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ATENÇÃO!

História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

O Espaço Criativo não se responsabiliza pelo conteúdo das histórias hospedadas na sessão restrita ou apontadas pelo(a) autor(a) como não próprias para pessoas sensíveis.

Doce Trapaça

Escrita porZsadist Xcor
Revisada por Lelen

Parte do Pop-Up Criativo #2 – Escreva seu livro.


Capítulo 7

  O trio desfrutava das positivas mudanças no bar.
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  Ganhou novo nome, novo estilo e nova identidade visual.
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  Agora, era alegre espaço familiar onde pessoas comemoravam o aniversário, crianças se divertiam na área destinada a elas e vários turistas iam lanchar.
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  Para organizarem melhor o trabalho, contrataram novos cozinheiros os quais eram comandados por João. As vagas de garçons também foram preenchidas — e é claro como Heitor era o destinado para receber os aniversariantes que comemoravam os aniversários lá, assim como criava conteúdo nas plataformas digitais cujos números de seguidores apresentava crescimento satisfatório, assim como os comentários repletos de elogios pela boa experiência. Transitavam pelo ambiente no uniforme com as cores do estabelecimento, prontos e ágeis em servirem as pessoas e trazerem os pedidos saborosos. Igor ficava no caixa, onde rapidamente efetuava os pagamentos e manuseava o dinheiro, as transferências Pix e as máquinas de cartão.
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  As paredes, antes cinzas e sem vida, hoje eram cobertas pelas cores azul claro e lilás. O rodízio bem servido era bastante diverso, contendo desde massas como macarrão à bolonhesa até petiscos como linguiça acebolada servidos em tábuas generosas. Havia espaço para transitar cuja ocupação por pequena aglomeração era comum devido ao karaokê onde até os garçons iam cantar ou dançar, objetivando animar os fregueses, que iam desde a população local até os mais diferentes turistas — e era comum os atendentes estudarem inglês e espanhol nas horas vagas para compreenderem melhor os estrangeiros.
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  O karaokê foi verdadeiro sucesso, se tornando a marca registrada do local.
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  Movido pela esperança de preparar o terreno o qual estaria a seu favor pra concretizar os propósitos futuros, o dono do estabelecimento aceitou a sugestão do rapaz sobre a instalação para o karaokê — e o dia quando foi testado jamais seria esquecido por Igor.
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  Durante a tarde, auxiliava na pintura quando ouviu a voz melodiosa, se recordando de quem a neta era fã.
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  Perplexo, se virou devagar, o instrumento de trabalho pingando no jornal embaixo de si e a roupa manchada com a tinta.
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  De queixo caído, os olhos vidraram no rapaz sentado no pequeno palco construído em função de quem usasse o karaokê. De costas, cantava melodiosa música de famosa cantora americana em inglês perfeito, a potente extensão vocal encorpava a voz se moldando a cada nota da melodia.
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  O pincel caiu na mão, finalmente decifrando a real identidade de Heitor.
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  Apenas não revelou porque sabia que ele ainda não estava pronto para entrar em contato com suas sombras, então, contar quem era e mostrar fotos poderia causar malefícios pela delicada condição.
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  Todavia, não significava que não poderia direcioná-lo.
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  Naquele período, os sintomas de Heitor se agravaram.
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  Não dormia direito. O problema nem era necessariamente esse, mas o incompreensível motivo de temer dormir.
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  Os sonhos eram repletos de atmosferas cinzas que se transformavam em pesadelos misteriosos onde havia a constante figura feminina. Por vezes a via sofrendo agressões do homem a quem não conseguia identificar o rosto por manter-se sempre oculto pelas sombras enquanto o clarão de luz focava na figura feminina. Devido a translúcida barreira protetora, era impossível se aproximar ou defendê-la das inúmeras violências sofridas. Batia na barreira a fim de quebrá-la e gritava na tentativa de interferir — e a tristeza de não conseguir ultrapassar aquela camada energética era tamanha que lágrimas desciam pelo rosto consternado. Nas raras vezes onde o agressor se movia para a luz e a luminosidade revelava um pouco da face masculina, Heitor despertava suando e trêmulo, os curtos cabelos castanhos os quais não permitiam mais crescer por bizarro incômodo indescritível, presos na testa úmida.
