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ATENÇÃO!

História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Doce Trapaça

Escrita porZsadist Xcor
Revisada por Lelen

Parte do Pop-Up Criativo #2 – Escreva seu livro.


Capítulo 12

  A recuperação de Gabriel do luto ainda não fora completa.
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  Se obrigou a acostumar com a vida da forma como a realidade se apresentava — inclusive sem voltar a acessar as redes sociais de Rodrigo, assim como veio fazendo desde quando Alya assumiu o romance público com Lucas.
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  Os únicos sinais de sofrimento foi o fato de se mudar. Também ingressou na academia onde descarregava parte significativa da inconformidade pelos acontecimentos passados em exercícios físicos desgastantes até a energia restante ser a suficiente para chegar em casa, tomar banho e desabar na cama.
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  Havia lembranças demais no apartamento, lugares demais por onde Rodrigo transitou, se acomodou, deitou ou adormeceu — e estavam sozinhos nessas ocasiões, quando usufruíam de total privacidade, liberdade e intimidade.
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  Não era intimidade voltava exclusivamente para o prazer. Pelo contrário. Havia cumplicidade, afagos, gestos carinhosos e atenciosos dos quais nem sempre eram direcionados para as longas horas de volúpia união.
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  Naquele espaço se permitiu ser vulnerável com o rapaz. Recebia apoio emocional quando precisava, assimilando como o cantor o mimava ou cuidava dele caso se resfriasse ou o ânimo fosse melancólico graças às intempéries do cotidiano.
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  Três meses após o enterro, descobriu como o simples preparo de canja era capaz de fazê-lo chorar por vinte minutos consecutivos por se recordar de como, após forte episódio de febre, ao acordar, o encontrou preparando saborosa canja de galinha bem forte.
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  Na tarde de domingo, em particular, não combinaram de se ver em virtude do estado de saúde. Como o rapaz carregava a chave do se apartamento, era óbvio como entrou lá. Se deparou remédios para gripe sobre a mesa da sala, receitas caseiras cujo combate a enfermidade era inegável e uma jarra de suco de laranja direto da fruta.
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  O gesto foi adorável demais para ignorar, lhe aquecendo o coração e o persuadindo a mirá-lo com enorme ternura.
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  Por vezes o permitiu descansar no antigo apartamento ao chegar de viagem simplesmente porque morava mais próximo do aeroporto dentre os dois e o incentivava a descansar antes de se dirigir para qualquer outro compromisso agendado — mesmo que houvesse atrasos pontuais dos quais o artista não reclamava por se reestabelecer sem recorrer aos remédios para permanecer acordado.
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  Desconfiava da prima saber sobre a dissimulação. Afinal, Aline era astuta, além de conhecê-lo demasiadamente bem — vulgo até preocupante pela incapacidade de esconder informações dela — por crescerem juntos. Não era do feitio dela obriga-lo a lhe contar nada, então aguardava paciente pelo momento certo onde Gabriel lhe revelaria os infortúnios quando estivessem sozinhos.
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  Uma das maneiras de apoiá-lo enquanto não esclarecia nada era justamente se aproximando e o chamando para diversos passeios ou viagens a cada oportunidade, fosse feriado, recesso ou final de semana. Portanto, ambos não se assustaram quando quase se endividaram com o banco.
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  Além disso, era comum Rodrigo lembrar de Gabriel na época quando se relacionavam. Sempre lhe trazia algo, como alimentos diferentes, camisas ou qualquer outro acessório de seu gosto.
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  Desde o enterro usava uma corrente de prata específica, mesmo que fosse por debaixo da camisa.
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  Era ótimo em esconder os sentimentos, então não foi tão árduo simular que não continuava sofrendo pela morte precoce do homem por quem se apaixonara, mesmo que a ideia de que jamais surgiria a oportunidade de lhe contar isso o sufocasse.
