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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Doce Trapaça

Escrita porZsadist Xcor
Revisada por Lelen

Parte do Pop-Up Criativo #2 – Escreva seu livro.


Capítulo 4

  No dia em que o jatinho de Rodrigo explodiu no ar, Gabriel terminava o preparo do bolo de chocolate no fim do domingo à tarde.
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  O aroma permeava o apartamento ao retirá-lo do forno. Satisfeito pela louça lavada e pelo aspecto do brilhoso brigadeiro, se encaminhou para a sala, atendendo o celular vibrando no bolso da calça moletom.
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  — Oi! — A conhecida voz feminina ecoava na linha. — Está em casa? Queria dar um pulinho aí. Preciso da sua opinião sobre uma coisinha e me recuso a conversarmos pelo telefone sobre o assunto.
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  Pelo barulho externo, entendeu como já dirigia para o endereço dele.
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  — Claro. Estou te aguardando. Por sorte tirei um bolo do forno agora.
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  A frase despertou antiga lembrança.
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  Recordou de certo comentário de Rodrigo sobre o cheiro de bolo assado ser um dos seus preferidos, num domingo nublado como aquele. O clima era propício para passarem o dia juntos no apartamento — e assim eles estavam desde a noite anterior. Debaixo das cobertas, dialogavam e riam em atmosfera leve e até amorosa. Assistiam filmes e de vez em quando os toques eram mais maliciosos — sem um negar o outro de gozar.
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  Na ocasião, vestia a curta samba canção azul marinho, a fragrância do sabonete exalando da pele em virtude do banho recém tomado. A água molhara os longos cabelos castanhos, os escurecendo. Foi impossível não o beijar perante a visão do rapaz sorridente ao chegar na cozinha com o peitoral desnudo.
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  Se questionou quando, enfim, tais reminiscências parariam de surgir se jamais oficializaram um relacionamento. Se achava patético por não o superar, principalmente por Rodrigo namorar há cerca de um ano.
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  — Daqui a pouquinho chego, primo.
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  Desligando o telefone, sentou-se no sofá e ligou a televisão mexendo no celular.
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  Se deparando com a notícia da morte de Alya em famoso portal de fofocas, o coração disparou. Em choque, leu o artigo, buscou pela rede social de Lucas e também da cantora. Trêmulo, a garganta fechada e contendo o choro, ligou para número de Lílian.
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  — Me fala que é mentira. — A voz embargada denunciava a emoção. — Por favor, me diz que ele está contigo. Me fala que o Rodrigo está puto por causa dessas matérias sensacionalistas e que já está agora com a droga do celular gravando storys pras plataformas desmentindo essa merda. Por favor. Me fala, Lili.
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  — Amigo... — A mulher chorava copiosamente. — Não é mentira. A gente ainda não sabe o que aconteceu direito. Parece que o avião explodiu no ar. Parte da aeronave caiu numa área de mata. O jatinho foi identificado como o do Rodrigo e... Não há nenhum vestígio do paradeiro dele. Presumem de ter caído na água.
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  Ah, Deus. Por favor, que não seja verdade. Por favor, bom Deus, não permita que...
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  O grito de desespero seria ouvido pelo bairro — e nenhum dos vizinhos se esqueceria da tamanha dor contida no lamento expressado.
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  Aline o encontrou encolhido no canto do sofá em deplorável estado de sofrimento durante intenso pranto. Com os joelhos juntos ao tronco, as abundantes lágrimas embaçavam a visão. De tão absorto no suplício, somente compreendeu a chegada da prima quando uma mão o impulsionou gentilmente até deitar a cabeça nas pernas cobertas pela saia rodada.
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  — Eu não queria que soubesse sozinho — disse a moça acariciando os cabelos masculinos.
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  — Ele se foi, prima — desabafava entre engasgos, quase inaudível. — Eu nem tive a oportunidade de contar o quanto o amava.
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  O velório aconteceu dois dias depois.
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  Doralice estava inconsolável.
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  Sob o efeito de calmante, era conduzida pela filha. Recusava qualquer gesto de Lucas para assisti-la. Os deixou a cargo de receberem as condolências, falando apenas o necessário com as pessoas mais próximas como familiares e amigos. Ao lado do caixão onde jazia uma urna simbólica representando o corpo do filho, se certificava que não havia nenhuma poeira ou mísero grão capaz de sujar a madeira brilhosa.
