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ATENÇÃO!

História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

O Espaço Criativo não se responsabiliza pelo conteúdo das histórias hospedadas na sessão restrita ou apontadas pelo(a) autor(a) como não próprias para pessoas sensíveis.

Doce Trapaça

Escrita porZsadist Xcor
Revisada por Lelen

Parte do Pop-Up Criativo #2 – Escreva seu livro.


Capítulo 8

  A mudança na vida de Annanda foi radical no período em que Rodrigo foi dado como morto e Doralice permanecia dopada na clínica psiquiátrica de maneira clandestina sem a mínima chance de sair.
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  Sob o apadrinhamento de Lucas, conquistava aos poucos seu espaço no mundo artístico.
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  Graças à fortuna herdada por Rodrigo no testamento, desfrutava de parte da herança para arcar com as músicas as quais seriam tocadas e indicadas para os ouvintes nas plataformas digitais.
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  Ao contrário das décadas passadas, o mercado atual ignorava o talento. Com o advindo da Internet e da evolução tecnológica, tudo se tornou mais rápido e prático, acelerando processos e modificando o cenário do comércio. Como consequência, o aspirante poderia ser promissor performer, dançar, cantar, atuar e trabalhar nas mais diversas façanhas do meio. Entretanto, se o indivíduo não tivesse dinheiro para aplicar na carreira, de nada os esforços e as capacidades valiam.
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  Além disso, bancaria para as músicas de alguns profissionais da área não fossem tocadas e nem indicadas na barra de pesquisas das plataformas digitais, prejudicando esperançosas pessoas que buscavam por uma única chance.
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  Ao contrário do amante, quando descobrisse acerca das tramoias futuramente, não sentiria culpa e nem remorso. Pelo contrário. Se tranquilizaria porque, pela sua concepção, se empenhava em atingir os objetivos. Afinal, caso fossem esforçados ou talentosos o suficiente como ela, lutariam também para ganharem seus respectivos lugares entre os vitoriosos — mesmo se fossem indignos perante a irmã de Rodrigo.
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  Simultaneamente, graças a Lucas, com quem se relacionava às escondidas por ser conveniente o influencer continuar mais reservado com o falecimento de Alya apesar do estado de luto estipulado pelo homem estar chegando ao fim, conseguiu contatos para colocarem ainda mais capital na carreira dela como cantora.
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  Na tarde de sábado, fazia ensaios fotográficos. Usaria as fotos para promover o lançamento do primeiro álbum, já que as novas músicas rodavam nas plataformas digitais e apareciam em novelas. Fechar contrato com famosa gravadora depois de direcioná-la para se aproximar das pessoas certas não o surpreendeu, visto como a máscara social feminina era impecável beirando à perfeição — o oposto transmitido por Lucas, devido ao homem não esconder seus defeitos.
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  Como Annanda era bastante persuasiva e captava rapidamente através da intuição a personalidade das pessoas, foi fácil se enturmar. Era carismática, engraçada na dose certa para cada um com quem fosse se relacionar. Com o magro corpo curvilíneo, usava da sedução a seu favor. Agia de maneira como se não tivesse dimensão dos calculados gestos sensuais, captando os olhares de quem estivesse no espaço consigo — e adorava a atenção recebida, assim como sempre desejou.
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  Em contrapartida, se encarregava de não haver oponentes — e caso surgisse alguma pobre coitada, Deus ajudasse a infeliz.
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  Era ágil em sabotar quando se sentia ameaçada. Rasgava ou manchava roupas ao ajeitar objetos sobre a superfície de modo a arruinar as vestes — precisou segurar o riso quando, certa vez, a taça de vinho derramou por completo no belo vestido branco da loira de vinte e três anos, não lhe restando outra alternativa além de se retirar do almoço. Também subornava com certa frequência os garçons para despejar substâncias ilícitas na bebida da vítima ou simplesmente espalhava mentiras ou criava fofocas, destruindo a intacta imagem da garota.