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  Como se arrependia por não ter lutado pelo rapaz.
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  O deixou escorrer por entre os dedos, se conformando de entrega-lo aos encantos baratos de outro sem nenhuma objeção.
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  Como foi tolo.
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  Pelo menos no trabalho corria tudo bem. Isso era evidente, visto como passava a maior parte do tempo ocupado na área administrativa das duas casas de festa cujo responsável era ele.
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  Agora, se contentava em sair com homens diferentes na tentativa de seguir com a vida afastando as memórias de Rodrigo da mente.
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  De nada adiantaria insistir em se lamentar pela morte ou chorar por desperdiçar a oportunidade de ser feliz ao lado de quem amava. Era deprimente, solitário e até patético para alguém de sua idade.
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  Lógico, era de se imaginar como o assombro o tomou ao se dirigir pro petrificado garçom ao lado da mesa quem os atenderia.
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  A tensão em Rodrigo era, no mínimo, preocupante. Beirava ao desespero. Independente dos esforços de transmitir tranquilidade, era evidente em cada poro o elevado nível de ansiedade.
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  A cor negra do uniforme acentuava a palidez, assim como o pescoço refletia parte considerável da tensão pela maneira como a área estava enrijecida. Apertava a caneta com mais força que o usual ao anotar o pedido do desconhecido antes de se dirigir a Gabriel engolindo em seco.
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  — O que deseja, senhor? — Mais tarde se recriminaria pela incapacidade de sorrir naquele momento em específico e em como a voz saiu esganiçada.
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  Estava assustado demais para exibir qualquer demonstração de serenidade ou cordialidade.
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  A expressão de Gabriel denunciava o misto de emoções que o invadiam. Perplexidade, alívio e algo similar a dúvida permeava o semblante por longos instantes onde se perderam na pujante troca de olhares sem piscar, como se demandasse a necessidade de assimilar que as impressões não estavam erradas.
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  — Rodrigo... — balbuciou, os lábios quase sem se moverem.
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  — Sim. Sou Rodrigo.
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  Gabriel arregalou as pálpebras em indício de como a tonalidade de voz era significativa para si, se convencendo sobre a quem ela pertencia.
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  O garçom compreendeu como a informação alcançou o cérebro do outro, então, mesmo sem notar, ensaiou um sorrisinho esperançoso o qual foi detectado pelo antigo amante, a frieza dos globos desaparecendo e abrindo espaço para o lampejo de sensibilidade surgir enquanto marejavam.
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  — O que vai pedir?
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  A voz enciumada do acompanhante quebrou o momento envolvente, os sobressaltando com discrição.
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  Gabriel viu como a mão trêmula anotou rapidamente o pedido após secar a solitária lágrima derramada. De cabeça baixa, se retirou em silêncio.
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  Quando o grande pão redondo de sacadura com muçarela, presunto e requeijão gratinados foi posto na mesa sobre o impecável prato branco, detectou o agradável aroma conhecido. Se apressou em verificar no cardápio os ingredientes, descobrindo como não havia orégano.
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  Certamente quem o incluiu foi Rodrigo.
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  Certa noite anos atrás comentou com o rapaz como todo e qualquer salgado de queijo e presunto ficava ainda mais saboroso com o toque discreto do orégano.
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  Reconhecendo a interferência para agradá-lo, buscou pelo olhar do cantor, quem atendia outra mesa. O contato visual durou instantes ínfimos. Notou pelo pestanejar rápido antes de voltar a atenção pra cliente o quão parecia desconcertado com a sua presença — ou melhor, o ato de adicionar a erva indicou como se recordava do homem e também buscava agradá-lo mesmo nos contextos mais adversos.
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  Só então notou como não conversava nada com o pretendente desde a chegada do funcionário na mesa deles.
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  — Eu não posso continuar com isso — soltou com a voz rouca as palavras sem raciocinar.