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  A presença do caixão não era necessária, mas insistiu nele — e pelo seu miserável estado emocional, ninguém retrucaria sobre a exigência.
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  Vestida de negro, os movimentos eram letárgicos assim como o raciocínio. Balançava a cabeça em resposta para qualquer palavra ou questionamento, os olhos escondidos pelos óculos escuros. Lágrimas desciam pela inexpressível face pálida. A muito custo, Annanda a convenceu de colocar um pouco de sal na língua por medida de segurança após verificar como a pressão abaixou pela manhã.
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  As amizades de Rodrigo não a tiravam de vista, a observando. Ao mero sinal de contratempo, a acudiriam sem refutar.
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  Annanda se preocupou em simples pontos. Realçar a beleza, parecer abalada e se esforçar em não demonstrar contentamento pela morte do irmão. No fundo estava feliz por sequer existir restos mortais para enterrar. Para ela, a ocasião era motivo para comemorações — e aconteceriam futuramente. Apenas não esperaria pela reviravolta, nem como precisaria tirar outro inocente da jogada.
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  Sabia como instigar Lucas. A escolha do justo vestido decotado foi proposital por deixar os fartos seios à mostra, assim como o batom vermelho, destacando os lábios cheios.
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  — Me provocar assim no velório do falecido é pecaminoso até pra você — sussurrou o homem num canto mais afastado da minúscula capela lotada, se repreendendo pela mulher ter tamanho efeito sobre si. — Poderia ao menos respeitar o momento.
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  O lampejo de excitação perpassou nos verdes olhos femininos.
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  — Como se não estivesse gostando.
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  Se desvencilhando dos demais, projetou os quadris contra os de Lucas, encaixando intencionalmente o volume da calça alheia na bunda.
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  Se encontrariam naquela madrugada.
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  Gabriel foi um dos primeiros a chegar — o único que Doralice permitiu ampará-la enquanto o caixão descia e diversas flores eram jogadas pelos presentes em última homenagem. Escapava dos toques de Lucas, principalmente por pequenos disparos de câmeras surgirem pelos fotógrafos registrarem momentos tão íntimos.
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  O cemitério escolhido era muito bem cuidado e bonito — contraste mórbido entre beleza bucólica e a finitude da vida, em especial quando vinha de precoce morte trágica.
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  Flores foram jogadas no caixão enquanto ele descia ao som de música ecoada pelos amigos do filho em última homenagem. Gabriel a auxiliou nos poucos passos necessários, ambos dando um beijo nas respectivas rosas vermelhas antes de soltá-las.
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  No caminho de retorno, era amparada por Gabriel em terno preto e a filha. O justo vestido midi de alças delineava o tronco e acentuava as curvas de Annanda.
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  Mais tarde reclamaria com a mulher acerca do decote da indumentária e da escolha do batom, desnecessários em sua opinião porque a proposta do cenário não era a exibição de si, mas o lamento pela precoce morte de Rodrigo.
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  — Nem sei o que lhe dizer — começou Gabriel no retorno, segurando a mão enrugada.
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  — Não precisa — pontuou em voz carregada de ar. — Enxergo o sofrimento nos seus olhos, ao contrário de alguns.
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  Por não retirar os óculos, o outro não percebeu como o olhar recaiu por ínfimos instantes em Lucas. Dava entrevistas metros à frente, se demorando com os repórteres.
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  — A morte é pra ser sentida — prosseguiu após a ligeira pausa. — Se serve de consolo, você era a pessoa ideal pro meu filho. O teria feito muito feliz, querido. — Repousou a palma fria na face com barba por fazer.
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  Em seguida, Annanda lhe murmurou algo no ouvido. Doralice concordou e aceitou ser conduzia pela filha para irem embora.
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  Doralice não melhorou ao longo dos dias.
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  O luto tirou parte significativa de sua vivacidade. Mal se alimentava, apresentava insônia terrível e permanecia isolada no quarto.