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  E era óbvio que jamais havia como ligarem Annanda aos acontecimentos terríveis — inclusive pela ida de uma bela jovem no auge dos vinte anos ao hospital por intoxicação alimentar e internação de outra aspirante a atriz de musicais por grave reação alérgica a camarões.
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  Observando a cantora esbanjar sensualidade em poses elegantes trajando ousado conjunto com elementos tipicamente roqueiros, se recordava da conversa na semana anterior com o produtor escalado para desenvolver o álbum de lançamento.
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  — Lucas, serei franco contigo.
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  Sentados lado a lado em cadeiras confortáveis, dialogavam sozinhos na sala da gravadora do estúdio, a aparelhagem de som na frente deles.
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  Se esforçava em tomar água sem reclamar para não receber olhares acusadores de Patrick. O produtor tinha histórico de alcoolismo na família, então detestava bebida.
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  — Annanda é ótima — prosseguiu se recostando. — Linda, sensual, carismática... Só há um problema.
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  — Qual?
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  — Ela não canta. Não tem esse talento. É desafinada, não alcança as notas e nem aceita fazer aulas de músicas com os professores os quais indiquei.
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  — Nisso concordamos. — O sorrisinho era de escárnio. — Ouvi-la aqui tem sido perturbador nas gravações. — A careta demonstrava como era franco. — É um pesadelo.
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  — O material gravado tem potencial pela batida, a atmosfera e a letra. O problema é aquela voz horrenda.
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  — Então podemos aproveitar o que foi desenvolvido até aqui. Seria dinheiro jogado fora se colocarmos tudo a perder.
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  — O que tem em mente?
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  — Bom, seria fácil modificar a voz dela pelo auto tune, né? Ela não seria a primeira cantora a recorrer a esse artifício.
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  — Seria válido, sim, mas... Sabe como sou. Apesar da minha posição no ramo, sou apaixonado pelo universo musical. Não aceitaria trapacear de forma tão baixa sem ganhar nada em troca.
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  Até acreditaria nele se não tivesse ouvido o timbre real de quatro cantores que já passaram por Patrick.
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  — Qual o seu valor?
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  — Quinze por cento dos lucros de cada lançamento. Aí, sim, ajustarei a voz dela pra soar bem aos ouvidos.
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  — Isso será fácil. Alterarei as cláusulas do contrato.
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  — Ótimo. Passe amanhã de tarde mais tardar na minha casa pra eu assinar o documento após examiná-lo com os meus advogados.
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  — Não imaginava de você ser tão descrente assim no potencial humano.
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  — Participamos do mesmo mundo podre. A diferença é que estou há mais tempo. Já vi muito e aprendi a não subestimar nem aqueles que considero inferiores a mim.
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  Lucas engoliu em seco, se controlando para não rebater a ofensa.
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  O financiamento de Patrick viria com o valor proveniente dos jogos de azar — e o influencer já havia se tornado um milionário, viajando, pagando seus luxos e investindo na carreira de Annanda com o dinheiro de quem, inclusive, havia se matado por não conseguir pagar as dívidas.
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  Viva às bets, a maior fonte de renda de Lucas.
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  Heitor se lembrava do desconhecido todas as noites quando se deitava na cama, saudoso do calor corporal e de como se sentiu protegido pela presença física. Sonhador, se recordava sabor do meigo beijo em suspiros prolongados se perguntando a razão do acontecimento impactá-lo em demasia.
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  Ao contrário dos momentos de paz oriunda da recordação, os sonhos se tornaram mais turbulentos.
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  Repletos de imagens desconexas, era confrontado acerca do passado traumático. Os rostos e diálogos eram familiares, ainda que não conseguisse montar o confuso quebra-cabeça. Faltavam peças, as lacunas não permitiam a correlação entre as frases e o comportamento de várias pessoas eram dúbios — em particular a mulher quem sempre surgia de maquiagem carregada e lhe causava ânsia.
