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ATENÇÃO!

História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Doce Trapaça

Escrita porZsadist Xcor
Revisada por Lelen

Parte do Pop-Up Criativo #2 – Escreva seu livro.


Capítulo 16

  Durante os dias seguintes, planejaram juntos as primeiras ações para Rodrigo recuperar a sua vida.
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  Não reclamou quando o amante tomou a liberdade de enviar mensagens para antigos amigos quem não viam há bastante tempo.
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  Entrementes, logo notaram como havia um empecilho específico capaz de atrapalhar o retorno do cantor aos palcos.
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  A perna piorava.
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  Os remédios se tornavam mais frequentes, assim como a quantidade ingerida. Acabou se vendo obrigado a entregar a Gabriel os dias e os horários dos compromissos para evitar de se atrasar devido às dores.
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  Para se adequar aos horários do rapaz, recorreu à Aline, quem o substituiria na casa de festa da qual era responsável nos dias em que precisaria receber os clientes.
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  — Já foi num médico? — Preocupado, franziu o cenho no carro em direção a cafeteria.
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  — Sim. Eu precisaria operar pro osso calcificar no lugar correto, mas o custo é inviável. Tenho outros gastos, como o aluguel ou alimentação. Fora a demora no serviço público.
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  — Eu posso arcar com o valor.
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  — Não vejo necessidade. Já está...
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  — Bobagem. Não existe a possibilidade de você recusar. Além disso, não é nenhum trabalho. Já estou estabilizado na vida o suficiente pra ajudar alguém de grande importância pra mim.
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  — Acho que a palavra “amigo” se encaixaria na frase.
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  — Talvez, se eu não tivesse te tirado da minha vida, certamente você não teria passado por tudo aquilo.
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  Notou certo tom de ressentimento, algo similar a amargura permeando as palavras.
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  — Como pode garantir?
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  — Porque eu jamais permitiria alguém te fazer mal. Detesto da ideia de que abri espaço pro desgraçado do Lucas se aproximar de você. Se arrependimento matasse...
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  — Não há como mudar a realidade.
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  — Mas posso te compensar no processo de recuperação. Considere como a reparação por danos passados.
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  — Ma...
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  — Já está decidido. Não voltarei atrás. Pegarei a indicação de ortopedista com a minha prima. Até lá, procure não forçar muito a perna.
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  — É, trabalhando como garçom é impossível não forçar a perna.
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  Reprimiu o riso por receber o olhar zangado como resposta.
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  Demorou trinta e dois dias para Gabriel reunir as pessoas necessárias dentro de casa — e deu graças a Deus pelo Feriado do Trabalhador em questão cair na sexta-feira.
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  Como o combinado previamente com o rapaz, convidou Lílian, Guilherme e Carla — o trio que seria responsável por trazer Alya de volta aos palcos no futuro.
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  Embora fizessem parte de realidades diferentes, na época quando saía com Rodrigo desenvolveu amizade com eles, então a única dificuldade em reuni-los foi encontrar um dia onde todos teriam disponibilidade.
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  — Gente... — avisou após ler uma mensagem no celular interrompendo a conversa amistosa do grupo. — Eu sinto avisar, entretanto não os chamei exatamente para só conversarmos.
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  — Soou sério demais pro meu gosto. — Lílian ajeitou os óculos de hastes quadradas recostada no sofá.
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  — Pelo amor de Deus. A última coisa que preciso hoje é de seriedade — contrapôs Guilherme. — Faço literalmente de tudo um pouco pra manter meu estilo de vida e há um bom tempo não tiro as minhas amadas férias.
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  — Desculpa por estragar os planos. É que há um assunto bem importante pra vocês tratarem que exige enorme discrição de todos. Comentei que seríamos só nós quatro. Não fui totalmente verdadeiro. Existe um convidado especial aguardando lá fora.
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  — Quem é essa pessoa? — Carla pediu brincando com a cachorra sentada no chão. — A conhecemos, por acaso?
