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ATENÇÃO!

História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

O Espaço Criativo não se responsabiliza pelo conteúdo das histórias hospedadas na sessão restrita ou apontadas pelo(a) autor(a) como não próprias para pessoas sensíveis.

Doce Trapaça

Escrita porZsadist Xcor
Revisada por Lelen

Parte do Pop-Up Criativo #2 – Escreva seu livro.


Capítulo 17

  Havia muitas características positivas na personalidade de Doralice.
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  Poderia citá-las sem esforço por reconhecê-las. Humildade, bom-humor, positividade, respeito pelos seres vivos e às diversidades mundiais e inclinação natural para cuidar das pessoas.
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  Só uma era capaz de prejudicá-la nas atuais circunstâncias.
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  Empatia.
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  Em consequência, apesar do aviso constante do seu lado racional de como aquilo a colocaria em sérios problemas — como se estar trancada numa clínica psiquiátrica, longe de quem conhecia, sem ninguém confiável ao redor e abandonada não fosse o suficiente — não demorou em concordar na loucura planejada por Ana às escondidas.
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  Não lhe restara outra opção.
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  As cicatrizes nos pulsos pálidos de Ana sinalizavam até que ponto iria para não voltar a ser abusada — e a imagem dela desmaiada no quarto com o sangue escorrendo dos cortes não desapareceria da mente.
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  Existia mínima possibilidade de o plano funcionar por recorrerem a assistência de uma funcionária cuja saúde mental deteriorava aos poucos por não concordar com os crimes cometidos ali — dos quais ela própria foi designada a manipular documentações, além de os acobertar e alterar remédios para torná-los alucinógenos, evitando, assim, de pacientes receberem alta.
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  O trio conversava separadamente ao longo das semanas, elaborando cada passo aos sussurros discretos.
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  A tarde escolhida era destinada a visita de familiares e amigos, então, quando foi ao banheiro, Ana se encaminhou até a última cabine trancada de propósito pela enfermeira. Retirando a chave escondida de dentro da fronha do travesseiro se preparando para sair do quarto, destrancou a porta e precisou conter o choro ao encontrar a muda de roupas.
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  Ao se retirar do banheiro usava tênis branco, calça jeans larga e blusa de mangas para ocultar as cicatrizes nos pulsos. Repartiu ao meio os longos cabelos para esconder a identidade dos funcionários mantendo a cabeça baixa.
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  Daria certo caso o atento enfermeiro não a tivesse reconhecido passando pelo corredor, já avistando a saída que daria para o jardim.
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  Reprimiu o berro de frustração por ser agarrada na cintura, se debatendo na tentativa de fugir.
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  Como medida de segurança, Doralice a observava desde a entrada no banheiro se mantendo longe apenas o suficiente para interferir se fosse necessário — e soube que era preciso quando o funcionário careca chamou por Ana quando ela passou por ele.
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  Não havia tempo para pensar. Agiu por instinto visando o bem da garota cuja esperança lhe foi tirada ao ser agarrada na cintura pelos braços masculinos.
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  O lápis de ponta fina jazia no balcão quando o homem marchava logo atrás da paciente. Aproveitando a oportunidade, se apressou a ir até o local, onde o apanhou. Seguiu o homem a passos firmes com os braços rentes ao corpo, apertando o objeto na palma direita, o nó na garganta se formava por temer os resultados da impulsividade e falta de recursos disponíveis para impedi-lo.
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  Sabia como as ações violentas lhe trariam terríveis complicações na clínica, principalmente porque não existiria ninguém de confiança com quem poderia trocar confidências ou sequer buscar algum tipo de conforto.
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  A despeito de tantas desvantagens, se recusava a não ajudar a única pessoa com quem conversou de verdade ali.
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  Quando o alcançou, instantes depois dele agarrar Ana, cravou a ponta do lápis na clavícula masculina, repetindo o ataque vezes consecutivas enquanto o sangue fluía dos pequenos buracos.
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  Pego de surpresa, largou Ana pela dor inesperada sem compreender o acontecimento. A garota, por sua vez, aproveitou a oportunidade que não voltaria a surgir caso não se movesse, a consciência pesando pelos eventos evidentes os quais atingiriam a mais velha. Sem pestanejar, incentivada pelo senso de sobrevivência, correu em direção a saída sob os gritos motivadores femininos.
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  Em meio a risos vitoriosos que seriam classificados futuramente no arquivo da clínica como resultados de um surto psicótico, a mãe de Rodrigo era imobilizada por outros enfermeiros e sedada, cessando os movimentos até desmaiar graças a medicação aplicada na veia.
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  Assim, Ana conseguiu fugir dali.
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  Através das câmeras, no dia seguinte, descobririam a pessoa responsável pelo acontecimento durante a minuciosa observação das imagens das câmeras pelo diretor.
