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ATENÇÃO!

História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Doce Trapaça

Escrita porZsadist Xcor
Revisada por Lelen

Parte do Pop-Up Criativo #2 – Escreva seu livro.


Capítulo 14

  Os encontros com Gabriel se tornaram cada vez mais frequentes no final do expediente do rapaz e a cafeteria o novo alvo de interesse do antigo amante.
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  Por vezes ia ao estabelecimento para aproveitar a oportunidade de observá-lo de longe, mesmo que fosse por ínfimos instantes. Buscava averiguar se estava tudo bem consigo, refreando a vontade de perguntar sobre a razão de mancar de uma das pernas.
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  Naquela noite em particular o aguardava sentado na areia da praia, a três quadras de onde morava.
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  A paisagem era espetacular. Não havia nuvens no céu limpo. Estrelado, a lua cheia predominava nas alturas. A brisa constante afastava as mechas dos cabelos, agora sem a finalização do gel, lhe dando ar mais natural. O som das ondas quebrando era relaxante. Sozinho, longe de olhares curiosos devido ao início da madrugada, desfrutava da sensação de serenidade aguardando quem marcara consigo ali.
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  Sentado, respirou fundo mirando os pés afundarem desnudos nos inúmeros grãos macios. Imerso em pensamentos, a feição refletia o íntimo por pensar refletir acerca dos fatores que os levou para o cenário onde se encontravam às escondidas. Buscava por explicações para suas perguntas, qualquer tipo de resposta para como chegaram àquele ponto onde precisavam agir com tamanho cuidado um com o outro se a relação já foi tão íntima em todos os sentidos da palavra.
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  Agiam quase como se estivessem se conhecendo. Não era como se já tivessem se beijado, trocado confidências, transado ou dormido juntos. Havia a presença constante de uma barreira cujo impedimento de acessar Rodrigo o angustiava por sempre precisar sem conter.
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  A fragilidade era evidente. Por detrás da visível força construída, a fragilidade sobrepujava algumas vezes, assim como acontecia quando Rodrigo hesitava em compartilhar seus pensamentos ou evitava seus trejeitos característicos — como o responsável por apelidá-lo de bunny, coelhinho.
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  Beirava à desconexão de si — e isso era sempre preocupante.
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  Escondeu o lento sorriso projetando de forma tênue os cantos da boca para baixo por detectar o barulho característico da bicicleta se aproximar de si.
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  — Pensei que não viria mais, sabia?
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  Se virou a tempo de vê-lo descendo da bicicleta. Usava chinelos, bermuda jeans surrada e camisa marrom com mangas na atura dos cotovelos. Carregava a mochila negra nas costas cujos pertences estavam guardados.
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  — Fiquei meio enrolado no trabalho.
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  Não comentaria como a perna doía ao longo da semana, então decidiu não entrar em detalhes desnecessários.
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  Se acomodando ao lado do homem de regata azul, o sofrimento estampou a fisionomia pela pontada de dor da perna cujo osso calcificou na posição incorreta, originando o desconforto.
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  O arquejo de dor não passou despercebido por Gabriel, então girou o corpo para o outro cujos cabelos se movimentavam pelo vento.
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  Calado, acompanhou como abriu a mochila posicionada ao lado do quadril, achando o remédio e a garrafinha de água.
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  — Está tudo bem?
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  — Sim. — Tomou a água junto ao comprimido. — Só meio dolorido.
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  — É por isso que está mancando?
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  Interpelação profunda demais no momento errado enquanto duas pessoas buscavam se reconectar após antigo desentendimento e recente desaparecimento de uma das partes. Terrível combinação nas atuais circunstâncias delicadas.
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  A mandíbula travada junto aos músculos retesados demonstrou como considerou a inquisição invasiva, assim como fugia do contato visual com Gabriel.
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  — Rodrigo.
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  A única reação além da taciturnidade foi o engolir em seco fixando o olhar na espuma das ondas quebrando.