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  Por vezes, se perdia em pensamentos, se recordando dos pesadelos peculiares. Era estranho o fato de sentir tamanha tristeza por ela se sequer a reconhecia. Nunca a viu pela região e nenhuma memória surgia.
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  O que Heitor ainda não sabia era que as emoções e os sonhos conturbados eram manifestações do inconsciente, buscando meios para escapar, carregados de dor, sofrimento e angústia. Era primordial entrar em contato com o passado para o quadro médico evoluir de maneira positiva. Todavia, como se recusava em confrontar os traumáticos acontecimentos pretéritos, inclusive voltando a atenção para a obra como forma de fuga, elas eclodiam como sintomas, emoções e enfermidades, assim como veio a acontecer.
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  Além disso, apresentava sintomas de depressão e ansiedade, sendo indispensável a intervenção de psiquiatra para se estabilizar.
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  Se recusava em recorrer ao tratamento psicológico, usando como justificativa a necessidade de economizar e que o dinheiro gasto poderia ser investido na reforma do bar.
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  Igor e João não concordaram, mas também não o obrigariam a fazer nada, apesar de demonstrarem o descontentamento.
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  Certa noite, à procura do rapaz, Igor encontrou algo no quarto cuja porta estava escancarada.
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  — Garoto. Cadê você?
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  — No banheiro. — Só então detectou o som do chuveiro. — Não demoro pra sair.
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  Sobre a cama, o grande caderno aberto chamou a atenção do senhor.
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  Se aproximando, pegou o objeto e se deparou com uma série de nomeados versos os quais não identificou se eram poesias ou músicas. Passou as páginas se surpreendendo com a profundidade das letras sobre amor, arrependimento do passado e temor, tanto do presente quanto do futuro.
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  Compenetrado, nem notou a presença de Heitor no cômodo.
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  — São músicas.
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  Sobressaltado, Igor o fitou.
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  — Desculpa, eu não...
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  — Não, não se preocupe. — Em gentil sorriso com discreta irritabilidade de quem teve o segredo descoberto, se dirigiu ao senhor apanhando o caderno e o fechando em movimento delicado. — Não está invadindo a minha privacidade.
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  — Quando começou a escrever isso?
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  O mais velho observou o jovem colocar o caderno debaixo do travesseiro, compreendendo o velado pedido silencioso de manter essa parte de sua individualidade em sigilo.
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  — Há uns meses. — O dar de ombros foi despretensioso enquanto se sentava no colchão de pernas cruzadas em folgadas vestes de dormir. — Tentei ignora-las, mas as letras não paravam de se repetir e vir na minha cabeça. Não tive outra opção além escrevê-las.
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  — Ignorá-las não adiantou. — O senhor avaliou Heitor por instantes mordiscando o interior da bochecha. — E o que sente depois de escrever?
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  — Bem melhor. Quero dizer, não faz lá tanta diferença, mas me sinto mais leve. Tira um pouco do peso. Sei lá. É difícil de explicar.
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  — Já percebeu como as músicas falam sobre assuntos bem densos? Desde amores complicados até arrependimentos e medo do presente.
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  O confronto com a realidade formou um nó na garganta do rapaz, o obrigando a engolir em seco.
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  — Escuta, andei pesquisando sobre a amnésia — o mais velho prosseguiu. — Suspeito que não aceite o tratamento psicológico com medo do que poderia se deparar quando as suas memórias fossem desbloqueadas. O quadro depressivo e a ansiedade também têm a ver com a sua condição. Quer a dica de um velho que não tem muitos estudos e se orgulha de ter se formado na escola da vida?
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  A fisionomia de Heitor beirou à infantilidade ao assentir.
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  — Se concentre nessas letras. Talvez sejam a chave pra descobrir sobre o seu passado.
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  — E se eu me arrepender?
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  — E se houver pessoas lá fora que te amam e que talvez estejam sofrendo com o seu desaparecimento? Não seria justo com elas manter-se distante sem se esforçar para se recordar, seria?
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  No final daquele ano, encontrava-se exausto.
