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ATENÇÃO!

História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

O Espaço Criativo não se responsabiliza pelo conteúdo das histórias hospedadas na sessão restrita ou apontadas pelo(a) autor(a) como não próprias para pessoas sensíveis.

Doce Trapaça

Escrita porZsadist Xcor
Revisada por Lelen

Parte do Pop-Up Criativo #2 – Escreva seu livro.


Capítulo 15

  Saindo da aula de canto, a aura denunciava o conflito potenciado ao longo dos dias. Pedalava com o cenho franzido, o íntimo atordoado e a respiração pesada. Cerrou os dentes tomado pela derrota da batalha entre a razão e a emoção onde a emoção foi a ganhadora que o obrigou a tomar a controversa decisão.
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  Alterou a rota, entrando em ruas e virando em esquinas diferentes das quais costumava acessar no caminho de casa.
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  Quando chegou ao destino cuja rua estava vazia pelo horário de sábado, o pôr do sol clareava os fios castanhos os deixando em tom acobreado. O coração palpitava em ansiedade, convencido que a aceleração cardíaca era devido ao cansaço. Seria até plausível se estivesse cansado.
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  Com sabor agridoce do último encontro na boca e a culpa martirizante de ignorar as mensagens de celular enviadas por Gabriel pesar no peito, avistou o endereço onde se acostumou a ir nas últimas semanas.
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  Descendo, tamborilou os dedos o guidão como se o ato fosse lhe motivar.
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  Deixando a bicicleta encostada na parede cinza, foi até o portão automático. Apertou a campainha mordiscando o canto da unha.
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  Pela fisionomia de Gabriel trajando apenas o short puído, não se surpreendeu de como ele já sabia quem era o visitante repentino — talvez até tivesse hesitado em atender devido à demora de quase dois minutos completos.
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  Afinal, verificava quem era pela câmera de segurança projetada na entrada, assim como comentou num dos passeios com a cachorra.
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  Transpareceu a carranca impaciente ao se deparar com a figura vacilante de Rodrigo ali.
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  Em outras circunstâncias se compadeceria com o melindre apresentado. Todavia, havia lacunas demais a serem preenchidas, questionamentos demais por parte de Gabriel desprezados por Rodrigo.
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  Logo, era claro como isso daria problemas os quais chegaram antes do previsto por ambos.
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  — Ora, ora. — Cruzou os braços, impassível, sem se incomodar em demonstrar a chateação com Rodrigo. — Está pouco se fodendo pras minhas mensagens, mas não hesita em bater na minha porta, né?
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  Se retesou pela provocação irônica, onde, por ínfimo momento, Gabriel detectou a aflição estampada no semblante alheio cuja reação demorou menos de um segundo, o fazendo duvidar da própria impressão.
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  Em contrapartida, o cantor não permitiu se abater.
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  — Estava ocupado organizando as minhas coisas. — Ergueu o nariz em sinal de orgulho. — Não é sempre que tenho tempo pra trivialidades.
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  Empurrou o interior da bochecha com a ponta da língua, a fisgada de cólera congelante perpassando as íris pelo disparate.
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  — Engraçado. — A risada não continha humor. — Se a minha memória não falha, você dava um jeito de falar comigo mesmo cheio de compromissos naquela agenda horrorosa há alguns anos e eu comecei a sair com a minha cachorra de noite só pra estar na sua companhia. A vida adulta é assim, Rodrigo. A gente não tem tempo pra porra nenhuma, então precisamos arranjar tempo pra quem e para o que é importante.
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  Estremecido pela escolha de palavras em virtude da verdade presente nelas a qual seria impossível rebater, engoliu em seco abaixando a cabeça.
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  — Não é tudo que eu posso contar — murmurou derrotado.
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  — Meu cú! — retrucou inconformado. — Não poder é diferente de não querer. E é esse o caso.
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  — Eu não tive escolha! — replicou o encarando de súbito, a voz engrossando por começar a se alterar. — Você não sabe um terço das merdas que passei. Se soubesse não estaria me julgando. — Estava à beira de perder o controle, a enorme gama de emoções o assolando a cada sílaba dita.
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  — Então por que me procura? — A frieza era tamanha que a gentileza característica no olhar havia desaparecido. — Quer transar e é tímido demais pra pedir? Não me leve a mal, mas, se for o caso de querer relembrar os velhos tempos, poderia ser mais direto.
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  A frase o atingiu como ácido derretendo a carne do peito até atingir o coração, quase o impedindo de rebater em tom asqueroso.
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  — Eu não quero nada contigo. — O desdém era evidente, inclusive por se sentir encurralado, quase como uma presa indefesa frente ao predador de quem não poderia escapar do terrível fim.
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  A frase os abalou de formas distintas — Rodrigo por trazer a pontada de dor quando a escutou saindo dos lábios de Gabriel pela primeira vez e Gabriel por descobrir como Rodrigo se sentiu a ouvi-las há alguns anos.