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  — Já estava me perguntando quando finalmente iria abrir a boca — o comentário soou bem-humorado. — É, de longe, uma escolha de palavras ruim, mas não me surpreendo. Você está com uma cara terrível.
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  — Desculpe. De verdade. É que... Tenho assuntos inacabados pra resolver.
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  — Compreendo. — Tomou gole generoso do chocolate quente. — Bom, foi você quem me convidou, então vai pagar a minha conta. Afinal, você está me dispensando. Não vou abrir mão da comida e nem de levar algo pra casa. — O sorriso foi vitorioso durante a mastigação.
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  Aguardou o loiro sair carregando uma bolsa com lanche pra solicitar a atenção de Rodrigo acenando com a mão.
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  O observou caminhar até si em fisionomia angustiada assim como a sua também estava.
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  — Quer a conta? — questionou Rodrigo em tom impassível.
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  — Precisamos conversar.
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  — Não posso.
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  — Eu vou conversar contigo, Rodrigo. Quer queira, quer não.
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  Não foi um pedido. Foi um firme aviso contundente, os traços endurecendo pela resistência alheia em não ceder.
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  Crispou os lábios grossos e indagou relutante:
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  — Quando?
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  — Agora.
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  — Inviável — retrucou. — Aliás, está atrapalhando o meu trabalho. — Aliviado, constatou o alegre grupo de mulheres entrando. — Não posso te dar atenção exclusiva.
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  Não aguardou a resposta, se retirando com agilidade na direção das freguesas.
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  Demorou mais quinze minutos aflitivos onde a tensão crescia entre eles. Mesmo sem consumir nada, o observava transitar pelo ambiente — e era impossível o rapaz não sentir o pesado olhar sobre si.
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  Por fim, farto da tola distância que os separava a qual nada tinha a ver com a distância física ou geográfica, o buscou com o olhar. Em inquieto movimento de cabeça, o chamou. Pela atenção ser direcionada unicamente para Rodrigo, entreouviu a musculatura corporal contrair enquanto caminhava em sua direção a passos hesitantes.
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  Ambos demonstravam a apreensão perante o reencontro inesperado, a tensão aumentando no decorrer do diálogo quando o rapaz se posicionou na frente dele lutando contra a vontade de fugir.
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  — Segundo o meu contrato de trabalho, eu não posso te dar atendimento preferencial... — começou Rodrigo intencionando agilizar a interação.
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  — Seu expediente termina em qual horário? — o interrompeu tomando um gole de água do bonito copo de vidro.
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  — Isso não te interessa.
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  — Tudo bem. — Contraiu as linhas nasais tão rápido que o rapaz pensou do ato ser sua criação mental. — Eu poderia continuar vindo todo o santo dia até você me dizer. Entretanto, para seu evidente terror, visto como o pânico é evidente por se encontrar comigo no mais absoluto nada, prefiro a praticidade na atual circunstância. Estarei te esperando aqui até a cafeteria fechar — comentou com descaso, como se a decisão fosse tão simples ou plausível quanto tomar outro gole de água assim como o fez.
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  Não sentia sede. Pelo contrário. Buscava ocupar as mãos de qualquer maneira. Do contrário, era capaz de...
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  Era capaz de...
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  — Você não...
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  — Ninguém me impediria.
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  Gabriel soou imperativo, a voz engrossando em virtude da certeza das próprias ações impulsivas embora decisivas.
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  — Até porque hoje não há nenhum compromisso tão importante que me impeça de conversar contigo depois de sofrer igual um filho da puta pela sua morte enquanto você continua vivo. Eu estive de frente pro seu caixão e... — notando como se alterava, calou-se.
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  Não era o momento e nem o lugar para discutirem assuntos tão íntimos, principalmente quando ambos carregavam forte bagagem emocional cujos resultados não saberiam dizer onde poderiam lhes levar caso se chocassem ou fossem liberadas.