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  Demandava muita energia do organismo lutar contra os sintomas persistentes. Não faltava ao trabalho, mas recorreu a beber grandes quantidades de cafeína com regularidade para se manter ativo.
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  Não houve alteração do seu quadro. Em contrapartida, escreveu várias letras de músicas diferentes. Eram momentos nos quais lhe despertava saudade inenarrável, diminuindo o peso carregado no peito. Se deixava levar nas letras, incontáveis vezes derramando generosas lágrimas no processo criativo sem sequer se atinar em como o conteúdo lhe revelava os segredos do passado cujo contato ainda não se sentia preparado para enfrentar.
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  Os sonhos também não davam trégua.
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  Agora não havia somente a figura da vítima. Vários rostos e vozes surgiam aos poucos, cada um lhe despertando diferentes reações. Via cenas pela perspectiva de alguém que ainda não era capaz de identificar, como se fosse ele em contextos diversos como em eventos, shows, festas e na companhia de familiares. Em consequência, vasto campo de emoções e sentimentos difíceis de se lidar pela densidade deles brotavam, o obrigando a conviver diariamente com os resquícios das memórias cujo surgimento vinha através de imagens desconexas enquanto dormia, e conteúdo emocional quando desperto.
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  Portanto, era de se esperar como não tinha disposição para estar em aglomerações como naquela noite festiva.
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  Ao invés de participar da virada de ano, decidiu se recolher no quarto, agradecendo pela faxina realizada. Não havia ânimo nem para comer.
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  As perspectivas eram simples. Chegar, tomar o quente banho relaxante e se aconchegar debaixo das cobertas com o ar-condicionado ligado até adormecer.
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  Não cumpriu o plano.
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  De banho tomado, se sentou na cama e ligou o celular, apenas verificando o andamento do trabalho e conferindo se precisava retornar. De lá acompanharia o movimento do estabelecimento lotado de onde trabalhava. Em meio à multidão, não esperava um rosto bonito lhe chamar a atenção.
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  Nem percebeu por quanto tempo acompanhou o homem transitar pelo estabelecimento. Ao contrário dos fregueses, não parecia tão animado quanto os demais, e isso despertou a curiosidade de Heitor acerca do motivo para o destoante comportamento. Acompanhado por mulher de longa saia branca que cantava alegre no karaokê, a interação era da mesma dirigida para amigos e familiares — e novamente não compreendeu como a impressão lhe acalmou.
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  O cenho franzia a cada copo de álcool tomado — não por ser contra ingerir bebidas alcoólicas, mas porque algo lhe dizia que aquela não era a conduta habitual do homem. Não combinava com a aura emanada nele.
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  Apesar do ambiente alegre e cheio de expectativas para a virada do ano, além de algo lhe chamar a atenção, havia certo ar de introspecção ao redor que não combinava com o visitante. O semblante não exalava felicidade genuína e os sorrisos não alcançavam os olhos de linda coloração azul em contraste aos cabelos negros. Trajava roupas brancas — calça justa, tênis e camisa de botões sem mangas — e, acomodado na mesa, o olhar vagava no espaço em semblante indiferente
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  De vez em quando a mulher ia conversar com o homem na tentativa de animá-lo ou puxá-lo para dançar.
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  Em certo momento, Heitor se perguntou se fosse ele a pedir por aquilo, o desconhecido o dispensaria assim como recusou a mulher.
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  Quando o viu sair e se encaminhar para a praia com as mãos nos bolsos, foi impossível não trocar de roupa, calçar os chinelos e ir atrás dele.
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  Gabriel escondeu como pôde o sofrimento.
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  A viagem com a prima foi excelente.
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  Passaria as últimas horas precedentes do final de ano reunido com amigos e familiares em famosa lanchonete que se tornou o point da região entre os turistas.
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  Não esperava que o karaokê fosse afetá-lo como aconteceu.
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  Foi impossível não se recordar de quando conheceu Rodrigo cantando num lugar similar. O rapaz comemorava o aniversário cercado por pessoas que o amavam sem bajulações ou a fama advinda da carreira artística. Longe da criação de conteúdo, exalava bondade e júbilo.
