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ATENÇÃO!

História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

O Espaço Criativo não se responsabiliza pelo conteúdo das histórias hospedadas na sessão restrita ou apontadas pelo(a) autor(a) como não próprias para pessoas sensíveis.

Doce Trapaça

Escrita porZsadist Xcor
Revisada por Lelen

Parte do Pop-Up Criativo #2 – Escreva seu livro.


Capítulo 9

  Na semana seguinte do aniversário de cinco anos, Rodrigo era socorrido na beira da estrada por transeuntes em meio ao caos. A solidez da estrada de asfalto potencializava a falta dos amorosos braços paternos os quais nunca mais experimentaria como era a calorosa recepção.
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  Com o passar do tempo, perderia o registro sensorial, a imagem gravada na memória se tornaria mais borrada e se contentaria em ouvir histórias das pessoas de seu convívio e ver fotos na tentativa de manter a fisionomia perspicaz viva.
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  O incidente foi mortal para o motorista.
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  O carro dirigido por Ernesto no início da noite derrapou no asfalto. Desviou no último instante da moto que entrou na frente do veículo, ignorando a sinalização do cruzamento.
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  Retornava de uma visita à casa da mãe com os filhos. Por realizar tarefas domésticas antes de ir passar a tarde na companhia da família enquanto a esposa passeava com as amigas no Shopping, se sentia cansado.
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  Farto da discussão entre os filhos, se virou por míseros instantes cruciais. Exausto, reuniu as forças e bradou sério solucionando dois problemas.
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  O silêncio preencheu o ambiente como música para os ouvidos.
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  Rodrigo logo tratou em colocar o cinto.
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  Rodrigo teimava em não colocar o cinto de segurança, alegando como a textura áspera irritava a pele infantil.
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  Com a finalidade se fazer entender, Ernesto se virou zangado, exigindo a obediência do filho e também encerrar a discussão. O menino obedeceu sem pestanejar.
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  Infelizmente, muito se pode acontecer em um segundo. No caso deles, a distração custou a vida de Ernesto.
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  O acidente foi terrível, o veículo destroçado por colidir no caminhão.
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  Ao contrário do genitor, as crianças sobreviveram por puro milagre do destino — e os irmãos no banco traseiro sabiam que havia algo de errado quando o pai não se mexeu nem perante os clamores aflitos enquanto continuavam presos ao veículo pelo cinto ter travado durante a aterrorizante colisão.
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  Demorou vinte minutos para a ambulância chegar.
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  No enterro, todos trajavam negro.
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  Era a primeira ida das crianças ao cemitério.
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  Os semblantes chorosos sinalizavam como compreendiam que Ernesto jamais voltaria pra casa e teriam somente as recordações para lhes acalentar na tentativa de o martírio oriundo do luto diminuir.
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  Sentados em cadeiras ao lado da mãe, observavam como as pessoas iam até o caixão. Ajeitado com zelo, flores o cobriam, escondendo as inúmeras lacerações e as deformidades do acidente. Os responsáveis por prepará-lo pro velório fizeram jus às habilidades aprimoradas ao longo dos anos para deixá-lo apresentável, então o caixão permaneceu aberto.
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  Annanda estava devastada. Aos oito anos, era extremamente próxima ao pai. Era o ser humano quem mais amava no mundo e com quem mais se harmonizava. Sempre o aguardava chegar do trabalho para conversarem. Se recusava a dormir antes disso, mesmo que cambaleasse sonolenta pela casa em genuína persistência para manter-se acordada.
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  Lecionava nas turmas de EJA no período noturno. Em consequência, o horário de chegada em casa era quase às dez da noite. Mesmo cansado, se esforçava em dar atenção a menina, quem o recebia sorridente — independente do horário.
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  Logo, era de se esperar como a pequena se recusava a aceitar a precoce morte de Ernesto.
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  Quieta, fingia que o irmão não estava ali. Nem sequer o olhava.
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  As pessoas imaginavam que o comportamento era manifestação de sua dor, não que o culpabilizava pelo acontecimento catastrófico.
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  Em sua concepção infantil, precisava existir alguma razão para a desgraça daquela magnitude acontecer. Buscava respostas, puxava da memória inúmeras possibilidades as quais ligariam ao evento traumático demais para lidar. Não demorou para culpabilizar o irmão caçula.
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  Se não fosse por ele, estariam almoçando juntos em casa como deveria ser.