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  — Não adianta se manter distante de mim dessa maneira. — Decidiu prosseguir em desabafo contido. — Isso não vai funcionar se continuar calado. Não estou te obrigando a contar absolutamente tudo o que aconteceu durante o seu desaparecimento ou o que te levou a sumir. Apenas converse comigo. Já tivemos ótimas conversas. Lembra?
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  A dureza desvaneceu nas feições andrógenas, dando lugar a faísca de martírio resignado.
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  — É impossível não lembrar — replicou num fio de voz fechando contundente as pálpebras.
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  — Então por que é tão difícil pra você conversar comigo?
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  Se esforçando para os olhos não marejarem, se dirigiu a Gabriel o fitando em visível conflito interno.
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  — Porque eu não sei até que ponto posso confiar em você.
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  A imagem vulnerável lhe despertou a vontade de acalentar, o impacto da refutação trazendo incômodo nó na garganta.
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  — Eu não mudei — assegurou em voz baixa, também se colocando em vulnerabilidade por compartilhar os verdadeiros sentimentos ocultos de Rodrigo por anos. — Nem a forma como me sinto em relação a você. Já o fiz sentir medo, tristeza, raiva ou agonia enquanto estava comigo?
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  Meneou a cabeça em negativa.
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  — Então você já tem um parâmetro da minha personalidade e sobre quem sou. A decisão de dialogar comigo ou não é inteiramente sua, embora saibamos que sou, sim, confiável. Especialmente em relação a você.
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  O silêncio pesou entre eles, potencializando a atmosfera densa por sustentarem o olhar penetrante do cantor e incerto de Gabriel.
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  Não era mentira.
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  Gabriel realmente fora franco contigo no passado. Não recorria a dissimulações ou controvérsias para se manter por perto, chegando ao ponto de abrigá-lo no apartamento para ajudá-lo a desfrutar de algumas horas de descanso.
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  Se ele tivesse mentido pelo menos numa situação específica...
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  Se dando por vencido, murchou soltando o ar pela boca por completo. Esclareceu em tom neutro, de forma inconsciente de preservação.
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  — Quebraram a minha perna.
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  Vislumbrou rápida faísca de ameaça direcionada ao responsável pelo desprezível ato nos globos azuis.
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  — Quem?
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  Em outro contexto a peculiar frieza na voz o assustaria. Se surpreendeu por achá-la atraente devido ao fato do relato incomodá-lo, sinalizando que ainda se importava com o seu bem-estar.
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  Ou melhor, jamais deixou de se importar consigo.
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  — O Lucas. A cirurgia foi um sucesso. O problema é que o osso calcificou no ângulo errado. Aí vivo sentindo constantes dores. Os remédios servem pra amenizar.
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  Ocultando o quão estarrecido ficou, Gabriel se arrastou até se posicionar atrás dele, as pernas abertas para o deixar confortável.
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  Foi impossível a sensação de acolhimento não despertar no âmago de Rodrigo pela posição naturalmente íntima e cercada de proteção.
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  Embora buscasse se conter na presença de Gabriel como método de se defender de qualquer decepção futura, as reações corporais o denunciavam — as íris dilatadas, o castanho dos globos derretidos, a fisionomia como se esperasse por contato mais profundo, o tímido sorriso que teimava surgir quando era elogiado.
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  Para seu desespero, não era ingênuo ao ponto de cogitar que Gabriel não deduziria o motivo do comportamento.
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  Mesmo sem visualizar o rosto por completo, entreouviu o queixo de Rodrigo cair em deleite ao colocar os lábios rentes a orelha, onde sussurrou, o ar quente chocando contra a derme:
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  — Eu vou respeitar o seu tempo, bunny. — Percorreu a fina pele do pescoço com a ponta do nariz em meiga carícia carregada de intimidade. — Só não duvide de como você é valioso pra mim. Vem pra cá.