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  Nunca lhe ocorreu de enterrar um dos filhos. Afinal, não é o natural para nenhuma família. Assim como mortes abruptas ou súbitas, a de Rodrigo era penosa de se aceitar por não haver histórico prévio capaz de prepará-los. O rapaz estava bem, vivo, cumprindo os compromissos da agenda, trabalhando e produzindo. Não havia motivos para simplesmente enterrá-lo naquela tarde nublada — ou melhor, enterrá-lo simbolicamente, já que a injustiça divina foi tão grande que sequer sobrou restos mortais para jazer no caixão.
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  Em busca do mínimo de tranquilidade para amenizar a penúria, foi para a casa onde o filho morava com Lucas no final da tarde.
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  Como tinha a cópia da chave, entrou sem empecilhos. A encontrou vazia, o amplo espaço organizado e limpo, assim como as empregadas haviam deixado.
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  No interior da ampla residência, a figura feminina transbordava fragilidade. Percorria o ambiente com o olhar perdido, notando como até a atmosfera mudou em virtude da falta de Rodrigo.
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  Pelo rapaz passar o último ano lá, ainda sentia a presença dele pelos cômodos. Era capaz até de ouvir a risada estrondosa na sala, se recordando de quando brincavam juntos quando era apenas lindo menininho de traços inocentes.
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  Exausta, melancólica e impactada pela morte prematura do filho, desabou no sofá. Deitando-se, se aconchegou chorando até adormecer, o cansaço a vencendo.
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  — E como está a sua mãe? — Lucas abria a porta pra Annanda às nove da noite.
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  — Acabada. — Entrou na sala de paredes claras entregando a bolsa para o amante. — Não sei se ela vai se recuperar.
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  — Fico com dó dela. — Se sensibilizou jogando o objeto no sofá, sem detectar a presença de alguém além da dupla. — Perder o filho assim do nada foi um baque muito forte.
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  — E por acaso está arrependido de termos nos livrado daquele chato? — ironizou enlaçando o pescoço másculo. — Não foi a impressão que tive pela forma como me comeu durante a tarde.
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  — Arrependido não estou. Sua buceta é gostosa demais pra eu ignorar. — Em expressão lasciva, deu um selinho nos lábios vermelhos. — Mas fico com pena da sua mãe.
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  — Deveria ter pena de mim por conviver com meu irmãozinho. Não sabe como foi satisfatório largá-lo praticamente morto. Só o fato de não precisar mais vê-lo me tranquiliza.
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  — Ainda pretende ingressar na carreira artística?
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  — É claro!
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  Um dos principais motivos de Annanda detestar Rodrigo era o fato dele alcançar o sucesso como cantor. Eram raras as ocasiões onde a fagulha de inveja perpassava a fisionomia, irritada por cada progresso e conquista. Embora não fosse tão talentosa quanto ele, acreditava poder angariar seu espaço no mundo onde o finado não tinha coragem de mostrar a pessoa por detrás da persona artística, Alya.
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  Annanda, não. Era audaciosa o suficiente para aparecer, mostrar sua individualidade e como gostava de levar a vida por detrás das câmeras. Desejava ir aos eventos comparecidos pelo irmão como uma das principais atrações, ser entrevistada e se ver rodeada por pessoas importantes. Era o seu direito. Sonhava com aquilo desde a infância — e acompanhar o crescimento de Rodrigo quando o rapaz se acovardava em se mostrar para o mundo a deixou à beira da loucura.
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  — E seria de ótimo tom para nós dois se fosse você quem descobrisse o meu talento — prosseguiu. — Imagina como o contexto seria favorável? Teria a sua figura como referência e eu ainda pagaria como a pobre irmã abalada, buscando seguir com o legado de Alya. Pelo menos nisso o insuportável do meu irmão prestou. Preparar o terreno pra mim — zombou.
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  — Orquestrou o assassinato do Rodrigo há um bom tempo, né?
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  Não escapou de Lucas como as palavras eram quase degustadas em júbilo, como se elaborasse o plano há bastante tempo — ou, no mínimo, sonhasse em realizá-lo em suas fantasias mais criminosas.
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  — Eu vinha pensando nisso há anos. Só não imaginava o meio correto para concretizar. Aí você aparece e... Bem, se não fosse para acontecer, meu irmãozinho não o teria conhecido.