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  A confissão dita aos murmúrios em contraste da intensidade que foi contada, atingiu a ambos de formas divergentes.
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  Rodrigo se encolheu mostrando como aquilo o impactou. Primeiro pela exigência o confrontar com as consequências de se manter afastado contra a sua vontade de sua vida e das pessoas que amava.
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  Gabriel refletia o estado de espírito sem recato, inclusive deixando claro o quanto o reencontro o impactou para além do que deveria. Na altura dos acontecimentos, isso não o incomodou em nada.
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  O silêncio pesou entre eles, ambos assimilando as impressões difíceis de serem elaboradas.
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  Em resultado do confronto, Rodrigo sentiu súbito cansaço mental.
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  Não esperava pelo reencontro e nem ser confrontado daquela maneira inesperada. Sentia-se encurralado, quase como se estivesse preso às demandas emocionais dos traumas vivenciados desde a tentativa de assassinato.
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  Em busca de manter o equilíbrio por não confiar plenamente na capacidade dos joelhos de o manterem de pé, apoiou uma mão na mesa fechando as pálpebras. Em feição torturada, abaixou a cabeça controlando as perturbações pessoais por estarem em público.
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  Notando o pesar, agiu no ímpeto genuíno de lhe trazer qualquer tipo de acalento.
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  Por debaixo da mesa Gabriel esticou o braço até alcançar as pontas das falanges alheias, enviando sensações aconchegantes no âmago dos dois pelo simples ato.
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  Inferno, aquilo o levou para anos atrás, quando um recorria ao outro em busca de conforto, companhia ou até prazer, o qual acontecia eventualmente.
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  Não era para aquilo o desestabilizar com tamanha facilidade assim como ocorreu — e se questionaria se a reação era normal mesmo após mais de três anos separados.
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  Em resposta, o rapaz arquejou pelo toque gentil. De queixo caído, o mirou surpreso sem se desvencilhar da pele tão conhecida.
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  — Por favor — implorou Gabriel.
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  O que o convenceu não foi a súplica ou a própria instabilidade, mas sim não havia autêntico misto de esperança, preocupação e talvez até...
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  Engolindo em seco, quase se recriminou por assentir em concordância.
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  A perplexidade de Rodrigo por Gabriel aguardá-lo sem demonstrar impaciência até às nove e meia da noite era quase cômica.
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  No carro de Gabriel, o silêncio foi absoluto, pesando ainda mais o ambiente. Os nós dos dedos do motorista esbranquiçaram tamanha a força exercida ao volante, os globos se dirigindo em ocasiões pontuais pro retrovisor onde observava o rapaz quem mirava a janela em feição dura espremido no banco graças a maior parte do espaço ser ocupada pela bicicleta. A cada sinalização inflava as narinas, lidando com a frustração inquietante de não acelerar ainda mais a velocidade.
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  Optou pela segurança plena de ambos — mesmo que os segundos lhe despertassem genuína aflição capaz de lhe gerar mal-estar.
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  Em questão de minutos chegaram na casa desconhecida pelo garçom.
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  No bonito quintal construído com o auxílio do arquiteto, havia uma piscina localizada no canto e áreas com bonitas flores. A agitada vira-lata caramelo o aguardava balançando o rabo ansiosa para brincar. No chão de claras pedras ásperas, logo se pôs de pé dirigindo a atenção ao portão automático do estacionamento por detectar a presença do dono.
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  Assim como se acostumara, a cadela correu na direção do homem latindo até colocar as patas dianteiras no abdômen o lambendo.
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  — Ivy, desculpa. — Após pular em si, a conduziu segurando pela coleira rosa até a corrente presa na parede. — Mais tarde brinco contigo.
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  A prendeu e, a caminho da porta da residência apanhando as chaves no bolso da calça jeans, acenou pra Rodrigo, quem, parado ao lado do veículo, parecia temeroso e em dúvida se tentava fugir do conflito em potencial ou não.
