
Vincere
Escrito por Hatakesaturn | Revisado por Lelen
Capítulo 1
Alonso Perroni
Sempre gostei da ideia de sermos a continuação da Cosa Nostra, afinal, sempre foi uma facção admirada em muitos países, e ter toda essa fama era bom, ajudou a Vincere a ser o novo símbolo da máfia na Itália e a ter reconhecimento por onde passava, mas isso também atraía muitos inimigos antigos. Meu pai, Otelo Perroni, era um ótimo Don, nunca foi questionado a sua autoridade desde que assumiu quando meu avô morreu.
A Vincere funcionava como qualquer outra máfia, muitos negócios ilegais e muitos outros que à primeira vista eram legais, mas a venda de drogas e a lavagem de dinheiro era feita através deles. Tínhamos também a Victoria Ink, em homenagem à minha Tia Victoria que morreu há alguns anos pelas mãos dos nossos inimigos espanhóis. Essa era a única empresa que era completamente legal, uma fábrica de produtos têxtil e que também tinha suas lojas de roupas exclusivas.
Foi a vingança pela morte da minha tia que enxotamos os Delanteras da Espanha e conquistamos o espaço. Meu pai ainda ficava mais na Itália à frente dos negócios no país, mas lá tudo já era muito bem esquematizado e consolidado, então Otelo queria que os seus filhos dessem continuidade ao legado da Vincere na Espanha, e foi assim que Madri se tornou a nossa casa.
Meu nome é Alonso para o mundo, já que sou dona de uma das boates mais badaladas de Madri, e Perroni dentro da máfia, meu sobrenome de famiglia. Eu sou uma pessoa que gosta de coisas simples e caminhar pelos corredores da mansão de madrugada estava no meu top cinco coisas que eu fazia para driblar a minha insônia.
Morar em um lugar onde você tem tudo pode parecer tentador para muitos, mas a que custo, não é? Ouvir aqueles gritos sofridos que vinham do porão, lugar onde torturavam inimigos quando tinham que ser rápidos em algumas noites, fazia com que eu acordasse no susto, e eu ficava ansiosa até ver os primeiros raios de sol aparecerem no horizonte.
Não que eu não fosse acostumada com isso, mas era incômodo acordar no meio da noite com gritos aterrorizados de homens sendo levados ao limite pela dor extrema. Então, quando isso acontecia, eu colocava meu headphone e saía pelos corredores apenas curtindo a paz que a música me dava, reverberando em minha mente, e mexia meu corpo com a melodia, era divertido e libertador, além de me fazer sair da realidade por algum tempo.
A casa era enorme e eu acreditava que o porão era longe o suficiente dos nossos quartos, mesmo assim, minha audição me traía toda maldita vez. Fechei os olhos e aproveitei o auge da música, que saía alto pelos headphones, para rodopiar no largo corredor, eu amava aquela parte da casa, era o lado onde ficavam os quartos de hóspedes e a parede do lado contrário dos quartos era feita de vidro, dando vista para o jardim.
Eu mexia minhas mãos, ao mesmo tempo que remexia o quadril e sorria aproveitando as batidas que faziam eu me sentir viva. Girei bem no meio do corredor, porém caí no chão ao esbarrar em uma silhueta, fazendo meus fones caírem ao meu lado e desamarrar meus cabelos ruivos, que estavam em um nó frouxo.
— Ai! — Olhei para cima vendo alguém, o que me fez engolir em seco, porém, a aproximação veio, ele lentamente se abaixou e o sorriso ladino que eu conhecia apareceu. — !
— Não deveria estar tão tarde fora de seu quarto. — Ele me pegou pelo braço e pela cintura e me pôs de pé como se eu fosse uma pena. — Podia ser algum homem mau, o que ele faria com você? — Vi seus olhos negros me medirem de cima a baixo. — Ainda mais com esses trajes.
— Primeiro, sei me defender. — Peguei os fones do chão e olhei para ele novamente. — Segundo, não teria nenhum homem mau, a casa é bem protegida, graças a você, suponho. E eu estou de pijama... — Revirei os olhos e quando me dei conta de que ele ainda segurava meu braço, fiz questão de me soltar e me afastar. — E que bom que é só o meu meio irmão idiota! — Estirei o dedo do meio para ele e virei as costas para seguir o caminho de volta ao meu quarto.
— Cariño*… — Escutei aquele apelido que ele usava apenas para me irritar, eu tinha certeza que era pra isso, e virei para encará-lo. mantinha seu ombro escorado na parede, os braços cruzados ressaltavam os músculos definidos dentro da camisa social vinho e os lábios puxados para o lado evidenciavam que vinha uma gracinha. — Esse comportamento não faz jus a uma mulher Perroni. — Resolvi apenas ignorá-lo, não estava muito a fim de continuar com aquela discussão no meio da madrugada, só segui meu caminho até estar em um local seguro: minha cama.
[...]
Levantei naquela manhã ensolarada e troquei de roupa ouvindo as conversas ecoando pelo corredor, sabia que minhas irmãs deveriam estar no nosso "spa", como nós gostávamos de chamar o nosso banheiro compartilhado. Apesar de termos um banheiro individual em nossos quartos, no fim do nosso corredor tínhamos um banheiro imenso, com tudo que tínhamos direito.
Quatro pias em uma ilha central e espelhos suspensos, uma banheira que incendiava a cor vermelha na parte de fora, dois chuveiros dentro de um box grande o suficiente para ter um banco e, finalmente, uma bancada estilo camarim. Era exagero demais, mas a gente amava passar muito tempo ali dentro, cuidando da nossa pele e fofocando sobre os mais variados temas desde a adolescência.
Entrei pela porta e vi Beatrice no chuveiro, Luna estava de roupão em frente ao espelho passando algo no rosto, devia ser algum dos mil cremes que ela tinha, Giulia estava dentro da banheira, que transbordava espuma, mexendo no celular. Fechei a porta atrás de mim e caminhei até a minha pia com uma cara de poucos amigos.
— Bom dia, mal-humorada… — Beatrice sorriu enquanto massageava seu couro cabeludo. — Acordou com o pé esquerdo?
— Tenho motivos para isso…
— Não importa o motivo de estar com essa cara, vai ficar com rugas mais cedo. — Luna pontuou.
— Vocês não ouviram ontem? — As três balançaram a cabeça em negativo e eu apenas revirei os olhos e comecei a escovar os dentes.
— Você tem o sono muito leve, irmã — Giu comentou. — 28 anos e ainda não aprendeu a ignorar os gritos?
— Não deveríamos ter que nos acostumar, nosso pai deveria ter noção. Se quer matar alguém, que mate longe da nossa casa. — Cuspi a pasta e lavei a boca, secando na toalha em seguida. — Sem falar que encontrei no corredor de madrugada, o que já piorou meu humor consideravelmente.
— Ah, ele finalmente voltou? — Luna perguntou.
— Deve ter sido ele que trouxe o… Bom, agora, provavelmente morto. — Beatrice riu, saindo do box e pegando o roupão do gancho para se enrolar. — Vocês dois têm que aprender a conviver.
— Já tenho que morar debaixo do mesmo teto que ele, uma boa convivência seria pedir demais da minha boa vontade. — Virei as costas e fui em direção à porta. — Espero vocês na mesa para tomar café. — Antes de poder fechar a porta ouvi Beatrice rindo, ela adorava tirar sarro da minha inimizade com , se é que eu poderia chamar assim.
era o primogênito do nosso pai, o único de uma mulher que ele passou alguns poucos anos casado, era aquele que ia assumir o grande trono da Vincere. Era cansativo escutar sempre aquele papo, eu era a primogênita antes dele chegar ali do absoluto nada, e desde criança eu achei que iria revolucionar a história da famiglia sendo a primeira mulher no comando da Vincere.
Desci a escada e caminhei pelo hall de entrada, passei pela sala de estar e finalmente cheguei na mesa, que estava vazia; agradeci mentalmente por isso. Sentei em meu lugar de costume e respirei fundo, parecia que seria uma manhã de paz, até o momento em que escutei meu nome soando naquela voz irritantemente grossa e encorpada.
— , bom dia. — sentou do outro lado da mesa em seu lugar, bem em frente a mim.
— Dia. — Era um dia, mas já estava ruim por tê-lo que ver na minha frente pela segunda vez. Um dos empregados apareceu com dois pratos de ovos mexidos, o de tinha algumas tiras de bacon e logo em seguida minha taça com frutas e granola foi deixada a minha frente. — Obrigada, Mario.
O homem deu um sorrisinho tímido em agradecimento, quase que com medo do idiota o assassinar na mesa do café da manhã, e saiu para a cozinha, voltei a olhar para , que me olhava com o cenho franzido, claramente julgando meu comportamento.
— Nosso pai já falou para não ser assim com os empregados — reclamou, e voltou os olhos ao prato dele, continuando a comer, eu odiava esse jeito autoritário e prepotente.
Se já era assim agora, imagine quando fosse o chefe dessa merda toda.
— Assim como? — questionei, e vi ele direcionar os olhos para mim mais uma vez. — Educada? — completei com um sorriso irônico e as sobrancelhas arqueadas, antes que ele pudesse falar algo eu o vi apenas soltar o ar pelo nariz e voltar a comer. — Caso queira ser babaca com os empregados é sua escolha, . — Ele ia me refutar, mas a voz da nossa irmã nos interrompeu.
— Lá estão os dois brigando. — Beatrice sentou ao meu lado, e Luna e Giulia nas próximas cadeiras. — São nem 10 horas da manhã. — Eu e ele bufamos.
— , eu preciso te mostrar algumas filmagens da Rules.
— A boate perto da faculdade? — Ela anuiu com a cabeça. — Irei até sua sala depois, Giu. — Ele sorriu e eu revirei os olhos.
Aparentemente ele só tinha educação com as minhas irmãs.
morava com a mãe no mesmo país que a gente quando ainda morávamos na Itália, e nosso pai não achou que, talvez, seria pertinente mencionar que tinha outro filho, mas tomou o cuidado de enviar um dos seus capitães de confiança para treinar seu primogênito desde os 12 anos. Não sabíamos muito de Aurora, também não falava muito dela, achava que a pedido da mãe. Vi uma foto dela com Otelo uma vez, aparentemente no casamento deles, pareciam felizes. Acreditava que meu pai tivesse amado ela e por isso tenha deixado ela ir embora com o filho.
Papai deixou Aurora criar até ele ter idade suficiente para ser treinado para a parte burocrática e o treinamento mais pesado da Vincere, então nosso pai exigiu que ele viesse morar na mansão quando fizesse 16 anos. Bom, ele veio, e nós 4 ficamos sem entender absolutamente nada, não que não soubéssemos que cada uma de nós éramos filhas de uma mulher diferente e que não conhecíamos nenhuma delas; nem mesmo a mãe de . Entretanto, nosso pai nunca falou que tínhamos outros irmãos, então foi um choque para nós, porém, ele explicou tudo e fomos forçadas a engolir ele como parte da família.
Os primeiros meses foram bem, mas depois que passou pela iniciação ele ficou esquisito. Começou a implicar e ser desprezível comigo. Depois dos dois primeiros anos, não sabia exatamente o porquê, mas comecei a imaginar que seria pelo lugar do prossimo*, isso fez com que o ódio fosse mútuo.
— Tá tudo bem? — Fui atraída pelo som da voz de Luna, que me olhava com o cenho franzido, tirando-me dos meus pensamentos.
— Sim, está — respondi sem mais, peguei a taça de frutas e um croissant para matar a minha fome e saí dali.
Odiava ser ríspida com minhas irmãs, nos amávamos e éramos não só irmãs, mas também melhores amigas. Nós estávamos bem durante esses meses sem por aqui; era ótimo não ter que olhar para a cara arrogante dele todo dia pela manhã, ou esbarrar com ele no corredor, como foi o caso de ontem à noite, ou escutar as gracinhas dele e tentar não me irritar com o jeito que ele fala comigo desde a adolescência. Eu não estava disposta a ceder para uma boa convivência, e ele muito menos, nós sabíamos disso, mesmo que nunca tenha sido dito uma só palavra a respeito.
Caminhei até o jardim e sentei em uma das mesas com guarda-sol, comi na tranquilidade da minha companhia aproveitando a brisa fresca da Espanha naquela época do ano; eu gostava de ficar sozinha.
Entrei pela porta da cozinha para deixar a louça que usei, peguei um copo de água e fui até a biblioteca. Sentei na poltrona me acomodando com as pernas dobradas e abri o livro que estava lendo naquela semana. Apesar de não ter feito faculdade como Luna ou Beatrice, eu adorava ler sobre tudo.
— Bom dia, . — Abri um sorriso ao ouvir a voz grave.
— Papai, bom dia.
— Não estava na mesa do café da manhã, filha. — Senti o beijo no topo da minha cabeça e olhei para cima.
— Queria comer lá fora. — Fechei o livro, mantendo meu dedo na página em que estava, e dei atenção ao meu pai.
— Sabe que precisa avisar aos empregados, eles teriam servido o café no jardim. — Assisti ele sentar à mesa de madeira maciça, que ficava na sala adjacente à biblioteca, onde era seu escritório. — Como está? Não tenho visto você.
— Está sempre viajando e a boate tem me tomado a maior parte do meu tempo — comentei.
— Você quis um negócio, eu lhe dei. Não pode reclamar agora… — ele disse de forma séria enquanto olhava alguns papéis.
— Estou feliz com o trabalho, reclamei da sua ausência.
Ele suspirou e parou o que estava fazendo para olhar pra mim e responder:
— Infelizmente estamos com alguns problemas e preciso resolvê-los, filha. — Ele voltou a escrever em alguns papéis e ler outros.
Acredito que cuidar do cartel de drogas e armas em dois países seja um trabalho exaustivo, além da empresa têxtil que temos em homenagem à minha tia Victoria. No entanto, desde muito nova lembro do meu pai dar importância à família e tentar ao máximo estar presente nas ocasiões importantes como aniversários e datas comemorativas.
— Poderia visitar a Fascino para espairecer um pouco. — Curvei os lábios e pendi a cabeça para o lado, tentando fazer uma expressão pidona. Meu pai não tinha ido na boate desde que eu comecei a administrá-la.
Eu estava sempre lendo, tomei gosto na adolescência, era como um refúgio pra mim e seguia sendo. Um belo dia, ainda na transição de morar na Espanha, eu comecei a ler um livro sobre um romance entre um dono de boate e uma menina da faculdade, eu me interessei mais pela parte da boate do que pelo romance em si. Então, comecei a pesquisar os estabelecimentos do tipo em Madri, e como quem não quer nada, eu pedi pro meu pai uma boate, mas não era qualquer uma, eu queria a Fascino.
A Fascino era uma boate enorme no centro de Madri, ela tinha todo o potencial de se tornar a melhor casa noturna da cidade, porém o administrador era um idiota. No começo meu pai achou que era apenas uma vontade infantil, eu sentia isso dele, e talvez tenha sido essa falta de crédito que me moveu a estudar e fazer tudo pra tornar a Fascino o que ela era hoje. Uma boate renomada, com dançarinas desejadas pelos empresários de todo o país, com darkroom para os mais libertinos e um dos negócios da Vincere que mais faturava.
Ele levantou apenas os olhos até mim antes de dizer:
— Não quero que minha filha veja eu me divertindo com suas empregadas, . — Ele me olhou com uma expressão séria.
O chefe da Vincere tinha uma fraqueza, afinal?
— Papai… Sei que se diverte, afinal, tem 5 filhos. — Sorri, doce. — Que eu saiba, não é mesmo? — debochei.
— Não seja malcriada, mocinha. — Ele torceu os lábios e eu dei uma risada baixa.
— Ela sempre foi malcriada. — Olhei para trás e vi perto da porta de entrada.
Respirei fundo e levantei da poltrona seguindo o caminho para outro lugar. Assim que estava ao lado dele, soltou baixo:
— Pode deixar que vou visitar a boate, .
— O convite era para o papai. — Sorri sonsa. — Não faço questão da sua presença.
— Por favor, os dois podem ser civilizados? — Nosso pai reclamou.
— Ele não sabe ser civilizado, papai. — Virei para Otelo. — Ainda acho que foi criado com lobos. — Meu pai apenas levantou as mãos em rendição e nos ignorou, voltando aos seus papéis, ele já tinha aprendido com os anos que era inútil tentar apaziguar qualquer desentendimento entre mim e .
Então eu virei para encarar com um sorriso debochado, dei alguns passos, mas não fui muito longe ao sentir meu braço ser agarrado, fazendo eu voltar a olhá-lo em surpresa.
— Cuidado para o lobo aqui não te morder… — sussurrou batendo os dentes um no outro e me soltou.
Olhei para ele e entreabri a boca, fiquei tão chocada que nem consegui dizer nada, até porque, ele saiu caminhando até a mesa onde estava nosso pai. Saí pisando duro, mas não pude ignorar o sorriso divertido que estava desenhado nos lábios do idiota que infelizmente dividia metade do sangue comigo.
[...]
Cheguei na boate e Giovanna estava ajudando Vincenzo a organizar as bebidas que tinham sido reabastecidas. Giovanna Coppola, meu braço direito, melhor amiga e gerente da boate, quando eu não estou ela que manda, a loira sabia impor sua autoridade como eu. Crescemos juntas, seus pais eram grandes amigos de Otelo e também fazem parte dos associados da Vincere. Depois de alguns meses em que eu tinha chegado na Espanha, ela me ligou dizendo que não sabia viver sem mim na Itália, pegou o primeiro trem e veio me encontrar.
Vincenzo era nosso melhor amigo, nos conhecemos no ensino médio, já que seu pai foi transferido para capitão direto de Otelo, subiu para consigliere em pouco tempo, ele morreu na mesma operação que o meu tio Lorenzo, que era o sottocapo da Vincere.
Cumprimentei os dois e subi para o escritório. Vi qual seria a atração principal, os lucros da noite anterior, pagamentos a serem feitos e quanto do dinheiro que entrou no caixa eu precisava mandar para o restaurante para ser lavado, bem como as contas de quantas horas eu tinha até a casa estar lotada.
Era uma sexta-feira, com apresentação especial da nossa melhor dançarina, Isabel. Os homens iam à loucura quando aquela mulher subia no palco, era bonito de ver, até eu descia e sentava no bar para vê-la de vez em quando. Fiz meu planejamento do fim de semana, que eram os dias mais caóticos. Precisava pegar as drogas com Beatrice antes da abertura da boate e revisar o livro caixa da semana.
Eu aprendi muita coisa comandando o lugar, fazia apenas 9 meses que estava à frente da Fascino, mas quando temos que nos virar a gente aprende rápido, além de ter tido a minha melhor amiga para ajudar, Giovanna era formada em gestão, isso fez toda a diferença. Eu me dediquei dia e noite para dar o melhor de mim, principalmente porque era isso que meu pai esperava de mim, e isso eu tinha certeza de que fiz e fazia todos os dias naquele lugar.
Fui até o nosso laboratório, onde eram feitas as drogas, minha irmã Beatrice era a que comandava, tudo tinha sido milimetricamente montado por ela, escolheu a dedo os químicos e físicos que trabalhariam ali, tudo tinha que funcionar do jeito dela. Ele se localizava em um ponto estratégico entre o porto, por onde chegavam os carregamentos do material, a minha boate e o nosso restaurante onde ficavam a maioria dos soldados aguardando ordens. Tudo era calculado de forma a facilitar nosso dia a dia e que tudo fosse feito de forma segura e longe do olhar do detetive insuportável que sempre ficava no meu pé.
Eu sabia que algo estava rolando pois quando ela pedia pra eu ir buscar a entrega, como falávamos no telefone, algum motivo tinha. Só conseguia pensar que antes eu tivesse negado o pedido dela e mandado algum dos soldados buscar as drogas, mas a verdade era que eu gostava de fazer eu mesma, do meu jeito.
Só que quando eu cheguei e Beatrice me alugou durante 20 minutos para falar o quanto eu deveria praticamente assinar um tratado de paz com , eu me arrependi amargamente de ter ido até lá. Achei que as minhas irmãs já tinham desistido disso há uns 10 anos, mas pelo visto seguiam tentando dar uma de Estados Unidos e se meter onde não deviam.
— Vocês precisam aprender a conviver, papai espera isso de vocês — ela ralhou comigo. — Precisam trabalhar juntos na famiglia*, sorella*.
— Beatrice, eu faço o que eu tenho que fazer, cumpro meu papel e ponto final. — Alterei meu tom de voz, estava cansada, eu estava perfeitamente amando os meses que passou fora resolvendo seja lá que merda tenha acontecido na Itália.
— Vai chegar o dia que precisará dele. — O tom de sobreaviso me irritou.
— Espero estar morta até lá. — Caminhei rapidamente e abri a porta, dando a entender que a conversa tinha se encerrado, e eu nem precisava virar para vê-la, tinha certeza de que mantinha a boca em uma linha, as mãos na cintura e a irritação evidente em sua testa franzida. — Ciao*.
Assim que coloquei os pés na calçada, respirei fundo. Olhei para o carro estacionado atrás do meu e sorri fazendo um aceno de cabeça discreto, meus dois fiéis escudeiros sempre se mantinham alertas para a minha proteção. Entrei no meu carro e fui em direção à boate, já estava atrasada, faltava apenas 1 hora para abrirmos, e até distribuir aos nossos funcionários demandava um certo tempo.
Corri o máximo que pude, entrei na Fascino e ainda no corredor do hall de entrada, pude ver pela parte envidraçada da parede que estava na porra do bar da minha boate, bebendo e conversando com Gi, claro, ela era caidinha por ele.
Respirei uma, duas, três vezes antes de entrar de vez no salão, caminhei até o bar e dei a bolsa com as drogas para Coppola.
— Já estão nos pacotes, distribua para os funcionários.
— Sim, . — A loira sumiu para dentro da boate.
Olhei para que mantinha um sorriso presunçoso nos lábios, o qual eu queria tirar na base do tapa. Ele me olhou com os olhos baixos e passou a mão nos fios negros, o cabelo curto dava um ar de matador de aluguel, porém ele parecia ter deixado crescer alguns centímetros já que alguns fios pareciam descer um pouco mais até suas orelhas. Logo a mão desceu até a lapela, e ele ajeitou o tecido, o terno preto era recortado exatamente para o corpo dele, era notável quantos euros ele tinha pagado naquela peça.
— O que está fazendo aqui? — Joguei minha bolsa e chaves do carro em cima do balcão, irritada por vê-lo ali tão confortável, como se ele fosse o dono do lugar.
— Disse que vinha te visitar.
— E eu achei que tinha sido clara quando disse que não queria.
— Você não tem escolha, cariño… — Ele bebeu do copo baixo, que, pela cor do líquido e tipo de louça, deveria ser whisky. — Sabia que um dia a boate será minha e você vai ter que me obedecer?
— Só por cima do meu cadáver, seu cretino — aproximei-me dele e olhei bem no fundo daqueles olhos pretos enigmáticos —, papai fez questão de colocar a Fascino no meu nome e se você ousar mexer nisso, eu mato você, . — Aquela boate significava muito para mim, foi nela que descobri o quanto era boa com números, com a logística e administração. Eu transformei ela na boate mais famosa de Madri, e tudo isso me deu confiança e orgulho de mim mesma.
— Não precisa ficar nervosinha — aquele sorriso perverso de quem adora me tirar a paciência brotou em seus lábios —, você pode estar certa quanto a boate ser sua, mas eu ainda tenho direito de entrar nela.
— Ah, definitivamente — falei de modo irônico revirando os olhos. — Fique à vontade… mas não se sinta em casa. — Peguei minhas coisas e subi para o escritório.
queria me foder, era isso, não era possível, ele resolveu vir encher o meu saco no dia que a cidade inteira está eufórica demais para pensar com clareza. Sexta-feira, todo mundo aguarda por ela, o dia mais esperado da semana, as pessoas anseiam tanto pela sexta-feira que acredito que o universo sente a energia que elas emanam e tudo se resume a festa, curtição e caos. A boate fica tão lotada que a fila dá a volta no quarteirão, mas claro, ele pensou exatamente quando seria o melhor dia pra vir me atrapalhar e me tirar do sério.
— Imbecille, figlio di puttana!* — Soquei a mesa com força e Giovanna entrou quase que ao mesmo tempo.
— Você está bem? — Ela me olhou com um certo receio de perguntar.
— Estaria melhor se aquele imbecil focasse na sujeira dele ao invés de vir me encher o saco! — falei alto, para passar a vontade de esganar alguém.
— , ele disse que veio curtir a noite aqui. — Giovanna tinha um péssimo julgamento das intenções de pela paixonite que ela mantinha por ele desde quando consigo lembrar, era claro o seu descontentamento já que ele nunca havia dado um mísero segundo do tempo dele a ela, pelo menos não do jeito que ela esperava. No entanto, seguia tentando cavar uma realidade onde ele era uma boa pessoa e só queria ser gentil e agradável; doce ilusão.
— Ele veio ver se conseguia me tirar do sério, foi isso que ele veio fazer — falei entredentes.
— Nunca entendi a inimizade de vocês, mas não vou me meter, vou apenas fazer o meu trabalho. — Ela caminhou até a mesa e deixou alguns papéis. — Esses são os contratos com os novos fornecedores de bebidas.
— Certo, vou olhar isso… — Peguei os papéis e os folheei. — Já fez a distribuição?
— Si. — Assentiu. — Ajudo em mais alguma coisa?
— Não, pode começar a preparação pra abrir. — Peguei o primeiro contrato para começar a ler, mas tirei os olhos deles um segundo para voltar a encarar a loira. — Isabel já chegou?
— Ainda não, atrasada como sempre.
— Eu vou ter um colapso hoje... — Massageei a testa. — Peça para o Vince me trazer um martini, por favor.
— Pode deixar.
Ela saiu da sala e eu dei continuidade ao que tinha que fazer, analisei os contratos, no meio tempo Vincenzo deixou meu drink e eu agradeci. Assinei o que tinha que assinar, fiz ligações para os fornecedores de alimentos, já que Santiago, chefe da cozinha, tinha me entregado uma lista de alguns ingredientes que estavam faltando na cozinha.
Levantei da minha mesa e fui até a janela fumê que me mantinha sã e salva ali no meu pequeno esconderijo, mas ninguém se escondia de mim, já que eu conseguia ver toda a boate dali. Já estávamos com bastante movimento, o show começava às 23 horas, Isabel sempre chegava atrasada e isso me irritava, porém, enquanto não irritasse os nossos clientes, eu não reclamaria.
Quando voltei a olhar para o salão, vi com três soldados nossos, todos bebendo, parecia realmente que ele estava ali apenas para se divertir. Eu esperava de verdade que Gi estivesse certa, queria acreditar nisso e que a minha sexta-feira fosse tranquila, na medida do possível. Olhei para trás ao ouvir as batidas na porta e liberei a entrada, vi Vincenzo entrar com mais um martini na bandeja e sorri.
— Achei que precisaria de mais um.
Olhei ele de maneira indecente, Vincenzo sempre foi um homem interessante. Os cabelos castanhos presos em um coque, os olhos também castanhos, quase um mel, profundo e soturnos, ele era esguio e ao mesmo tempo ostentava braços fortes, sempre usando um colete de cor diferente e isso era o seu charme, eu era a prova de que ele conseguiria o que quisesse vestido daquele jeito.
Quando eu assumi a Fascino, eu não pensei em mais ninguém a não ser ele para me ajudar, Vince pensou em tudo para a parte do bar, de quantos barmen ele precisaria, de como seria melhor atender e organizar as bebidas, eu só precisei aprovar.
Inteligente e gostoso, não tinha melhor combinação que essa.
— Obrigada, Vince. — Sorri gentil para ele, que colocou a taça em cima da minha mesa.
— Posso ajudar em mais alguma coisa? — perguntou ao se virar com a bandeja cobrindo seu peito.
— Talvez no final do expediente. — Curvei o lábio de maneira libidinosa e ele prontamente entendeu.
— Aguardando suas ordens, senhorita Alonso. — Deixou meu escritório e eu mordi o lábio admirando aquela bunda durinha na calça jeans justa.
Ele era um bom menino.
* Cariño: carinho em Espanhol (forma carinhosa de chamar alguém)
* famiglia: família em italiano
* prossimo: próximo em italiano (o próximo na linhagem para substituir o don)
* Sorella: irmã em italiano
* Ciao: Tchau em italiano
* Imbecille, figlio di puttana: Imbecil, filho da puta
Capítulo 2
Perroni
Eu saí da Fascino por volta das 2:40 e desde o momento que vi antes de abrir o estabelecimento, não a vi mais; era uma pena. Eu gostava de infernizar a vida da indomável. Desde a adolescência tinha uma personalidade explosiva, e eu gostava de vê-la irritada, gritando comigo e me xingando como só uma boa Perroni sabia fazer. Era divertido vê-la inflar as bochechas e aqueles olhos verdes, escuros, quase pegando fogo, eu tinha certeza que em certos momentos ela pensava em arrancar a minha cabeça pelo jeito que me olhava.
Eu não a odiava como ela achava, e sabia que ela pensava assim pela sua cara de desgosto toda vez que me via, pelo ar sendo expulso de seus pulmões quando eu fazia alguma gracinha, ou até mesmo o jeito que ela corria da minha presença.
Era divertido irritá-la, que culpa eu tenho?
No fim das contas eu sabia que o culpado de tudo isso era eu, e precisava continuar, manter o ódio dela por mim era necessário. Deveria mantê-la longe, pois eu sabia o quanto ela abominava o trabalho sujo da Vincere e eu não queria que ela tivesse apenas a visão do carrasco que mata e tortura sem piedade.
Esse era o verdadeiro motivo para mantê-la o mais longe possível de mim.
Aprendi com meu pai que manter as garotas afastadas dessa parte do trabalho era o melhor a se fazer, estávamos poupando elas de saberem demais ou de nos ver como homens sem coração. Elas não eram santas e sabiam de tudo, mas entre saber e ver, sentir e fazer tinha um enorme abismo.
Beatrice tomava conta do laboratório, Giulia ficava na parte da segurança cibernética, e Luna ficavam na parte mais comercial, digamos assim. à frente da boate e Luna na confeitaria onde lavávamos o dinheiro da venda das armas, e como elas trabalhavam mais expostas, não usavam o sobrenome do nosso pai em público.
Elas resolveram escolher o sobrenome que usariam, nenhuma nunca quis conhecer ou ter nada a ver com suas mães, pois mulheres que entregavam as filhas de boa vontade não mereciam que elas usassem os seus sobrenomes. Esse era um pensamento unânime entre as quatro.
[...]
Cheguei em casa naquela madrugada um pouco bêbado já que acabei dispensando dois dos três soldados que estavam fazendo minha segurança para eu não beber sozinho. A verdade era que ser o subchefe de uma máfia não era nada do que as pessoas imaginavam, era maçante, era exaustivo, uma responsabilidade sem tamanho e isso às vezes me deixava sem dormir algumas noites e o álcool resolvia o problema.
Otelo esperava muito de mim, fui o único filho homem que ele gerou antes de descobrir que tinha ficado estéril, infelizmente. Por causa de uma infecção ocasionada por um tiro que sofreu 2 anos depois de Luna e Giulia nascerem, ele não poderia mais gerar filhos.
A família ficou um pouco menor do que ele planejava e agora tudo estava em minhas mãos, pois com apenas um herdeiro homem, Otelo ficava receoso, já que se acontecesse algo comigo tudo ia por água abaixo. E essa responsabilidade pesava toneladas nos meus ombros, tentava amenizar em minha cabeça, mas a grande realidade é que isso me deixava pilhado em certos momentos. Como quando meu pai dizia que eu precisava casar logo e ter no mínimo 4 filhos homens, e esse assunto estava pesando a cada ano que passava. Eu faria 33 anos em alguns meses e para ele, eu já tinha passado da idade de estar casado e com a prole garantida. O herdeiro da Vincere deveria se casar cedo, segundo meu pai.
Não era algo que me chamava muito a atenção, mas eu sabia que ele só estava querendo o melhor para mim. Eu sabia o quanto incomodava ele ter se envolvido com várias mulheres, mas nenhuma o amava de verdade, elas queriam apenas dar um filho e deixar nas mãos dele para que cuidasse e, claro, queriam receber a boa grana que vinha com a proposta de gerar o filho do Don.
Eu sabia que minha mãe tinha sido a única que ele amou e foi recíproco, mas após anos naquele mundo, Aurora não sabia mais como lidar com a vida da famiglia. Então ela me pegou e saiu de casa comigo nos braços, mas não sem antes receber o aviso que eu teria treinamento mesmo em sua casa e que deveria me entregar a ele anos depois, aos 16 para ser mais exato. Essa era a idade de iniciação na máfia e do treinamento mais pesado para assumir o lugar do meu pai quando fosse a hora.
Foi aí que tudo desandou, eu era um garoto normal, tive uma infância tranquila no interior da Itália. Estudava em uma escola comum, jogava bola na rua e tinha amigos no meu bairro. Apesar do treinamento com o capitão do meu pai ser diário, era a única coisa diferente que eu fazia: aprender a lutar. Eu até gostava, era divertido para um garoto de 10 anos saber lutar, porém, quando tudo parecia sério demais eu ficava irredutível e não saía do meu quarto.
Minha mãe sofreu muito por mim e eu não entendia, mas hoje consigo compreender o motivo. Enquanto estava na Itália a visitei, por mais que às vezes ela me olhasse com aquela expressão de desgosto por ter me tornado alguém tão parecido com quem ela tentou ao máximo me manter longe, era minha mãe e eu a amava. Eu tentava entender a recusa dela de ter algum vínculo mais profundo comigo, porém achava que quando ela casou com um Don, ela deveria saber onde estava se metendo e o que vinha com aquele sim.
— Levanta, ! — Ouvi a voz irritada e grossa ecoar pelo quarto, assim como fui cegado pela claridade, que entrou inundando o quarto quando meu pai abriu as cortinas. — Foi farrear ontem, não é? Esqueceu do carregamento que vai chegar hoje?
— Que horas são? — Virei na cama em busca do meu celular na mesa de cabeceira. — Caralho! — berrei levantando em um salto da cama ao ver as horas.
— É, caralho mesmo, ! — Otelo gritou enquanto eu ia até o banheiro. — Você nunca faz esse tipo de coisa, qual o seu problema?
— Perdão, pai, não vai se repetir. — Voltei até o quarto já fechando o zíper da calça jeans e a camisa branca faltando apenas fechar os botões.
— Ah, não vai mesmo. — Vi ele sair do quarto e bater a porta.
— Cacete, já comecei o dia bem…
Peguei meu celular e a chave do carro e saí de casa às pressas com mais dois carros com soldados me seguindo. Chegamos ao porto em cima da hora, mas alguns subordinados já estavam lá à minha espera, desci do carro e Manuel, um dos soldados, cumprimentou-me abaixando levemente a cabeça demonstrando subserviência, passei por ele e fui diretamente falar com o capi, Giovanni.
— Conferiu tudo?
— Sim, senhor Perroni. Está tudo certo, vamos separar em 4 carros.
— Ótimo. — Entrei no container e averiguei a quantidade de caixas, abri uma com a faca que tinha em meu bolso e conferi. — Vou esperar no carro, assim que terminar é para ir direto para o laboratório. — Virei as costas e segui até meu carro, sentei no banco do motorista e abri o vidro.
Fiquei esperando os soldados carregarem os carros com a mercadoria, peguei o maço de cigarro, bati no volante e um cilindro saltou da caixa, coloquei-o na boca e o acendi, pois aquilo parecia que ia demorar. Respirei fundo e tentei apreciar a paisagem além do trabalho ilegal que estava acontecendo há poucos metros de mim, aquele momento era o mais próximo que eu tinha chegado do mar nos últimos 3 anos.
Meu celular vibrou no meu bolso, puxei o aparelho, dei mais um trago no cigarro e então atendi.
— Alô?
— , preciso que assim que finalizar volte imediatamente para casa.
— Aconteceu alguma coisa?
— Falaremos quando chegar.
Meu pai desligou antes que eu pudesse fazer qualquer pergunta, a ligação tinha me deixado preocupado pelo tom de voz que ele utilizou, estava sério demais para ser um problema pequeno. Giovanni chegou na janela do meu carro e avisou que estava tudo pronto, acenei para que fossemos embora, dei um último trago e joguei o cigarro pela janela. Virei a chave e acelerei, acompanhando pelo retrovisor os outros 4 carros que me seguiam.
Chegamos no laboratório e as ações, principalmente quando envolvia carregamentos ilegais, eram feitas rapidamente. Os soldados colocaram todas as caixas no depósito e dispensei seus serviços por aquela hora e fechei o portão, conferi o carregamento e pedi para que um dos químicos conferisse a qualidade.
Por mais que estivesse pensando apenas no que meu pai poderia querer e no que tinha acontecido, não queria enfrentar a fúria da minha irmã caso eu fosse embora sem falar com ela. Abri a porta que dava acesso ao porão e desci a escada, assim que coloquei o pé no último degrau, pude ver o cabelo vermelho chamando atenção naquela sala toda branca, com tubos transparentes e luzes claras demais para o meu gosto.
Beatrice estava concentrada em algo que eu definitivamente não sabia e bem saberia o que era caso ela me explicasse, caminhei devagar entre as mesas, com outros poucos funcionários e encostei em seu braço. Ela olhou por cima do ombro e sorriu:
— …
— Carregamento está no depósito.
— Obrigada, maninho. — Ela tirou os óculos transparentes e me olhou de um jeito estranho.
— Que foi? — perguntei franzindo o cenho.
— Aconteceu alguma coisa?
— Você é curiosa demais, Bee — reclamei, chamando ela pelo apelido que dei quando éramos mais novos devido a sua curiosidade, achava que era por isso que ela era tão boa na química e em suas criações.
— Obrigada. — Ela sorriu empinando o nariz.
— Não foi um elogio. — Pisquei o olho direito com um sorriso arteiro no rosto, dei as costas e fui andando para a escada. — Vou descobrir o que houve quando chegar em casa.
— Quero saber a fofoca depois.
— Não sei se vai querer saber… — Olhei para ela assim que a minha mão alcançou o corrimão e a vi fazer careta, fazendo com que eu risse. — Até o jantar, maninha.
Assim que estacionei meu carro, saí dele com pressa, porém não o suficiente para demonstrar meu nervosismo. Entrei em casa e fui direto até a biblioteca, onde ficava também o escritório de meu pai em uma sala adjacente, separada por portas duplas de madeira. Entrei no ambiente e vi dois Capis em pé, aparentemente esperando apenas a minha presença, meu pai ofereceu a cadeira em frente à sua mesa para mim e sentei.
— Pegamos um dos Delantera, quero que interrogue ele.
— Pai... — Fui advertido pelo olhar do Don. — Don Otelo, temos homens treinados para isso.
— Você é o melhor e sabe disso. — Eu engoli em seco e assenti. — Conto com você.
Levantei da poltrona abrindo dois botões de minha camisa e arregaçando as mangas, sabia que o trabalho sujo começaria e, a partir daquele momento, não teria hora para terminar. Caminhei lentamente com os capitães me acompanhando, passei pelo hall de entrada e cruzei meu olhar com o de , que estava pegando as chaves do seu carro, ela nos acompanhou com os olhos e eu abaixei a cabeça respirando fundo.
Caminhamos pelo corredor extenso no qual ao final tinha a porta onde estava o inimigo, girei a maçaneta e desci os degraus até o porão, que utilizávamos para esses trabalhos de última hora, o homem já estava vendado e amarrado, sentado em uma cadeira.
Filippo, meu primo e capitão, colocou uma cadeira em frente ao homem, então sentei-me também, soltei o ar com força, me preparando para assumir o sanguinário, aquele que só existia ali em circunstâncias como aquela, peguei a carteira do bolso da calça puxando um cigarro e o acendi, fazendo sinal com a mão para que Filippo tirasse a venda e a mordaça.
O homem, assustado, olhou para os lados e finalmente olhou para frente, notando minha presença; levantei o canto dos meus lábios e soprei a fumaça para o alto.
— Então, qual o seu nome? — Apoiei meus cotovelos em meus joelhos.
— Paco… Paco Mendez.
— Vai ser do jeito fácil ou difícil, Paco? — Dei outro trago em meu cigarro, soltei a fumaça esperando uma reação, mas tudo que recebi foi silêncio. Maneei a cabeça para Filippo, que socou o estômago do inimigo, fazendo-o se contorcer de dor até onde as cordas deixavam. — Do jeito difícil então… Me conte, quais são os planos do seu Don?
— Eu não sei, sou apenas um soldado… — Outro soco desferido em seu abdômen, e o homem tossiu.
— Claro que sabe, os soldados são mais bem informados do que pensamos. — Sorri e me ajeitei na cadeira, cruzando as pernas. — Quero saber como ele acha que vai tomar os nossos negócios.
— Senhor, eu juro, eu não sei… — O outro Capitão, Gian, socou o rosto do homem uma, duas, três vezes, vi o sangue saltar e um corte se abrir na maçã do rosto e na boca do nosso interrogado.
Eu suspeitava que os Delantera ainda existiam e que estavam aos poucos se infiltrando onde não deviam em Madri. Acontece que aquele era o nosso território, a Espanha agora nos pertencia, a Vincere comandava o lugar desde que a conquistamos.
Meu pai já vinha em uma guerra que se arrastava durante anos pela morte da minha tia Victoria, porém, ele resolveu enxotar os Delantera da Espanha como punição por um dos capitães deles ter matado o meu tio, que era o sottocapo, e o nosso consegliere, que também estava com ele na emboscada.
Depois de matar mais da metade do que eles chamavam de máfia espanhola - já que aquilo estava mais para gangue de bairro -, eles fugiram com o rabo entre as pernas. Contudo, eu sabia que aquele ser arrogante e ganancioso estava se armando e se preparando para algum dia vir buscar a sua vingança, e claro, conquistar o espaço que um dia foi dele.
Levantei e caminhei a passos lentos, agachei para ver o homem dos cabelos castanhos de perto e ele possuía uma cicatriz que ia do centro da sua testa até o fim do nariz, que era perceptivelmente quebrado, presentes de quem faz parte desse mundo.
— Então, Paco, o chefe vai ficar irritado se eu não conseguir o que ele quer, entende? Preciso voltar com alguma informação importante para ele, algo que o satisfaça… — Dei um trago no cigarro, e assim que ele olhou para mim, apaguei o cigarro em sua bochecha. Só vi ele engolir em seco e fechar os olhos, definitivamente estava segurando o grito que queria sair. — Ele é durão… — Olhei para os meus subordinados e disse: — Peguem o kit de casqueamento bovino.
[...]
Os gritos aterrorizados pela dor ainda ecoavam em minha cabeça, eu precisava de um tempo. Talvez o coitado do soldado não soubesse mesmo de nada, se fosse um capitão seria mais difícil eu acreditar que estivesse no escuro. Respirei fundo assim que saí pelas portas laterais, precisava de ar puro, aquele cheiro de sangue já estava me deixando enjoado.
Acendi um cigarro e olhei para o céu, já era noite fechada, acreditava que tinha ficado lá embaixo por mais ou menos 9 horas. Precisava de uma bebida. Caminhei até a sala íntima e servi o whisky, virei a dose de uma vez, e só então coloquei duas pedras de gelo e mais uma dose para apreciar.
— Papai já disse para não fumar dentro de casa. — Pela voz eu sabia quem era, saberia até de olhos fechados.
Peguei meu copo e me virei, apoiando meu cotovelo no balcão do pequeno bar que tínhamos ali, estava segurando sua bolsa e chaves, parecia que tinha acabado de chegar em casa da boate.
— Não deveria estar na boate, ? — Dei um gole em meu copo e a vi colocar a bolsa em cima do sofá e vir em direção a mim, ela foi até a parte interna do bar e começou a fazer um martini.
— Deixei a Gi cuidando de tudo, não estou me sentindo muito bem. — Ela pegou a taça e deu um gole, fechou os olhos, parecia degustar a bebida, então engoliu e passou a língua pelos lábios de uma forma sensual demais para ela fazer isso em qualquer lugar.
Era intrigante, parecia quase um ritual, ela sempre fazia isso e eu sempre ficava preso em cada mínimo movimento.
— Hm… — murmurei, dando um trago em meu cigarro, que dei pela metade, já que ela tomou dos meus dedos e colocou nos lábios enquanto se afastava de mim. — Se queria um, era só pedir.
Ela tirou os sapatos, segurando a taça nas mãos e o cigarro pendurado nos lábios pintados de vermelho; puta merda, ela era sexy.
Caralho, , cala a boca.
Me censuro em minha mente, apenas caminho novamente até o lado de fora, acendo outro cigarro e sinto a brisa fresca balançar os fios de cabelo em meu rosto. passa por mim e vai em direção à piscina, assisto de longe, encostado em uma das pilastras da varanda, ela sentar na borda da piscina. Às vezes conseguíamos ficar no mesmo espaço sem discutir, acreditava ser mais por minha causa, já que eu não a provocava.
Tirei os sapatos, as meias e andei lentamente, sentindo a grama abraçar meus pés, eu amava essa sensação, sentei na borda do outro lado, ficando ao seu lado esquerdo, mas longe o suficiente. Conseguia vê-la de perfil, os olhos verdes admiravam as estrelas e eu podia notar o quanto estava cansada, baixei mais os olhos e vi seu pulso roxo, franzi o cenho e uma raiva instantânea me tomou.
— Quem fez isso com você? — Minha voz saiu mais autoritária do que eu pretendia.
Ela me olhou sem entender, então viu onde meus olhos estavam vidrados.
— Não foi nada… — Ela acariciou com a outra mão, tentando esconder e desviou os olhos de mim.
— … Quem? — Travei os dentes, sentindo meu corpo esquentar com o pensamento de alguém machucando ela.
— Foi um cliente, bêbado, pedi para os seguranças o tirarem da Fascino — falou como se não fosse nada.
— Coloque mais soldados na boate — ordenei.
— Não precisa.
— Já que você foi agredida… — falei o óbvio —, precisa sim, e você não tem escolha.
— , eu sei me defender, não se meta na minha boate. — Ela jogou o cigarro dentro da taça com o resto da bebida, fazendo o barulho inconfundível da brasa de apagando, e levantou virando-se para entrar.
— Seu braço está…
— Eu sei o que meu braço está, . — Ela me interrompeu, voltando seus olhos para mim. — É o meu braço, e é a porra da minha boate. Não se meta, cazzo! — Vi seus olhos desceram para o meu corpo e ela deu um sorriso seguida de um riso de escárnio. — Vá cuidar de seja lá o que você estava fazendo — ela apontou para a minha camisa —, só me deixe em paz. — Ela seguiu a passos firmes para dentro da mansão.
Desci meus olhos para a camisa que tinha respingos de sangue.
— Merda.
Capítulo 3
Alonso Perroni
Eu tentava ignorar a parte da violência que acontecia dentro da Vincere, afinal, não era eu que comandava esse setor. No entanto, eu sabia, eu não era burra, só tentava me manter afastada disso. Fui treinada para saber lutar e atirar desde os meus 14 anos, eu sei o que é a Vincere, eu sei o que é a minha família e também sei exatamente o que estava indo fazer naquele exato momento.
Acompanhei ele e os dois capitães com o olhar e engoli em seco, respirei fundo antes de sair de casa. Entrei no meu carro e por alguns minutos me permiti respirar devagar, olhei para a mansão imponente que nos pertencia, tudo tinha um preço afinal, liguei o carro e saí dali. Dirigi até o laboratório, precisava pegar as novas drogas e Beatrice me infernizou para eu passar lá de novo.
Passei pela porta da frente e o soldado me recebeu com um aceno de cabeça, cumprimentei-o e desci a escada para encontrar minha irmã. Beatrice era uma mulher inteligente, nossas boates são as únicas que vendem a droga pura, sem nada que vá fazer mal aos nossos clientes. Ela era genial, tinha criado uma droga nova sem maiores efeitos colaterais no dia seguinte e, claro, fazia o maior sucesso.
Assim que cheguei ao subsolo, a ruiva estava concentrada olhando no microscópio e eu dei passos lentos até apertar suas costelas e ela soltar um grito.
— Caralho, sorella, não tem mais idade para isso. — Eu gargalhava e ela me olhava emburrada, ajeitando os cabelos.
— Foi divertido e você teria feito o mesmo… — Cruzei os braços. — Cadê todo mundo?
— Dispensei todos, estavam me irritando. — Ela fez alguma anotação em um bloco e voltou a analisar algo no instrumento científico.
— Hmm… TPM? — Ela me olhou séria, parecia que queria decapitar a minha cabeça. — Ok, TPM. — Constatei. — Quer fazer uma noite de filmes, pipoca, chocolate e tudo mais?
— , não temos mais 15 anos. Você tem trabalho e eu também.
— Meu deus, você tá muito azeda. — Torci os lábios, bufando. — Me dê logo o que preciso que eu vou embora.
— Aqui. — Empurrou o pacote contra meu peito e abanou. — Tchau.
— Também te amo, irmã, até em casa — disse dissimulada e fui caminhando para a escada.
— Não esqueça de fechar a porta.
Beatrice realmente estava de TPM, único motivo plausível para ela estar assim. Ela não tinha o melhor dos humores, mas até que era simpática na maior parte do tempo, então tratei de sair logo de lá. Sentei em frente à direção do meu carro e em poucos minutos estava na boate, entrei e dei o pacote com as drogas a Giovanna, que me olhou sorridente. Subi para o escritório e fui ler alguns contratos, organizar a planilha do mês e fechar as contas do caixa. Eu gostava do que fazia, ficava longe o suficiente de casa para não ouvir o que não queria, sozinha com meu sossego e bem distante de .
Eu não o odiava tanto assim, apenas não nos dávamos bem, era bem óbvio, mas era tudo culpa dele. Ainda lembro de quando chegou em casa, ele me tratava bem, igual às minhas irmãs, porém ele começou com as brincadeiras idiotas, os flertes inadequados, as provocações sem fundamentos e as piadas, tudo me irritava, tudo em me irritava.
Quando notei, as luzes coloridas já piscavam através da minha janela, o que indicava que a boate já estava aberta. Joguei meu corpo para trás na cadeira e respirei fundo, senti minhas costas doerem de ficar horas na mesma posição. Passei a mão pelo pescoço e o apertei, mexendo para um lado e para o outro, tirando a tensão dos meus ombros. Levantei e fui até o bar lá embaixo, pedi um martini para Vincenzo e sentei em um dos bancos, a pista de dança estava relativamente cheia e as mesas vips nos cantos também. Conseguia ver, pela janela da parede que dividia o corredor de entrada e a parte interna, que tinha fila.
Sempre me sentia orgulhosa do trabalho que fazia ali na Fascino, a boate era minha criação, eu levantei aquilo praticamente do zero, com ajuda dos meus funcionários e dos melhores amigos, é claro, e transformei na melhor boate de Madri.
— Olá, senhorita, está sozinha?
— Estou e pretendo continuar. — Nem olhei para o lado para ver a cara do marmanjo.
— Nossa, ela é difícil… — Escutei a gargalhada e revirei os olhos. — Me diz uma coisa: você é a dona do lugar?
— Sim, por quê? — Dessa vez olhei para o homem, ele tinha uma barba espessa, os cabelos grandes e olhos de alguém ruim.
Tive essa impressão por experiência, que você só obtém estando dentro desse mundo, e armei todos os meus muros ao redor de mim; eu estava em alerta. Vasculhei o ambiente com os olhos em questão de segundos, vi onde cada segurança estava, Vincenzo servia três meninas do outro lado do balcão, completamente alheio a mim, claro, elas estavam descaradamente dando em cima dele.
— Me acompanhe em uma bebida, gostaria de conversar com você. — Ele sentou no banco ao meu lado e eu fechei os olhos, raciocinando tudo que eu poderia fazer.
— Não estou a fim de conversar, tenho muito trabalho pela frente, se me der licença. — Levantei do banco pegando meu drink e assim que virei senti meu pulso ser agarrado com força. — Me solte imediatamente!
— Se não o que, senhorita Perroni? — Ele me desafiou, apertando ainda mais meu pulso.
Meu coração acelerou, como diabos ele conhecia meu verdadeiro sobrenome?
Senti o pânico me tomar e tentei puxar meu braço mais uma vez, sem sucesso fiz uma manobra arriscada, já que o cara era duas vezes o meu tamanho, porém eficaz. Passei o braço por cima da minha cabeça, girei meu corpo e coloquei seu braço atrás de suas costas, empurrando sua cabeça contra o balcão, foi tudo muito rápido e eu olhava irritada pela minha taça quebrada no chão.
— Você fez eu desperdiçar meu drink.
— É mesmo uma Perroni.
— Não sei do que está falando — dois seguranças já vinham em nossa direção —, meu nome é Alonso, dona da Fascino e o nome disso é defesa pessoal. — Meus seguranças o pegaram e o levaram.
Eu olhava paralisada para o espelho que tinha atrás das garrafas do bar, apavorada, olhando para mim mesma. A adrenalina tinha me abandonado, me restando apenas o pavor de ter que me esconder em casa e andar armada até os dentes como .
Como ele sabia meu nome?
Era perigoso demais alguém saber a minha verdadeira identidade. Sempre fomos cuidadosos, todos os seguranças são soldados, meus funcionários são de confiança, todos eles.
— ?! — Senti uma mão em meu ombro e olhei para o lado, vendo Vincenzo. Não consegui responder, ele apenas me segurou e me guiou para cima. — Você está bem? — perguntou assim que me colocou sentada no sofá do meu escritório.
— Estou.
— Quer que eu pegue gelo? — Fiquei olhando para ele meio desnorteada e vi seus olhos descerem, então encarei meu pulso, que nem percebi estar massageando. Apenas assenti e o vi deixar o escritório.
— Você está bem?! — Não passou muito tempo e Giovanna entrou feito um furacão, sentou ao meu lado e acariciou meus ombros, balancei a cabeça em positivo e logo vi Pelegrini voltar com gelo enrolado em um pano.
— Obrigada, Vince — foi tudo que disse antes de pegar e colocar em meu braço.
— Vai, Pelegrini, o bar tá cheio! — A loira praticamente enxotou o coitado, que saiu, mas não antes de estirar o dedo do meio para ela. Às vezes parecia que ainda estávamos no ensino médio. — O que aconteceu?
— Um homem, Giovanna… — Tinha conseguido finalmente recobrar todos os meus neurônios. — Ele sabia meu nome…
— Várias pessoas sabem seu nome, , você é a dona da porra toda aqui. — Ela deu de ombros.
— Não, você não entendeu. — Gi arregalou os olhos.
— Você tem que avisar o .
— Pra quê? — Franzi o cenho.
— Se você corre perigo, ele precisa saber…
— Não ouse. — Interrompi ela e levantei jogando o gelo na mesa de centro. — O que acontece dentro da minha boate é responsabilidade minha. — Contornei minha mesa e abri minha gaveta. — Eu sei me defender — peguei minha arma, que ganhei de presente do meu pai assim que finalizei as aulas de tiro, e conferi o pente, colocando-o de volta na minha semiautomática —, fui treinada para isso.
Coloquei a arma na minha cintura, presa ao meu jeans e avisei à minha amiga que desceria até a sala de segurança. Pedi para os meus homens olharem as câmeras, assim que identificaram o suspeito, falei para avisar a todos os seguranças que ele estava proibido de entrar na Fascino. Pedi para que congelassem a melhor imagem do rosto dele e enviassem para Giulia, ela saberia achar quem era esse cara. Agradeci aos seguranças, voltei até meu escritório, peguei minha bolsa e me direcionei à saída. Assim que apareci perto do bar, Vincenzo se aproximou.
— Está mesmo bem?
— Sim, Vince, não se preocupe. — Curvei os lábios. — Eu vou pra casa, preciso resolver algumas coisas.
— Se cuida. Tem algum segurança para te acompanhar?
— Sempre tem, Vince. — Pisquei o olho direito para ele, que entendeu o recado.
Meu verdadeiro sobrenome não podia ter vazado por alguém do bar, todos eram ligados à máfia e confiava neles. Era fácil confiar em pessoas que você conhece por toda a vida, que te ajudaram tantas outras vezes e que faziam parte da famiglia. Vincenzo, além de ser meu fiel barman, também o conhecia desde a escola. Ele e a Coppola namoraram por alguns meses no ensino médio, mas a loira é livre demais para se prender a alguém. Acabamos virando melhores amigos, posso dizer assim… tudo bem, amigos com benefícios. Nos conhecíamos há muito tempo, era fácil satisfazer o carnal com alguém próximo e que é confiável.
Entrei no carro e respirei fundo, tirei a arma e coloquei no banco do passageiro, olhei pelo retrovisor vendo Ettore e Austin, que já estavam no outro carro, apenas esperando eu sair para fazerem minha escolta até em casa. Sorri tranquila, por mais que a cena daquele homem ter surgido do nada falando meu verdadeiro nome ainda estivesse me incomodando.