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  — E foi quando me deparei com a mulher maravilhosa que é.
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  Trocaram ávido beijo iniciado pelo homem, as palmas descendo pelas costas até encontrar a bunda feminina escondida pelo justo vestido vinho.
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  Quando os lábios se moveram em direção ao pescoço, Annanda, enfim, abriu os olhos, encontrando a mãe transtornada ao lado do sofá.
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  Não notaram a presença dela quando entraram por estar adormecida. Acordou pelo baque da pequena bolsa estruturada na face. Por despertar no exato momento quando comentaram sobre o assassinato, manteve-se calada, sem denunciar que não estavam sozinhos.
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  Escutou cada palavra estarrecida, enfim compreendendo como o filho morreu.
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  Agora, além da tristeza paralisante, também existia ódio no coração. O misto de pesar e cólera transformou a feição afetuosa, quase a desfigurando. E essa foi a visão da moça por ínfimo instante, se assustando e se atinando em como o crime foi descoberto.
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  — Maldita! Ele era seu irmão, desgraçada! Por que fizeram isso com ele?! — rugiu Doralice avançando na filha.
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  A casa se tornou um pandemônio.
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  A fúria tomou a enlutada.
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  Em estado de cólera, agarrou os cabelos loiros de Annanda, arrancando vários fios aos berros. Estapeava-a, arranhava e rasgava as roupas imprecando em desespero. Sem ter para onde correr, restava apenas recuar sem enxergar para onde ia. Tropeçou nos próprios saltos caindo de costas e levando a mãe junto.
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  — Solta ela, Doralice! — Lucas a puxava pela cintura, se esforçando para afastá-la da amante.
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  — Assassinos! Vocês mataram o meu filho! — esbravejava em gritos histéricos. — Mataram meu menino! Desgraçados! Infelizes!
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  Quando conseguiu tirá-la de cima de Annanda, o decotado vestido fora rasgado no ombro e no quadril, fios loiros se espalhavam pelo chão, a orelha direita sangrava porque a mãe arrancou o brinco no ataque e apresentava lesões superficiais no rosto.
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  — A tranca no quarto! — pediu enquanto se levantava com dificuldade. — Não a deixe escapar.
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  De tão ensandecida, demorou cinco minutos para o homem acatar a solicitação.
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  Suado, rubro pelo escorço e cansado, retornou respirando com dificuldade.
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  — Você sabia que ela viria pra cá?
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  — Não seja burro. — A metros de distância, analisava as várias garrafas de bebidas caras. — Eu não nos comprometeria assim. Deve ser essas bobagens do luto. Afinal, meu irmãozinho morava aqui. — Apanhou a de rum.
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  — O que faremos? É evidente como Doralice escutou tudo.
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  — Não se preocupe. — Para se preparar, se servia da bebida disposta no canto oposto da parede num gole só, direto do gargalo. — Já pensei nisso. Só há um problema. — Guardou a garrafa no local de origem.
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  — Qual?
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  Secando o canto direito dos lábios, caminhou devagar pelo aposento observando cada centímetro. Franzindo o cenho, deslizou os dedos no jarro de flores vermelhas.
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  — Sua personalidade é materialista demais pra combinar com flores — comentou Annanda.
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  — Rodrigo adorava. Era ele...
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  De súbito, apanhou o jarro e o atirou contra a parede o quebrando em diversos pedaços. Terra se espalhou pelo assoalho, a mancha marrom servindo como prova da ação.
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  — Está louca? — Exasperado, se aproximou dela. — Que porra...
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  Ao se virar para Lucas, a frieza exalada nela o impediu de prosseguir.
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  — Liste três objetos que detesta ou menos gosta nesta sala. Em seguida, você tem um trabalho mais complicado caso não queira problemas com a justiça.
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  — Pior do que você destruir a minha casa?
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  — Sim. Quero que bata em mim o suficiente para deixar marcas.
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  Demorou trinta minutos pra equipe de enfermeiros chegar na ambulância.
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  Encontraram Annanda sangrando. O supercílio fora cortado. Pelo corpo, as escoriações eram evidentes. O lado direito do rosto inchara em decorrência dos vários tapas. No olho direito o hematoma tomaria a coloração roxa quando passassem por avaliação pelo psiquiatra no dia seguinte sobre o estado de saúde mental de Doralice.