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  Nunca esqueceria de como o sorriso iluminava a face jovial do aniversariante.
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  Se conheceram naquela noite, anos antes de Lucas surgir.
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  Agora, levemente bêbado, Gabriel caminhava em direção à praia mais vazia na esperança da dor do luto não o consumir. A passos trôpegos, desviava das pessoas que iam para outras praias onde a visão da queima de fogos era inigualável.
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  Não imaginava que alguém o seguiria.
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  Por fim, desabou na areia branca, esperançoso da mudança de ambiente trazer memórias menos deprimentes.
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  — Licença. Não quero interromper. Caso a humilde opinião de quem mora na região seja válida, esse não é o local mais propício pra assistir à queima de fogos. Ainda dá tempo de ir pra outro lugar melhor.
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  O tremor nada teve a ver com as palavras. Estava ligado ao timbre da voz o qual não escutava há anos. Macio. Firme. Aveludado.
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  Tal timbre específico transitava entre o tom rouco e a delicadeza. O ouviu sair em harmonia da boca de uma única pessoa.
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  Se virando de olhos arregalados, Gabriel se deparou com a imagem de Rodrigo parado, hesitante, a menos de um metro de si — o homem por quem se apaixonara.
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  Assombrado, levantou-se e caminhou devagar, sem quebrar o contato visual. Parou faltando centímetros de distância com as pálpebras arregaladas e o queixo caído. Em olhar vidrado, avaliava cada centímetro da face andrógena, demorando nas doces íris castanhas e nos desenhados lábios carnudos em tonalidade rosa natural.
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  Quando recuperasse a memória e estivesse morando em outro lugar em preparação para retornar aos palcos sem o conhecimento público de como estava vivo e do seu real paradeiro, o rapaz compreenderia que aquele silêncio era o mesmo destinado a dois amantes os quais não eram corajosos o suficiente para expressar os sentimentos devido à existência da série de obstáculos e intempéries que os impedia de se tornarem harmonioso casal.
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  Em misto de adorável incerteza e timidez, o morador mordeu o lábio inferior por instantes, abrindo rápido sorriso e disse:
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  — Eu não queria atrapalhar. Está tudo bem?
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  — Agora que você chegou, sim. — Gabriel, sem cerimônia, o puxou pela mão e o abraçou em intensa saudade.
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  Heitor se preparou para sentir repulsa pela ação. Para sua perplexidade, não foi o sentimento predominante. Nem sequer lhe despertou incômodo. Ao contrário.
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  No decorrer da estadia ali, o rapaz desenvolveu certo asco de toques físicos vindos de pessoas com quem não compartilhava vínculo afetivo. Com exceção de Igor e João, esquivava de experiências cinestésicas e ignorava os flertes recebidos de turistas em busca de diversão ou romance casual.
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  Ali, nos bronzeados braços definidos por frequentar academia nas horas vagas, não houve nada além de... Aconchego. Calidez. Conforto.
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  Ternura.
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  Cada sensação o invadiu como bálsamo, trazendo à tona confortável calor até então esquecido. Em gemido baixo, deitou a testa no ombro, adorando o registro sensorial pele com pele. Retribuindo o gentil gesto, Gabriel relaxou no enlace carinhoso torcendo para o tempo parar e poder desfrutar ao máximo do delicado momento.
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  — Senti tanta saudade de você, amor — a voz grave murmurou contra o pescoço, deixando singelo beijo. — Eu não queria que tivesse ido embora da minha vida da maneira como foi, sem eu nem mesmo dizer que...
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  — Deve estar me confundindo. Eu não me lembro de você.
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  Só então Gabriel notou o desaparecimento das mechas longas, as palavras demorando para serem processadas pelo cérebro embriagado.
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  Agora, os fartos fios eram curtos em corte desleixado.
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  Rodrigo jamais aceitaria cortar os cabelos daquele tamanho. Eles eram sua marca registrada — e Gabriel adorava enterrar as falanges neles, principalmente quando o amante estava sobre si.
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  Heitor se surpreendeu de como a falta do abraço o abalou quando o outro cambaleou para trás. O desconhecido, cuja curta barba rente desenhava o maxilar, deslizou as mãos pelo tronco alheio até prendê-lo a si ao segurar os próprios dedos, conectando os quadris em íntima posição.