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  Tomou coragem respirando fundo. Caminhou a passos vacilantes enquanto o outro se ocupava de abrir a porta.
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  — Faça as honras — pediu para o hóspede o aguardando adentrar.
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  Como medida de segurança, Rodrigo apurou os sentidos se concentrando nas percepções naturais.
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  No caminho se preparou para qualquer manifestação violenta oriunda do antigo amante — ainda resquício dos traumas vividos no relacionamento abusivo com Lucas.
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  Trêmulo, pálido, apreensivo, agarrado na mochila posicionada na sua frente e com a musculatura retesada pelo temor, caminhou rígido até parar alguns metros a distância por precaução.
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  Já se preparava para o confronto, motivo pelo qual posicionou a mochila daquela maneira. Pensava em quais rotas de fuga poderia tomar ou quais objetos seriam de uso prático como arma branca, objetivando manuseá-los em legítima defesa.
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  Talvez, se pensasse em revidar quando as agressões do ex-namorado começaram, não teria chegado a esse ponto crítico.
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  Ao ouvir a porta ser trancada e a luz iluminar o cômodo, se encolheu aguardando pelo pior.
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  Jamais se passaria pela sua cabeça como seria puxado pelo braço, virando de frente a Gabriel em resposta corporal automática e nem que a mochila seria apanhada pelo homem, quem a jogou no sofá sem cerimônias. Em seguida, foi puxado pela camisa e abraçado como há muito tempo não acontecia.
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  Congelou no enlace em puro assombro.
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  Os braços firmes o envolviam lhe transmitindo segurança — um maravilhoso prelúdio do futuro, onde o homem não lhe recusaria nenhum abraço. As falanges da palma direita enterraram nos lisos fios curtos, pressionando de leve a cabeça contra o espaço entre o pescoço e o ombro. Recebia desesperados beijos carinhosos na têmpora e na bochecha. O característico perfume floral o impregnava, despertando memórias de tempos mais simples onde passava horas no apartamento onde o homem morava.
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  Por fim, escutou a voz emocionada dizer baixinho, como se trocasse íntima confidência em público ao invés de estarem sozinhos assim como era o cenário:
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  — Graças a Deus que você está bem. Foi dado como morto e eu nem pude me despedir ou contar como é importante pra mim. — Direcionou o nariz ao pescoço, onde inspirou sem constrangimentos. Soltou o ar quente pela boca, aquecendo a região. — Não imagina como senti saudade, meu amor.
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  O segredo demorou a ser registrado e assimilado pelo cérebro.
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  Como...
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  Como após todos os acontecimentos, seu desaparecimento e ter sido velado assim como viu acontecer depois nas redes sociais seria acolhido daquele jeito? Com tamanha amorosidade, companhia, respeito...
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  Não conseguia compreender como tal recepção foi possível.
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  Várias reações aconteceram simultaneamente cuja mensagem clarificava para Gabriel o nível de vulnerabilidade dele.
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  Soluçou iniciando abundante pranto onde relaxou por completo no enlace aconchegante. A visão turvou pelas gordas lágrimas, lhe restando fechar as pálpebras sentindo o peso dos sentimentos em sua totalidade. Os soluços o impediam de se comunicar e, enfim, retribuiu o abraço em ato instintivo pela abordagem cuidadosa e afetuosa de Gabriel para consigo.
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  Não conversaram por longos minutos.
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  Gabriel os direcionou até o sofá, onde, sentado, o permitiu se acomodar no colo, com os joelhos posicionados ao lado dos quadris.
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  No decorrer do tempo não houveram questionamentos, críticas, julgamentos ou qualquer mínima tentativa de lhe arrancar respostas para os questionamentos cujas réplicas mais trariam malefícios do que benefícios pro rapaz.
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  Permitiu o artista chorar o quanto foi necessário.