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  — Sim. Gostam muito dela também, se a minha memória estiver correta. — Se dirigia a porta. — Vou buscá-la no portão. Nos aguardem aqui, por favor.
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  Ao abrir o portão, se deparou com a figura ansiosa quem carregava a mochila nas costas.
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  — Está tudo bem? — Acariciou a face alheia, enxergando como havia certo temos nos traços.
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  A conversa aconteceu aos murmúrios, a intimidade potencializada pelas confidências trocadas no delicado momento.
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  — Sim. — Pestanejou soltando o ar quente pela boca. — Todos chegaram?
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  — Chegaram. — Resvalou a palma pelo corpo até repousar na cintura do rapaz. — Escuta, não precisa entrar em detalhes sobre a tentativa de assassinato se não se sentir confortável em compartilhar essas informações.
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  — Será necessário pra compreenderem melhor a situação. Só... — Agitado, engoliu em seco encolhendo os ombros. — Eu não sei se... — Inquieto pela incapacidade de permanecer parado, coçou a testa, entrelaçando as falanges nas de Gabriel sem notar. — Fica perto de mim. — A voz denunciava a fragilidade, os globos banhados em docilidade. — Eu me sinto mais forte quando estou contigo.
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  — Você não se sente. Você é forte. Talvez apenas tenha descoberto isso nos últimos tempos porque não houve outra opção. Não se subestime. Tudo bem?
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  — Tudo bem.
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  — Está pronto?
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  Assentiu com a boca seca.
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  — Vem. Não me afastarei de você.
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  O puxou para si fechando o portão em seguida.
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  Como se para prepará-lo, deixou um meigo beijo demorado na testa onde o vinco entre as sobrancelhas desapareceu aos poucos.
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  Ao retornar com a mão entrelaçada na do rapaz em lembrete constante de como o apoiaria, acompanhou as reações de espanto.
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  As vozes femininas foram ouvidas em uníssono grito agudo. Guilherme, empalidecendo, se agarrou ao braço do sofá. Ivy ganiu em reclamação pela mudança súbita do ambiente e correu pro quintal para se refugiar.
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  O misto de assombro e descrença perpassava as faces do trio, incapazes até de reproduzirem funções corporais básicas como piscar.
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  Encolhida no sofá, Lílian tampou a boca com as mãos sem crer na capacidade visual.
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  — Oi, gente. — Rodrigo engoliu em seco.
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  — Ro... Rodrigo... — Tirando os óculos como se para ter certeza de que não era nenhuma alucinação, Lílian ousou dar três passos na direção do rapaz. — Você... Eu fui ao seu enterro. Eu chorei diante do seu caixão. Vi os destroços do jatinho. Como... Como...
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  Antecipando os movimentos dos demais, Gabriel se deslocou para trás do rapaz onde descansou as mãos nos quadris alheios mantendo a promessa.
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  De súbito voltou a mirar os amigos, verificando que não enlouquecera. Tonta, o fitou com as lágrimas embaçando a visão.
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  — Estou vivo, Lili. — Tão emocionado quanto ela, as próprias lágrimas escorriam pelo rosto. — Estou vivo — reforçou em murmúrio baixo.
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  Devagar ergueu os braços até alcançar a bochecha com as pontas das falanges, o coração pulsando forte contra o peito. Só aceitou que gozava de juízo perfeito quando tocou a área macia, reconhecendo a textura da derme que maquiou inúmeras vezes no passado.
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  Arfando, a mulher lhe deu caloroso abraço onde ambos choravam copiosamente pelo reencontro.
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  Juntos, Guilherme e Carla saíram dos respectivos lugares às pressas. Sem hesitar e meio atrapalhados, seguiam suas emoções ao se juntarem aos abraços calorosos.
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  — Calma aí, gente. — Sorrindo em satisfação pela cena, Gabriel dizia cambaleando para trás. — O deixem respirar pelo menos.
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  — Ai, amigo. — Secando os olhos, o primeiro a se afastar foi Guilherme. — Desculpa. Eu nem mesmo... Nem sei... — balbuciava sem finalizar as frases de tão atordoado.