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  Em contrapartida, seguiu o conselho de Igor.
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  Escrevia músicas cujo instrumental diferente para cada letra não saía da cabeça. No tempo livre se debruçava nas folhas, compondo em paixão admirável — e assim nasceu Love on the Brain, que se tornaria grande sucesso quando voltasse aos palcos com o álbum de retorno.
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  Após quase trinta dias de angústia, o sonho naquela noite em específico lhe marcou.
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  Ao contrário das vezes anteriores, a translúcida barreira protetora desapareceu assim que o homem saiu do quarto em disparada batendo a porta com violência.
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  Aflito por acompanhar cada golpe recebido pela figura encolhida no chão, correu até ela pra socorrê-la.
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  Parou na frente da moribunda, temeroso de se assustar pelo repentino aparecimento. Era tão indefesa...
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  A simpatia natural motivou a briga.
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  Sentada na espelheira onde se montava, o outro surgiu num rompante quando ia levar o lenço umedecido ao rosto para retirar a maquiagem.
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  Alterado pela bebida, a puxou pelo braço desferindo sonoro tapa, a obrigando a cambalear e cair de costas se desequilibrando pelos saltos finos.
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  O primeiro pensamento ao ser esbofeteada era que não queria que mais um belo vestido fosse destruído — em especial esse inspirado nas belas atrizes Hollywoodianas da década de 40 cuja fenda deixava a perna esquerda à mostra.
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  — Você é muito fácil, mesmo. — Em ar de superioridade e cheio de coragem pelo frenesi da cocaína, o namorado a encarava de olhos injetados. — Putinha barata.
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  — Do que você está falando, Lucas? — Tentando se levantar, o rosto ardia na área onde foi agredida.
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  — Não se faça de boba. Eu vi como se esfregava no filho da puta do entrevistador.
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  — Eu não fiz nada — rebateu, incapaz de conter as lágrimas de humilhação. — Ele só foi gentil comigo e eu simpática no decorrer da entrevista. — Era difícil se pôr de pé pela tênue tonteira, o cérebro demorando em assimilar a situação.
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  Irado, a ergueu segurando os ombros cobertos pela fina alça. Rugindo, jogou Alya contra a parede com toda a força, o impacto da cabeça contra a superfície dura arrancando muxoxo de dor.
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  Sem lhe dar trégua, agarrou a cantora pelo pescoço. Acompanhou como lutava para respirar em satisfação doentia, a face se arroxeava por ele apertar mais e mais a região no passar dos segundos. Travava a passagem de ar em júbilo por gostar de subjugá-la — afinal, eram os únicos momentos quando se reconhecia superior a ela.
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  — Você só tem que ser simpática comigo. — As pálpebras arregaladas a assustavam. — Não aceito que mais ninguém se interesse por você, putinha.
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  Quase desmaiando diminuiu o aperto. Sem desconectar do agarre, afastou a artista alguns centímetros e a empurrou novamente para a cabeça colidir contra a parede. Só então a soltou.
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  Desabou em acesso de tosse, a marca das digitais se formando onde foi apertada.
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  Não se compadeceu pela figura caída no chão. Vulnerável, tossia rouca, o alívio por finalmente respirar sem complicações durando meros instantes.
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  — Caso tenha se esquecido quem é o seu namorado, te farei lembrar.
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  Demorou muito pra as agressões cessarem. Desferiu vários golpes e chutes pelo tronco. No rosto se contentou em estapear sem restrições em meio às súplicas as quais lhe repugnavam.
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  Não a enxergava como nada além de uma ferramenta de alcançar o objetivo — ter seu espaço como influencer famoso. Por já haver lhe proporcionado isso, suportava Alya porque o relacionamento deles dava excelente lucratividade. Marcas os contratavam para publicidade, participavam de programas e os nomes estavam nos eventos e festas mais concorridos — sem mencionar os milhares de fãs do casal.