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  A mulher beirando aos cinquenta anos seria despedida e morta em questão de horas a mando de Armando para evitar dela denunciar o estabelecimento criminoso.
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  A vaga seria preenchida meses depois por quem poderia, de fato, facilitar a retirada de Doralice do estado deplorável que se encontraria pela nova enfermeira levar informações valiosas sobre a paciente para a única pessoa capacitada pra resgata-la — além de colaborar para reuni-la com o filho.
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  As semanas seguintes foram caóticas para o futuro casal.
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  Os encontros de Rodrigo com a equipe aconteciam ao longo do período noturno, o único horário disponível para o quarteto.
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  Por vezes Gabriel ia para o salão estar presente nas festas — casamentos, formaturas, aniversários e afins — após organizar a casa onde o outro recepcionaria as pessoas quem comporia a nova equipe cujos participantes trabalhavam arduamente no horário que era destinado para se descansarem ao invés de estarem trabalhando no novo projeto bastante promissor.
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  Os amigos descobriram aos poucos os profundos impactos das violências sofridas pelo rapaz.
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  Se tornou mais taciturno que o normal, observando os comportamentos de quem o rodeasse. O semblante, outrora tranquilo apesar do constante cansaço na época, agora era mais sério, as linhas endurecidas deixando a face mais fria, o olhar mais analítico e o tom sem a gentileza característica de antes dominar as íris escuras. Expunha a opinião acerca do material apresentado sem temores de como seria a receptividade, ponderando as alternativas apresentadas por eles e se assegurando da última palavra ser a sua.
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  A conduta sinalizava o quão farto estava de ser manipulado. Por anos não tinha voz sobre a arte a qual produzia. Quem tomava as decisões eram os empresários visando lucratividade às custas de sua saúde, o subordinando a ir aos shows mesmo doente, exausto ou os dois fatores juntos. Como resultado, se contentou com a imagem rasa e sem substância a ser explorada de menina boazinha escolhida por eles, além de acumular nesse decurso inúmeras letras as quais jamais seriam gravadas por fugirem do perfil construído — perfil esse que servia para reafirmar tanto a passividade perante a própria carreira quanto a subjugação da vontade dos empresários.
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  Agora, na nova fase, a necessidade de expor a opinião e afirmar o posicionando era pujante demais para ignorar. Nem percebia quando recusava alguma ideia ou concordava com outra, ponderando sobre o tecido das roupas mostrados pela estilista ou os sons mostrados por Guilherme, quem adicionava as batidas, alterava as melodias ou aumentava o volume de determinados instrumentos acatando as requisições de Rodrigo até alcançar aquilo imaginado pelo cantor.
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  A complexidade do trabalho de mexer nas músicas era tão desgastante e tão trabalhoso que Guilherme suspirava de alívio quando Rodrigo demonstrava o contentamento esboçando mínimos sorrisos vitoriosos.
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  Labutou com o trio também para iniciar o processo das gravações o mais rápido possível.
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  Sob a supervisão de Guilherme e com Carla e Lílian ao seu encalço, ia para o estúdio na gravadora onde gravava uma série de demos, iniciando o desenvolvimento do seu retorno na carreira artística. Cantava as letras movido pelas emoções embutidas em cada letra onde contava a história de sua vida — desde amores infelizes até metáforas sobre ser vítima dos mais diversos abusos ou manipulações.
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  Quando as canções fossem divulgadas, angariaria novo público fiel por muitos se identificarem com as histórias expressas através da forma artística onde dava voz às vítimas das violências vivenciadas por Rodrigo.
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  Os lançamentos aconteceriam através das plataformas digitais, onde, Guilherme bancando o valor do capital para as músicas rodarem no digital, se recusaria do amigo gastar um centavo sequer.
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  — Pode esquecer. — Rebateria sem se exaltar durante o diálogo particular no escritório do produtor — Aceite minha generosidade como uma recepção amistosa de boas-vindas. Eu não seria considerado um bom amigo caso aceitasse o seu dinheiro nas atuais circunstâncias. Só continue exercendo bem o seu trabalho, além de dar um jeito nessa perna. Se mantenha em forma. Me garanta isso.
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  — Algum motivo em especial? — desconfiado pela escolha de palavras, pendeu a cabeça pro lado.
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  — Há uma data aí bem interessante se aproximando. Se surgir a oportunidade de encaixarmos a sua primeira aparição pública nela num show onde cantará alguma das suas novas músicas no álbum, será perfeito.
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  Visivelmente interessado, conjecturou enquanto a mente trabalhada.
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  — Qual o porte do evento, Gui?
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  — Grande. Será televisionado e inúmeros trechos sem dúvida pararão na Internet.
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  — Se acontecer, eu precisaria de, talvez, uma vibe pop, mas sem descartar a personalidade mais forte a qual estou construindo.
