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ATENÇÃO!

História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

O Espaço Criativo não se responsabiliza pelo conteúdo das histórias hospedadas na sessão restrita ou apontadas pelo(a) autor(a) como não próprias para pessoas sensíveis.

Doce Trapaça

Escrita porZsadist Xcor
Revisada por Lelen

Parte do Pop-Up Criativo #2 – Escreva seu livro.


Capítulo 6

  A adaptação de Heitor à nova rotina foi fácil.
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  Como já era possível transitar com o auxílio da bengala, a autonomia não lhe foi retirada por completo. Não deixava de tomar os remédios para a dor. Por sorte elas diminuíam cada vez mais a intensidade. Para o seu descontentamento, não conseguia manter-se de pé por muito tempo. Respeitando as indicações médicas, não abusava da sorte e mantinha-se em repouso na maior parte do dia.
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  As marcas das agressões físicas também desapareceram. Em contrapartida, o surgimento dos comportamentos disfuncionais oriundos dos traumas psicológicos logo foi identificado nas primeiras semanas. Apresentava insônia, se recusava a olhar-se no espelho e, num ato impulsivo, apanhou a máquina de barbear para cortar o cabelo. Embora o seu reflexo careca não o agradasse e a visão das brilhosas mechas castanhas caídas ao redor o entristecessem, era mais suportável em comparação aos longos fios os quais já chegavam no meio das costas.
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  — Estava grande demais. Incomodava. — A resposta foi simples acompanhada pelo dar de ombros em ar despreocupado quando questionado.
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  É claro, mentia, mas a gargalhada ao ver o grito de susto de Igor foi genuína.
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  Considerava o convívio com Igor desafiante. Primeiro porque detestava ouvir as reclamações dele ao chegar em casa. Segundo porque era frequente vê-lo perambular bêbado pelos cômodos segurando a garrafa de bebida barata. Terceiro porque, quanto mais setembro se aproximava, mais se isolava — e por diversas vezes nem se importava em cumprimentá-lo ou lhe dirigir a palavra ao chegar.
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  De imediato, recorreu a João para verificar discretamente se o outro era alcoólatra ou não.
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  — Digamos que o mês de setembro é insuportável pro meu compadre por motivos de força maior.
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  A explicação vaga o deixaria ainda mais curioso.
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  Como não suportava passar tanto tempo sozinho por gostar naturalmente de interagir com pessoas, agradecia pelas visitas diárias de João.
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  O homem costumava visitá-lo em horários distintos pelo seu trabalho como eletricista muito bem remunerado. Aos poucos a amizade se fortaleceu devido ao entrosamento e compatibilidade de gênios. Conversavam sobre vários assuntos, comiam os lanches levados pelo mais velho, assistiam televisão e, sob protestos de João, colocavam duas cadeiras na calçada para o rapaz sair de dentro da casa.
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  Também detectou a forma como os sintomas psicológicos se estendiam ao convívio social pela dificuldade em aceitar a aproximação de pessoas com determinadas características humanas, ficando desconfortável ou suspeitando quando alguém assim se acomodava perto de si ou passava pela rua.
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  Sentia inexplicável ojeriza por mulheres soberbas que usavam maquiagens mais fortes. Qualquer homem que alterasse minimamente a voz o sobressaltava ou o deixava em estado de alerta.
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  A população simples da região foi avisada da condição do rapaz. Logo, souberam acolhê-lo da melhor maneira — não o enchiam de perguntas, proporcionavam conversas leves e não estranhavam ou julgavam as tímidas reações de incômodo.
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  Foi assim que fez amizade com os vizinhos — exceto os que o inconsciente lhe avisava para se afastar, em registro escondido no cérebro da violência sofrida nas mãos de Annanda e Lucas.
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  O estado emocional de Igor era deplorável.
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  Enquanto estava sóbrio, se concentrava no trabalho por temer das frases infantis ressurgirem em sua mente.
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  — Por favor, vovô, eu não quero ficar com o papai. Não deixa eles me levarem.
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  — Vovô, você vai me fazer mal igual o papai?
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  O problema não era exatamente as recordações porque era obrigado a conviver com elas dia pós dia. O mais desgastante era como em setembro elas eram vívidas, quase como se as revivesse ao longo do terrível mês. Via cada lágrima, ouvia cada clamor, o desespero do choro, a sensação de impotência perante o jurídico o destruía e o terror expressado na face que deveria conhecer apenas a inocência lhe partia as migalhas restantes do coração.
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  Eram memórias demais, sentimentos densos demais para lidar. Ódio, tristeza, frustração, injustiça, decepção, impotência, nojo, incapacidade...
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  A dor o dilacerava.
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  — A gente pode ir no show dela? Eu queria ouvir a música da Alya ao-vivo contigo. Antes de eu morar aqui, a voz dela era a única coisa que me trazia paz. Às vezes eu até sorria.
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  Não a privaria de realizar o último pedido antes da separação, mesmo que precisasse se endividar para o sonho da menina se concretizar.
