeteria. Marquei um almoço com Sophie, ela iria me acompanhar na assinatura oficial do divórcio.
Aquele dia seria lembrado como divisor de águas em minha vida.
"Vivendo somente pela razão,
Está ideia amadureceu você?"
- The Boys / Girl’s Generation