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  Aos sábados, Doralice costumava preparar comidas ainda mais saborosas, como lasanha e sobremesa cuja última fatia era disputada entre eles. E tinham sorte quando sobrava a guloseima no dia seguinte.
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  Embora o garoto tentasse dirigir-lhe a palavra, sabia ser escorregadia. Se desvencilhava das pessoas, alegando vontade de ir no banheiro ou sede.
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  Negava até de se aproximar.
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  Após o enterro, aguardavam a mãe se despedir de alguns parentes ao longe.
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  Ao lado do carro da tia quem lhes daria carona, se virou de automático por detectar um movimento pela visão periférica.
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  — Tome. — Em gesto de solidariedade, Rodrigo lhe estendeu uma flor branca que seria destinava para o pai. Por querer diminuir o sofrimento alheio, a separou para a menina. — O papai me dizia que...
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  Como aquele assassino mirim ousava citar o pai depois do estrago que fez?
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  Irada, lhe disse entre dentes com os olhos marejados:
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  — Olha o que seu faço com a sua flor idiota.
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  Em meneio brusco, a apanhou pelo caule e atirou longe.
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  — Nunca mais me ofereça nada. — Se permitindo levar pelos impulsos raivosos, lhe esbofeteou no rosto.
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  Não se dando por satisfeita por considerar a agressão simples demais pra dimensão irreversível dos atos perversos, o empurrou em seguida.
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  Abalado, caiu no chão do cemitério, as costas emitindo o som do baque surdo ao colidir com o paralelepípedo.
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  — Era pra você estar sendo enterrado essa tarde, não o papai. — As lágrimas desciam torrenciais na face feminina, os cabelos soltos voando ao vento. — Foi você quem o matou. Você! A culpa é sua! Ele nunca mais vai voltar pra casa e o culpado é você!
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  Com as acusações de Annanda, não demorou para Rodrigo se sentir merecedor de agressões e violências. Como se não bastasse, desenvolveu a crença de ser o responsável pela morte de Ernesto. Embora a informação continuasse escondida no fundo da mente, os danos foram nefastos.
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  Não se defendia quando era maltratado ou destratado por ela ou por qualquer outra pessoa, inclusive os alunos das escolas onde estudou. Aceitava grosserias ou bullying sem revidar, se mantendo em posição de subjugação perante as crueldades que lhe ocorriam como punição autoimposta por ser um assassino do próprio pai.
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  Não demonstrava interesse no irmão. Quando a mãe engravidou, pensou que correria o risco de perder a atenção dos pais. Como maneira de se fazer presente junto aos genitores, estava ao redor durante as trocas de fralda, banhos ou qualquer outra necessidade do recém-nascido. A inocência do pequeno foi insuficiente para conquistá-la, embora demonstrasse verdadeira adoração por ela.
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  Ignorando a diferença de três anos de idade, não perdia a oportunidade de espancá-lo.
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  Antes de dormir, era comum invadir o quarto de Rodrigo, enrolá-lo ainda adormecido nos lençóis e desferir vários golpes nele por cima do edredom. Dessa forma, as marcas não apareceriam e não era identificada pela escuridão ocultar a identidade.
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  O dano físico se estenderia para o âmbito psicológico, já que passaria a temer o escuro. Naturalmente introspectivo para com os acontecimentos de sua vida, não contava nada para Doralice.
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  Annanda pararia de invadir o quarto apenas quando o outro atingisse os sete anos de idade.
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  Na escola, afastada das vistas da mãe ou de figuras de autoridade, não hesitava em simular empurrões, violências ou até posicionar o pé na frente dele pro menino cair e se ralar.
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  Em virtude das ações, Rodrigo vivia com os joelhos ralados.
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  Como não é incomum crianças se machucarem e o filho não comentava nada acerca da perseguição, Doralice não se preocupava com as lesões.
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  Além disso, durante o ensino fundamental e médio foi vítima de bullying por ser visivelmente gay em escola que prezava pela tradicionalidade.
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  Recebia apelidos, era hostilizado e agradecia todos os dias por participar do grupinho composto por cinco meninas o acolher. A amizade o ajudava a deixar as idas para a instituição educacional mais suportável, dissipando um pouco a atmosfera densa das violências recorrentes.
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  Ninguém impedia as humilhações. Por vezes professores participavam e a grande parte dos alunos era a favor das maldades, visto que riam e incentivavam as situações degradantes. A parcela composta por meia dúzia apenas ignorava ou observava tudo com pena do tratamento desumano.