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  Após dois anos desde quando a guarda da menor de idade foi entregue ao pai por decisão judicial, era inviável passar aquele mês sóbrio pela maior parte do tempo — inclusive porque o maldito impedia qualquer mero contato, mesmo se fosse por ligação.
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  Assim como já era de se esperar pelos conhecidos e amigos, esvaziava várias garrafas de álcool no trabalho.
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  Na noite em especial em meados de setembro, caíra bêbado na calçada dois quarteirões de distância de onde morava.
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  Nem tinha consciência de como a chuva torrencial o encharcava.
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  Heitor o aguardava, receoso pelo forte temporal. Já estava acostumado dele retornar até, no máximo, o início da madrugada, mas a preocupação aumentava por ser quase três da manhã.
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  Sentado no sofá com roupas folgadas de Igor, bebericava o copo de café pela metade quando a porta foi aberta. Exausto, João surgiu com o amigo se arrastando ao lado. A coluna começava a reclamar por sustentar a maior parte do peso alheio, se pendurando da forma como conseguia nele.
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  — Pelo amor de Deus, abre espaço. — Se agarrando ainda mais ao braço circulado no pescoço para reunir forças, implorou entre dentes se encaminhando pro sofá.
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  Se apressou em levantar desengonçado enquanto o outro largava o moribundo ali. Pôs o café no armário ao lado do sofá e foi até o rosto pálido pela friagem.
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  — O que aconteceu? — Alarmado, verificou como pôde se o homem respirava.
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  — O encontrei desmaiado. — Fazendo careta, alongou a coluna. — Merda, amanhã estarei todo dolorido — resmungou torcendo o nariz.
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  — Não respondeu a minha pergunta. — O fitou, agora, aliviado por ouvir o coitado cantarolando baixinho a desconhecida canção de ninar.
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  — A vida. Desigualdade social. Injustiça. Impunidade. Garoto... — Coçou os olhos prolongando a palavra. — A história é longa e se eu contar, receberei de presente um belo soco no queixo assim que o Igor for capaz de se sustentar sozinho de pé. Fica aí. Um banho quente nele. Se continuar nesse estado é capaz de desenvolver pneumonia. Não sei quanto tempo passou na friagem debaixo de chuva.
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  Ali descobriu como Heitor não era afeito a obedecer ordens.
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  Em contrapartida, demoraria um ano e meio pra Heitor compreender o motivo de sentir medo perante a possibilidade de não o obedecer.
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  Apesar do desespero o qual se obrigou a abafar, seria incapaz de se manter inerte perante o cenário lastimável.
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  Pulando num pé só, o ajudou a carregar Igor para debaixo do chuveiro, onde o banharam da forma como podiam — o dono do bar choramingando enquanto cantarolava, Igor reclamando com o rapaz para tomar cuidado com a perna cujo osso calcificou de maneira indevida a deixando em ângulo estranho e o terceiro transitando entre o quarto e o banheiro, levando roupas secas, toalha ou qualquer outro utensílio necessário.
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  Entrementes a atividade, manteve João sempre no campo de visão para não ser pego desprevenido em qualquer eventualidade ou demonstração de violência — e demoraria para se lembrar do motivo do comportamento disfuncional.
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  Odiava estar despreparado nessas ocasiões onde poderia ser surpreendido.
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  — Traz a Maria pra mim amanhã. Ela não pode ficar lá. Eu sei cuidar da Mariazinha — rogou desolado sendo colocado na cama. — A festinha dela está perto também. Me ajudaria a organizar?
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  — Sim, eu vou. — A tristeza era evidente na voz de ambos. — Amanhã pela manhã a trago. Agora você precisa descansar pra recebê-la bem.
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  — Está bem. Está bem. Pela Mariazinha eu vou dormir, sim.
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  Naquela noite Heitor não adormeceu sem compreender a situação, por mais que enchesse João de questionamentos — e a insônia se tornaria desagradável amiga a qual lutaria bravamente para se afastar.
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  A culinária de Igor não era das melhores. Faltava tempero e a alimentação era desleixada.
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  Ambos se alimentavam sem apreciar, de fato, as refeições.
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  Assim que se recuperou, combinou com o homem que a preparação das refeições ficaria a seu encargo. Igor demonstrou certa resistência ao ouvir a proposta, mas não reclamou nenhuma vez desde a primeira garfada da deliciosa lasanha de queijo e presunto com arroz. A sobremesa foi torta holandesa.
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  Dentro de três meses precisaria mandar alargar as calças ou comprar novas.
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  — Acompanhou a receita pela internet? — Se servia do terceiro pedaço na cozinha, cuja mesa foi posta com esmero pelo rapaz.
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  — Não. — Soube esconder a satisfação pelo outro apreciar a comida. — Eu só fui preparando.
