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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Doce Trapaça

Escrita porZsadist Xcor
Revisada por Lelen

Parte do Pop-Up Criativo #2 – Escreva seu livro.


Capítulo 10

  — Suspeitei que jamais se recuperaria da amnésia. — Banhado e com as roupas puídas de dormir, Igor entrou no quarto de Rodrigo. O encontrou sentado no meio da cama de pernas cruzadas lhe aguardando.
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  O trajeto para casa foi silencioso. Exigiu algo do rapaz — que mantivesse a porta do quarto aberta para conversarem.
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  O fato dela estar escancarada denotava como concordou com o diálogo.
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  — Me alegra que tenha descoberto quem é — prosseguiu, puxando a cadeira ao lado da escrivaninha.
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  A posicionou na frente do outro e se acomodou nela.
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  — Você sabia? — Mudando de posição pra vê-lo melhor, Rodrigo descansou as costas na parede rente a cama.
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  — Tive meus palpites. — Deu de ombros. Em movimento fluido, curvou o tronco e apoiou os cotovelos nas coxas cruzando os dedos. — O rosto era familiar demais. Só tive certeza quando o ouvi cantar pela primeira vez. Lembra que testou os microfones ao instalar o karaokê?
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  Assentiu.
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  — Não comentei nada porque deveria existir um motivo bem complexo para as memórias não ressurgirem. Quando elas voltaram?
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  — Há um mês, mais especificamente na manhã em que João me levou ao hospital.
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  — Agora entendi por que ainda não está muito bem. A médica comentou que poderia apresentar sintomas psicológicos no momento em que se recordasse.
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  Igor o avaliou por dez segundos. No transcorrer da conversa notou como a feição era apática, a voz baixa inexpressiva. Os globos castanhos... Não brilhavam.
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  — Não está aliviado e nem contente por acessar as memórias — concluiu cerrando os olhos.
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  — Ninguém no meu lugar se alegraria. — Engoliu em seco quebrando o contato visual. — Não tenho muitos motivos para festejar.
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  — Como?
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  — Eu queria esquecer de cada segundo novamente. Não há ninguém me esperando lá fora. Todos seguiram bem com as respectivas vidas, já verifiquei. Além disso, duas das três pessoas que eu mais amava tentaram me matar. Por isso João me levou ao hospital. Fui largado pra morrer como um animal depois de ser espancado e de atirarem em mim. Eu não valho nada.
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  — Está se lamentando por sobreviver?
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  — Estou me lamentando porque eu tinha uma vida miserável e insignificante! — rugiu, a inconformidade tomando as feições.
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  — A que se refere? Tinha fama, dinheiro. Era cercado por pessoas importantes e famosos. Sua vida era perfeita.
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  — Era uma mentira. Quem via de fora acreditava na farsa porque era a ilusão que eu queria projetar através da minha página. O Lucas me batia tanto que passei a gastar o dobro de dinheiro em maquiagem pra esconder as marcas e os hematomas a fim de manter a minha agenda e comparecer aos compromissos. Fui em vários eventos com a roupa pensada estrategicamente pra cobrir os hematomas. Até meu ombro foi deslocado quando chegamos numa festa só por cometer o crime de ser solícito.
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  A narração impactava a ambos — Rodrigo por revelar os infortúnios e Igor por assimilar a razão para os comportamentos apresentados pelo rapaz ao longo da estadia ali.
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  — E por que continuou com ele? — inquiriu perplexo.
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  — Porque eu não queria ficar sozinho! — berrou, enfim confrontando com os motivos inconscientes de permanecer no relacionamento abusivo. — Eu só queria ser amado. Ao contrário dos outros com quem me envolvi, o Lucas foi o único que me quis e me assumiu publicamente. E mesmo assim recebi a pior apunhalada pelas costas de todas. Aquilo foi pra destruir a alma de qualquer um.
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  Compadecido, o mirava cheio de pesar.
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  — Eu não importava — prosseguiu o cantor, a derme tomando coloração rubra pelos sentimentos conflitantes. — Vivi um inferno e nem fazia diferença mais na vida das pessoas de quem eu gostava. Só tinha o dinheiro a meu favor e isso não serviu de nada.