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  A atmosfera era envolvente demais para ignorar, o corpo alheio quente demais para não se tentar, os braços firmes demais para a segurança potencializar e a posição familiar demais para não se entregar.
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  Necessitado do toque afável, se recostou nele em busca de acalento o qual foi bem retribuído pelos braços desnudos o enlaçarem.
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  Permaneceram quietos por longos minutos, aproveitando dos hesitantes carinhos mútuos enquanto Gabriel resvalava os lábios ou o nariz no pescoço alheio ou distribuía beijinhos lentos no ombro por sobre a camisa.
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  Embalou a mão esquerda de Gabriel entre as suas, a virando em seguida após esquentá-la do frio. Em gesto delicado, usou a ponta do indicador para acompanhar os traços da palma em toque quase imperceptível.
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  Quando a nuca alva foi beijada, Gabriel sabia que o arrepio não foi oriundo do vento.
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  — Por um lado foi bom eu ficar longe de tudo, sabia?
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  — Por quê? — repousou o queixo no ombro o ouvindo com atenção.
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  — Me encontrei inserido no meio de pessoas simples que me tratavam bem e me respeitavam.
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  — Por que tenho a impressão de haver algo por detrás das suas palavras? Tipo, não me contou nada de extraordinário.
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  — Não era sempre que eu era bem tratado ou respeitado antes de sumir.
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  — Se estiver se referindo à sua irmã e a sua equipe, preciso concordar. Nunca gostei muito deles.
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  Como se para lhe fortalecer, entrelaçou as falanges na sua.
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  — Me refiro ao Lucas também.
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  — Como assim? Vocês pareciam muto felizes. Felizes até demais pro meu gosto. — O sarcasmo contemplava o comentário. — Digo porque acompanhava as suas duas páginas, tanto a da Alya quanto a sua pessoal que era privada.
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  — Usou a palavra certa — soou amargurado, a voz não passando de baixíssimo murmúrio carregado de ar. — Parecia. A internet tem essa capacidade. Constrói mentiras bem convincentes pro público-alvo.
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  Engoliu em seco, farto de esconder a desolação.
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  — Vocês pareciam tão felizes... Eu nunca imaginaria.
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  O tremor percorreu o corpo, levando Gabriel a pressioná-lo contra si de leve por instinto.
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  — Eu alimentava a imagem de relacionamento perfeito. — Só se deu conta do pranto pelas lágrimas embaçarem a vista. — Íamos juntos aos lugares, batíamos fotos e nos amávamos na frente das câmeras. Os bastidores não condiziam com o que queríamos mostrar, entende? Até porque a nossa imagem junta gerava lucro e engajamento.
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  Fungando, aceitou a iniciativa de Gabriel de secar as lágrimas com os dedos.
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  — Parando pra pensar, era mais extensão do meu trabalho do que outra coisa — finalizou em expressão indiferente, embora o olhar e a voz indicassem o contrário.
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  — Ele era escroto contigo?
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  — Digamos que algumas vezes eu não tinha motivação ou disposição pra levantar da cama. — Em pura aflição, soltou a mão alheia e usou a sua para tampar a boca em busca de abafar os soluços. — Não era pra eu ter deixado... Ele... Ele me obrigava a...
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  Compreendendo como o assunto era obscuro demais pro rapaz lidar naquele momento e talvez fosse até precipitado de sua parte em aprofundar sobre seu calvário, decidiu mudar o rumo da conversa.
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  — Me conta como foi no litoral.
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  Em alívio pela temática mais branda, os soluços deram lugar ao sorriso, permitindo que memórias mais felizes o atingissem.
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  — Conseguiu aproveitar a praia? — prosseguiu em tom que beirava a animação, limpando os vestígios do choro. — Pelo que me lembro, você ficou adorável com a pele queimada do sol quando assistimos a queima de fogos.
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  — Fico adorável, é?
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  — Fica.