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  Impulsiva como era, Carla de imediato apanhou a almofada e a usou para bater nele na bunda.
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  — Por que se fingiu de morto, menino? Esqueceu que tem gente aqui que te ama, por acaso? A gente sofreu igual uns filhos da puta, inferno! Não fiz outra coisa por três meses além de chorar, porra!
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  Gabriel até poderia impedi-la, mas a gargalhada de Rodrigo era de felicidade genuína.
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  Pelas circunstâncias já do seu conhecimento acerca do desaparecimento e aliadas ao frequente semblante mais taciturno após os eventos traumáticos, desconfiava de o cantor precisar construir novas memórias positivas. Logo, não interferiu na interação cujas risadas masculinas lhe enchiam o coração.
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  Só não imaginava que isso já vinha acontecendo desde quando se reencontraram na cafeteria e voltaram a sair.
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  Sem perceber, sensibilizado pela alegria perpassar as feições de Rodrigo, o sorriso fechado foi discreto, assim como acompanhou em estado de júbilo o comportamento da dupla por saber como a mulher realmente era amiga dele.
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  — Eu vou responder — conseguiu proferir após ela jogar a almofada no sofá. — Só há um detalhe. Não podem em hipótese nenhuma revelar o meu relato pra ninguém. Não dá pra saberem que estou vivo. Ainda não.
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  — É melhor se sentarem — avisou Gabriel. — A história é longa.
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  Acomodados num pequeno círculo no chão onde Gabriel se posicionou atrás do rapaz recostado em si, contou acerca da tentativa de assassinato sem entrar em detalhes do relacionamento abusivo com Lucas — afinal, deduziam facilmente como era conturbado o namoro por não aprovarem o influencer.
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  — Eu falei que esse bicho ruim era problema na sua vida. — Enérgico, Guilherme não escondia a revolta. — Detestei a praga logo de cara. O que mais me emputece é ter dado chance pra quem claramente não prestava — rebateu em tom duro.
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  O produtor musical ignorou o olhar recriminador de Gabriel.
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  — É, mas eu era um imbecil apaixonado! Nunca ia pensar que se juntaria a minha irmã pra tentar me matar. — Incisivo, elevou o tom em três oitavas, a tênue expressão de desespero transformando as linhas faciais.
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  Em alerta para qualquer sinal de sentimento complicado para o artista lidar, roçou o nariz pela nuca objetivando tranquilizá-lo.
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  — Amigo, seja sincero. — Carla lhe tocou os joelhos encolhidos. — Não percebeu nada?
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  Meneou com a cabeça desgostoso.
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  — Não imagina como me culpo por isso todos os dias da minha vida. — Soava amargurado.
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  — Foi o Lucas quem te afastou da gente, né? — Carla o fitava penalizada. — Você nem respondia as minhas mensagens. Sumiu por meses. Quero dizer, a gente estava acostumado com os seus compromissos e por não para quieto, mas aquilo era demais. Mesmo na correria não deixava de nos responder, nem que fosse por um sinal de fumaça.
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  — Eu achava que era amor da parte dele, proteção. — Crispou os lábios se recusando a chorar pela desprezível figura. — Agora, pensando melhor, agia como se fosse meu dono. Minha vida girava em torno dele, então o obedecia em tudo. Estava cego dentro daquela relação onde eu sequer tinha voz.
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  — Por que não nos procurou? Conversou conosco? — Lílian estava incrédula. — Se havia algo de errado, era pra nos procurar. Não iríamos te dar as costas.
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  — Eu não enxergava desse jeito. A minha vida se resumia em tentar agradá-lo. Precisei quase morrer e perder a memória pra perceber que quanto mais buscava meios de receber qualquer mísera aprovação ou gesto de amor, mais eu era agredido ou desprezado. Longe dele e com a mente menos anuviada, consigo compreender melhor as coisas. O Lucas me usou pra ascender como influencer digital. É evidente. Pra isso até fingiu gostar de mim.
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  — Não se menospreze, amigo — Guilherme pediu, compadecido.