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  Caso conhecesse a história de Igor assim como o segredo de sua maior frustração, saberia que a escolha de palavras foi péssima.
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  — Garoto mimado! — bradou lhe arrancando discreto tremor por não o ver irritado até então. — Acha que na vida só temos alegrias? Não, garoto. Acontece muita merda a qual não podemos controlar. Lá fora certamente tem gente que sente a sua falta e vai abandoná-los por ser fraco?
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  — Não estou abandonando se não me resta ninguém — gritou em resposta, o tormento gerando dificuldade de se comunicar pelas fortes emoções o desestabilizarem. — Minha irmã tentou me matar e era amante do meu namorado. Minha mãe está morta, assim como a vadia da Annanda postou nas redes sociais há seis meses. Meus amigos seguem bem e felizes. Os meus outros familiares não tinham contato direito comigo por causa da minha carreira, então suponho como estejam igualmente bem. Eu só tinha dinheiro. E mesmo assim ficou pra quem considerava como minha irmã.
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  Gesticulava enérgico, dando-se conta de como provavelmente a mulher já planejava assassiná-lo. Na época o convenceu a inserir Lucas no testamento usando de chantagem e manipulação pelo artista sonhar em se casar com o atual namorado, então a herança iria para Doralice, Annanda e Lucas.
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  Com a partida da mãe, os dois usufruíam do capital a bel-prazer.
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  Enérgico, Igor se ergueu visivelmente irritado.
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  — Dinheiro era tudo o que eu mais precisava no mundo e você fala como se não fosse nada? Se eu tivesse um quinto da sua fortuna, hoje, Maria estaria morando comigo! — Engoliu em seco, dando-se conta de como revelou mais do que deveria. Respirou fundo ao todo cinco vezes visando se controlar. — Assim não chegaremos a nenhuma conclusão — disse baixinho, voltando a se sentar. — Comece do início. O que aconteceu contigo pra perder a memória? Como chegou aqui se mora na cidade?
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  Demorou quinze minutos contando a sua história desde quando conheceu Lucas sem interrupções. Foi impossível não se emocionar ainda mais durante o relato. Expressava em palavras ressentimento da pior traição já experenciada, a dor se vertendo em gordas lagrimas abundantes as quais se derramavam torrenciais.
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  Se recordar do passado lhe exigia forte resiliência — e a desenvolvida por ele ao longo dos anos era frágil.
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  — Não há ninguém a quem possa recorrer? — Preocupado com o bem-estar alheio, passava a palma na nuca. — Sei lá, ex, amigo...
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  — Não. Nem adiantaria. Se vazarem que sobrevivi ao ataque, Lucas e Annanda vão me procurar até no inferno se for possível. Deveria ter visto o sorriso de satisfação enquanto Lucas me batia e depois quando atiraram em mim. Não posso exigir o benefício da dúvida para ninguém, principalmente agora que os dois têm tanto dinheiro. É isso ou correr o risco de conseguirem me matar. Não há esperança para mim.
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  Mordendo o interior da bochecha, o mais velho se pôs de pé. Devagar, foi até a janela dando as costas para o outro.
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  Após instantes de silêncio onde se perdeu em pensamentos, Igor falou:
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  — Talvez haja meios pouco ortodoxos para descobrir o seu caminho e se há pessoas que possam ajudá-lo.
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  — Quais?
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  Suspirou e virou pro rapaz.
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  — Venha comigo.
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  Igor o levou até o pequeno escritório que mantinha trancado cuja chave guardava consigo.
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  Preparou o ambiente acendendo incensos, colocando um copo de água na mesa e acendendo uma vela em branco pratinho redondo pra iluminar. A atmosfera mística cheia de segredos tomou o lugar, a luz bruxuleante da vela potencializando a impressão junto ao cheiro de lavanda do incenso.
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  — Graças a você recorro a este recurso que jurei abandonar antes da sua chegada, garoto.
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  Satisfeito com o aspecto do aposento, indicou a cadeira para Rodrigo se sentar logo na sua frente. Igor foi para a detrás da mesa de madeira, ambos ficando frente a frente.