Cheguei em casa e vi de costas, servindo alguma bebida, apostava ser whisky. Acabei fazendo um martini para mim e roubando seu cigarro. Estava cansada, depois que a adrenalina baixou do meu corpo, ele parecia pesar uma tonelada. Tudo que eu queria era relaxar, mas parecia que meu meio-irmão idiota não tinha entendido isso, no entanto, compreendia que ele ficou preocupado por eu estar machucada.
podia ser insuportável, mas ele se preocupava com a gente, comigo e com suas irmãs. Acabei estourando quando ele falou de uma forma como se eu fosse sua subordinada e eu não queria precisar dele para nada.
Minha boate, meus problemas, minha responsabilidade.
Não sou nenhuma garota indefesa esperando seu príncipe encantado, não preciso disso. Além de já ter perdido meu lugar na máfia, ele queria ditar o que fazer no único lugar em que eu me sentia verdadeiramente feliz e completa? Eu estou cansada dessa pose de sottocapo, tem que entender que estou na mesma posição que ele: filha do Capo da porra da Vincere; eu era a prossima antes dele chegar.
[...]
— Eu acho que a Giovanna tem razão, você já deveria ter contado para o dias atrás.
— Não fode, Luna. — Coloquei mais um pedaço da torta de limão na boca. — Vim aqui justamente porque você me escuta e costuma ser sensata. A boate é minha, acha errado eu querer resolver sozinha?
— Não, não acho, mas essa guerra de vocês dois já deveria ter acabado há anos. — A morena cruzou os braços e revirou os olhos. — Dois adultos se comportando como crianças. Se não fosse essa implicância infantil de vocês, você teria dito.
— Eu quero que ele saiba que eu sou tão competente quanto ele, não preciso de ajuda ou de proteção. — Bufei e torci os lábios, era nítido o controle que ele queria ter e eu odiava esse comportamento de macho alfa dele.
— é responsável pela segurança da famiglia, !
— Eu sei disso, mas fomos treinadas pra que, Luna?! Pra na primeira merda chamar um dos homens? — Revirei os olhos. — Esse assunto está resolvido. Preciso ir, sorella.
— Se cuida, hein, ?! — Levantei dando um beijo no topo da cabeça da caçula, peguei minha bolsa e fui em direção à porta.
— Eu sempre me cuido, Luna. Ciao.
Às vezes eu buscava Luna para conversar já que ela parecia ser a mais sensata de nós, ela me ouvia com o objetivo de me entender e não só para responder. Era sempre bom conversar com ela, mas desde que voltou parecia haver um complô para fazer com que nos déssemos bem. Acelerei o carro com o intuito de chegar mais rápido até a minha boate e poder ocupar minha mente. Assim que cruzei a entrada sentei na banqueta do balcão, vi Pelegrini organizando as bebidas para a abertura e sorri.
— Ei, bonitão — ele virou para mim e deu aquele sorriso de canto sedutor dele —, me serve um martini.
— Agora, patroa. — Ele bateu continência.
— Está tudo sob controle? — perguntei assim que ele colocou a taça em minha frente, em cima do balcão.
— Giovanna estava gritando com alguém na cozinha uns 15 minutos atrás. — Ele riu e eu acompanhei.
— Aquela loira é maluca… — Dei um gole em meu drink.
— Já sabemos disso faz tempo… — Ele veio dar um beijo em minha bochecha e eu virei, selando nossos lábios, fazendo com que Vincenzo se surpreendesse. — Achei que não queria…
— Não tem ninguém aqui, Vince.
— A Giovanna pode aparecer ou… alguém. — Ele limpou a garganta coçando a nuca.
— Tá com vergonha de mim, Pelegrini? — Vi o desespero em sua expressão e comecei a rir. — Ei, a Giovanna sabe. E eu só não quero fazer isso aqui em público porque me preocupo com você. — Saboreei a bebida novamente. — Se alguém descobre, pode te usar como moeda de troca, Vince. Ainda mais depois do que aconteceu…
— Lo so, cuore. — Ele piscou para mim. — Não se preocupe com isso. — Ele se debruçou sobre o balcão e colocou os lábios no meu ouvido. — Mais tarde eu vou lá em cima e te fodo como merece.
— Safadeza já a essa hora? — Ouvi a voz de Giovanna e Vince pigarreou voltando aos seus afazeres. — A cozinha está um caos, Santiago precisa colocar ordem nos assistentes dele e ele não me escuta.
— Giovanna, tempestade em copo d'água, é isso que você faz. — Sorri para ela e finalizei minha bebida. — Mais tarde me leva outro, Vince… — Sorri e pisquei o olho direito para ele, que apenas fez uma continência.
Eu e Giovanna subimos para o meu escritório e repassei com ela tudo que precisávamos para a semana. Já fazia alguns dias que aquele homem tinha aparecido na boate, e depois a Giu o identificou como dono de um bar, então concluímos que tinha sido apenas algum lunático que acreditava que qualquer dono de empreendimento grande fizesse parte da máfia. Ele não precisava saber que isso era parcialmente verdade, afinal, a Vincere está no comando da Espanha há algum tempo.
Quando desliguei o telefone com um dos fornecedores, me veio à memória de quando ainda estávamos expurgando os Delantera da Espanha, fui eu que dei a ordem para os meus homens executarem os Espanhóis que ainda restavam no sul do país. Seria ele um sobrevivente? Franzi o cenho pensando na possibilidade, mas logo neguei com a cabeça, não poderia ser.
Os Delantera foram praticamente dizimados por nós depois que mataram meu tio e o pai de Pelegrini, talvez tenha sobrado meia dúzia, porém, o que fariam com tão pouco? Respirei fundo me jogando na cadeira, estava sendo paranoica. Meu pai tinha sido claro o suficiente com o chefe deles, que foi o único inimigo que teve contato com Otelo e sobreviveu para contar a história.
Olhei a data no meu computador, estávamos em uma quinta-feira, era um dia que já começava a ser movimentado, porém, não tanto quanto o fim de semana, estava até pensando em ir para casa descansar, ter uma noite de spa me parecia uma boa ideia, fazia tempo que não tirava um tempinho para cuidar de mim. Escutei batidas na porta e apenas falei para entrar, abri os olhos e virei, vendo Vincenzo com um martini na bandeja; sorri.
— Você parece estar dentro da minha mente. — Ele fechou a porta e deixou a taça em cima da mesa. — Estava mesmo precisando relaxar…
— Tenho uma ideia melhor para isso. — Sua expressão se tornou a de um perfeito devasso. Ele voltou três passos, sem tirar os olhos de mim, e trancou a porta. Voltou calmamente, largou a bandeja, apoiou as mãos nos braços da cadeira e a girou para si, ajoelhando-se em seguida. — Se me permitir…
Acenei em positivo e seus dedos passaram a acariciar o meu joelho, subiram devagar pelas minhas coxas... seus dedos eram ásperos, de homem. Era gostoso o toque dele na minha pele, os arrepios eram involuntários, assim como meus olhos se fechando e minha língua inquieta dentro da boca. Umedeci os lábios e suas mãos tatuadas se voltaram para o meu quadril, encontrando as laterais da minha calcinha; belo dia para ter vindo de vestido. Levantei o quadril para ajudá-lo a tirar a peça, seus dedos seguiram pela parte interna das minhas coxas até alcançar meus grandes lábios.
— Vince… — falei em um ofego, abrindo ainda mais as pernas em reflexo aos seus toques.
— Shi… relaxa. — Ele lambeu do meu joelho até a minha virilha. Céus, aquela língua fazia maravilhas. Seus polegares abriram a minha boceta e vi seus olhos brilharem ao vê-la. — Tão molhada… — Gemi com o contato do seu músculo quente no meu clitóris, com a pressão certeira para me fazer delirar em segundos, agarrei seus cabelos e rebolei em seu rosto, aproveitando cada sensação.
Joguei a cabeça para trás aproveitando os arrepios que subiam pelo meu corpo, meu baixo ventre incendiava e quando dois dedos me invadiram, puxei ainda mais os fios castanhos.
— Vince! — gemi em um grito, e sua língua me lambia com a habilidade de anos de conhecimento. — Eu vou gozar… eu vou… — Mordi o lábio inferior sufocando o grito do orgasmo que me possuiu e me fez esmaecer na cadeira. Estava ofegante de olhos fechados e ao abri-los, vi a expressão de satisfação de Pelegrini. — Você sempre me surpreende.
— Estou sempre às ordens, senhorita Alonso. — Ele virou, pegando a bandeja.
— Ei, onde pensa que vai?
— Preciso voltar para o bar…
— Não antes de me foder como eu mereço. — Sorri safada e fui correspondida da mesma forma.
Vincenzo jogou a bandeja no chão e me puxou da cadeira pela nuca, reivindicou meus lábios com autoridade, assim como apertava minha cintura contra seu corpo. Nossas línguas se enrolavam, ele sugou meu lábio inferior e o mordeu. Agarrou meus cabelos e me colocou debruçada na mesa com violência, vi ele abrir a calça e pegar o preservativo na minha gaveta, onde ele já sabia que ficava. Ele apertou minha bunda e se enterrou na minha boceta sem aviso prévio, eu ansiava por isso, um sexo gostoso e bruto para tirar toda a tensão.
Agarrei na mesa e gemi sem qualquer controle, a cada investida eu sentia meu corpo mais leve, mais quente e mais perto de sucumbir ao prazer extremo novamente.
— Mais forte, Vince…
Sua pélvis batia contra a minha bunda com força, sua mão subiu até minha cintura e a apertou, definitivamente ficaria a marca. Vincenzo se retirou de dentro de mim e me virou para si, colocando-me sentada na beirada da mesa e voltou a meter com veemência, pegou em meu pescoço e enfiou a língua dentro da minha boca, prendi as coxas em sua cintura e aproveitei o calor que subia das minhas pernas, descia do meu busto e se encontrava no meu baixo ventre.
— Você ainda me mata, … — Pelegrini soprou contra os nossos lábios e eu sorri, jogando a cabeça para trás, dando a ele mais espaço para me enforcar, do jeitinho que eu gostava e ele bem que sabia. — Tão safada… — Senti sua mão massageando meu seio e gemi arrastado, sentindo aquela pressão em minha garganta, eu iria gozar de novo. — Goza no meu pau, bem gostoso, vai… — Ele deu um tapa na minha cara e eu gemi apertando os olhos, minha boceta chegou a piscar com tamanho tesão que estava sentindo. — Você adora isso, não é? — Deu outro tapa e eu me desfiz em fluído e logo o rosnado que Pelegrini soltou deixou claro que ele também tinha atingido o clímax.
Encostei a testa em seu ombro e respirei pesado, tentando recuperar minha respiração normal e falei: — Sempre um prazer ser fodida por você.
— Sabe que é só chamar… — Ele se retirou de dentro de mim e caminhou até o banheiro que eu tinha ali no escritório, jogou o preservativo cheio no lixo, fechou sua calça no caminho. Assim que chegou em minha frente novamente, levantou minha cabeça pelo maxilar e depositou um beijo em minha boca. Pegou a bandeja do chão e saiu, deixando-me completamente relaxada.
Acho que era disso que eu precisava, ri sozinha enquanto descia da mesa, baixei o vestido, fui até o banheiro e ajeitei meu cabelo. Retoquei meu batom e respirei fundo, feliz da vida que tinha tido dois ótimos orgasmos, melhorando minha noite em 200%.
Quem disse que eu precisava de uma noite de spa?
Só precisava ser bem comida, coisa que Pelegrini fazia muito bem, era bom não ter que sair para caçar um homem. Não tinha a mínima paciência, não queria lidar com desconhecidos; era bom assim, amizade com benefícios. Saí do banheiro e fui surpreendida por plantado no meio do meu escritório.
— O que diabos está fazendo aqui? — Franzi o cenho olhando para ele.
— Vim fazer a sua segurança já que você não aceitou colocar mais soldados na boate, mas vejo que já estava sendo bem cuidada. — Seus olhos estavam focados diretamente na porra da minha calcinha em cima da mesa.
Capítulo 4
Perroni
O desgraçado era forte e não abria o bico, já fazia dias que tentava arrancar alguma informação dele e nada. Eu já estava prestes a desistir quando finalmente, em seu último suspiro, ele disse uma coisa que pareceu ter feito meu sangue inteiro congelar em minhas veias. Agradeci por estar sozinho, só eu tinha aquela informação e ninguém teria acesso a ela até que eu achasse necessário falar, pois no momento, eu sabia que eu poderia resolver isso sozinho.
Dei um tiro bem no meio de sua testa – sabe como é, sempre confirme que o inimigo está realmente morto –, chamei Gian e pedi para ele se livrar do corpo. Subi a escada e fui rapidamente ao meu quarto tomar um banho, era quinta-feira, não era o melhor dia da Fascino, porém ela precisava de segurança redobrada agora que eu sabia quem era o próximo alvo dos Delanteras. Como eu sabia que era cabeça dura e orgulhosa demais para aceitar o que aconselhei, eu mesmo iria até lá todos os dias até que a proteção extra fosse aceita.
Coloquei uma calça preta social, meu sapato, camisa cinza chumbo e meu colete. Coloquei meu relógio, pulseira e anéis dourados, entre eles o anel com o brasão da Vincere. Peguei meu carro e meus seguranças me seguiram em outro, qualquer um da família estava sempre muito bem protegido; não era uma escolha, era necessidade.
Estacionei na boate e desci, passei pela recepção com todos os meus seguranças e o grandão da portaria me cumprimentou com um meneio de cabeça, abrindo espaço para eu passar. Entramos, olhei para os lados e não vi e nem os dois amiguinhos dela, escolhi uma mesa e sentei. Um barman me viu e veio rapidamente nos servir, dei um gole em meu whisky e apreciei a vista.
Várias mulheres dançavam na pista ao som de algum DJ que tocava, não fui atrás de saber qual era, mas sabia escolher; ele era bom. Só tinha apresentação de pole dance no fim de semana ou em algum dia específico previamente marcado, no restante era algum DJ da moda.
Corri os olhos e vi Coppola no balcão, estava atendendo algumas pessoas. Levantei e ajeitei meu colete, disse para meus soldados que podiam ficar relaxando, dentro da Fascino eu estava seguro. Fui até o bar e vi a loira abrir o maior sorriso ao me ver, eu sabia que ela tinha uma quedinha por mim desde a adolescência, sempre tomei cuidado para não dar esperanças a ela.
— Ei, loirinha, cadê a ?
— Deve estar trancada no escritório, ela não sai de lá, muito raro ela descer…
— Por isso ela transformou esse lugar no que é. — Sorri orgulhoso. — Me vê mais uma dose de whisky.
— Claro, … — Ela levou a mecha do cabelo loiro para trás da orelha e sorriu de forma sedutora.
Giovanna era muito bonita e gostosa também, principalmente com a saia preta que deixava seu quadril farto em evidência, a blusa vermelha com um decote em v, e deixando metade da sua barriga de fora. Ela usava uma bota de salto grosso e o cabelo cortado retinho, um pouco acima do seu ombro, ficava sexy para caralho. Se ela não tivesse sentimentos por mim, a gente iria se divertir.
— Obrigado, Giovanna. — Pisquei para ela e voltei até a minha mesa.
Mexi em meu celular respondendo algumas mensagens e dando algumas ordens aos soldados que estavam vigiando a movimentação dos Delantera no país. Avisei meu pai que o traste do nosso porão já tinha sido liberado, e liberado era um termo que usávamos em mensagens para resumir: embalado para o enterro. Estava prestes a pedir outra dose de whisky quando olhei para trás e vi Vincenzo descendo do escritório com um sorrisinho nos lábios. Aquilo me deixou possesso, se fosse o que eu estava pensando, não tinha o mínimo de cautela por sua segurança.
Levantei, olhei meus seguranças e disse:
— Fiquem aqui, eu já volto.
— Sim, senhor Perroni — responderam em uníssono.
Passos lentos me levaram até a escada, cumprimentei os seguranças que ficavam ali e subi, percorri o corredor mal iluminado e abri a porta do escritório de devagar. Tudo estava silencioso e não havia nem sinal dela, dei alguns passos para dentro do cômodo e então vi sua calcinha em cima da mesa. Essa filha da puta tava dando pro idiota do Pelegrini, caralho.
— O que diabos você está fazendo aqui? — Ouvi ela perguntar e virei a cabeça olhando para ela que saía do banheiro com o colo vermelho, assim como seu pescoço e rosto.
Respirei fundo tentando manter a calma.
— Vim fazer a sua segurança já que você não aceitou colocar mais soldados na boate, mas vejo que já estava sendo bem cuidada. — Olhei novamente para a calcinha, para que ela entendesse que eu sabia. Ela demorou para responder, mas então caminhou até a mesa, sentando nela, cruzando as pernas e acendendo um cigarro.
— Estava fodendo, . — Ela tragou o cilindro preto e soltou a fumaça. — O que você tem a ver?
— Qualquer um pode ser uma ameaça para você, sabe disso, não é? — Dei alguns passos em direção a ela.
— Não é qualquer um, não se preocupe. — revirou os olhos.
— Claro, o imbecil do Pelegrini que perdeu o pai por culpa do nosso tio, ele deve ser uma ótima companhia. — Revirei os olhos.
Ela levantou as pálpebras lentamente, vi os cílios longos levantarem e os olhos verdes me encararam de baixo, ela levantou da mesa e mirou a janela que dava vista para toda a boate, deu alguns passos em minha direção e curvou os lábios.
— Ele é uma ótima companhia, me come bem para caralho se quer saber. — Ela passou por mim, mas me virei e a peguei pelo maxilar, deixando seu rosto bem próximo do meu, seus olhos arregalados evidenciavam a surpresa dela com meu rompante.
— Você tá brincando comigo, ? — Nossos olhos estavam conectados e nenhum de nós iria ceder, tratando-se de nós dois era sempre assim, um cabo de guerra sem fim.
— Me solta, agora — disse calma, olhando fundo em meus olhos.
— Pare de se comportar como uma garotinha mimada senão… — Engoli o resto das palavras e soltei o ar pelo nariz.
— Senão o que, ?! — ela desafiou. — Diz!
— Vai precisar de uma lição! — Soltei-a de forma brusca, fazendo-a dar dois passos para trás para se equilibrar e caminhei em direção à porta. — Ficarei vindo todos os dias até aceitar colocar a segurança extra. Fique ciente. — Bati a porta atrás de mim e respirei fundo antes de começar a caminhar para o andar de baixo.
estava me tirando do sério.
[...]
— Bom dia. — A voz grossa soou e eu, e minhas irmãs respondemos. Meu pai sentou à cabeceira da mesa e curvou os lábios levemente. — Que bom ter meus filhos juntos no café da manhã pelo menos 1 vez na semana.
— Papai, isso é mais culpa sua do que nossa… — Giulia resmungou.
— Giu tem razão, você está sempre trabalhando ou viajando. — Luna forçou um bico, chateada.
— Estão com saudade do seu velho pai? — Otelo se servia enquanto nós já estávamos comendo.
não tinha nem olhado para mim, não sabia se eu tinha pegado muito pesado com ela no dia anterior ou se era só o jeito normal com que nos tratamos. Passei tempo demais longe de casa, resolver os problemas na Itália quando meu pai estava sem saco para tal era recorrente, porém passar quatro meses lá estava bem fora do normal. Então talvez eu tenha esquecido o quanto a nossa relação era extremamente conturbada.
Talvez minhas irmãs tivessem razão e a gente precisava aprender a conviver de uma maneira mais civilizada, toda essa guerra entre nós estava não só afetando a ambos, mas as garotas também. Meu pai já tinha desistido completamente da gente se dar bem um dia e eu entendia, se eu fosse ele também teria jogado a toalha.
— Claro, pai, sempre sentimos a sua falta — falou pela primeira vez naquela manhã.
— Papai, você lembra que faltam menos de 2 meses para o seu aniversário, não é? — Beatrice comentou.
— Nossa, filha, pior que estou tão atolado no trabalho… — Ele pareceu ponderar algo e eu já sentia que ia sobrar para mim. — … — Soltei o ar, cansado — e , organizem a festa desse ano.
— O quê?! — eu e a Alonso dissemos juntos.
— Eu posso organizar sozinha, pai, só vai me atrasar. — Ela fechou os olhos e balançou a mão em arrogância.
— , é seu irmão.
— Meio-irmão, papai, é sempre bom lembrar. — Revirei os olhos.
— Está decidido. Aprendam a trabalhar juntos, quando assumir tudo você precisará ajudar a continuar meu legado, filha. — Meu pai colocou a mão no ombro de , que sentava ao seu lado esquerdo. — É a mais velha das garotas… Além de ser a mais responsável das suas irmãs.
— Ei! — Beatrice reclamou enquanto ainda mastigava um pedaço de bolo.
— Me senti ofendida, papai. — Luna cruzou os braços.
— Nem vou comentar esse desaforo. — Giulia seguiu impassível comendo e eu só consegui rir.
— Não sejam assim, cada uma tem suas qualidades. — Balançou a mão no ar e voltou a olhar para . — Então, posso contar com você para isso?
Ela bufou e revirou os olhos antes de dizer:
— Sim, papai. — Seus olhos cruzaram com os meus e ela torceu os lábios, pedindo licença da mesa.
— Não sei o que faço com vocês, estão piores do que na adolescência…
— Não se preocupe, pai. Tudo vai ser organizado para o seu aniversário. — Sorri sincero e vi ao longe cruzar o hall de entrada e ir porta afora, olhei para um dos capitães de minha confiança que estava perto da escada e, apenas com os olhos, dei minha ordem para segui-la.
Talvez ela ficasse irritada caso descobrisse, mas Nero era um ótimo capitão, não deixaria que ela percebesse sua movimentação. Assim eu esperava. Em relação ao aniversário do meu pai, também discordava da ideia de ter que trabalhar com , a gente não conseguia passar nem duas horas no mesmo cômodo sem brigar como gato e rato.
A festa de aniversário do meu pai era algo extremamente importante para ele, todos os anos a famiglia inteira e seus associados se reuniam na mansão para um baile de gala, sempre era um de nós que organizava, porém, esse ano ele decidiu colocar dois de nós responsáveis por isso. Confesso que estava tentando entender quais eram os planos do meu pai, talvez ele ainda não tivesse largado a toalha em relação a nós dois.
Após o café da manhã, fui com Giulia até o escritório onde ela trabalhava, diversos monitores na parede e em cima da mesa dela, bem no centro da sala, ela passava a maior parte do tempo ali dentro. Não entendia como conseguia ficar no escuro com toda aquela luminosidade azul banhando todo o ambiente, aquilo era angustiante para mim. Esperei que ela se sentasse na cadeira confortável e mexesse em algumas teclas, até ela pedir para eu olhar algumas imagens específicas.
— O que eu estou olhando exatamente?
— Ali, aquele homem de boné está vendendo drogas nas nossas boates… — Giulia apontou para o homem no canto da tela e eu me aproximei espremendo os olhos para conseguir enxergar.
— Ele é uma ameaça?
— Ainda não sei, mas não consegui achar o rosto dele nos bancos de dados da polícia. — Pressionei a ponte do nariz respirando fundo.
— Ele parece ser estudante, talvez seja só um moleque tentando fazer uma grana extra…
— Existe essa possibilidade — Giu concordou, enquanto mexia em mais alguns códigos que eu não entendia o que era.
— Ele foi até a Fascino?
— Não, apenas… — ela parou o que dizia, pois pareceu pensar em algo. — Tem razão, ele pode ser um estudante. Ele só foi nas boates nos arredores da universidade.
— Vou mandar um dos nossos investigar esse cara. — Dei um beijo no topo da cabeça de Giu e me virei para sair.
— … — Escutei ela murmurar, fazendo com que eu freasse meus pés e me virasse novamente.
— Tenta ser legal com a …
— Eu não fiz nada, Giu. — Cruzei os braços e soltei o ar sabendo que vinha um sermão pela frente.
Ela apenas me encarou torcendo os lábios e disse:
— Assim como não fazia nada quando éramos adolescentes.
— Giu, eu não…
— Não faça isso, , eu via — ela me cortou e levantou da cadeira se aproximando de mim.
— Sempre foi a mais observadora de nós… — Sorri de canto.
— Por isso trabalho aqui…
— Mas tem algo que não sabe. — Virei as costas e fui em direção à saída.
— E o que seria isso? — perguntou incisiva.
Virei uma última vez com a porta já aberta e olhei para ela ao dizer:
— O motivo pelo qual sempre a mantenho longe de mim não é superficial.
Deixei o escritório e fechei a porta atrás de mim respirando fundo. Eu sabia o quanto poderia me detestar por ser um babaca, sempre soube, mas era isso ou ela sentir medo de mim por eu ser um maldito assassino.
Capítulo 5
Alonso Perroni
— Você tá parecendo pronta pra matar alguém… — Giovanna comentou ao me ver cruzar a porta de entrada da boate.
— Se ficar de gracinha pode ser que seja você. — Sorri sem humor e ela fez uma careta.
— Um martini pra dona Alonso, Vince — ela disse assim que o moreno entrou atrás do balcão segurando uma caixa cheia de bebidas.
Ele largou a caixa e olhou para nós franzindo o cenho antes de falar:
— São nem 10 da manhã…
— Ah, Vincenzo, desde quando tem hora para beber?! — disse, irritada. — Já passou do meio dia em algum lugar…
— O que houve? — Coppola debruçou-se no balcão me olhando curiosa.
— Você sabe que todo ano meu pai faz a festa de gala no aniversário dele… — Ela balançou a cabeça em positivo e Vincenzo me entregou a taça na qual dei um gole. — Obrigada, Vince. — Voltei a encarar a loira e continuei: — Você sabe também que um de nós fica responsável em organizar tudo.
— Sim, ano passado foi a Luna, lembro da quantidade de doces deliciosos que ela fez. — Coppola bateu palminhas e sorriu, animada.
— Meu pai pediu para eu e organizarmos a desse ano.
— Quê?! — Não só ela, mas Vincenzo também perguntou ao mesmo tempo.
— O karma deve estar querendo me foder. — Dei mais um gole na minha bebida e levei os olhos até Pelegrini, que mantinha um sorrisinho nos lábios.
— Prazer, Karma. — Não me contive e gargalhei, que amigo atrevido que eu fui arrumar.
— Cala a boca, idiota! — Giovanna jogou um pano de prato nele. — Vá buscar o resto das bebidas. — O moreno sumiu das vistas indo para a parte do estoque e a loira se voltou a mim. — O que vai fazer agora?
— Tentar dividir as tarefas. Vim pensando nisso o caminho inteiro… Se dividirmos, cada um vai fazer algo bem longe um do outro.
— Esperta! — Ela piscou para mim e deu um tapinha no meu ombro.
Virei o restante da bebida e avisei:
— Vou subir para fazer a contabilidade, só me chame se a boate estiver pegando fogo.
— Pode deixar!
— E peça o meu preferido a Santiago para o meu almoço — Vincenzo voltava com outra caixa em mãos, então apontei para ele —, e deixa que o barman atrevido leva para mim. — Peguei minha bolsa e me virei em direção à escada.
— Vocês dois não prestam… — Ouvi a loira dizer e sorri.
Esperto mesmo era Vincenzo: fodia comigo ou com Giovanna entre servir uma bebida e outra.
Larguei minha bolsa e sentei em frente ao computador. Fazer a contabilidade do mês era difícil, eu tinha que contabilizar as drogas, porém, não era como se fosse um negócio legal. A boate dava muito dinheiro, era verdade, mas não tanto quanto os sintéticos que vendíamos. Um estoque cheio de bebidas me ajudava a manter as aparências, porém, fazer duas contabilidades contando com o dinheiro que foi mandado para o restaurante era estressante.
Eu estava na metade da segunda planilha quando comecei a pensar no quanto seria problemático organizar a festa do papai com . Então decidi resolver esse problema de uma vez, abri uma nova planilha e comecei a colocar as tarefas e os nossos nomes ao lado, como disse Júlio César: dividir para conquistar. Assim que terminei me joguei na cadeira suspirando e então ouvi batidas na porta. Vincenzo entrou com o meu almoço na bandeja, ele colocou na mesa e eu agradeci.
— Precisa relaxar?
— Não, tudo bem, Vince… Eu só preciso, sei lá, fazer uma terapia? — Revirei os olhos e ele riu.
— E não precisamos todos? — Ele deu de ombros e eu peguei os talheres para começar a comer, não tinha percebido o quanto estava com fome até sentir o cheiro da comida maravilhosa que Santiago fazia. — Ei… — Olhei para ele que parecia receoso com o que iria dizer. — Desculpa por ter falado aquilo na frente da Giovanna.
— Vincenzo, já falei que tá tudo bem… A gente sabe que você come nós duas, estamos bem com isso.
— Às vezes eu esqueço o quanto pode ser despudorada, Alonso… — Ele riu e foi andando até a porta.
— Problema seu, me conhece desde a adolescência, não aprendeu?
— Você piorou com o tempo…
— Vai se foder, Pelegrini. — Nós dois gargalhamos e ele saiu do escritório. — Atrevido demais…
Antes de começar a comer, fechei a planilha e enviei para , se ele quisesse trabalhar comigo seria do meu jeito.
[...]
Saí da boate mais cedo, vi que estava sentado em uma das mesas da área vip e apenas ignorei, se ele quisesse continuar indo, o problema era dele. Pedi para Giovanna e Vincenzo fecharem a Fascino, eu estava exausta e com dor nas costas de passar o dia no computador. Resolvi que no sábado eu iria para a boate só à noite, deixei avisado à minha melhor amiga e parti para casa para um belo banho de banheira.
Cheguei em casa, peguei um champanhe, alguns aperitivos e subi para o meu quarto, arrumei tudo no meu banheiro, peguei meu livro e entrei na banheira cheia de bolhas, suspirei, aproveitando o meu momento, fazia tempo que não fazia algo para relaxar, eu e eu. Dei um gole em minha taça sentindo as bolhas na minha língua e logo em seguida descer refrescante pela minha garganta, eu adorava martini, era um dos meus drinks favoritos, mas champanhe era especial.
— Eu sei o que está fazendo…
Me engasguei com o segundo gole que eu dava quando vi parado no batente das portas duplas do meu banheiro, olhei para ele com os olhos arregalados.
— E eu gostaria de saber o que está fazendo no meu banheiro?! — falei alto, irritada.
Larguei meu livro na mesinha lateral, assim como a taça que estava na minha outra mão, apesar de ela poder ser útil em caso de querer ou precisar jogar algo naquele idiota.
— Não vamos fazer as tarefas separadas, se Otelo colocou a gente para trabalhar juntos é o que vamos fazer, cariño. — Senti meu sangue fervendo de ódio, tinha passado dos limites.
— Vai se foder, , saia do meu banheiro… Agora! — Alterei meu tom de voz mais uma vez, só ele conseguia fazer com que eu me exaltasse, era impressionante o quanto ele me tirava a sanidade.
— Outra coisa importante… — Ele deu alguns passos em minha direção e eu, por reflexo, me encolhi na banheira, eu estava pelada, caralho. — Vai aceitar os soldados extras que propus na Fascino?
— Por mim você pode enfiar seus…
— Tsc… — Ele estalou a língua cortando minha frase, fazendo eu bufar revirando os olhos. — Por que você insiste em complicar a minha vida, carino? — Ele olhou bem nos meus olhos, fazendo eu engolir em seco, então pegou um queijo do prato que estava ao lado da banheira e virou para sair. — Terei que vigiar você de perto?
— Está fazendo isso por que quer, não pedi proteção… — Arqueei uma sobrancelha.
voltou seus olhos negros até mim novamente e disse com propriedade:
— Eu estou a cargo da segurança da famíglia, então cabe a mim achar quando precisa de segurança, mesmo você não pedindo.
— Você é muito cheio de si, sabia? — Ri completamente sem humor.
Ele sorriu de canto e disse:
— Você não viu nada, .
— Saia… Adesso! — Soltei o ar com força pelo nariz e vi ele sair rindo. — Maledetto…
[...]
Eu tinha tudo planejado para o sábado, seria um dia para descansar. No entanto, as minhas irmãs tinham outros planos quando invadiram o meu quarto e me tiraram da cama às 9 horas para ir para a piscina. Eu adorava passar tempo com elas e, realmente, fazia algum tempo que não ficávamos juntas, além do mais, eu estava mesmo precisando pegar um sol, sentir ele esquentando a minha pele era bom.
Confesso que estava gostando da nossa manhã, até o momento em que elas começaram a falar de algo que eu estava evitando pensar.
— E como fará a festa do papai este ano? — Beatrice perguntou.
— Estou curiosa para ver se vocês dois vão conseguir chegar na parte da festa de fato ou o duelo vai acontecer antes. — Giulia comentou dando um gole em seu suco de laranja.
— Sinceramente, vocês três são piores que ele…
— Ponto positivo para ! — Beatrice gargalhou, levando as minhas irmãs a rirem em comemoração também.
— Claro — baixei os óculos de sol até a ponta do nariz e olhei para elas —, precisou só de três seres humanos para se igualar ao quanto ele é insuportável… Belo ponto positivo.
— Você estraga tudo… — Luna fez bico.
Revirei os olhos e encaixei os óculos em seu lugar novamente, recostando na espreguiçadeira onde tomava sol. Senti meu celular vibrar ao meu lado e o peguei, vendo uma mensagem de dizendo que queria conversar comigo sobre a festa no final da tarde, apenas ignorei, queria relaxar naquele dia e ele não se encaixava na definição de tranquilidade. Não demorou para que os empregados servissem o almoço na mesa perto da piscina, fiquei feliz, afinal, sol e piscina me davam uma fome fora do normal. Sentamos todas juntas e entre risadas, conversas e às vezes alguns xingamentos desnecessários, principalmente vindo de Bea, nos deliciamos com um cordeiro com ervas, batatas ao murro e uma salada primavera.
Depois de passarmos tempo demais bebendo alguns drinks depois do almoço, coloquei meu roupão e entrei em casa, fui até a biblioteca e não vi meu pai, queria perguntar algumas coisas para ele. Ele nunca dizia o que queria exatamente em seu aniversário, mas sempre dava algumas dicas nas entrelinhas e eu gostava de prestar atenção nisso pra fazer uma festa que ele gostasse. Essa festa era uma responsabilidade enorme, até entendia meu pai ter pedido para dois de nós fazermos, até porque, ele faria 60 anos, acho que ele queria que fosse especial, então queria caprichar.
Fui até a cozinha e peguei um pacote de batatinha, eu tinha bebido demais e nem tinha percebido, estava até um pouco tonta, mas nada fora do limite, só que beber me dava fome e era muito tarde para um lanche e muito cedo para o jantar, então um salgadinho iria servir. Precisava colocar algo no meu estômago, era imprescindível que estivesse sóbria pra ser eficiente caso quisesse organizar algumas coisas para a festa de gala. Subi a escada devagar e caminhei pelo corredor, assim que cheguei ao meu quarto vi quem eu estava tentando evitar.
— Vai virar recorrente você invadir meu quarto? — Revirei os olhos e larguei o pacote de salgadinho em cima da minha mesa de cabeceira, junto a garrafa de chá, que também tinha trazido comigo.
— Depende, vou precisar caçar você dentro de casa? — levantou da poltrona e veio em direção ao meio do quarto.
— Eu estava na piscina com as minhas irmãs, não se deu ao trabalho de ir até o lado de fora?
— Não imaginei que estaria lá… — O moreno deu de ombros. — Precisamos conversar… Eu já pedi para o Filippo encomendar os convites, contratei a mesma agência de decoração de sempre e… — ele pareceu pensar — queria ver qual tipo de buffet quer servir.
— Você já fez mais do que eu, parabéns. — Sentei em minha cama e me ajeitei entre meus travesseiros. — Papai gosta de carne de cordeiro, sabe disso.
— Nada cru, nada com molho de tomate e muito menos com azeitonas. — disse em tom de obviedade. — Sei de tudo isso.
— A empresa que cuidava da entrega de bebidas vacilou ano passado, vamos ter que escolher outra.
— Disso você entende… — Ele se apoiou na ponta do colchão para me olhar atentamente e me mantive impassível.
— O que isso quer dizer? — Arqueei uma sobrancelha.
— Que você é dona de uma boate. É isso que quer dizer.
— Verei o que posso fazer. — Abri meu livro para enfim ficar em paz.
— Até que trabalhamos bem juntos. — Baixei o livro apenas o suficiente para olhar para a cara dele de ironia, então ele se mexeu até a porta e a cruzou, mas não antes de falar: — Bela imagem… — A porta fechou e uni as sobrancelhas sem entender nada, porém não fazia questão de entender, então voltei a minha leitura.
[...]
Assim que cheguei na boate na segunda passada, entrei em contato com o nosso fornecedor de bebidas, falei com ele e encomendei tudo que seria necessário para a festa, mas ele não tinha o whisky preferido do meu pai. Sabia que era difícil encontrar, então teria que ir até uma loja especializada para comprar algumas garrafas. Não muitas, já que meu pai não divide o whisky dele com ninguém, a não ser com seu único filho homem: .
Revirei os olhos só de pensar no idiota.
Estava tudo caminhando bem na última semana, todos os membros da famiglia estariam presentes na festa de gala, como em todos os anos, afinal, era a maior festa que dávamos, era o momento de Otelo brilhar e impor o seu poder e lugar dentro da cosa nostra. Ele adorava o dia do aniversário, era tudo sobre ele e não havia nada melhor para o meu pai do que ser o centro das atenções.
Vincenzo entrou em meu escritório, já que a porta estava aberta e colocou um drink em cima da minha mesa, franzi o cenho, pois não era o meu martini de sempre.
— Acho que vai gostar…
— Se você está dizendo… — Sorri pegando a taça e dei um gole, maldito, ele estava certo, era doce e ao mesmo tempo refrescante. — O que é?
— Cosmopolitan, sei que não gosta muito dos americanos, mas temos que admitir que eles sabem fazer um bom drink.
— Em alguma coisa eles tinham que ser bons. — Dei de ombros empinando o nariz e voltei aos meus papeis.
— Você deveria descer e curtir um pouco…
— Não tenho tempo para isso, Vince, além da boate para administrar, tenho uma festa para organizar.
— Não tinha que organizá-la com seu irmão?
— Sim, mas…
— Ele está lá embaixo curtindo enquanto você trabalha. — Vincenzo me cortou fazendo uma expressão de bom moço enquanto ia em direção à porta de costas.
— Como todos os dias na última semana… — Bufei ao me encostar na cadeira.
— Por que não aceita a proposta dele de uma vez?
— De maneira nenhuma… — disse irritada. — Daqui a pouco ele cansa dessa idiotice.
— Se você quiser se ver livre dele, é só ceder dessa vez… — Torci os lábios ao olhar para Vince, deixando claro que aquilo não iria acontecer. Ele deixou a sala e eu apenas ri da audácia do meu amigo, enquanto pegava meu celular e abria o aplicativo de mensagens.
Você poderia achar outra boate para se divertir.
Idiota da familia: Assim que parar de ser orgulhosa.
Sei cuidar do que é meu, obrigada.
Idiota da família: Tenho minhas dúvidas.
Filho da puta, às vezes a vontade de cometer assassinato era maior do que o medo do meu pai me matar por ter acabado com o prossimo. Ouvi barulho na porta e olhei achando que era o Vincenzo, porém eram dois homens que nunca tinha visto na vida e eu franzi o cenho levantando da cadeira.
— Senhores, aqui é área restrita a funcionários. — Entrei em alerta quando o de cabelos grisalhos trancou a porta, baixei os olhos e vi o que estava de capuz girar facas em suas mãos. — Quem são vocês?
— Senhorita Perroni, viemos em paz… — O ruivo sorriu de forma demoníaca antes de vir para cima de mim.
Chutei a cadeira em direção a ele e dei um salto para trás, olhei ao redor estudando minhas saídas, porém o outro veio com as facas em minha direção, desviei das tentativas de me acertar, apoiei-me na mesa e o chutei. O outro me pegou pelos braços, me deitando na mesa, dei um impulso com as pernas e dei uma cambalhota, acertando no meio do peito do de cabelos vermelhos, que bateu na parede e caiu no chão.
— A garotinha sabe lutar…
— Estou notando… — disse ele, levantando-se.
Olhei para trás e para frente, minha respiração já estava ofegante, fazia meses que não treinava, achava que não precisaria mais estar em forma para um combate corpo a corpo. Maldita ideia de que uma arma faria o trabalho que meu corpo não conseguiria mais… A arma! Peguei a pistola encaixada embaixo da mesa e apontei para o que estava atrás de mim, conseguia ver o outro pelo espelho na parede, engoli em seco, eu estava em desvantagem, cansada e quem eu queria enganar? Nunca consegui atirar em ninguém.
Meu celular vibrou em cima da mesa e assim que olhei de soslaio, o ruivo veio para cima de mim, brigamos pela arma até que apertei o gatilho, mas o disparo acertou apenas o teto. Dei uma cabeçada nele, assim que vi o outro se aproximar com aquelas facas pelo espelho. Saí por baixo dos braços do que tentava me segurar enquanto ainda estava tonto, o outro veio em minha direção, enfiei a arma na minha cintura e lutei pela minha vida, eu não tinha muito o que fazer, sabia que não seria capaz de matar alguém. No entanto, eu poderia acertar outros lugares que não fossem mortais, peguei a arma da minha cintura, mas não consegui atirar a tempo.
— Ah! — gritei ao receber um corte perto da minha costela, a arma voou da minha mão e coloquei a palma no ferimento, senti o sangue escorrer. — Merda… — sussurrei.
— Se prometer ficar quietinha, vai ser rápido, docinho. — O ruivo de cabelos compridos sorriu enquanto caminhava até mim.
— ? — Ouvi batidas na porta e arregalei os olhos agradecendo a seja lá que santo que resolveu me poupar.
— Socorro! — berrei.
Os dois vieram para cima e lutei com o resto de energia que tinha enquanto escutava a porta quase sendo colocada abaixo, não sabia quem tinha falado meu nome, eu estava desnorteada, cansada e o homem de capuz me acertou mais 3 vezes, duas nos braços e uma na coxa quando tentei chutá-lo. Finalmente a porta foi arrombada e consegui ver , ele entrou com a arma em punho, deu dois tiros no ruivo como se não fosse nada, aquilo me fez ficar petrificada. Ele começou a lutar com o encapuzado, porém senti que desmaiaria e acreditava que isso tinha feito perder o foco ao olhar para mim e o outro homem conseguiu fugir.
Meu corpo estava mole e meus olhos queriam fechar, apenas me entreguei à fraqueza, mas não senti o chão e sim o corpo de me amparando. Pisquei devagar, olhei para cima e vi os olhos negros me encarando preocupados, sua mão acariciou minha bochecha e eu o abracei.
— Você está segura agora.
— Obrigada… — sussurrei antes de apagar.
Capítulo 6
Perroni
Não obter resposta de depois de uma provocação era a mesma probabilidade de chover canivete.
Mandei mais uma mensagem dizendo: Não conseguiu cuidar nem do seu hamster aos 12 anos. Segui sem resposta, tinha algo errado. Avisei meus soldados que iria subir para falar com , e que se eu não desse sinal verde em 10 minutos, eles subissem. Quando cheguei no corredor, não vi os seguranças que deveriam estar antes da escada conferindo quem sobe para o escritório. Caminhei a passos mais rápidos do que gostaria, bati na porta e ao ouvir ela gritando socorro um turbilhão de pensamentos atingiu minha mente.
Tentei abrir a porta e ela estava trancada, meu sangue ferveu e comecei a tentar derrubar a porta batendo com o ombro. Sem sucesso, fui para trás e chutei com toda a minha força, assim que a vi abrir, peguei a arma do meu coldre enquanto entrava na sala e nem pensei duas vezes; dei dois tiros no homem que estava do lado esquerdo, que caiu morto, vi se apavorar e só de ver aquele terror no rosto dela me quebrou em pedaços. Tentei estudar minhas alternativas, mas eu não podia atirar no que estava encapuzado, apesar da minha mira ser muito boa, ele estava muito perto de , não arriscaria desse jeito.
Fui para cima dele e lutamos corpo a corpo, mas estava difícil, ele estava com arma branca, eu tentava tirar ele de perto de , porém ele parecia entender o que eu estava tentando fazer e sempre recuava. Em um momento que desviei da faca, vi ela ficar branca, seus lábios estavam perdendo a cor e seu corpo parecia perder o equilíbrio. Vê-la daquele jeito me preocupou e foi com a minha distração que o canalha fugiu. Corri até ela e a peguei antes que fosse de encontro ao chão.
Passei a mão pela sua bochecha, estava gelada, o que me deixou ainda mais preocupado, o que eu não esperava era que ela me abraçasse e agradecesse. Aquilo me deixou sem ação, no entanto, quando ela desmaiou em meus braços a minha vontade assassina voltou, minha raiva subiu em níveis estratosféricos, o que eu queria era achar o figlio di puttana que a machucou. Vi meus homens chegarem correndo e eu continuava de joelhos, com ela desmaiada em meus braços.
— Achamos os seguranças em uma das cabines do banheiro, chefe — um dos meus soldados avisou e eu olhei para ele.
— Achem o desgraçado e tragam para mim… vivo. — Travei os dentes, irritado.
— Sim, senhor Perroni.
— Limpem isso aqui… — Indiquei com o queixo o homem morto, caído a poucos metros.
Voltei a olhar para , o corte próximo às costelas era fundo, ela estava perdendo muito sangue. Peguei ela no colo e a deitei no sofá, tirei minha gravata e pressionei no corte para estancar o sangue. Tirei meu celular do bolso e liguei para o nosso médico de emergência e ele me instruiu a ir rapidamente ao hospital. Peguei uma toalha no banheiro adjacente ao escritório de e pressionei o ferimento, coloquei ela no meu colo e a levei. Saí pela porta secreta que dava na rua lateral da boate com a ajuda dos soldados e partimos para o hospital que ficava sob a nossa jurisdição, digamos assim.
Entrei pela porta mais discreta, que sempre usávamos no hospital, afinal, era um hospital comum, apenas comandamos o local. O Doutor Andrea já nos esperava com a sala pronta e esterilizada.
— Deite-a aqui, senhor Perroni. — O médico apontou a maca, eu coloquei deitada e ele foi logo examinando-a.
— O quão grave é, doutor?
— A hemorragia foi controlada, então acredito que não tenha perfurado nenhum órgão. Vamos fazer alguns exames para averiguar melhor.
Doutor Andrea fez os exames necessários e confirmou que nenhum órgão tinha sido perfurado, apesar da quantidade de sangue, o doutor disse que ela teria desmaiado de exaustão. Ele fez os curativos necessários, inclusive deu pontos no corte da costela, além dos remédios intravenosos, ele também me deu receita para alguns remédios em comprimido para ela tomar em casa. Eu respirava aliviado que não tinha sido algo mais grave, caso contrário, meu pai surtaria.
— Assim que a bolsa de soro terminar ela receberá alta, Senhor Perroni.
— Ótimo, não vejo a hora de sair desse hospital. — Eu estava irritado, não tinha sinal de que meus homens tinham conseguido pegar o cretino e estava apagada na cama de hospital.
— Boa noite e que a senhorita Perroni se recupere bem, pode me ligar caso precise de algo mais.
— Obrigado, Andrea.
— Faço apenas meu trabalho. — Ele acenou em sinal de respeito e saiu do quarto.
Passei a mão pelo meu rosto e cabelo, inquieto, eu queria que ela tivesse me escutado. Nossa relação sempre foi difícil, eu sabia, mais por culpa minha do que dela, mas eu cuidava da segurança da famiglia e qualquer coisa que acontecia, eu me sentia culpado. Era ali, desmaiada e ferida, e eu não fui capaz de protegê-la, mesmo estando dentro da merda da boate. Eu ia encher aquele lugar de segurança, ela querendo ou não, nem que eu tivesse que cuidar dela pessoalmente 24 horas por dia, 7 dias por semana.
Não ia deixar ninguém a machucar novamente.
Cheguei próximo dela passando a mão por seu rosto, tirando alguns fios vermelhos do caminho e beijei sua testa. Eu iria caçar esse filho da puta no inferno e torturá-lo da pior maneira possível, não iria permitir que ninguém machucasse alguém da famiglia e saísse impune.
[...]
— ? — Escutei meu nome ao longe e abri meus olhos devagar, situando-me onde estava. — … — Ouvi de novo e sentei no sofá, massageando meu pescoço. Olhei para o lado e vi deitada em sua cama.
— Você está bem? — Cocei os olhos e bocejei, lembrando que eu tinha colocado ela na cama de madrugada e fiquei ali para o caso de ela acordar assustada.
— Acho que… — ela tentou sentar — ai… Minha barriga dói.
— O corte foi fundo, mas não atingiu nenhum órgão. — Olhei o celular vendo que já tinha passado da hora do almoço e levantei, indo até a beira da cama. — Posso trazer algo para você?
— Eu… — Vi ela respirar fundo e acariciar as próprias mãos. — Parece que você tinha razão…
— , não pense nisso agora… — Comecei a andar em direção à porta. — Eu vou pedir para a Marta preparar algo para você.
— … — ela me chamou e então me virei. — Eu não… consegui matá-los, eu tive a chance, mas não pude. — Respirei fundo e voltei até ela, que parecia ter lágrimas prestes a sair de seus olhos, sentei na beirada da cama.
— Você não é assim… — Acariciei seu rosto e olhei bem nos olhos verdes, que me encaravam surpresos, talvez pelo gesto de carinho, mas eu estava tão abalado quanto ela com tudo que aconteceu. — Deixe esse trabalho sujo para mim — disse sorrindo de leve, fazendo menção ao que ela já dissera muitas vezes para mim.
— Eu nunca quis dizer que… — Ela se exaltou e fez careta, segurando a barriga, então voltou a me olhar. — Desculpa.
— Não precisa, estou feliz que esteja bem, mas quase perdi você, . Deve voltar a treinar. — Dei um beijo no topo da cabeça dela e levantei do colchão. — Quando se recuperar, começamos, tudo bem?
— Você vai me treinar? — ela falou espantada e eu apenas continuei andando até a porta.
— Sim, serei sua sombra a partir de agora até aceitar os malditos soldados na boate.
— Pode colocar quantos quiser… — olhei para ela surpreso de que ela aceitou tão rapidamente —, mas aceito o seu treinamento. — Sorri e pisquei o olho direito para ela, concordando antes de sair do quarto e soltar o ar com força.
Desci a escada com um peso em meu peito, tudo pelo que passamos, todas as brigas, provocações, não valia a pena. Meu pai podia estar certo quanto a manter as garotas longe dessa parte da máfia, mas elas já eram adultas e sabiam de tudo. era a mais próxima da parte ilegal que poderia ser descoberta pela polícia, isso não a incomodava, mas a violência sim.
Não posso mantê-la longe de mim por mais nem um dia, quase a perdi e eu me culparia para o resto da vida por não ter sido capaz de protegê-la ou ter sido alguém que ela não queria ter por perto. Tudo que fiz foi tentar proteger ela de mim, do monstro que me tornei desde que entrei para a Vincere, porém, talvez eu estivesse enganado.
Não era de mim que ela precisava ser protegida, era eu que precisava proteger ela do mundo.
Continuei caminhando em direção à cozinha. Naquela hora todos já deviam ter almoçado, esperava que meu pai não estivesse presente. Quando ele não estava, cada um almoçava em uma hora diferente, e ninguém percebia a falta de ninguém, era com isso que eu estava contando.
— Cadê a ? — Virei e vi Giulia parada no meio do hall de entrada.
— Está na cama…
— O que foi aquilo ontem? — Arregalei os olhos e a puxei para um canto.
— Fale baixo…
— Eu vi as câmeras, ! — Giu ralhou comigo e eu bem que merecia, não avisei ninguém do que aconteceu, parecia conveniente todos estarem dormindo na hora que chegamos. — saiu desacordada e ensanguentada da boate pela porta secreta.
— Nada passa despercebido por você, hein, maninha? — Ela deu de ombros. — Giu, deixe isso entre nós.
— Como assim, ?! — Ela se exaltou.
— Nosso pai está com os nervos à flor da pele por causa dos negócios e dos Delantera terem ressurgido — expliquei. — Se ele descobrir, fará uma besteira. — Vi ela bufar e cruzar os braços. — Mas pode me ajudar a descobrir quem foi…
— Dimmelo, lo ucciderò… (Me diga, vou matá-lo) — disse, com o ódio nítido em seus olhos.
— Não vai sujar suas mãos. — Franzi o cenho e ela colocou as mãos na cintura.
— Só você pode?
— Giu! — falei repreendendo-a e minha irmã revirou os olhos. — Só invada as câmeras de segurança públicas e tente achá-lo, ele estava de capuz, saiu da boate por volta da 1:34. Nas câmeras da boate não conseguimos ver o rosto…
— Acharei esse verme nem que seja a última coisa que eu faça!
Alonso Perroni
saiu do quarto me deixando completamente perdida. O que tinha acontecido para ele mudar da água para o vinho em um dia?
Eu franzi o cenho pensando na quantidade de vezes em que se comportou de forma carinhosa comigo e eu podia contar nos dedos de uma só mão. Respirei fundo e olhei meus machucados, curativos nos braços e quando levantei a blusa que eu estava, vi o curativo maior na costela. Percebi também que estava com a mesma calcinha e o mesmo sutiã do dia anterior, então talvez tenha sido a trocar minha roupa.
Joguei a cabeça nos travesseiros e encarei o teto, eu ainda tentava entender se eu ter sido atacada tinha causado tanto efeito assim nele, eu era realmente importante pra ele? Quando foi que… ele disse que quase me perdeu? Aquilo estava fora de cogitação, estava drogado e não sabia o que falava. Eu sabia que éramos famiglia, mas ele ficar tão mexido assim era bem esquisito.
Céus, já podia sentir a dor de cabeça de tanto tentar desmistificar esse enigma. Levei a mão até a testa e me afundei nos travesseiros. Eu tinha acordado em um mundo paralelo onde meu meio-irmão não era um completo idiota; sorte a minha, eu acho.
Marta trouxe meu almoço, e eu comi tudo rapidamente pois estava faminta. Aproveitei para pegar meu celular e estava planejando com Giovanna sobre ela cuidar da Fascino pra mim por alguns dias, quando escutei batidas na porta. Assim que liberei a entrada, Giulia passou pelo arco da porta e correu até mim para me abraçar, sorri e a envolvi com meus braços, correspondendo ao seu carinho.
— Fiquei com tanto medo, sorella… — falou abafado, com o rosto enfiado em meu ombro.
— Tá tudo bem, Giu, eu estou bem. — Ela se afastou, enxugando as lágrimas. — chegou na hora certa.
— Ele pediu para não comentar com ninguém… — ela falou como se fosse absurdo.
— Entendo o pensamento dele. — Dei de ombros. — Papai ficaria louco, Giu, acabaria metendo os pés pelas mãos.
— Mio Dio, vocês pensam igual!
— Estamos longe disso, mas nessa concordo com ele. — Soltei o ar com força. — Ele disse que preciso voltar a treinar…
— Agora sou eu que vou ter que concordar. — Minha irmã levantou e colocou as mãos na cintura. — Você poderia ter morrido, !
— Eu sei…
— Assim que se recuperar, chame Clara e volte aos treinos.
— disse que me treinaria.
— E você aceitou?! — Ela arregalou os olhos como se eu tivesse dito o maior dos absurdos.
Tudo bem, eu e não éramos as duas pessoas que mais se davam bem nesse mundo, porém, acho que conseguiríamos treinar juntos.
— Sim, foi o mais bem treinado de nós, acho que ele não vai ser tão mau assim… — Dei de ombros.
— Sabe que não é por isso que estou surpresa…
Batidas na porta puderam ser ouvidas e logo a abriu, perguntando se poderia entrar, eu assenti. Ele me deu alguns remédios e um copo d'água, tomei todos e agradeci. Ele estava cuidando de mim naquele momento como ele não cuidou durante todos esses anos, acreditava que ele tinha olhado por mim muitas vezes, porém, mais como segurança da família do que como um irmão. Não nos considerávamos assim, nenhum laço fraternal foi criado e esse também foi um dos motivos que nos manteve afastados.
Éramos dois estranhos que moravam sob o mesmo teto, sempre foi assim, e eu não sabia se estava pronta para uma mudança tão drástica.
[...]
— Mais forte! — Soquei o saco de areia mais uma vez. — Vamos, , já faz 2 semanas que estamos treinando…
— E eu estou pior do que o primeiro dia? — Franzi a sobrancelha enquanto desferi alguns socos.
— Não, mas pode melhorar.
— Ah, , vai se foder… — Revirei os olhos e tentei acertar um soco nele, mas ele me pegou pelo braço e, em segundos, eu estava no chão com de joelhos ao lado da minha cintura, ainda segurando meu braço.
Minha respiração estava ofegante pelo susto de ter sido girada no ar e mal ter visto o que ele fez para eu parar no chão.
— Que boquinha suja... — Ele arqueou uma sobrancelha e sorriu travesso. — Vou ter que te ensinar bons modos depois de adulta?
— Os treinos são para você apanhar, ? — perguntei, rindo de forma ácida.
— Você acha mesmo que consegue? — Ele riu, debochado.
— Quer testar a sorte? — Levantei ambas as sobrancelhas para dar ênfase.