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  — Gui, ele fingiu ser gay.
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  — Como assim? — Em gesto tenso, Lílian esfregava as mãos em ação inconsciente.
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  — O Lucas é hétero. Fingiu gostar de homem pra namorarmos. Eu fui um imbecil! Deveria ter desconfiado porque...
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  Soluçou interrompendo a fala. Não arriscaria em se aprofundar no assunto.
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  Ao contrário dos outros, Lílian passou por experiências dolorosas demais até obter sucesso na carreira. Logo, graças a gama de vivências negativas, detectou o vislumbre de algo estarrecedor no semblante andrógeno sobre o segredo cuja única pessoa pra quem confessaria seria Gabriel em futuras circunstâncias delicadas.
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  Os olhares se cruzaram, Rodrigo assimilando pela fisionomia pesarosa como a amiga descobriu a sua maior dor.
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  Assentiu discretamente em confirmação silenciosa.
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  O soluço a seguir foi suficiente pra Gabriel envolvê-lo nos braços e levar os lábios até a orelha para sussurrar:
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  — Não precisa contar tudo. Lembra? Está tudo bem. — Beijou a têmpora o acalentando enquanto abraçava o tronco. — Está tudo bem.
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  — Tem notícias da minha mãe? — Fungou mudando de assunto.
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  Não estava preparado para compartilhar a parte mais amarga da relação com o ex-namorado.
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  — Não fazemos ideia — avisou Guilherme cruzando as pernas. — A gente tentou entrar em contato, mas não atende ao telefone, não responde mensagens e nem atualiza as redes sociais.
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  — Já até perguntei pra vaca da sua irmã. A única resposta foi que ela não queria nada conosco — assegurou Carla com um toque de desdém na fala ao imitar a voz de Annanda.
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  — Se quiser eu posso...
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  — Não — interrompeu Guilherme. — Por enquanto só vocês quatro podem saber sobre mim. Bom, há outros propósitos motivadores pra eu orquestrar esse reencontro junto com o Gabe.
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  — Qual? — Lílian ajeitou os óculos.
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  — Eu quero voltar. Eu preciso voltar. — O tom amargurado de outrora deu lugar a urgente seriedade decidida. — Não é justo aqueles malditos roubarem a minha vida. Esbanjam meu dinheiro, Annanda está indo nos eventos onde eu deveria estar, ambos usufruindo do meu dinheiro e morando na minha casa. Afinal, se aquela porra está no meu nome, então ela é minha, independentemente de ter vivido um verdadeiro inferno ali por causa do Lucas quando morávamos juntos. O que me dá mais ódio é como a desgraçada está usando até dos meus rascunhos. O álbum de lançamento usou das letras escritas por mim ao longo dos anos sem serem lançadas porque os empresários não permitiram. Aquelas músicas são minhas. Eu as escrevi. Ela não merece nenhum crédito por nada.
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  — Fora que é completamente desafinada, né? — debochou Carla. — Já a ouvi cantando no camarim uma vez e foi desastroso. Meus tímpanos doem só de lembrar.
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  Assim como Lílian, Carla era cantora. Trabalhava em programas de televisão onde cantava em grupo ou em eventos do mundo artístico. Também era convocada para substituir atores em musicais caso eles não pudessem comparecer a todas as sessões.
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  — Fora a terrível fama nos bastidores — prosseguiu Guilherme ajeitando a cabeleira loira e recolocado o boné laranja. — Corre a boca miúda como é grossa com quem é responsável por maquiagem, figurino e afins. Até humilhar publicamente já humilhou.
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  — Não me surpreende. Sempre foi meio venenosa. — Gabriel descansava as destras nas coxas do rapaz, acariciando a região por cima da bermuda. — Detestava a forma como ela falava contigo, inclusive, bunny. — Resvalou a ponta do nariz nos fios lisos. — Nunca a ouvi sequer te elogiando. Só se vangloriava pelas viagens para o exterior as quais saíam do seu bolso.