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  Se encolheu em meio a risos cúmplices por Gabriel mordiscar a nuca, ponto onde sabia como era propício para o prazer ou cócegas.
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  — Num geral, foi bom — contou, a voz agora retornando ao timbre normal. — Conheci algumas pessoas bem legais, como o Igor e o João.
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  A careta enciumada não foi vista pelo rapaz.
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  — Igor e João? — Não disfarçou a pontada de ciúme.
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  — Sim. — Se virou o fitando em curiosidade para conferir se a suspeita foi correta ou criação mental. — Recebi alta do hospital após passar meses lá me recuperando. o Igor aceitou que eu morasse com ele.
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  Ao contrário de quando Lucas sentia ciúme, não havia nenhum grau de periculosidade. Pelo contrário. Achou a fisionomia de Gabriel até cômica, capaz de diverti-lo ao invés de amedrontá-lo como era de costume no relacionamento abusivo.
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  — Ele foi um bom anfitrião?
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  — O cara tem a idade para ser o meu pai — assegurou, rindo de como deliberadamente Gabriel optava por sequer disfarçar o desconforto.
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  — E o João? — Ergueu a sobrancelha direita acentuando a careta de propósito por entretê-lo.
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  A gargalhada foi hilária.
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  Apesar do sentimento mais denso, se alegrou de proporcionar um momento sereno o suficiente para o rapaz soltar genuína risada.
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  — Parecia ser o meu irmão mais velho ou meu tio.
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  — Bom saber.
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  — Está com ciúme, é? — Foi impossível não o provocar.
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  — O que você acha? — rebateu, se divertindo com o desafio imposto enquanto se esquivava da réplica simples.
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  — Eu diria que sim, mas não há motivo pra sentir ciúme. Eles não eram você.
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  Nem notou a profundidade da última fala por se deixar leva pela descontração, então, ao fitá-lo, além de compreender a proximidade física, se deparou com a fisionomia carregada, como se estivesse farto de carregar o peso das consequências de situações inacabadas.
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  Perdido no olhar receoso de Rodrigo, enxergava como as ações passadas refletiam em cada reencontro. A hesitação, a apreensão características de quando existia inegável barreira que os impedia de estarem plenos um com o outro devido à falta de comunicação pesou ainda mais, demonstrando a conflitante carga emocional que sustentavam como bagagem extra.
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  Rodrigo temia o confronto por, enfim, poder desfrutar da presença de quem se apaixonou antes de Lucas entrar em sua vida.
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  Gabriel almejava ter a habilidade de voltar no tempo com o objetivo de concertar o erro de não ser sincero, principalmente ter mentido em diálogo onde, para não transparecerem a decepção, vestiram máscaras de indiferença em busca de proteção — embora o sofrimento fosse evidente nos globos.
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  Ao acariciar a face rubra pela tensão, o rapaz fechou as pálpebras em resposta, apenas aproveitando a sensação cuja saudade emergiu do âmago após mantê-la trancada dentro de si durante anos.
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  Se deixando levar pela atmosfera cheia de insegurança, deslizou as costas das falanges pela bochecha até embalar o rosto entre as palmas em toque repleto de amabilidade. Puxando o ar até os pulmões enxerem, encostou a testa na dele.
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  — Bunny, bunny... — em movimento mínimo, abaixou a cabeça para beijar a ponta do nariz, retornando à posição anterior — Como fomos terminar assim?
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  Rodrigo engoliu em seco mediante a pergunta delicada. Incapaz de encará-lo pelo medo dos sentimentos serem decifrados, permaneceu com os olhos fechados como forma de proteção.
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  — Assim como? — ousou dizer num fio de voz, franzindo o cenho e encolhendo os ombros em gesto tênue.
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  — Separados. — Descendo os lábios em direção a boca, constatou como deduzia qual era o objetivo da ação pela respiração pesar em antecipação. — Nos tratando quase como estranhos. — Parou a menos de dois centímetros.