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  — Qual recurso?
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  Apanhou o Baralho Cigano guardado na gaveta da mesa.
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  — Esse. — Colocou-o sobre a madeira. — Não vou me demorar por muito tempo, então precisamos ser práticos e objetivos. O que exatamente quer saber?
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  Igor abriu jogo algumas vezes no decorrer dos quarenta minutos seguintes. As informações eram valiosas e o rapaz somente acreditou pelas mensagens baterem com acontecimentos passados extremamente pontuais e específicos.
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  — É... — Apanhando a última lâmina as analisou por instantes. — Você comeu o pão que o Diabo amassou desde bem novo. Só tinha paz em casa e longe da sua irmã. Passou por situações humilhantes demais. Isso o abalou demais. Quebrou o seu espírito. Tinha pouca idade pra saber lidar com tamanha carga emocional que a vida lhe impôs. — Abaixou os olhos para as cartas, franzindo o cenho. — Sabe que esse seu namorado não é gay, né? Ele gosta é de mulher. E só se aproximou de você porque queria...
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  Em misto de espanto e empatia, ergueu os olhos de súbito.
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  A expressão foi suficiente para Rodrigo compreender a mensagem por detrás das palavras e sobre quais acontecimentos se referia.
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  — Sinto muito. A culpa não foi sua. Nem a morte do seu pai e nenhuma das violências sofridas pelas mãos do maldito.
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  — Deitada assim parece até uma mulher.
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  A lembrança ressurgiu quase como uma maldição. Ainda sentia o vil toque de Lucas nos cabelos longos ao se juntar na cama consigo.
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  — Já vivi a minha vida toda como escravo do meu passado. — Em voz firme, decidiu não se atentar ao pretérito. — Quero saber do futuro. O que o futuro me reserva? Existe a possibilidade de alcançar a felicidade?
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  Em outro cenário ou com outra pessoa Igor demonstraria como as frases foram descorteses, talvez até rudes. Todavia, após os jogos e o relato de Rodrigo, sentia orgulho por usar a tonalidade certa para encerrar o assunto.
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  Em acento de concordância de aprovação, juntou as cartas, as misturou e as abriu.
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  — Num geral, têm caminhos abertos para retornar. Não será fácil. Precisará de ajuda das pessoas certas pra conseguir sucesso. Por mais que diga que não, várias pessoas próximas a você sofrem até hoje. Vejo uma idosa, acho que de cabelos pretos e bastante generosa. Está trancada. Esse é, inclusive, um dos segredos sujos da sua irmã e do traste do Lucas. Sabe o nome completo e a data de nascimento de quem você acredita serem amigos verdadeiros?
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  — Sim.
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  — Vou abrir jogo pra analisar um por um. Diga o nome completo e a data de nascimento.
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  Assim, Rodrigo descobriu quais eram suas reais amizades — e curiosamente eram todas que o alertavam sobre Lucas e detestavam a irmã.
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  Em contrapartida, não compreendia o motivo de uma determinada carta sempre surgir na mesa.
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  Independentemente do quanto Igor embaralhasse, a carta do cavaleiro sempre aparecia simbolizando a figura masculina.
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  — Olha, já temos o suficiente pra você decidir os próximos passos, mas não vou encerrar agora. Quero clarificar quem diabos é esse homem que aparece na sua linha amorosa.
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  Apanhou também o deck de Tarot na mesma gaveta. Assoprou as lâminas e as misturou, abrindo dois jogos — um com o Baralho Cigano e outro com o Tarot, ambos posicionados nas extremidades da mesa.
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  Após dois minutos observando a mensagem explícita, indagou:
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  — Quem você abandonou no meio do caminho?
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  — Não abandonei ninguém.
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  — Não? — Apanhou as três cartas iniciais, as organizou nas mãos e, as segurando, as colocou na frente de Rodrigo. — Então o que significa isso? Cavaleiro, coração, buquê, aliança, nuvens, montanha e cruz? Se não tiver abandonado alguém no passado que realmente te amava e ouso dizer que ainda te ama, tenho uma buceta ao invés de pau entre minhas pernas. — As colocou no lugar. — Ao mesmo tempo, o pobre coitado sofre demais com a sua perda. Coitado. Chora pelo leite derramado. Se arrepende de não ter se comunicado contigo a tempo. Há muita coisa guardada para si. Além disso, caso escolha recuperar tudo o que lhe pertence por direito, é ele quem vai te socorrer.