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  Encontrariam a dupla sentada no sofá, limpando as feridas da inconsolável mulher. Abatida, descabelada, agredida e acomodada no sofá encolhida com Lucas limpando os ferimentos, transmitia fragilidade genuína. Cacos de vidro se espalhavam pelo chão, dois móveis quebrados e um com a porta da cristaleira quebrada.
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  — Por favor, nos ajude — pediu Annanda para o primeiro enfermeiro quem se aproximou. — Eu não sei o que deu nela.
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  — Conte cada detalhe do ocorrido — pediu o profissional sentando-se no sofá. — Só poderemos atuar mediante as informações.
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  — Meu namorado morreu há alguns dias — prosseguiu Lucas pela outra chorar devastada. — Foi muito do nada. A mãe dele ficou abalada demais pela situação.
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  — Ela não comia, não saía do quarto, não dormia... Não queria ver ninguém. — O trêmulo corpo sacolejou pelos soluços.
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  — Achamos que fosse por causa do luto — o amante deu continuidade. — Annanda veio pra minha casa buscar alguns pertences do meu namorado, já que são irmãos. Quando íamos pro quarto, a Doralice apareceu. Não sei o que deu nela. Gritou dizendo que éramos os assassinos do meu namorado e agrediu a própria filha. Olha o estado que Annanda está, coitada.
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  — Pode ser surto psicótico em resposta à morte do filho. A paciente precisa ser medicada e levada pra internação com urgência.
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  — É mesmo necessário? — Assustada, levou a mão à boca, a maquiagem borrada pelos golpes e pelas lágrimas. — A decisão não é radical?
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  — Não. Nesses episódios a intervenção com medicação é primordial. Pelo seu relato, houve desconexão com a realidade. Também parece apresentar sintomas de depressão profunda, mas como o luto está recente, é difícil de discernir até onde seria sofrimento do luto ou não.
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  — Pelo seu histórico na área de saúde mental, o que nos diria? — questionou Lucas.
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  — Qualquer pessoa num surto psicótico precisa de tratamento imediato e está em profunda vulnerabilidade. É tudo o que posso afirmar.
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  O amante baixou as pálpebras contundente e a outra choramingou, deitando a fronte no ombro dele.
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  — Então tudo bem. Eu poderia pedir um favor? — Lucas acariciava loiros os fios desgrenhados.
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  — Claro.
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  — Poderia levá-la à clínica do doutor Armando? É grande amigo meu. O trabalho realizado na clínica de internação psiquiátrica é fenomenal. Já conversei com ele pelo celular e se predispôs nos socorrer devido ao quadro de Doralice. É a pessoa em quem mais confio nesse momento.
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  — Sim. Eu o conheço. Não se preocupe. Ela estará em boas mãos.
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  Rodrigo perdeu a noção de tempo e espaço desde o desmaio.
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  O corpo era leve até demais, quase em estado de torpor.
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  O ambiente escolhido inconscientemente para passar o indefinido período longe do plano físico era a mesma praça onde o pai o levava com a irmã na infância por ser habitual. Seguro. Brincavam ao ar livre nas férias escolares sem impedimentos.
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  Assim como aos nove anos, o sol batia forte na pele em contraste com a brisa fresca. O burburinho das conversas era agradável. Os sons e travessuras das crianças se divertindo trazia vida para a bela praça com brinquedos como gangorras e escorrega.
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  Sentado no banco onde os pais costumavam se acomodar para vigiar os filhos, observava a paisagem em ar nostálgico. Desfrutava de plena paz até ouvir uma conhecida voz.
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  — Eu esperava encontrar muita gente por aqui, exceto você.
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  Ao se virar para a origem das palavras, não conteve o arquejo de surpresa. Com as mãos no bolso da calça, o sorriso afável, o bigode marrom e os óculos, a fisionomia transmitia serenidade ao vê-lo após tantos anos separá-los.
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  Sem hesitar, se jogou nos braços de Ernesto, as lágrimas molhando a ambos pelo reencontro inesperado.