Como a guarda dele estava baixa, dobrei meu joelho e o empurrei, fazendo ele cair no chão, deitado, subi em cima dele e então agarrei seu pescoço, forçando-o contra o tatame, ele deu um risinho convencido e me girou, colocando-me no chão novamente. Seu joelho prendia meu braço direito, assim como sua mão segurava meu pulso. Seus olhos focados nos meus, com aquele sorrisinho convencido nos lábios, que sempre me irritava, porém percebi que naquele momento, foi mais motivacional do que irritante; chegava até a ser…
— Então, quer desistir? — perguntou, cortando o silêncio e me trazendo de volta à situação.
— Só por cima do meu cadáver.
Ele realmente levou a sério minha provocação e desferiu um soco na direção do meu rosto, porém, consegui me defender com o antebraço esquerdo, levando seu pulso até minha mão direita, prendendo-o. Impulsionei meu quadril para cima ao mesmo tempo que empurrei ele com toda a minha força pelo cotovelo, conseguindo tirá-lo de cima de mim. Voltei a estar em cima dele, dessa vez, segurando seu braço. Seu olhar em mim estava diferente, eu podia sentir os olhos negros fixos sobre mim, mas o que passava pela cabeça de era indecifrável.
Eu não podia deixar de notar que fazia alguns dias que o idiota estava despertando em mim algo além da raiva rotineira, o que era uma grande novidade, entretanto, ainda não sabia definir bem o que era. Talvez a ligação que devíamos ter criado há anos estivesse sendo construída agora, pedrinha por pedrinha, o que me deixava um pouco receosa era se viria uma tempestade para derrubá-las.
— Estou orgulhoso… — disse, cheio de si.
— Idiota… — Saí de cima dele e me joguei no tatame, respirando fundo, encarando o teto da academia que nós tínhamos na mansão.
— Preciso ir… — ele disse, ainda deitado do mesmo jeito que eu.
— Não estou te segurando, Perroni…
— Não mais... — falou com um sorrisinho provocativo no rosto, levantou e me olhou de cima. — Amanhã às 8 horas. — Ele seguiu para a porta.
— Sim, treinador — respondi com ironia.
— Gosto quando me obedece. — A porta se fechou e eu levantei meu tronco, ficando sentada, com a boca entreaberta.
— Filho da…
[...]
Como em todos os anos, eu e minhas irmãs temos o dia todo de esquenta e arrumações para a festa do papai. A gente se tranca no nosso Spa, faz várias máscaras no rosto, hidratação nos cabelos, chamamos algumas manicures para fazer nossas unhas e, finalmente, maquiadoras para nos deixar prontas para o grande baile. Tínhamos feito nossas unhas antes do almoço e, no momento, já fazíamos uma máscara de argila rosa para acalmar a pele. Todas nós bebíamos champanhe e conversávamos sobre banalidades. Era tão bom ficar com as minhas irmãs, eu sentia falta das festas do pijama que fazíamos há alguns anos, na adolescência.
Nossos assuntos favoritos eram os meninos da escola, as séries que a gente assistia juntas ou então sobre como seria nossa vida adulta e, pelo que conversávamos naquela época, posso dizer que nada foi como imaginávamos. Além das últimas 3 semanas terem sido conturbadas com os preparativos finais da festa de aniversário de Otelo, eu e estávamos treinando juntos e por incrível que pareça, a gente ainda não tinha se matado nesse meio tempo.
Quando contei sobre tudo para Beatrice e Luna, elas ficaram irritadas e disseram que eu devia engolir meu orgulho e concordar com . Isso foi antes de eu dizer que tinha aceitado os seguranças na boate e que ele me treinaria, depois daí foi só ladeira abaixo. Elas ficaram chocadas por eu ter aceitado tudo de bom grado, o que não era tão verdade assim, apenas entendi que ele estava certo, por mais que eu nunca fosse admitir isso em voz alta.
— Faz semanas que estão treinando e ninguém saiu de casa ainda? — Beatrice perguntou, impressionada.
— Estamos fazendo progresso… — Giu comentou.
— Animador… — disse eu, rolando os olhos. — Não faça tempestade em copo d'água.
— Quem? Eu? — Giulia colocou a mão no peito como se estivesse ultrajada. — Imagina, , super comum você e o se dando bem.
— Meninas, não exagerem… — Luna começou, então sorri confiante, achando que a minha irmã sensata iria ficar do meu lado. Ledo engano. — Nos primeiros 6 meses que chegou, foi ótimo.
— Nossa, Lu, obrigada. — Elas começaram a rir e eu levantei, indo em direção à porta.
— Ei, estamos brincando, onde vai? — A ruiva ainda ria ao me perguntar.
— Colocar meu vestido e terminar de me arrumar, é o melhor que faço. — Saí do banheiro bufando.
Coloquei o vestido rosé que tinha escolhido para a ocasião, ele tinha um corpete estruturado tomara que caia, algumas pedrarias enfeitavam meu busto e o tecido fluido descia até meus pés, com uma fenda profunda do lado esquerdo. Coloquei um scarpin nude e a maquiadora fez uma maquiagem leve, iluminada e um delineado preto nas pálpebras, além de um batom vermelho vinho belíssimo. Olhei meu reflexo e gostei do que vi. Eu estava bem bonita com meu cabelo solto, que descia até o meio das minhas costas, havia colocado apenas uma presilha do lado direito.
Saí do meu quarto e vi que a porta do nosso banheiro estava aberta e o andar inteiro estava silencioso, talvez eu tivesse demorado demais. Ouvi a música ambiente e o som das conversas no andar de baixo, caminhei firme sobre meus saltos e desci a escada notando a casa cheia. Um garçom parou na minha frente assim que atingi o último degrau, oferecendo-me champanhe, peguei uma das taças e agradeci. Dei um gole no líquido e fechei os olhos, sentindo cada sensação que as bolhas causavam em minha língua, depois garganta e por fim um certo frescor que acentuava em minha boca.
Caminhei cumprimentando os nossos capitães que não trabalhavam diretamente com o alto posto da família, ou seja: papai, , eu e minhas irmãs. Sorri para os associados, esses não fazem parte direta da máfia, mas ajudam de alguma forma, seja com sua influência ou poder na sociedade. Vi Giulia perto da porta de vidro que ia para o jardim, soltei minha taça já vazia na bandeja de um garçom que passou por mim e fui caminhando até ela, no entanto, um homem bem bonito me parou no caminho.
— Senhorita .
— Olá… — Sorri simpática.
— Meu nome é Simon, é um prazer conhecê-la. — Ele pegou minha mão, depositando um beijo no dorso.
— Prazer, Simon.
— Pensei em… — Ele colocou a mão em minha cintura para falar próximo do meu ouvido devido à música alta. — Conversarmos enquanto bebemos algo…
Não tive tempo nem de pensar o que responder, senti uma mão possessiva do outro lado da minha cintura e aquela presença imponente que eu conhecia. Simon recuou dois passos e olhou mais para cima, então virei meu rosto para o lado e vi o idiota.
— …
— Achei que era a hora para a nossa dança… — Ele sorriu de forma sedutora. Como nunca reparei nisso? Ou será que essa foi a primeira vez? Eu estou perdendo a cabeça, sinceramente. — Com licença, Simon. — Ele me puxou até o meio da pista de dança e juntou nossos corpos. — Faz alguns anos que você evita a dança dos herdeiros.
— Por que será…
— Não se matem… — Beatrice falou ao passar ao nosso lado dançando com meu pai, que sorriu feliz por nos ver próximos sem estarmos discutindo.
Respirei fundo e aceitei que não teria escapatória naquele ano. me afastou segurando minha mão e seus olhos me mediram de baixo para cima, aquele mesmo olhar novamente. Voltei rodopiando, enrolando seu braço em minha cintura até meu quadril encostar em sua perna. Virei o rosto para a esquerda, levando meus olhos até os dele e engoli em seco, que merda estava acontecendo ali? Senti um arrepio em meu corpo assim que ele me girou de novo e senti a ponta de seus dedos nas minhas costas desnudas quando ficamos cara a cara.
— Parece estar aproveitando. — sorriu e senti um de seus dedos descer devagar pela minha pele, até onde a parte de trás do meu vestido permitia. Seus lábios grudaram em meu ouvido e ele ousou dizer as seguintes palavras: — Está muito bonita, cariño. Arrisco a dizer que está mais sexy do que quando te vi em meio às bolhas na banheira. — Meus olhos arregalaram na mesma proporção que meu corpo esquentou de um jeito que eu não esperava.
Ele se afastou, dando-me a visão dos olhos negros mais uma vez e então soltei o ar, que eu nem reparei ter prendido, sem deixar nosso contato visual, contudo, fiz uma besteira de forma involuntária; olhei para boca dele e umedeci meus lábios. Senti sua mão apertar minha cintura e aquilo me deixou ainda mais desorientada.
Eu só podia estar ficando louca!
— Preciso… falar com a Lu. — Saí quase correndo dos braços de .
Cheguei às portas da varanda completamente desorientada, olhei para os lados sentindo minha respiração descompassada, eu sentia minhas pernas perdendo as forças. Olhei para o lado de fora e vi Nero fumando um cigarro próximo à piscina, tudo que eu precisava naquele momento. Dei passos cuidadosos para meu salto não fincar na grama e eu cair, pedi um cigarro ao capitão de confiança de meu pai e sorri agradecendo.
— Caralho… — murmurei assim que me vi sozinha no jardim. Coloquei a mão em meu peito e meu coração batia rápido. Na minha cabeça não tinha explicação para o que tinha acabado de acontecer.
Não quando tudo que eu deveria sentir por era o mais puro ódio.
Capítulo 7
Algumas semanas atrás
Perroni
Giulia tinha conseguido finalmente identificar o maldito que esfaqueou , eu estava com o sangue fervilhando para achar esse puto e acabar com a raça dele. No entanto, não seria tão fácil assim, eu sabia, o verme deveria estar se escondendo depois do que aconteceu na Fascino, mas eu era muito paciente quando precisava, mandei os meus melhores soldados para caçá-lo e tinha certeza que o achariam.
Levantei da cama e coloquei minha roupa de treino, era o primeiro dia que eu e estaríamos juntos, no mesmo ambiente, trabalhando em um só objetivo: manter ela segura. Desci a escada, caminhei até a cozinha e a vi tomando café sentada na banqueta da ilha.
— Bom dia.
— Bom dia…
Passei pela bancada e me servi de café, peguei um prato com ovos e bacon que já estavam me esperando, não sabia se ela tinha pedido para a Marta preparar ou se já fazia parte da percepção da nossa cozinheira. Comi em pé mesmo, em um silêncio ensurdecedor, mexia no celular dela freneticamente. Eu sabia que faziam algumas semanas que ela estava longe da boate e deveria ser bem frustrante, a Fascino era a vida dela.
— Está pronta? — perguntei e os olhos verdes me encararam por segundos, antes de ela assentir e levantar. Minha boca entreabriu quando ela caminhou para fora da cozinha, usava um short de malha curto e um top. — Eu vou para o inferno… — Soltei o ar com força e murchei os ombros antes de fazer o mesmo caminho que ela até nossa academia. — Vamos começar com o básico, acredito que se lembra. — Ela me olhou com os braços cruzados e uma cara de tédio, como se eu estivesse falando besteiras.
Avancei para cima dela sem aviso, desferindo um soco, ela desviou e armou a guarda. Pelo menos os reflexos estavam bons, mas isso eu já sabia, caso contrário, ela teria saído pior do que saiu da luta com aqueles dois. Ela me olhou com atenção, os pulsos na altura do rosto, entretanto, a base das pernas não estava muito bem montada, então dei uma rasteira e ela caiu no chão, soltando um gemido de dor.
— Achei que sabia tudo… — Parei ao lado dela, olhando-a de cima. olhou para mim com raiva, apoiou-se nas mãos, girou o corpo e enfiou as duas pernas entre as minhas canelas, derrubando-me também, fazendo eu soltar uma lufada de ar. — Ok, não está tão ruim assim…
— Não duvide da minha capacidade, . — Ela levantou do chão e me olhou de cima, tive que virar o rosto para vê-la, já que caí com o peito para baixo. — Quando quiser treinar sério, avisa. — Ela saiu da academia pisando duro.
Eu não estava tentando menosprezar a sabedoria ou o treino dela, mas entendia o motivo de ela entender como se eu estivesse a provocando, nossa relação era assim afinal. Respirei fundo e levantei, teria que melhorar nossa comunicação e convivência, prometi a mim mesmo que isso iria mudar e seríamos próximos depois do ataque, mesmo que em troca eu recebesse apenas o desprezo e nojo dela por perceber que eu era um monstro.
[...]
Nossos treinos melhoraram com o passar do tempo, eu comecei a perguntar a ela o que estava em falta na sua luta corpo a corpo e isso ajudou na nossa comunicação, apesar das farpas ainda existirem. Eu estava de acordo em manter uma distância segura na nossa relação, mesmo que esse acordo fosse feito de forma silenciosa.
— ! De novo? — me deu a mão para eu levantar, eu estava especialmente aéreo naquele dia. Meus soldados tinham conseguido uma pista e estavam perseguindo o desgraçado que invadiu a Fascino, eu estava o tempo todo olhando para o meu celular em cima da mesa de canto, esperando notícia. — Você está desligado hoje… Aconteceu alguma coisa?
Ela caminhou até o frigobar e pegou uma garrafa de água. Meus olhos acompanharam toda sua movimentação, mas senti minha garganta secar de repente, quando ela deu um gole e uma gota escapou pelo canto de seus lábios, descendo pelo maxilar, escorregando pelo pescoço e sumindo pelo vale dos seios.
Ma che cazzo! (Que porra é essa!)
Desviei os olhos para qualquer lugar e os fechei, me repreendendo mentalmente. Eu precisava parar de olhar para ela dessa forma, uma péssima ideia ter falado em treiná-la, eu era um filho da puta.
Merda, merda, merda!
Eu estava duro, caralho!
— Ouviu o que eu disse? — Ela virou para me encarar e eu virei de costas o mais rápido que pude. — O que deu em você, hein?
— Nada, só lembrei que preciso encontrar um dos nossos associados em 1 hora. — Peguei meu celular e saí dali o mais rápido possível. Subi a escada, entrei no meu quarto e tranquei a porta. Suspirei aliviado, quer dizer… nem tanto assim, olhei para baixo e vi minha ereção. — Porra.
Dias se passaram e não tinha uma manhã em que eu não desejasse . O que eu estava fazendo? Passei anos conseguindo evitar a tentação do diabo, porém, parecia que tinha caído exatamente onde ele queria.
Entrei na academia mais cedo naquele dia, não consegui dormir direito depois de ter que matar um dos Delantera na madrugada. Coloquei minhas luvas de boxe e comecei a bater no boneco que estava ali apenas para isso, ser saco de pancadas.
O trabalho na Vincere era difícil, algumas coisas me consumiam e eu tinha que guardar para mim, era complicado. Parecia confortável matar a sangue frio na frente dos meus soldados, eu era o grande herói deles, todos queriam aprender as minhas técnicas de tortura e fazer de forma ágil tudo aquilo. A verdade era que fingir que nada me afligia era fácil, os sentimentos humanos eram fáceis de mascarar, pelo menos para mim. Tirei a camiseta, eu já estava pingando de suor, sequei um pouco meu rosto e a joguei no canto da sala.
Respirei fundo e continuei socando e chutando o pobre boneco, toda a minha raiva estava sendo descontada ali. Minha boca estava seca, eu já sentia que iria tossir a qualquer momento pela garganta estar do mesmo jeito. Virei para ir até o frigobar e vi parada, como se tivesse visto um fantasma, no arco da porta, o que me fez frear meus pés e olhá-la surpreso. Vi os olhos verdes descerem pelas minhas contas até meu short e subirem até os meus olhos, e quando ela percebeu ter sido pega por mim, suas bochechas ganharam tons de rosa.
Eu estava mesmo vendo aquilo?
— Bom dia… — Ela entrou e foi em direção à mesa, ficando de costas para mim.
Eu sorri em descrença indo em direção ao frigobar, ela sentia o mesmo que eu? Não, me odiava, não conseguíamos estar no mesmo ambiente sem discutir ou se alfinetar, era impossível. Pensar com a cabeça de baixo estava me fazendo ver coisas, porém, aquilo me colocou uma pulga atrás da orelha. Contudo, até chegar a festa de aniversário do meu pai, eu achava que tinha tudo sob controle; achava…
Eu aproveitava o início da festa do meu pai degustando minha dose dupla de whisky, quando vi descendo a escada principal da nossa casa. Virei o líquido âmbar e assisti ela pegar o champanhe, ela caminhou pelo salão cumprimentando aqueles abutres que a olhavam como um pedaço de carne, aquilo estava me irritando. Olhei para o barman e pedi outra dose de whisky, engolindo tudo assim que ele a colocou no balcão.
Voltei a olhar para o salão e foi nesse momento que vi um grupo de homens comendo-a com os olhos enquanto ela cruzava a pista de dança. Um deles olhou para ela, ajeitou-se e traçou seu caminho para alcançá-la, como se colocasse um alvo sobre sua cabeça. Fiquei ali parado, apenas vendo até onde aquilo ia dar, quando vi Simon, um dos empresários com uma lista longa o suficiente de assédios para ficar preso até seu último dia de vida, colocar a mão na cintura dela e ficar perto demais, minha mão fechou em punho. Dei alguns passos até eles e coloquei a mão na cintura de . Seria bom ele entender que se aproximar da filha do Don estava fora de cogitação.
— …
— Achei que era a hora para a nossa dança… — Sorri para ela de uma forma que nem eu mesmo esperava. — Com licença, Simon. — Puxei pela cintura e a levei para o mais longe possível do homem. — Fazem alguns anos que você evita a dança dos primogênitos.
— Por que será…
— Não se matem… — Beatrice piscou o olho direito ao passar por nós enquanto dançava com meu pai.
Voltei a encarar a indomável arredia e seus olhos não negavam que estava confusa com meu comportamento, mas apenas estava tentando ser um bom protetor e mantendo aqueles homens nojentos longe dela. Ao mesmo tempo, me corroía saber que acabei trazendo ela para perto de mim, eu não era tão diferente assim deles, se não fosse pior, pelo menos aqueles engomadinhos não sujavam as mãos de sangue. Afastei ela de mim segurando sua mão, apenas para poder admirá-la por completo, ela estava sexy para um caralho. Voltamos a unir nossos corpos frente a frente, fazia mesmo alguns anos que não ficávamos tão próximos de uma forma amigável.
— Parece estar aproveitando. — Eu nem mesmo tinha me dado conta de que eu acariciava as costas de , com cautela, como se sentisse cada toque de um jeito único, cada deslize da minha digital em sua pele e vi o quanto ela estava arrepiada. Aquilo me fez sorrir de forma involuntária, olhei o colo dela, que ostentava um colar com uma safira entre suas clavículas, o que me fez lembrar dela na porra daquela banheira, coberta com nada além de bolhas. — Está muito bonita, cariño. — Eu podia ter parado aí, mas não, meu cérebro parecia ter dado defeito ou era a quantidade de álcool que eu tinha ingerido. — Arrisco a dizer que está mais sexy do que quando te vi em meio às bolhas na banheira.
Seus olhos arregalaram e encararam os meus com fixação, e por um breve momento senti a tensão entre nós ficar palpável, minha mão na cintura dela a puxou para mais perto como num reflexo. E quando seus olhos desceram para a minha boca, os meus foram direto para a dela, que estava sendo molhada pela ponta de sua língua.
Filha da puta, ela sabia o que estava fazendo comigo?
— Preciso falar com a Lu… — Ela saiu quase correndo dos meus braços, então pigarreei arrumando meu smoking e olhei para os lados, parecendo alguém suspeito e eu nem sabia exatamente do que.
— Presta atenção em mim antes que pareça ainda mais culpado, . — Fui pego de surpresa por Giulia me puxando para dançar.
— Do que está falando?
— Corta a enrolação, eu sei, ok? — Engoli em seco e meu coração disparou pensando no que exatamente ela sabia. — Exatamente isso que você está pensando. — Preferi ficar em silêncio naquele momento, se fosse a respeito de , contava com a descrição da minha irmã. — estava em apuros e você foi ser o benfeitor. Tá querendo ganhar pontos depois de tudo?
— O que posso dizer? — Dei de ombros pensando no quão aliviado eu estava. — Estou querendo manter a paz.
— Tenta convencer outro, . — Ela revirou os olhos. — Vamos ao que interessa, dois homens e uma mulher tentaram burlar a segurança e entrar na festa. — Franzi o cenho. — Exatamente, estranho e ousado. Eles estão cada dia mais tomando decisões para desestabilizar o nosso pai, .
— Eles não vão querer Otelo descontrolado, maninha.
— Guillermo conhece o nosso pai, , talvez seja exatamente isso que ele queira.
Se Giulia estivesse certa, o plano dele nos deixava ainda mais no escuro, tínhamos que descobrir o que esse homem estava planejando antes do nosso pai se irritar e tomar medidas drásticas.
Capítulo 8
Perroni
— Eu quero ele vivo, Filippo! — gritei no telefone. — Hai capito? (Você entendeu?)
— Si, .
Desliguei o telefone e bati a mão na mesa do meu quarto, fazia duas semanas que esse miserável conseguia sempre dar um jeito de escapar. Coloquei dez homens atrás dele dessa vez, era hoje que eu ia ter o desgraçado nas minhas mãos e iria fazer ele desejar ter morrido com o tiro que o amigo dele levou para encarar o diabo ao invés de mim.
Estava impaciente esperando que Filippo me desse retorno. Duas horas e nada, desci a escada e fui até a frente da mansão. Acendi um cigarro e ali fiquei, esperando que um dos carros entrasse pelos portões. Eu só não esperava que o carro que eu menos queria entrasse por eles. Ela estacionou o carro e desceu com sua bolsa no ombro.
— Estamos com poucos seguranças ou resolveu mudar de cargo? — me perguntou fazendo piada, assim que se aproximou da entrada.
— Apenas fumando… — Não queria que ela notasse meu descontrole devido a situação. — E você? Pouco trabalho na boate?
— Estou com um pouco de dor de cabeça, resolvi vir para casa. — Ela entrou e eu respirei aliviado, ela não precisava encontrar em sua própria casa o homem que tentou matá-la.
Mais alguns minutos depois e três carros entraram em uma velocidade acima do necessário, eram eles. Joguei o segundo cigarro, pela metade, no chão e pisei. Olhei para frente e Filippo e Nero traziam uma pessoa com o capuz vermelho, que normalmente utilizávamos, na cabeça. Sorri satisfeito que a missão tinha finalmente sido cumprida, assenti com a cabeça para meu primo, que entendeu de primeira. Eles entraram pela porta lateral que ficava mais próxima da entrada para o porão.
Menos chance de encontrar se ela ainda estivesse no andar de baixo.
Abri a porta da frente e entrei, passei pelo hall e dei longos passos pelo corredor extenso, minha mão chegava a formigar de ansiedade. Queria ver a cara desse vagabundo e acabar com ele bem devagar, de um jeito bem cruel e, pela primeira vez, eu iria me divertir bastante com isso. Vi através dos vidros Nero abrir a porta que dava para a lateral do jardim no fim do corredor, eu estava indo em direção a eles para descer a escada para o porão.
— Aí, está você…
Quando ouvi a voz dela, o meu corpo inteiro se arrepiou e Filippo arregalou os olhos, eu apenas apontei com o queixo o porão e virei de supetão. Vi os olhos verdes me encarando e logo o vinco nas sobrancelhas, eu deveria estar exalando nervosismo.
— …
— O que houve? — Ela esticou o pescoço para olhar além de mim, então entrei em nervosismo, refiz meus passos rapidamente e a puxei para dentro da primeira porta que vi aberta, causando um susto nela, vi pelos seus olhos arregalados. — O que… está fazendo, ? — disse devagar, pausadamente, soltando a respiração pela boca.
Eu engoli em seco, nossos corpos estavam perto demais, acabei encurralando ela na parede da despensa sem nem mesmo perceber. Desci meu olhar para o seu peito, que subia e descia pesadamente, subi meus olhos e seu rosto estava levemente avermelhado, engoli a saliva que inundou a minha boca e soltei o ar devagar. Assisti seus olhos piscarem lentamente, os verdes foram diretamente para os meus olhos, deveriam estar buscando algum indício do que eu planejava, porém nem eu mesmo sabia.
Estava atento a cada aspecto de sua face, ainda tentava me situar e entender o que seus lábios entreabertos significavam naquele momento. Seu corpo permaneceu imóvel, rente à parede, minha mão ainda queimava na cintura dela e a outra estava espalmada na parede perto do seu rosto; cacete.
— Eu… — Tentei começar alguma frase, mas fiquei hipnotizado pelas esmeraldas brilhantes que me olhavam com uma nuance de segundas intenções.
E de repente, eu me vi encurtando cada vez mais a nossa distância. Eu estava mesmo fazendo aquilo? O que diabos me deu na cabeça? O mais chocante era ela estar tão presa naquela atmosfera quanto eu, ela não desviou os olhos dos meus e muito menos me afastou, seus olhos desceram para minha boca e aquilo me parecia a permissão que eu precisava.
Eu estava em pânico, mas ao mesmo tempo uma sensação gostosa invadia meu estômago, respirei fundo e falhado. Senti a ponta do nariz dela encostar no meu, seus olhos fecharam, apenas esperando meus lábios cobrirem os dela. Por mais que centímetros nos separassem, eu ainda estava incerto, mas foi quando sua mão agarrou minha nuca que nossos lábios finalmente se encontraram.
[...]
— Quando o papai volta, ? — Luna perguntou enquanto comia sua salada de frutas, tirando-me dos meus pensamentos embaralhados.
— Não sei, maninha, talvez semana que vem. — Olhei para a cadeira vazia à minha frente por alguns segundos e então, baixei a cabeça e segui comendo.
Não via desde o dia anterior, depois do nosso encontro na despensa – se é que posso chamar assim –, ela sumiu. Não jantou com a gente e não apareceu para o café da manhã. Eu não tinha conseguido nem sequer torturar o cara, aquele beijo me deixou completamente fora do ar. Onde eu estava com a cabeça quando beijei… Eu a beijei? Mas eu bem lembro que não fiz sozinho, ela me correspondeu, bem até demais. Porra, onde fui me meter?
Preciso aprender a manter meu pau dentro das calças e a minha cabeça pensante no lugar.
Precisava seguir meu dia como planejado, então fui tratar dos meus assuntos, bati um papo com o nosso mais novo convidado e tentei arrancar informações dele, mas nada saía daquela boca, o filho da puta era teimoso. Pela parte da tarde tive uma reunião com alguns dos nossos associados, as informações eram sempre bem pagas, além de que, a proteção que eles tinham da Vincere não era de graça. Segui meu roteiro de programação do dia, e enquanto estava no carro indo para casa, recebi a ligação do meu pai.
Ele precisava que eu o encontrasse na França, não sabia exatamente o que era, mas apenas me deu coordenadas para eu chegar lá em 4 dias. Eu não tinha a mínima escolha, Otelo não pedia, ele ordenava e quem tinha juízo obedecia, até mesmo seu próprio filho.
Com todo o dinheiro que eu recolhi daquela semana, fui até a confeitaria de Lu. Nós fazíamos a lavagem de dinheiro dos passaportes na confeitaria, era prático, fácil e não chamava atenção. Entrei pela porta da frente, enquanto meus soldados tiravam os malotes pelo beco do fundo e entravam por uma porta reservada.
— ! — Luna falou animada e saiu de trás do balcão. — O que posso oferecer hoje?
— O meu favorito, Lu.
— Um pedaço de bolo de morango com coco saindo. — Ela voltou para o seu lugar e sorriu enquanto cortava o bolo, que já estava na metade, e servia em um prato de louça verde claro. — Leo, abra a porta — avisou seu empregado, que era também de extrema confiança da famiglia, já que seu pai também fazia parte da Vincere. — Aqui está. — Luna colocou o prato na minha frente, junto com um copo de água.
— Obrigado, maninha. — Pisquei para ela, que sorriu e voltou ao seu posto. Comi devagar, apreciando aquele bolo que só Luna sabia fazer. Era impressionante como o dom dela para a confeitaria não era apenas fachada, ela realmente amava o que fazia.
Olhei o relógio e decidi ir para casa me arrumar, iria até a Fascino, eu sabia que não precisava mais ir, afinal, enchi o lugar de soldados, porém, eu queria, queria ver sua reação quando me visse depois de ontem. Por mais que tudo isso parecesse errado demais, a minha impulsividade não me deixaria tomar nenhuma decisão racional e eu meio que não queria ser racional, queria descobrir o que merda estava acontecendo e se era só comigo, já que ela me puxou para aquele beijo. Contudo, eu não estava conseguindo controlar a porra do meu corpo perto dela, então, na verdade, a reação que eu mais estava preocupado era a minha.
Alonso Perroni
— Não, já disse. Não temos vagas… Sinto muito. — Ouvi Giovanna ser incisiva, parecia que o homem estava insistindo há algum tempo.
— Por favor, senhorita, eu estou há semanas procurando um emprego, eu preciso muito. — Eu conseguia sentir o desespero na voz dele. — Faço qualquer coisa…
Dei alguns passos me aproximando do balcão e olhei para o homem. Por mais que tivesse uma aparência jovem, era perceptível que já passava dos 30. Os olhos negros, o cabelo loiro e uma cicatriz perto do pescoço, estava arrumado na medida do possível. Dava para ver o seu esforço em parecer apresentável para conseguir o emprego que fosse.
— Qual seu nome? — perguntei, sem nem mesmo me apresentar, Giovanna virou para mim com o cenho franzido.
— Juan, Juan Alvarez, senhorita.
— Meu nome é Alonso, sou a dona da boate.
— Eu estava explicando para ele que não temos vagas de emprego, . — Coppola deu de ombros, torcendo os lábios, então eu respirei fundo e soltei o ar com força.
— Quer lavar os copos no bar?
— Sim, qualquer coisa!
— Giovanna, mostre onde fica o vestiário e dê um uniforme para ele.
— Sim, agora mesmo. — Foi a última coisa que ouvi antes de subir para minha sala.
Giovana podia ter me olhado esquisito, como se não aprovasse o que eu tinha feito, porém, era só um homem em busca de emprego. Os donos das boates de Madri não contratam qualquer um, eles têm um preconceito nítido no jeito que te olham, isso para não dizer te julgam. Eu não ligava, eu estava apenas ajudando alguém, uma esperança para uma pessoa que parecia tão desesperada apenas por qualquer tipo de emprego. Ele deveria estar realmente precisando, nunca sabemos o que os outros estão passando.
Eu amava ficar no meu escritório sozinha, revendo planilhas, organizando o financeiro, decidindo as atrações do mês ou apenas relaxando, porém, depois daquele maldito beijo, era uma tortura ficar sozinha com meus pensamentos. Eu joguei meu corpo para trás na cadeira, olhei para o teto e respirei fundo. Tinha algum jeito de esquecer que aquilo tinha acontecido? Talvez se eu bebesse um pouco. Levantei, passei a mão pela minha saia para alisar o tecido e peguei meu celular antes de deixar o escritório, comecei a descer a escada e a música ficava cada vez mais alta conforme eu ia me aproximando do térreo.
A boate já estava cheia, olhei feliz para o meu empreendimento que batalhei tanto para transformar no que era. Plena quinta-feira e estávamos com a casa cheia, aquilo tudo era fruto do meu trabalho e da minha equipe, sem falar das estratégias de marketing e publicidade. Caminhei até o balcão e pedi para Vincenzo o drink que ele tinha me servido da outra vez, eu tinha gostado e era algo diferente, talvez até mais forte, e isso era importante na situação mental em que me encontrava.
— E o novo rapaz?
— Ele é na dele, mas está fazendo tudo que eu mando…
— Ótimo.
— Mas você — Pelegrini se aproximou para falar próximo ao meu ouvido — não acha um pouco perigoso contratar um estranho?
— Claro que não, Vince, temos vários dos nossos aqui, ninguém ousaria tanto. — Sorri para ele a fim de tranquilizá-lo.
— Se você está dizendo… — Ele deu de ombros e foi atender outro cliente. Dei um gole em meu drink e logo o vi se aproximar novamente. — Falando em dos nossos, seu irmão está aí.
— O quê? — Franzi o cenho e olhei para trás, procurando onde estava. Meus olhos correram as mesas vip, até ver sentado com nosso primo Filippo e o capitão de confiança, Nero. Fechei meu semblante, girei meu corpo para o balcão e aos olhos atentos de Vincenzo, virei o restante do drink e pigarreei.
— Veja bem o que vai fazer, .
— Confia em mim, Vince… — Levantei e caminhei de forma lenta, passei pelo segurança, que me cumprimentou com um meneio de cabeça, entrei na ala vip e parei bem em frente à mesa baixa, de braços cruzados. Os olhos negros de subiram lentamente pelo meu corpo, fazendo arder em cada pedaço meu em que ele colocava aqueles malditos olhos, mordi o interior do meu lábio inferior com certa força e então seus olhos chegaram até os meus, encarando-me com um sorrisinho libertino nos lábios. Idiota. — O que está fazendo aqui?
— Bebendo? — Ele levantou o copo antes de dar um gole em seu whisky e eu arqueei uma sobrancelha. — Qual é, , estou no meu momento de lazer.
— Você pode fazer isso em outra boate, tem milhares pela cidade. — Ele levantou e deu alguns passos, com uma calma irritante, em minha direção. Revirei os olhos e falei: — Achei que já tínhamos resolvido esse problema…
Ele se aproximou ainda mais e sussurrou em meu ouvido:
— Qual dos problemas você fala, cariño? — Senti minha garganta ficar apertada até para respirar, fechei os olhos e puxei o ar pelo nariz, sentindo o perfume intenso que ele usava; que péssima ideia.
Meu corpo automaticamente correspondeu àquilo de uma forma que não deveria, eu precisava ficar longe dele.
Empurrei Perroni mantendo meu indicador no peito dele e ditei:
— Não seja idiota, e que seja a última vez que aparece aqui. — Virei as costas e saí dali. Pedi mais um drink para Vincenzo e dessa vez beberia sozinha, na paz do meu escritório, de onde eu nem deveria ter saído.
[...]
Mais uma noite de insônia, eu teria um colapso. Na manhã seguinte eu faria uma reunião com todos os meus funcionários e precisava estar descansada. Rolei na cama mais uma vez e bufei, joguei o cobertor para o lado e levantei, iria até a cozinha comer alguma coisa, talvez de barriga cheia eu conseguisse dormir. Coloquei meu robe e desci a escada em silêncio, apenas com a lanterna do meu celular, passei pelo hall de entrada e quando cheguei à segunda sala, levei um susto, deixando meu celular cair no chão e a lanterna iluminar Giulia.
— Céus, Giu, o que faz no escuro?! — Respirei fundo e peguei meu celular do chão, enquanto ela acendia o abajur próximo à janela.
— Acabei de me despedir do , só vim pegar um energético antes de voltar para a minha sala. — Ela deu alguns passos em direção ao salão principal da casa, onde ficava a escada.
— Despedir? — Uni as sobrancelhas e olhei confusa para ela, que virou para mim e fez uma expressão de obviedade.
— Sim, ele viajou, foi encontrar o papai.
— Ele não me falou na… — Parei de falar no mesmo instante que Giu me olhou com os olhos semicerrados, desconfiada da frase que eu comecei sem nem mesmo me dar conta do quanto aquilo não fazia sentido. nunca me comunicou nada, nem muito menos dei a mínima para onde ele ia ou quando voltava; por que parecia me incomodar esse fato agora? — Você sabe… nossos treinos. — Dei de ombros, explicando, e ela meneou a cabeça antes de sumir no escuro, virei e continuei o meu caminho para a cozinha.
Que desculpa idiota que eu fui inventar, faz quase 1 semana que não treinamos já que estou evitando estar perto dele, mas Giulia não deve ter percebido isso, pelo menos era o que eu esperava.
Depois de comer uma tigela de cereal, vi o sol nascer através das minhas janelas enquanto lia um livro e depois finalmente consegui pregar os olhos por maravilhosas 3 horas, levantei com um humor horrível, tomei um banho gelado para me acordar por completo; eu gostava, era bom para a pele. Coloquei um vestido tubinho preto, um blazer por cima e meu scarpin preto, queria estar elegante para colocar ordem naquela boate.
Desci para o andar de baixo e minhas irmãs já estavam sentadas almoçando, larguei minha bolsa no aparador do hall de entrada e tomei meu lugar à mesa. Conversamos sobre besteiras do dia a dia e do quanto Giu era maluca: ela não tinha dormido ainda, estava almoçando para finalmente ter o sono que merecia depois de uma madrugada inteira trabalhando. Beatrice me pediu carona, o carro dela estava na oficina, pois, pela terceira vez apenas esse ano, ela tinha batido o carro, ela se irritava no trânsito e acabava batendo em alguém, metade da nossa fortuna ia ser para pagar as loucuras da minha irmã ruiva.
— O cara se negou a sair da minha frente, ele estava esperando alguém sair da vaga para estacionar — Bea explicava a batida de carro enquanto eu dirigia. — O sinal já estava aberto e eu estava atrasada para… um compromisso.
— Eu amo seus compromissos secretos, Beatrice. — Torci os lábios, já fazia alguns meses que eu percebi que ela estava escondendo algo, ela jurava que eu ou a Giu não tínhamos notado. Luna não prestava muito atenção nessas coisas, então não duvidava dela, nem mesmo pensava sobre as saídas escondidas da ruiva de madrugada.
— Não são secretos… — Ela disfarçou.
— ‘Hm… então com quem era esse compromisso? — Olhei para Bea assim que parei no sinal vermelho.
— Era… Era com… — Ela ficando nervosa era novidade, então claramente tinha um homem envolvido na história. — Ah, !
— Eu sei que você fode, Beatrice, pode compartilhar com quem… — Revirei os olhos fazendo pouco caso daquilo.
— Ele é casado, ok?! — soltou em um rompante assim que acelerei o carro novamente.
— Meu deus, Beatrice! — Olhei para ela, abismada.
— Olhos na estrada, sorellina.
— Você ficou louca?! — gritei com ela e voltei minha atenção à avenida. — Você sabe que a máfia não perdoa traição, me diga que ele não faz parte da Vincere, Beatrice…
— Não, ele é um civil comum, ok? — Respirei aliviada, mas mesmo assim, ainda preocupada.
— Você não nasceu para ser amante de ninguém, Bea, não faça isso com você mesma — aconselhei, esperando que ela me ouvisse, mas tinha certeza que ela faria o que bem entendesse. Ninguém controlava Beatrice.
— Eu sei de todo o discursinho que você vai me dar, nem tente. — Avistei a frente do laboratório e sabia que não tinha tempo, ou capacidade, de tentar fazê-la mudar de ideia, então apenas me mantive calada. — Eu sei me cuidar, tá bom?
— Sei que sabe, Beatrice — estacionei o carro e olhei para ela com sinceridade e todo o amor que sentia pela minha irmã —, mas deveria deixar a gente entrar no seu mundo.
— Vocês são o meu mundo, sorella. — Ela sorriu e me abraçou. — Não se preocupe comigo, você já cria problemas demais nessa sua cabecinha. — Ela se afastou e sorriu, eu soltei o ar pelo nariz e ri sem humor. — Ti amo.
— Anch’io ti amo.
Ela saiu do carro e vi ela entrar no laboratório antes de seguir meu caminho até a boate, entrei pela porta vermelha que foi aberta por um dos meus seguranças. Agradeci sorrindo e segui meu caminho até o balcão, onde estava Vincenzo e o novato limpando o bar.
— Boa tarde.
— … — Vincenzo piscou o olho direito para mim.
— Todos já chegaram? — Ele me respondeu com um meneio de cabeça. — Ótimo, vou esperar vocês sentada ali. Leva um martini?
— Claro.
Sentei à uma das mesas e abri minha agenda, anotei algumas tarefas do fim de semana enquanto respondia alguns e-mails no notebook. Eu tinha contratado uma empresa para o marketing e publicidade da boate, e eles estavam fazendo um ótimo trabalho, então eu sempre mandava e-mail com a programação, promoções, horários fixos e mudanças que aconteciam de semana para semana.
Vi a taça ser colocada na minha frente e agradeci:
— Obrigada, Vince. — Peguei a taça e fui dar um gole, quando olhei para o lado, percebi que não era Pelegrini. — Oh, desculpe, sempre é o Vincenzo que traz meus drinks.
— Sem problemas, senhorita .
— Pode me chamar só de , Juan. — Sorri para ele e larguei a minha taça em cima da mesa novamente. — Pode chamar todos para a reunião? Preciso fazer algumas coisas fora da boate hoje.
— Claro, vou chamá-los.
A reunião demorou em torno de 1 hora e meia, repassei todos os afazeres de cada um dentro da Fascino naquela semana devido ao evento de Halloween. Iríamos fazer a festa temática como em todos os anos, aquela comemoração já fazia parte do nosso calendário. Era um ótimo dia, fazíamos promoções para as pessoas que fossem fantasiadas e isso rendia ótimas fotos para o nosso marketing. Encerrei a reunião apresentando o novato a todos da staff, que receberam ele com animação. Eu gostava dos meus funcionários, todo mundo era muito unido e trabalhavam duro para dar o seu melhor.
Todos levantaram e foram assumindo seus postos, eu permaneci sentada e chamei:
— Novato… — Juan olhou para mim. — Segunda traga seus documentos, ok?
— Sim, senh… . Obrigado — ele me agradeceu de forma sincera e eu sorri. Não me custava nada ajudar alguém.
— Vincenzo! — falei mais alto, já que ele já estava mais longe, e levantei a taça vazia, ele apenas sorriu e bateu continência.
Eu tinha um longo fim de tarde, precisava procurar algumas decorações para a boate e encontrar a Lu na confeitaria, ela estava tendo problemas com o financeiro e me pediu ajuda. Avisei à Giovanna que não ficaria na Fascino essa noite, tinha que seguir meu caminho para as lojas de decoração do centro da cidade, aquilo me tomaria tempo. Olhei as horas no celular e vi que estava tarde, juntei minhas coisas rapidamente, coloquei tudo dentro da bolsa e levantei para ir embora, dando de cara com Vincenzo.
— E o drink, ?
— Não vai dar tempo. — Segurei o maxilar dele e dei um selinho em seus lábios, ele arregalou os olhos em surpresa. — Dê pra Giovanna, ou sei lá, beba você… — Saí caminhando rapidamente pelo salão da boate e vi o novato olhando para mim de forma interrogativa. Merda, tinha esquecido dele ali, olhei para trás e fiz uma careta para Pelegrini, que me olhava apreensivo. — Desculpa… — Apenas mexi os lábios para ele entender e o vi virar o martini de uma vez como se aquilo afogasse sua repreensão, me causando uma risada antes de cruzar a porta de saída.
Capítulo 9
Perroni
Otelo nunca colocou a família acima do trabalho. Não que ele tivesse sido um pai ruim, criou as meninas muito bem e fez da minha adolescência a mais traumática possível. Não que fosse culpa dele, crescer como o primogênito da máfia não era assim a melhor das experiências. Entretanto, eu estava ali presenciando que, quando era importante para a Vincere, ele não só colocava a família em segundo lugar, como passava por cima dela. Eu estava incrédulo que ele tinha me feito pegar um avião para me apresentar à filha de um dos nossos associados em Paris.
Puta que pariu; isso tinha ido longe demais até para o meu pai.
Eu nunca tinha ficado tão desconfortável na minha vida, aquele jantar parecia que tinha me transportado para 1940. Antigamente as máfias faziam acordo através de casamentos arranjados, mas isso já não era uma realidade há alguns anos. Tentei ser compreensível com meu pai, afinal, eu sabia da preocupação dele com a minha idade, filhos, herdeiros da família… para ele eu tinha que ter um filho homem com urgência. Depois do jantar eu saí para fumar um cigarro na varanda da casa do nosso associado. Eu tentava manter a calma diante da situação ridícula que meu pai me fez passar e eu esperava de verdade que aquilo não fosse real.
— Desculpe pelo meu pai… — Ouvi a voz feminina, que mal ouvi durante o jantar, e me virei.
— Teria que pedir desculpas pelo meu também.
— Eles estão velhos, pode ser só preocupação. — Ela se aproximou e se encostou no guarda corpo ao meu lado, um pouco distante. — Você aceitou isso?
— Descobri quando cheguei aqui.
— Então você não sabe que voltarei com vocês para Madri. — Olhei para ela incrédulo de que o plano do meu pai poderia ficar ainda mais sem noção. — Pela sua cara, eu estou certa.
— Desculpe, Carolyn… — Soltei a fumaça no ar e suspirei olhando para o horizonte. — Isso é informação demais para assimilar.
— Sinto muito.
— Eu também. — Voltei o olhar para ela com uma certa piedade, pois eu até poderia dizer não e brigar por isso, ela talvez não tivesse escolha.
Eu e Otelo nos despedimos dos anfitriões e entramos no carro com o nosso motorista, um dos seguranças diretor do meu pai. Assim que chegamos no hotel, ele me chamou para ir até o bar, eu já sabia que aquela conversa aconteceria em algum momento, porém, queria evitá-la. Sentamos em uma mesa distante das pessoas, uma mais reservada, e o garçom nos serviu duas doses de whisky. Acendi um cigarro e meu pai começou:
— Ela é uma ótima garota, .
— Que ótimo para ela, não é, pai? — disse, irônico.
— Não se faça de desentendido. — A voz grossa saiu austera. — Ela voltará com a gente para Madri, quero que vocês dois se conheçam melhor e, com sorte, o casamento sai ainda esse ano. — Ele tomou um gole do whisky, calmamente.
— Você está louco… — Soltei uma risada descrente.
— Olhe como fala comigo, moleque — apontou o dedo pra mim —, esqueceu que não sou só seu pai?
Engoli em seco pois eu realmente tinha passado dos limites, mesmo assim, continuei, aquilo estava fora de controle. Meu estômago embrulhou com tamanho desrespeito a mim com essa loucura de casamento arranjado.
— Vai pagar algum dote pela moça? — falei, irritado. — O que o pai dela ofereceu a você?
— Escuta aqui, … — seu tom saiu mais alto do que ele gostaria, eu sabia, conheci meu pai. Então ele baixou a voz e entre dentes continuou: — O seu papel é procriar e dar um futuro para a Vincere. — Ele bateu o copo meda com força. — Sabia disso desde o momento que entrou na minha casa, então aja como a porra do primogênito e herdeiro dessa família!
— Eu tenho irmãs, elas podem casar e ter filhos…
— Sabe que você é o homem da família e é o prossimo! Não me tire do sério, — Otelo disse olhando para mim com fúria em seus olhos.
— Talvez tenha chegado a hora de mudar como as coisas funcionam, Otelo. — Apaguei o cigarro no cinzeiro para me levantar, mas antes que pudesse fazer qualquer movimento para me dirigir ao meu quarto, fui segurado pelo braço de forma agressiva e meu pai me fez ficar estático onde estava.
— Não brinque comigo, , acaso esqueceu com quem está falando? — Meu corpo simplesmente esqueceu como se respirava. Fazia anos que não via esse Otelo, esse homem que me treinou à exaustão, que me fez matar o primeiro homem aos 16 anos e que me manteve em rédea curta para saber bem onde seria o meu lugar. — Se fui capaz de te dar a vida, também sou capaz de tirá-la. Não brinque com a sorte.
[...]
Três dias, três dias longe de casa foram o suficiente para me desestabilizar com essa loucura que o meu pai inventou. Às vezes eu pensava que era melhor pegar uma mulher e pagar para ela engravidar como ele fez com as mães das garotas, contudo, não achava isso uma coisa legal de se fazer com uma criança. Que pelo menos fosse que nem com a minha mãe, um casamento, um amor que durou alguns anos e que ficou pesado demais para a minha mãe aguentar.
Fui direto até o meu quarto, coloquei um short e uma regata, desci para a academia, eu precisava descontar a minha raiva em alguma coisa.
O que eu não esperava era encontrar um ser pequeno batendo no boneco de borracha. Luna parecia estar empenhada no que fazia, eu não sabia que ela ainda treinava.
— Sua base pode ser melhor — falei, ainda encostado no pilar próximo da porta.
— Credo, ! — A morena puxou o ar para recuperar o fôlego e eu ri do susto que ela levou. — Não estava viajando?
Fechei a cara e disse:
— Resolvi encurtar a viagem. — Caminhei até a mesa de canto e larguei meu celular. — Vamos lá, vamos melhorar essa base, maninha.
Ajudei Luna a treinar, o que me ajudou um pouco a esquecer a loucura que foi essa viagem, depois tomei um bom banho e desci para o jantar. Só estávamos eu, Beatrice e Luna, a Giulia e sempre chegavam tarde dos seus afazeres. Bom, não era como se Giu não estivesse fora de casa, mas estava trabalhando. Quando terminei de comer, fui até o deck perto da piscina para fumar um cigarro.
Eu não conseguia manter minha cabeça o tempo inteiro distraída com outras coisas, então sempre acabava pensando no que fazer para impedir que meu pai colocasse esse casamento arranjado em prática. Não sabia ao certo se ele seria capaz de me obrigar a isso, porém, sabia que ele poderia caso quisesse, e isso me preocupava. Aquele Otelo que eu vi em Paris era o mesmo que me obrigou a começar a torturar homens aos 17, e fazia tempo demais que eu não o via, tempo suficiente para esquecer da existência desse lado do meu pai.
— Céus, Otelo…
— Ainda pensando sobre Paris. — Olhei para trás e vi Filippo.
— Apenas com muitas coisas na cabeça, acabei pensando alto. — Vi ele se aproximar e também acender um cigarro.
— As coisas estão se complicando, .
— Como assim? — Olhei para ele com o cenho franzido.
— Enquanto estávamos fora, os Delantera atacaram uma das nossas cargas ao leste.
— Você tá de sacanagem! — Amassei o cigarro no cinzeiro antes de levantar e caminhar para dentro de casa. Fui até a biblioteca e comecei a mexer nos documentos do computador, segundos depois, Filippo entrou. — Qual foi a carga, Filippo? — Vi o pomo de adão do meu capitão subir e descer.
— Os produtos que a Beatrice precisa para o mês.
— Puta que pariu! — Joguei meu corpo na cadeira, abismado com aquilo. — Por que ninguém ligou para mim ou para o Otelo?
— Aconteceu ontem, Nero tentou entrar em contato com a gente, mas acho que estávamos voando.
— E meu pai?
— Sem sinal. — Respirei fundo e apertei meus olhos.
— Caralho! — Joguei a primeira coisa que estava à minha frente e o cinzeiro de vidro se espatifou em mil pedaços. — Fale com o capitão Mattia e peça para ele mandar seus homens para investigar isso. Barcelona está mais próximo do local.
— Sim, .
Era inacreditável, tínhamos perdido o carregamento do mês e não tinha ninguém aqui para ordenar uma resolução por causa dos caprichos do meu pai. Eu precisava espairecer, então liguei para Ettore e Austin, os seguranças pessoais de , e eles disseram que ela ainda estava na boate. Que se fodesse, se ela achasse ruim ver a minha cara por lá, a gente brigaria, sem problemas.
Troquei de roupa e pedi para que Nero fosse de motorista dessa vez, entraria sozinho na Fascino, beberia, veria algumas mulheres dançando, talvez comesse alguma para relaxar e voltaria para casa.
Entrei na boate cumprimentando os seguranças e fui até o balcão, pedi um drink para Vincenzo, que me atendeu solícito como sempre, mas aquela carinha de bom moço nunca me conquistou. Virei para o salão e vi Isabela dançando no pole dance, a mulher era boa no que fazia. Aproveitei o show enquanto bebia minha terceira dose de whisky, era disso que eu precisava: uma distração dos meus problemas. Nada se resolveria tão cedo, a investigação poderia levar dias, e ter esperança de achar a carga roubada era pura perda de tempo.
Virei mais uma vez pedindo que Pelegrini completasse meu copo, foi quando vi um sujeito que eu não conhecia recolhendo os copos do balcão. Uni as sobrancelhas e pensei que talvez eu não pudesse me lembrar dele, então só tinha um jeito de descobrir. Perguntei para o barman, que me contou a história. Era um homem que apareceu ali pedindo emprego, achou uma boa ideia colocar um desconhecido dentro da porra da boate onde ela já foi quase morta uma vez.
— Onde ela está, Vince?
— Lá em cima… — ele disse meio incerto se deveria falar, virei a dose que ele tinha acabado de servir.
— Obrigado. — Levantei, desviei das pessoas andando naquela multidão, cumprimentei os dois soldados que ficavam no corredor que levava até a escada, e subi cada degrau pisando duro.
Onde diabos estava com a cabeça? Talvez não tenha sido o suficiente dois homens terem conseguido driblar a segurança e quase matá-la. Aquilo estava me dando nos nervos, ou ela era muito ingênua ou gostava de se colocar em perigo de graça! Abri a porta e vi os olhos verdes saltarem com o barulho, fechei a porta e a encarei irritado.
— O que tá acontecendo?! — Ela levantou no ímpeto.
— Você tá acontecendo, . — Soltei o ar com força apontando para ela.
— Espera, você não tava viajando? — Ela me olhou confusa.
— Esperou eu sair do país para aceitar um estranho para trabalhar na sua boate? — falei, irritado.
— Ah, não, . — Ela revirou os olhos e olhou para o lado, em puro descaso. — Sério?
— Seríssimo, . Você quase foi morta… morta! — berrei. — Além de transar com o barman, colocou um estranho aqui dentro?
— O que o Vincenzo tem a ver com isso? — Ela cruzou os braços.
— Não gosto dele. — Ela revirou os olhos mais uma vez e eu dei passos até ela. — Pare de fazer pouco caso da sua segurança!
— Pouco caso? — Ela riu sem humor. — Você encheu minha boate de soldados, !
— Você concordou.
— Não quer dizer que esteja confortável com isso. — Ela bufou e eu trinquei os dentes.
— Demita aquele homem.
— Não vou demitir porra nenhuma, — ela falou alto, com raiva e exalando o poder que tinha. — Quem manda nessa boate sou eu — disse baixo, com confiança.
— E quem manda na segurança da famiglia sou eu! — Dei mais alguns passos e a olhei de cima, enquanto ela levantava o máximo de sua cabeça para me alcançar. Nem com os saltos que usava ficávamos da mesma altura, porém ainda perto o suficiente para que eu sentisse o hálito quente dela em meu rosto.
Ela empurrou a cadeira com o pé e puxou a famosa pistola que meu pai tinha dado para ela de aniversário de 18 anos de baixo da mesa, colocando-a em cima da madeira.
— Estou segura, obrigada — disse, ainda me enfrentando; perto demais.
— Não foi capaz de atirar, do que adianta? — ditei as palavras bem próximo do seu rosto.
Eu estava irritado com tudo que aconteceu. A viagem, o casamento, o jeito que meu pai me tratou em Paris, a carga roubada… como se já não bastasse tudo isso, precisava continuar se colocando em perigo e me deixando ainda mais puto.
— Agora eu farei se for preciso.
— Você me tira do sério… — Respirei fundo e fechei os olhos, espalmando a mesa dela.
— É simples. Não se meta no que não deve.
— Ande com essa merda na cintura — ordenei e dei as costas para ela para me retirar dali, meu corpo estava esquentando de um jeito que eu não queria externalizar.
— Não está falando com seus soldados, .
— Não, não estou, ! — Voltei apressado, dessa vez nossos narizes quase encostaram quando cheguei até ela, que arregalou os olhos pela aproximação repentina. Minha voz soou baixa, rouca, quase como se não quisesse sair por conta da raiva que me possuía, agarrei seu braço e a balancei levemente. — Seria mais fácil com eles, meus soldados me obedecem, ao contrário de você.
Nossos olhos estavam conectados por uma raiva insana, que irradiava dos nossos corpos de maneira palpável, sem deixar que nenhum de nós dois cedesse nem vacilasse, fosse mentalmente ou fisicamente. Eu consegui ver nos olhos verdes esmeraldas que algo cada vez mais crescia dentro dela, algo que nenhuma de nós tinha a explicação naquele momento.
— Merda! — ela xingou alto, irritada, se rendendo a aquilo que nós dois estávamos lutando contra.
Senti seus lábios macios nos meus logo em seguida e levei um susto com o ato, porém, desci minhas mãos arrastadas até chegar em sua cintura. Seu corpo estava tão quente quanto o meu, e acreditava ser pelo mesmo motivo. O beijo de estava diferente do da primeira vez, ela reivindicou minha boca com posse. Sua língua deslizava pela minha de uma forma obscena, ao mesmo tempo que ela sugava meu lábio inferior antes de deixar uma mordida provocante. Sua mão me puxou pela nuca com vontade, como se implorasse para eu tocá-la mais, e eu não consegui pensar em mais nada.