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  — Então por que está aqui? — o confrontou movido a irritação em fisionomia dura, a voz cortante pela exigência.
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  O tom rouco ecoou nos ouvidos alheios em alerta de como precisava derrubar ou, na melhor das hipóteses, transpassar a abarreira de proteção ao redor a qual evitava de pessoas o acessarem desde a chegada a cidade.
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  — Porque estou farto de sentir saudade de você! — explodiu enrubescendo por, enfim, optar pela franqueza.
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  Sustentando o contato visual, se mantiveram calados enquanto os respectivos cérebros registravam a mensagem, os organismos reagindo de maneiras opostas às palavras ditas.
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  Um queria fugir, mesmo que os pés estivessem fincados demais no chão para se distanciar como desejava.
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  O outro queria acalentar o coração através de registros corporais, embora compreendesse que ainda não havia chegado o momento para isso.
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  Por enquanto.
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  Empalideceu por depreender como revelou a verdade sem maquiá-la, o aspecto do misto de perplexidade e receio transformando a atmosfera carregada entre eles até se modificar por completo em algo quase diluído, como se não houvesse mais expectativas e ambos assimilassem que se aproximava da oportunidade de estarem juntos novamente — algo que assustava Rodrigo.
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  Graças ao olhar perdido do artista pelos globos se moverem mirando em qualquer coisa ao redor de Gabriel ao invés do homem em si e da boca entreaberta se julgando mentalmente, soube o momento exato quando o cantor se retiraria.
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  Ao fazer a menção de fugir, Gabriel evitou o afastamento segurando o braço desnudo em toque tênue cujo objetivo era ressaltar para Rodrigo que a decisão de permanecer ou não fora entregue ao cantor.
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  — Você pode ficar, mas com duas condições — avisou em tom harmônico, a fisionomia mais branda pela confissão brusca do rapaz a qual se alegrou dele expressar através de palavras. — Vai me contar o que aconteceu contigo ainda hoje quando se sentir mais confortável.
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  Pestanejou em nervosismo pela intimação.
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  — Qual é a segunda? — perguntou em voz engasgada.
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  Distinguindo como a afabilidade voltava a banhar os globos azuis os derretendo como se fossem águas do mar, a face andrógena foi tomada pelas palmas cujos polegares acariciavam devagar as maçãs do rosto.
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  Verificando que a rua estava deserta para não correrem o risco de sofrerem ataques homofóbicos, hábito adquirido ao longo da vida para se proteger, o olhar era tão penetrante que despertou no outro a vontade de beijá-lo.
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  — Que nunca mais volte a dizer que não quer nada comigo — sussurrou em voz carregada de ar, deixando a atmosfera mais sensível entre eles.
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  — Por quê?
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  — Porque eu sei que é mentira e não imagina como me arrependo de ter dito isso pra você.
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  Assim, sem dizer mais nada, passou o braço sobre o ombro o puxando para si cujo contato ambos careciam. Deu três passos para trás e fechou o portão.
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  O romance de Rodrigo com Gabriel não iniciou da maneira cujos parâmetros ocidentais ditavam.
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  Ao contrário de outros países, no Brasil, há a fase de cortejo, onde duas pessoas se aproximam movidas à curiosidade e à atração.
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  Pelo menos, era no que Rodrigo acreditava.
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  No primeiro encontro íntimo com Gabriel exatos sete dias após se conhecerem na comemoração de aniversário, se martirizou pela falta de informações. Não descobrira se o homem estava num relacionamento amoroso ou não. Logo, se atentando ao detalhe tarde demais em virtude das atividades recentes, a dúvida pairava no ar no momento menos oportuno — mais especificamente com os corpos ofegantes deitados lado a lado na cama, ambos nus, satisfeitos e extasiados.
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  Perplexos, buscavam compreender como a química foi instantânea — ou melhor, como as últimas três horas haviam sido repletas de prazer e afeto mútuo de ambas as partes e como, infernos, sabiam os pontos sensíveis um do outro sem sequer terem comentado a respeito previamente.
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  — Sabe... — A testa de Rodrigo suava ao se posicionar deitado na lateral do tronco. — Há bastante tempo não transo assim.
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  Assim como seria explicado dentro de poucos minutos, o outro apenas tinha energia suficiente para gesticular — com bastante esforço.
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  — Você não é muito de falar, né? — Nos grandes olhos castanhos perpassavam a incerteza se a sua presença era desejada.
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  Afinal, aprendeu como era terrível sinal quando a outra parte evitava de conversar. Em consequência por realmente ter gostado da companhia de Gabriel para além do maravilhoso sexo, torcia para a impressão ser recíproca.