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  — Como?
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  — O Julgamento. — Tamborilou o indicador na imagem da carta. — Não mostra como o reencontro acontecerá. Será do nada. E digo mais. — Deu um peteleco na carta do Baralho Cigano. — Lírios. A espiritualidade se encarregará de te colocar frente a frente de novo a ele. Aliás, você precisa conversar mais. Expressar os sentimentos ao invés de guardá-los aí dentro. Engraçado... Aqui não mostra quem é, mas há um homem mais velho te auxiliando. — Concentrado, observou as figuras em silêncio por instantes antes de finalizar. — Caso tenha sonhado com o seu pai quando ainda estava no hospital, saiba que não foi criação mental. Vocês realmente se encontraram no outro plano, inclusive porque ainda não havia chegado o seu momento de morrer.
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  O queixo do consulente caiu por se recordar de cada segundo do sonho com o pai e também porque não havia comentado sobre isso com ninguém.
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  Novamente setembro trouxe a bebedeira irreversível de Igor.
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  Na segunda-feira, único dia que o estabelecimento não abria, se embriagou a tal ponto de Rodrigo e João o buscarem na rua após ligação de vizinhos indicando o paradeiro do moribundo.
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  Transtornado, foi pra casa sob protestos, se encarregando de tomar até a última gota de pinga cuja qualidade era terrível da garrafa em tamanho esforço que Rodrigo pensou que, caso se empenhasse daquela maneira em outras áreas da vida, certamente teria reformado o bar há muito tempo sem serem necessárias as suas orientações.
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  — Qual o problema, inferno? — Rodrigo esbravejava o largando no sofá. — Hoje é o primeiro dia de setembro e já está parecendo um gambá de tão embriagado.
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  — Eu não quero falar sobre isso — rugiu o mais velho se recostando, os efeitos da bebedeira estampados em cada movimento corporal.
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  — Engraçado, porque, se minha memória não falha, há algumas semanas me aconselhou a conversar — ralhou petulante cruzando os braços.
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  Rodrigo não se zangava pela bebida. Se zangava porque era evidente como recorria ao álcool como fuga.
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  Pela segunda vez o humor mudava à medida que setembro se aproximava. Se tornava mais rabugento, mais ranzinza e mais introspectivo, por vezes comunicando somente o necessário em palavras monossilábicas ou vagas. Embora no trabalho o temperamento não atrapalhasse o desempenho das tarefas, o mais novo do trio percebia a mudança de comportamento — e se frustrava por não conseguir ajudá-lo.
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  — Não sou exemplo pra ninguém. — Grogue, embolou as palavras ao pronunciá-las. — Você conversa. Eu bebo. A matemática é simples, não perdemos tempo explicando coisas imutáveis e ninguém sai perdendo.
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  — Conta logo a verdade — insistiu João, farto da falta de comunicação. — Pelo menos ele não vai tirar conclusões precipitadas ou te achar um bêbado patético.
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  — Resuma você o maldito pesadelo. — Apontou pra João em expressão sofrida. — Jurei nunca mais comentar sobre isso e cumprirei a promessa. Afinal, as lamúrias não trarão a minha netinha de volta. Aliás... — Cambaleante, se ergueu pra ir ao quarto onde apanharia a roupa de dormir. — Eu vou tomar banho. Você tem exatos dez minutos pra contar sobre minha neta pro garoto longe dos meus ouvidos. Me recuso a me aprofundar no assunto e você me dará razão depois, garoto.
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  Se retirou reclamando como não o permitiram beber o suficiente para apagar da memória o diálogo.
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  — Vai finalmente me explicar qual merda está acontecendo, João?
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  — Senta aí. — Apontou para o sofá. — Já aviso que a história não é alegre.
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  — Já estou familiarizado a histórias tristes. Me acostumei com elas há bastante tempo. — Se acomodaram lado a lado no estofado, o rapaz de pernas encolhidas virado pro outro. — Qual o problema?