Peguei-a pelas coxas e a coloquei em cima da mesa, derrubando o que tinha pela frente. Agarrei sua cintura e a trouxe para a ponta da mesa, colando minha pélvis na dela; puta merda. Acreditava nunca ter ficado tão duro do jeito que eu estava ali, com ela. gemeu abafado quando mordi seu pescoço, minha sanidade já tinha ido para o inferno, que era para onde cada vez mais eu e ela estávamos com passagem garantida.
Meu celular tocou alto no meu bolso.
— Porra! — xinguei, amaldiçoando até a quinta geração do filho da puta que estava me ligando naquele momento. Que pena que a geração nesse caso era a minha, e eu tinha a certeza que já estava amaldiçoado pelo jeito que me olhava. Atendi o telefone e falei: — Oi, pai. — Ela cobriu a boca com as duas mãos e arregalou os olhos, consegui ler a mente dela apenas pelos olhos verdes escuros, ainda exalando tesão e luxúria: nós estávamos fodidos.
[...]
Cheguei em casa com um misto de sensações, eu nem sequer sabia direito o que estava sentindo, minha mente estava embaralhada com tantas perguntas sem respostas. Meu pai tinha ligado para perguntar da carga roubada, claro, para isso ele engoliria o orgulho e falaria com seu primogênito, mesmo depois do terrorismo que ele fez comigo em Paris. Otelo disse que estaria de volta no dia seguinte, pareceu bem irritado, claro, até eu fiquei. Isso foi um golpe e tanto nos nossos negócios, eu queria acabar com os Delantera, de novo. Sentei na poltrona que ficava na varanda do meu quarto, e acendi um cigarro junto ao meu bom e velho companheiro: whisky.
Por mais que eu precisasse pensar no que fazer a respeito do que aconteceu com , eu tentava empurrar essa questão para um lugar obscuro da minha mente. Respirei fundo e olhei para o céu estrelado, sentia que cada vez mais a gente estava se entregando a algo inconcebível. Era para eu ver ela como minha irmã, por que eu não conseguia? A gente se odiava, sempre garanti que ela ficasse longe o suficiente de mim para não termos nenhum laço, nunca tivemos o amor fraternal, minha relação com ela era completamente diferente da que eu tinha com as minhas meias irmãs. Contudo, não deixava de ser completamente errado, e ao mesmo tempo, eu sentia que era tão certo.
— Porra! — xinguei para o silêncio da noite que me engolia devagar.
Bebi o suficiente para apagar, acordei no dia seguinte com a maior dor de cabeça e não vamos esquecer da ressaca moral, que nem sequer poderia colocar a culpa na bebida, quase transei com a e apesar das doses que bebi no bar estava sóbrio. Levantei devagar, com os olhos ainda fechados massageando minha cabeça, que parecia pesar toneladas. Tomei um banho gelado, olhei no relógio constatando que eram quase 13 horas da tarde. Desci, passei pela mesa do almoço que já estava posta, e fui até a cozinha tomar uma aspirina, seria isso e comer muito carboidrato no almoço para curar minha ressaca. A moral nem tanto, ainda teria que olhar aqueles olhos verdes bem em frente a mim.
Voltei à sala de jantar, Beatrice e Giu já estavam sentadas à mesa conversando baixo, ou seja, fofocando sobre alguma coisa. Sentei no meu lugar e aguardei, Luna foi a primeira a aparecer e nem notei que fiquei mais ansioso à medida que os minutos passavam, ou seriam segundos? Eu estava nervoso, tinha saído da boate na noite anterior dizendo para que não esqueceria aquilo, seria impossível ignorar pela segunda vez, precisávamos fazer algo a respeito; seja lá o que fosse aquilo. Ouvi barulho de saltos e olhei para frente vendo a última pessoa que faltava naquela mesa.
— Boa tarde. — sorriu sem olhar para ninguém, estava apenas sendo simpática, era perceptível. — Não precisavam me esperar. — Ela olhou para o empregado à nossa direita e falou: — Pode servir.
— Sim, senhorita Perroni. — O único lugar onde era chamada por Perroni era debaixo daquele teto, e ele a chamar assim me fez encará-la de forma culpada. Ela percebeu em meu semblante o que eu pensava, tinha certeza disso, tanto que apenas desviou seus olhos para seu prato, parecendo tão culpada quanto eu.
Começamos a comer, eu e em absoluto silêncio, enquanto as meninas conversavam e riam vez ou outra. Elas sempre foram assim, e eu gostava da companhia delas, nunca achei ruim uma família com mais mulheres do que homens, apesar de a casa ter soldados por todos os lados. Era bom ter um ar feminino, uma aura que trazia cor e leveza para a casa, que era palco de tantas atrocidades. Eram tantas coisas erradas naquela família que eu chegava a relevar o fato de estar desejando a mulher com a qual dividia metade do sangue.
— Boa tarde, meus filhos. — Olhei para frente e arregalei os olhos.
— Papai, finalmente voltou — Giulia falou e olhou para trás, estranhando a segunda presença na sala.
olhou para mim e estranhou minha expressão, seu rosto se contraiu e ela virou para trás.
— Essa é a Carolyn, futura noiva do irmão de vocês.
Otelo sorriu confiante e eu levantei de supetão, fazendo a cadeira arrastar no chão de mármore, atraindo a atenção de todos para mim. Eu não estava acreditando que ele iria seguir com aquilo, porra! Olhei para , que me olhou sem entender uma vírgula do que estava acontecendo. Ninguém estava. Fechei as mãos em punhos e respirei fundo.
— Carolyn, me desculpe. — Olhei para a moça que, coitada, não tinha nada a ver com as loucuras de dois velhos gagas. — Pai, não vou me casar. Nem com a Carolyn, nem com ninguém.
— , já conversamos sobre isso…
— Sim, conversamos — senti meu estômago embrulhado e meu coração batendo na garganta de tanta raiva que eu sentia —, e achei que tinha deixado bem claro que não concordava com esse insulto. — Era insuportável se sentir incapaz, era assim quando você tinha que seguir ordens sem poder refutar, mas dessa vez eu não aceitaria de bom grado.
— Veja bem, , não faça cena na frente da moça. — Eu vi que meu pai tentava segurar sua raiva, ele sempre tentava ser pacífico em frente as garotas.
— Deveria ter pensado nisso antes de trazê-la. — Saí pisando duro da sala de jantar, caso não saísse, era capaz de fazer uma besteira.
Andei de um lado para o outro no deck da piscina, acendi um cigarro e passei a mão no cabelo, nervoso, enquanto tragava a fumaça. Como era possível, eu sabia, eu sentia que em algum momento a cobrança viria de uma forma mais incisiva, mas nunca imaginei nada disso. Empurrar uma mulher para mim já era demais, fiquei ainda mais preocupado em como Carolyn era pressionada pelo seu pai, de como foi fácil para ele vender a própria filha para um Don.
— … — Virei dando de cara com Beatrice andando a passos rápidos em minha direção. — O que merda tá acontecendo? Você engravidou a mulher?
— Sei fottutamente pazzo?
— Única explicação para o nosso pai querer te casar com uma completa desconhecida. — Ela foi subindo o tom de voz à medida que dizia as palavras.
— Ela é filha do Samuel Pinder, Beatrice, não seja ingênua. — Aquele homem era dono de metade de Paris, e é claro que meu pai sempre queria expandir os negócios. O que eu não achava errado, mas não no meio de uma guerra com nossos inimigos.
— Vai à merda, eu não sou ingênua, estou tentando entender o que tá rolando!
— Nosso pai é um Don e acha que a gente vive no tempo que era normal pagar um dote por uma mulher ou que casamentos eram arranjados, maninha, é isso que tá rolando!
— Ele tem quatro filhas em casa e tá fazendo isso? — A ruiva se irritou ainda mais e eu jurei que ela socaria o primeiro que cruzasse seu caminho. — Papai vai ter que se explicar…
— Não cutuca a onça com vara curta, Bee. — Dei o último trago no cigarro e joguei no chão, amassando a bituca com o pé. — Eu vou resolver isso.
Entrei em casa e perguntei para Giulia onde Otelo estava, então fui até a biblioteca, onde ela disse que ele estaria. Assim que entrei, fechei a porta e dei alguns passos até a mesa de madeira, ficando em frente ao meu pai. Ele tirou os olhos do papel e encostou as costas na cadeira, olhando para mim de forma impaciente. Eu precisava ir com cautela, tinha que manter a calma e conversar como dois adultos, se meu pai conseguisse pensar com a razão.
— Eu sei, eu insisti demais nisso. — Uni as sobrancelhas ouvindo aquilo, o jeito manso de Otelo falar, de como ele mudou seu discurso da água para o vinho. Tinha algo errado. — Só peço que se esforce em conhecê-la, quando a conheci achei que combinaria com você, filho.
— Precisou achar alguém em outro país?
— Não fui com esse intuito para lá, se é isso que está pensando. — Ele levantou e deu a volta na mesa, aproximando-se de mim e colocando a mão em meu ombro. — Estou pensando no seu futuro, olhe o que aconteceu comigo, . Fiquei infértil de repente, não quero que perca algo que nem sequer foi capaz de ter. — Fechei os olhos e entendi onde doía em meu pai, ele queria ter vários filhos e não pôde, ele amava cada um de nós, disso eu tinha certeza.
— Prometo me esforçar em conhecê-la, mas não force nada, foi extremamente desconfortável aquele jantar.
— Desculpe por aquilo, fiquei animado com a ideia.
— Tudo isso não foi só desrespeitoso comigo ou com Carolyn, foi com as suas filhas também, pai. — Ele me olhou sem entender. — Imagine que elas estão pensando que você faria o mesmo que o pai de Carolyn fez com ela.
— Jamais faria isso com suas irmãs. — Ele se afastou, chocado com a possibilidade.
— Então é melhor se desculpar com elas.
Capítulo 10
Alonso Perroni
Eu seguia sentada naquela maldita mesa e agora não conseguiria mais olhá-la da mesma forma. Merda! tinha saído há uns bons 20 minutos, e eu seguia ali, julgando a mim mesma por não ter conseguido me controlar, eu era patética. Afastei as pernas e abri a gaveta bem abaixo de mim, tirando uma garrafa de vodka, tirei a tampa e dei um gole generoso direto do gargalo. Engoli o líquido, que desceu queimando minha garganta, fiz uma careta e finalmente tomei coragem para sair dali de cima.
Caminhei até a grande janela e olhei lá para baixo, me distraí com o movimento das pessoas, levei os olhos até o bar e vi Vincenzo fazendo algum drink maravilhoso, sabia que era, porque meu amigo sabia o que fazia atrás daquele balcão. Assim como o sabia o que fazia com a língua, puta merda. Virei mais um gole da vodka e tentei abstrair meus pensamentos. No entanto, era quase impossível, se eu fechasse os olhos ainda sentia as mãos dele no meu corpo e as mordidas... Passei a mão pelo meu pescoço, desci para o meu seio, onde apertei fechando os olhos, minha respiração saiu quente pelos meus lábios e continuei descendo lentamente, sentindo os arrepios correrem pelos meus braços, passei pela minha barriga e alcancei meu topo de vênus, logo pressionei meu clitóris, aproveitando a sensação de alívio imediato pelo tesão que ainda ondulava pelo meu corpo.
— Vincenzo — virei tirando rapidamente minha mão do meu corpo, assustada com a voz de Giovanna e o barulho da porta abrindo — mandou um martini para você. — A loira foi deixar em cima da minha mesa, mas me olhou com linhas em sua testa. — Passou um furacão por aqui?
— Eu e brigamos… — Era uma meia verdade que serviria no momento.
— Novidade. — Ela revirou os olhos e os voltou para mim novamente. — Por isso tá agarrada na garrafa de vodka de emergência? — Olhei para baixo e levantei a garrafa sorrindo sem graça.
— É… por aí. — Dei alguns passos até a mesa, coloquei a tampa na garrafa e guardei ela na gaveta novamente. — Fecha a boate hoje para mim? — Coloquei os sapatos e dei um gole no Martini.
— Claro, .
[...]
A eu do passado teria pena da eu do futuro se ela pudesse prever acontecimentos, sinceramente, eu não vi esse caminhão vindo em minha direção, ele só passou por cima me deixando completamente desorientada. Pela expressão de eu sabia que era algo do meu pai, e foi só ele falar as primeiras palavras para as minhas suspeitas estarem certas. O que porra o papai estava pensando? Assim que deixou a mesa, eu e minhas irmãs nos entreolhamos tentando entender.
— Papai, me diga que não é o que estou pensando… — Giu foi a primeira a falar.
— Seu irmão precisa de herdeiros, princesa, só isso…
— E eu preciso de um ar. — Beatrice se levantou irritada e deixou a sala de jantar.
Como se minha vida já não estivesse uma bagunça, mais essa agora, eu só podia ter jogado pedra na cruz e vim nessa família para pagar meus pecados. Levantei da mesa avisando que precisava trabalhar, peguei minha bolsa no hall de entrada e saí de casa, eu precisava parar de me sentir claustrofóbica.
Vi meu carro estacionado no lugar em que costumava deixar, alguém deveria ter levado ele para casa. Olhei para os lados e vi Austin se aproximar e me entregar a chave, agradeci e entrei na minha BMW. Dirigi por alguns minutos, dei voltas na cidade tentando espairecer, dirigir me dava uma liberdade que nada mais me dava.
Estacionei e entrei na boate, eu sabia que naquela hora apenas Giovanna estaria ali. Era um dia comum, não havia bebidas para repor ou copos para limpar, já que agora tínhamos uma pessoa própria para isso. Sentei na banqueta do balcão do bar e Giovanna tirou os olhos do notebook para me encarar.
— Traz a garrafa, Coppola. — Ela levantou, pegou a garrafa e dois copos, e os colocou em cima do balcão.
— O que houve? — Ela serviu nossos copos com doses de whisky, brindamos e viramos.
— Além de a minha família ser uma bagunça por completo? — falei com um amargor tomando minha boca.
— Não exagera, … — Ela torceu os lábios.
— Meu pai enfiou uma mulher estranha dentro da nossa casa.
— Ele está namorando de novo?
— Antes fosse… — Ela me olhou esperando eu terminar, dei um gole na nova dose e concluí: — A mulher é a futura noiva do idiota, segundo meu pai.
— O quê?! — Gio arregalou os olhos. — O vai casar?
— Dá para imaginar? — Bufei revirando os olhos. — Talvez ele tenha engravidado a coitada e agora esteja sendo ameaçado de morte para casar com ela.
— Por que você parece tão chateada com tudo isso? — Ela franziu o cenho.
— Por que você acha? Tem uma mulher que nunca vi na vida querendo tomar meu lugar… — Acabei me exaltando, aquilo estava me deixando fora de mim.
— Seu lugar? — Ela franziu o cenho, estranhando minha afirmação.
— Na Vincere, Giovanna! — Bati a mão no balcão. — Tá dormindo, cazzo?!
— Desculpa, fiquei confusa por um momento. — Ela voltou os seus olhos para o notebook e continuou digitando, deveria estar organizando algo administrativo.
— Eu sou a primogênita, sempre fui, antes do aparecer do nada! Até pensei que podíamos unir forças, mas… — Olhei para frente e Giovanna me encarou interrogativa.
— Achei que odiasse seu irmão.
— Meio irmão. — Virei a dose e quando fui colocar mais, tinha acabado. — Merda.
— Deixa, eu vou buscar…
— Não, eu vou, está ocupada. — Levantei da banqueta e caminhei até o depósito nos fundos da boate.
Aquele whisky era o meu favorito, quase nunca vendíamos já que era caro demais para muitos pagarem, um dos whiskys mais caros do mundo e a garrafa era minúscula. Quem usufruía dele na maior parte do tempo era eu mesma, ou até Giovanna, sempre disse que ela podia beber o que quisesse daquele bar. Abri o armário mais ao fundo, onde havia algumas garrafas do Dalmore, bebida mais deliciosa que essa não existia. Sempre procurei beber pouco whisky, afinal, é uma bebida forte para se estar bebendo toda hora, mas quando tinha algum problema que me tirava da razão, era a ele que eu recorria.
Assim que saí do depósito, dei de cara com o novato sem camiseta. Céus, as costas do homem era só músculo, tinha algumas cicatrizes e uma tatuagem enorme de um lobo. Entreabri os lábios, chocada com o tamanho do homem, tão chocada que nem sequer percebi que eu umedeci minha boca com a ponta da língua. Tentações demais na minha boate, porém, eu deveria estar focada no problema e não pensando em sexo, o que agrada bastante a minha mente conturbada pelas memórias da última aventura sexual que me meti. Juan se virou para mim ao fechar a porta do armário, arregalando os olhos assim que me viu.
— Desculpe, senhorita … — Ele pegou a camiseta do uniforme e colocou rapidamente enquanto falava. — Quer dizer, .
— Bela tatuagem, Juan. — Curvei o canto dos meus lábios, pisquei o olho direito e continuei meu caminho até o balcão do bar, onde Giovanna ainda estava compenetrada no que estava fazendo. Sentei, tirei o lacre da garrafa e servi uma dose para ela e outra para mim, parecia que minha intuição sempre me levava a colocar homem gostoso na minha vida, olhei para baixo, era tentação que Deus colocava no meu caminho para ver se eu continuava pura, eu tinha certeza. — O novato tá aí. — Contudo, depois de beijar eu tinha certeza que a pureza nunca fez parte de mim.
— Ah, sim, pedi para ele vir mais cedo, queria ajuda para trocar algumas luzes e trocar o lustre do banheiro — ela explicou.
— E o Vincenzo? Não é ele que faz isso?
— Hoje ele ia ver a mãe — Gio falou com compaixão.
Respirei fundo, deveria ser aniversário de morte da tia Martina. Vincenzo perdeu a mãe quando tinha acabado de fazer 18 anos, ela tinha uma doença rara chamada Doença de Gaucher, e aquela merda era hereditária, todo ano Pelegrini fazia exames para saber se algo havia mudado em seu corpo. Eu e Giovanna sempre ficávamos preocupadas quando ele passava mal ou não se sentia bem. Meu pai ajudou no tratamento da mãe dele contratando os melhores médicos, mas quando foi descoberta a doença, ela já estava muito fraca e não aguentou. Todo ano, no dia em que tia Martina morreu, Vincenzo ia visitá-la no cemitério.
— Eu não sei como ele lida com isso, eu não conseguiria ir até o túmulo todo ano.
— Vincenzo sempre foi muito ligado à mãe dele — falei, pensativa. — Queria saber como é ter uma mãe como tia Martina foi para o Vince.
— … — Giovanna olhou para mim com aquele ar de sensibilidade e condolência.
— Não, não me olhe assim. — Soltei o ar, virei minha dose e levantei. — Não tenho tempo para autopiedade, Coppola. Vamos ao trabalho, sim? — Subi para o meu escritório e lá eu fiquei, até a boate fechar.
[...]
Cheguei na sala de jantar vendo todos sentados à mesa para almoçar, inclusive a não solicitada da família. Carolyn estava sentada ao lado de . Senti meu maxilar tencionar de forma involuntária; definitivamente, se houvesse um Deus, eu tinha irritado ele profundamente. Eu estava passando mais tempo fora de casa do que de costume, o evento de Halloween da boate era no fim de semana e eu estava resolvendo tudo, mas eu conseguia ver o quanto estava se esforçando para se dar bem com a primeira buceta que meu pai arrumou para ele. Sentei à mesa e sorri de maneira forçada, o idiota me encarou por segundos e eu revirei meus olhos.
Desde aquele maldito dia que ele me agarrou como se me reinvindicasse como dele, não tínhamos trocado palavras, ele mesmo tinha falado para não ignorarmos aquilo e ele foi o primeiro a fazê-lo. Talvez eu devesse apenas controlar meu maldito corpo e manter distância dele de uma vez por todas, sair de casa estava fora de questão, meu pai não deixaria, porém, a mansão era grande o suficiente para eu evitá-lo. Só o que eu não esperava era Luna ser tão solícita a ponto de convidar Carolyn para o nosso dia de compras. E isso não sendo o suficiente para acabar com o meu dia com as minhas irmãs, resolveu nos acompanhar. Achei que esse dia nunca chegaria, mas parece que eu vivi para ver ele ir com a gente às compras.
Só não sabia o motivo… ainda.
Andávamos pelo centro olhando as vitrines das lojas, eu sempre gostava de comprar uma fantasia que fizesse sentido para mim, Halloween era uma festa importante na Espanha, porém, na nossa boate, como sempre tinha muitos turistas, optávamos pela festa americanizada, onde qualquer fantasia era aceita. Eu amava me fantasiar, era uma das minhas festas favoritas do ano, então eu e minhas irmãs fazíamos compras anualmente para esse evento e definitivamente em nenhum deles eu imaginei ter uma intrusa, ou o .
Bufei audivelmente e Giulia me olhou de canto de olho.
— Tá tudo bem? — perguntou levantando a sobrancelha esquerda.
— Só… divagando na minha mente.
— Pode compartilhar? — Ela deu um sorriso exagerado e eu dei uma risada.
— Você não acha estranho o ter vindo?
— Acho mais estranho ainda essa novidade matrimonial. — Ela cruzou os braços e sacudiu a cabeça em negativo. — Achei que era mais fácil eu casar do que o .
— Você acha? — perguntei olhando meu meio-irmão conversando com a francesa mais à frente.
— Por que o interesse repentino na vida amorosa do nosso irmão? — Virei o rosto para o lado com os olhos levemente arregalados, eu tinha sido traída pelos meus pensamentos?
Isso era para ter sido só minha voz mental; cacete.
— Não estou. — Soltei o ar pela boca e revirei os olhos, em total descaso. — Olha, vou entrar e perguntar quanto é… podem ir na frente. — Entrei em uma loja que tinha várias fantasias de bruxa na vitrine e deixei os outros irem na frente.
Aparentemente eu precisava controlar a minha boca também.
Falei com a mulher que atendia na loja e perguntei sobre as fantasias, escolhi algumas para experimentar e fui até o provador. Coloquei o primeiro vestido e achei preto demais, pano demais, parecia que eu tinha saído de um filme do Tim Burton. Tirei aquilo correndo, peguei outro que era vermelho e, céus, Carrie a estranha em seus dias, definitivamente aquele vestido um dia já foi branco. Tirei novamente e me virei para pegar a última fantasia, olhei ela no cabide e tive a sensação de que era aquela, um vestido preto simples, com um corpete até o quadril, onde o tecido era mais fluido e ia até o meio das minhas coxas e atrás era mais longo, dando um charme a mais. Vi meu reflexo e adorei, peguei o chapéu que estava pendurado no gancho do provador e coloquei na cabeça, sorri para mim mesma, era perfeito.
— Diria que foi feito para você.
— Ah! — dei um grito e me virei assustada, vendo apoiado em um dos lados da cabine me olhando com uma cara de depravado.
— Está tudo bem, senhorita? — a mulher perguntou do lado de fora.
— É… — Os olhos negros não paravam de me despir e eu senti o nervosismo me tomando, engoli em seco quando ele começou a andar até mim como se eu fosse sua presa. — Sim, acho que fiquei feliz com esse que acabei de experimentar.
— Fico feliz, posso trazer mais alguma opção para a senhorita?
Ele deu mais um passo em minha direção sem deixar de me olhar nos olhos, com toda aquela imponência que só ele conseguia emanar em apenas existir. Eu me senti encurralada naquele espaço minúsculo, era grande, muito mais alto que eu, seu terno preto exalava um poder que eu não conseguiria descrever. Era extasiante como ele me olhava, os olhos negros cheios de luxúria me deixavam ainda mais ansiosa, aguardando o que viria e aquela sensação me preenchia de uma expectativa tão errada.
— N-não… — gaguejei e me praguejei em minha mente no mesmo momento. — Estou bem, vou terminar de ver os outros.
— Fique à vontade. — Ouvi os saltos da atendente se distanciarem.
— Posso ajudar você a tirar? — deu mais dois passos até eu sentir a parede atrás de mim.
Peguei o resquício da razão que me acometeu naquele momento e perguntei ríspida:
— O que quer, ?
— Não é óbvio?
Ele me puxou pela cintura e tomou minha boca, ele me apertou contra a parede, a língua dele rodeando meus lábios antes de explorar minha boca com urgência. Minhas pernas simplesmente desistiram de fazer o trabalho que tinham sido feitas para fazer e me derreti em seus braços. Ele beijou meu pescoço e me deixei levar, fechei os olhos aproveitando suas palmas apertando minha cintura e logo depois descer para minha bunda, sua boca não deixou minha pele, senti a mordida no meu maxilar e soltei um suspiro quente pelos lábios.
Ele levantou minha coxa e senti seus dedos afastarem minha calcinha, a gente ia mesmo fazer aquilo?
— , não pode… — Não consegui terminar a frase quando seus dedos pressionaram meu ponto inchado. — Céus…
Mordi o lábio com força e me segurei nas paredes da cabine ao sentir seus dedos me dedilhando de maneira certeira. Senti minhas pernas tremerem e minha boceta implorar por um orgasmo, e ele parecia ser tão bom no que fazia que por um momento eu me perdi no prazer ondulando em meu baixo ventre e ignorei qualquer razão que pudesse passar por minha mente. Seus lábios seguiram desfilando pelo meu pescoço e logo senti os dentes dele em meu lóbulo.
— Está tão molhada, cariño… — Sua voz saiu rouca, embriagada de tesão e me deixando ainda mais entregue. — Achei que me odiasse… — sussurrou em meu ouvido.
— E… o-odeio… — Tentei falar com raiva por um milésimo de segundo, mas foi impossível não me perder novamente no prazer que dominava meu corpo inteiro.
— Não está sendo muito convincente… — Seus dedos continuaram a circular o meu clitóris e eu esmaeci cada vez mais em seus braços.
— Mas odeio e mu-muito… — gemi sôfrego.
Meus olhos arregalaram por estar no limite em tão pouco tempo, foi ali que me perdi nas sensações, no desejo e no querer sem pensar nas consequências. Seus dedos me invadiram, fazendo eu suprimir um gemido que quase escapou, senti o aperto na carne do meu quadril e encarei seus olhos atentos às minhas reações e o sorriso no canto dos lábios denunciava o quanto ele estava se divertindo comigo.
— Santa madre! — gritei sussurrado e fechei os olhos, entregue à eletricidade que corria pela minha pele. Joguei a cabeça para trás, olhando aquela luz fluorescente do provador, ainda tentando recuperar meu fôlego, e foi naquele momento em que caiu a ficha do que tinha feito. — … nós… cazzo. — Fechei os olhos, os apertando, culpada e extasiada ao mesmo tempo.
segurou meu pescoço, fazendo com que eu abrisse os olhos para encará-lo e seu rosto estava tão perto do meu que eu senti sua respiração tocar minha pele. Os olhos negros me olhavam com um desejo latente, senti aquele aperto gostoso na minha garganta e abri levemente a boca. Ele não tinha nenhum rastro de arrependimento, foi fácil ler em sua expressão que nem mesmo a culpa passou pela sua mente, ele lambeu os lábios e sorriu satisfeito.
— Espero que tenha sido memorável a ponto de não esquecer — ele colou os lábios no meu ouvido e falou baixinho —, e o mais importante, querer repetir. — Fechei os olhos sentindo aquele arrepio cruzar meu estômago e então ele me deu mais um beijo afogueado segurando firme meu cabelo na altura da nuca, deixando-me completamente desnorteada. Assim que abri os olhos, vi ele deixando a cabine.
— Puta que pariu… — Escorreguei pela parede do provador até atingir o chão. — O que foi que eu fiz? O que nós fizemos… — Soltei o ar que nem sabia que tinha prendido e falei: — Nunca gozei tão rápido desse jeito… Figlio de puttana!
[...]
Eu não podia acreditar que eu estava ali, sentada naquele café, com minhas irmãs, a invasora de lares e , que me olhava como se nada tivesse acontecido; cínico, um cretino. O pior de tudo: eu tinha tido o melhor orgasmo dos últimos tempos e nem foi em uma cama, eu queria esmurrar a cara dele. Soltei o ar pelo nariz com força, eu queria tanto um cigarro para acalmar os nervos e quando vi acender um enquanto sua atenção estava atenta às palavras da sua futura corna, quer dizer, esposa. Levantei e estiquei meu corpo por cima da mesa para pegá-lo da mão de , que me olhou com as sobrancelhas juntas. Sorri simpática dando de ombros e sentei novamente, dando um trago generoso e fechei os olhos para aproveitar a nicotina correndo pelo meu organismo.
A garçonete chegou com os nossos pedidos e então vi meu café gelado na minha frente e fiz uma careta.
— Pensando melhor, querida… — chamei a garçonete, que me olhou atenta para anotar o que eu iria pedir. — Traz um dry martini, com duas azeitonas.
— Sim, senhorita.
— — Giulia me chamou e olhei para a direita —, são nem 16 horas da tarde.
Giu não bebia álcool e tentava converter todo mundo, e claro, julgava aqueles que o faziam em momentos em que não havia estrelas no céu. Franzi o cenho e antes mesmo que pudesse responder, se pronunciou:
— Ela deve estar precisando por causa do calor, maninha. — Olhei para ele e mostrei o dedo do meio. — Posso te acompanhar — sorriu de maneira libidinosa me deixando nervosa por um momento — na bebida… sabe, também estou com muito calor.
estava flertando descaradamente comigo na frente de todos e eu nem sabia por que estava nervosa, afinal, nem em mil anos minhas irmãs iam imaginar o que acabamos de fazer naquele provador, nem se estivéssemos fodendo em cima dessa mesa elas acreditariam.
— Você não tinha mais nada para fazer hoje, ? — perguntei irritada.
— Sair para passear no centro me pareceu a melhor coisa a se fazer hoje… — Ele sorriu, me olhando com uma das sobrancelhas arqueadas.
— Esqueci que você ama fazer compras, não é mesmo? — perguntei irônica. — Por isso que todos os anos vem com a gente.
— Nunca fui convidado, me sentia tão excluído… — ele fez uma expressão fingida de tristeza.
— Mascherato… (Dissimulado). — Cuspi o ar e revirei os olhos.
— Mostrem hospitalidade para a nossa convidada, por favor — Luna ralhou com a gente e eu cruzei os braços torcendo os lábios, no mesmo momento que a garçonete chegou com o meu drink.
Agradeci a garçonete e continuei:
— Por favor, pode trazer outro. — Bebi em um gole só e ergui a taça em direção a Giulia, como se estivesse brindando a ela.
— Eu vou acompanhá-la. — O idiota apontou para mim. — Quais whiskys você tem? — perguntou para a garçonete.
Eu estava achando tudo aquilo insuportável, principalmente por aquela mulher não parar de se fazer de apaixonada por ele. Puxei a fumaça e apaguei o cigarro no cinzeiro, levantei com minha bolsa no ombro e fui até o banheiro. Retoquei meu batom, ajeitei meu cabelo, lavei as mãos e quando me virei, dei de cara com a expressão de irritação de Beatrice.
— O que tá acontecendo? — As mãos na cintura e a expressão de descontentamento estampada em seu rosto era um sinal de alerta.
— Não sei do que está falando… — Fiz pouco caso pegando toalhas de papel e comecei a secar minhas mãos.
— Você e estão se atacando mais do que o normal, e olha, para eu falar isso, algo aconteceu.
— Nada aconteceu, Beatrice, cuide do seu "compromisso" — fiz aspas com os dedos — que eu cuido da minha vida e da minha relação conturbada com o idiota que eu tenho que chamar de irmão.
Saí do banheiro, passei na mesa apenas para pegar a sacola com o vestido e fui embora sem nem mesmo olhar para trás. Vi Ettore e Austin perto da fonte da praça e pedi para que eles me levassem para casa, já que fui de carona com as minhas irmãs. Que ideia idiota ir fazer compras com aquela mulher, Luna não podia ver alguém em uma situação difícil que queria agradá-la. Ela não era da família, não era da Vincere e jamais seria, nem que eu precisasse garantir isso.
Cheguei em casa e dei de cara com meu pai, ele estava para entrar no carro com o motorista, mas quando me viu, ele voltou e perguntou:
— Como foi o dia, filha?
— Péssimo.
— Aconteceu alguma coisa, princesa? — Otelo deu alguns passos em minha direção e eu respirei fundo.
— Nada que valha sua preocupação, papai.
— Eu sei que foi uma novidade e tanto, mas tente entender. — Sua mão acariciou meu ombro e eu suspirei, derrotada.
— Não consigo, pai. — Balancei a cabeça em negativo. — Trazer uma estranha para dentro da nossa casa foi passar dos limites.
— Seu irmão prometeu se esforçar para conhecê-la, filha, tente ser boazinha com a garota.
Pensar que concordou com aquela loucura trouxe à tona a minha raiva. Era isso mesmo que ele queria? Casar por um acordo, pagar uma estranha para ter seus filhos e nunca ser amado por ninguém? Acabar como o nosso pai, sozinho, infeliz e dependente do trabalho para se sentir importante.
— Ela vai ser que nem a minha mãe ou mais como Aurora, pai? — A alfinetada saiu com mais remorso e desgosto do que eu gostaria, aquilo ainda me machucava e eu nem sabia o quanto. Sempre enterrei isso dentro de mim, mas não queria ver a história se repetir, porque dessa vez eu estaria ali para evitar a desgraça na vida de outra criança.
Otelo me olhou pensativo e me abraçou, deixando-me confusa com a reação dele.
— Jamais pediria que seu irmão pagasse alguém como eu fiz. — Ele se afastou e seus olhos eram pura sinceridade. — Se pudesse voltar no tempo, não o faria novamente, mas aí eu penso que não teria vocês quatro, os tesouros da minha vida.
— Isso deveria bastar para você não querer empurrar ninguém para .
— Por que está tão preocupada com ele? — As linhas em sua testa me alertavam de que eu estava expondo algo que não deveria. — Sempre teve apenas ódio pelo seu irmão.
— Apesar de tudo, ele é isso, não é? — Senti o amargor na minha garganta e a culpa me corroendo por dentro, meu pai me olhou de um jeito esquisito, como se suspeitasse de algo, mas não quisesse vociferar.
— Senhor Perroni, precisamos estar lá em 15 minutos — Rico, o segurança direto do meu pai, alertou.
— Preciso ir. — Ele beijou a minha testa e entrou no carro, que eu assisti deixar os portões da mansão.
Subi e me tranquei no meu quarto, parei por um instante e encarei a janela, pensando em absolutamente nada. Fui até o closet e joguei o vestido no canto com vontade de atear fogo nele, como iria me ver no espelho usando aquilo sem lembrar que…
— Ah! — gritei me jogando na cama, eu estava parecendo uma louca, sinceramente.
Eu nem sabia o porquê estava com tanta raiva, mas meu corpo estava quente como o inferno e algo me dizia que era para me lembrar que quando morresse, faria parte dele.
Capítulo 11
Perroni
Aquilo no rosto de era desconforto, eu estava achando graça dela ter ficado tão incomodada por Carolyn estar apenas sentada ao meu lado. Apesar de Beatrice ter sido a que mais ficou irritada, eu sabia que a Alonso sempre guardava tudo em um lugar estratégico da sua mente, nesse quesito éramos parecidos. Por mais que nos mantivéssemos distantes um do outro, era fácil ler se prestasse atenção, e se eu estivesse certo, ela estava comigo na cabeça, assim como eu não conseguia tirá-la da minha. Queria falar sobre o que houve naquele dia na boate, mas ela mal parava em casa e Carolyn ficava grudada em mim, o único momento que achei propício foi no nosso passeio ao centro, e mesmo assim, meu pau resolveu falar mais alto.
Quando vi que tinha entrado em uma loja, minha cabeça começou a maquinar ideias, esperei nos distanciarmos da loja em questão e disse às garotas que iria procurar um banheiro. Luna fez o trabalho de distrair a mulher no meu pé sem nem mesmo precisar pedir. Entrei na loja e tentei me livrar da atendente, entrei no corredor de provadores e só havia dois com a cortina fechada. Entretanto, as botas que a dona dos meus sonhos eróticos das últimas noites usava eram vermelhas. Sorri ao abrir a cortina e vê-la curvada ajeitando o vestido que estava, era lindo e deixava todas aquelas curvas em evidência.
Lambi os lábios e me deu uma vontade absurda de conhecer todo o corpo dela com meus dedos e minha língua. Percebi que tinha deixado extasiada, afinal, eu já tinha comido mais bocetas do que eu conseguia enumerar. Eu sabia o que fazer. Sei tudo aquilo sobre cada mulher sentir prazer de forma diferente, mas porra, os homens não se dão ao trabalho de perceber as respostas do corpo delas? Toda ação causa uma reação, basta você notar se ela é positiva. Quando saí fugindo do provador, fui até o banheiro lavar meus dedos, estava com cheiro de boceta, não só isso, com cheiro da boceta dela, e ah, como eu queria continuar me inebriando naquele perfume doce, mas infelizmente eu não podia.
Quando encontrou a gente novamente, ela evitava ao máximo olhar para mim ou ficar perto de mim, porém, eu sou teimoso e adorava ver ela irritada. Continuava a provocando e eu acreditava que em algum momento ela iria gritar comigo. As garotas decidiram sentar em um café antes de continuar suas buscas por roupas, e o que todos nós ganhamos foi uma cena de saindo dali completamente irritada.
— A culpa disso foi minha?
— Você acha? — Giu perguntou irônica e eu dei de ombros dando um gole em meu whisky.
[...]
Acordei cedo e me reuni com meu pai antes do café da manhã, Mattia tinha dado notícias sobre o roubo de carga. Tinham achado o caminhão vazio próximo da fronteira da França, nossos motoristas mortos e nenhum sinal de pistas. Meu pai estava puto, como não estar? Perdemos o carregamento inteiro de um mês! Isso iria nos custar milhões. Otelo disse que resolveria, então acreditei. Fomos para a mesa tomar café, as garotas já estavam sentadas comendo, menos . Demos bom dia e nos sentamos. Olhei para a cadeira vazia à minha frente e queria muito perguntar onde ela estava, mas por algum motivo, achei que soaria suspeito.
— Onde está minha outra princesa? — Respirei devagar, disfarçando meu alívio pelo meu pai ter perguntado.
— saiu cedo, papai. — Franzi o cenho quando Giulia respondeu.
— Onde ela foi, Giu? — Foi a vez de Beatrice perguntar.
— Não sei, vi pela câmera de segurança. Não eram nem 6:30 quando ela saiu.
— Ela foi sozinha? — perguntei em um rompante, meu pai me olhou franzindo o cenho e rapidamente me corrigi: — É perigoso ela sair sem os seguranças…
Meu pai demorou a falar algo, olhava para mim interrogativo, mas acabou se voltando para as garotas e dizendo:
— Seu irmão está certo.
— Acho que Ettore e Austin estão com ela. — Giulia deu de ombros.
— Ligue para eles e confirme se sua irmã está em segurança, . — Assenti com a cabeça e levantei da mesa.
Fui até a cozinha e liguei para Ettore e ele me informou que estava na casa de Giovanna, respirei aliviado com a notícia. Agora, por que ela tinha saído tão cedo? Voltei para a mesa e avisei meu pai sobre o paradeiro de . Quando terminei a refeição, Carolyn me chamou para ficarmos na piscina, apesar de estar sem nenhuma vontade da companhia dela, eu prometi ao meu pai que ao menos tentaria, então subi para trocar de roupa e me instalei em uma das espreguiçadeiras, pedi para Marta levar um suco de laranja e alguns aperitivos.
Vi Carolyn cruzar o jardim com um biquíni minúsculo azul e um kimono floral por cima do corpo, a mulher era gostosa, isso era indiscutível, em outro cenário definitivamente eu foderia ela. Na verdade, eu poderia foder ela, por que isso não pode ser uma possibilidade? Deveria ser pelo mesmo motivo que eu bati uma punheta no banho ontem quando cheguei das compras, claro. Eu não consegui controlar meu tesão quando fui tomar banho, o cheiro de continuava impregnado em mim de uma forma que fez meu pau subir instantaneamente.
— Ouviu, ?
— Oi? — Olhei para Carolyn, que já estava sentada na espreguiçadeira ao meu lado.
— Eu disse que pedi para a Elena preparar mimosas. — Elena era a ajudante de cozinha da nossa governanta Marta.
— Ah, sim, claro… ótima ideia. — Sorri sem graça de não ter ouvido uma só palavra do que ela disse ao chegar. Eu precisava tirar a porra da indomável da cabeça, o que diabos estava acontecendo comigo? — Então, está gostando de Madri?
— Sim, o tempo aqui se parece com Paris, mas lá é mais… quente no verão. — Ela me mirou com segundas intenções, um olhar cheio de malícia que eu reconhecia de longe e que me faria ficar interessado, então por que nem sinal de tesão?
— Você disse que se formou em negócios. — Elena colocou as duas taças de mimosa em cima da mesa e saiu.
— Sim, meu pai queria que eu assumisse a administração do hotel que ele tem em Cannes. — Ela pegou uma das taças e deu um gole.
— Então não fez porque queria?
— Não, não queria ficar na França. — Ela levantou e tirou o kimono, o jogando em cima da cadeira de maneira sensual, ela estava claramente tentando algo comigo e, porra, eu transaria agora, faz tanto tempo... — Adoro meu país, mas estava cansada de ficar ancorada ao meu pai.
— Entendo… — Pena que não era com ela que eu queria.
— Vou me refrescar, não quer se juntar a mim? — Ela deu um sorriso sedutor e mesmo assim, nada.
tinha estragado meu pau.
— Eu… preciso responder alguns e-mails e vou… — Peguei o celular e ela sorriu, mas no fundo eu via que ela tinha ficado chateada. Porra.
Onde foi tão cedo?
Indomável: não devo satisfação para você desde… sempre, .
Você insiste em me tirar do sério…
Indomável: se preocupe com sua noiva ao invés de mim.
Primeiro, não tenho noiva. Segundo, por que está fugindo?
Ela digitou, apagou, digitou, apagou de novo…
Ela ia me enlouquecer com aquela merda!
Indomável: nunca fugi de você, só gosto de ter meu espaço pessoal.
Na casa da Giovanna?
Indomável: Como você…
Admita, está fugindo de mim, da minha boca e do que eu consigo fazer com seu corpo…
Passei dos limites? Passei, porém eu sentia que aos poucos estava perdendo a cabeça por um desejo eloquente e incontrolável.
— ! — Olhei para frente vendo Carolyn sorrindo e me chamando. — Venha, a água está ótima.
Indomável: tive duas bocas maravilhosas por aqui.
— Filha da…
Alonso Perroni
— Por que está vermelha? — Giovanna me perguntou ao voltar da cozinha com duas xícaras de café.
— Nada — respondi a mensagem desavergonhada de com uma pequena mentira e bloqueei a tela. — Vamos voltar ao que interessa…
— Então, a médica me disse que talvez seja…
— Não, Giovanna, não pode ser. — Neguei com a cabeça veementemente.
— Eu tô arrasada, , eu amo aquele desmiolado. — As lágrimas escorreram pelo rosto dela.
— Você o quê?! — Arregalei os olhos.
Giovanna tinha me ligado aos prantos às 5:40 da manhã, Vincenzo tinha passado mal de madrugada e ela o levou até o hospital. Sorte que ele estava dormindo na casa dela, mas a médica disse que ela não podia ficar lá fora do horário de visitas. E foi aí que ela me ligou pedindo que eu fosse encontrá-la.
— Passei anos acreditando que era só sexo, , mas eu amo o Vincenzo.
— E você continuou deixando eu dar para ele, cazzo?!
— Não me importo, , pode dar para ele sempre que quiser. — Ri da afirmação sem noção da minha amiga, e vi ela enxugar algumas lágrimas. — Eu só quero ele vivo, comigo… — Ela voltou a chorar, então me levantei e sentei ao lado dela a abraçando.
— Vai ficar tudo bem…
Com tudo o que estava acontecendo, depois de almoçar com a loira, fui direto para a boate, mais cedo do que o previsto, e disse para Giovanna ficar em casa e descansar. Liguei para o novato e chamei o nosso outro comandante dos barmans, que revezava a chefia do bar, Cristian Garcia. Expliquei a situação e disse que Coppola e Pelegrini não estariam com a gente naquele dia. Se tudo desse certo, a casa não lotaria, era uma quarta-feira, não era dia de show e não tinha nenhum DJ famoso.
Eu teria tudo sob controle, assim eu esperava.
Pedi para Cristian ensinar os drinks mais simples e as bebidas prontas, assim como mostrar a forma de servir a cerveja e as doses, para Juan. Vincenzo era ágil e conseguia atender todo mundo, mas a Giovanna também fazia os drinks no bar de vez em quando, além dos outros barmans auxiliares, e nenhum dos dois estaria ali hoje. Assim que o pessoal da cozinha e os garçons chegaram, expliquei a situação e todos se prontificaram a fazer o melhor que podiam. Eu tinha o melhor staff que eu poderia pedir. Subi ao meu escritório apenas para organizar alguns papeis, liguei para o meu pai e expliquei o que tinha acontecido.
— Papà, per favore, ajude o Vince.
— Farei o possível, principessa, não consegui salvar dona Martina, mas lhe garanto que chamarei os melhores médicos.
— Obrigada, pai, você sabe o quanto ele e a Giovanna são importantes para mim.
— Eu sei, não se preocupe, eles são famiglia. Vou resolver isso agora mesmo.
Eu precisava de funcionários extras para o fim de semana, era o evento de Halloween, se o Vince tivesse mesmo despertado a doença da sua mãe, ele ficaria internado por algum tempo. Não queria nem pensar nessa possibilidade. Busquei no meu banco de dados quem eu poderia chamar para trabalhar no sábado, era uma merda ter que ser racional em uma hora como aquela. Eu estava aflita, preocupada com o Pelegrini, mas eu tinha uma boate para administrar. Vinte minutos antes de abrirmos as portas eu desci, conferi tudo no bar, na cozinha e no salão.
Sentei atrás do balcão e larguei meu celular na prateleira baixa, onde preparávamos os drinks e onde ficavam os copos. Suspirei de olhos fechados e ao abri-los, vi a taça de martini na minha frente. Virei para trás e Juan fez uma continência, eu sorri agradecida pelo gesto atencioso.
— Sinto muito pelo Vincenzo.
— Ele vai ficar bem.
— Claro que vai, ele é forte e a gente precisa dele aqui. — Ele sorriu de forma serena, tentando passar tranquilidade.
— Obrigada. — Ele meneou a cabeça em positivo antes de se virar e ir aos seus afazeres.
Sorri olhando meu drink e o peguei, dando um gole, tinha ficado feliz de não ter errado no meu julgamento. Juan era apenas um homem comum que precisava de um emprego e eu podia ajudar ele a ter um, ele era dedicado e sempre mostrou ter um carinho por todos.
O expediente acabou sendo mais movimentado do que eu achei que seria, mesmo assim conseguimos fechar antes das 2 horas da manhã. Assim que a cozinha estava limpa e o bar também, mandei todos para casa, já que caía uma chuva torrencial lá fora.
Peguei a garrafa do Dalmore e um copo baixo, servi uma dose e essa eu iria degustar aos poucos. Desbloqueei meu celular e vi a última mensagem que tinha trocado com , respirei fundo e passei a mão pelo rosto, sem acreditar que tinha chegado até ali. Pensei: quando foi que eu me perdi, quando foi que me rendi a esse descontrole? Bufei e bati o celular no balcão, esqueci de degustar e apenas virei o líquido âmbar, tentando afogar a parte de mim que desejava mais que tudo tê-lo em meu corpo novamente.
Servi mais whisky e fiquei ali, apreciando minha própria companhia, em silêncio, sozinha na minha boate; era bom estar sozinha. Não tanto quanto era bom estar sozinha antes do beijo de , antes de ele me fazer ter um orgasmo como nenhum outro homem fez, antes das memórias virem me atormentar a todo custo.
Ouvi um barulho na porta e virei o rosto, assustada. Sua roupa pingava água e seu cabelo estava encharcado.
— Vamos para casa. — Franzi o cenho e ri, desacreditada. — Por quê? Por que faz isso?
— Eu deveria fazer a mesma pergunta. — Coloquei a mão na cintura e logo apontei para ele. — Você que tá parado na porta da minha boate às 3:40 da manhã, .
— Estou — ele caminhou lentamente pelo salão — porque Ettore me ligou dizendo que todos haviam saído, menos você.
— Credo, Ettore segue sendo o fofoqueiro. — Dei um gole em meu copo e Perroni deu passos até mim.
— Ele está preocupado com a sua segurança, porra, pare de achar que você é imortal, ! — Eu olhava com a cabeça direcionada para cima para conseguir encará-lo nos olhos, já que ele era bem mais alto e eu estava sentada na banqueta do bar.
— Não acho que sou imortal, , só acho que tenho o direito de ir aonde porra eu quiser sem você pedir para um dos seus capachos ficar me vigiando! — berrei, irritada, encarando ele nos olhos. — Ou ter o direito de querer ficar bebendo a porra do meu whisky caro, na porra da minha boate!
— Você não tem jeito… — disse antes de avançar como se eu fosse sua presa.
Senti seus lábios nos meus de maneira nervosa, a água gelada que caía de seu cabelo e da sua roupa me molhava, refrescando o meu corpo, que ao mesmo tempo ficava cada segundo mais quente. Sua mão em minha cintura me puxava para ele de forma possessiva, gemi em meio ao beijo, abracei sua cintura com as pernas e puxei o sobretudo que ele usava, enfiei a mão pela sua camisa e arranhei suas costas. Nossas línguas disputavam o espaço, enquanto nossos corpos pareciam brigar por mais contato, ele agarrou meu cabelo e puxou minha cabeça para trás, lambendo meu pescoço até chegar em meu queixo e mordê-lo. Soltei um gemido arrastado e molhei meu lábio inferior aproveitando a pressão de seus dentes na minha pele.
— Se vai me foder, prefiro que seja numa cama — falei, eu estava embriagada demais para economizar as putarias que passavam pela minha cabeça.
Ele se afastou de mim e me olhou bem antes de perguntar:
— Está bêbada?
— O que você acha? — Direcionei meus olhos até os dele.
— Vamos para casa, cariño.
— Desistiu de vir aqui me ensinar uma lição?
Ele se aproximou de novo e sussurrou no meu ouvido:
— Quando eu te foder quero você bem sóbria para lembrar do quanto foi bom gozar com meu pau enterrado em você.
Podia até ser a bebida, mas minha boceta tinha piscado só pela baixaria que saiu dos seus lábios, e naquele momento, constatei que eu não só queria, como eu necessitava que me fodesse.
[...]
Eu corria de um lado para o outro tentando organizar todas as decorações junto aos meus funcionários, o sábado tinha chegado e tudo precisava estar pronto. Vincenzo ainda estava em observação já que nenhum exame mostrou nada conclusivo, Giovanna tinha voltado ao trabalho na sexta, então eu teria minha fiel escudeira comigo. Não sabia se conseguiria fazer tudo aquilo sem ela. Corri na cozinha e pedi para Santiago preparar o almoço de todos, estávamos juntos naquele dia e, pelas minhas contas, iríamos até às 4 da manhã. Pelo menos eu tinha dado folga a todos no domingo e na segunda, era o mínimo que eu poderia fazer pelo trabalho árduo e pelo apoio de sempre.
Parei em frente ao balcão do bar olhando o salão, que estava pronto, olhei para o lado e Juan me deu um martini, sorri para ele maneando a cabeça e agradeci. Estava realizada, mais um ano em que a minha festa favorita tinha ficado do jeitinho que eu queria.
A Fascino era a minha vida e eu sabia que não teria metade da minha independência e felicidade sem ela. A boate me mostrou muitos caminhos, e um deles foi ter me achado em algo que nunca imaginei; era grata ao meu pai por ter me apoiado nessa ideia maluca.
— Contemplando o seu trabalho? — Virei para olhar para Giovanna e ri. — Ficou bom mesmo…
— Nosso trabalho… — Pisquei para ela, que sorriu me abraçando de lado. — Ei, Cris, uma rodada de dose para todo mundo!
— É para já, chefe! — Ele bateu continência e eu ri, Vincenzo tinha mesmo feito aquilo pegar, ele sempre estava presente, mesmo quando não estava.
Após o almoço, separamos os sintéticos e testamos as luzes pela terceira vez, eu estava cismada com as luzes roxas nas teias de aranha que enfeitavam os cantos do teto. Quando eu estava segura e tudo organizado, subi para o meu escritório para tomar um banho e Giovanna subiu comigo para nos arrumarmos juntas. Coloquei aquele vestido que me fazia lembrar do que eu não queria, ou talvez só não devesse. Respirei fundo fechando os olhos e me olhei no espelho me dizendo para manter o controle, pelo menos naquela noite. Minhas irmãs estariam ali, eu não podia me deixar levar, não nessa noite.
Giovanna já estava pronta e me falou que desceria para colocar ordem na casa, a loira era um furacão, ela era mais mandona que eu, talvez eu devesse chamar ela para ser oficialmente minha sócia. Cheguei na janela e olhei lá para baixo, algumas pessoas já estavam no salão, todo mundo fantasiado dos seus filmes de terror favoritos, de muertos vivientes ou só alguma fantasia sexy. Não podíamos esquecer que Halloween era também uma festa onde as mulheres usavam como desculpa para sair bem vagabunda e não ser julgada por isso, mais um dos motivos do porquê eu amava essa festa.
Ouvi batidas na porta e liberei a entrada.
— Achei que precisaria de um desses… — Juan entrou com um martini na bandeja e eu sorri.
— Está saindo melhor do que a encomenda, novato. — Ele se aproximou e eu peguei a taça, dando um gole e fechando os olhos, aproveitando o líquido abraçar minhas papilas gustativas.
— Vincenzo ligou para mim. — Abri minhas pálpebras novamente e o olhei inquisitiva.
— Aquele… — Ri da preocupação que nem valia a pena do meu amigo que estava internado.
— Só me chamar caso precise de algo… — Juan sorriu sedutor e eu arqueei a sobrancelha.
— O que mais o Vince falou? — Vincenzo sempre trazia um martini para mim antes da festa de Halloween e obviamente, a gente fodia no processo. Era um ritual nosso, que essa noite iríamos quebrar mesmo que ele estivesse aqui, depois da confissão da minha melhor amiga, Pelegrini nunca mais tocaria na minha boceta.
— Apenas do seu ritual antes da festa, — explicou, e por algum motivo esperei mais alguma coisa, mas ele concluiu: — Seu martini antes de descer. — Não sei por que, mas eu estava desconfiada daquilo, virei o restante do drink e coloquei na bandeja novamente.
— Vamos. — Peguei meu celular em cima da mesa e Alvarez abriu a porta para mim. — Obrigada.
Desci a escada e percorri o corredor, cheguei no salão, cumprimentei meus seguranças que ficavam na entrada para o corredor e vi que minhas irmãs já estavam em uma das mesas vips. Sorri animada por tê-las ali, era um dos únicos momentos em que a gente curtia uma festa juntas. Pedi para Juan levar uma garrafa do Dalmore para nós e caminhei em direção à mesa, conseguindo ver o restante das pessoas nela, Carolyn estava grudada em e pausei meus passos por alguns segundos. Respirei fundo fechando os olhos e então senti minha palma doer, levantei minhas mãos e vi a marca das minhas unhas na pele; eu não poderia deixar aquilo continuar me afetando dessa maneira.
Capítulo 12
Perroni
Puta que pariu, tava gostosa demais dentro daquele vestido, aquele mesmo que me deixou babando por ela e ela por mim; sorri com meus pensamentos impuros. Ela chegou, cumprimentou todo mundo e sentou no sofá acolchoado do canto da parede, do outro lado da mesa. Eu gostava do fato que sempre ficávamos um defronte ao outro, onde eu podia olhar ela sem ter que virar meu pescoço e ser pego por estar desejando a mulher que eu deveria apenas sentir um amor fraternal. Nunca senti e não iria começar agora; acreditava que o diabo tinha seus preferidos e definitivamente eu era um deles. Tamanha tentação bem embaixo do meu nariz.
Minhas irmãs conversavam e eu tentava prestar atenção no que elas estavam falando, mas era inútil, a música alta, pessoas conversando ao redor e, claro, Carolyn a todo momento tentando roubar a minha atenção com algum assunto que eu não me importava o suficiente. Eu juro que estava tentando, pelo meu pai, porém eu estava chegando ao meu limite, aquela festa significava muito pra , para as minhas irmãs e para mim.
O cara que estava trabalhando no bar chegou na nossa mesa com uma garrafa do whisky favorito de , 6 copos e um balde com gelo.
— , não sabia se deveria trazer gelo ou não, já que bebe whisky puro. — Ela virou o rosto dando atenção ao seu funcionário, o que me fez fechar a cara, eu ainda queria aquele homem fora da Fascino.
Por mais que eu tivesse pesquisado toda a vida dele e não tivesse achado nada suspeito, ele me irritava pelo simples motivo de ter sido tão solícita com ele, uma pessoa que ela nunca viu na vida. Comigo sempre foi diferente, sempre me tratou como alguém que ela não suportava nem estar perto, confesso que tinha grande culpa nisso, mas não importava. Ela não podia ser assim com qualquer um.