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  Abrindo os olhos, viu como Rodrigo travava árdua luta entre se entregar por completo ao momento e resistir aos impulsos.
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  — Como se estivéssemos no início de uma relação e nunca tivéssemos nos beijado antes.
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  Quando os lábios se tocaram por um milésimo de segundo, o artista se obrigou a abrir os olhos e se afastar de forma brusca, quebrando o encanto cujo contato buscava evitar — mesmo sabendo que era inevitável dele surgir.
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  Não deu tempo nem de Gabriel tentar tranquilizá-lo, comunicando em seguida em voz apática:
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  — Eu preciso ir.
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  Nunca foi tão ágil em se desvencilhar de alguém e se pôr de pé.
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  Com o cérebro ainda registrando o episódio, Gabriel clamou o acompanhando na diligência de impedi-lo de se afastar.
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  — Rodrigo, espera. — Em tom urgente, segurou o antebraço. — Precisamos conversar.
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  — Não — rugiu em traços duros o encarando impiedoso. — Foi você quem ditou as regras e não vou permitir que volte a me machucar.
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  — Eu nunca...
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  — Mentiroso! — Enraivecido, se desprendeu da palma exalando orgulho. — Foi você quem me disse que só me procurava porque eu fodia bem. Não espere um tratamento melhor da minha parte. Me iludi uma vez por sua causa e me recuso a passar por isso de novo. Já me machucaram o suficiente. Não preciso mais disso.
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  Não havia tempo para assimilar as palavras pelo rapaz buscar a bicicleta com rapidez. Em igual estado de martírio, as palavras o atingiram como golpes sem misericórdia, potencializando os sentimentos e confundindo o raciocínio de Gabriel.
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  Lhe restava apenas confrontá-lo acerca das últimas colocações, pontuando como foram dolorosas para ambas as partes.
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  — Espera. Espera, Bunny. — O enlaçou pela cintura, sentindo o leve tremor no corpo alheio pela ação. — Precisamos conversar, pelo amor de Deus — suplicou.
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  — Não precisamos até porque não sinto nada por você.
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  Através da máscara de indiferença, Gabriel detectou a mentira oculta por detrás das palavras e Rodrigo a determinação estampada na fisionomia de Gabriel.
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  — É, mesmo? — O puxou ainda mais para si, colando as silhuetas de delicioso contato. — Olha pra você. Derrete nas minhas mãos e tem a coragem de mentir pra mim, dizendo que não sente nada por mim?
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  Se condenou pelo próprio corpo traí-lo em denúncia de como a química entre eles ainda era pujante, além de revelar como Gabriel continuava sendo o seu ponto fraco.
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  — Eu não quero nada contigo — retrucou em tom seco.
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  Gabriel detestava aquela frase. Mesmo após tanto tempo, se culpava em pronunciá-la para quem amava na época — e era claro como o impacto se tornou evidente no semblante ao travar o maxilar.
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  — Não foi o que pareceu nas últimas semanas, principalmente quando passou a noite lá em casa — refutou no mesmo tom.
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  — Você me persuadiu a ir.
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  — Você foi porque quis, assim como todas as outras vezes que veio saindo comigo desde então. Sabe muito bem que estava livre para recusar se encontrar comigo depois da primeira conversa porque eu jamais o obrigaria a estar do meu lado caso não quisesse. Então porque, Rodrigo? Por que continuou se encontrando comigo?
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  A atmosfera se tornou mais densa por Rodrigo não ter nenhum argumento perante da verdade — fato que comprovava para ambos tanto a gama de sentimentos existentes nele quanto a recusa em compartilhá-los para se preservar.
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  E além disso. O esforço diário em negar esses sentimentos para si.
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  Em carranca onde estampava o conflito interno, se soltou, apanhou a bicicleta, montou nela e se afastou sem olhar para trás, deixando ambos com os corações acelerados e a amargura no paladar de não resolverem assuntos pendentes os quais insistiam em ressoar entre eles.
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