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  — Helena era filha única do Igor — iniciou em voz lamentosa. — Era linda, alegre e muito inteligente. A mãe sumiu no mundo. A largou pro pai cria-la e nunca mais tivemos notícias. Aos vinte anos se casou com Marcos, um político da região, após conhecê-lo num evento da cidade e se apaixonarem. Ou melhor, ele seduzi-la por ela ser ingênua e inexperiente pela juventude. Não éramos a favor do namoro, menos ainda do casamento. Não nascemos ontem. Temos experiência de vida, enxergamos a maldade do mundo sem subestimar a bondade ou a capacidade da crueldade humana. Desconfiávamos de certas condutas do infeliz na época. É aquilo, né? Policiais, caminhoneiros, políticos e quem trabalha nas forças armadas dificilmente são fiéis, então não demorou pra Helena descobrir as traições. Ela virou um caco, coitada. Não terminava o casamento por sofrer constantes ameaças e agressões. Perdi as contas de quantas vezes a garota apareceu aqui toda estourada em busca do mínimo consolo pra aliviar o sofrimento. O sádico abusava dela por horas. Helena engravidou da Maria aos vinte e dois anos. Ao contrário do Marcos, não queria criar uma criança naquele inferno, então tentou abortar em casa durante a viagem do filho da puta. Infelizmente, morreu no processo enquanto a filha sobreviveu. A garota herdou a beleza e a capacidade de aprendizagem rápida da mãe. Por sorte, aos quatro anos começou a fugir de onde morava pra vir até aqui de trem.
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  — Por que ela fugia?
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  — Porque o maldito é um pedófilo. Descobrimos numa tarde quando a garota retratou os abusos através de desenhos após estranharmos os traços. Com bonecos explicou como o maldito a tocava. Tem passagem pela polícia e ninguém nunca fez nada devido ao cargo político. Igor até tentou pegar a guarda definitiva. Maria morou com ele por um tempo. O quarto onde você dorme era o dela, inclusive. Foi impossível se tornar o responsável pela Maria pelo cara querer a menina. Há relatos, áudios, conversas no Whatsapp, prints, fotos, vídeos... Sumiram com as provas dos arquivos, embora o Igor guarde uma pasta com tudo organizado.
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  — Não há outros meios? Talvez...
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  — Por favor, Heitor — retrucou inconformado. — Olhe pra gente. Só alguém com o mesmo poder aquisitivo e influência pra arcar com os valores dos melhores advogados e peitar o maldito. Somos pobres. No mundo todos os assuntos se resolvem com dinheiro. Por mais que queiramos lutar contra essa realidade, e olha que o Igor tentou, não temos a mínima chance. Dinheiro compra tudo e o caso de Maria não é a exceção.
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  Naquela mesma noite o rapaz só dormiria às quatro da madrugada.
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  Aguardou Igor adormecer para vasculhar casa centímetro da casa em busca da pasta citada por João. Após árdua procura de quase três horas onde foi suficientemente cuidadoso para não fazer barulhos, a encontrou escondida no escritório onde Igor abriu as cartas.
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  Imprimiu cada registro na impressora, desde as provas até os documentos como o RG e o CPF, guardando as cópias no armário de roupas e os originais no local onde foram escondidos.
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  Meses mais tarde, quando Rodrigo fosse embora para a cidade, levaria as cópias consigo.
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  No próximo reencontro com Igor, Alya chegaria ao estabelecimento montada e de mãos dadas com Maria.
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  — Rodrigo, cadê o...
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  Entrando no quarto, o encontrou acordado às oito da manhã de domingo cercado de papéis espalhados ao longo da cama, alguns descartados em rolos amassados no chão. O grosso caderno repousava no travesseiro entre as pernas, assíduo na escrita onde havia diversos rabiscos. Com as costas apoiadas na parede, apenas os pulsos moviam, quase inerte a presença do homem.
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  — O que é isso? — Coçando o cabelo ralo, a expressão confusa desenhava os traços.
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  — Umas coisinhas que ando escrevendo ultimamente — avisou sem fazer contato visual. — Coisinhas bem interessantes, se quer saber.