— Obrigada, Juan sim, Beatrice só bebe com gelo. — Ela ajudou ele a tirar as coisas da bandeja enquanto esbanjava um sorriso divertido nos lábios, trinquei os dentes com aquela cena muito íntima para o meu gosto.
— Qualquer coisa é só chamar. — Ela acenou e assim que ele virou, deu de cara com Giovanna, que pediu algo para ele e sentou à nossa mesa.
— Olá, meninas! — Coppola disse animada, cumprimentando minhas irmãs. — Não conheço você… — Ela olhou para a loira ao meu lado.
— Meu nome é Carolyn.
— Prazer, Carolyn, me chamo Giovanna. … — Ela sorriu me cumprimentando e logo se entreteve com as meninas novamente, falou algo no ouvido de e as duas riram, Beatrice entrou na conversa e eu não conseguia ouvir nada de onde eu estava.
— Você quer ir dançar, ? — perguntou a minha suposta prometida, e eu apenas fiz uma careta, inclinei-me para servir uma dose de whisky e fez o mesmo, fazendo a gente esbarrar nossas mãos. Senti um choque correr da ponta do meu dedo e subir pelo meu braço, fazendo com que meus pelos se arrepiarem.
Nossos olhos se encontraram por segundos; tão intensos.
— Eu sirvo — falei, pegando a garrafa e colocando uma dose para mim e outra para ela, bati meu copo no dela e pisquei um olho, recebendo uma carranca em resposta, dei um gole generoso dando de ombros, virei para a mulher ao meu lado e disse: — Eu não danço, Carolyn.
— Vamos, eu vou com você, Lyn. — Olhei para cima desacreditado que Lu já tinha dado um apelido para a mulher. Fiz a gentileza de me levantar para as duas passarem e irem para a pista de dança.
O tal do Juan voltou e deixou um drink colorido para Giovanna em cima da mesa, ela agradeceu e voltou-se para as minhas irmãs:
— Já viram que o novato é um gostoso? A tem um ótimo gosto, não acham?
— Definitivamente. — Giulia ainda olhava o homem se distanciar entre a multidão.
Soltei o ar, irritado, aquela noite seria longa e torturante e normalmente essas duas palavras juntas me apetecia, mas não naquela situação, aquilo não me agradava nem um pouco. Meu celular vibrou no meu bolso e eu o peguei, vendo uma mensagem de Beatrice, franzi o cenho e olhei para ela, que mexeu os olhos de modo apelativo para eu ler o que ela tinha me enviado. Revirei os olhos e desbloqueei meu telefone, selecionei a notificação e nossa conversa apareceu no visor:
Maninha ruiva: preciso encontrar aquela pessoa.
eu não acredito que ainda não contou pra elas.
Maninha ruiva: no meu tempo, .
3 anos não foram o suficiente?
Maninha ruiva: só me dá cobertura.
vai se arrepender disso, Bee.
Ela me encarou com raiva antes de levantar e avisar que iria ao banheiro, balancei a cabeça em negativo, bebi o restante da minha dose e servi outra. Nossa família era o próprio inferno se quer saber, não duvidava que meu pai era Lúcifer e nós os seus demônios para atormentar o mundo da pior forma que pudéssemos.
Suspirei e bebi mais para tirar os pensamentos obscuros da minha mente.
A conversa das garotas ia de falar dos barmans a quanto tinha se superado na decoração da festa, confesso gostar mais do segundo tópico. Luna voltou com Carolyn e as duas sentaram, entraram na conversa e eu só queria uma companhia que conversasse sobre algo além de homem. Tentei me distrair olhando o movimento e as garotas dançando no palco.
— Você tem um ótimo gosto para homens, . — Ouvi Carolyn comentando e voltei a minha atenção à conversa pensando quando foi que tinha chegado nisso de novo.
— Nós duas temos, eu e temos uma longa lista de ficantes em comum. — Giovanna riu e bebeu do seu drink.
— Vocês duas eram o terror do ensino médio, isso sim — Giulia comentou rindo.
— Todos os garotos queriam ficar com elas — Luna disse animada, olhando para a francesa, como se contasse a melhor notícia de todas.
— Às vezes eles queriam nós duas… juntas. — Coppola gargalhou e balançou a cabeça em negativo, servindo o que eu acreditava ser sua quarta dose. Ela ficaria bêbada mais rápido do que a festa iria durar desse jeito.
— Principalmente depois que vocês se beijaram na festa de comemoração da final do jogo do intercolegial… — Lu começou.
— Na frente de todo mundo! — Giulia finalizou a frase da irmã. — Foi ali que vocês se tornaram as rainhas da escola.
— Não gostava desse título… — comentou, com os olhos vidrados na mão da loira ao meu lado, que não cansava de passar a mão em mim.
— Por que não, ? — Carolyn perguntou de forma interessada e até um pouco ácida, atraindo os olhos verdes para a loira e eu apenas peguei meu copo e dei um longo gole, prevendo que não poderia sair nada de bom dessa conversa. — O sonho de toda garota era ser popular na escola. Não tive essa sorte, infelizmente.
— Não o meu — ela respondeu seca, com o olhar cerrado. — Não costumo gostar de ser o centro das atenções só para inflar o meu ego.
— … — Giovanna olhou para a amiga com uma clara confusão do motivo de ela estar sendo tão ríspida com Carolyn.
Talvez eu tivesse uma ideia do porquê, nem deveria cogitar essa hipótese, porém mais ninguém daquela mesa sabia ou poderia sequer sonhar em saber se fosse o que eu percebia: ciúmes.
— Não liga, Lyn, a é assim — Luna soltou e eu apenas fechei os olhos balançando a cabeça em negativo.
Quando eu os abri, vi terminando de virar sua dose e batendo o copo na mesa, eu nunca tinha visto tão puta na minha vida. Talvez no dia que eu a tranquei no alçapão do porão quando eu tinha 17 anos, nesse dia ela ficou bem irritada comigo. Foi a primeira vez que meu pai me bateu com um pano molhado, fiquei roxo por semanas. Ela levantou e saiu da mesa, olhei para Luna, que murchou no mesmo momento. Seguiu-se aquele silêncio constrangedor e todo mundo sem coragem de falar alguma coisa.
— Pelo menos dessa vez não fui eu. — Dei de ombros.
— O que aconteceu? — Beatrice chegou na mesa perguntando. — passou por mim irritadíssima. — Ela olhou para mim. — O que você fez dessa vez?
— Por incrível que pareça, maninha, não fui eu. — Sorri erguendo o copo em um falso brinde e bebi do líquido âmbar.
Eu olhei em direção ao bar e vi falando com Christian, o novato também prestava atenção no que ela dizia e assentiu para algo. Eu queria muito ir falar com ela, queria dizer para se acalmar e deixar a Luna ser ela, não adiantava nadar contra a maré, ela era assim, sempre queria agradar as pessoas de um jeito ou de outro. Era a única que sentia falta das irmãs já que não conseguia ter muitos amigos, era só ela e o Leo na confeitaria. Por mais que ele fosse um grande amigo da Lu, não era o suficiente para suprir a carência dela.
Giulia explicou o que tinha acontecido e Beatrice apenas revirou os olhos e disse:
— Isso é estresse, deixa ela…
— Não quero estragar a noite da — Luna disse, mordendo o lábio em nervosismo.
— Quer ir falar com ela? — Beatrice perguntou.
— Vamos precisar de testemunhas caso aconteça um massacre — Giulia comentou.
— Não piora a situação, maninha — alertei Giu, que me olhou fazendo uma careta.
— Bom, eu vou ajudar os rapazes no bar. — Giovanna levantou e deixou a mesa.
— Vamos logo, Lu, senão você vai ficar com essa cara de cu a noite toda. — Beatrice foi a próxima a levantar, seguida das gêmeas.
Suspirei. Nossa família era drama atrás de drama. Revirei os olhos e peguei meu copo a fim de dar um gole. Carolyn cruzou as pernas, colocando uma delas entre as minhas, virei o rosto para ela, que me olhava bem de perto, com os lábios próximos, o olhar sedutor e toda a linguagem corporal de que queria ser fodida no banheiro.
— Queria esquentar as coisas também, mas de um jeito diferente, . O que me diz?
Eu estava em uma sinuca de bico, se eu negasse ia sair como impotente, se aceitasse, pela primeira vez na vida, estava com medo do meu pau não subir por culpa da indomável, fiquei nesse dilema interno até chegar no banheiro. Carolyn me empurrou para dentro de uma das cabines do banheiro masculino, já me beijando. Não estava ruim, mas não era a , e só de pensar nela a minha ereção começou a se formar. Por que não? Ela sorriu safada antes de começar a descer e abrir a minha calça. Apoiei minhas mãos na cabine e fechei os olhos, pensando no dia que tive o prazer de foder com meus dedos, meu pau chegou a pulsar quando foi libertado da cueca, tamanho desejo.
— Você é imenso, … — a voz luxuriosa soou e, puta merda, parecia a porra de um filme pornô de baixa qualidade.
Agarrei a cabeça dela e me coloquei para dentro, impedindo que ouvisse a voz dela e estragasse a minha imaginação, que era a única coisa que estava me mantendo com tesão. Pendi a cabeça para trás aproveitando o boquete, imaginando que eram os lábios rosados de Alonso que me molhavam por toda extensão. Infiltrei meus dedos pelo cabelo de Carolyn e fodi aquela boquinha pensando em ; eu era um puta de um cretino.
Alonso Perroni
Luna estava me irritando e não era de hoje, desde que aquela mulherzinha entrou na nossa casa, Lu a tratava como se ela já fosse da família. Eu estava nervosa por causa do estado do Vince, preocupada se a gente ia dar conta da festa sem ele, pensando se a Giovanna estava mesmo tão bem quanto tentava demonstrar. Além de tudo isso, tinha que lidar com a futura primeira dama da Vincere na minha noite de diversão.
Mulherzinha prepotente.
Pedi para Cristian preparar um martini duplo para mim, Juan acabou ouvindo e disse que iria prepará-lo. Enquanto esperava, cumprimentei alguns clientes que iam com frequência na boate e que estavam no balcão, perguntei se estavam se divertindo e se tudo estava nos conformes.
Giovanna chegou ao meu lado de repente e cochichou:
— Lá vem intervenção…
Olhei para a frente e vi minhas irmãs caminhando em direção ao bar. Ah, que merda! Luna tinha a cara mais culpada de todas, Giulia continuava impassível, como sempre, e Beatrice apenas olhou para mim e apontou o banheiro com o queixo. Olhei para cima pedindo para Deus maneirar no meu purgatório, pois tava um pecado atrás do outro pra pagar, desse jeito teria que colocar no crédito. Juan me deu a taça e eu agradeci, dei um gole generoso e larguei na mão de Giovanna o restante.
— Preciso resolver esse assunto.
— Sim, senhora. — Ela ia fazer uma continência, mas eu segurei seu pulso.
— Não pegue a mania deles, não sou general de guerra. — Caminhei a passos firmes até o banheiro feminino e entrei, vendo as gêmeas num canto e a ruiva encostada na bancada da pia. — Reunião no banheiro agora?
— O que tá acontecendo, hein, ? — Beatrice indagou.
— Sobre o que estamos falando exatamente? — Franzi o cenho.
— Desde que a candidata à esposa perfeita chegou você está… diferente — Giulia começou.
— Além de ter sido uma vaca com a Luna.
— Não fui nada com a Lu, ela só precisa parar com essa síndrome de boazinha. — Tirei meu batom da bolsa e me aproximei do espelho. — A mulher tá aqui não faz nem 1 mês e a Lu só falta estender o tapete vermelho. — Retoquei o batom e olhei para a Luna, que já tinha lágrimas nos olhos. — Cazzo…
— Não precisava disso, . — Giulia estalou a língua enquanto abraçava a irmã.
— Vocês duas pensam a mesma coisa! — Apontei para Bea e Giu.
— Você tá sendo uma figlia di puttana, sabe disso, não é? — Beatrice aumentou a voz.
— Ótimo, estou sendo o que eu sempre soube que era. — Sorri amarga.
— Vocês já pararam para pensar do porquê eu ser assim?! — Luna deu alguns passos para frente. — Não, né? Estão ocupadas demais com a vida medíocre de vocês. Tudo é trabalho… — Ela passou o dorso da mão em seu rosto para limpar as lágrimas. — Giu perdeu o coração há tempos, quando assumiu a segurança digital, Beatrice virou uma cadela sem alma, só vive enfurnada no laboratório escondendo sua vida pessoal da gente.
— Ei! — Beatrice cruzou os braços, chateada e Luna andou até mim e eu respirei fundo, esperando para engolir seja lá o que ela diria de mim.
— E você, irmã, dona da grande boate de Madri, vive na noite se achando especial por isso e transa com seus barmans nas horas vagas para não se sentir tão vazia! — Engoli em seco e eu nem vi aquela confissão de Luna vindo, não esperava isso dela. — Obrigada pela noite, estou de saída.
Ela saiu do banheiro pisando duro, Beatrice e Giu saíram correndo atrás dela e eu fiquei lá, que nem uma estátua tentando processar as palavras ácidas da minha irmã. Virei para olhar meu reflexo, notei a lágrima solitária que descia e percebi que ela não estava tão errada assim. Peguei uma toalha de papel e sequei meu rosto, respirei fundo e tomei fôlego para encarar o resto da noite, que eu nem sabia se teria minhas irmãs ainda ali. Empurrei a porta e fui abraçada pela música alta, suspirei tentando ser racional e me manter estável para aguentar o evento até o fim, mas ao olhar para o lado, fiquei sem acreditar. saía do banheiro masculino e Carolyn saiu logo atrás, ele ficou surpreso ao me ver ali freando os pés e ela passou por ele e logo por mim com um sorrisinho nos lábios, e eu ri desacreditada olhando para cima.
— Claro… — Virei as costas, mas não dei nem dois passos e senti meu braço ser agarrado.
— , espere. — Virei para trás, encarando no fundo dos olhos de e esperei ele dizer algo. — Não é o que está pensando…
— E por que eu estaria pensando algo? — Uni as sobrancelhas e tombei a cabeça para o lado. — Não tem por que me explicar o que faz no seu tempo de diversão, irmão. — Franzi o cenho e pela primeira vez o chamei pelo que ele infelizmente era.
Ele me puxou para mais perto quando passou um homem em direção ao banheiro e sussurrou em meu ouvido:
— Sabe do que estou falando…
— Não, não sei, . Não sei mesmo… — Tirei meu braço do seu aperto e sorri. — Boa sorte no casamento. — Caminhei até a parte interna do bar, coloquei dois copos de doses no balcão e servi tequila nas duas, passou olhando para mim e eu ergui os dois em direção a ele antes de virar. Contudo, nem o álcool foi o suficiente para me fazer sentir melhor. — Que noite de merda… — sussurrei.
— Posso ajudar em alguma coisa, ? — Ouvi a voz rouca atrás de mim e curvei o canto dos lábios, olhei para trás e vi o par de olhos negros me encarando.
— Talvez você possa, Juan.
Aproveitei que seria a pausa do DJ e peguei o microfone, Cristian me deu a mão e então subi no balcão, fazendo todos olharem para mim.
— Buenas noches! Eu sou Alonso, dona da Fascino e quero agradecer a presença de todos. — Todos me aplaudiram, gritaram e me chamaram de gostosa. — Muito obrigada. — Pisquei o olho direito e sorri. — Tenho um desafio para lançar para vocês, terão um shot de tequila de graça quem arrumar um parceiro e lamber o sal na barriga dele ou dela e chupar o limão da boca do escolhido. — A galera gritou animada, então olhei para onde estava sentado com a inconveniente a tiracolo e sorri travessa por ter os olhos dele atentos a mim. — Vou exemplificar para vocês. Juan, pode me ajudar aqui… — Cristian me pegou pela cintura e me colocou no chão enquanto Alvarez tirava a blusa e deitava no balcão do bar.
— Tem certeza que isso é uma boa ideia? — Cristian cochichou em meu ouvido e eu sorri para ele.
— Tem uma fila de gente lá fora querendo entrar aqui, Cris, acredite, não faria se não pudesse. — Entreguei o microfone para ele e servi a dose de tequila.
Peguei um banco e me ajoelhei nele para poder ficar em uma boa altura. Derramei o sal no tanquinho gostoso de Juan, que me olhava sorrindo de maneira libidinosa e peguei uma fatia de limão e coloquei entre seus lábios. Apoiei-me no balcão, lambi devagar o sal do abdômen sarado, virei a dose de tequila e então peguei o limão da boca dele, dando uma passada de língua em seus lábios no processo. Meus clientes foram à loucura, gritavam sem parar, então pedi o microfone para o ruivo de novo.
— Quem é o próximo? — Sorri triunfante enquanto podia ver o ódio que tomava a face do idiota.
Capítulo 13
Alonso Perroni
Definitivamente a ressaca moral era pior do que a dor de cabeça que eu estava sentindo. O que merda eu fiz ontem? Subi em cima do balcão do bar, lambi o abdômen do meu funcionário na frente de toda a boate, briguei com a Luna a troco de nada e não lembrava como tinha chegado em casa. Olhei para o lado e gritei, caindo da cama, levantei do chão e espiei pela beirada do colchão.
— Tá louca, ?
— Giovanna… — Coloquei a mão no peito agradecendo mentalmente por ser ela, já estava pensando que tinha cometido alguma loucura.
— Que horas são? — ela perguntou e eu peguei o celular na mesa de cabeceira e olhei no visor.
— São 14:53.
— Maravilhoso dormir até as 15 da tarde. — Ela se espreguiçou na cama. — E seu colchão é muito melhor que o meu…
— Como chegamos? — Levantei do chão e sentei na cama novamente. — Depois do show que eu dei, não lembro de nada.
— Seu show nos rendeu muita gente bêbada, muita droga vendida e muito mais dinheiro para o nosso caixa. — Ela sorriu e se ajeitou, sentando na cama e pegando seu celular. — Ettore e Austin me ajudaram a colocar você no carro e nos trouxeram.
— E você me trocou? — Olhei para baixo percebendo o pijama.
— Eu dei banho em você, . — Ela riu. — Nunca vi você bêbada daquele jeito, você estava irredutível dizendo que precisava se arrumar pra guerra, eu não entendi nada.
Automaticamente lembrei dos olhos de em mim na noite anterior, era tudo que vinha à minha mente, aqueles olhos soturnos, me encarando com um ódio diferente do usual de quando irrito ele por algo que ele acha ser inconsequência minha.
— Poderia me explicar? Agora que está sóbria… — Ela me tirou dos meus pensamentos.
— Não faço a mínima ideia. — Levantei e fui para o banheiro, quando voltei a loira seguia mexendo no celular. — Ei, quer que eu peça pra Marta trazer o almoço?
— Podemos? — Ela me olhou como uma criança que vai ganhar um presente e eu ri, pegando meu robe de cetim e o vestindo.
— Eu já volto, vou trazer água e uma aspirina antes que eu prefira pular da varanda do que enfrentar essa dor de cabeça. — Abri a porta do quarto e a fechei antes de sair.
Caminhei pelo corredor e, através das grandes janelas de vidro, vi as minhas irmãs na piscina, parei por alguns segundos e suspirei. Precisava me acertar com Luna, não foi justo o jeito que falei com ela e acredito que ela esteja certa, nós três sempre estamos ocupadas demais. Desci os degraus e fui até a cozinha, pedi para Marta levar algo pra eu e Giovanna almoçarmos enquanto pegava uma jarra de água gelada e um pote de aspirina. Pedi também um suco de melancia, sabia que iria ajudar na ressaca.
— Bom dia. — Olhei de canto de olho, já sabendo a quem aquela voz pertencia. — Está com raiva de mim?
Ele se fez de bom moço na frente dos empregados, claro, típico. Virei para ele e dei um sorriso falso.
— Bom dia, — falei antes de sair da cozinha e ir em direção à boa paz do meu quarto.
— … — Ouvi sua voz quando já estava no meio da escada, fechei os olhos soltando o ar pelo nariz e virei. — Precisamos conversar.
— Não lembro de ter nenhuma pendência com você. — Olhei pra cima fingindo pensar em algo.
— Estava interessada em ter alguns dias atrás… — me comeu com os olhos e senti meu corpo esquentar de uma hora pra outra.
— … — Ouvi a voz abusada, que piorou o estado da minha dor de cabeça, e sorri debochada para ele. — Nosso lanche está pronto na piscina. — Carolyn chegou próximo dele se agarrando em seu braço. Patética. — Boa tarde, . — Meneei a cabeça e subi o restante dos degraus, entrei no quarto e Giovanna virou, me encarando enquanto colocava uma camiseta minha.
— Tá tudo bem? — Ela franziu o cenho e eu nem sabia que expressão eu estava fazendo, mas sabia que seja lá o calor que me acometeu antes se tornou automaticamente de raiva, tentei disfarçar curvando os lábios.
— Está. — Caminhei até o aparador no canto do quarto e larguei a jarra, peguei dois copos, que já ficavam ali, servi a água e tomei uma aspirina. — Marta disse que em 15 minutos a comida estará aqui. — Dei outro copo a Coppola e um comprimido.
— Obrigada, . — Ela pegou o copo e tomou o remédio, dei a volta na cama e deitei novamente em meu lugar, pegando meu telefone em seguida. — Eu vou precisar ir embora depois de almoçar…
— Aconteceu alguma coisa?
— O Vince mandou mensagem… — Ela abaixou os olhos e isso já me deixou ansiosa esperando o que ela iria dizer. — Ele pediu para eu ir até o hospital.
— Giovanna — mordi o lábio em nervosismo e a abracei —, não vai ser nada. Ele deve receber alta do hospital e quer sua ajuda.
— Espero que esteja certa.
[...]
E o que a gente mais temia aconteceu, Vincenzo tinha despertado a doença de Gaucher e Giovanna tinha ido ficar com ele no hospital, eu dei licença para os dois, o tratamento era difícil e seria bom ele ter Coppola do lado. Depois de saber do diagnóstico, me tranquei no escritório da boate, mal parava em casa, trabalhava até a exaustão, estava bebendo mais do que o normal – que já era muito –, e tentando não surtar com meu melhor amigo no hospital, minha melhor amiga triste e um casamento arranjado na família de brinde. Apoiei meus cotovelos na mesa e respirei fundo passando a mão pelo rosto, eu estava exausta, estressada e preocupada, o melhor combo para a ansiedade.
Eu estava um caco.
Decidi sair daquele escritório, ele começou a me parecer sufocante, sentei no banco alto pedindo para Cristian preparar um martini para mim. Sentia falta dos meus melhores amigos, sentia falta de me sentir bem e feliz com a minha vida.
— Certo, eu sei que parece loucura, mas sinto que precisa de ajuda por aqui…
Escutei aquela voz conhecida quando dava um gole em meu drink e virei a cabeça devagar, com minha taça ainda no ar, vendo Beatrice parada na entrada da boate. Franzi as sobrancelhas e ela caminhou até mim, sentando no banco ao meu lado.
— Outro desse aqui, ruivinho.
— Pode deixar, ruiva. — Garcia piscou para ela e se virou para preparar a bebida.
— O que está fazendo aqui? — perguntei, confusa com a presença dela, e coloquei minha taça no balcão.
— Eu te ajudei no começo, posso te ajudar agora. — Ela sorriu empinando o nariz. — Ainda lembro dos velhos tempos que a gente comandava isso aqui… até, claro, a Giovanna roubar meu lugar. — Beatrice torceu os lábios me recriminando.
— Beatrice, não fode, a Giovanna é formada em gestão e você em química. — Estalei a língua e dei mais um gole em meu drink. — Não fazia o menor sentido você continuar aqui…
— Eu estou brincando, , credo! — Ela revirou os olhos e eu virei o resto do líquido, pedindo mudo para Cristian fazer mais um. — Eu sabia que você não estava bem… — Olhei para ela de canto de olho. — Estou preocupada, , todas nós estamos.
— Achei que eu fosse só uma filha da puta tentando preencher o vazio trepando com meus barmans… — falei com amargor, e Cristian me olhou piscando os olhos várias vezes, surpreso, enquanto colocava as duas taças no balcão. Apenas balancei a cabeça em negativo, para ele relevar aquilo e o ruivo virou para continuar seu trabalho.
— … — Beatrice suspirou e continuou: — A gente te ama, você sabe disso. Está evitando ficar em casa por causa das gêmeas?
— Não, Beatrice, só não estou com cabeça para lidar com o drama matrimonial na nossa família enquanto meu melhor amigo está internado.
— A gente sabe sobre o Vincenzo. Por favor, venha para casa hoje. — Minha irmã me encarou com aqueles olhos brilhando, cheios de honestidade, e eu respirei fundo.
Beatrice sempre foi a mais explosiva de nós, mas também era a que mais nos unia, a que mais nos protegia na escola. Por mais que eu fosse a mais velha, sempre fui muito na minha, sempre fui a que evitava discussões, até chegar na mansão. Ele me tirava do sério de um jeito que ninguém mais conseguia, as minhas irmãs ficaram chocadas quando eu discuti a primeira vez com ele. Claro, eu era centrada, sempre fui, porém, ele conseguiu despertar o monstro que vivia no fundo de mim, algo que eu guardava e nem sabia. Acreditava que a raiva que eu sentia de ter sido abandonada pela minha mãe sempre tivesse ficado contida, no entanto, o idiota fez questão de trazer isso à tona.
me chamou de órfã, que meu pai tinha me comprado, e aquilo doeu, doeu como o inferno. Eu parti para cima dele, rolamos no chão trocando socos e chutes, e quando papai viu aquilo, foi definitivo. Ouvi os gritos de à noite, não sabia o que Otelo tinha feito com ele, mas no dia seguinte eu vi as marcas em seus pulsos, algo que só um cinto ou algo pior poderia ser capaz de fazer. Me lembro da sensação que tive naquele momento, senti pena dele, mas foi a única vez, éramos apenas adolescentes e ele tinha sido tirado da mãe dele, que foi quem o criou, não imagino o tamanho do sofrimento que ele sentiu com tudo aquilo, mas isso não era desculpa para ser babaca.
— A gente precisa conversar e se entender, somos família, . — Levei os olhos, que estavam fixos na azeitona fincada pelo palito que eu mexia entre meus dedos, até ela e assenti concordando. — Vou voltar para a Fascino para ajudar você.
— De verdade, Bea, não precisa… eu dou conta.
— Eu sei que dá, mas eu quero. Cansei de ficar trancafiada no laboratório. — Ela virou o drink e levantou. — Te espero em casa às 19.
— Pela sua cara será uma longa noite… — Juan se aproximou quando minha irmã foi embora, trocando a minha taça vazia por uma cheia.
— Você não imagina o quanto. — Murchei os ombros. — Eu amo minhas irmãs, mas o drama que ronda nossa família me deixa exausta.
— Toda família tem questões difíceis, .
— A minha parece um buraco negro deles… — Suspirei dando um gole na bebida. — E por mais que você tente se manter longe, eles te sugam para o centro do problema.
— Caso precise se distrair, conheço algumas formas…
— E que formas seriam essas? — Sorri libidinosa e ele me encarou sugestivo, abaixou lentamente, se debruçando no balcão, mas antes que ele pudesse responder, Cristian surgiu novamente, fazendo com que eu levantasse e ergue-se a taça em agradecimento, indo para o escritório.
Saí da boate por volta das 19:45, eu sabia, eu estava atrasada, já tinha recebido 4 ligações de Beatrice e ignorado todas. Porra, eu tava indo pra casa, custava esperar? Desci do carro e inclinei meu corpo para pegar minha bolsa que estava no banco do passageiro, quando meu braço foi puxado. Arregalei os olhos virando com rapidez para ver quem era e relaxei.
— Caralho, Beatrice, quer me matar do coração? — falei mais alto, soltando o ar com força pela boca.
— Está atrasada…
— Eu sei, precisei deixar tudo funcionando na boate, deixei o Cristian para supervisionar e não sei se isso foi uma boa ideia. — Peguei a bolsa, fechei a porta do carro e acionei o alarme.
— Não confia nele? — Caminhamos para dentro de casa, larguei minha bolsa e olhei para ela suspirando.
— Confio, claro que confio. — Segui até o bar da sala de jantar e preparei um martini. — Estou receosa e nervosa, deve ser a falta da Giovanna.
— Amanhã eu estarei lá. — Ela sorriu, animada e me guiou até a área da piscina..
— Não achei que estaria tão… — Olhei as gêmeas sentadas na grande mesa de madeira, tinha várias comidas em cima dela, velas e pisca-pisca por todo lado. Sorri com as lembranças que me invadiram, quando fazíamos aquilo na adolescência e ficávamos horas conversando e nosso pai gritava do segundo andar para irmos dormir. — Não acredito que fizeram isso.
— Desculpa, . — Luna foi a primeira a me abraçar.
— Eu que devo desculpas, sorella, agi com uma stronzo. — Beijei o topo da cabeça dela e afastei-me para olhá-la nos olhos. — Deveríamos nos reunir mais vezes. Você está certa, estamos tão focadas no trabalho que esquecemos o que realmente importa no fim do dia. — Olhei para Giu e Beatrice, que sorriam. — Venham cá! — Abri os braços e nós quatro nos abraçamos. — Vamos ter ao menos um dia da semana em que vamos fazer isso… Como nos velhos tempos. — Elas sorriram concordando.
A gente precisava mesmo daquela noite. Com tudo resolvido eu me sentia um pouco mais eu novamente, um pouco mais parte dessa família e feliz por ter minhas irmãs mais unidas de novo. Luna, Giu e Beatrice são meu mundo, são as melhores pessoas nele e eu jamais queria perdê-las ou ficar brigada por uma coisa tão estúpida. Eu estava fora de mim no dia da festa, o estresse em arrumar tudo, a pressão toda nas minhas costas e aquela mulher candidata a esposa perfeita me irritava.
Realmente as responsabilidades e preocupações podem fazer a gente se comportar de formas esquisitas e eu sentia que aquela noite com elas tinha melhorado não só o meu dia, mas meu mês. Elas eram o melhor de mim, eu tinha certeza disso. Sorri enquanto colocava o roupão atoalhado após sair do meu banho, caminhei pelo quarto, iluminado apenas pela luz do closet, até a mesa de cabeceira, abri a gaveta e tirei uma carteira de cigarro que ficava ali para emergências. Peguei o isqueiro e abri as portas duplas da minha varanda, acendi o cigarro e me debrucei no guarda corpo aproveitando a brisa fresca que arrepiava meu corpo.
Respirei fundo aproveitando o momento e olhei para o céu, pedia ao hipotético Deus que tirasse Vincenzo dessa, que ele conseguisse viver com essa maldita doença até os 100 anos, eu e Giovanna não podíamos perdê-lo. Éramos um trio desde a escola, não aceitaria que a morte o tirasse de mim.
Ouvi risadas e franzi o cenho, olhei para a esquerda, onde tínhamos uma piscina menor com hidromassagem, vi três silhuetas, já que a piscina era iluminada apenas pelas luzes internas dela. Arregalei os olhos quando vi os três se pegando de um jeito bem sensual, não podia deixar a minha curiosidade ganhar a discussão que estava em minha mente naquele momento: ir lá embaixo ver quem eram as pessoas. Terminei o cigarro e entrei no quarto fechando as portas atrás de mim, mordi o lábio e olhei para cima, se eu fosse pegar água na cozinha e por acaso eu passasse pela piscina dos fundos?
— Quando foi que me tornei uma pessoa a ter 0 autocontrole, porra.
Caminhei a passos lentos pelo corredor, sentindo que eu estava fazendo uma coisa muita errada, desci a escada e fui direto até a cozinha, servi água em um copo e fiquei andando de um lado para o outro dando pequenos goles na água e pensando no quanto eu estava sendo enxerida. Era melhor eu só voltar ao meu quarto. Dei alguns passos em direção à escada principal, mas ouvi vozes que eu conhecia bem: aquela indevida que se instalou na minha propriedade e o idiota. Acabei fazendo a volta e saindo pelos fundos, soltei o ar aliviada por não ter que esbarrar com aqueles dois de madrugada, seria péssimo. Naquele momento me vi muito perto da piscina.
— , se controla, você consegue… — Fechei os olhos e fui em direção à escada dos fundos sem espiar pelas janelas, mas o que eu não esperava era escutar um nome.
— Ah, Luna… — Abri os olhos em espanto ao ouvir o gemido, voltei alguns passos e me aproximei do vidro, tirando a cortina da frente e minha boca se abriu em absoluto choque.
[...]
Eu sentia o olhar de em mim mesmo não olhando para ele, a porra da mulher que ele vai casar tá sentada do lado dele, mas Carolyn está muito iludida ou caída de quatro pelo idiota pra notar qualquer coisa. No entanto, isso não vinha ao caso, estava ansiosa e bem mais preocupada em contar pra Beatrice o que eu tinha visto, fazia 2 dias que guardava em minha mente aquilo, não podia mais, tinha chegado no meu limite.
Luna era a mais inocente de nós, pelo menos era isso que eu pensava, ela estava mesmo transando não com um, mas com dois dos nossos soldados. Eu não queria ter que participar dessa confusão caso o nosso pai descobrisse, céus, ele mata os dois e pendura na fonte da frente de casa para servir de exemplo para os outros soldados. Era um segredo muito sombrio pra guardar só pra mim.
— Beatrice, vamos? — Sorri simpática tentando disfarçar minha urgência em ficar a sós com minha irmã, agradeci quando ela apenas assentiu. — Tenha um ótimo dia, papai. — Otelo beijou minha testa e logo depois a de Beatrice.
— Tenham um ótimo dia, princesas.
Como já estávamos de costas, Beatrice fez careta, ela odiava que ele nos chamasse assim, comecei a rir e a puxei pela mão. Sussurrei que precisava contar uma coisa, mas não sem um drink antes, seria necessário. Entramos no carro e dirigi para a Fascino com certa pressa. Entrei já pedindo para Juan fazer dois martinis, ele tinha aprendido rápido, Cristian estava ensinando os drinks que mais saíam da casa para ele poder ajudá-lo enquanto Vincenzo não estava de volta. Nós duas sentamos nas banquetas e a ruiva me analisava interrogativa. Assim que os drinks estavam à nossa frente, dei um gole e olhei para ela.
— Não vai beber? — perguntei.
— Desembucha, !
— Credo… — Aproximei-me dela e cochichei. — Vi a Luna aos beijos com Ettore e Austin.
— O QUÊ?! — ela gritou e mantinha os olhos arregalados.
— E antes fossem só beijos. — Dei mais um gole generoso do líquido e vi ela virar o drink dela inteiro.
Agora sim, a reação que eu esperava, ainda bem que eu sabia que o álcool seria necessário, antes ou depois da informação.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos e então finalmente falou:
— Quem corrompeu a Luna?
— Acho que ninguém precisou, Beatrice. — Levantei a taça vazia olhando para Juan e ele assentiu. — Ela é adulta. — Olhei para a ruiva, que continuava em absoluto choque, estava pior do que eu que vi ao vivo.
— Mas se o papai…
— Eu sei. Foi a primeira coisa que pensei, eu gosto deles e gostaria de manter os meus seguranças. — Massageei a têmpora buscando uma solução para resolver aquele impasse. Juan trouxe mais duas taças cheias e pegou as vazias. — Obrigada, Alvarez.
— Disponha, chefe. — Ele sorriu e piscou para mim, então me distraí olhando as costas largas, lembrando daquele lobo imenso tatuado, os músculos deixavam o desenho ainda mais bonito.
— Eu quero conversar com a Lu a respeito. — Sacudi levemente a cabeça e voltei à conversa antes que me perdesse em pensamentos depravados com meu novo barman. — Se for só diversão, ela precisa parar imediatamente se não quiser que os dois tenham as suas cabeças expostas na fonte de casa…
— E elas não vão estar juntas do corpo — Bea complementou.
— Definitivamente, não. — Suspirei, estava aliviada de ter falado para alguém ou ia explodir em ansiedade, assim que vi Cristian surgir pelo arco da porta dos fundos me calei.
— Boa tarde. — A voz grossa soou.
— Oi, Cris, boa tarde! — Sorri para ele.
— Que bom que está aqui embaixo , preciso falar com você.
— Claro. Diga…
— Minha irmã… Ela quer voltar a dançar aqui. — Beatrice se engasgou e eu olhei pra ela franzindo a testa sem entender, ela sorriu sem graça se limpando com um guardanapo.
— Ela que resolveu me abandonar, Cristian, e agora quer voltar? — Voltei a olhar para ele e cruzei os braços bufando.
Anita era uma das minhas melhores dançarinas e do nada ela pediu para sair da boate, eu não entendi o porquê e nem muito menos ela me explicou. Aquilo tinha sido completamente inusitado, ela ganhava tanta gorjeta que tirava mais que o seu salário em si, a loira mandava bem e faturava uma grana, pois sabia rebolar aquela bunda gostosa muito bem. Nunca me envolvi com nenhuma das dançarinas, mas eu abriria exceção pela Anita, porém, já tinha deitado e rolado com o irmão dela algumas vezes, acho que seria no mínimo estranho.
— Só peço que converse com ela, por favor? — O ruivo, me olhando com aqueles olhos verdes, conseguia me deixar mole, que merda.
— Tudo bem, mande ela vir. — Levantei do banco e peguei minha bolsa. — Hoje, Cristian.
— Sim, chefe. — Ele fez continência e eu revirei os olhos, voltei-me para Beatrice, que tinha uma expressão esquisita no rosto.
— O que houve? Viu um fantasma?
— Quê? — Ela pareceu ter voltado a si naquele momento e eu estranhei toda a reação dela.
— Está pálida, Bea.
— Ah, não sei, acho que o álcool não me desceu bem depois do almoço.
Cerrei os olhos e abri levemente a boca. Desde quando Beatrice tem problema para beber em qualquer momento do dia? Aquilo estava estranho. Olhei para Cristian, que apenas deu de ombros, tão no escuro quanto eu. Esse era mais um mistério da minha irmã do meio para desvendar e eu com certeza iria. Estava cansada de ter a minha vida tão escancarada para todos e a Bea conseguir manter tudo em sigilo absoluto.
— Vamos subir, temos muito o que resolver.
Capítulo 14
Perroni
O destino realmente gosta de dificultar as coisas, ter me pegado saindo com a Carolyn do banheiro foi uma merda, uma ironia filha da puta se quer saber. Depois daquela cena toda com o novo barman me deixou a ponto de jogar tudo para cima e beijar ela ali, na frente de todo mundo, só para mostrar que ela me pertencia e que quem a tocasse eu arrancaria os dedos. Entretanto, controlei minha raiva o máximo que deu, mesmo depois de chegar em casa e arrumar uma desculpa para dispensar Carolyn e conseguir ir para o meu quarto sozinho, não conseguia deixar de me questionar se já tinha dormido com o tal do Juan.
Até tentei conversar com ela no dia seguinte, mas fui ignorado com sucesso e atrapalhado por Carolyn, que me arrastou até a área da piscina para comer. Já fazia alguns dias que eu sentia falta de estar sozinho, em silêncio, de só ter seguranças ao meu redor que só falavam quando eu permitia.
Eu estava tentando pelo meu pai, eu entendia sua preocupação, mas eu poderia achar outra mulher capaz de se casar comigo apenas pelo luxo, poderia até fazer um contrato. Balancei a cabeça em negativo, o que eu estava pensando? Fazer igual ao meu pai? Talvez minha mãe estivesse certa e eu tivesse me tornando igualzinho a ele. E no momento eu parecia ainda mais com Otelo, sentado em um restaurante caro, com uma mulher que nem consegue me despertar tesão porque a estragou a porra do meu pau. Ela quase implorou durante 1 semana por um jantar, vivia falando do restaurante como se fosse a melhor coisa a se fazer em Madri, então decidi ceder, talvez fosse algo bom. Eu precisava tentar mais um pouco, se meu pai quisesse que eu fizesse um filho nela para me deixar em paz, que fosse.
— Gostou do restaurante? — Carolyn me perguntou.
— Sim, agradável. — Dei um gole no whisky, que bebia enquanto esperávamos o jantar. — Pretende visitar seu pai no fim do ano?
— Não sei, . Talvez ele nem esteja em Paris… meu pai viaja muito.
— Passava as festas sozinha?
— Não, tenho uma tia que me adora e sempre fazia questão de me dar uma infância e adolescência normais, mesmo que meu pai não estivesse lá para ver. — Vi ela abaixar os olhos, sentida enquanto falava aquelas palavras amargas, suspirei pensando que talvez eu estivesse sendo duro demais com ela e precisava ser mais gentil.
Me forçar a fazer o básico com uma mulher estava difícil ultimamente.
— Sinto muito por isso.
— Eu fui feliz, sentia falta do meu pai, mas a tia Camille sempre esteve lá por mim.
O jantar chegou e comemos conversando, mais ela falava do que eu, porém era até interessante o modo como ela via a vida, querendo ser livre e conhecer o mundo. Seu pai parecia ter treinado ela para assumir o legado que ele construiu na França, história bem parecida com a minha, talvez meu pai tivesse razão e ela era a mulher ideal pra mim.
Quando chegamos na mansão já era madrugada, depois do restaurante acabamos indo até uma boate, bebemos mais e eu estava um pouco alterado, sorte a minha que pedi para Filippo ser o motorista naquela noite. Carolyn disse estar com fome, então fomos até a cozinha, eu abri a geladeira e tirei algumas coisas.
— Você cozinha? — ela perguntou, erguendo-se para sentar na ilha.
— Sim, minha mãe fez questão de me ensinar a me virar sozinho. — Cortei um pedaço de pão, passei azeite e coloquei na frigideira de ferro para dourar. — Acabei por tomar gosto pela gastronomia.
— Acho sexy um homem que cozinha… — A voz dela saiu aveludada, sedutora.
Eu estava de costas para ela e automaticamente veio o rosto de em minha mente.
Caralho.
Continuei cozinhando, cortei alguns tomates cereja pela metade e fatiei a cebola roxa a julienne, cortei algumas fatias finas de abacate, coloquei por cima da torrada quente, a vinagrete foi em seguida e finalizei com uma folhinha de salsinha. Peguei o prato e coloquei no tampo de mármore da ilha, bem ao lado do quadril dela.
— Prontinho, aqui está.
— Obrigada, chefe.
Ela sorriu e colocou a mão em minha nuca, seus dedos deslizaram para cima e para baixo na minha pele, fechei os olhos e acho que a bebida ajudou nas sensações e meu pau finalmente deu sinal de vida. Subi a mão pela coxa dela, infiltrando-os por baixo do vestido apertado, ela me puxou para mais perto e acabou com a distância dos nossos lábios. Desci beijos pelo seu pescoço e cheguei em seu ombro, mordendo-o, fazendo com que ela soltasse um gemido sôfrego. Quando abri os olhos eu vi uma silhueta na porta da cozinha, franzi o cenho e me afastei erguendo a cabeça, porém não tinha ninguém.
Porra, eu só podia estar muito bêbado.
[...]
Entrei no escritório do meu pai e os capitães já estavam lá. Nero e Filippo me olharam apreensivos, eu entendia, até eu estava. Quando na noite anterior, ao voltar de uma reunião com os nossos associados, meu pai disse que me queria bem cedo no escritório dele para uma reunião importante, algo tinha acontecido ou iria acontecer, e com Otelo, nada era previsível.
— Bom dia, Don Otelo. Filippo, Nero. — Balancei a cabeça para os dois, que fizeram o mesmo.
— Bom dia, sente-se, . — Otelo tirou os olhos do computador para olhar para mim com um olhar que eu conhecia bem: vingança. — Eu quero caçar cada um dos filhos da puta que estão no meu território.
— Como vamos fazer isso? — Franzi o cenho. — Não sabemos quem são e… — Um tablet foi colocado na minha frente por Giulia, que eu nem vi entrar. Olhei para ela ao meu lado e disse baixo: — Giu…
— Bom dia, maninho. — Ela sorriu, animada. — Estão aí os Delantera que estão em nosso território. — Peguei o tablet e comecei a passar as imagens com as fichas detalhadas que minha irmã tinha feito, aquilo era realmente impressionante, por isso ela estava trabalhando tanto.
— Quantos são? — Olhei para o meu pai e ele apoiou os cotovelos na mesa, juntando suas mãos.
— No momento, temos 302 soldados dentro da porra do meu território, . — Vi meu pai ranger os dentes. Essa briga era antiga, foram eles que mataram minha tia, Vittoria, o nosso consigliere, pai de Vincenzo e nosso sottocapo, pai de Filippo, meu tio. Otelo tinha uma raiva profunda deles. Depois de quase os dizimar, baniu o restante da Espanha, e agora estavam voltando a invadir o nosso espaço, como se estivessem provocando, atiçando para que o Don tomasse uma atitude e se enforcasse com ela. — E você vai interrogar todos eles.
— Otelo… — disse de forma preocupada.
— Você é o melhor, . — Ele nem deixou eu começar, apenas ditou, como sempre fazia.
— Pai, acho exagerado… vai ficar exausto… — Giulia tentou argumentar, mas recebeu apenas Otelo a encarando com reprovação por ela ter contestado sua vontade e a vi se encolher ao lado do nosso primo.
— Temos tempo. — Ele pegou um charuto de dentro da sua caixa e o acendeu, jogando-se no encosto da cadeira, soltando a fumaça que tinha puxado e olhou para mim novamente. — Quero todos eles passando por suas mãos.
Engoli em seco e acenei positivamente, com Otelo não havia argumentos, Giu correu um risco ao fazê-lo, porém eu sabia que ele era mais benevolente com minhas irmãs.
Depois de todas as instruções dadas, eu, como subchefe da Vincere, iria repassá-las para os demais capitães, começaria uma época difícil, seria exaustivo e violento, eu não sabia se estava preparado para aquilo.
Assim que ele deu por encerrada a reunião, ele dispensou todos, mas pediu para que eu ficasse.
— Como estão as coisas com a senhorita Pinder?
— Bem…
— Não me parece muito entusiasmado com isso.
— Estou me esforçando, Otelo. — Suspirei já prevendo onde ele chegaria.
— Espero que esteja mesmo… — Ele levantou e deu alguns passos pela sala. — Nosso futuro depende disso.
— Eu posso casar com outra, sabia?
— Claro que pode. — Ele virou para mim, concordando e virou para a janela. — Tem alguém em mente?
. O pensamento atingiu a minha mente como um relâmpago, eu não estava esperando por isso e até arregalei os olhos com meu próprio impulso mental. Agradeci por meu pai estar de costas.
— Como pensei. — Ele virou para mim concluindo, como se meu silêncio fosse a resposta, e na verdade era, já que não poderia dizer que me passou pela cabeça. Talvez meu pai me matasse só pela ousadia de pensar. — Siga com o plano, sim? — Acenei positivamente e levantei. — … — Olhei para ele novamente, aguardando o que falaria. — O que está acontecendo entre você e sua irmã?
O quê?!
— Qual delas? — Sorri tentando disfarçar meu nervosismo.
— .
— Nada, só estávamos treinando… juntos.
— Essa é novidade. — Ele riu desacreditado e voltou seus olhos a mim, vendo que continuei impassível. — Oh, é sério? — Acenei que sim. — Gosto de ver vocês se dando bem…
Bem… até demais, eu diria.
Sorri sem graça e então finalizei:
— Vou indo passar as novas ordens. — Ele apenas balançou a mão no ar e voltou a se sentar para dar atenção aos papéis.
Assim que passei pela biblioteca e me vi fora do alcance da vista do meu pai, apertei os olhos com o polegar e indicador e desci minha palma até a minha boca, esfregando meu rosto em um desespero palpável. Giu surgiu ao meu lado e eu sobressaltei com um susto.
— Credo, Giulia!
— Tá assustado por quê? — Ela me olhou desconfiada.
— Não estou assustado, você que aparece do nada! — Soltei o ar com força. — O que houve?
— Quero te falar sobre aquele homem que estava vendendo drogas nas nossas boates. — Fomos andando pelo corredor e ela me deu o tablet pra eu ver o vídeo. — Ele não está mais só nas redondezas da universidade, finalmente consegui uma imagem nítida dele e ele não é ninguém em especial, .
— Como assim, Giu? — Parei de andar e olhei para ela, confuso.
— Ele simplesmente não tem nenhuma passagem pela polícia e isso é muito estranho.
— Me mande todas as informações que vou cuidar disso, obrigado, maninha. — Beijei a testa dela, entreguei o tablet e saí para fazer uma reunião com todos os capitães, essa missão tinha que começar o quanto antes, segundo Otelo.
Fui até o meu quarto para colocar um blazer, coloquei minha arma no coldre e peguei meu celular na mesa de cabeceira, olhei algumas mensagens dos meus soldados passando o relatório sobre as rondas noturnas da madrugada. Mandei mensagem no grupo onde estavam todos os capitães de Madri para nos encontrarmos no restaurante, que também pertencia a nossa família, para uma reunião.
Desci a escada com pressa e quando cheguei no hall de entrada, Carolyn apareceu me dando um sorriso, veio caminhando devagar e depositou um selinho nos meus lábios. Fiquei um pouco incomodado com aquilo, mas eu tinha beijado e fodido ela há alguns dias, talvez pensasse que tinha avançado algum passo comigo, até eu achava isso, porém, essa proximidade e intimidade não me deixavam confortável.
— Pensei em fazer um jantar amanhã para nós e… suas irmãs.
— Minhas irmãs? — Franzi o cenho.
— Sim, queria me aproximar mais delas… — disse, receosa.
— Tudo bem, falo com elas. — Olhei meu celular rapidamente checando as mensagens, todos os capitães já estavam a caminho do restaurante, então guardei o aparelho no bolso e olhei para ela.
— Obrigada, .
— Preciso ir agora. — Fiquei um pouco perdido do que fazer, ela parecia esperar algo de mim, mas talvez o que ela quisesse eu não poderia dar. Balancei a cabeça e caminhei para fora de casa, Nero já me esperava segurando a porta de trás do carro, apenas entrei e olhei para o retrovisor, vendo os olhos do meu primo, Filippo, me analisando. — Para o Monteros, Filippo.
[...]
Cheguei em casa depois de mais uma batida em um dos bares da cidade que um soldado tinha visto três dos Delanteras, porém voltamos sem pistas ou um prisioneiro pra eu interrogar. Por um lado, eu fiquei aliviado. Não estava nem um pouco a fim de torturar alguém em busca de algo que eu sabia que não iria encontrar, meu pai quer algo quase impossível. Os soldados obedecem, eles não questionam as ordens e nem muito menos sabem o que tem por trás delas. Eu queria encontrar um dos dois capitães que estavam se escondendo em algum buraco da Espanha, eles sim me serviriam de algo.
Meu pai tinha ido para Barcelona, queria resolver o problema da carga, parecia que tinham encontrado um dos homens que roubou o nosso caminhão e se Otelo estava indo ao encontro dele… Eu tinha até um pouco de pena do cara. Servi uma dose de whisky e caminhei até a área da piscina, acendi um cigarro e então percebi Carolyn e Luna conversando enquanto arrumavam a mesa do outro lado da piscina para o jantar. Ela querer oferecer isso às minhas irmãs era um pouco estranho, eu entendo que nenhuma delas além da Lu tenha tentado fazer amizade, no entanto, era compreensível. Carolyn era uma estranha entre uma família que já era conturbada o suficiente.
— Quando você está quieto demais tem algo errado… — Meu cigarro foi roubado dos meus dedos e olhei de canto de olho para ao meu lado.
— Temos isso em comum.
— Não, — ela tragou o cigarro e soltou a fumaça —, eu penso pra não dar merda… — Ela deu alguns passos para frente e me encarou de frente. — Seu problema é ser impulsivo e quando estou perto de você… — respirou, molhou os lábios e me entregou o cigarro antes de concluir: — Acabo me tornando assim também.
— Não gosta de ser impulsiva comigo? — Sorri de canto e vi suas bochechas enrubescerem, os olhos verdes desviaram dos meus. — Não sou impulsivo em meu trabalho.
— Bom saber, pelo menos não vamos ser mortos pela sua impulsividade. — Ela sorriu, debochada.
— Discordo um pouco desse argumento, . — Dei dois passos em sua direção, ficando perto o suficiente para sentir seu hálito em meu pescoço, já que ela estava de salto. — Garanto que Otelo mata nós dois se descobre que eu já beijei seus lábios… ou te fiz gozar como nenhum homem fez. — Afastei-me apenas para ver a expressão desconcertada dela, seus olhos arregalados e a boca entreaberta, chocada com minhas palavras.
Caminhei pela grama em direção à mesa de jantar, cumprimentei Luna e Carolyn, olhei para o lado vendo ainda parada onde eu tinha acabado de deixa-lá, fazia dias que não a via, estava com saudade de ver as expressões dela, de provocá-la, de beijá-la… merda.
— Cadê a Bea? — Virei quando ouvi a voz de Giu se fazer presente.
— Pergunta pra , ela tá vindo ali… — Luna apontou para a irmã, que chegou forçando um sorriso, tentava entender como minhas irmãs não percebiam tão claramente quanto eu as emoções de .
Por isso ainda era divertido ser um idiota com ela.
— Beatrice subiu para trocar de roupa assim que me viu de vestido.
— O que ela estava usando? — Giulia franziu o cenho ao sentar-se à mesa.
— Short e camiseta — respondeu ao também tomar seu lugar ao lado de Luna, pela primeira vez não estava sentada à minha frente e sim próximo da ponta da mesa. As garotas riram e Luna serviu vinho para todos, Carolyn sentou ao meu lado esquerdo e assim que Beatrice chegou, tomou o lado direito.
— Era um jantar, irmã, você não ia tomar banho de piscina…
— Vai à merda, Giu. — Beatrice mostrou o dedo do meio e deu um gole em sua taça.
— Perfeito, a família reunida — Carolyn comentou, sorrindo. — Pena que seu pai não pôde se juntar a nós, ). — Franzi o cenho com ela me chamando pelo apelido que apenas minhas irmãs me chamavam, era estranho.
— Pois é, ele precisou viajar… — respondi e vi revirar os olhos enquanto bebia seu vinho, balancei levemente a cabeça, sorrindo, ela costumava disfarçar melhor. — Então, o que temos para o jantar?
— Eu fiz questão de cozinhar, não quis ajuda dos empregados. — Ela sorriu orgulhosa. — Vou buscar lá dentro. Lu, você me ajuda?
— Claro, Lyn. — As duas se levantaram e foram para a cozinha.
— Quer dizer que ela resolveu nos comprar com comida? — Giulia começou.
— Foi uma jogada esperta, Giu, pena que comigo não tem a mínima chance — falou e deu um gole do seu vinho. — Se fosse com álcool, talvez…
— Não seja má, . — Beatrice resolveu dar uma de sensata e olhei para ela esperando alguma piadinha que não veio. — Carolyn não é tão ruim…
— Não? — perguntei, achando graça da ruiva ser tão gentil.
— Tá vendo, nem o acredita nisso, Bea. — Giulia empinou o nariz e pegou sua taça.
— Não foi isso que eu-
— Espero que gostem… — Carolyn me interrompeu e eu joguei minhas costas na cadeira, aquilo seria mais difícil do que achei. — Quis me aventurar em um prato da Espanha.
— Adoro Paella — Luna disse animada. — É um dos seus pratos favoritos, não é, ? — Ela olhou para , que apenas curvou os lábios de forma forçada e balançou a cabeça em positivo.
— Fico feliz que acertei! Vamos comer então. — Carolyn serviu as garotas enquanto elas conversavam, eu ainda bebia, então falei que me serviria quando terminasse.
ficou um pouco relutante, mas percebi ela suspirando e se dando por vencida, eu ri da cara dela enquanto dava um gole em meu whisky. Virei para prestar atenção nas conversas entre as gêmeas, Giulia e Luna, e Beatrice e Carolyn, a ruiva às vezes soltava umas alfinetadas, mas logo começava a rir, o que deixava as coisas mais leves, apesar da francesa ficar sem graça. Talvez aquilo tudo pudesse até funcionar, a trancos e barrancos, mas se eu me esforçasse como meu pai pedia, conseguiria dar um herdeiro para a Vincere, talvez eu pudesse aprender a amar Carolyn com o tempo. Olhei para e ela estava com uma expressão esquisita em seu rosto, franzi o cenho e a vi colocando a mão no pescoço.
— ? — Ela olhou para mim e tossiu, vi seu peito levantar e descer com mais rapidez, me endireitei na cadeira e olhei para a louça onde estava a comida, não vi nada que me alertasse, porém, começou a tossir mais e a coçar seu colo, que já estava ficando muito vermelho. Levantei-me de supetão fazendo a cadeira cair e todas me olharam sobressaltadas.
— ? — Luna virou para ela e colocou a mão em seu ombro.
— O que houve?! — Beatrice olhou assustada ao notar buscando ar.
— Eu… — Ela já não conseguia mais falar; merda!
Peguei ela no colo e a coloquei deitada na espreguiçadeira perto da piscina.
— Puta que pariu, o que tem na Paella, Carolyn!? — Giulia gritou em total desespero e levantou, chegando mais perto de mim e de .
— Luna, pegue a injeção! — gritei ao ver ficando mole e seu rosto cada vez mais inchado.