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  Novamente a gesticulação muda, agora acompanhada por caretas desconexas.
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  Se o olhasse, veria como o rapaz murchou e detectaria a importância de se expressar verbalmente.
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  Apesar da situação ser mais cômica do que dramática, carecia de palavras concretas cujo entendimento não ficaria a encargo por completo da interpretação alheia.
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  Portanto, em erro de análise, aceitou o desinteresse para além do sexual ao ler um dos gestos de maneira errada.
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  — Quer que eu vá embora? — Soube esconder bem a decepção, soando como se não existisse a pontada de dor da rejeição no peito.
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  O olhar recebido foi um misto de “Está louro?” com “Como ousa me perguntar algo tão desconexo da realidade?”
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  Pela falta de palavras faladas, é claro que interpretou como “Lógico. Você não passou de uma foda gostosa.”
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  Forçando o sorriso cuja alegria não se estendia aos globos castanhos, avisou como se não o abalasse.
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  — Tudo bem. Nos vemos por aí.
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  Ao fazer a menção de se levantar, o pulso foi segurado o impedindo de se afastar.
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  — Pra onde caralhos você vai?
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  Se não fosse pelo histórico de experiências amorosas negativas, identificaria o cansaço, assim como o desespero na voz entrecortada.
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  O mirou por cima do ombro, assimilando a confusão na fisionomia exausta.
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  — Ué, embora. Foi o que me pediu.
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  Assombrado, piscou três vezes com a perplexidade transformando a face.
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  — Eu não pedi isso. — Não poderia soar mais ultrajado.
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  — Assim, quando você não se comunica comigo por palavras, dificulta a minha compreensão.
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  — Vou esclarecer as coisas. — Engoliu em seco reunindo as forças restantes, torcendo para a proposta final ser aceita. — Você me deu um chá que eu nunca tomei na vida. Vá por mim, isso é difícil. Agora, se tiver qualquer mínima consideração pela minha pessoa, pode, por favor, sossegar aqui? Não parecia tão ansioso em ir embora, então presumo que não seja algo de sua inteira vontade.
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  Agora, sim, o lento sorriso formado alcançou o olhar.
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  Gabriel pensou jamais ter visto um sorriso tão adorável ou doce como aquele — e não hesitou em beijar de novo os rosados lábios inchados pelas atividades das últimas horas, o trazendo consigo para a cama.
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  A união experimentada pelos dois ao longo daquele dia desde quando Rodrigo entrou na casa de Gabriel foi linda. A harmonia era mútua, o prazer era delirante, os diálogos agradáveis e os momentos regados de carinho.
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  É claro que se tornaram importantes um para o outro sem ressalvas. Trocavam mensagens diariamente, nos momentos entre os compromissos o rapaz o atualizava de seu paradeiro enviando fotos e trechos de entrevistas, ensaios ou de qualquer outro compromisso.
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  Seriam o casal perfeito caso não fossem alguns pontos cruciais — a agenda de Rodrigo, a impaciência de Gabriel e a incompatibilidade de horários disponíveis.
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  A rotina de Rodrigo era extenuante. Não abria margem para relações mais profundas com quem não estivesse no mesmo meio de trabalho do meio digital ou artístico. Por precisar comparecer aos compromissos no decorrer das semanas, se via incapacitado de ir as comemorações dos familiares e amigos cuja conformidade já era habitual da parte deles pela frequente falta de presença dele — inclusive alguns desistiam de convidá-lo nas reuniões ao longo dos anos.
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  Pena que Gabriel não sabia disso.
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  Logo, farto pelo cantor não ir ao seu aniversário, na inauguração da casa de festa da qual era dono e das festividades familiares onde os presentes ansiavam em conhecê-lo, se convenceu de que o sentimento era unilateral, inclusive de nunca terem explorado tal aspecto — embora agissem como se fossem um casal apaixonado.
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  Na última tentativa de mantê-lo em sua vida, na manhã seguinte após aguardá-lo por três horas para jantarem juntos moqueca de camarão, a refeição alheia preferida, guardou a comida em diferentes potes os quais o rapaz encontrou embalados em cima da mesa enquanto Gabriel assistia televisão.
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  — Amor, desculpa. — Fechava a porta em expressão tristonha. — O voo atrasou...
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  — Não se preocupe, Rodrigo. Eu Já imaginava.
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  Rodrigo congelou no meio da sala.
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  Incapaz de avançar para beijá-lo assim como planejava, entreouviu como a atmosfera era densa, quase palpável, o obrigando a paralisar no lugar.
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  Terrível prelúdio do que viria.