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  — É ótimo te abraçar novamente, meu filho — sussurrou por ouvi-lo aos prantos o apertando contra si. — Vamos, vamos. Temos muito a conversar.
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  Embora almejasse o oposto, se afastou de Rodrigo, o conduzindo para se sentar no banco consigo.
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  — Soube que a sua vida anda bastante movimentada — começou em sua típica voz grave após avaliação clínica da face do rapaz. — Se esforçou, se tornou independente, finalizou os estudos com louvor... Me orgulho das suas conquistas.
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  — Jura? — A mensagem não poderia lhe causar maior acalento.
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  — Admito, quando estava vivo achava a carreira artística instável.
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  — Continua sendo — o interrompeu com uma risadinha, os longos cílios negros molhados.
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  — Nunca pensei dos meus filhos segui-la. Por outro lado, você sempre foi dedicado, esperto, cativante, bom em lidar com as pessoas e cultivar laços. Qualidades importantes para o meio. Eu não faço ideia de como consegue administrar tudo — finalizou em tom humorado.
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  — É difícil, sim. — Fungou em busca de controlar as emoções. — São muitos compromissos. A agenda vive lotada.
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  — Nessa sua agenda há espaço pra você descansar e para as pessoas que te amam?
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  O questionamento o congelou.
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  Incomodado, curvou o tronco e cruzou as mãos com os cotovelos apoiados nas pernas. Por instantes, quebrou o contato visual, os cabelos na altura dos ombros caindo em cascatas, desempenhando o objetivo de tampar o rosto com excelência.
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  Ernesto estava ciente de como fugiria do confronto com a realidade — nem foi necessário lhe avisarem sobre o detalhe. Para o bem do filho, não vacilaria em mostrá-la.
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  — A mamãe e a minha irmã ainda sentem a sua falta, sabia? — O rapaz não queria tratar de temas profundos, lhe restando mudar de assunto e dissimular adorável sorriso. — Elas...
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  — Se você é incapaz de conversar comigo sobre o que realmente interessa, por qual motivo estou aqui?
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  Se encolheu tanto pela frase quanto pelo tom de autoridade na voz. Crispou os lábios cheios, mordendo o inferior por segundos em pausa pesarosa.
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  — Ah, meu trabalho deu bons frutos — iniciou receoso, ainda sem encará-lo. — Me esforço pra minha mãe ter uma vida boa, viajar...
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  Escolheu não citar a irmã pela traição lhe trazer insuportável desgosto.
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  — E quando foi a última vez que você viajou com a sua mãe?
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  Engoliu em seco desconfortável pelos questionamentos os quais não gostaria de elaborar as respostas. O obrigaria a pensar no passado, em como se entupiu de medicações ao longo da carreira, na exaustão, na solidão, no relacionamento, nas agressões, na irmã, de...
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  Eram conteúdos dos quais almejava esquecer por fazê-lo entrar em contato com o sofrimento e as consequências oriundas de diversas escolhas equivocadas devido à sua postura passiva perante as pessoas e a vida — e isso era quase indigesto de se dar conta, lhe restando fugir da realidade.
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  De súbito o mirou com os ombros contraídos e a mandíbula trincada.
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  — Pai, nos vimos pela última vez nos meus dez anos. Por que não posso aproveitar esse tempo contigo?
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  — Porque me recuso a não cumprir direito o meu papel de paternidade. Agora não é hora para abraços ou gestos de afeto, mas sim de ser duro contigo por querer o seu bem. Do que adiantaria lhe entregar abraços se precisa de outras coisas primordiais agora?
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  — Como o que, por exemplo?
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  — Coragem de retornar pro seu corpo e retomar a sua vida. Você não está morto como eu, meu filho. Veio pra cá antes da hora. Se nega a retornar por acreditar não ser forte o suficiente pra lidar com as consequências da sua vida. E acredite, não o criei para ser fraco.
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  — Mas eu sou, pai! — Num rompante se levantou, a angústia finalmente o tomando. — Eu... Eu sou um fraco inútil! Estive ao lado de quem nunca me amou, fiz de tudo pela minha irmã e olha o que me aconteceu por ser bom. Me tornei um trapo humano sem nenhuma dignidade.