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  Hoje, a enxergava como objeto que lhe gerava lucro. Nada além.
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  Logo, como a via como um objeto, não sentia remorso, empatia e nada além — e quando isso acontece, embora a pessoa seja capaz de detectar e compreender que causava sofrimento na vítima, simplesmente não se importava por ser o mesmo que rasgar uma folha de papel em branco.
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  Não lhe causava dor — e se concentrava em atingir as partes do corpo onde as roupas seriam capazes de esconder, como o abdômen, as costas e as coxas.
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  Quando se deu por satisfeito, após quinze minutos de violência gratuita com direito a quebrar um jarro de flores nela, saiu alegando que se encontraria com pessoas mais interessantes que a cantora.
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  Agora, Heitor temia até de toca-la. As escoriações eram várias, assim como os cortes superficiais na derme.
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  Compadecido, se ajoelhou perante ela. Encolhida no chão em choro compulsivo, não pareceu se incomodar ou percebê-lo.
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  Devagar, afastou os fios loiros da lace até revelar a lateral da face cuja maquiagem, outrora bonita e intacta, estava borrada.
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  — Moça. — O receio aumentou devido a ver o quão destruída emocionalmente ela estava — Vem. Fica aí, não.
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  — Por que não? — Soluçou desolada, se negando a levantar a cabeça.
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  — Porque chão não é lugar de gente. Vem. Eu te ajudo a se reerguer.
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  Achou curioso o vislumbre do sorriso de Alya, sem captar como ela aprovou a inconsciente escolha de palavras.
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  Com dificuldade, a ajudou a sentar na cama, puxando o longo vestido quase totalmente destruído pela surra.
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  Por detectarem que o ombro direito estava descolado, ela arfava por Heitor colocá-lo no lugar.
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  Não encostava a cabeça na cabeceira pela região estar sensível.
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  — Obrigada. — Aceitou o lenço guardado no bolso do rapaz quando o ofereceu. — É gentil da sua parte começar a cuidar de mim. — Soluçando, deslizou o macio pano no rosto, secando as lágrimas.
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  — Não se preocupe. — Se acomodou no colchão vazio.
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  O silêncio pesou entre eles.
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  Vasculhou o quarto com o olhar, concluindo como aquele lugar tinha potencial para ser acolhedor e tranquilo sem a presença do agressor.
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  — Está tão quieto.
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  Sobressaltou com a voz macia, se dirigindo a ela.
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  — O que quer me perguntar?
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  — Hum... — Crispou os lábios em busca da melhor escolha de palavras. — Por que você está com aquele cara?
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  — O Lucas?
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  — Sim. — Torceu o nariz por não gostar do nome.
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  — Eu o amo.
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  — Justifica ser tratada pior que bicho por ele? — O tom era incrédulo.
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  — Não, não — se apressou a dizer. — O Lucas não foi sempre assim. Quando o conheci, era maravilhoso. Bonito, engraçado, carismático, bondoso... Não imagina como me fazia rir. Foi impossível não me apaixonar. Era incrível. Dizia que eu era linda, me conquistava com ações doces, palavras bonitas e sempre se lembrava de mim. Volta e meia me trazia algum presente ou até mesmo cartinhas ou uma flor.
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  Contava com o semblante se tornando mais leve, como se recordasse de tempos mais alegres de sua vida.
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  — E então as coisas mudaram. — A angústia perpassou a fisionomia. — Depois de iniciarmos nosso relacionamento, percebi que havia coisas em mim capazes de provocar o pior lado dele. Além disso, o Lucas está passando por muita mudança na vida dele. Não está acostumado a uma rotina caótica e corrida como a minha. É impossível não se afetar por causa disso. Me resta relevar. É só uma fase ruim. Vai passar.
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  — Se sente à vontade de responder umas perguntinhas?
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  — Claro.
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  — Cite cinco pontos negativos seus.