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  A fisionomia se contorceu em confusão por apreciar a atitude fofa em sua concepção.
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  — Desculpe. — A melancolia nos olhos azuis lhe apertou o peito. — O confundi. Você é tão parecido com... — deixou a frase morrer sem finalizá-la.
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  Em consequência da falta de coragem, encostou a testa na de Heitor, se calando por longos segundos, ambos abalados com o encontro.
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  Graças à proximidade, constatou a embriaguez por causa do hálito, a voz discretamente grogue e os movimentos incertos.
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  — Com? — Heitor pressionou o visitante.
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  A pele se arrepiou — e o vento frio nada teve a ver com a reação corporal.
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  — Com uma pessoa que partiu sem nem me dar a chance de me despedir e... Não pude lhe contar algo importante. — Roçou devagar o nariz na bochecha lisa. — Você acalmou o meu coração como há muito tempo não me acontece. Não serei injusto contigo e nem vou mais desperdiçar o seu tempo. Vai. Me deixe aqui. Deve ter alguém por aí querendo ver a queima de fogos contigo. E ele será um filho da puta sortudo por passar a data como a de hoje na companhia de quem ama.
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  Lhe dando as costas, Gabriel voltou para o lugar onde se acomodara antes da chegada do outro.
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  Heitor poderia acatar ao pedido. Todavia, algo no visitante o atraía. Não querendo ir embora, o observou por segundos contestando se a atitude de ir embora seria a mais prudente.
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  Contemplando o céu, o desconhecido parecia solitário, talvez até melancólico, em especial na noite que deveria ser festiva para todos. Não era correto deixá-lo sozinho ali.
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  Se não demonstrasse resistência na decisão de permanecer ali...
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  A passos lentos, se acomodou ao lado dele. Em rápido olhar de esguelha, notou os olhos marejados embora as lágrimas não rolassem.
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  — Então você foi o filho da puta sortudo da vez, porque prefiro ficar aqui contigo. Me deu um bom motivo pra não passar a virada de ano dormindo.
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  A primeira frase obrigou Gabriel a fitar o outro. Reconhecendo a mesma escolha de palavras, engoliu em seco.
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  — Qual? — soou trêmulo.
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  — A sua companhia.
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  Lutou para conter as lágrimas, se recusando delas transbordarem após chorar por tantas noites em tormento pela morte de Rodrigo.
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  — Você é um fantasma?
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  A frase arrancou audível gargalhada de Heitor.
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  — Não — respondeu ainda rindo. — Por que a pergunta?
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  — Porque eu já ouvi algo bem parecido saindo pelos lábios de outra pessoa.
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  — Eu não vou me incomodar se os lábios forem como os meus.
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  Incrédulo pela réplica, Heitor sentiu o rosto esquentar, sinalizando como enrubescia.
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  — Flerta comigo e é você quem fica sem jeito?
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  Acabrunhado, desviou o olhar por notar como as pupilas alheias dilataram e o tom de voz era afetuoso em interesse sutil.
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  Era evidente como apreciou a ousadia.
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  Com os cantos da boca repuxando em discreto sorriso, Gabriel circulou os ombros cobertos pela cinza camisa de mangas e o puxou pra si, o incentivando a deitar a cabeça em si.
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  — Você estava muito longe de mim — sussurrou roçando os lábios nos fios castanhos. — O queria mais perto.
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  — E eu torcia pra isso desde quando me abraçou há uns minutos.
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  — Vai assistir à queima de fogos ao meu lado?
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  — Vou.
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  — Então não sai de perto de mim. A sua companhia era tudo o que eu precisava nessa noite.
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  — Não se preocupe. Ficarei aqui.
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  Dialogavam em voz baixa, envoltos em peculiar atmosfera de afabilidade que se intensificava com o avançar dos minutos. Apesar do silêncio, os sentimentos de Gabriel eram palpáveis pela forma como distribuía carinhos em Heitor. Acariciava a bochecha com as costas do indicador, deslizava as pontas dos dedos pela perna, roçava o queixo nos cabelos lisos...