Luna saiu correndo para dentro de casa e trouxe a injeção de adrenalina, ela me entregou, levantei o vestido de Alonso e o injetei na lateral de sua coxa. Ela já estava fechando os olhos quando apertei para o líquido entrar em seu corpo, levei a minha mão até sua testa e acariciei, tirando as mechas de seu cabelo da frente.
— , fala comigo, está bem?
— Consigo… respirar agora — ela disse baixo, em um sopro de voz, ainda de olhos fechados e eu soltei o ar, aliviado. — Só preciso de um segundo para me recuperar e um martini seria ótimo... — Eu ri desacreditado daquilo, olhei ao redor e minhas irmãs estavam alarmadas em pé e Carolyn seguia sem entender nada, fazendo uma cara de vítima que me irritou.
— O que porra tinha nessa paella, Carolyn? — Minha voz saiu mais grave do que o normal e Giu me olhou com os olhos arregalados.
— Eu… eu… — ela gaguejou, acariciando as mãos em total nervosismo. — Fiz uma Paella comum, com frutos do mar.
— O quê?! — Beatrice virou para Pinder, sobressaltada.
Olhei para Carolyn com os olhos arregalados e disse:
— Paella se faz com carne de frango e coelho, Carolyn!
— Calma, ), você sabe que tem várias versões... — Luna tentou tocar meu braço e me virei para ela a encarando com raiva.
— Calma? Todos sabem que frutos do mar não entram nessa casa! — gritei, completamente fora de controle, minhas irmãs me olhavam assustadas e Carolyn se encolhia a cada coisa que eu dizia. — poderia ter morrido, Luna.
— Morrido? — Carolyn falou assustada colocando a mão cobrindo sua boca.
— Ela é altamente alérgica a frutos do mar — Giu explicou.
Respirei fundo e massageei minhas têmporas.
— E nenhuma de vocês sentiu que tinha frutos do mar? — Olhei para as minhas irmãs, questionando.
— Não, , acho que estávamos distraídas conversando e bebendo… Desculpa. — Beatrice abaixou a cabeça e seus olhos encheram de água.
— Fazia muito tempo que não comíamos frutos do mar em casa… Não esperávamos por isso — Luna complementou.
Céus, eu precisava recuperar o controle de mim mesmo. Nunca tinha ficado tão irritado assim e eu podia notar a confusão no semblante das minhas irmãs. Desde que aconteceu o ataque na boate eu estava prestes a surtar e essa foi a gota d'água que faltava. Não posso perdê-la e hoje eu entendi que esse sentimento está muito além do meu controle.
— Tá tudo bem, ela está bem. — Olhei para onde estava deitada e concluí: — Vou levar ela…
— Desculpe, , eu não sabia.
— Não é culpa sua, Carolyn. Você não foi alertada sobre isso já que não teve ajuda dos empregados — Luna tentou apaziguar a situação e o que ela falou era verdade, não era culpa dela, mesmo assim, o aperto no meu peito e a irritação pela falta de atenção das minhas irmãs ainda me dominava.
— Da próxima vez pergunte — falei, ríspido.
Caminhei até a espreguiçadeira e peguei no colo, ela se aninhou em meu peito e tentei ao máximo não demonstrar nenhuma emoção em relação àquilo. Eu já tinha perdido a compostura e Giulia me olhava com aquele olhar analítico. Se minha irmã caçula suspeitasse de algo, ela iria descobrir, nem que fosse a última coisa que fizesse.
— Podem comer sem mim, vou dormir.
Capítulo 15
Alonso Perroni
Não foi minha intenção e acredite, não queria ter visto aquilo, eu fiquei em choque que estava tão bem com a invasora de lares, ele realmente estava se esforçando como papai queria. Lanche no meio da noite e beijos na cozinha, o suprassumo do casal apaixonado, talvez ela finalmente tivesse conseguido seduzir ele.
Era hora de voltar ao que éramos, distantes e inimigos declarados.
Quando ele me avisou do jantar que Carolyn iria preparar para nós, tive a certeza que ele queria finalmente dar o próximo passo e o casamento talvez saísse até o fim do ano. Então resolvi que ali eu deixaria bem claro que o nosso convívio voltaria ao normal e que esqueceríamos tudo que aconteceu nos últimos meses; era como deveria ser.
Pelo menos eu pensava que sim. Depois de ter uma anafilaxia e surtar com todo mundo por causa disso, eu fiquei sem saber o que pensar e tudo que me veio à cabeça foi o dia em que ele me falou que quase tinha me perdido. Aquela frase tinha me atingido de uma forma inesperada e foi dali em diante que como me sentia em relação a ele começou a mudar gradualmente. Emocionalmente eu não entendi muito bem o que estava mudando e acontecendo para mudar a forma como eu o via. Racionalmente, eu entendia que a melhor decisão era me afastar.
Depois da reação alérgica e a injeção, eu estava me sentindo sem forças, então me pegou no colo e me levou até o quarto. Assim que ele entrou, fechou a porta com seu pé e me colocou na cama devagar. Não conseguia deixar de olhar em seus olhos conforme ele ia se afastando, minha mão deixando seus ombros, passando pela sua nuca e finalmente o largando por completo.
Era hora de dizer que aquilo, seja lá o que fosse, precisava de um basta.
— Tem certeza que está bem? — ele perguntou.
— Sim, estou. — Ele acendeu o abajur e ainda seguia olhando para mim de maneira preocupada. — Fazia tempo que não tinha uma reação, só fiquei cansada.
— , eu queria…
— Que bom que está se dando bem com a Carolyn, — interrompi ele, antes que pudesse dizer qualquer coisa sobre nós, fazia dias que estava o evitando e não deixaria que ele falasse algo que me fizesse voltar atrás. — Acho que deveria dar uma chance de verdade a ela. — Vi seu semblante mudar completamente, olhei para o lado, desviando de seus olhos e mordi o interior do meu lábio.
— Acha mesmo, cariño?
— Talvez assim você tenha uma família completa. — Forcei um curvar de lábios quando me voltei a ele novamente, mas no fundo eu sabia que estava mentindo mais para mim do que para ele. Eu sentia aquele incômodo chato no meu estômago, porém, iria apenas ignorá-lo.
— Entendi.
— Obrigada por hoje. — Levantei meus olhos até os dele, que me encarava com uma certa decepção e aquilo fazia com que me sentisse ainda pior. — Parece que me salvou mais uma vez. — Dei uma risada fraca, já me aninhando entre meus travesseiros para dormir.
— Te salvarei quantas vezes forem necessárias…
— Boa noite, … — falei bocejando.
— Boa noite, .
[...]
A boate era tudo o que eu tinha de concreto na minha vida, era algo que eu tinha o controle, era um lugar onde eu tinha o poder de ser eu e ninguém poder me olhar diferente por isso, até porque, sempre deixei muito claro que dentro da Fascino todos podiam ser o que quisessem.
Entrei pela porta da frente com confiança, pisando firme com meus saltos e em meu vestido tubinho verde musgo que eu vestia, estava atrasada, eu tinha dormido um pouco mais depois da reação alérgica que eu tive e cheguei quase na hora de abrir. Coloquei minha bolsa no balcão e pedi um martini para Juan, sentei na banqueta alta e fiquei vendo as mensagens em meu celular.
— Beatrice já chegou, Juan? — perguntei assim que ele se aproximou, colocando a taça em minha frente.
— Sim, está no escritório. — Ele debruçou no balcão e me encarou com uma expressão tão atraente. — Você está bem?
— Sim, dormi demais porque tive uma reação alérgica ontem.
— Hm… Caso eu possa ajudar em algo, basta avisar. — Ele caminhou de volta até a pia nos fundos do bar para lavar os copos.
Fiquei olhando aquelas costas enormes, lembrando mais uma vez que tinha uma tatuagem e músculos, céus, muitos músculos, mas a pergunta que não queria calar… Ele estava dando em cima de mim? E eu estava gostando? E pensando se ele fodia bem? Eu precisava transar, isso estava claro como o martini a minha frente.
— Cadê o Cristian? — Dei um gole no meu drink para ver se apagava um pouco meu fogo.
— Está ajudando a irmã no camarim.
Claro, a estreia de Anita era naquele dia, quer dizer, a volta dela. Agradeci pelo drink e levantei indo em direção ao camarim. Seria uma volta e tanto, fiz questão de anunciar por toda a cidade que a grande garota do leque voltaria, e ela fazia tanto sucesso que quando entrei na boate já tínhamos fila do lado de fora. Entrei no camarim e Cristian estava ajudando a loira com o espartilho, encostei-me no batente da porta, enquanto admirava os dois ali, distraídos, dei um gole em minha taça e sorri.
— Bom te ter de volta, Anita.
— Oh, céus, … — Ela colocou a mão no peito assustada e eu soltei uma risada.
— Cristian, vá ajudar Juan que eu ajudo a Anita. — Ele apenas acenou em positivo e saiu. — Está nervosa? — Larguei minha taça em cima da bancada e continuei fechando os fechos do espartilho. — Pronto.
— Um pouco… Faz tempo que não subo no palco. — Ela virou de frente para mim e eu sorri. — Sempre foi difícil para mim, mas quando ouço a música…
— Eu sei. — Sorri segurando os braços dela, desci uma das mãos até a dela e acariciei. — Te conheço bem demais para não lembrar, Ane.
— Obrigada. — Ela olhou para mim com um brilho nos olhos e eu acenei, largando sua mão.
— Que isso, foram só alguns botões… — Peguei minha taça e sorri, dando alguns passos em direção à porta para sair.
— Digo… por me aceitar de volta. — Virei para ela novamente, notando ela sem graça e agradecida.
— Você só pode se tornar grande se não deixar seu orgulho no meio do caminho, Anita. — Sorri para ela, que me olhou nos olhos. — Você é mais do que uma dançarina aqui, é uma amiga, assim como seu irmão. Estão comigo desde o início… Se você quis sair, teve seus motivos, não vou deixar meu ego atrapalhar o sucesso da boate ou a nossa amizade. — Pisquei o olho direito para ela, passei pelo bar apenas para pegar minha bolsa e subi para o escritório.
Assim que entrei no escritório vi Beatrice fazendo lista das compras para a próxima semana, ela me perguntou se eu estava me sentindo melhor e respondi que sim, tomei meu lugar e nos concentramos em resolver tudo que era preciso da boate. Talvez no fim do ano eu precisaria contratar mais pessoas para o bar e cozinha, nosso movimento tinha aumentado muito nos últimos dois meses e eu estava sem o Vince.
Eu precisava ir visitá-lo, não poderia mais protelar isso, a verdade era que eu estava com medo de vê-lo, de ele estar muito doente ou receber alguma notícia ruim demais para aguentar. No entanto, sempre falava com ele e com Giovanna por mensagem, a recuperação dele parecia estar caminhando bem e estávamos esperançosos que logo ele receberia alta.
A boate estava lotada, então Beatrice desceu para ajudar no bar no que podia, eu estava atenta na hora, queria ver o show de Anita, não perderia por nada.
Ouvi batidas na porta e liberei a entrada, Juan entrou com um martini na bandeja e essa cena me fez pensar em Vincenzo. Fazia tempo que eu não transava e minha libido estava mais alta que um foguete saindo da atmosfera, eu tinha certeza que nesse momento Pelegrini se ajoelharia e me chuparia… porra, .
Ele conseguiu foder até meus pensamentos.
Eu precisava tirar o idiota da minha mente, arrancar os pensamentos impuros que tinha com ele, até em meus sonhos o desgraçado veio me perturbar. Era demais ter que lidar com isso, com um casamento com aquela mulher que não me desce, com a boate ficando cada dia mais famosa e as preocupações de não dar conta, além de tudo, Vincenzo internado e eu sem a Giovanna para me ajudar.
Era muita coisa para um ano só.
— Está tudo bem, ? — Ele me encarava com o cenho franzido.
— Sim, obrigada, Juan. — Peguei a taça e dei um gole, fechei meus olhos e aproveitei a bebida escorregando pela minha língua, molhei os lábios e sorri. — Está uma delícia…
— Que bom…
Aquele olhar obsceno de novo e eu estava tão na merda, tão estressada, tensa, com uma vontade de dar incomensurável, que só o olhar de Alvarez me deixou em combustão. Ele virou as costas e caminhou até a porta para poder sair.
— Juan… — O barman virou para mim e eu engoli em seco, pensei no que Luna tinha falado, mas naquele momento a minha boceta estava pensando por mim e não meu cérebro. Levantei e dei alguns passos até ele, coloquei minha mão em seu ombro, deslizei pelo seu braço forte e sorri de modo sedutor. — Preciso de ajuda com uma coisa…
— Com o que quiser, chefe. — Ele sorriu tão cafajeste que minha vontade de foder triplicou, olhei para seus lábios e mordi o meu inferior em um claro sinal.
Ele me empurrou até a parede com uma agilidade surpreendente e tomou meus lábios tão rápido e de maneira sedenta que não fui capaz de entender o movimento, apenas quando sua língua tocou a minha que eu reagi para tocar aquele homem. Coloquei meus braços em volta de seu pescoço e infiltrei meus dedos em seus cabelos loiros, ouvi o barulho da bandeja encontrando o chão e logo sua mão em minha bunda, a outra agarrou minha coxa e ele me colocou em seu colo. Minhas costas ainda firmes na parede atrás de mim e eu já conseguia sentir sua ereção roçando em minha entrada mesmo por cima do tecido.
— Vamos rápido com isso, Alvarez, você precisa atender muitos clientes… — disse enquanto seus lábios beijavam meu pescoço e meu colo.
— Decidi que a prioridade é deixar a minha chefe feliz. — Gemi baixo quando seus dentes cravaram em meu pescoço e sua mão apertou com força o meu quadril.
— Terá um trabalho difícil pela frente. — Sorri mordendo o lábio e seus olhos nublaram com a luxúria.
Ele me largou no chão e me virou de costas para ele de forma bruta, fazendo com que eu sentisse seu pau duro em minha bunda. Minha boceta só faltou bater palmas com tamanha desenvoltura.
— Onde tem camisinha, senhorita Alonso? — perguntou baixo e rouco em meu ouvido, uma voz sexy e potente pra minha imaginação sexual, pude sentir o hálito quente em minha orelha e logo sua língua em meu lóbulo.
— Primeira gaveta…
Vi de canto de olho ele se esticando sem deixar de segurar meu pulso em minhas costas, mantendo-me firme com o rosto apoiado na parede. Ouvi seu zíper se abrir e vi por cima do ombro ele rasgando o pacote metálico no dente, ele era um gostoso, por que eu não tinha dado para ele ainda? Ah é, ética e bla bla bla…
Sua mão puxou meu vestido para cima, seus dedos ásperos de homem rasparam em minha coxa e ele só afastou a minha calcinha para o lado, passou os dedos entre meus lábios me fazendo gemer em satisfação, eu estava completamente molhada.
— Vai aguentar até o final, ? — perguntou grave, fazendo um arrepio gostoso atravessar meu corpo, aquele calafrio gelado se apossando do meu estômago e a vontade dele estar dentro de mim aumentando a cada minuto.
— Me fode logo, Juan…
A sensação era que seu pau estava me rasgando por dentro, soltei um grito involuntário quando ele chegou até o fundo, senti uma ardência gostosa no meu canal vaginal, um arrepio correu pela minha coluna e ele começou a se movimentar devagar, meus olhos reviraram tamanho o prazer que ondulou pelo meu baixo ventre. Sua mão deslizou pela parte posterior da minha coxa e subiu até minha nádega e tudo que eu pedia mentalmente era um tapa, forte o suficiente para disputar com a dor que eu sentia por ter o maior homem que já me comeu dentro de mim.
Aquilo deveria ser contra as leis da natureza, mas com o tempo eu entendi que se Deus fez, é porque cabe, pois eu já estava acostumando com seu tamanho.
— Hm… mais rápido…
Ele aumentou a velocidade, seu quadril se chocava com o meu e meus gritos eram uma mistura de prazer e dor, estava ensandecida com aquela sensação e como se não bastasse isso, quando ele afastou o quadril, sua mão foi certeira na minha bunda. Cheguei a babar e fechar os olhos sentindo a ardência em minha pele tomar conta e um arrepio cruzar meu corpo inteiro, a respiração falha e minhas pernas bambeando indicavam o quanto eu estava na beira. Eu não iria aguentar por muito mais tempo. Senti seus dedos subirem pela parte interna da minha coxa e ele afastar o restante da minha calcinha para brincar com meu clitóris inchado, um grito escapou da minha garganta sem nem mesmo eu esperar.
— Ah, meu Deus!
— Deus não vai te salvar de mim…
E eu não queria mesmo que ele me salvasse, muito menos teria motivos para tal.
— Vou gozar, Juan! — berrei completamente descontrolada.
Ele lambeu meu pescoço até chegar em minha orelha e falou:
— Vai, goza no meu pau para eu ter certeza que fui um bom empregado.
Seus dedos faziam movimentos circulares em meu clitóris enquanto seu pau entrava e saía de dentro de mim com rapidez, podia senti-lo quase em meu útero e porra, aquilo tava gostoso demais. Estiquei meu braço livre para cima na parede gemendo alto, eu rebolava em seus dedos e empinava cada vez mais a minha bunda buscando mais dele, sentindo meu corpo inteiro tremer em expectativa por aquele orgasmo. Então ele puxou meu cabelo e virou a minha cabeça para me beijar, senti todos os músculos do meu corpo retesarem e meu canal se contrair de tal forma que quase engoliu o pau de Juan, fazendo ele gemer rouco e completamente ébrio de prazer.
O orgasmo chegou como uma tsunami, devastando meu corpo inteiro, fazendo minhas pernas amolecerem e me levando finalmente a um lugar que eu não ia há algum tempo: ao paraíso.
[...]
— Porra, Juan! Que demora… — Beatrice ralhou com ele, mas logo ela olhou para mim quando sentei na banqueta, disfarçando a minha clara culpa pelo seu atraso, o que não passou despercebido pela minha irmã. — … — disse em tom de reprovação.
— O quê? — pigarreei e olhei para Cristian. — Um martini bem gelado, ruivo.
— É para já. — Ele saiu para preparar meu drink e a ruiva seguiu me encarando irritada.
— Eu precisava foder, ok? — expliquei de uma vez.
— Ótimo, agora já experimentou todos os funcionários da sua boate? — Assim que ela perguntou de maneira irônica, Anita entrou no palco e a música sensual começou, atraindo meus olhos para ela.
— Sabe que não… — Sorri com o canto dos lábios e virei para Beatrice novamente, que me encarava com mais raiva do que já estava, podia ver seu maxilar travado e então franzi o cenho. — O que foi?
— Nada. — Ela virou e foi atender clientes do outro lado do balcão.
Fiquei completamente perdida pela reação dela, olhei para Anita e algo me passou pela cabeça, mas não, não podia ser. Beatrice disse que estava com um cara casado, eu tô vendo coisa onde não tem.
Agradeci o drink que Cristian deixou para mim e fiquei por ali, aproveitando o show da Garcia e me refrescando com minha bebida depois de um sexo gostoso. Sentia meu corpo completamente relaxado e isso era tudo o que estava me faltando nas últimas semanas, transar fazia parte da minha vida saudável. Senti meu celular vibrando entre meus seios e o peguei vendo a mensagem de Giulia no nosso grupo.
sorellas:
Giu: Preciso que vocês venham até a sala de vigilância às 21h. Sem desculpas.
Franzi o cenho sem entender nada e olhei para Beatrice, meneei a cabeça para que ela viesse até mim.
— O que é agora? — falou, displicente.
— Olha isso aqui. — Virei a tela do meu celular e ela fez uma cara de interrogação. — Sabe do que se trata?
— Não faço a menor ideia. — Ela deu de ombros. — Talvez ela tenha visto você dando para o seu novo barman… — Ela sorriu debochada.
— Não seja assim, Bea, e no meu escritório não tem câmera.
— Ele é um completo estranho e você transou com ele — advertiu em sussurros.
— Ele já trabalha aqui há alguns meses, ok? — Dei um gole em minha bebida, desprezando aquele papo que parecia bem igualzinho ao de .
— Qual é, . — A ruiva cruzou os braços. — Você transar com o Vincenzo que é seu melhor amigo e o Cristian que você conhece há anos é uma coisa, eles fazem parte disso aqui, eles sabem quem somos nós. — Revirei os olhos ouvindo o sermão. — Não sabemos quem é Juan Alvarez.
— E você ter um caso com um homem casado é ok? — Levantei ambas as sobrancelhas mostrando a hipocrisia dela.
— Não estamos falando de mim. — Ela mudou a postura dela, desviando os olhos de mim e endireitando a coluna, afastando-se.
— Claro, porque é fácil apontar o dedo para as suas irmãs, mas quando se trata de você, ninguém pode falar nada. — Arqueei uma sobrancelha e ri sem humor. — Não seja hipócrita, Bea.
— Não vamos lavar roupa suja com o bar cheio. — Ela virou as costas e saiu.
— Claro… clássico. — Soltei o ar com força e continuei bebendo, ficaria ali até a hora de ir embora e descobrir qual é o grande mistério de Giulia, já que aparentemente todo mundo esconde algo.
Inclusive eu.
[...]
Eu e Beatrice chegamos em casa eram quase 21 horas, fui até a cozinha e dei de cara com Carolyn jantando sozinha, parei na porta da cozinha e suspirei, dei boa noite e continuei a andar até a geladeira. Peguei geleia e fui até onde ficavam os croissants que Marta fazia, coloquei tudo em cima da ilha e fiz meu lanche, voltei até a geladeira, guardei a geleia e peguei um pouco de chá gelado. Olhei para a francesa, que estava mexendo no celular enquanto comia e fiquei pensando onde estava. Claro que ele tinha seus afazeres, mas essa mulher ficar sozinha na nossa casa não me agradava depois de quase ter me matado. Era impossível que nenhum empregado tivesse visto ela preparando ou entrando na cozinha com frutos do mar, aquilo tudo tinha me deixado com uma pulga atrás da orelha.
— … — Virei para o lado e vi Luna parada na porta da cozinha. — Giu tá esperando, vem.
— Estou indo, vou terminar de comer. — Ela saiu, e assim que coloquei o último pedaço na boca, coloquei o prato na pia e fui pelo corredor extenso até os fundos da mansão onde ficavam as salas de controle, inclusive a sala de vigilância de Giulia. Abri a porta e já entrei dizendo: — Quem morreu?
— Espero que estejam preparadas para isso, porque eu confirmei minhas suspeitas. — Franzi o cenho e caminhei mais perto das garotas, próximo das tvs.
— Eu já tô ficando preocupada… — Beatrice comentou.
— Deveria — Giulia alertou.
— Credo, Giu, o que aconteceu? — Arregalei os olhos quando me vi surgindo na imagem, assim que também apareceu do outro lado da tela, engoli em seco, foi isso que ela descobriu.
Porra!
— Por que estamos vendo a e o discutindo, não é como se nós não víssemos isso todos os… — A voz de Luna foi morrendo ao ver a gente se beijando, os dois descontrolados.
Ver aquilo só me fez sentir aquilo tudo de novo. Naquele dia eu estava completamente bêbada e ali, despida de qualquer pudor, eu tinha decidido me entregar a aquela coisa maluca que estava me possuindo.
— … — Beatrice olhou para mim e eu abaixei a cabeça mordendo o lábio inferior, senti meus olhos ardendo e uma súbita vontade de chorar, sentia vergonha e medo. Medo de ser julgada, medo das minhas irmãs me odiarem, contarem para o papai e ele no mínimo me expulsar de casa.
— Eu não… — Minha voz embargou.
— Eu suspeitava há muito tempo, desde que vocês começaram a treinar juntos, mas ontem… Ver surtar daquele jeito pela sua anafilaxia me fez ter a certeza — Giulia explicou e eu cobri meu rosto com as duas mãos. — Vocês estão juntos, ?
— Não! — gritei, olhando para as minhas irmãs, que me julgavam com os olhos.
— Então o que porra é essa?! — Beatrice berrou apontando para a TV.
— Foi um lapso, ok? — Sequei minhas lágrimas. — Não vai acontecer de novo… Nunca mais vai acontecer — repeti como se tentasse convencer mais a mim mesma do que elas.
— Eu sei que a nossa família é estragada, mas incesto, ? — A ruiva passou a mão no rosto respirando forte. — Isso é… não sei nem o que dizer.
— O papai mata vocês dois se ele descobre — Luna finalmente falou baixo, assustada com a hipótese.
— Não vamos muito longe, maninha. — Beatrice cruzou os braços olhando para Lu. — Você estava transando na piscina de casa com dois soldados, Luna!
— Como você… — A morena ficou incrédula.
— Você estava com dois soldados? — Giulia arregalou os olhos para sua gêmea. — Perdeu o juízo, Luna?! — Ela bufou e massageou as têmporas. — Claramente estamos todas vivendo coisas escondidas umas das outras, seria bom colocar as cartas na mesa.
— Eu não consigo falar sobre isso — comentei.
— Bom, não tem muito o que falar sobre você transando com o seu irmão! — Beatrice ralhou comigo.
— Meio irmão e nós não… — Ou quase isso… Soltei o ar sem terminar a frase em voz alta e olhei para o lado, cruzando os braços.
— Menos mal — Giu comentou. — Vamos parar de esconder coisas umas das outras, por favor?
Todas nós nos entreolhamos, aquilo seria impossível, mas fico me perguntando quando foi que começamos a mentir umas para as outras, a esconder coisas, a brigar do jeito que brigamos no dia da festa de halloween. Sempre fomos melhores amigas e nos entendíamos muito bem, quando foi que isso mudou?
Vi Luna abaixar a cabeça, assim como Giulia, que apoiou sua cabeça nas mãos, enquanto descansava seu cotovelo na mesa, abaixei minha cabeça também, pensando no quanto estávamos distantes, mesmo morando na mesma casa.
— Anita é minha namorada.
Eu virei a cabeça devagar, encarando Beatrice completamente em choque, o que porra ela falou?
— Quê? — nós três falamos em uníssono.
Capítulo 16
Perroni
O que eu estava esperando? Que se atirasse em meus braços e agradecesse por eu ter salvado sua vida pela segunda vez, beijasse a minha boca e tudo ficaria bem depois de semanas me ignorando? Que ficaríamos juntos e que nosso pai aceitaria de bom grado dois de seus filhos namorando, ou pior, casando? Quando foi que me tornei tão delirante desse jeito?
Ali eu percebi o que ela queria: deixar tudo que aconteceu para trás e que voltássemos a ser duas pessoas estranhas sob o mesmo teto. Eu estava decepcionado, mas racionalmente eu sabia tanto quanto ela que era o melhor a se fazer, era isso ou acordar no plano superior, na verdade, mais provável no inferior.
Desferi outro soco no saco de areia e enxuguei o suor que já escorria pela minha testa. Estava tenso pelas buscas que me trouxeram alguns soldados para interrogar e, consequentemente, matar. Irritado por ter vindo nessa vida como meio-irmão da mulher que eu estava desejando em minha cama. Confuso por ter que tomar uma decisão tão importante quanto me casar com uma mulher que talvez nunca conseguisse amar de verdade.
podia até ter razão que eu talvez conseguisse ter uma família completa, mas eu teria amor?
Vi minha irmã cruzar a porta da academia e sentar na cadeira perto das janelas de vidro, bem em frente a mim. Beatrice sempre me buscava para conversar, talvez por eu ter descoberto seu namoro com a dançarina da Fascino por acidente, eu era o único com quem ela poderia falar sobre isso. Respirei fundo e caminhei até o frigobar pegando uma garrafa de água em seguida e olhei para ela, que seguia me encarando como se quisesse dizer algo.
— Está com aquele olhar de novo… — Dei um gole na água e voltei a encarar a ruiva.
— Eu contei pra elas.
— Estou feliz que tenha finalmente se desprendido disso. — Dei alguns passos e peguei uma toalha em cima da mesa para secar meu rosto. — Elas não iriam julgar você…
— É difícil saber.
— São suas irmãs, Beatrice. — Sentei no chão bem à sua frente e apoiei meus cotovelos em meus joelhos.
— É, eu sei, mas ser lésbica continua sendo tabu, ainda mais na máfia.
— Um passo de cada vez, ok? — Ela sacudiu a cabeça em positivo. — Como elas reagiram?
— Ficaram em choque, mas eu espero que a não fique irritada se souber que foi minha culpa Anita ter saído da Fascino.
— Vocês não têm a melhor relação do mundo…
— Eu quero pedi-la em casamento. — Arregalei os olhos e ela cruzou os braços me encarando chateada. — Está me julgando…
— Não tô te julgando, estou surpreso. — Dei mais um gole em minha garrafinha de água. — Como fomos de relacionamento às escuras para casamento?
— Já faz 3 anos, , e eu a amo. — Suspirei, esse era um bom motivo para um casamento, fico pensando se o meu motivo era bom o suficiente para isso. — Isso também me motivou a contar pra elas, eu só preciso enfrentar o nosso pai agora.
— Bom, você é adulta. — Dei de ombros.
— Eu sei, mas tudo com o papai é um grande mistério, não sei como ele vai reagir.
— Estarei ao seu lado, caso queira, e tenho certeza que as suas irmãs também. — Curvei os lábios demonstrando compreensão.
— Por que você não fala nossas?
— Como? — Franzi o cenho.
— Nossas irmãs, . — Engoli em seco, nunca parei para pensar nisso, mas talvez seja o fato de não considerar a indomável como minha irmã. — Deixa pra lá… Obrigada por me ouvir. — Ela se apoiou nas coxas e se levantou indo em direção à porta, deixando-me com uma pedra pesando toneladas em minha cabeça.
Nunca me referi a como irmã.
[...]
O último botão da minha camisa social foi colocado em sua casa, olhei meu reflexo e respirei fundo. Homens demais para interrogar, problemas demais para lidar, uma família conturbada o suficiente para tirar qualquer um do sério e claro, não vamos esquecer do meu pai me pressionando todos os dias, nem que fosse com o olhar, para ter um casamento infeliz que nem foi o dele. Coloquei minha pistola no coldre e coloquei o blazer preto, meu celular no bolso e o meu relógio. Caminhei para fora do meu quarto e desci, indo direto para o carro que já me esperava com Nero no volante e Filippo ao lado da porta aberta, esperando para que eu entrasse.
Nós dois entramos no carro e dei ordens para que Filippo seguisse o homem que estava vendendo drogas nas boates, se fosse um caso isolado eu teria misericórdia, caso fosse mais um peão dos Delanteras eu acabaria com isso da forma que eu sabia. Deixamos meu primo no Monteros para que seguisse minhas ordens,e seguimos caminho para uma das nossas casas de campo, afastadas o suficiente para alguns interrogatórios.
Desci do carro e meu sapato amassou a grama, olhei uma de nossas muitas casas espalhadas pela Espanha e puxei um cigarro da minha carteira, acendi o mesmo e traguei a fumaça. Olhei para Nero e indiquei a casa com o queixo, ele apenas assentiu e seguiu o caminho para trás do lugar, ele arrumaria o primeiro Delantera de muitos do dia. Eu tinha uma fila deles para arrancar alguma informação e, dia após dia, a frustração me invadia pois não conseguia nem sequer uma pista do que aquele filho da puta estava planejando.
Eu achei que apenas expulsar o restante deles da Espanha seria o suficiente, mas meu pai errou nessa decisão, deveríamos tê-los exterminado, acabado com os Delantera quando tivemos a chance, no entanto, pela primeira vez na vida meu pai resolveu agir mais como Alenso. Não era à toa que ele era o consegliere, o único a colocar juízo na cabeça de Otelo; eles eram tão unidos que meu pai nunca quis escolher outro consigliere, apesar de ele levar o que Filippo dizia em consideração, talvez pelo sobrinho ser a cópia de Alenso. Soltei a fumaça que prendia em meus pulmões e joguei o cigarro no chão, pisando em cima para apagá-lo, e dei a volta por fora da casa.
Caminhei alguns metros pelo pequeno pasto com ovelhas que viviam soltas e que eram cuidadas pelo caseiro da nossa propriedade, passei pelo celeiro e atrás dele as portas do alçapão já estavam abertas. Desci com cuidado, apoiando-me no teto baixo e na parede, abri a porta e o cheiro de sangue envelhecido pelo chão me invadiu as narinas, fazia dias que estávamos naquela rotina, sequer havia tempo para limpar entre um prisioneiro e outro. Às vezes eu achava conveniente, servia como mais um elemento na tortura deles, não era agradável para mim ou para Nero, porém, achava que ele não se importava.
Olhei o homem apenas de cueca, pendurado pelos pulsos no gancho onde penduravam porcos para abate há longos anos, tirei meu blazer, arregacei as mangas da minha camisa e respirei fundo, seria um longo dia. Dei alguns passos até a pequena mesa que tinha ali, tirei meus aneis e relógio e encaixei a soqueira em minha mão, caminhei até o homem e inclinei a cabeça para o lado, para conseguir ver o rosto do desgraçado.
— Seu nome?
Ele me olhou com um ar de soberba e aquilo me fez dar um sorriso lateral, eu gostava dos que me enfrentavam, que queriam ser durões, pois era sempre mais divertido. Eles se debatiam mais, com esperança de se soltarem ou até mesmo de me alcançar para me agredir e isso era instigante. Um dos motivos por gostar daquilo que eu tentava não gostar, uma parte de mim que eu tentava esconder até de mim mesmo.
— Seu — soquei a costela dele com força, fazendo-o tossir e grunhir de dor — nome?
— Não foi tão bom em me achar, seu pedaço de bosta? Descubra meu nome.
Caminhei até um canto da sala e peguei um cano de ferro, voltei até o homem pendurado e bati com força em seu joelho, causando o primeiro grito de dor, esperei para ter a minha resposta e como ela não veio, desferi o ferro mais uma vez, contra suas costelas dessa vez, e o grito foi mais alto. Vi ele sem ar e sorri satisfeito, parei em frente a ele novamente e o encarei nos olhos.
— Pronto pra falar?
— Está — engasgou-se com o que acreditava ser seu próprio sangue — perdendo seu tempo… — Tentou cuspir em mim, mas desviei.
— Balde — disse, enquanto caminhava até a pia para lavar as mãos.
Nero sorriu, animado com aquilo, realmente ele gostava mais do que eu daquela parte do serviço, eu ainda tinha um coração, o de Nero foi delacerado por uma mulher da equipe de tortura do meu pai, aquilo tinha acabado com ele e qualquer resquício de humanidade que existia naquela mente que já era perturbada por ser o único de sua família a ter ficado vivo. Viu sua mãe e sua irmã serem estupradas na sua frente quando ainda era só uma criança, meu pai o acolheu quando soube do massacre contra sua família, tudo por dinheiro; o pai de Nero era viciado em jogatina, acabou devendo a quem não tinha o mínimo de escrúpulos.
Assim que me virei, o homem já estava sentado em uma cadeira, ainda preso ao gancho, agora rebaixado. Nero olhou para mim em uma pergunta muda se podia dar inicio e eu assenti. Meu soldado sorriu de maneira perversa antes de pegar o pano grosso, encharcar no balde cheio de água e colocar sobre o rosto do homem, que demorou o tempo de eu acender um cigarro e dar meu primeiro trago para começar a debater os pés. Dei alguns passos, parando em frente a ele, longe o suficiente para ele não me alcançar e dei o sinal que meu soldado poderia retirar o pano.
— O dia aqui dentro tende a passar devagar, sabia?
Ele tossiu várias vezes, tentava puxar o ar e eu assenti para Nero colocar novamente, ele puxou o homem pelo cabelo e largou o pano em seu rosto de novo. Dei, pacientemente, mais alguns tragos em meu cigarro e meu soldado retirou o pano, colocando-o no balde, esperei o preso recuperar seu fôlego.
— Rafael…
— Ótimo, agora podemos conversar, Rafael. — Nero colocou uma cadeira atrás de mim e então sentei. — Então, quais são os planos do Guillermo?
— Não conheço… — Gargalhei alto, sem acreditar naquilo, sorri de maneira maligna.
— Está querendo brincar comigo, Rafael? — Olhei de soslaio para trás do homem e Nero já fazia a busca no tablet pelo nome do homem e onde ele se encaixava no banco de dados que Giulia fez. — Tenho diversos brinquedos aqui… — Ele arregalou os olhos.
— Solo soy un soldado, hombre… (Sou só um soldado, homem.)
Nero veio em minha direção e me entregou o tablet, passei o olho rapidamente nas informações que constavam ali e me recostei na cadeira, arqueei uma sobrancelha e olhei bem para o homem acorrentado, sem qualquer possibilidade de fugir, ele realmente estava querendo me enganar? Meu soldado foi até o homem e o socou no estômago, o fazendo cuspir sangue e gemer de dor.
— Eu posso pensar em ser um bom homem, Rafael, caso não minta de novo pra mim.
— Não estou mentindo! — gritou, assim que se recuperou do golpe.
— Então por que aqui diz que é o braço direito de Alejandro? — Ele arregalou os olhos; bingo. Sorri vitorioso, eu estava com a porra de um capitão, finalmente. Levantei e dei alguns passos até ele. — Vou dar mais uma chance pra você: qual o plano do seu Don na porra do meu território?! — gritei impaciente, então vi ele ficando amedrontado e isso era bom, esse era o caminho a se seguir, mas ainda assim, tudo que recebi foi silêncio. — Está testando a minha paciência, Rafael, e posso afirmar que isso não é bom pra você. — Caminhei até a mesa no canto da parede e peguei um alicate, voltei até ele e abaixei, ficando na altura de seus olhos. — Pronto para brincar? — Curvei os lábios levemente arqueando uma das sobrancelhas e o medo em seus olhos era o combustível que eu precisava para continuar.
Empurrei seu rosto para o lado, segurando-o e quanto mais aproximava o alicate de seu rosto, mais ele gritava em desespero, cortei seu lóbulo devagar, mastigando a carne mole, o desespero dele aumentou, seu grito saiu alto e arrastado. Apertei seu maxilar e fiz ele olhar para mim, para ver o quanto eu estava me divertindo com o sofrimento dele e que eu não iria parar até conseguir o que queria. Levei o alicate mais uma vez até sua orelha e cortei mais em cima, devagar, quebrando a cartilagem aos poucos até cortar completamente e o sangue já escorria pelo seu pescoço dos cortes feitos.
— Pronto pra falar, Rafael? — Ele apenas gemia de dor e apertava os olhos com muita força para tentar, talvez, diminuir a dor. — Eu tenho o dia todo…
— Eu não sei de nada!
— Vamos trabalhar do jeito difícil. — Olhei para Nero e dei a ordem: — Busque saber quem é a família dele.
— Não! Deixe minha família fora disso…
— Só depende de você. — Sentei na cadeira novamente e acendi outro cigarro, com toda paciência do mundo, encarava o homem todo ensanguentado e com alguns hematomas pelo corpo. Ele estava respirando pesado, estava cansado, se eu forçasse mais um pouco… só estava decidindo se seria fisicamente ou psicologicamente. Não sabia se ele aguentaria mais algumas porradas.
— Já achei, chefe.
— Não, eu imploro… faço qualquer coisa.
— Me fale o que sabe.
— Mas eu não sei de nada…
Caminhei lentamente para trás de Rafael onde ele não conseguia me ver, a arte da tortura é você surpreender o torturado, levá-lo ao limite com as armas que você tem e sabe usar. Peguei uma faca de lâmina curta e vim por trás dele, enfiei a faca em sua coxa, bem acima do joelho. Seu grito foi gutural, cheguei a ter um resquício de humanidade e senti até uma certa pena dele, porém, passou rápido.
— Quem são? — Olhei para Nero e ele sorriu, adorando tudo aquilo.
— Esposa, Sara, e dois filhos, Miguel, de 8 anos, e Joaquin, de 13.
— Interessante, dois homens, Rafael. — Parei bem em frente a ele, analisando o preso que sentia uma agonia tremenda. — Um homem de sorte eu diria, caso não tivesse dado de cara comigo. — Sorri para ele, que nitidamente ainda sentia a dor da faca cravada em sua perna.
— Por favor, não faça nada com meus filhos… — Vi lágrimas em seus olhos e eu sabia que tinha conseguido, ele falaria.
Nero baixou o gancho onde ele estava pendurado para o sangue voltar a circular em seus braços. Necessário dar conforto para o preso quando você acha que está chegando perto de alguma informação. Mostra que se ele começar a cooperar as coisas podem melhorar para o lado dele. É quase como um adestramento, a recompensa é algo fundamental.
— Já falei, só depende de você. — Traguei meu cigarro, calmamente, antes de falar: — Se for bonzinho deixo até você encontrar seus filhos novamente.
— Ele… quer reconquistar a Espanha.
— Isso é um insulto à minha inteligência, Rafael — falei de maneira calma e apoiei meu ombro na pilastra que havia ali, enquanto puxava a fumaça para os meus pulmões. — Me conte algo que eu já não saiba.
— Tem um infiltrado na Vincere.
O quê?! Fechei o cenho na mesma hora e endireitei meu corpo, isso era impossível. Uma pessoa não entra na Vincere sem antes Giulia passar um pente fino desde os primeiros dias de vida dela. Ele estava querendo me enrolar, só podia ser isso.
— Está tentando mentir pra mim de novo, ragazzo! — Fui até ele e soquei seu rosto. — Terei que matar um filho seu em sua frente para entender que não estou brincando?!
— Estou falando a verdade, eu juro!
— Quem é ele? — Ele ficou em silêncio e eu senti aquele tremor em meu estômago e logo o calor da raiva me possuindo, puxei ele com força pelo pescoço, levantando-o daquela cadeira e o olhando nos olhos. — Eu perguntei… Quem?! — falei entre dentes, bem próximo do rosto dele.
— Lu… ca… — Saiu num sopro de voz e então joguei ele na cadeira, fazendo com que ele e a cadeira caíssem no chão, Rafael tossiu recuperando o ar.
— Quem seria esse?
— Primogênito… do consigliere.
Virei para Nero e o encarei sério, franzindo o cenho, como não tínhamos essa informação? Eu precisava falar com Giulia, uma varredura nos últimos soldados que foram recrutados para a Vincere, os empregados da casa, os seguranças novatos dos restaurantes, eu precisava rever tudo. Minha mente não parava, em segundos eu pensei em vários cenários diferentes, pressionei minha testa com o polegar e o indicador e fechei os olhos; precisava de ar puro.
Saí porta afora, irritado.
Passei a mão pelo meu rosto, pelos cabelos e andei de um lado para o outro sem parar, aquilo era impossível, um infiltrado, quem? O consigliere dos Delantera foi morto por Filippo, sabe como é, olho por olho e dente por dente. Quem seria o novo conselheiro deles e quem era seu filho? Precisávamos descobrir o rosto desse homem para conseguir localizá-lo na Vincere. Peguei o celular para ligar para Giu, mas estava sem sinal.
— Merda!
— . — Virei para trás e vi Nero me olhando, esperando a próxima ordem.
— Vamos voltar para a cidade, preciso achar esse maledetto!
Capítulo 17
Alonso Perroni
Estacionei meu carro e respirei fundo olhando para o prédio do hospital, virei o rosto e vi as flores que comprei para levar para Vincenzo, era tão difícil ter que passar por aquilo de novo e, dessa vez, era ele, meu melhor amigo. Peguei o vaso, a minha bolsa e saí do carro indo em direção à entrada, cheguei na recepção e me identifiquei, sendo permitida a minha entrada logo em seguida para o quarto 204, onde ele estava internado. Caminhei a passos lentos, estava sem pressa alguma, com medo de como iria encontrá-lo, se estaria tão frágil quanto sua mãe há longos anos.
Eu precisava ser forte por ele e por Gio.
Vi que a porta do quarto estava aberta, puxei o ar mais uma vez e dei alguns passos, parando em frente a porta, vi Giovanna sentada na beira do colchão e Vince deitado naquela cama de hospital, porém, ele estava bem, mesma expressão de cafajeste e um sorriso no rosto por algo que Coppola falou. Sorri com alívio de ver aquela cena, fechei os olhos agradecendo a quem estivesse me ouvindo e então ouvi meu nome.
— !
Sorri e entrei, deixando minha bolsa e o vaso de flores em cima da primeira mesa que vi, Giovanna levantou para eu ter espaço para abraçar Vince, então o envolvi em meus braços e apertei o nosso abraço. Estava feliz em vê-lo bem, agradecida por não estar debilitado ou triste por já estar ali há tanto tempo.
— Eu estou bem, . — Afastei apenas para poder olhá-lo nos olhos. — Graças a você e seu pai.
— Não… — Neguei com a cabeça e me endireitei ficando ao lado da minha melhor amiga, que me abraçou.
— Modéstia não combina com você, — falou Gio e eu a olhei, irritada. — Aí está a nossa . — Balancei a cabeça, rindo.
— Obrigado, — agradeceu Vincenzo e eu apenas assenti pegando em sua mão.
— Meu agradecimento é você ficar bem e voltar pro bar, Cristian e você trabalharão juntos a partir de agora.
— Ótimo, mais tempo para os meus serviços particulares.
— Com a Giovanna até pode ser… — Ela arregalou os olhos e apertou meu braço, fazendo com que eu parasse minha frase no meio e olhasse para ela sem entender nada. Vince franziu o cenho, confuso, e pelo pânico da loira, pude deduzir que ela não tinha se declarado pra ele... ainda. Revirei os olhos antes de dizer: — Foque no bar de agora em diante, ok?
— Você que manda… — Ele fez continência e eu apontei o dedo para ele fazendo careta. — Que foi?
— Pare com isso! — ralhei de forma brincalhona. — Virou obrigação pros meus empregados desde que você inventou…
— Bom saber que pelo menos iria deixar um legado.
— Vai se foder, Vince — falei soltando o ar com força.
Nós três gargalhamos e era tão bom estar com eles novamente, pena que a minha paz não durou muito e meu telefone começou a tocar. Olhei para o visor e era Giulia; esperava não ser mais nenhuma surpresa desagradável como um vídeo meu aos beijos com , essa história estava acabada.
— Oi, Giu.
— Vem pra casa… agora.
— De novo essa…
— Agora, ! — berrou ela, interrompendo a minha frase e desligou, me deixando completamente confusa, mas ela não faria algo do tipo se não fosse importante.
— Desculpa, mas eu preciso ir, algo aconteceu em casa. — Guardei o celular no bolso da minha calça.
— Tudo bem, e fiquei feliz de ver você, . — Vincenzo sorriu.
— Vince vai ter alta semana que vem… — falou Gio, animada.
— Isso é maravilhoso! — Abracei ele novamente. — Se cuida, tá bom?
— Giovanna está cuidando muito bem de mim. — Ele piscou para ela e eu fiz uma careta.
— Jantar lá em casa, nós três, tudo bem? — Assenti que sim.
— Eu amo vocês.
— Que bicho te mordeu, ? — perguntou Giovana e eu apenas revirei os olhos antes de deixar o quarto e logo o hospital.
Cruzei o estacionamento mexendo no celular e vi as últimas mensagens no grupo com as minhas irmãs, elas tinham me marcado diversas vezes e eu fiquei ainda mais preocupada, comecei a caminhar mais rápido. Olhei para o lado enquanto guardava o telefone na minha bolsa e vi Ettore e Austin sobressaltados, eles estavam em outro carro estacionado a poucos metros do meu. Eu apenas fiz sinal que estava tudo bem. Assim que estava atrás da direção, coloquei o cinto e fui na maior velocidade que a rodovia permitia até em casa. Entrei a passos largos à procura da Giulia, fui até a sala de segurança e ela não estava lá, franzi o cenho e mandei mensagem no grupo perguntando onde elas estavam e tudo que recebi foi: quarto da Bea.
Abri a porta de supetão e Beatrice surgiu de trás de mim fechando e trancando a porta, olhei assustada com a cena de filme de terror. Giulia andava de um lado para o outro sem parar e Luna estava na varanda, fumando, o que era uma novidade. Fechei os olhos, unindo minhas sobrancelhas e os abri novamente antes de perguntar:
— O que caralhos está acontecendo?
— Acho melhor te mostrar… — Beatrice respirou fundo e foi até as portas duplas do closet dela. Caminhei até ela, ficando ao seu lado. — Tá pronta?
— Vai logo, Beatrice.
Assim que ela abriu as portas, eu cobri minha boca para um grito não sair. Eu esperava qualquer coisa das minhas irmãs, sinceramente, mas aquilo era loucura.
— O que vocês fizeram? — Olhei para elas com os olhos arregalados.
— Agora a gente explica. — Luna fechou a porta da varanda, assim como minha irmã ruiva fechou as do closet ao som dos gritos abafados deixando a boca da mulher que estava lá dentro.
— Beatrice ouviu a Carolyn no telefone… — Cruzei os braços esperando algo que explicasse a futura noiva de amarrada e amordaçada dentro do closet da Beatrice. — Ela falava com alguém sobre um plano pra controlar a Vincere, .
Franzi o cenho, ficando completamente chocada com aquilo, eu não gostava da mulher pelo simples motivo de ela parecer fútil, superficial e arrogante, mas ela ser uma infiltrada para derrubar a famiglia mudava todo o cenário. Minha expressão mudou completamente, assim como meu temperamento e minha postura diante daquilo tudo. Elas fizeram bem em prender essa vagabunda, quem ela acha que é pra invadir a nossa casa e tentar tomar o que é nosso por direito?
— Já fizeram ela falar?
— Essa parte é com o . — Beatrice levantou as mãos em rendição e sentou na cama. Respirei bem fundo e eu não falaria com o idiota até o momento que fosse extritamente necessário.
— Ele está há dias torturando diversos homens pra conseguir informação, vamos dar um tempo pra ele, ok? — explicou Giulia e eu olhei pra ela, confusa.
— Quando foi que isso- — Deixei a frase morrer, sem acreditar que de novo os segredos estavam por todo lugar. — Giu, o que tá acontecendo?
— Sigilo.
— De nós?! — reclamou Bea, indignada.
— Papai pediu.
— Era só o que me faltava… — Revirei os olhos. — Qual a missão, Giulia? — Ela ficou em silêncio, tentando olhar para outros lugares que não fossem meus olhos, mas fui até ela e parei em sua frente. — Parlare, Giulia Perroni!
— Os Delantera voltaram!
— Mannaggia! — xingouBeatrice gesticulando as mãos. — Ela é um deles?
— Vai saber, agora temos que arrancar algo dela! — falou Luna, nervosa.
Massageei minha testa em busca de alguma razão ou uma luz em minha mente, aquilo não podia estar acontecendo, era uma merda atrás da outra. Logo quando achei que estava tudo resolvido e que eu seguiria tomando conta da minha boate, se casaria e seria feliz bem longe de mim e tudo ficaria bem. No entanto, eu esqueço que ser dessa família quer dizer que a única coisa que não vamos ter na vida é paz. Soltei o ar me preparando e abri as portas do closet, olhei para minhas irmãs perguntando se elas iriam e as três me seguiram. Giulia fechou as portas e então me aproximei da loira e tirei o pano da boca de Carolyn.
— Vai, desembucha.
— Não sei o que quer de mim…
Revirei os olhos e dei um tapa na cara dela, assustando minhas irmãs, menos Giulia, óbvio, e Carolyn mantinha o rosto virado para o lado, surpresa por eu ter feito aquilo.
— Você vem a minha casa, seduz , enrola a minha irmã — apontei para Luna — e agora quer me fazer de otária? Non sono un idiota.
— Não sei o que sua irmã escutou, mas ela está louca — falou com tamanha arrogância que me fez ficar com mais raiva do que já estava.
— Vai xingar minha irmã também?! — Estalei minha palma de novo no rosto dela, dessa vez com mais força, o que fez sua pele ficar vermelha. — Se pazza, puttana?
— Eu sou apenas a prometida de . — Ela começou a chorar e fazer cena, eu apenas revirei os olhos fortemente e andei de um lado para o outro pensando no que eu poderia fazer para fazer ela falar. — Só quero dar uma família a ele…
— Não ouse… — Parei em frente a ela, apontando o dedo em sua cara
— Ele me contou o quão trágica é a história de vocês…
— Não ouse usar isso pra se safar, sua vadia. — Ela levantou a cabeça e me olhou de forma investigativa, franzi o cenho, confusa. — sofreu tanto quanto qualquer uma de nós e não merece ser traído dessa forma.
— Você gosta dele… — falou ela, baixo, como se tivesse se dado conta daquilo naquele momento.
— O quê? — Dei um passo para trás.
— É sobre isso, não é? — Ela riu, soltando o ar pelo nariz, desacreditada. — Vocês dois têm um caso por baixo dos panos… — Carolyn fez uma careta
— Não fale do que não sabe… — Neguei com a cabeça, veementemente.
Senti um vazio me tomando, aquela sensação de estar sendo ameaçada e acuada em um canto da parede me tomou. Um calafrio percorreu meu corpo se instalando em meu estômago. Olhei rapidamente para as minhas irmãs que seguiam ao meu lado, mas eu sentia que elas me julgavam em suas mentes.
A raiva surgiu em mim, não só pela situação ou por ela falar em voz alta algo que todas nós sabíamos, porém, decidimos em conjunto enterrar aquilo naquela sala de segurança, assim como Giulia achou melhor deletar aquele vídeo, transformando de uma vez só aquilo em um segredo nosso. Também me deixava irritada o fato de a mulher invadir minha casa e me afrontar daquela forma, nos desrespeitando embaixo do nosso próprio teto e ainda achar que pode falar um absurdo desses como se soubesse de algo.
— Tá escrito na sua cara! — Ela abriu a boca como se estivesse chocada. — Você está apaixonada por ele!
— Cala a boca! — Parti pra cima dela desferindo tapas, mas Beatrice me segurou e começou a me puxar para trás.
— Que nojo, vocês são doentes!
— Sua escrota, eu vou matar você! — berrei, completamente sem controle algum da minha raiva, aquilo tinha me atingido de forma mais profunda do que eu achei que seria.
— Vamos sair daqui… — Bea lutava para me tirar de perto da mulher enquanto eu me debatia querendo agredir Carolyn.
Giulia se juntou à ruiva e me levaram pra fora, Luna colocou a mordaça novamente na francesa e fechou as portas.
— Calmati, . — Giulia balançou meus ombros.
Senti meu coração pulsando em minha garganta, por que eu me descontrolei tanto?
Não podia ser verdade, não era, eu sabia que não era. Eu nunca gostei do , o que aconteceu foi um lapso, um desvio de caráter momentâneo, apenas um desejo incontrolável, delirante eu diria, de duas pessoas que se odiavam, foi só isso. Porque eu sinto que se não fosse pelas minhas irmãs eu teria matado aquela vagabunda com as minhas próprias mãos? E por que a sensação que eu tenho dentro de mim é que eu teria gostado disso?
— Ela está me assustando... — comentou Luna, amedrontada, fazendo-me acordar dos pensamentos obscuros em minha mente e voltar a mim.
— Descubram tudo o que puderem sobre ela, enquanto isso, ninguém sabe onde ela está, entenderam? — ditei, olhando para elas, que assentiram. Saí dali pisando duro, eu precisava de um ar e, principalmente, de uma bebida.
Saí dali batendo a porta com força, caminhei sem rumo pelo corredor, eu estava completamente desorientada, passei a mão pelo rosto e agachei no meio do corredor. Apoiei a cabeça em meus joelhos, minha vontade era de gritar e colocar tudo aquilo para fora, sentia meu coração acelerado e pulsando em meus ouvidos.
Me sentia sufocada e perdida.
— O que aconteceu?
Abri os olhos de vez, encarando o chão, ao ouvir aquela voz. parecia ter o timing perfeito para me pegar desprevenida. Levantei a cabeça devagar e vi ele me olhando de maneira curiosa, fiquei de pé e puxei meu blazer, ajeitando-o.
— Nada aconteceu.
— Sério? — perguntou, debochado. — Por isso estava no meio do corredor agachada… Bem comum uma pessoa em seu juízo perfeito fazer isso.
— Estou sem tempo pra você, . — Comecei a andar para passar por ele, mas fui segurada pelo braço, fazendo com que eu olhasse em seus olhos.
— Não quero que saia de casa — ordenou ele, como se eu fosse uma maldita criada.
— Como? — Franzi o cenho.
— Não vou repetir, .
— Me solte — falei, séria.
— Se me prometer manter essa bunda em casa…
— Você realmente acredita que tem algum poder sobre mim, não é?
— Sabemos que sim… — falou, vangloriando-se.
Aquele sorriso libertino tomou seu rosto e tudo que escutei foi a voz da Carolyn em minha mente. Puxei meu braço de maneira brusca e tomei distância dele, assustada, e aquilo fez ele me olhar de forma confusa. Os olhos negros foram direto para os meus, me analisando, e eu nunca conseguia não me sentir presa a eles, nem que fosse apenas por alguns segundos.
— O que você-
— Tenho mais o que fazer, … — Virei as costas e saí andando sem deixar ele terminar o que falaria.
— Perroni, não ouse sair dessa casa! — gritou , mas eu já estava descendo a escada com pressa.