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  Afagava os cabelos, resvalava os lábios onde alcançava, depositava beijinhos cálidos, o embalava ou acarinhava as costas em toques gentis por cima da blusa em busca de acalentá-lo enquanto desabafava, ignorando as inúmeras perguntas as quais se formavam na mente em turbilhão pelo reencontro e pelo estado fragilizado.
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  Foi a primeira vez em que externalizava o sofrimento.
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  Inconscientemente, converteu sintomas físicos que nada mais eram que emoções represadas em reação corporal. Expeliu parte significativa da raiva, da injustiça, da humilhação, da tristeza oriunda da traição, da decepção e diversas outras impressões guardadas desde a infância naquele momento delicado sem apresentar resistência — aliás, compreendeu ali como estava exausto de resistir a elas.
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  Agarrado nele em busca de amparo, se aconchegou no ombro com perfeição ensejando extravasar pela primeira vez o conteúdo emocional guardado e trancafiado no cérebro por tanto tempo das memórias cheias de humilhações, agressões e injustiças das quais foi impotente vítima.
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  Portanto, quando o lamento cessou, a face andrógena estava cheia de linhas de expressão, os cílios úmidos, a derme rubra e a expressão lívida por lidar com vasta bagagem da catarse.
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  — Melhor? — murmurou contra a pele do pescoço.
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  — Sim.
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  — Vai me contar...
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  Dialogavam aos murmúrios, as vozes carregadas de ar.
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  O gemido acompanhado dos ombros encolhidos foi resposta suficiente.
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  — Não — avisou baixinho com a voz embargada. — Hoje eu não... Não me pergunte nada hoje. Por favor.
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  Não era momento de pressioná-lo. Era nítido, principalmente após chorar de forma incessante por quase quarenta minutos. Estava fora de cogitação trazer incômodo, por menor que fosse.
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  Portanto, guardando o próprio desapontamento para si e ignorando a inquietação, buscou opções as quais manteriam o clima mais leve para Rodrigo. Não era de sua vontade prejudicá-lo.
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  Se recordando do passado, avisou, repousando as digitais nos quadris alheios.
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  — Lembra quando você encontrava algum horário na sua agenda, vinha pra cá e passávamos a noite assistindo seus filmes de terror preferidos?
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  Assentiu, acanhado pela forte catarse.
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  — Tem algum compromisso amanhã?
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  — Não. — Fungou crispando os lábios. — Domingo é minha folga.
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  — Por que não me olha? Vamos. Olha pra mim.
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  Em muxoxo, se ajeitou até os olhares se encontrarem.
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  Atencioso, perscrutou o rosto com resquícios de choro. Com as pontas dos dedos secou a umidade, afastando a apatia da fisionomia outrora alegre — pelo menos quando se conheceram há alguns anos. Resvalou as digitais até os fios lisos, os penteando para trás e observando retornarem ao lugar original.
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  — Novo visual, é? — A curiosidade era genuína, embora o tom revelasse certo nível incomum de intimidade.
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  — Talvez. — Soou tímido, dando de ombros. — Nem sei o motivo por que estou mantendo meu cabelo assim. Achou ruim?
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  — Não. Tudo fica bem em você.
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  Apesar de não comentar, foi evidente pela fisionomia como o alívio o tomou por ver Rodrigo abrir hesitante sorriso.
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  — Por que não relembramos dos velhos tempos, bunny? A gente podia só passar a noite assistindo aos seus filmes de terror favoritos aqui no sofá. Compro alguns petiscos no aplicativo. Tem uma loja muito boa cuja entrega é bem rápida por ser localizada a duas quadras daqui. Na geladeira tem a metade de um bolo de chocolate com bastante brigadeiro. Pode ser?
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  O pedido foi realizado com tanta ponderação e gentileza que foi impossível recusar — assim como foi igualmente impossível os olhos não brilharem perante a seu antigo apelido do qual apenas Gabriel tinha a autorização de chamá-lo.
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