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  — Você foi ingênuo e entregou o seu coração pra quem não deveria. Não se julgue pela sua bondade, mas sim pela ingenuidade e permissividade.
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  — Eu fui burro. Como... Como não enxerguei que o Lucas não me amava? Como aceitei passar por todo aquele inferno calado, sem nem erguer a minha voz ou revidar cada soco? Eu não fiz nada de errado pra ser agredido, pai. Eu juro.
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  Inconformado, Rodrigo gesticulava em estado de revolta. Parado na frente de Ernesto, balançava os braços, afastava os ondulados cabelos castanhos acobreados com as mãos. Os jogava para trás sem energia para esconder o estado emocional.
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  Apesar da alteração, os outros agiam como se nada acontecesse e nem ao menos lhes lançava olhares.
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  — Ele te conquistou. Usou. Te afastou de quem se importava contigo de verdade. Ou acha que a sua mãe ou seus amigos não tentariam abrir seus olhos caso soubessem da gravidade dos atos do infeliz? Ou melhor, tentaram avisá-lo. Só que estava tão enredado que se tornou um refém ao ponto de você não ter espaço pra existir. Tudo foi premeditado.
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  — E por que eu não vi? — Apontou para si, as unhas batendo contra o peitoral oculto pela camiseta.
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  — Porque amor-próprio, autoconfiança e autoestima nunca foram o seu ponto forte, principalmente quando passou pela adolescência e se descobriu gay. O problema não foi sua sexualidade. O problema foram os ataques que recebeu dos alunos, dos professores e dos funcionários de lá. Por que nunca contou nada pra sua mãe e nem pra mim?
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  As lembranças do bullying invadiram a mente. Foi, de longe, uma das fases mais conturbadas. As humilhações foram terríveis, o abalando no delicado período da adolescência cheia de transformações e descobertas.
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  — Ao invés de se priorizar assim como o alertávamos, buscava pela aprovação de terceiros — prosseguiu.
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  — Eu me amo, pai.
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  — Se isso fosse verdade, não se submeteria às agressões, descansaria e cuidaria de si. Além disso, não se afastaria de Gabriel. Ele, sim, era homem para você, ao contrário do desgraçado cujo nome é o suficiente para me despertar ódio.
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  — Eu amava o Lucas.
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  — Mas ele não te amava. Era visível desde o início. Você não queria ver. Você tem a tendência de se fechar quando se machuca. O começo da nossa conversa é prova disso. Suspeito que voltará a fingir que nada aconteceu quando acordar. Eu posso te ajudar a recuperar tudo, entretanto, não faço milagres. Se esforce para retornar para os braços de quem realmente te ama. Não imagina quantos sentem a sua falta e sofrem por não estar lá. Deixou um coração em especial em terrível desgraça.
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  — Minha mãe deve estar inconsolável — murmurou, a culpa por se manter afastado do corpo por escolha própria pesando na consciência.
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  — Não me refiro somente a ela.
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  O silêncio por parte do rapaz tornou a atmosfera mais densa, deixando o ar denso e uma pontada de expectativa estranha surgiu no peito na esperança de se referir a...
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  — Quando você se fortalecer o suficiente pra se amar, aí, sim, conseguirá recuperar a sua vida e tudo o que roubaram. Essa é a chave. Além de, é claro, se valorizar.
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  — E como faço isso? — se acomodou ao lado de Ernesto — Eu não sou forte como você.
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  — É claro que é. É meu filho. A minha força corre no seu sangue. A escolha de encontrá-la ou de fazer algo que preste com ela é sua. Vem aqui, garoto.
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  Puxou Rodrigo para o último enlace saudoso.
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  — Estou orgulhoso de quem está se tornando, meu filho — murmurava. — A nossa conversa estará guardada no fundo da sua mente, assim como as memórias. Seu trabalho será se esforçar pra lembrar de tudo. Não tenha medo de enfrentar o sofrimento. Quando retornar, procure pela sua mãe. Ela precisa que você se recupere o quanto antes. Agora, você precisa acordar.
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  O sopro do pai em seu ouvido o impulsionou para trás devido ao magnetismo, o forçando a retornar para o corpo físico após lhe dar esperança e um propósito para se agarrar — mesmo que não se lembrasse depois.
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