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  — Leve. — Sem o fitar, meneou a cabeça na direção da sacola onde os potinhos estavam dispostos; — Se estiver com fome, é só esquentar pra comer em casa.
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  Se odiava por uma parte sua insistir em agradar a pessoa cujos sentimentos eram indiferentes para consigo.
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  Além disso, acompanhando Alya nas redes sociais, via como Lucas se aproximava dela e como a presença era cada vez mais frequente nos conteúdos postados nas respectivas páginas — sem mencionar a proximidade física. Na noite anterior verificou como ambos pareciam bem juntos enquanto, derrotado, retirava a mesa com sabor amargo na boca.
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  A decepção não poderia ser maior, então até pra dormir teve dificuldade.
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  — Ué... — A voz trêmula denunciava o desconforto. — O que aconteceu com o bunny?
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  — Desapareceu no instante quando descobri que não quero nada contigo.
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  Não achava necessário comentar os pormenores escondidos na fala. Se fosse pra se afastar, se afastaria aparentando indiferença a invés de sofrimento — mesmo que prendesse o choro e essa fosse a motivação para evitar encará-lo.
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  A mentira afetou Rodrigo pior que um soco no estômago, igualmente convencido de que Gabriel não o amava — no caso dele, por razões distintas do comportamento atual.
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  Pro rapaz, a cena funcionava mais como a confirmação das suspeitas oriundas do resultado do impacto psicológico de uma série de tentativas de relacionamento amoroso infrutíferas e questões voltadas para a baixa autoestima, a falta de amor-próprio e a falta de confiança em si as quais refletiam na sua vida.
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  — Eu era só uma foda boa pra você, né? — lutava contra as lágrimas, se esforçando para as sílabas alcançarem as cordas vocais.
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  — Garantida — assegurou o olhando pela primeira vez.
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  Se amaldiçoou pela vontade de querer abraçar a figura visivelmente abalada quem, assim como Gabriel, tentava conter as lágrimas. Entretanto, o orgulho precisava sobrepujar a qualquer outra emoção, detestando a ideia de demonstrar fraqueza perante o cantor.
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  — Deixa a chave na mesa, Rodrigo. Não há mais necessidade de voltar a frequentar o meu apartamento, afinal.
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  Só quando escutou o som do bater da porta permitiu desabar.
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  Gabriel se manteve calado enquanto escutava o longo relato de Rodrigo.
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  Apenas começou a contar ao cair da noite. Nem percebeu o que o incentivou a falar. Não compreendeu se foi graças a atmosfera relaxante, se estava na companhia da única pessoa com quem desenvolveu laço afetivo no passado, se foi o calor aconchegante emanado pelo corpo alheio por se deitarem no espaçoso sofá-cama ou se pelo cafuné relaxante recebido.
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  À princípio, se deslocou para longe de Gabriel em silêncio. A vergonha aflorava pela humilhação que foi aludir acerca da própria tolice por admitir em voz alta a sórdida traição sofrida de duas pessoas das quais pensou, um dia, ama-lo na mesma proporção que os amava.
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  A gama de emoções era densa demais. Narrava o acontecimento violento em agonia, o misto de degradação e dissabor o assolando.
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  Gabriel tentou se aproximar para trazer qualquer mínimo conforto, mas respeitou a recusa dele ao se encolher perante qualquer mísero movimento. Compreendendo a importância de lhe proporcionar aquele espaço, se manteve no lugar — mesmo contra a sua vontade.
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  Acomodados das extremidades do sofá, quebrou a distância para, enfim, consolá-lo graças ao olhar lançado em pedido silencioso de apoio. Derramava grossas lágrimas, finalizando pela primeira vez em voz alta o relato dos acontecimentos terríveis vivenciados no dia quando sofreu a tentativa de assassinato. Terminou entre engasgos, no colo do homem quem lhe acariciava as costas em afagos gentis sem se importar da derme desnuda molhar graças as contato corporal direto.
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  — Eu quero voltar, Gabe — balbuciava, o rosto avermelhado pelo pranto pujante o fitando ao invés de permanecer deitado no vão entre o pescoço e o ombro — Tenho as músicas escritas, os arranjos na minha cabeça, desenhos das roupas, o estilo, os clips... Todo o material está guardado na minha mente, mas não há como eu voltar sozinho. Preciso recuperar a minha vida. Não é justo aqueles malditos continuarem esbanjando o meu dinheiro, principalmente porque eu sobrevivi.
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  Engoliu em seco, compreendendo a situação pelas lacunas serem preenchidas. Detestava a ideia de o rosto de traços andrógenos ser tão banhado pela amargura a qual ofuscava um pouco do seu brilho interno natural.
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  Queria vê-lo novamente bem, sem tamanha dor refletida no rapaz.
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  Logo, a certeza presente nas palavras não poderia soar mais verdadeira e a fisionomia não poderia ser mais decidida ao perguntar:
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  — Como posso te ajudar, bunny?
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