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  Eram toques carregados de ternura, sem ser necessário se expressar através de palavras. Recorria às ações para se comunicar — e ambos não assimilariam como eram relevantes para o estado emocional de Heitor.
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  Por estarem tão envolvidos na própria união, só perceberam que a queima de fogos começou quando o céu iluminou em lindas cores vibrantes.
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  Agora, com o rapaz sentado em sua frente enquanto Gabriel mantinha as pernas abertas pro outro se acomodar no espaço, admiravam a dança de luzes no céu azul sem nuvens.
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  Gabriel aquecia o corpo alheio, as vagarosas batidas cardíacas sendo captadas nas costas de Heitor quase em sincronia com as suas.
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  Ao contrário de Heitor, desviou o olhar para o rapaz, cujo sorriso desenhava os traços e a derme refletia as cores dos fogos.
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  Incapaz de se conter, descansou a digital na lateral da face, produzindo tênue pressão para mirá-lo.
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  — Só falta uma coisa pra essa noite ser perfeita — murmurou, as pálpebras baixas escurecendo os globos azuis.
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  — O quê?
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  — Um beijo.
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  Heitor prendeu a respiração por não prever o pedido. Em simultâneo, desceu o olhar para os lábios alheios, a vontade recíproca brotando em si.
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  Como se para tomar coragem, o garçom puxou o ar e o soltou pelo nariz antes de quebrar a ínfima distância e beijá-lo em cálida plenitude, absortos na bolha particular.
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  Perderam a noção do tempo. Apenas desfrutavam das impressões cujas carícias atingiam as emoções mais íntimas, um preenchendo faltas e buracos do âmago alheio por motivos divergentes — Heitor por entrar em contato com alguém familiar para si depois de anos após o atentado com a sua vida, e Gabriel por beijar como sempre desejava o homem que julgava estar morto.
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  Se separaram a contragosto pelo celular de Gabriel não parar de tocar em música alta.
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  Sensibilizado por reconhecer o sabor do beijo e a textura dos lábios, murmurou na orelha dele o segurando pela nuca, o hálito colidindo com o pescoço onde por vezes se deliciou no passado:
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  — Se for quem desconfio e eu não estiver louco, por favor, volte. Volte... Pra mim.
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  As palavras atingiram o íntimo de Heitor, a reminiscência aflorando na memória de surpresa.
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  — Por isso eu sempre volto pra você. Me fode tão bem.
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  Engoliu em seco, o pujante conteúdo emocional colidindo entre a súplica do turista e o impacto da lembrança a qual teve acesso pela voz ser a mesma daquele homem fazendo emergir uma série de emoções desconexas — hesitação, tristeza, receito, desejo.
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  O nó na garganta surgiu, a brisa auxiliando a dissipar as lágrimas formadas as quais não seriam derramadas.
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  — Fala, Aline — Gabriel atendeu ao celular.
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  Como inconsciente mecanismo de defesa, Heitor se alarmou com a pronúncia do nome.
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  — Não, estou na praia logo em frente — prosseguiu sem perceber como o rapaz se assustava mais com o passar dos segundos. — Atravessa a rua. Vou acenar pra você me encontrar. — Desligou o aparelho e o colocou no bolso da calça. — É minha prima. O que acha de...
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  O segurando pelas laterais da face, Heitor deu o último selinho demorado antes de avisar em voz estrangulada.
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  — Preciso ir.
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  Sem se despedir, levantou-se, segurou os chinelos e correu pela vasta areia fria até sentir o chão úmido, justamente na parte mais escura da praia no horário noturno, onde o turista não poderia encontrá-lo e nem o avistar.
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  Ao longe, observou procurar por si lhe gritando até a mulher de cabelos soltos esvoaçantes pular nas costas do desconhecido e levá-lo dali sob protestos.
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  Arfante, fechou as pálpebras contundentes e pendeu a cabeça para trás, encarando a brilhante Lua Cheia.
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  — Por favor, me permita esbarrar com ele novamente. Eu adoraria reencontrá-lo.
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  Demoraria, mas o pedido se realizaria em circunstâncias diferentes e em outra cidade.
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