Peguei minha bolsa em cima da mesa no hall e entrei em meu carro. Fiquei olhando para a mansão e diversas coisas me passaram pela cabeça, desde o maldito dia em que caí na tentação pela primeira vez até o momento em que aquela cadela falou aquele absurdo. Fechei os olhos e soquei o volante diversas vezes enquanto gritava o máximo que meus pulmões permitiam.
Abri os olhos e olhei para frente, assim que vi na porta de entrada dei partida no carro e saí cantando pneu. Olhei pelo retrovisor e o carro dos meus seguranças vinha logo atrás de mim, suspirei aliviada por ele não ter colocado todo o exército atrás de mim.
— Cazzo!! — berrei dando outro soco no volante.
Eu precisava ir para a boate, Beatrice estava em casa e isso significava que a Fascino estava sem alguém para administrar a noite. Mesmo sabendo que não me encontrava em meu juízo perfeito, eu precisava de algo que distraísse a minha mente. Entrei pela porta sem nem mesmo dar boa noite aos meus seguranças ou barmans. Apenas subi a escada com um único objetivo: secar aquela garrafa de vodca.
Entrei em meu escritório e joguei minha bolsa no sofá, abri a gaveta e ao tirar a tampa da garrafa, nem mesmo pensei em um copo, virei o líquido transparente e o senti queimar em minha garganta. Mordi o lábio com força enquanto me apoiava na mesa e encarava o carpete vermelho, nem mesmo me dei conta de quando comecei a chorar.
O que porra tava acontecendo comigo?
Quando desci, bêbada demais para dirigir meu próprio carro, pedi para que Austin e Ettore me levassem para um hotel. Eu não queria estar em casa, não queria ver minhas irmãs, não queria vê-lo… Queria, por uma noite, esquecer que eu fazia parte da famiglia. Eu só precisava de um tempo sozinha com minhas frustrações e pensamentos obscuros demais para serem falados em voz alta.
Um deles foi dito em alto e bom som e eu não gostei da sensação de ouvi-lo.
E não só foi dito na minha frente como minhas irmãs também estavam lá para ver o meu descontrole emocional diante daquilo. Não podia ser a verdade, eu não aceitaria se fosse, eu lutaria todos os dias contra seja lá o que fosse aquilo. Eu pedi mais bebida pelo serviço de quarto e bebi até achar que fosse o suficiente para calar as malditas vozes dentro da minha cabeça.
Capítulo 18
Alonso Perroni
Acordei com batidas fortes na porta e com muito esforço consegui abrir os olhos, ergui meu corpo e olhei para os lados vendo uma garrafa de whisky quase na metade. Ouvi as batidas novamente e levei a mão até a cabeça, a dor estava presente, latejante. Desci da cama e peguei um robe. Fui até a porta e abri ela devagar, vi transtornado, me olhando daquele jeito possesso, mas sem perder a pose que só ele conseguia, e então respirei fundo já sabendo o que viria, dei as costas e caminhei em direção ao banheiro.
— Por que faz tão pouco da minha autoridade, ?! — Ele entrou no quarto e bateu a porta atrás de si. Entrei no banheiro, ignorando sua pergunta, e comecei a escovar os dentes com a escova que o hotel dava de brinde, logo vi ele no reflexo do espelho. — Falei para não deixar a mansão.
— Não sei se já se deu conta em que século estamos — virei e apontei a escova de dente para ele enquanto falava —, mas eu sou uma mulher livre, . — Voltei para a pia cuspindo a pasta e lavei a boca, me enxugando na toalha e virando novamente para encará-lo. — Não obedeço homem nenhum.
— … — alertou, passando a mão no rosto, claramente indignado. — Você sumiu!
— Eu estava com meus seguranças, que tenho certeza que você ligou para saber onde eu estava, já que está aqui.
— É óbvio que liguei! — gritou, e eu apenas ignorei minha cabeça latejando por causa da ressaca e caminhei até o quarto com ele em meu encalço. — Você some por uma noite inteira logo depois… — ele não continuou, apenas suspirou e mexeu no cabelo, nervoso. — Me escute dessa vez, sim?
— Conseguiu alguma informação? — falei sentando na cama e cruzando as pernas, vi seus olhos serem indiscretos em minhas coxas, que escapavam do pano do robe, e revirei os olhos. — Aqui, — indiquei meus olhos com o indicador e ele logo subiu o olhar, pigarreando. — Com os Delantera, talvez?
— Como você-
— Não importa — cortei o que ele iria dizer. — Você deveria ter me comunicado… — Levantei e virei de costas, peguei minha calça e a coloquei passando por baixo do robe, abotoei e fechei o zíper me virando para ele novamente. — Isso é importante, nós também precisamos estar em alerta caso eles estejam pensando em nos atacar.
— Tem um infiltrado na Vincere, cazzo, por isso mandei ficar em casa.
— E esse foi o problema, você não quis me informar pois acha que manda em mim. — Tirei o robe e joguei em cima da cama.
— ! — Peguei minha blusa que estava nas costas de uma poltrona e vesti. — Não fode, porra, você sabe o que passamos. — Ele se aproximou de mim.
— Por isso mesmo! — Encarei-o com raiva e bati o indicador no peito dele, irritada por achar que eu sou uma donzela em perigo que precisava ser protegida a todo custo. — Não sou idiota, você sabe melhor do que eu que devemos seguir com a rotina… — Peguei meu blazer, bolsa e saí andando para fora do quarto. — Bom dia, Austin, Ettore. — Sorri para eles, que apenas balançaram a cabeça me cumprimentando. — Não podemos deixar eles desconfiarem que sabemos… — vinha logo atrás de mim e meus seguranças na sequência, tomando uma certa distância respeitosa, continuamos a caminhar pelo corredor em direção ao elevador. — Acaso não sabe como o inimigo pressente essas coisas? Sem falar que pode ser alguém em qualquer lugar na Vincere, até na Itália.
— Você sempre minimizando o fato de que pode ser alguém próximo e que você pode estar em risco…
Parei em meio ao corredor e virei para ele, pendendo a cabeça para o lado antes de falar:
— Acha mesmo que só eu corro riscos, ?
— Não ache que um sobrenome falso te mantém em segurança, — sussurrou ele entre dentes, aproximando-se de mim, aqueles olhos sempre parecendo me desafiar, aquilo sempre me deixava possessa.
— Sei bem que não…
— Então não me conteste, vá direto para casa e fique lá…
— Infelizmente… — Olhei para o meu relógio de pulso e busquei seus olhos — a Fascino abre em algumas horas. — Dei de ombros olhando para ele.
Vi sua expressão mudar e ele me empurrou na parede com força, arregalei os olhos e senti meu coração acelerar, assim como meus seguranças levaram um susto pela movimentação repentina e travaram onde estavam. Ninguém nunca tinha visto eu e brigarmos daquela forma, nem mesmo eu tinha visto ele perder a cabeça em um lugar público.
— Não me tire do sério — travou o maxilar —, sei que odeia quando eu ajo por impulso, . Então, caso não queira que eu mate cada filho da puta que ousar olhar errado pra você, fique em segurança.
Minha respiração estava descompassada, sentia meu corpo trêmulo, mas não era de medo, eu o conhecia, mais do que gostaria até. Aquela sensação era receio, receio do que eu estava sentido com tão perto de mim, falando de maneira tão protetiva, segurando meu ombro e minha cintura com possessividade. Aquilo era impróprio de tantas maneiras, e eu soube ali que nem toda a bebida do mundo poderia manter aqueles pensamentos sujos longe da minha cabeça.
— Ok — foi tudo que eu disse.
[...]
Soquei com mais força o Fred, nome que eu tinha dado para o boneco de borracha que era mais um saco de pancadas na nossa academia, estava descarregando a minha raiva de ter que ficar presa naquela casa. só podia ter surtado, ficou tanto tempo torturando homens que perdeu a habilidade de interpretar a realidade. Não era possível que ele estava pensando racionalmente prendendo todas nós em casa como se algum idiota fosse capaz de se aproximar de nós depois da segurança ter sido reforçada.
Eu tinha pedido para Cristian tomar conta da boate depois daquele ataque de , fazia 8 dias que eu estava trancada naquela casa e eu já não sabia mais o que fazer. Chutei mais uma vez o boneco, senti meu coração pulsar na minha garganta, fechei os olhos e respirei fundo. Eu já estava enlouquecendo antes mesmo de não ter que ficar sem distrações, eu precisava do meu trabalho para me manter longe dos pensamentos obscuros que rondavam a minha cabeça.
Eu estava entrando em pânico dentro daquela casa, eu precisava ir pra minha boate e naquele dia eu iria, não tinha um ser humano nessa terra que me fizesse mudar de ideia. Tomei um banho depois do almoço, me arrumei e sem ninguém me impedir, fui até a Fascino. Com Ettore e Austin na minha cola, é claro. Entrei na boate, feliz apenas por estar ali, dei boa tarde aos meus barmans e pedi para que Christian fizesse um martini.
— Ontem veio uma mulher aqui querendo falar com você.
— Uma mulher… Não disse o nome ou o que queria comigo? — Franzi o cenho olhando para o ruivo que colocou a taça com minha bebida no balcão balançando a cabeça negativamente.
— Ela só disse que voltaria. — Assenti, dando de ombros. — O detetive veio de novo também… — Soltei o ar, revirando os olhos. — A sorte foi que os homens vieram recolher o que sobrou mais cedo.
— Eu queria que Estevan cuidasse de algo mais importante do que ficar enchendo a porra do meu saco.
— Acho que o cartel de drogas da Espanha é bem importante, . — Ele riu e eu mostrei o dedo do meio para ele.
— Idiota.
— Boa tarde. — Olhei para o lado, vendo Beatrice.
— Fugiu de casa também? — falei rindo.
— está insuportável. — Ela revirou os olhos e sentou ao meu lado. — Me dá um desse também, Cris.
— É pra já. — O barman virou e foi para o fundo do bar preparar o drink.
— Estava com saudade da namorada? — Peguei minha taça e dei um gole, rindo divertida.
— Vai me tirar pra brincadeira, ?
— Só fiz uma pergunta… credo. — Levantei as mãos em rendição e ela revirou os olhos.
— Eu quero falar uma coisa com você… sobre aquele assunto. — Ela me encarou insinuando que eu soubesse qual era o assunto, e eu realmente sabia; Carolyn.
— Vamos pro escritório.
Ela me explicou como estava fazendo com a vadia francesa. Dava comida a ela, levava ela no banheiro para fazer as necessidades, amarrada é claro, e a diaba não abria o bico. Beatrice até tentava arrancar alguma coisa dela, porém, Carolyn parecia treinada para suportar aquilo e muito mais. No entanto, eu ainda achava que a gente estava pegando leve, então eu disse que depois do fim de semana de Natal a gente interrogaria ela de uma forma mais… eficaz.
Pensei até em um jeito de o papai e de não desconfiarem do sumiço dela, apesar dos dois estarem ocupados o suficiente para não ter dado falta da inconveniente. Falei para Beatrice pegar o celular de Carolyn e enviar uma mensagem para dizendo que passaria as festas com o pai dela em Paris. Seria a desculpa perfeita e isso nos daria tempo para arrancar dela tudo que precisávamos.
— E dá um jeito de calar a boca do Estevan, paga alguém na polícia pra tirar esse merda da nossa cola.
— Vou pedir para o Filippo resolver isso. — Beatrice levantou e olhou para mim. — Não esqueça que papai chega hoje e ele quer todos em casa para jantar.
— Alguma ocasião especial?
— Semana que vem é Natal, vai saber o que ele planeja. — Ela deu de ombros e saiu do escritório.
Soltei meu peso na cadeira e olhei para cima, encarei aquele teto como se fosse a salvação dos meus problemas, tudo estava tão confuso em minha cabeça, nunca fiquei tão perdida na minha vida. Era coisa demais para absorver, resolver e entender. Respirei fundo e peguei um cigarro, acendendo-o, puxei a fumaça para os meus pulmões fechando os olhos e agradecendo por aquilo estar me acalmando.
Eu precisava pensar com clareza.
Perroni
Quando cheguei em casa depois de descobrir que tínhamos um infiltrado, estava estranha, agachada no corredor como se estivesse sendo atormentada por algo ou alguém, tentei ler seus olhos, eles sempre me diziam o que eu queria saber. Entretanto, não gostei do que vi direcionado a mim, não entendi o que estava se passando, mas eu iria descobrir. Se ela quisesse sair de casa mesmo quando dei uma ordem direta, ela teria companhia e estaria sendo vigiada de perto.
Eu tinha uma informação que ninguém tinha, aquele soldado falando o nome dela antes de morrer ainda me assombrava, mas era exaustivo sentir essa necessidade de protegê-la, ela era a única que se revoltava comigo por querer cuidar dela. era como um cavalo selvagem, só queria liberdade e se alguém ousasse ir contra seus desejos, pagaria um preço. Eu não estava gostando do quanto eu estava tendo que pagar desde que o que eu sentia por ela tinha tomado todas as horas do meu maldito dia. Aquilo era preocupante e inadequado, mas eu não conseguia lutar contra, quanto mais eu tentava me distanciar, parecia que cada vez mais algo me possuía.
tinha se tornado um vício pior do que qualquer droga.
Desci a escada devagar, sentindo bem o mármore sob meus pés, meu corpo parecia levemente retesado, a tensão tomava conta de mim a cada passo que eu dava. Fazia algum tempo que todos nós não fazíamos as refeições juntos. Meu pai estava na Itália, a verdade era que ele passava mais tempo lá do que na Espanha. Como ele mesmo dizia: quem deveria cuidar da Espanha eram os herdeiros da Vincere, liderados por mim e por . Seria uma tarefa árdua já que não nos entendemos nem nas decisões banais.
— Como foi essa temporada sem o pai de vocês em casa? — perguntou Otelo enquanto levava um pedaço de carne de cordeiro à boca.
— Muito trabalho, papai — respondeu Luna, sorrindo.
— Quero propor umas férias pra vocês.
— Férias? — Giulia franziu o cenho olhando para o nosso pai.
— Sim, estão trabalhando muito… — Ele deu um gole em seu vinho e continuou: — O que não é algo ruim, estou orgulhoso dos meus filhos. Quero passar o Natal na Itália, com a família reunida na nossa antiga casa.
Vi arregalar os olhos e trocar olhares com minhas irmãs, o que achei estranho, o que elas estavam aprontando?
— Não vejo necessidade de deixarmos tudo aqui e irmos para a Itália, pai — argumentou Beatrice. — Podemos organizar uma festa maravilhosa de Natal aqui na mansão.
— Está na hora de voltarmos para a Itália para uma comemoração em família, Beatrice — insistiu Otelo.
— Papai, Vincenzo ainda está se recuperando, sabe que gosto que ele e a Giovanna passem o Natal com a gente.
Vi que meu pai ponderou, estava pensando, pisquei os olhos devagar, esperando o que ele resolveria, tudo com meu pai era assim. Se tivesse sido eu a falar, definitivamente já estaríamos brigando ou coisa pior. No entanto, minhas irmãs tinham um poder sobre Otelo que eu nunca entenderia. Olhei para , que conectou seu olhar ao meu por alguns instantes, gostaria de saber por que estava tão difícil ler seus olhos.
— Tudo bem, tem razão. Podemos fazer essa viagem ano que vem, com Vincenzo e Giovanna presentes.
— Obrigada, papai — agradeceu com um sorriso e uma expressão de felicidade genuína, ela… suspirei tentando manter meus pensamentos em silêncio.
Eu ia perder a sanidade.
[...]
Filippo tinha seguido o homem que vendia drogas nas boates da Espanha por alguns dias e descobriu tudo que podia. Parecia realmente ser apenas um moleque tentando ganhar a vida de uma forma não convencional, o problema é que quem vende as drogas no país somos nós, e ele não sairia impune. Um susto deveria ser o suficiente para amedrontar um jovem imprudente, meu primo cuidaria disso, pois naquele momento eu só conseguia enxergar na minha frente, com aquele vestido vermelho, minúsculo, rindo, bebendo e conversando com minhas irmãs e Giovanna.
Eu estava sem o menor espírito natalino, mas eu precisava estar ali presente ou Otelo me mataria pessoalmente. Meu pai levava as datas comemorativas a sério, diferente do pai de Carolyn, e o estranho foi ela me mandar mensagem na semana passada dizendo que tinha ido para Paris. Eu achei estranho, mas vai que o espírito natalino que me faltou tivesse surgido de forma inesperada no velho? Apesar das circunstâncias em que nós nos encontrávamos fossem complicadas, eu esperava de verdade que ela se divertisse com o pai e a tia. Otelo conversava animado com uns amigos próximos que ele convidou para passar o Natal com a gente.
Eu, desde que desci aquela escada, seguia sentado na mesma poltrona, e já estava com a minha terceira ou quarta dose de whisky. Minha cabeça não parava de pensar sobre o intruso, olhava para todos os soldados, desconfiado e procurando uma falha para interrogá-los. Vi Giulia se aproximando e troquei a perna que estava apoiada no joelho, dando um gole no whisky e esperando com o que o pingo de gente ia vir me perturbar agora. Ela sentou ao meu lado e ficou em silêncio, apenas bebericando o suco de uva em sua taça, sabia que era suco pois ela detestava bebida.
— O que houve, Giu?
— Nada, só quis sentar um pouco… Elas já estão alteradas — apontou para as irmãs, revirando os olhos —, não sabem ficar dentro do limite.
— Talvez elas queiram cruzar o limite, Giulia. — Levei o copo à boca dando de ombros e a vi olhar para mim de um jeito inquisidor.
— Como cruzou com a , ? — Me engasguei com o whisky e quase cuspi tudo no tapete. — Guardanapo? — Vi o papel branco e quadrado em minha frente sendo balançado pelos dedos de Giu e o puxei de sua mão para secar minha boca. — É tão impulsivo assim que não soube controlar seu pinto dentro das calças?
— Você não sabe do que tá falando, Giulia.
— Ah, verdade — ela colocou o dedo no queixo, como se ponderasse algo —, vocês não transaram… — Seus olhos azuis me miraram e ela concluiu: — Ainda…
Giulia levantou e saiu em direção à cozinha, eu estava perplexo, o que ela quis dizer com “ainda”? Ela sabia de algo que eu não sabia? Olhei diretamente para que me olhava com a testa franzida, porém, logo tirou a atenção de mim e voltou a olhar para Beatrice. Fiquei completamente perdido com tudo aquilo, quando foi que a Giulia soube tanto? contou tudo que aconteceu para ela? Não era possível, mesmo que eu soubesse da confiabilidade que elas têm umas nas outras, ela não contaria.
Enquanto pensava na probabilidade de todas as minhas irmãs saberem de tudo e o quanto isso seria problemático em níveis que nem queria pensar, vi Filippo entrar na sala cumprimentando todos e vindo diretamente em minha direção com uma expressão que eu não estava gostando.
— Podemos falar?
Acenei e levantei, deixando meu copo na mesa ao lado da poltrona em que estava, fomos até a biblioteca e então me sentei na cadeira de meu pai, esperando ele me contar a má notícia em plena véspera de Natal.
— Aquela transação deu errado, .
Fechei os olhos e suspirei. As mulheres trazidas para trabalhar em nossas boates pelo mediterrâneo sempre deram certo. Se os Delantera estivessem por trás disso também eu faria questão de matar o responsável com minhas próprias mãos.
— Mande Nero ir até lá e fazer dar certo.
— Elas estão presas na polícia federal, . Provavelmente aquele detetive que não sai do nosso pé está lá se achando o melhor dos policiais por ter impedido a entrada de imigrantes ilegais.
— Mudaram o produtor de passaportes? — Ele balançou a cabeça em negativo. — Então por que pegaram elas, Filippo?! — falei mais alto, me levantando. — Espero saber detalhes do porquê isso deu errado depois de tantos anos.
— Sim, .
Respirei fundo tentando controlar a minha raiva, meu humor estava péssimo, dias e mais dias torturando homens; me tirando do sério; minhas irmãs aprontando alguma coisa que eu ainda iria descobrir o que era e agora mais essa. Eu poderia ter paz pelo menos no Natal, mas não, como um feriado religioso seria bom com o preferido do príncipe do inferno?
Saí da biblioteca e olhei para a porta lateral que dava acesso à área da piscina, vendo uma silhueta e apenas o brilho da brasa de um cigarro. Andei lentamente já tirando minha carteira do bolso e colocando um cigarro nos lábios. Assim que estava do lado de fora vi o corpo encostado na parede, as pernas cruzadas, o vestido vermelho colado e os olhos verdes me encarando como se eu atrapalhasse seu silêncio. Apenas andei mais um pouco e acendi meu cigarro, ficando em silêncio, que era o que parecia que ela tinha ido buscar ali fora, longe de todos.
— Papai parece feliz. — Ela estava olhando para frente, encarando um ponto qualquer do jardim e eu olhei de soslaio em sua direção. — É realmente estranho vê-lo assim…
— Ele tem motivo pra isso…
— Sabe qual é? — sempre era pega pela curiosidade.
— A nossa empresa vai abrir uma filial de nossas lojas aqui na Espanha — falei, sem mais.
A empresa têxtil da Vincere, que meu pai construiu em homenagem a minha tia, ia muito bem. O único negócio legal que a nossa família tinha e que não dava tanta dor de cabeça.
— Acreditava que a Vittoria inc ficaria apenas na Itália para sempre.
— Talvez seja um jeito de Otelo mostrar que nossa tia conseguiu acabar com eles mesmo sendo assassinada. — Sorri sem humor.
— Ótima forma de enxergar as coisas. — Ela desencostou da parede e virou o corpo em minha direção, fazendo com que eu fizesse o mesmo.
— Não acho um jeito tão ruim de expandir os negócios, afinal, estamos aqui — expliquei.
— Não estou reclamando, gosto de pensar que vou ter uma loja nossa bem aqui para pegar as minhas roupas.
— Já sei que vou gostar da próxima coleção… — Dei um trago em meu cigarro dando um sorrisinho travesso e vi seus olhos cintilarem com o reflexo da luz verde do jardim ao me olhar. — Você está bem?
— Que tipo de pergunta é essa? — A vi dar alguns passos para frente enquanto tragava o seu cigarro.
— Está diferente, .
— Diferente? — Ela jogou o cigarro e pisou na bituca para apagá-la. Logo olhou pra mim e continuou: — Estou a mesma de sempre, , talvez você tenha se acostumado com uma versão minha que não existia até você trazer ela pra fora, mas fiz questão de afogá-la com muito álcool antes que fosse tarde. — Fiquei um pouco confuso com o que ela falou e meu impulso foi pegá-la pelo braço. — Não vamos mais fazer isso — disse ríspida, ainda de costas.
Ela já tinha deixado claro que nada do que aconteceu nos últimos meses voltaria a acontecer, além de ter dito com todas as letras que era para eu tentar de verdade com Carolyn. Tudo o que eu não esperava, fiquei frustrado, chateado e até um pouco surpreso com o que ela sugeriu. Contudo, eu sabia que uma das qualidades de era ser racional em qualquer momento, seja ele ruim ou não.
Fazia tanto tempo que eu não conseguia lê-la tão facilmente e isso me deixou em dúvida se ela realmente estava me afastando porque queria ou porque era preciso.
— , me diz o que passou pela sua cabeça naquele dia… Que estava agachada no corredor. — Vi seus ombros penderem, como se ela fosse se arrepender de falar o que viria pela frente.
— Medo, … Medo.
Senti um arrepio cruzar minha coluna e larguei seu braço, dando um passo para trás e vendo ela ir, distanciando-se cada vez mais de mim e, olhando sua nuca, um sentimento de amargura me atingiu e por mais que ela estivesse certa sobre tudo isso, a parte de mim que sentia algo por ela já não era mais possível afogar como ela fez.
Capítulo 19
Alonso Perroni
Mal consegui passar pelo jantar intacta, olhar para depois do que falei para ele era quase como se sentisse uma faca girando em meu estômago. Eu não sabia exatamente o que ele queria que eu dissesse, mas disse o que senti naquele dia, lembro de como eu entrei em pânico quando lembrei das palavras de Carolyn, fiquei tão apavorada que bebi para esquecer, para apagar meus pensamentos e talvez até matar aquela parte de mim que pensava tanto que meu meio-irmão seria algo além do que ele é.
Eu estava confusa e meio perdida.
Cheguei em meu quarto após o jantar de Natal e ainda segurava um copo com whisky, fui até a varanda para fumar e senti um alívio por estar sozinha. Longe dos olhares que me queimavam, dos que me julgavam e dos que me matavam por dentro um pouco mais a cada minuto. Depois de me sentir tonta e cansada o suficiente, deitei em minha cama e chorei, as lágrimas saíam sem dificuldade alguma e eu nem sabia o motivo de ter chorado copiosamente naquela noite.
Quando acordei pela manhã senti uma imensa vontade de vomitar e foi o que fiz, corri para o banheiro.
Tomei banho, me arrumei para o café e quando abri a porta, vi uma sacola de papel vermelha e linda no chão com meu nome, franzi o cenho e a peguei, voltando para dentro do quarto novamente. Abri o pacote com cuidado, vi uma caixa de veludo quadrada e abri. Um colar com uma peônia e três cobras em volta, conhecia esse símbolo, algo que pra nós, principalmente da Vincere, era tido como o símbolo de poder dentro da famiglia. Todos nós usamos o anel com a peônia e as cobras em nosso anelar, mas Otelo e sempre usam um broche do lado esquerdo do peito, papai deveria estar tentando me mostrar que, de uma forma ou de outra, eu também sou a prossima.
Sorri feliz pelo gesto.
Deixei a caixinha em cima da cômoda e assim que abri a porta novamente dei de cara com Beatrice. Franzi o cenho pela expressão dela não ser nada boa, olhei para baixo e ela tinha um celular em mãos. Deixei que entrasse no quarto e então virei para encará-la, fechando a porta atrás de mim.
— O que houve?
— Leia isso aqui. — Ela me entregou o celular no aplicativo de mensagens, comecei a ler e não entendi absolutamente nada. Olhei para ela novamente e balancei a cabeça em negativo. — Exatamente. São códigos, , alguém está trabalhando junto com a Carolyn.
— Esse celular é dela?
— Não era óbvio? — Ela sentou na minha cama e mordeu o lábio olhando para cima, como se pensasse em algo. — Pelo histórico, esse número liga sempre a mesma hora duas vezes por semana — explicou ela e eu comecei a rolar a conversa para cima.
— Cadê as mensagens antigas?
— Não tem nada, apenas as mensagens que a pessoa mandou depois que ela foi presa pela gente.
— Sem um padrão vai ser impossível decifrar isso… — Bufei em reclamação. Precisávamos de respostas e tudo que a gente recebia eram mais perguntas.
— Talvez a Giu consiga.
— Eu também tenho fé na nossa irmã, Bea, mas calma aí… são mensagens aleatórias demais…
— Temos que tentar…
Nos entreolhamos e a gente sabia que tínhamos que fazer isso, descobrir quem era que ajudava Carolyn, principalmente se fosse o intruso que estava na Vincere. Era a nossa chance de descobrir tudo, mas antes eu queria tentar arrancar algo daquela vagabunda. Chamei Beatrice para vir comigo, caminhamos pelo corredor em direção ao quarto dela, quando viramos, vi de costas e Luna bem à sua frente. Coloquei o celular em meu bolso de trás e continuamos nos aproximando deles.
— Tem certeza que ela não mandou nenhuma mensagem pra você?
— Sim, a última coisa que ela me disse foi que iria para Paris para as festas — falou Lu, disfarçando seu nervosismo, se ela ficasse ali mais alguns minutos perceberia.
— Luna! — chamei e ele virou para trás. — Estava procurando você, vamos… — Passei por ele e puxei minha irmã pela mão.
— Bom dia para vocês também.
— Ciao, . — Acenei com a mão para cima enquanto me afastava com minhas irmãs.
Quando chegamos ao quarto de Beatrice eu tranquei a porta e virei para Luna para perguntar:
— Ele caiu?
— Sim, mas quase não consegui esconder.
— Mais um pouco e Luna confessava tudo… Você é uma péssima mafiosa. — Beatrice revirou os olhos se jogando na cama.
— Vamos logo ao que interessa que eu tenho coisas a fazer.
Caminhei até o closet e o abri, vendo a megera amarrada na cadeira, fazia mais de uma semana desde o dia que ela me desafiou dentro da minha própria casa. Desde o dia em que ela me fez repensar tudo que se passava em minha cabeça sobre . Respirei fundo e puxei o celular do bolso, assim como tirei a mordaça de sua boca, ela me olhou com aquele ar arrogante que dava vontade de socar a cara dela, porém, iria me controlar.
— Pode explicar? — Mostrei a tela do aparelho para ela, no entanto, nenhuma mudança em sua expressão. — Estou esperando…
— Não faço a mínima ideia.
Minhas irmãs entraram no closet, ficando um pouco atrás de mim, aguardando alguma resposta, e acreditava que também pela minha aura maligna toda vez que eu estava olhando para aquela loira parisiense, elas estavam ali para evitar o pior.
— O celular é seu e não sabe? — Arqueei uma das sobrancelhas e ela deu de ombros. — Vamos ter que rastrear de onde vem, então…
— Que diferença faz pra vocês? — Ela alterou a voz, bingo, tinha algo ali. — Se tivessem provas que sou uma traidora já teriam me matado ou, no mínimo, contado para — falou como se fosse algo para se vangloriar, como se ela fosse mais importante para ele do que eu. — Ele iria acabar com essa loucura. — Empinou aquele nariz plastificado.
Eu ri em deboche, coloquei o celular em meu bolso e dei alguns passos ficando mais próxima dela, abaixei, deixando meu rosto quase colado ao dela enquanto ainda exibia meu sorriso mais perverso.
— Acredite… você não iria querer sabendo que suspeitamos de você. — Olhei bem nos olhos dela e continuei: — Na mão dele você já estaria sangrando em todas as partes do corpo, jogada em um chão sujo e exausta da tortura sem nenhuma piedade. E caso não falasse nada, no mínimo, já estaria com uma bala entre seus olhos. — Toquei o centro de sua testa com o indicador e a vi engolir em seco com os olhos arregalados. Aquilo fez eu me sentir bem e eu tinha um certo receio de quando esse tipo de coisa fazia eu me sentir assim. — Agradeça por sermos tão boazinhas com você.
Coloquei a mordaça nela novamente e saí do closet com minhas irmãs em meu encalço. Fechamos as portas e falei para elas darem o celular para Giulia descobrir de quem era aquele número. Precisávamos ter algum avanço nas nossas suspeitas, estava começando a desconfiar que algo estava acontecendo e se não tivéssemos provas a tempo, tudo isso iria acabar de um jeito que eu não queria.
[...]
— Vamos almoçar, ? — Olhei para trás enquanto colocava meu brinco e vi Giulia na porta do banheiro. — Nossa, está se arrumando tanto para um almoço comum por quê?
— Eu vou sair depois. — Peguei um casaco de tricô terracota e vesti. — Nenhum avanço, Giu? — Continuei me arrumando enquanto ela me seguia pelo closet.
— Ainda não, mas podemos localizar o número se conseguirmos manter a pessoa no telefone por tempo suficiente.
— Da próxima vez eu ou a Beatrice atendemos e você faz o seu trabalho. — Peguei minha bolsa e coloquei a bota de salto grosso.
— Pode deixar. — Ela sentou na cama. — Pra onde vai?
— Deu pra monitorar minhas saídas, Giulia? Já basta o .
— Não perguntei por mal, credo. — Ela revirou os olhos e levantou, indo em direção à porta.
— Vou pra casa da Giovanna, Vince recebeu alta.
— Ótimo! Fico feliz que ele esteja bem…
— Vamos. — Passei por ela e abri a porta, caminhamos pelo corredor extenso e descemos a escada. Larguei minha bolsa na mesa do hall, como de costume, e fomos nos sentar à mesa, onde todos já se encontravam. — Desculpe a demora, papai.
— Tudo bem, princesa. Onde vai toda arrumada?
— Vou comemorar a saída do Vincenzo do hospital.
— Que bom, filha. — Ele acariciou meu ombro e pediu para os empregados servirem o almoço.
— Obrigada por ter ajudado no tratamento dele, pai.
— Tudo por você.
Sorri e virei para frente, vi me encarando, ele parecia receoso com alguma coisa, talvez até um pouco preocupado. Decidi ignorar quando meu pai pegou os talheres e todos nós fizemos o mesmo, dando início a nossa refeição. Eu estava sentindo uma aura vinda de que não estava dando para ignorar. Olhei para ele novamente, suas ações pareciam calculadas e ele mexia os olhos e balançava a cabeça como se estivesse discutindo com ele mesmo em sua cabeça.
O que porra estava acontecendo?
Terminei minha salada e peguei alguns legumes, batata gratinada e um pedaço de coelho. Cortei a carne e continuei comendo, devagar, apreciando o tempero de Marta, ela era uma cozinheira maravilhosa, agradecia meu pai todos os dias por ter trazido ela da Itália. Ouvi pigarrear e Otelo virar o rosto para olhá-lo.
— Preciso dizer que… — vi seus olhos irem até os meus e logo voltar ao meu pai — decidi me casar com Carolyn.
Senti um calafrio percorrer meu corpo inteiro e parecia que eu tinha esquecido como respirava. Aquilo não podia estar acontecendo. Por isso ele estava perguntando dela para Luna, por isso o receio de falar algo em minha frente, ver minha reação era algum divertimento para o sadismo dele? Meu pai ainda falava qualquer coisa animado, enquanto batia amigavelmente no ombro do meu meio-irmão, quando me levantei de supetão.
— ? — Beatrice, ao meu lado, olhou para mim surpresa.
— Preciso ir.
Caminhei com pressa para não dar chance de ninguém perguntar nada, peguei minha bolsa e a chave, entrei em meu carro e saí dali. Eu estava correndo tanto que Ettore e Austin quase me perderam de vista na saída do bairro. Meu estômago estava embrulhado, meu coração batia forte e minhas mãos formigavam. Parei o carro no acostamento, meus seguranças frearam atrás de mim logo em seguida. Vomitei todo o almoço e assim que passei o dorso da mão pelo meu nariz senti as lágrimas.
— Ma che diavolo! (Mas que diabos!)
— Va tutto bene, signorina ? (Está tudo bem, senhorita ?) — perguntou Ettore ao se aproximar do meu carro.
— È tutto perfetto, non vedi? (Está tudo perfeito, não vê?) — Respirei fundo e dei a volta no carro.
— Perdono. (Perdão.) — Meu segurança me acompanhou e deu sua mão para me ajudar a subir no carro novamente. — Hai bisogno di acqua? (Você precisa de água?)
— No, ho bisogno di giudizio! (Não, eu preciso de juízo). — Peguei um lenço do meu porta-luvas e me limpei. — E una bottiglia di whisky. (E uma garrafa de whisky.)
— Posso organizzare. (Posso providenciar.)
— No, andiamo. (Não, vamos.)
Fechei a porta do carro e segui caminho para a casa de Giovanna. Eu não sabia o que tinha acontecido, mas eu senti algo que nunca havia sentido, eu precisava ser racional e entender o que tinha sido tudo isso. Contudo, aquele não era o momento, precisava estar focada em Vincenzo, comemorar a recuperação dele e fingir estar completamente bem por uma noite inteira.
Eu olhava para eles e sorria, mesmo estando com uma tempestade acontecendo dentro de mim. Era impossível não ficar feliz por eles finalmente assumirem e entenderem que deveriam estar juntos desde o colegial. Giovanna e sua teimosia foram um grande problema, Vince até tentou por algum tempo convencê-la de que deveriam ficar juntos, porém, tudo que ela queria era sem compromisso. Precisou nosso melhor amigo ficar doente para ela perceber a besteira que estava fazendo ao não se entregar de corpo e alma ao nosso barman preferido.
Foi muito agradável o nosso dia, cozinhamos juntos, como nos velhos tempos, enquanto a gente tomava várias garrafas de vinho. Nosso jantar foi delicioso e a conversa melhor ainda, fazia tanto tempo que não ficávamos juntos sendo apenas os bons amigos que éramos. Sem responsabilidades e preocupações, era bom aquela sensação de pertencimento, de estar em casa e de querer construir mais memórias com os meus melhores amigos. Eu amava eles, e amava ainda mais o fato de eles finalmente estarem juntos como um casal.
Acordei no sofá de Copolla sem saber o porquê, a claridade me incomodava, mas não tanto quanto o tilintar de louça que eu estava ouvindo. Olhei em direção a cozinha e vi os dois de costas, conversando baixinho enquanto faziam algo no fogão. Sentei no sofá e respirei fundo, me espreguiçando, peguei meu celular e tinha algumas chamadas e mensagens das minhas irmãs. Apenas bloqueei o aparelho novamente e decidi que não iria lidar com aquilo no momento.
— Bom dia, dorminhoca. — Vince me deu uma xícara com café.
— Achei que você já estaria na Fascino a essa hora — falou Giovana se aproximando.
— É, eu também. — Passei a mão pela minha testa e suspirei.
— Água e aspirina, Vince.
— Ele não tá na boate, Gio, pare de dar ordens, credo — reclamei.
— Se for por ela eu gosto de ser mandado, , não me importo. — Vi ele dar um beijo na loira e sorrir.
— Ai, que nojo. — Peguei meu celular e levantei, indo em direção ao corredor. — Romance logo cedo…
Tranquei a porta do banheiro e fui olhar as mensagens das minhas irmãs, a maioria era perguntando por que eu tinha reagido daquela forma com o anúncio de , ou por que eu não contei onde Carolyn realmente estava para acabar com aquilo tudo. Era difícil explicar algo que nem eu mesma sabia, eram muitas perguntas e eu não tinha a resposta para nenhuma delas. Estava tarde, eram quase 14 horas e eu estava de ressaca, na casa da Giovanna, com a mesma roupa de ontem e sem querer ir para casa.
Tomei banho, pedi uma roupa emprestada da minha melhor amiga, comemos juntos e eu fui direto para a Fascino. Dei boa tarde aos meus funcionários, caminhei até o balcão do bar e sentei na banqueta. Cristian me olhou e sorriu, aproximando-se.
— Martini? — perguntou.
— Será que ele vai curar a ressaca que estou sentindo? — Pressionei os dedos em minha fonte.
— Eu gosto sempre de pensar que sim. — Eu sorri e confirmei com a cabeça, pedindo para ele preparar um.
Peguei meu celular na bolsa e respondi para as minhas irmãs: estou bem, só precisava sair dali antes que contasse tudo sobre a Carolyn. Precisamos investigar mais a fundo. Bloqueei a tela do celular e esperava que elas não notassem o quanto estava desorientada com toda essa situação. Seria difícil notar por mensagem, mas se tratando de Giulia, eu espero qualquer coisa, a garota é inteligente e observadora. Cristian colocou a taça em minha frente e beberiquei meu drink.
— Gostoso como sempre. — Ele deu um sorrisinho safado e eu ri. — Você também, Cris… Continua gostoso como sempre.
— Quem, eu? — Torci o lábio e cerrei os olhos com a cara de pau do ruivo. — Me sinto lisonjeado, . — Empinou o nariz perfeitamente esculpido e continuou secando os copos.
— Não seja cínico. — Sorri, brincando com Cris, até que escutei vozes alteradas na porta da boate e olhei com o cenho franzido. — O que está acontecendo? — Cristian saiu de trás do balcão e se colocou em minha frente. — Muito obrigada, Cris, mas acho que não precisa de tanto… — Parei de falar assim que vi alguns policiais e logo o detetive que me tirava do sério.
— Alonso. — Levantei da banqueta, achando tudo aquilo muito estranho. — Está presa.
— O quê? — Eu ri com a possibilidade, enquanto os dois policiais se aproximavam de mim, porém Cristian não deixou eles chegarem perto, fazendo-os frear os pés. — Está me prendendo pelo que exatamente, Estevan?
— Por contratar imigrantes ilegais e consequentemente, provarei que isso tudo não passa de tráfico humano feito por essa sua boatezinha…
— Você só pode estar brincando… Está me acusando sem provas?
— Esses três contratos fazem parecer que eu vim sem provas, senhorita Alonso? — Ele mostrou três papeis em sua mão e não era possível que isso tivesse dado errado.
Como? Como fomos pegos em algo que fazemos há anos!? Usar o contrato de trabalho com as nossas boates era algo que fazíamos para trazer mulheres de outros países para prostituição. Não na minha boate, obviamente, já que não concordava muito com isso, mas eu não me metia nessa parte dos negócios do meu pai. Contudo, não participar não queria dizer que eu não soubesse ou não estivesse sendo conivente.
A prostituição era coisa antiga, nenhuma das mulheres era obrigada a vir e nem eram tratadas como produto. A Vincere dava casa, comida e roupas, além de elas virem sabendo com o que iriam trabalhar, porém, todos sabemos que pagamento por sexo é proibido por lei.
— Tá tudo bem, Cris. — Coloquei a mão em seu ombro e sorri para ele, que deu um passo para o lado. Virei de costas para os policiais me algemarem, ficando de frente para o meu barman e amigo. — Ligue para Beatrice. — Ele apenas acenou com a cabeça e eu sussurrei a última frase: — Diga para Ettore e Austin não me seguirem.
— Vamos logo, senhorita Alonso, não tenho todo o tempo do mundo — falou Estevan mais alto, fazendo os guardas me levarem.
Eu apenas tentava manter a calma, sabíamos o que não fazer nesses casos, fui todo o caminho calada e, quando me colocaram naquela sala horrorosa de interrogatório, não respondi nada. Eu iria esperar o advogado chegar e quando vi Lorenzo entrar pela porta respirei aliviada, agora, com o advogado da famiglia, eu estaria salva, inocentada de qualquer acusação e em breve sairia dali. Fiquei calada, apenas escutando meu advogado conversar com aquele imbecil do Estevan. A gente deveria ter dado cabo dele enquanto era tempo, agora ficaria muito suspeito se ele sumisse de repente. A não ser que acontecesse um acidente; sacudi a cabeça espantando pensamentos que eu tentava manter abafados.
— Eu preciso ouvir a senhorita Alonso. Ela tem que dar explicações, afinal, o nome da boate dela está no papel. — Olhei para o detetive, olhei para o papel em cima da mesa e inclinei meu corpo para ler.
— Eu não assinei isso.
— É o nome da sua boate.
— E daí? — Cruzei os braços. — Não tem a minha assinatura e nem a assinatura de nenhum dos responsáveis pela Fascino.
— Você quer me enrolar, senhorita Alonso? — Ele apontou no papel e disse: — Aqui tem o carimbo da sua boate.
— Bom, isso pode ser muito bem falsificado, assim como os passaportes das moças… — disse, dando de ombros e vi Estevan ficando possesso, aquilo estava até sendo divertido.
— Agora que você não tem mais argumentos ou provas para manter a minha cliente sob custódia, estamos indo.
— Você não pode-
— E caso impeça… — Lorenzo o interrompeu — será bem pior pra você, senhor Martinez.
Estevan esticou a mão nos dando passagem e eu queria sorrir, mas me contive, caminhei tranquilamente ao lado do meu advogado e ele e o detetive seguiram conversando qualquer coisa que eu já não dava mais atenção. Só conseguia pensar que eu queria ir para casa, apesar de saber todos os protocolos da Vincere a seguir, aquilo tinha me tirado do eixo.
— Está liberada, senhorita Alonso, mas acredito que nos veremos em breve. — Estevan esticou a mão para apertar a minha, mas fui surpreendida com entrando em minha frente.
— Duvido muito disso… — Meu meio-irmão me empurrou para fora da delegacia sem nem mesmo deixar eu falar nada.
Esse idiota achava que era dono da cidade, não era possível.
Perroni
Eu estava mesmo receoso, era uma decisão que eu não queria tomar, mas depois de ter falado que sentiu medo de mim, tudo ruiu. Eu sempre fiz questão de fazer de tudo para ela ter raiva de mim, não queria que ela sentisse medo, medo é algo muito profundo, latente, um sentimento que te deixa em alerta para lutar ou se defender. Não queria que ela precisasse se defender de mim, não queria que ela olhasse para mim e sentisse perigo. Escutar aquilo tinha sido cruel até para mim, a sensação que me tomou naquela noite, o desapontamento comigo mesmo de ter deixado chegar naquele ponto, foi devastador.
Eu precisava me afastar dela.
Eu precisava deixá-la em paz.
Eu precisava pensar como um maldito Perroni.
Então, mesmo sem conseguir entrar em contato com Carolyn, eu sabia que ela queria casar comigo, afinal, ela tentava demais, parecia sempre mais disposta do que eu a fazer dar certo, seja lá que relação estranha fosse essa. Quando informei que iria casar, eu não esperava que fosse simplesmente levantar e sair da mesa de almoço sem dar a mínima explicação e me deixar com o olhar inquisidor do meu pai em cima de mim.
Eu estava fodido.
E eu sabia disso no momento que meu pai me chamou no escritório. Seu rosto estava impassível, mas eu sabia que algo o incomodava, aprendi a ler meu pai ainda muito jovem para evitar as penitências do treinamento. Eu não podia desapontá-lo ou teria o que merecia. No geral sempre fui muito observador nas expressões humanas, era um atributo necessário na tortura, por isso eu era tão bom no que fazia.
— Tem algo que queira me contar, ?
Aquela pergunta soou como se ele soubesse de alguma coisa, mas eu conhecia meu pai o suficiente para saber que ele estava querendo me encurralar para descobrir o que eu sabia que escondia.
— Não, deveria ter? — devolvi de maneira desleixada e sentei na cadeira em frente à sua mesa. Ele apenas me olhou com a sobrancelha grossa arqueada, parecia não acreditar em sequer uma palavra do que eu falava e errado ele não estava, afinal, eu estava mentindo na cara dura. Contudo, enquanto ele não fizesse uma pergunta direta, eu poderia contornar a situação.
— Por que sua irmã saiu daquela forma?
— Como eu vou saber, pai? — Dei de ombros e ele levantou, foi até o canto da sala, onde tinha uma mesinha com bebidas, serviu dois copos com whisky e me alcançou um.
— Quero que descubra, nunca vi fora de si, é a mais centrada das irmãs, não podemos perder a racionalidade dela.
— Farei isso. — Virei a dose e levantei, virando de costas para sair da biblioteca.
— E … — Virei, olhando para ele novamente. — Espero que você não tenha nada a ver com isso. — Apenas acenei com a cabeça e saí dali.
Caminhar parecia algo que eu tinha esquecido, como eu conseguia fingir algo que me deixou tão desnorteado? foi imprudente ao sair daquele jeito, a reação dela foi pior do que eu esperava. Tinha chegado num ponto que eu não fazia a menor ideia do que passava pela cabeça dela. Não seria fácil apenas seguir em frente, ignorar o que aconteceu como se não fosse nada, porque às vezes eu achava que tinha sido tudo.
tinha me deixado quebrado.
Não só meu pau.
Não só minha mente.
Minha vida parecia quebrada.
[...]
— ! — Ouvi o grito e virei, vendo Beatrice no fim do corredor. — … foi presa.
— Como?
Meu pai tinha ido para a Itália de manhã cedo. Com a nova filial da Victoria vindo para a Espanha, Otelo precisava quase que estar em dois lugares ao mesmo tempo. Almocei tranquilamente com minhas irmãs, a indomável nem estava em casa e confesso que aquilo tinha me incomodado um pouco. Achei que o dia iria ser calmo depois de tanto fritar meu cérebro a noite inteira pensando, tentando entender o que tinha dado nela pra reagir daquele jeito, inclusive, a algo que ela mesma sugeriu. E agora essa, presa…
— Cristian me ligou, Estevan levou a por tráfico ilegal de imigrantes.
— Como esse filho da puta… — Massageei minha testa e suspirei. — Chame Filippo e peça para ele pegar o carro. — Virei e fui em direção ao meu quarto pegar meu celular e minha arma. Eu iria fazer com que ele se arrependesse de ter se metido com ela.
Expliquei para Beatrice que ela deveria ficar em casa, logo eu estaria lá com , ela não iria passar nem uma noite naquele lugar; eu não deixaria. Entrei no carro e Filippo entrou do outro lado, Nero estava dirigindo e eu virei para o meu primo.
— Eu disse pra você resolver esse problema.
— Eu paguei quem precisava, parece que o susto tem que ser maior a esse detetive teimoso.
— Já que chegou a essa conclusão sozinho, faça com que esse desgraçado ande na linha, antes que eu mesmo coloque uma bala na cabeça dele!
— Si, .
Nero estacionou em frente à delegacia e eu desci, ajeitei meu terno e subi degrau por degrau, sentindo meu sangue ferver a cada minuto que eu enxergava o lugar que estava sendo mantida presa. Aquela espelunca, cheia de marginais e nada elegante, aquilo não chegava aos pés do chão que ela merecia pisar e ela não deveria nunca ter tido o desprazer de conhecer aquele lugar. Cheguei no balcão e olhei bem o guardinha que estava ali sentado.
— Alonso.
— Está em interrogatório.
— Infelizmente — olhei para a pequena placa de metal, grudada naquela farda horrorosa —, senhor Miguel, eu estou com pressa.
— Senhor Perroni. — Olhei para o lado ao ouvir meu nome. — Deve ser meu dia de sorte, dois de vocês na minha delegacia. — Estevan mantinha um sorriso presunçoso no rosto e minha mão chegou a coçar para apertar o gatilho na cara desse otário.
— Estou só de passagem, Estevan. — Fui em direção a ele. — Onde está ?
— Tá sendo difícil interrogá-la, acho que vai demorar…
— Escuta aqui seu-
— . — Respirei fundo e trinquei os dentes, enquanto o advogado da família mantinha sua mão em meu ombro. — Tudo bem, senhor Martinez? Eu sou o advogado da , Lorenzo Rossi, e o senhor não poderia mantê-la em interrogatório sem um advogado.
— Claro. — Ele sorriu cínico, intensificando ainda mais o meu ódio por ele. — Por favor, me acompanhe, senhor Rossi.
Estevan se distanciou e Lorenzo virou para mim, pedindo para eu me acalmar que ele resolveria. Precisei sentar naquela sala de espera e me controlar para não invadir aquela sala e tirá-la de lá. Eu estava com ódio líquido correndo pelas minhas veias, minha vontade era arrebentar a cara daquele cretino daquele detetive. Enviei mensagem para Filippo, pedi para que resolvesse com os de cima o quanto antes. Se meu pai descobrisse que ela estava ali, eu não queria ser Estevan e nem ninguém naquela delegacia, não queria nem mesmo ser eu, pois algo sobraria para mim, definitivamente.
Depois de quase 40 minutos, vi saindo com Lorenzo, ela não tinha me visto, estava totalmente aérea a qualquer coisa que não fosse nosso advogado e o detetive. Levantei e me aproximei para ouvir a conversa.
— Está liberada, senhorita Alonso, mas acredito que nos veremos em breve. — Ele tentou apertar a mão dela, mas entrei em sua frente, encarando fundo nos olhos daquele detetive medíocre.
— Duvido muito disso… — se assustou ao me ver, no entanto, nem deixei que reclamasse, não ali, coloquei a mão em suas costas e a guiei para fora da delegacia. Ela podia gritar comigo o quanto quisesse dentro do carro, a caminho de casa, seja lá onde fosse, mas não ali.
Chegamos na rua e Filippo segurava a porta do carro para que nós entrássemos. entrou e eu vi Lorenzo se aproximando, fazendo com que eu esperasse ainda do lado de fora.
— Trate tudo a respeito disso comigo, tudo bem?
— Sim, senhor Perroni. — O advogado acenou e saiu andando pela calçada.
— Você realmente precisa estar em todos os lugares ao mesmo tempo? — falou assim que entrei no carro.
— Nero, saia do carro — ordenei e ele obedeceu. — Foi presa, , o que queria que eu fizesse?
— Beatrice é uma bocuda!
— Ela ligou para o nosso advogado, não era isso que queria?
— E avisou você de brinde. — Ela cruzou os braços e bufou.
— Acha que quero ter que vir tirar você da cadeia? — Ela seguiu impassível olhando para a frente. — Acha mesmo que foi fácil me controlar para não estourar a cabeça daquele imbecil?
— Não seja tão exagerado, Lorenzo resolveu rapidinho. — Vi as orbes verdes revirarem.
Puxei seu queixo lentamente com o indicador e polegar e a fiz olhar para mim, seus olhos arregalaram. Eu estava sem um pingo de paciência, não tinha como, não diante daquela pose arredia que sempre mantinha.
— Você nunca deveria ter que pisar em uma delegacia e, se depender de mim, nunca mais vai.
Ela riu debochada e disse:
— Nós somos da Vincere, , você acha mesmo que pode impedir que isso aconteça?
— Eu não acho, , eu faço. — Soltei ela para baixar o vidro, acenei para Nero e Filippo entrarem e partimos para casa.
Não imaginei que a discussão se estenderia o caminho inteiro, cada vez mais eu sentia tudo engasgado em minha garganta, eu queria falar tudo, mas não podia, não em frente ao nosso primo e Nero. Aquele assunto era pessoal, pessoal demais. Assim que Nero estacionou, nós descemos e entramos em casa, seguia irritada, brigando sozinha, já que vim calado apenas ouvindo.
Assim que subimos a escada, eu a puxei pelo braço e sussurrei em seu ouvido:
— Já que está tão falante, vamos conversar.
— Me solta, !
Empurrei ela para dentro do meu quarto e tranquei a porta. Virei para ela e perguntei de maneira séria:
— Por que fez aquilo ontem?
— Aquilo o quê?! — Ela cruzou os braços.
— Você sabe do que eu estou falando, ! — Caminhei até ela, ficando frente a frente. — Você disse para eu casar com Carolyn e fez aquela cena em frente ao nosso pai?
— Eu… Eu não… — Vi ela engolir em seco e me virei de costas com a mão na cintura e pressionando a ponte do nariz. — Não fiz cena alguma, só precisava sair.
— Vai continuar a negar algo que até nosso pai percebeu?
— O quê? — Ela se sobressaltou. — O que o papai falou?
— Pediu para saber por que você estava agindo desse jeito! — gritei.
— Estou do mesmo jeito de sempre! — Ela caminhou em direção à porta. — E me deixa em paz, temos outras pessoas na famiglia para resolver assuntos banais.
— Você ser presa é um assunto banal? — perguntei, irritado.
— Você já viu quem somos? — Ela virou para mim e abriu os braços, como se mostrasse onde estamos. — Quem é a nossa famiglia, ?
— Isso não quer…
— Isso quer dizer que nós somos o crime — ela me interrompeu. — Ser presa não é nada! Para de ser neurótico.
— Você sempre minimizando tudo…
— , me esquece! — Ela girou a chave e saiu do quarto batendo a porta.
Dei alguns passos e me joguei na cama, soltando o ar pelo nariz, sentindo meu corpo quente de raiva e ao mesmo tempo as palavras dela ecoavam em minha mente.
— Estou sendo neurótico?
[...]
Eu estava cansado, depois de tantos Delanteras interrogados eu não iria interrogar um bostinha vendedor de drogas qualquer, já bastava o idiota que tentou matar ser um mero mandado pela concorrência. Mandei Nero fazer o serviço e esperei do lado de fora, sentado em uma cadeira na varanda da nossa casa de campo. Fumava meu cigarro, esperando pacientemente, ouvindo os gritos do homem de onde estava. Nero era sanguinário, sempre foi, era bom ter alguém assim para te dizer o que é demais, pois se ele, que beirava a psicopatia, achasse algo extremo, eu sabia que deveria controlar melhor a situação.
Filippo surgiu pela porta, trazendo um copo de whisky para mim, entregou-me o copo baixo e eu beberiquei o líquido âmbar. Aproveitava a brisa e o ar puro do campo, fazia tempo demais que não ficava apenas contemplando a natureza.
— Nero conseguiu arrancar dele. — Apenas olhei de canto de olho, aguardando o restante da informação. — Ele era apenas uma distração para o verdadeiro Delantera se infiltrar na Vincere.
— Então o infiltrado está aqui na Espanha! — Soquei a mesa fazendo o copo bambear. — Enterre esse filho da puta. Vivo.
— Sim, . — Vi ele sumir das minhas vistas.
— Quando eu te achar, Luca, você vai desejar não ter nascido… — Peguei o copo e tomei o restante da bebida.
Assim que saímos da casa, tentei mais uma vez ligar para Carolyn, o celular dela chamava até cair. Era impossível que nada tivesse acontecido, a garota tinha sumido já fazia três semanas, nem uma mísera mensagem depois do Natal. Achei que ela voltaria para o ano novo, mas nem isso. Eu estava preocupado pelo simples fato de que minhas irmãs odiaram a mulher, tirando Luna, e elas estavam esquisitas. Era tão errado eu desconfiar delas, mas estava difícil não o fazer, principalmente depois daquele rompante de na mesa do almoço.