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  Em contrapartida, amigas o protegiam como podiam. Mudavam a rota quando se deparavam com os agressores, se mantinham perto e não o deixavam sozinho. Elas também sofriam ataques de proporções bem menos intensas, embora o alvo principal fosse ele.
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  Um evento em especial o faria desenvolver asco de si.
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  Aos onze anos, seria impedido por sete garotos de sair do banheiro — e depois desse dia, mesmo na faculdade, não iria mais ao banheiro desacompanhado ou enquanto as aulas ocorressem.
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  O imobilizariam, um lhe tamparia a boca por trás e os outros tirariam a roupa, alegando entre risos e piadas que queriam provas da masculinidade.
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  O apalpavam, zombando do seu corpo magro, rindo do tamanho dos genitais e verificando se endureceria ou não na presença deles.
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  As lágrimas apenas os incentivaram a buscar, inclusive, qualquer indício de órgãos ou características femininas nele.
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  Jamais contaria o acontecimento para ninguém por não ter sangue frio para confrontar a mãe e lidar com o fato de a escola saber do episódio caso aquilo vazasse. Afinal, até o diretor tinha conhecimento acerca do bullying. Não impedia de acontecer e nem tomava providências porque não se importava.
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  Era só inimizade entre alunos.
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  Nada demais — mesmo se o aluno em questão tivesse ideações suicidas, assim como era o caso de Rodrigo.
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  O rapaz despertou no romper da aurora.
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  Ao contrário da iluminação solar característica do verão que coloria o céu, o belo laranja afastando os tons de lilás, o seu estado de espírito não refletia a esperança eminente do amanhecer. Pelo contrário.
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  A tortura íntima era indescritível.
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  Lidava com uma vasta carga de emoções tão densas que recorreu ao vaso sanitário onde passaria as próximas duas horas vomitando em terríveis náuseas, a crise de enxaqueca piorando a ânsia.
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  Suado, ofegante, trêmulo e pálido, lidava com a bagagem emocional revertida em sintomas físicos por se recordar de quem era, o que lhe aconteceu e pelo véu do esquecimento cair. Dessa maneira, foi capaz de acessar durante a madrugada os momentos mais traumáticos ocorridos ao longo da vida enquanto estava adormecido, inclusive aqueles cujo inconsciente buscava protegê-lo desde a infância, como a culpa injusta pela morte do pai e os ataques de bullying mais violentos dos alunos e dos professores.
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  Enfim, Rodrigo se lembrava da trajetória e de quem realmente era.
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  Doralice aprendeu a viver na clínica onde foi mantida presa de modo a ter menos danos — ou seja, de modo a não ser drogada.
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  Não questionava. Não confrontava. Não levantava questionamentos inúteis. Não tentava fugir.
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  Quando cometia atos considerados como inadequados para os profissionais de saúde responsáveis pelo bem-estar dos pacientes internados, era dopada através de comprimidos que a obrigavam a tomar. Não adiantava ir contra os funcionários. Caso se recusasse a ingeri-los, a comida vinha com as medicações escondidas e só detectava ao apresentar os característicos sintomas de letargia e sonolência excessivas.
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  Nessas ocasiões, passava dias grogue sem controle corporal. Por diversas vezes tomou banho de leito pela incapacidade de se manter consciente, levando dias para despertar e se reestabelecer. Assim, perdeu noção de quanto tempo em que estava lá.
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  Para evitar de ficar naquele estado deplorável, começou a acatar as ordens e seguir com os horários estabelecidos para o bom funcionamento da instituição financiada pelo governo.
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  Simultaneamente, descobriu os bastidores dos serviços públicos.
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  O problema não era o sistema. As áreas como Assistência Social não eram ineficazes. Os problemas giravam em torno das pessoas atuantes — ou melhor, os profissionais eram a personificação das palavras descaso, incompetência e incapacidade, visto que não trabalhavam devidamente apenas porque não queriam.
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  Não eram todos.
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  Os bons se sobrecarregavam pra fazer as coisas acontecerem sem prejudicar a população que precisasse das orientações e dos encaminhamentos, além de realizarem seus próprios serviços e de outras pessoas também.
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  A outra parte de quantidade considerável desprezava as figuras em vulnerabilidade social que precisavam dos serviços públicos e recorriam a eles visando a própria sobrevivência e manutenção da dignidade. Tratava o público com indiferença, até mesmo ignorando demanda de cuidados médicos e roubando medicações as quais seriam vendidas por fora sem prescrição médica. Automaticamente os prejudicava — e quem se importaria de amputar uma perna que apodreceu pelo abandono profissional de um morador de rua que sequer tinha o número de família para procurar e estava sem os documentos de identificação, não é, mesmo?