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  Foi capaz de ignorar o mal-estar, não os demais sintomas da ressaca. Igor gemeu, a cabeça latejando de dor pela enxaqueca.
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  — Pelo amor de Deus, se sente qualquer mínima empatia por mim, fale o mais baixo possível e feche as cortinas. Não irá te atrapalhar em nada esse esforço — murmurou se encolhendo de dor. — Minhas retinas agradecem.
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  Prendendo o riso pelo arrependimento visível de Igor por se embebedar na noite anterior, acatou ao pedido e retornou pra cama, deixando o ambiente menos iluminado pelo Sol matutino.
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  — Bem melhor. — Fungou cerrando os olhos pra luminosidade não penetrar por completo nos globos. — Por que não colocou o remédio com a água na minha mesa de cabeceira?
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  — Não vi o tempo passar. Os remédios estão no armário da sala. — Voltou para a atividade. — Só percebi que estava um pouquinho cedo demais quando começou a amanhecer.
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  — Hum... — Quieto, o analisou por instantes. — Está nisso há quanto tempo? — Bocejou, se esforçando controlar o conteúdo no estômago.
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  — Virei a madrugada. Não tenho tido muito sono ultimamente.
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  — Pensando em retornar aos palcos?
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  — Planejando, na verdade. Só não faço ideia de como.
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  Curioso, se aproximou apanhando uma das folhas.
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  — Se importa se eu ler?
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  O silêncio correu e precisou falar mais enérgico:
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  — Se importa se eu ler enquanto não vomito em cima das suas anotações?
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  — Disponha.
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  Examinou as letras, não demorando pra captar nas mensagens tristes dos versos.
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  — Olha... — Igor começou devagar. — Está gostando dos resultados das composições?
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  — Sinceramente? Sim. Sempre compus, embora praticamente nenhuma fosse escolhida para entrar nos meus álbuns. — Crispando os lábios, fez uma rápida careta em desaprovação. — Sei lá. Parece que falta algo nessas. Não sei dizer.
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  — Se me permite. — Se sentou na ponta da cama e retirou o caderno de Rodrigo para finalmente se mirarem. Ignorou como o outro demonstrou certa irritabilidade pela ação. — Você não sente raiva, não, pelo que te aconteceu?
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  — Raiva? — soou desgostoso soltando uma risadinha anasalada sem humor. — Por qual motivo eu sentiria raiva?
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  — Rodrigo, você está cheio de raiva aí dentro.
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  — Não, eu...
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  — Nem adianta teimar porque te enxergamos. Já convivemos juntos por tempo suficiente para entendermos um pouco como você funciona — ralhou, a franqueza transparecendo por detrás da ressaca cuja intensidade aumentava no passar dos segundos. — Desde quando recuperou a memória seu ânimo está mais ácido. O olhar mudou e até seu tom de voz está mais frio. O João nem sabe que se lembrou, mas notou a mudança no seu comportamento.
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  Era verdade.
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  Na oscilação de conduta do rapaz demonstrava discretamente a raiva contida sem expressá-la, inclusive em imprecações, na maior frequência de xingamentos e no sarcasmo pontual.
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  — E do que vai adiantar? — Exasperado, gesticulava durante a fala. — Raiva não serve de porra nenhuma além de me machucar e machucar outras pessoas. Eu sei disso. Lembro de cada porrada que recebi do Lucas quando descontava as insatisfações em mim.
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  — Aí se engana — se apressou a dizer pela ânsia potencializar. — A raiva é uma emoção poderosa. Canalizada da forma certa, te impulsiona a alcançar seus objetivos. Qualquer um no seu lugar sentiria ódio. Porra, você foi traído, usado, humilhado, agredido e ainda tentaram te matar. Quem não estaria puto? Duvido que você seja a exceção à regra. Use isso a seu favor. — Se esforçou pra se levantar. — Agora, se me der licença, espero que não use o banheiro nos próximos minutos. Estarei vomitando até a minha alma por lá.
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Lelen

Eu adoro o Igor 🥹
E quero que a vingança chegue com os dois pés na porta, obrigada.

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