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  Minutos mais tarde finalizava a generosa fatia da torta.
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  — Não consultou nenhum vídeo ou receita pra essa torta?
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  — Também não. Segui minha intuição e o instinto.
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  Não viu o olhar recebido de esguelha por Igor se recordar de alguém comentar em vídeo assistido pela neta que tinha talento pra cozinha.
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  A partir de então, as refeições estavam a encargo de Heitor e aos finais de semana havia sobremesas deliciosas.
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  Heitor decidiu trabalhar no bar.
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  Igor também não concordou — ao longo da sua estadia ali descobriria como o homem era resistente a mudanças e rabugento quando elas iniciavam.
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  A despeito da contrariedade, compreendeu como permiti-lo exercer o ofício de garçom foi certeiro ao ponto de alavancar o negócio o qual lhe traria mais rentabilidade no futuro próximo.
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  O garoto era bom para conversar com as pessoas. Simpático, alegre e comunicador natural, fazia amizades com os clientes, indicava as melhores bebidas e tornou-se conhecido na região entre os vendedores por ser cativante e agradável. Logo, atraía mais fregueses os quais iam para o bar. Com regularidade levavam amigos, então sempre consumiam os produtos — em sua maioria petiscos, já que o cardápio precisou sofrer positivas alterações a fim de atender as recentes demandas do público.
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  João também foi figura relevante para o crescimento do estabelecimento.
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  Quando não exercia o ofício de eletricista, ia direto para o bar onde trabalhava no preparo das comidas. Não era um cozinheiro tão talentoso quanto Heitor. Entretanto, a habilidade foi aprimorada graças a algumas dicas.
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  Apesar da dor não ser mais presente, os ossos da perna de Heitor calcificaram de maneira indevida, o obrigando a caminhar com o auxílio de bengala para não sentir dores constantes.
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  Juntou o salário e, com o auxílio de João, que se tornou querido amigo, comprou um celular onde era comum bater fotos ou gravar vídeos do bar.
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  Ao fim do expediente, na madrugada de sábado, comemoravam comendo os petiscos preparados por Heitor cujo novo tempero seria adicionado a partir do dia seguinte.
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  — Igor... Você me permite perguntar uma coisinha talvez meio indelicada da minha parte? — aagraças a cerveja, Heitor reuniu coragem suficiente para expressar suas percepções.
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  — Lá vem história. — João colocava ketchup na dourada isca de frango.
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  — Já que começou, garoto... — Bebericava a cerveja gelada do gargalo — termina.
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  — Nunca pensou em reformar o seu bar, não? Sei lá, repaginar. Talvez até trazer uma proposta mais inovadora.
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  — Querer sempre quis. O problema é que nunca tive ó. — Gesticulou com os dedos se referindo a dinheiro. — Nunca ganhei muito aqui. O lucro está vindo agora e graças a você — completou em tom de agradecimento.
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  — Aceitaria a sugestão de modernizar? — arriscou a dizer.
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  — Se eu tivesse grana, sim. Tinta, eletricidade, arquiteto, pedreiro... Tudo isso demanda dinheiro, garoto.
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  — E se um de nós três tiver dinheiro guardado?
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  Ambos fitaram João interessados e intrigados.
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  — Posso ajudar no investimento financeiro — prosseguiu. — Já alcancei estabilidade financeira na minha vida. Além disso, nada me impede de depositar o capital aqui, inclusive porque se tornou meu segundo local de trabalho. Além do mais, a parte elétrica posso fazer. Considere como o favor de um amigo. — Acenou para Igor em gesto de respeito.
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  O fato de passar o tempo livre trabalhando no bar o ajudava a se livrar do vício dos jogos de apostas.
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  Após aquele tempo, essa não era mais uma preocupação para si — e é claro que, sabendo como vícios funcionavam, utilizava todas as ferramentas possíveis para não cair do precipício novamente.
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  Dentre elas, ocupava o tempo ocioso com atividades no bar.
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  — Eu posso me encarregar das redes sociais — Heitor se prontificou animado. — O meio é bem promissor de angariarmos público. Em alta temporada dá pra arrecadarmos bastante. Além disso, seria interessante estendermos o bar pros turistas. Fiz um levantamento e percebi que quem mais frequenta aqui são os moradores. Caso a gente atraia um público novo, seria perfeito. Inclusive o estabelecimento tem potencial pra isso.
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  Até João se surpreendeu com a rapidez do amigo concordar — logo deduziu a razão, torcendo para os planos funcionarem.
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  Heitor ainda não sabia, mas, dentro de dois anos e meio, se depararia com o novo freguês quem lhe despertaria memórias e sensações guardadas no fundo da mente.
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