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  — Queria eu não ter feito pouco caso dos seus avisos na época. — Torceu o canto da boca em sinal de incapacidade. — Pega ali a minha mochila?
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  Gabriel a entregou sem esforço ao esticar o braço no sofá.
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  — Eu já tenho tudo em mente. — Apanhando a pasta após retirá-la do interior da mochila, abriu as divisórias entregando as folhas cujos conteúdos se referiam aos respectivos serviços dos profissionais presentes. — Os figurinos, as músicas, as letras, a mudança no visual, os arranjos musicais, as harmonias, os clips... Está tudo aí. Passei todo esse tempo elaborando o meu álbum de retorno cuja roupagem é completamente destoante de tudo que produzi. Sabe, parando pra analisar, Alya era a versão drag de mim. Não tinha identidade própria. Era passiva, não contestava, não se posicionava, era boazinha, a voz dela não era ouvida, engolia sapos, não estabelecia limites... Nada. Eu quero mudar isso. Não sou mais aquela pessoa quem um dia fui antes de tentarem me matar. E acho que jamais voltarei a ser.
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  Durante o monólogo observou as reações enquanto ponderavam acerca dos esboços do material.
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  Folheando as páginas, Carla exibiu sorriso orgulhoso já aprovando os rabiscos amadores dos figurinos onde, em imagens mais amplas, desenhara também os elementos que comporiam as vestes para mostrar os detalhes.
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  — Não quero continuar parecendo uma menininha pura e indefesa — prosseguiu o rapaz. — Quero explorar outros aspectos da minha personalidade. Amadureci bastante ao longo desse tempo, então acho plausível demonstrar isso através da minha arte. Carrego muita raiva. Foram experiências conturbadas que me obrigaram a mudar. De certa forma estarei contando a minha história. Creio ser a maneira adequada de expurgar os acontecimentos dos últimos anos.
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  — Deu pra perceber aqui. — Guilherme lhe lançou um olhar enigmático onde havia a centelha tênue de animação em trabalhar no novo projeto.
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  — Só não posso me arriscar do Lucas e da Annanda saberem sobre mim ou o meu retorno. Não quero colocar nada a perder — os alertou.
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  — E como pretende voltar pros palcos se todos conhecem a sua voz? — inquiriu Lílian analisando as letras junto a Guilherme.
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  — Durante esse tempo fiz aulas de canto para aprimorar uma habilidade inexplorada porque minha antiga equipe, ou melhor, meus empresários gananciosos pra não os chamar de sanguessugas miseráveis não a aprovavam.
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  — Qual?
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  — Eu sei cantar tanto em timbre feminino quanto em masculino.
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  Aquilo chamou a atenção do produtor cuja expressão impassível escondia como gostava das letras.
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  A inexpressividade de Guilherme desencorajaria qualquer pessoa quem se deparasse com a falta de aprovação ou interesse. Entretanto, Rodrigo sabia que servia de comprovação sobre como enxergava potencial no material.
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  — É, mesmo? Então como você cantaria... — Apanhou o título Going Under, interessado em como soaria pela atmosfera ser visivelmente mais densa, cujo instrumental explorava o gênero de rock. — Essa daqui? Gostaria de ouvi-la em ambas as vozes, se possível.
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  O quarteto se surpreendeu positivamente com Rodrigo. Além de ambas as vozes casarem com a letra profunda, notaram como ninguém reconheceria caso gravasse com o timbre masculino.
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  Os queixos das cantoras caíram, embasbacadas com a extensão vocal do amigo quem não tivera outra oportunidade de explorar o dom. Guilherme, por sua vez, tinha as pupilas detalhadas, já elaborando meios de arcar do próprio bolso com os gastos da produção do novo álbum.
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  — Posso estar me precipitando, mas reconheço ouro quando me deparo com ele. — Trocou olhar cúmplice com as outras duas ao término da música. — Teremos muito trabalho daqui pra frente, Rodrigo, ou melhor, Alya.
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  Os globos castanhos brilharam em expectativa enquanto recebia um beijo na bochecha de Gabriel.
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