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  — Tem algo em mente?
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  — Sim. Em breve te entrego a letra.
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  Lílian, em contrapartida, além de participar dos vocais ao fundo junto a Carla, nas horas vagas aproveitava para filmar ou registrar os momentos através também das fotos — isso tudo sem fotografar diretamente o rosto de Rodrigo, mantendo a identidade oculta visando, inclusive, usar o mistério para promovê-lo.
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  Nesse ínterim, se apressava a cuidar da perna.
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  Foi a especialistas os quais avaliariam seu caso na companhia de Gabriel, quem insistia em estar ao seu lado para se inteirar sobre o tratamento.
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  Retornando da consulta, não encontrou desculpas suficientes para negar Gabriel de conhecer o lugar onde morava.
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  Afinal, quase todos os dias ia para a casa do outro. Qual razão o impossibilitaria de recebê-lo?
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  — Por que, caralhos, você não queria...
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  Quando a luz foi acessa por um Rodrigo contrariado, compreendeu o motivo de haver tantos empecilhos criados pelo cantor para não entrar no ambiente.
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  O lugar era minúsculo, composto somente por três cômodos — sala, cozinha e banheiro. Por não haver divisórias separando o espaço com exceção do banheiro, dava a impressão de serem um lugar só. A única janela na sala era a responsável por arejar o interior. Os poucos móveis velhos potencializavam a precariedade da modesta residência.
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  — Já respondendo as perguntas na sua cabeça, meu salário não é dos melhores. — Acabrunhado pelo outro ter dimensão sobre o seu estado financeiro, sentou no sofá puxando as mangas da camisa azul. — O aluguel daqui é barato. O que sobra é pra pagar as aulas de canto, a luz, a água e gastar na minha alimentação.
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  Graças a última frase, se lembrou de como o rapaz se fartava de comer quando ia para a sua casa.
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  Passaria dias carregando culpa por não desconfiar de nada.
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  A passos largos foi até a geladeira. Ao abri-la, se deparou com a metade de uma maçã, três legumes e água.
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  Escondendo o descontentamento, fechou a porta e se encostou nela. De frente para Rodrigo, enfiou as destras nos bolsos traseiros da calça.
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  — O que geralmente você tem comido?
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  — Miojo, cuscuz e sopa com o que tiver na geladeira quando estou aqui. Na cafeteria dou um jeito de comer escondido as sobras dos clientes quando surge a oportunidade. O valor nutricional não é grande coisa, mas o cuscuz e a sopa compensam. — O sorriso forçado não atingiu as íris.
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  Gabriel não ocultou a contrariedade pela tentativa alheia de ameninar a situação ao inflar das narinas.
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  — Tira a camisa — pediu seco.
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  — Como? — Pestanejou, a sombra de receio perpassando o semblante.
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  — Confia em mim. Quero verificar uma coisa.
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  Graças aos instantes de silêncio onde o conflito interno era transmitido na fisionomia andrógena, completou suavizando a voz:
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  — Não tema a mim. Me aproximarei se você permitir. Não antes disso.
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  A demora em acatar ao pedido junto às reações corpóreas as quais demonstravam o nervosismo — respiração pesada, maxilar travado e angústia estampada na face — lhe convenceram que, talvez, houvesse algo ainda não revelado.
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  Por precaução, se pôs de pé para o caso de precisar fugir. Engoliu em seco abrindo devagar os botões da peça larga, a hesitação estampada no tremular dos dedos. Sentiu o tecido deslizar pela derme até retirá-la, a deixando cair sobre o sofá onde costumava dormir.
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  Nunca manifestou resistência ou incômodo ao ficar com o dorso desnudo, então a reação foi, no mínimo, peculiar.
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  De ombros encolhidos, cruzou os braços sem manter o contato visual na tentativa de se esconder de Gabriel — ou melhor, disfarçar a comprovação inegável das suas dificuldades financeiras.
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  Caso o mirasse, detectaria que não existia volúpia nele.
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  O interesse era outro.
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  — Posso me aproximar?
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  Ainda de cabeça baixa, assentiu receoso.
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  Em atmosfera carregada de sensibilidade, quebrou a distância notando como a fragilidade alheia acentuava ao longo dos segundos.
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  Parando diante do cantor, repousou o indicador sob o queixo. Aplicando força mínima, o impulsionou para cima, Rodrigo acompanhando o movimento em aceitação até se contemplarem.