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  — Você também foi trancafiada aqui?
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  Sentada no banco, ergueu a cabeça para a jovem de vinte e cinco anos cuja aparência desleixada a envelhecia sem a beleza lhe abandonar por completo.
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  — Não se importa que eu me sente, né?
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  Não esperou a resposta e se acomodou ao lado da senhora.
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  — Você é muito calada. Está há quanto tempo aqui? — questionou a jovem. — Sou novata.
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  — Não é que eu seja calada. Você não me deu tempo pra responder.
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  — Desculpe.
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  — Bom, respondendo à sua pergunta... Perdi a noção de tempo, filha — replicou em voz triste. — Por que veio pra cá?
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  — Meu pai é prefeito. Não gostou de quando ameacei vazar vídeos dele comigo na Internet quando eu era criança caso tentasse me tocar de novo. Isso foi há algumas semanas e olha onde vim parar.
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  A amargura evidenciava a que se referia.
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  — Dinheiro compra tudo, né? — A garota deu de ombros. — E você? Veio se tratar de verdade ou foi trancafiada como leprosa?
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  — Trancafiada. Meu filho... — Engoliu em seco, as lágrimas se formando em virtude do luto — Já ouviu falar de Alya?
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  — Claro. Fiquei em prantos quando ela morreu.
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  — Era a drag do meu filho. Descobri que não foi um acidente assim como noticiaram. O mataram. Foi horrível quando os ouvi conversando sobre como assassinaram meu Rodrigo. Se não fosse pelo maldito namorado que nunca gostei e uma outra pessoa, meu menino estaria vivo.
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  A jovem desconfiou da história. Entretanto, como ela era prova viva de como pessoas poderosas rapidamente silenciavam quem ameaçava prejudicar a bela imagem construída ao longo dos anos — por mais hipócrita que fosse — decidiu não contestar a idosa. Lhe daria o benefício da dúvida acerca do relato sem ignorá-lo ou julgá-lo por completo.
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  — Ai, querida, me desculpe — compadecida, limpou as lágrimas de Doralice. — Não queria te abalar assim.
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  — Não se preocupe. A dor da perda de um filho é inestimável pra uma mãe. Me resta aprender a conviver com ela.
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  — Se serve de consolo, Alya era maravilhosa. Talentosíssima. Não conheci a pessoa por debaixo daquela montagem, mas sem dúvida era igualmente boa.
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  — Era, sim.
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  — Sou Ana, a propósito.
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  — Olá. Doralice.
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  — Prefere ser chamada como? Dona, Dora, Lice, Doralice...
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  — Como preferir.
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  — Tudo bem. Dora, pode me fazer um favor?
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  — Qual?
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  — Todas as outras pessoas que arrisquei aproximação realmente eram instáveis mentalmente. Você é a única com quem consegui manter uma conversa sem sofrer ataques. Estou há quase sete dias aqui e o cenário é bem solitário, na minha concepção. Posso te fazer companhia?
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  — Claro!
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  — Ótimo. Hum... Me avisa quando o diretor estiver por aqui?
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  — Sim. Por quê?
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  — Não gosto dele.
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  — Algum motivo pra isso?
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  — A forma como ele me olha é muito parecida com a do meu pai. Prefiro morrer a ser estuprada de novo.
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  Por trinta dias consecutivos Rodrigo não se alimentou como deveria.
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  Demorou para os sintomas do choque de seu passado surgir inesperadamente desaparecerem. Ao longo desse tempo, não sentia fome. Era incapaz de se alimentar. Por vezes passava vinte e quatro horas somente com uma fruta no estômago para não preocupar Igor e nem João dizendo que lanchou na rua ou se obrigava a comer algumas colheradas de almoço por insistência de ambos.
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  — Eu te levei ao hospital às sete e meia da manhã. Tomou soro e até hoje não sabemos que inferno aconteceu contigo. O mínimo que você deveria fazer é comer, garoto! — bradava Igor, colocando generosa porção de alimentos para o rapaz comer ao final do expediente.
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  Abalado, não estava em condições de exercer o trabalho naquele período.
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  Supervisionava os garçons e criava conteúdo para a página do estabelecimento. Interagir com os clientes como gostava estava fora de cogitação pelo deplorável estado emocional.