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  — Sou chata, insignificante, tímida, burra e insegura.
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  — Cite cinco pontos positivos.
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  Dez segundos se passaram sem falar nada.
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  — Você não se ama — murmurou Heitor perplexo com a voz carregada de ar. — Como pode não se amar?
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  — Eu não tenho nada a oferecer pra ninguém. Olha pra mim. Sou digna de pena. — Cruzou os braços, o movimento simples lhe gerando uma onda de dor nas articulações.
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  — Você é digna de pena, sim, mas pelo motivo que nunca cogitou.
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  — Qual?
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  — Porque aceita ser tratada como merda por quem deveria desprezar. Ele não te ama, minha querida.
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  — Como não se o Lucas insiste em ficar comigo?
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  — Porque a convenceu que nunca conseguirá alguém melhor que ele. Se tornou refém dessa relação horrorosa, isso se dá pra chamar de relação. Não demorou nem três segundos pra levantar os seus pontos negativos e até agora não reconheceu um único ponto positivo. Querida, pra qualquer relacionamento de base saudável acontecer precisa de duas pessoas inteiras. Do contrário, como isso irá se sustentar se você precisou de alguém para lhe dizer coisas bonitas por você ser incapaz de reconhecer o seu próprio valor? É fácil demais tirarem vantagem de você nesse cenário.
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  — Então o quê? Vou ficar sozinha?
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  — Vai ficar na companhia de quem te respeita, te ama e se importa contigo. E o maldito não se encaixa em nenhuma das categorias.
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  — Falar de mim sem estar na minha pele é fácil — o provocou de nariz empinado. — E você? Consegue gostar de quem você é hoje?
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  A interpelação o pegou desprevenido.
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  Pestanejou em reflexão profunda até concluir, a paz no coração se acentuando no decorrer do monólogo:
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  — Posso dizer que sim. Não sei quem eu era no passado. Apesar do meu cérebro teimar em esconder as informações, consigo aceitar e compreender meu lado luz e lado sombra depois do convívio junto às pessoas certas. Sou bastante diferente de João e Igor, inclusive eu vir de outra geração esclarece muitas das nossas divergências. Dentro de nossos respectivos posicionamentos e personalidades, não invadimos a personalidade um do outro ou nos arriscamos a impor nossas vontades. Pelo contrário. Notei como com eles não passei por julgamentos e nem críticas destrutivas. Me ampararam como puderam sem exigências honrando minha identidade. Talvez esse nem seja o meu lugar. Entretanto, só pelo fato de eu me fortalecer, reconhecer minhas potencialidades e fraquezas e aceitá-las, sinaliza quanto me fortaleci ao longo do tempo. É um avanço significativo, né?
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  O lento sorriso dado por ela foi adorável, finalmente atingindo as íris castanhas.
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  — Bastante — concordou Alya. — Agora me encontro mais forte pra prosseguir contigo. Está de acordo em levar adiante a conversa de hoje?
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  A confusão o tomou pela mensagem.
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  — Claro. Só não entendo um detalhe.
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  — Qual?
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  — Você me parece estranhamente familiar.
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  Apesar do contexto pouco favorável para o humor ser manifestado, a sonora gargalhada dela contagiou Heitor por suavizar os traços.
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  — Não me reconhece? — Tímida, tampou a mão com a boca.
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  — Não. — Mais aliviado depois do diálogo, compartilhava do mesmo sorriso. — É quase como se eu já a tivesse visto. Apenas não lembro onde ou em qual contexto nos esbarramos, querida.
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  — Bobinho. — Esticou a palma até acariciar a bochecha alheia. — Eu sou você. Ou melhor, a parte que precisava ser curada o suficiente para lidar com os sofrimentos sem adoecer. Agora, sim, poderemos retornar. — Os globos se intensificaram, se tornando enigmáticos e perspicazes. — Já chegou o momento de se recordar de tudo o que vivemos, não acha?
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