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  — Está com medo de mim, bunny? — sussurrou iniciando lento afago na região com o polegar.
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  — Não.
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  Ignorando questionamentos profundos os quais desconfiava dele não querer lhe proporcionar, pediu:
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  — Então me deixa te olhar. É meu único pedido pra você essa noite.
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  O aguardou paciente até se decidir.
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  Se não fosse pela condescendência apresentada nos globos azuis, certamente Rodrigo se recusaria a acatar a súplica.
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  Mordiscando o lábio inferior, abaixou os braços em silêncio revelando o dorso cujos ossos da clavícula eram evidentes.
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  Se afastando o suficiente para olhá-lo como almejava, o observou melhor em ar penalizado, deduzindo que usava as roupas de números maiores objetivando esconder como beirava à subnutrição — e compreendendo como se esquivava de abraços desde o reencontro com a nova equipe.
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  Os ossos dos quadris estavam proeminentes. Quase não havia tecido muscular. Os membros superiores afinaram ao longo dos meses desde a chegada a cidade.
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  Se encolheu em antecipação por Gabriel resvalar as digitais em toque sutil pelo tronco, acompanhando os vãos deixados pela magreza excessiva.
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  De início se retesou em consequência do registro sensorial dos traumas sofridos. Entretanto, logo detectou como não havia agressividade ou invasão ali. Não passava de simples averiguação de sua saúde — ou a possível falta dela.
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  — Você não está comendo direito. — Pelo pulso, o puxou para mais perto de si o fitando. Enlaçou os quadris, as pontas dos dedos roçando na lombar.
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  — Estou fazendo o meu melhor dentro das minhas possibilidades. — Engoliu em seco, o compreensível olhar penetrante lhe transmitindo conforto. — Acaba não me restando muito dinheiro. Me viro como dá.
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  — Eu sei. — Deixou um meigo beijo na testa, o sentindo, enfim, relaxar em suas mãos. — Esteja ciente do seguinte. O quero a partir de amanhã indo pra minha casa todos os dias pra se alimentar. Almoce, lanche ou o que quer que seja por lá. Vou deixar a cópia da minha chave contigo. Se não aparecer, vou deixar compras suficientes para três meses na sua porta.
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  — Você já...
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  — Foda-se. — Como se para convencê-lo, encostou a testa na do cantor, os lábios a centímetros de distância — Eu o quero bem. Saudável. Não suporto a ideia da sua saúde ser afetada porque, por enquanto, não pode dispor do mínimo pra se cuidar como deveria. — Arrastou a boca até alcançar a orelha, onde sussurrou em confidência mesmo estando sozinhos. — Não permitirei que continue passando por essas necessidades. Por que não recorreu a mim?
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  — Eu não queria que sentisse pena de mim ou te atrapalhar.
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  — Não sinto pena de você. O admiro. É diferente. — Ergueu a palma e enterrou as falanges nos fios lisos em gesto amoroso. — Não tenha pensamentos distorcidos sobre mim. Seu bem-estar é importante demais pra não me afetar caso você passe por qualquer tipo de adversidade.
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  As palavras o atingiram com força, alcançando o machucado coração repleto de dores cujo vagaroso processo de cicatrização começou quando João o visitava no hospital com regularidade.
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  Lutando contra a emoção, Rodrigo o abraçou em ato impetuoso. Descansando a cabeça sobre o ombro, fechou as pálpebras assimilando a valiosa informação por detrás das palavras ouvidas.
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  Gabriel não estava interessado no que Rodrigo poderia lhe proporcionar. Pelo contrário. Se preocupara com a sua saúde, se ele, Rodrigo, estava bem e saudável.
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  Não havia moeda de troca ou benefícios úteis.
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  Existia somente...
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  Zelo.
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  Quase esquecera de como era alguém se preocupar genuinamente consigo sem ressalvas.
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  Ouvindo o primeiro fungar e notando como se agarrava a sua blusa, Gabriel os direcionou para o sofá onde se deitou levando Rodrigo consigo, quem se encaixou nos braços — assim como aconteceu tantas vezes em contextos distintos, o aconchegante calor familiar os banhando em harmoniosa união indispensável para ambos.
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  Não levantou questionamentos invasivos. Não reagiu de modo a querer aprofundar as carícias. Apenas ofereceu um lugar de repouso, o porto seguro onde poderia desabafar sem se explicar ou verbalizar as angústias por ainda não estar pronto — e a decisão de se calar seria respeitada.
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  O mais valioso era protegê-lo ao invés de interrogá-lo, então a mensagem na ação não foi despercebida por Rodrigo.
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  — Conte comigo pra tudo, bunny — sussurrou arrastando os dedos nas costas o acolhendo. — Sempre.
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