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  No início da madrugada, quando o trio finalizava a arrumação, Rodrigo não desligou o karaokê.
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  De última hora, apanhou o microfone, selecionou a música e aguardou os acordes iniciais para começar a cantar música de seu antigo repertório, Good Enough.
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  Buscava externalizar a angústia, um meio de tirar o peso carregado no coração desde quando as memórias ressurgiram e o desestabilizaram.
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  Por muito tempo não se sentiu bom o suficiente. Nem como filho, nem como irmão, nem como artista, nem como namorado, nem como ser humano. Por mais que se esforçasse, colecionava decepções.
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  Decepcionava a família e os amigos por não estar presente nos momentos mais importantes, como comemorações ou aniversários.
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  Decepcionou Doralice porque a mãe não compreendia como ele temia ir para a escola na infância e nem como desenvolveu depressão aos treze anos de idade.
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  Decepcionou a irmã porque ela o culpava pela morte do pai.
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  Decepcionou seus amigos porque ignorava os alertas sobre Lucas e passava longos períodos sem conversar com eles.
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  Decepcionou no trabalho porque seus fãs lhe homenageavam achando que estava morto quando, na verdade, era fraco demais para lidar com as sombras do seu passado carregado de traumas.
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  Entretanto, não era o pior.
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  O pior era assimilar como a vida de todos correu bem após a fracassada tentativa de assassinato.
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  Annanda ascendia na carreira como cantora sem nenhum mérito ou talento — e quase foi aos prantos quando viu a notícia da morte de Doralice na página dela.
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  Lucas se estabelecera como influencer, sempre levando Annanda aos eventos mais concorridos consigo e ganhando fortunas por fazer propagandas de jogos de azar.
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  Cometeu o erro de entrar nas redes sociais dos amigos.
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  Para a sua tristeza, não parecia fazer falta para ninguém — e a sensação lhe gerava mal-estar de tão pujante.
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  Nem mesmo Gabriel, que acompanhava sempre as atualizações de Alya e Rodrigo nas redes sociais e interagia com as publicações, demonstrava o mínimo abatimento.
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  Era como se a existência de Rodrigo de nada valesse, fosse insignificante.
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  Não poderia estar mais errado.
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  Se sentia... Inútil, vulnerável, abandonado, sem valor e imprestável. Assim, transmitiu nas notas da música a qual cantava de olhos fechados todo o suplício suportado.
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  Cada poro transpirava a amargura, o martírio da traição e o entendimento do quanto deixou de viver ao lado de quem realmente amava por ser verdadeiro joguete nas mãos dos agentes, simples produto que acatava às ordens sem tempo de tratar da saúde ou de receber tratamento humano. Quantos aniversários perdeu, quantas risadas poderia ter dado, quantas vivências boas poderia ter criado caso não fossem os inúmeros compromissos?
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  Ao se afastar de quem amava, não entendia a profundidade de como renunciava igualmente a si. Deveria ter aproveitado mais, ter se feito mais presente, ter... Vivido.
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  Jamais recuperaria os anos desperdiçados os quais, às vezes, passava mais tempo montada em virtude de ir aos compromissos, cercada de câmeras, microfones e holofotes — logo, longe do mundo real.
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  Só quando terminou de cantar notou como chorava, as grossas lágrimas molhando o rosto.
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  Como João havia ido embora pouco antes de Rodrigo cantar, se deparou somente com João sentado na cadeira logo em frente ao pequeno palco.
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  — Bravo! — Se levantou em sorriso orgulhoso, algo similar a admiração perpassando o olhar. — Pensei que nunca mais ouviria essa voz novamente.
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  — Desculpe. — Secou a face com o pulso, a voz entrecortada. — Não queria atrapalhar.
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  — Não atrapalhou. Pelo contrário. — Parou rente ao palco, lhe despertando curiosidade pela leveza incomum nos traços. — Te ouvir cantar é ótimo. Me recorda dos momentos mais alegres da minha vida. É a primeira vez que canta essa música. Algum motivo em particular pela escolha?
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  — Nenhuma. Apenas gosto da letra.
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  O silêncio se instaurou, a atmosfera mudando no passar dos segundos enquanto se fitavam.
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  Por fim, quem decidiu quebrar o silêncio desconfortável foi o dono do lugar.
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  — Se lembrou de Alya, não foi? Vem. Vamos pra casa. Temos muito a conversar. Inclusive, quero que me conte o seu verdadeiro nome. Não posso te chamar de Heitor agora que se lembra da sua vida.
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