Capítulo 20
Alonso Perroni
estava sendo irracional, impulsivo e idiota, onde já se viu invadir a delegacia daquela forma e dar na cara que estava no limite por eu ter sido presa, a impulsividade dele ainda nos arrumaria uma merda grande. Depois de um caminho longo demais até em casa e uma discussão com de brinde, tomei um longo banho e deitei na minha cama com um pijama confortável, coloquei os fones e aproveitei o momento para pensar. Digerir tudo que tinha acontecido, principalmente ontem, aquilo não parecia nada com algo que eu já tivesse sentido antes. Minha cabeça girou quando disse aquilo, o tempo pareceu passar devagar em frente aos meus olhos.
Foi estranho.
Uma sensação de… abandono.
Meu coração palpitou, parecia sentir o sangue correndo em cada veia do meu corpo, cada pulsar da pressão. Mordi o lábio e abracei um travesseiro com força. Eu me sentia sozinha, aquele vazio começou a me alcançar de novo, eu precisava de uma bebida. Levantei e desci a escada com meu headfone tocando alto. Preparei uma dose dupla de whisky e subi para o meu quarto novamente. Agradecia por não ter cruzado com ninguém no caminho.
Eu precisava me sentir anestesiada.
E foi assim que dormi.
Acordei com Giulia me sacudindo e eu fiquei completamente desorientada com ela berrando, dizendo para eu acordar que ela tinha que fazer uma reunião com todas nós. Quando consegui finalmente focar no que estava acontecendo, entendi que precisávamos ir até a sala de Giu com urgência. Isso já me fez acordar disposta e sobressaltada, o que tinha acontecido agora?
Os Perroni não tinham um minuto de paz.
Nem vesti uma roupa, coloquei um robe e segui Giulia até sua sala, onde Luna e Beatrice já estavam, da mesma forma que eu, pijama, robe e uma cara de sono, para não falar do ódio em suas expressões por terem sido acordadas. Giu sentou na cadeira e começou a abrir arquivos e então o rosto de um homem, que aparentava ter a mesma idade do nosso pai, apareceu na tela.
— Esse é o pai da Carolyn — começou Giulia e nós ficamos tentando entender por que estávamos olhando para uma foto do cara. — O nome verdadeiro dele é Carlos Diaz…
— O quê?! — todas nós berramos.
— Como você descobriu isso? — perguntou Luna.
— Quando ele foi pesquisado, anos atrás, por quem fazia a segurança da Vincere, ninguém checou a árvore genealógica. — Ela digitou mais algumas coisas e apareceu uma mulher. — Essa é a Camille, tia da Carolyn, ou, mais conhecida na Espanha como: Izabel Delantera, esposa do Consigliere dos Delantera, aquele que Filippo matou.
Nossas bocas ficaram entreabertas, eu não podia acreditar, como ele havia conseguido se infiltrar desse jeito nos nossos associados e, pior ainda, colocou o projeto de esposa dentro da nossa casa. Respirei fundo e tentei acalmar meus nervos, eu precisava pensar racionalmente como sempre, não era à toa que eu achava que deveria ser uma das escolhidas para comandar a Vincere, meu psicológico inabalável, minha vontade de fazer a Vincere prosperar e, claro, minha forma de pensar. Não podíamos simplesmente jogar essas informações na cara de Carolyn, ela iria negar tudo.
Pensa, .
— Eu preciso… — andei de um lado para o outro tentando me acalmar — respirar.
— Espera, … — pediu Beatrice e eu olhei para ela. — Precisamos decidir o que vamos fazer…
— Ela deve ser a infiltrada que está na Vincere — falei, preocupada.
— Mais um motivo para falarmos com ou até mesmo… com o papai — comentou Luna.
— Me deem algumas horas, preciso pensar.
Saí dali sem acreditar, estava tudo debaixo do nosso nariz esse tempo inteiro? Como meu pai foi tão descuidado dessa forma? Confesso que eles foram astutos, mas não melhor que os Perroni, ninguém nos engana e sai vivo para contar a história. Fui para o meu quarto e fiquei lá até a hora de ir para a Fascino. Eu já estava com muita coisa na cabeça para conseguir raciocinar e engolir aquela informação tão de repente, precisava de tempo, e acreditava que isso nós tínhamos.
Entrei na Fascino precisando de três martinis, e acreditava que ainda seria pouco, encostei no balcão onde coloquei minha bolsa e chaves, e pedi para Cristian o meu drink favorito.
— Aquela mulher está esperando você já tem algum tempo… — Ele apontou com o queixo e eu me virei, franzi o cenho e voltei a olhar meu barman.
— Quem é?
— Não disse o nome. — Ele colocou meu drink em minha frente, respirei fundo e peguei a taça antes de andar até a mesa que a mulher estava.
— Boa tarde, posso ajudá-la? — Ela olhou para mim e fiquei um pouco surpresa ao ver seu rosto, ela parecia…
— … — Ela olhou para mim surpresa, como se visse alguém que não vê há muito tempo, seus olhos brilhavam e eu comecei a achar estranho. — Podemos conversar?
— Podemos, mas gostaria de saber quem é você. — Sentei na cadeira em frente a ela e cruzei as pernas.
— Meu nome é Alessia… — Beberiquei meu martini enquanto esperava ela dizer o que fazia ali e o que queria comigo. — Eu sou… sua mãe.
Senti como se o mundo tivesse parado, um zumbido tomou conta da minha audição e tudo desapareceu ao meu redor, só restávamos nós duas, em um lugar completamente escuro e silencioso. Eu estava sonhando? Não era possível que tudo pudesse acontecer em um dia só. Acordei do meu choque com o barulho da minha taça se quebrando no chão. Movi meus olhos devagar para baixo, vendo os cacos de vidro espalhados. Finalmente consegui ouvir meus batimentos soando em meus tímpanos, minha respiração era lenta e eu seguia encarando os cacos de vidro, perdida em pensamentos.
Ainda lembro quando tinha apenas 6 anos, lembro, pois, Marta me contou essa história. Eu a chamei de mãe pois via quase todos os meus colegas da escola com as mães e como era ela que cuidava da gente na maior parte do tempo, fazia sentido na minha cabeça infantil. Com toda a delicadeza, Marta disse que ela não era minha mãe, que eu e as garotas tínhamos apenas o nosso pai, Otelo, ele era a nossa família. Então foi aos 10 que pensei pela primeira vez sobre a possibilidade de ter sido abandonada, lembro de ter pesadelos terríveis e acordar gritando, daí surgiu o meu problema de insônia.
Otelo não tinha muito tempo para cuidar de nós, mas fazia o que podia, mas ser buscada na escola por seguranças ao invés do nosso pai era frustrante. Quando cheguei aos 13, Otelo finalmente nos contou sobre as nossas mães, então foi a primeira vez que entendi que éramos órfãs, mesmo tendo um pai e uma casa sob nossas cabeças, nossas mães tinham escolhido que, por dinheiro, dariam suas filhas ao Don da máfia. Era estranho pensar dessa forma, mas era a realidade.
— Desculpe, eu não queria assustar você.
Levei meus olhos até a mulher ruiva de olhos azuis, foi como quebrar um espelho em mil pedaços e tentar juntar os cacos, furando os dedos, porém querendo saber o que apareceria no reflexo quando ele estivesse inteiro novamente.
— Você… — minha voz saiu um sopro, então puxei o fôlego e continuei: — está mentindo.
— Não estou, , me escute, eu sou sua mãe e da Beatrice.
Engoli o bolo de saliva que se formava em minha garganta, essa história estava muito errada. Ela não era bem por aí e sobre esse assunto eu sabia os detalhes, afinal, ficava remoendo em minha cabeça há longos anos.
Eu ri, desacreditada e falei:
— Quer dinheiro, é isso?
— Não! — exaltou-se e suspirou, controlando seu comportamento, continuou: — Eu quero apenas… recuperar o tempo perdido, filha, eu me arrependo todos os dias de ter deixado você.
— Não me chame assim! Eu não sou nada sua…
— Precisa acreditar em mim, . — Alessia estava quase implorando para ter um voto de confiança.
Eu não ia deixar aquele pesadelo voltar a minha mente, não agora, não quando tudo já estava bagunçado demais para sequer pensar que essa poderia ser uma possibilidade.
— Podia ao menos ter pegado uma fonte mais confiável. — Levantei e me inclinei para mais perto da mulher e falei: — Nosso pai comprou cada uma de nós de uma puta sem coração diferente. — Comecei a caminhar em direção ao bar.
— Aquele homem não é seu pai!
Ouvi a confissão ao mesmo tempo que a cadeira arranhou o chão de madeira e travei onde estava, minha respiração parecia ter parado, engoli em seco e meu peito parecia pesado. Mordi o lábio e lágrimas saíram dos meus olhos sem nenhum aviso. Minha vida inteira seria uma mentira se aquilo tudo fosse verdade, não podia ser. Otelo era o meu pai, a única família que eu tinha era ele e minhas irmãs, se isso fosse verdade, o que restaria?
Não era, não podia ser.
Aquela mulher estava ali no intuito de me desestabilizar, talvez fosse mais um dos Delantera que descobriu um ponto fraco meu e estava usando isso para nos separar. Só podia ser isso. Olhei para a frente e vi Cristian me encarando preocupado, respirei fundo e comecei a andar novamente.
— O que eu posso fazer pra que acredite em mim?
Parei onde estava mais uma vez, limpei as lágrimas rapidamente e virei, encarando a mulher que já estava chorando, o desespero era nítido, mas eu não iria comprar aquele teatro. Fiz uma expressão altiva e encarei ela com raiva.
— Nada — falei, ríspida. — Você não pode fazer nada porque tudo que diz é mentira e veio até aqui para me atormentar por dinheiro!
— Eu não quero o dinheiro sujo de Otelo!
Arregalei os olhos em surpresa e um certo pânico. Como ela sabia? Ela realmente estava falando a verdade? Não, não podia ser.
— Se o que diz é verdade, você já quis o dinheiro de Otelo uma vez, o que estaria te impedindo agora?
— Quero o amor da minha filha, algo muito mais importante que dinheiro.
Olhei para ela com um certo receio, aquela dúvida que eu sempre tive lá no fundo da minha mente, pedindo para que eu descobrisse a verdade. Anos remoendo aquilo, anos sentindo que me faltava algo, que talvez ali não fosse o meu lugar. Depois de adulta, escolhi negar a mim mesma a vontade de acessar tal sentimento, eu estava no lugar certo, aquela era a minha família, minha vida e eu sempre escolhi acreditar no meu pai.
— Enrico, tire essa mulher daqui. — Virei as costas e peguei minha bolsa e chaves no balcão.
— , por favor, me escute! — Ela gritava e se debatia enquanto meu segurança a levava para fora. — Eu vou provar! Eu vou provar!
Vi a tal da Alessia ser colocada para fora e eu ainda tentava respirar fundo para me controlar, fechei os olhos e soltei o ar devagar pelos lábios, sentindo uma dor absurda no meu peito. Minha garganta parecia fechada e respirar se tornava difícil cada vez que minha mente tentava encaixar as peças.
— Está bem, ? — Olhei para Cristian, totalmente apática, e acenei com a cabeça.
Virei as costas e subi para o escritório, assim que estava em meu território seguro, gritei a dor que sentia em meu peito com todo o ar dos meus pulmões. Joguei tudo que estava em cima da mesa no chão e quebrei o cinzeiro de vidro na parede, parecia que a dor iria me rasgar o peito, e destruir algo iria me ajudar de alguma forma. Eu gritei mais forte, sentindo meu peito arder, encostei na mesa e meu choro foi silencioso a partir dali. Quando vi, estava no chão, abraçada aos meus joelhos e olhando a bagunça que eu tinha acabado de fazer. Abri a gaveta ao meu lado e puxei a garrafa de vodca, tirei a tampa e virei direto do gargalo.
Que dia infernal, já tinha começado ruim e foi piorando com o passar das horas, era uma merda atrás da outra. Dei outro gole na garrafa. Apesar de escolher a história que acreditei a vida inteira, agora essa mulher tinha trazido uma dúvida que não me aterrorizava há anos. O rosto da tal Alessia vinha em minha mente e tudo que eu via era Beatrice, ela era muito parecida com a Bea.
Céus, e se ela estivesse falando a verdade?
Não!
Outro gole.
Será que essa era a pessoa que estava trabalhando junto com Carolyn? Como não obteve respostas, essa Alessia veio com esse plano para me desestabilizar? Filha da puta!
Outro gole.
Olhei para o lado e vi minha arma encaixada embaixo da mesa. Virei a garrafa mais uma vez e senti o amargo da vodka descer em minha garganta, fechei os olhos e senti um pouco da tontura do álcool. Tinha bebido muito rápido, mas não importava, iria arrancar tudo daquela vagabunda francesa. Enfiei a arma em minha cintura, peguei minha bolsa e saí do escritório com pressa.
— , a Beatrice está lá na cozinha e disse…
— Depois, Cristian. — Passei por ele rapidamente e saí da boate, entrei no meu carro e dei a partida.
De tudo que passava em minha cabeça, a pior delas era pensar que meu pai teria mentido para mim. Não ficaria chateada se ele tivesse me criado como filha dele, mas esconder isso de mim seria demais. Aquela mulher só poderia ter ido até ali a mando de Carolyn, ou até mesmo do pai dela que nem sequer mandou mensagem para o celular dela desde que a prendemos.
Que bela bosta de pai.
Estacionei o carro de qualquer jeito na frente de casa devido ao alto teor alcoólico no meu sangue e entrei, eu só queria uma coisa, saber todos os planos daquela mulher, e eu iria, ah, como eu iria. Peguei a chave reserva do quarto de Beatrice que estava guardada em meu quarto, na gaveta da cômoda, abri a porta e entrei, caminhei até o closet e abri as portas duplas. Eu só notei que estava ofegante quando parei e olhei para o rosto de Carolyn, senti meu coração martelar em meu peito e a raiva esquentar meu corpo. Dei alguns passos e arranquei a mordaça dela, mantive uma distância segura, não queria fazer nenhuma besteira.
— Já descobrimos quem é seu pai, Carolyn, agora você pode parar com o fingimento.
— Do que está falando? — Ela tentou se fazer de desentendida.
— Corta o papel da mocinha que nesse filme você é a vilã, Carolyn. — Apontei para ela enquanto a olhava com uma raiva descomunal.
Vi sua expressão se transformar diante dos meus olhos, ela começou a rir ainda de cabeça abaixada, aos poucos, levantou os olhos para me encarar como se ela estivesse solta e eu presa naquela cadeira. Por um momento foi como me senti, presa em um lugar que talvez eu não pertencesse mais, que talvez nem fosse para eu estar ali. Se Otelo não fosse meu pai, o que sobraria para mim naquela família?
— Acredita mesmo que eu seja a vilã? — Ela riu, debochada. — Vocês mataram meu tio! — gritou, seus olhos escureceram de raiva e sua expressão era mortal, de quem arrancaria minha cabeça caso ela não estivesse presa.
— Ele matou o meu primeiro, então acredito que estejamos quites.
— Estamos longe de estar quites! — gritou ela, enraivecida, era nítido que ela queria se soltar dali e me matar, aquela era a verdadeira Carolyn. — Vocês expulsaram a gente da nossa casa, da nossa cidade, do nosso país!
— Vocês provocaram isso, mataram a minha tia, quem deveria estar buscando vingança era meu pai. — A palavra chegou a pinicar na minha língua, agora eu nem mesmo sabia se ele era meu pai ou não. Do que eu estou falando? Entrando no jogo dessa vadia por causa de uma atriz. — Por que mandou uma mulher fingir ser minha mãe?
— Quê? — Ela franziu o cenho.
— Ainda não cansou de fazer cena? — Avancei para cima dela e gritei: — Óbvio que foi você que mandou uma atriz se passar por minha mãe e dizer que Otelo não é meu pai!
— Você realmente está alucinando…
Tirei a arma de trás da minha cintura e coloquei na cabeça dela:
— Estou alucinando essa arma também, Carolyn? — Vi seus olhos arregalarem. — Pare de me enrolar, diga logo o que quer! Veio desgraçar a minha família…
Que eu nem sabia se realmente era a minha família agora.
Dei batidas na minha cabeça e espremi os olhos, lágrimas começaram a deixar meus olhos e eu sentia uma dor que me possuía cada vez mais, aquilo era insuportável, eu só queria respostas.
— Abaixa essa arma, … — Sua expressão mudou de raiva para preocupação. — Eu juro, eu não mandei…
— Não minta pra mim! — gritei, interrompendo-a, balançando a arma na direção dela. — Desde que chegou aqui tudo começou a desandar… O problema é você e se — destravei a arma e mirei bem em sua cabeça — eu acabar com você, os problemas acabam.
— … — Ela começou a chorar, desesperada. — Eu juro, por favor, abaixa essa arma…
— Cadê a mulher que estava rindo e me confrontando ainda agora? — Eu comecei a rir e olhei para ela com piedade. — Conte tudo sobre Alessia… toda a verdade!
— Mas eu não conheço essa mulher! — gritou ela, angustiada em provar sua inocência.
— ! — Ouvi a voz grossa gritar o meu nome e, com o susto, meu dedo apertou o gatilho, o estouro alto e seco ecoou pelo closet, virei a tempo de ver a cabeça de Carolyn pender para a frente e logo o sangue começar a pingar.
Eu travei onde estava, meu coração parecia que tinha parado de bater junto com o dela, tamanho foi meu choque, mas foi uma angústia silenciosa, latente dentro de mim. Meu corpo adormeceu como se eu tivesse perdido o controle dos meus músculos, meus olhos estavam vidrados nela, meu coração acelerou de repente e me ajoelhei perto dela.
Ela não estava se mexendo!
Levantei seu rosto e vi aqueles olhos sem nenhum brilho, olhando diretamente dentro dos meus.
— Não. Não, eu não fiz isso.
Senti a mão dela agarrar meu pulso e tive um sobressalto fazendo meu corpo gelar com um calafrio, pisquei os olhos e ela continuava parada, estática; morta. Senti meu corpo pesar toneladas e caí sentada no chão, minha mente estava me pregando peças.
— ! — Ouvi ao longe e virei para trás, percebendo , que parecia confuso com aquilo tudo.
— Eu matei… — falei baixo, olhando novamente para Carolyn, as lágrimas escorriam em meu rosto e eu não conseguia me mexer. — O que eu faço agora? Eu… Por quê?
— ... — Senti a mão de em meu ombro. — Pode soltar agora… — Não entendia o que ele queria dizer, mas meus olhos arderam e fui voltando a mim, pisquei lentamente tentando controlar minha respiração e senti meu rosto molhado, só então consegui notar que ele estava agachado ao meu lado, sua mão acariciava meu braço indo em direção à arma que eu ainda segurava firmemente e nem tinha percebido. — Solta, . — Ouvi a voz baixa de próximo do meu ouvido e sua mão acariciou a minha, fazendo eu abrir meus dedos devagar e deixando que ele pegasse a arma. — … Fala comigo…
Ele segurava meu rosto tentando olhar em meus olhos e, em um rompante, eu o abracei, eu não conseguia mais parar de chorar. Por um momento me senti bem por ter feito aquilo, como se aquilo tivesse chegado ao fim, mas eu era uma assassina agora.
— Eu sou… uma assassina, … — falei abafado, com o rosto enfiado em seu peito, em prantos.
— Foi um acidente, . — Ele seguiu me abraçando, acariciando minha cabeça. — Vai ficar tudo bem.
— Fui eu que matei, ela está morta, ! — gritei ao me afastar dele. — Eu atirei aquela bala… Alguém está morto por minha causa!
— , calma… — Ele foi me abraçar novamente, mas comecei a me sentir claustrofóbica, levantei e comecei a andar para fora daquele closet, eu precisava de ar. — , pra onde você vai?! — Ele me seguiu pelo corredor. — Espera! — Ele me puxou pelo braço.
— Me solta, — falei séria, amassando a gola de sua camisa. — Me solta!
— Você precisa se acalmar antes que a Giulia escute algo, assim como escutei os gritos de vocês.
— Como vou me acalmar?! — Olhei para baixo, sentindo as lágrimas se formando ainda mais e vi minhas mãos com sangue. — Minhas mãos… Minhas mãos…
— Vem comigo. — Ele me pegou no colo e eu não conseguia parar de encarar o sangue na minha pele.
entrou no meu quarto e fechou a porta com o pé, só entendi o que ele estava planejando quando senti a água quente escorrer pelo meu corpo, molhando todas as minhas roupas, assim como as de . Ele me colocou no chão devagar e então olhei para ele, vendo que seguia me encarando como se esperasse uma resposta, no entanto, naquele momento eu não sentia que conseguiria falar. Vi o líquido vermelho escorrer e ir embora pelo ralo, como se não fosse nada. Uma morte em minhas mãos, eu tinha tirado a vida de alguém.
— … — Seus dedos levantaram meu rosto pelo maxilar e eu olhei em seus olhos. — Vai ficar tudo bem.
— Como vai ficar tudo bem?
— Confia em mim? — Acenei que sim com a cabeça. — Então termine de tomar banho e venha comigo. — foi sair do box, mas eu segurei ele.
— Fica. — Vi seus olhos negros me medirem, o cabelo pingando água e sua camiseta regata branca, quase transparente, mostrando várias das tatuagens que ele tinha escondidas pela pele. — Eu não quero ficar sozinha… — Ele balançou a cabeça em positivo e voltou, fechando o vidro e então eu abracei ele me permitindo chorar em silêncio.
Era bom.
Seus braços me seguravam com carinho, seu queixo apoiado em minha cabeça e sua mão fazendo carinho em minha nuca era tranquilizador. A diferença entre meu coração em sofrimento, batendo rápido enquanto o dele batia calmamente me deixava mais confiante de que tudo poderia mesmo ficar bem.
Depois de colocar um pijama, ouvi dando ordens para que levasse o corpo para o porão. Saí do meu closet e ele já estava com outra roupa, assim que me viu, falou no celular que precisava desligar. Caminhei até a cama e sentei, ainda olhava minhas mãos e a imagem da cabeça de Carolyn pendendo para a frente ainda vinha em minha mente. Senti uma mão em meu ombro, olhei para o lado, espantada, sentindo o coração acelerar, mas era que tinha sentado ao meu lado, então eu relaxei, soltando o ar.
— Prefere conversar amanhã? — Acenei que sim. — Tudo bem, você quer que eu traga algo? — Balancei a cabeça em negativo. — Eu preciso resolver algumas coisas…
— Não me deixe sozinha, por favor…
— Eu prometo que eu volto em alguns minutos. — Ele acariciou meu rosto, por mais que sempre que tínhamos contato físico alguma faísca de desejo aparecesse, naquele momento eu sentia que ele só queria me acalmar e me fazer ficar bem. — Vamos, deite.
Eu me recostei na cabeceira da cama e ele cobriu minhas pernas com o cobertor, minha respiração continuava difícil, como se algo pressionasse meu peito. Meu corpo estava tenso, retesado, e minha mente não conseguia apagar o que eu tinha acabado de fazer e o que eu tinha visto.
Agora eu era uma assassina.
— Eu já volto, .
Vi levantar e sair do meu quarto, eu sabia o que ele ia fazer, ouvi ele no telefone, ele iria resolver a questão do corpo e provavelmente a limpeza do closet da minha irmã. Eu matei Carolyn, ainda não conseguia acreditar, eu sempre mandei soldados matarem, mas dar uma ordem te deixa longe da real perspectiva de matar alguém. Fechei os olhos devagar e tentei me acalmar, pensar em outra coisa que não fosse a morte que eu causei. Por uma desconfiança, um erro, talvez ela não tivesse mandado aquela mulher lá, talvez ela…
— Fique orgulhosa de ter matado uma Delantera.
Abri os olhos, assustada, mas eu continuava sozinha, meu coração começou a bater mais rápido de novo enquanto eu olhava para todos os cantos do meu quarto, buscando de onde tinha vindo aquela voz tão familiar. Recolhi minhas pernas para junto do meu corpo, assim como meus ombros, meu estômago revirou e senti minha boca secar.
— Você deve ser a vergonha do legado da Cosa Nostra.
Dessa vez a voz feminina se fez mais próxima, me forçando a olhar para o lado vazio da cama depressa, e foi assim que vi Carolyn sorrindo de um jeito vil, com aquele buraco em sua testa e o sangue escorrendo pela pele e nos cabelos loiros.
— Ah! — gritei caindo da cama, me arrastei para longe até encostar minhas costas na parede e quando abri os olhos, não tinha ninguém no colchão ou no quarto. Mordi o lábio com força e me encolhi, sentada no chão, abraçando meus joelhos. — Não, isso não é real, não é real… — Eu me abraçava e me balançava procurando refúgio daquilo, eu só podia ter entrado em um pesadelo. Senti meu rosto formigar, o ar parecia não entrar em meus pulmões devido a minha garganta parecer cada vez mais fechada. As lágrimas molhavam meu rosto e eu apertava cada vez mais meus olhos fechados, tentando ignorar o que tinha acabado de acontecer. — Não é real, ela está morta…
— !
— Ela tá morta… — eu repetia sem parar, tentando me convencer de que tudo aquilo não passou de um delírio. — Eu a matei.
— … — Apenas senti me abraçando. — O que houve?
— Ela… estava aqui… ela estava aqui — falei aos prantos, entre soluços e lágrimas. — Ela não vai me deixar em paz…
— Eu não vou sair do seu lado, eu prometo.
— Ela estava morta… Eu vi. — Ele me segurou e me puxou para mais perto dele, ouvi seu coração batendo ritmado com o meu, em alerta, preocupado comigo, e era uma merda admitir, mas não existia mais ninguém que eu quisesse ali comigo naquele momento.
— Vai ficar tudo bem — ele acariciou minha cabeça —, vai ficar tudo bem.
Capítulo 21
Perroni
— Eu não tenho tempo pra isso, Filippo… — Seguia abotoando minha camisa enquanto meu primo falava sem parar sobre os problemas que iriam surgir para a Vincere por uma filha de associado ter sido morta debaixo do nosso teto.
— Otelo chega em dois dias, , o que vai dizer pra ele?
— Uma coisa de cada vez, preciso voltar antes que acorde. — Virei para sair do closet, mas ele me segurou pelo braço.
— Não entenda nada errado, primo.
Virei para ele e o encarei sério:
— Não tem nada para entender errado, Filippo.
— Acaso acha que eu esqueci que você sentia algo por ela?
— Eu tinha 17 anos, Filippo, um delírio adolescente, nada mais. — Ele me soltou e eu segui caminho para o meu quarto, coloquei o relógio e engoli em seco tentando me manter sereno.
— , acha que não percebi os olhares? Non sonno un'idiota! (Não sou uma idiota!).
— Abbastanza! (Basta!). — Virei para ele irritado. — Não tem olhares nenhum, Filippo! — Engrossei a voz ao olhar para ele determinado a acabar com aquele assunto. — Pare de inventar coisas na sua cabeça! precisa de mim agora, e espero que ela me conte o que diabos aconteceu.
— Ótimo, espero que seja mesmo apenas coisa da minha cabeça — disse em tom de aviso. — Não quero chorar a morte de outro familiar, principalmente você, ...
Ele deixou o quarto e eu respirei fundo engolindo aquelas palavras, pois eu podia até tentar esconder, ou mentir pra mim mesmo, mas a verdade é que sempre teve algo impuro em relação a dentro de mim. Desde aquele maldito momento em que eu disse para Filippo que ela me deixava sem reação, que eu sentia algo diferente do que eu sentia pelas minhas irmãs. A distância e o ódio que eu fiz ela sentir por mim nos mantinha afastados, foi proposital, e a parte de mim que teimava em querer tomá-la, enterrada, porém, termos nos aproximado talvez tivesse sido o pior erro que cometi.
Foi um tropeço que não tinha como voltar atrás.
Peguei meu celular e caminhei a passos rápidos, mas dei de cara com Beatrice no corredor e ela me olhou de cenho franzido, fazendo com que eu parasse de andar quase em frente a porta do quarto de .
— Bom dia. — Ela me analisou de forma interrogativa, como se estivesse pensando o que eu estava fazendo ali.
— Bom dia.
— Pra onde está indo? — perguntei.
— Preciso falar com — disse, dando mais um passo.
— Engraçado, também estava indo ao quarto dela. — Ela deu dois passos em direção a porta.
— Fale com ela no café. — Cruzei sua frente colocando a mão na maçaneta do quarto. — Tenho urgência. — Abri a porta e entrei rapidamente, fechando-a em seguida.
Respirei fundo fechando os olhos e logo os abri, vi que a indomável continuava dormindo e agradeci por isso. A madrugada foi agitada, ela acordou várias vezes assustada e aos gritos. Caminhei devagar e sentei no colchão, tirei o sapato e me recostei na cabeceira. Estava preocupado de como ela iria superar isso, não conseguiu matar nem os homens que a atacaram, não consigo imaginar como ela estava se sentindo em ter matado Carolyn, que estava amarrada e indefesa. Eu já tinha matado mais homens do que eu conseguiria contar nos dedos das mãos, amarrados então… Aquilo não era nada para mim.
Seria impossível me colocar no lugar dela.
Fiquei resolvendo o que podia no celular e assim que vi ela se mexer, busquei seu rosto, ela foi acordando aos poucos, parecia estar voltando à realidade lentamente. trouxe os olhos verdes até os meus e se levantou devagar, encostando na cabeceira da cama. Ela respirava calmamente e olhava um pouco perdida para seu próprio quarto, como se tentasse absorver a noite anterior novamente. As olheiras eram profundas, denunciando que a noite mal dormida tinha sido longa. Odiava vê-la daquela forma, mas eu não tinha ideia do que fazer para aquilo passar. Esperei que ela falasse algo, não queria invadir o espaço ou o silêncio dela que parecia confortável naquele momento. O que eu não esperava era que ela se aproximasse de mim e encostasse a cabeça em meu ombro.
Olhei para o lado vendo os fios ruivos em meu braço, surpreso com a proximidade repentina, larguei o celular na cama ao lado da minha coxa e levantei o braço, fazendo ela apoiar a cabeça em meu peito. Por mais que tivéssemos tido lapsos de comportamentos inadequados, essa aproximação era nova, não era desejo, era carinho e amparo o que ela queria. se acomodou e ali ficou, em silêncio, e eu esperaria até que ela estivesse pronta pra dizer alguma coisa.
— Ela era uma Delantera, — disse ela após longos minutos, sem nem mesmo se mexer e eu apenas arregalei os olhos. — Ela era a infiltrada.
Como caralhos essa mulher era uma Delantera e ninguém sabia? Eu precisava juntar essas peças. Nada parecia encaixar, o infiltrado era homem, não podia ser Carolyn, mas podia ser os dois trabalhando em conjunto, isso era maior do que eu imaginava. Quantos estavam se esgueirando pela Vincere? Com o que e quem estávamos lidando, depois de tantos anos sem nem sequer vermos ninguém dessa gente que tinha a audácia de se chamar de máfia, resolveram ressurgir das cinzas para nos atrapalhar.
— Como você descobriu tudo isso? — perguntei baixo, tentando não me exaltar apesar da informação daquela magnitude.
— Giulia descobriu. O pai dela é Carlos Diaz, ele é irmão da esposa do consegliere que Filippo matou.
Respirei fundo, soltei o ar devagar pela boca, eu não podia brigar com ela agora. Não podia dar um sermão do quanto aquilo foi perigoso e irresponsável, não só da parte de , mas das minhas irmãs também. Quanto tempo elas deixaram Carolyn amarrada no quarto de Beatrice até descobrirem tudo aquilo?
— Por que não me contaram nada?
— Estávamos tentando entender tudo antes de falar qualquer coisa…
— Eu preciso contar para Otelo, .
— Não… — Ela desencostou do meu peito e sentou no meio da cama de frente para mim. — Papai vai me odiar, eu matei alguém dentro da casa dele.
— , Otelo vai amar que você matou uma inimiga.
— ! — Ela arregalou os olhos e então eu percebi o que tinha falado, para ela, o que tinha feito era inconcebível e para mim, nada mais era do que uma tarde de quinta-feira.
— Eu sei, desculpe… — Passei a mão pelo cabelo nervoso e desviei meus olhos dos dela.
— Eu não… — Vi ela fechar os olhos e respirar fundo. — Eu não queria…
— Foi um acidente… — Desencostei da cabeceira no ímpeto, querendo tocá-la, mas lembrei do que meu primo falou e freei minha ação.
— Mas eu apertei o gatilho! — Ela aumentou o tom de voz e soltou o ar com força. Passou a mão pelo rosto e fechou os olhos, respirou algumas vezes, tentando se acalmar. — Não sei o que fazer.
— Beatrice estava vindo aqui quando eu também estava. Ela já deve ter notado… — mordeu o lábio em nervosismo. — Mande mensagem para elas nos encontrarem na sala da Giulia.
— Céus, , o que eu vou dizer?
— A verdade, . — Ela abraçou os joelhos e seus olhos marejaram. — Vai ficar tudo bem, eu prometo. — Acariciei a cabeça dela e beijei sua testa.
[...]
Ouvi Beatrice reclamar sobre onde Carolyn estava antes de ela me ver entrando na sala de Giu bem atrás de , assim que me viu, se calou. Fechei a porta atrás de mim e respirei fundo, olhei para e vi que aquilo seria difícil para ela, principalmente por estar tudo tão recente, porém, não tínhamos tempo. Meu pai logo chegaria, um corpo apodrecia no porão e minhas irmãs nos olhavam como se a gente tivesse ocultado o cadáver. Bom, a única diferença é que Filippo e Nero ocultaram.
Pigarreei e dei dois passos à frente antes de começar:
— Podem me explicar o porquê de eu não saber que a mulher que ia se casar comigo era uma Delantera?
O silêncio se instaurou na sala e elas se entreolharam, menos , que seguia ao meu lado olhando para baixo, cabisbaixa.
— Estávamos tentando juntar informações, — explicou Giulia por fim. — Não era tão simples, Beatrice escutou ela no telefone dizendo que iria comandar a Vincere.
— E nesse momento vocês deveriam ter vindo até mim…
— Eu que disse para não falarmos nada. — suspirou. — Deixei meu orgulho… — Vi ela se calar e olhar para o lado como se visse alguém.
— … — chamei e ela me olhou, perdida, seus olhos estavam sem brilho algum. Era nítido o quanto ela estava abatida. — Quer voltar e se deitar?
— Não. — Minhas irmãs a olharam intrigadas, tentando entender o que estava acontecendo. — Não precisa… Precisamos contar pra elas… — Ela se encolheu e se abraçou, estava em choque e em constante ansiedade, dei dois passos em direção a ela, ficando de costas e cobrindo o corpo pequeno dos olhares inquisidores das minhas irmãs.
— , você não precisa fazer isso… Eu posso fazer sozinho — falei baixo e ela seguiu olhando para o chão, puxei seu queixo para que olhasse pra mim. — Tem certeza que está bem? — Ela afirmou com a cabeça e então voltei a ficar ao seu lado.
— Vocês estão me deixando nervosa! — exclamou Beatrice. — O que porra aconteceu com aquela parisiense insuportável?
— Eu matei ela! — falou de uma vez, fazendo as outras arregalarem os olhos, Luna cobriu a boca, chocada, e Giulia sequer mudou sua linguagem corporal.
Acariciei o braço dela, tentando acalmá-la e disse:
— Foi um acidente.
— Um acidente? — perguntou Beatrice, incrédula.
— Foi um acidente, Beatrice — falei com ênfase, sério, deixando todas elas cientes de que aquilo não estava aberto para discussões. — Quero todas as informações que você tiver dela e do pai dela, Giulia. Amanhã Otelo chega e vou passar tudo pra ele.
— Sim, .
— Beatrice, cuide da Fascino por enquanto.
— … — tentou falar, mas neguei com a cabeça, olhando para ela.
— Você precisa descansar… — falei baixo, tomando o cuidado de não assustá-la. Voltei a olhar minhas irmãs e tentei ao máximo pedir mudo para que elas entendessem a situação. — Espero um relatório, me avise quando estiver pronto, Giu.
— Fica pronto antes do jantar.
— Obrigado.
Virei para sair e me acompanhou, saímos da sala e voltamos ao quarto dela. Eu vi que ela estava paranoica, acreditava que aquilo era estresse pós-traumático, ela precisava de um médico, remédios e descansar. Ela deitou na cama e se encolheu entre os travesseiros, abraçou as almofadas e se cobriu com o edredom. Olhei para ela e só conseguia pensar no quanto eu queria tirar essa dor dela. Mandei mensagem para Filippo arrumar um médico para ontem, deitei ao lado dela e ali fiquei, sem dizer uma palavra por um tempo, que parecia pouco, mas já tínhamos tomado café e almoçado, ali mesmo, na cama.
não queria sair dali, eu percebi que para ela era o único lugar seguro, ali ela estava protegida por alguma coisa que a cabeça dela inventou. Ela pediu para eu ficar, disse que não queria ficar sozinha em nenhum momento e que só eu entendia o que ela sentia. Engraçado era que eu não entendia, entrei na vida adulta achando normal matar as pessoas e não ter o mínimo de remorso por isso. Eu não sabia o porquê de ela achar que eu era a melhor pessoa para lhe fazer companhia em um momento como aquele, mas eu estaria ali, até quando ela precisasse de mim.
[...]
Meu pai me olhava há tempo demais, pensativo, fumando seu charuto e bebendo uma dose dupla de whisky depois que eu contei tudo o que aconteceu. Eu já estava sentindo meu corpo tensionado em cada músculo, Otelo era imprevisível, eu não sabia o que esperar e isso me deixava uma pilha de nervos. Nem mesmo as expressões faciais dele eu estava conseguindo ler.
— Sabemos o porquê de ela ter tido aquele rompante com seu anúncio então… Ela sabia de algo que nós não sabíamos.
— Acredito que tenha sido isso.
— Por que não está aqui?
— Ela não está se sentindo muito bem.
A verdade era que depois que o primeiro psicólogo e psiquiatra disponíveis vieram examiná-la em conjunto, ela finalmente conseguiu dormir com o remédio que o doutor passou. Sem gritos, sem pesadelos, sem ela me agarrar no meio da noite como se estivesse afundando no mais profundo oceano. Ela estava calma e dormindo tranquilamente quando a deixei pela manhã.
— Depois comemoro com ela então…
— Comemorar? — Franzi o cenho.
— Óbvio! Minha filha matou um Delantera, isso é motivo para uma comemoração. — Ele sorriu, orgulhoso.
— Otelo, não é igual a nós…
— Bobagens, , ela é uma Perroni. — Ele virou para meu primo. — Filippo, mande caçarem esse filho da puta que ousou me enganar. Eu quero ele vivo.
— Sim, Don Otelo. — Meu primo deixou a biblioteca e eu seguia tentando processar a discrepância de tudo aquilo.
estava em sofrimento e meu pai, feliz.
— Nos deixem a sós — falei sério para os seguranças presentes e eles nos deixaram. — Pai, está com TEPT.
— Como?
— Estresse pós-traumático. Está dormindo à base de remédios por causa do que ela fez, não fale em comemoração perto dela.
— Está me dizendo como agir com a minha filha?
— Estou dizendo que sua filha está em sofrimento por causa dessa merda toda! — Bati o punho na mesa ao levantar. Estava possesso com aquela mania de relativizar coisas que não eram do entendimento de Otelo ou por simplesmente não estar dentro do que ele achava importante. — Tenha o mínimo de compaixão. Ela não é igual a mim, o monstro que você criou. — Engoli o restante do whisky em meu copo, sentindo o gosto amargo daquelas palavras.
— Tem mais alguma coisa que queira me contar, ? — Ele me olhou como se ordenasse uma explicação pelo meu rompante e eu sabia que tinha passado dos limites.
— Não.
— Pode se retirar.
Saí do escritório pisando duro, a raiva me possuiu de uma maneira que não consegui controlar, foi algo mais forte que eu. Subi a escada e ao ver a porta do quarto de , parei no corredor, virei para a parede envidraçada e me apoiei nela. Tentei me recompor, tentei regular minha respiração, acalmar meus batimentos cardíacos e minha mente. precisava de calmaria e eu estava o próprio caos. Virei e dei alguns passos para bater na porta, em seguida ouvi sua voz baixa permitir que eu entrasse. Abri a porta devagar e ela estava no meio da cama, abraçada aos joelhos e olhando para um lugar qualquer. Era angustiante vê-la daquela forma.
— Você está bem?
— Estou melhor, graças aos remédios.
Caminhei devagar e sentei na cama, olhando para ela, contei que tinha conversado com Otelo e ele enviou homens para a casa de Carlos Diaz ou seja lá qual fosse o nome daquele homem. Ela escutou tudo atentamente e parecia querer dizer algo, mas um medo tomou seus olhos, eu conseguia ler a dúvida se me contava ou não o que queria.
— Eu preciso contar uma coisa… — Balancei a cabeça em positivo, aguardando ela continuar. — Uma mulher foi até a Fascino dizendo que era minha mãe.
Arregalei os olhos sem acreditar, as mulheres que venderam as garotas ao meu pai não podiam entrar em contato com elas nunca mais e isso estava escrito em contrato.
— Ela não poderia…
— Essa não é a pior parte, … — Ela me interrompeu e eu engoli em seco. — Mas não vem ao caso… Cheguei a conclusão que ela só queria me jogar contra a famiglia.
— Como assim, ?
— Ela disse que… — vi ela hesitar, então peguei a mão dela e acariciei, seus olhos verdes vieram até os meus, sua mão apertou a minha mais forte e a vi morder o lábio — que Otelo não é meu pai.
Senti como se meu coração parasse por um segundo e o ar de repente ficou tão denso que eu conseguiria cortar com uma faca. Os olhos verdes me olhavam com um vazio existencial e aquilo me preocupava, tinha sido uma tragédia atrás da outra, ela iria conseguir se recuperar de tudo aquilo? Será que em algum momento nossa família ia parar de ser tão quebrada?
— Eu não acredito nela, não pode ser verdade — cuspiu as palavras de uma forma que parecia tentar convencer mais a ela mesma do que eu.
Tantas coisas me passaram pela mente naquele milésimo de segundo, cheguei a sentir uma pontada de dor de cabeça. Se ela não fosse minha meia-irmã, então…
— E se for? — falei no ímpeto, sem pensar nas consequências da minha, aparente, simples pergunta.
— ! — Ela se exaltou e levantou da cama, irritada. — Não pode ser verdade! Minha vida inteira teria sido uma mentira!
Eu estava sendo egoísta demais, tinha tanta coisa envolvida nessa possibilidade. Eu não sabia o que era uma vida inteira achando que você era filha de alguém, da única pessoa que realmente quis você, se isso se quebrasse também eu nem sabia como tudo ficaria. Não saberia se a racionalidade de ainda se manteria intacta depois disso.
— Você tem razão, não tem como eu entender o que você está sentindo agora, mas…
— Não tem "mas" — ela me interrompeu e olhou mordendo o lábio, a ponto de chorar —, se isso for verdade… — vi ela hesitar — eu não vou saber mais quem sou eu, .
Alonso Perroni
Desde criança eu me questionava qual era o meu lugar no mundo, aos poucos, conforme fui crescendo, eu entendi qual seria o meu posto na família. Vieram os treinamentos, os seguranças, as armas, as festas e tudo começou a fazer sentido na minha cabeça. Contudo, quando chegou, foi como se eu tivesse perdido aquela certeza sobre o lugar que teria. Depois de alguns anos, assumi a boate e fiquei feliz, estava com aquela sensação de que ali era onde eu precisava estar.
No entanto, agora, ali estava eu novamente, perdida, procurando meu lugar no mundo, pois tudo parecia bagunçado demais. Aquela dúvida latente de que eu não fazia parte daquela família ainda me assombrava dia após dia, mas nada era mais aterrorizante do que viver com a culpa de ter matado alguém. Não importava se era um inimigo, era uma pessoa como eu e eu tomei a vida dela em um segundo.
Viver com aquilo estava pesado demais e a única pessoa que eu achava que poderia me entender era aquela pessoa que roubou o lugar que eu achei que era meu. ; o meio-irmão idiota que eu tinha algum sentimento indecifrável e que eu odiava com todas as forças há alguns anos, ou o qual eu estava beijando algumas semanas atrás. Minha vida era tão conturbada que nem eu mesma conseguia entender o que estava acontecendo e como cheguei até ali.
— ? — O psicólogo me trouxe de volta ao momento presente. — Como foi seu dia? — Levantei a cabeça para encará-lo e suspirei.
— Nada de diferente de todos os outros dias.
— Seus pesadelos?
— Com menos frequência… — Olhei para o sofá que dormia, quase todas as noites, talvez fosse por tê-lo ali que conseguia dormir bem e isso me assustava um pouco, afinal, o maior poder que você pode dar a alguém é se permitir descansar com ele ao seu lado.
— Isso é uma ótima notícia. Os remédios têm feito seu trabalho. — Acenei com a cabeça. — A terapia também tem seus créditos. Falar ajuda, .
Aquele silêncio constrangedor de quando meu psicólogo queria entrar no assunto que estava rondando a minha mente, ele sabia que eu pensava demais, no entanto, falar era tão mais difícil. Eu tinha essa noção de que ele me observava e tentava me ler nos mínimos detalhes, eu sabia como a psicologia funcionava. No entanto, às vezes eu não queria falar e, em outras, eu sabia que certas coisas eu jamais deveria proferir.
— Talvez eu… — Esfreguei uma mão na outra, mordi meu lábio, não poderia falar isso em voz alta, isso só tornaria tudo mais verdade e eu não podia assumir que tinha um papel fundamental no meu sono ou nos meus dias ou na minha vida. Era tudo complicado demais. — Eu… devesse voltar a treinar.
— Ótima ideia! O exercício sempre ajuda, não só fisicamente como mentalmente também. — Doutor Martin olhou o relógio. — Preciso ir agora, , mas lembre-se, pode sempre me ligar.
— Obrigada, Martin.
Estava sozinha novamente depois de 1 hora de terapia, era sempre a mesma coisa, e, no fim, a pergunta sobre meu dia. Nada mudou nos últimos 18 dias que eu continuava sem conseguir sair de casa, mal saía do meu quarto, na verdade. Minhas irmãs me procuravam todo santo dia, entravam no meu quarto, tentavam conversar comigo, mas eu não conseguia falar mais do que palavras educadas. Não queria descontar nada que passasse pela minha cabeça nelas, ou que elas vissem um surto meu que, mesmo tomando remédio, às vezes aconteciam. Levantei da poltrona e me joguei na cama, eu estava cansada de me sentir assim.
Eu não era mais eu.
Nem eu mesma sabia que iria reagir assim ao matar alguém, nunca tive coragem de atirar em ninguém, mas também nunca tive pena das pessoas. Parecia latente em mim, já que tive um treinamento para ser violenta, porém, nunca consegui mais do que uns tapas, socos e falar atrocidades. Quando as coisas aconteciam realmente, tudo mudava de figura, era aterrorizante olhar para a morte.
Encarei o teto branco acima de mim e senti aquele vazio no peito e minha cabeça parecia pesar toneladas. Não era para eu me sentir melhor depois de fazer terapia? Eu queria um martini, ou melhor, meu whisky, queria me afogar na bebida até esquecer quem eu era. Sentir que fazia parte de outra realidade, outra família, queria ter outra vida… ou vida nenhuma.
Senti meu corpo inteiro retesar.
Fechei os olhos com força e me abracei.
Mordi o lábio e senti as lágrimas escorrerem pela minha bochecha, apertei minha barriga com mais força e minha vontade era de gritar até ficar sem voz. E quando me dei conta, Luna estava me abraçando e chorando junto comigo.
— Vai ficar tudo bem, … — ela repetia em um volume quase inaudível. — Vai ficar tudo bem…
Quando ela tinha entrado no quarto?
— Ela tomou os remédios? — Ouvi a voz grossa e virei a cabeça, vendo na beirada da cama, em pé. — Dê o remédio pra ela, Luna.
— Eu estou bem. — Levantei do colo de minha irmã, afastando-me quando finalmente senti forças para tal, e olhei para , que mantinha a expressão serena, mas dava para ver que ele estava irritado com alguma coisa. — O que aconteceu?
— Nada que deva se preocupar.
Luna me deu dois comprimidos e eu engoli com a água que foi me alcançada também por ela.
— Não precisa ficar me escondendo as coisas, . — Deitei novamente, dessa vez com a cabeça no travesseiro. — Está tudo bem com a Fascino?
— Sim, sua boate está ótima.
— Perfeito… — Senti meus olhos pesarem, virei para o lado e deixei o sono me levar.
[...]
— Vince voltou ao trabalho e a Giovanna também. — Beatrice me contava no café da manhã um dos poucos dias que consegui descer para sentar à mesa. — Ela está começando a perguntar por você…
— Diga que estou doente.
— Isso funcionou na primeira semana, . — Ela levou mais uma colher de salada de frutas à boca. — Deveria falar com ela…
— Não sou uma boa companhia no momento. — Mordi meu sanduíche e suspirei.
— Ela é sua melhor amiga… — Dei de ombros e torci os lábios. — Você não é assim.
— Eu sei. — Levantei da mesa e no caminho para o meu quarto, peguei uma garrafa de champanhe, que se fodessem os remédios.
— Pra onde pensa que vai com isso?
Parei no meio do corredor, tão perto de estar segura do meu quarto, mas tinha que surgir sei lá de onde pra me infernizar. Virei devagar para ele, que já vinha em minha direção, assim que parou perto o suficiente, tomou a garrafa da minha mão.
— Sabe que não pode beber.
— Sei também que não posso me matar, então essa é a escolha menos arriscada.
— — ele franziu o cenho e eu dei de ombros olhando pra ele, que se aproximou ainda mais —, não fale isso.
— É a verdade.
— Não sei o que eu faria se perdesse você… — Sua mão veio em direção ao meu rosto e eu dei um passo para trás, assustada. recolheu seu braço e suspirou, fechando seus olhos. — O que eu posso fazer pra te ajudar? — Voltou a olhar para mim, preocupado, eu odiava aquele olhar.
Continuava encarando ele com os olhos baixos e então olhei para o chão antes de dizer:
— Ninguém pode me ajudar, quanto mais cedo aceitar isso, melhor. — Virei as costas e entrei no meu quarto.
Senti meu peito doer, coloquei a mão entre meus seios, lágrimas deixaram meus olhos e senti aquela dor sufocante de novo. Eu queria tanto que isso acabasse, que eu ficasse bem de novo, que eu fosse eu mesma. Sentei no chão e apoiei minha testa em meus joelhos, era angustiante sentir coisas que eu nem mesmo sabia explicar.
— Você deveria parar de ser tão fraca…
Olhei para cima e vi Carolyn me encarando com aquele ar de superioridade. Fechei os olhos com força e abracei meus joelhos, aquilo era minha imaginação.
— Você não é real!
— O que é ser real pra você, ? — Abri os olhos com receio e a vi caminhar pelo quarto, olhando os porta-retratos que eu tinha ali. — É fingir que não está apaixonada pelo seu irmão?
— Cala a boca! — Levantei com a raiva tomando conta de mim, esqueci que aquilo era só mais um dos meus episódios de alucinação pela crise de ansiedade e deixei o ódio me preencher. — Você nunca deveria ter entrado por aquela porta.
— Ao mesmo tempo que você também não, bastarda!
Peguei um dos livros que havia na estante de canto e joguei com força em direção a ela, fazendo com que desaparecesse. Senti meu peito doer e a minha respiração acelerada de tão nervosa que fiquei. Eu estava perdendo a cabeça e às vezes eu realmente tinha medo de nunca mais voltar à sanidade completa.
Perroni
Doía vê-la daquela forma, eu queria arrancar daquela cama, tirar ela daquela escuridão que tomou seu coração e sua mente. Eu preferia estar brigando com ela ou estar irritado por ela ter feito alguma besteira ou pelo simples fato de amar ser desobediente. Não queria tê-la em casa se fosse desse jeito, quando eu quis foi por sua segurança e não por ela estar destruída psicologicamente.
Ela estava quebrada demais para sequer levantar e reclamar por eu estar mais um dia ali, velando seu sono. Queria vê-la dizer que não precisava de mim, que eu estava invadindo seu quarto, seu espaço e sua privacidade. Era doloroso demais vê-la definhar daquela forma, dormir à base de remédios e viver com aquele olhar perdido, vazio e sem brilho, mas que ao mesmo tempo, parecia que muita coisa perturbava sua mente.
Não tinha como eu ajudá-la, mas todo dia eu tentava.
— Bom dia… — Ouvi a voz sonolenta dela soar pelo quarto, me tirando dos meus pensamentos.
— Bom dia.
— Você pode dormir aqui, sabe? — Ela apontou para o outro lado da cama. — É bem grande e… Dormir nesse sofá deve ser horrível.
— É o suficiente, não são todas as noites.
— Mas quase todas. — Ela levantou e foi em direção ao banheiro.
— Isso foi uma reclamação? — falei mais alto para que ela pudesse ouvir, pude até curvar os lábios achando que aquilo poderia ser ela voltando ao seu normal.
— Foi só uma observação.
Suspirei, murchando os ombros.
— Não esqueça de tomar seus remédios e… — suspirei, encolhendo meus ombros e continuei baixinho: — tenta sair desse quarto… — Abaixei a cabeça, mas fui alertado pelo som dos seus passos, que ela estava voltando ao quarto, então tratei de me recompor.
— Não vou esquecer, você faz questão de me lembrar todo santo dia. — Vi ela pegar os três comprimidos e tomar.
— Te vejo no café da manhã? — Deixei o quarto e assim que me vi no corredor, tentei mais uma vez não me culpar por ela estar daquela forma.
Era impossível não assumir um pedaço de culpa dessa merda toda. Eu deveria ter dito não, deveria ter falado que não iria casar e ter falado para Carolyn voltar de onde veio. Balancei a cabeça em negativo e segui o caminho para o meu quarto, onde eu estava mais seguro para externar os pensamentos autodestrutivos que me atormentavam a todo segundo.
[...]
No dia seguinte, meu pai tinha organizado uma reunião para saber as notícias da busca por Carlos Diaz. Entrei naquele escritório já sentindo de longe a aura pesada estampada em meu primo. Eu tinha esse dom de ler as pessoas facilmente, por isso eu era tão bom nas torturas. Sentei na poltrona em frente à mesa de madeira, logo meu pai entrou na biblioteca exalando poder. Ele adorava quem ele era, isso era muito nítido.
— Vamos ao que interessa… — Otelo sentou em sua cadeira.
— Don, a busca foi feita por toda a propriedade, mas não havia ninguém.
— Como não tinha ninguém? — Meu pai socou a mesa de madeira fazendo todos os presentes, menos eu e Filippo, darem um sobressalto. — Eu fui lá há alguns meses…
— Os soldados disseram que a casa está completamente vazia, Don Otelo.
— Eu quero — meu pai rangeu os dentes antes de continuar: —, que cacem esse maledetto!
— Si, signore.
Todos se mantiveram na mesma posição, olhei para Filippo, e nós sabíamos o que viria.
— O que estão esperando? — gritou meu pai. — Agora, vão!
Todos saíram com pressa, eu apenas respirei fundo, esperando o que sobraria para mim de tudo isso, porém, pela primeira vez vi meu pai sentar calmamente e acender seu charuto depois de uma péssima notícia. O que já me deixou ainda mais preocupado. Otelo não era uma pessoa previsível, nunca sabemos o que esperar, no entanto, tem algumas coisas que eu sabia como ele iria lidar, e, definitivamente, esse comportamento era novo.
Levantei devagar quando o silêncio pareceu ser a escolha de meu pai para o momento. Caminhei para fora do escritório e passando pela biblioteca meus olhos foram até a poltrona preferida de . Em um passado não tão distante era raro não encontrá-la ali aquela hora, lendo. Engoli em seco e segui meu caminho até o andar de cima. Tentei desviar meu pensamento para o maior problema que tínhamos nas mãos agora. Não sabíamos onde estava o maior inimigo que tínhamos em anos, um que conseguiu colocar alguém dentro da nossa casa.
Eu ainda precisava descobrir quem era o infiltrado que estava trabalhando junto a Carolyn. Assim que avistei o corredor dos quartos ouvi gritos vindo do quarto de , olhei para frente e vi Luna assustada, eu e ela corremos em direção à porta, que abrimos com pressa. estava gritando, deitada bem no meio da cama, seus olhos estavam fechados e seus braços em volta da cabeça.
Ela estava em outro surto.
Luna subiu em cima do colchão depressa e a abraçou, fiquei de pé na beira da cama, olhando as duas, tentando pensar em algo para resolver aquilo. Eu precisava descobrir um jeito de livrar de toda essa dor e angústia. Eu queria resgatá-la, mesmo que isso fizesse eu me perder novamente.
Saí daquele quarto após deixá-la medicada e dormindo, tentava pensar em algo que fizesse sentido para ajudar , caminhei até a área da piscina e sentei em uma das espreguiçadeiras. Acendi meu cigarro e ali fiquei, conjecturando comigo mesmo quais eram as minhas opções.
Eu poderia forçá-la a sair de casa. Revirei os olhos soprando a fumaça para cima; péssima ideia.
Talvez levar ela até a casa de campo, a natureza ajudaria, porém, a atual… personalidade dela não me garantia que ela iria de bom grado. Por mais que fosse uma das casas preferidas dela.
Talvez se eu trouxesse Giovanna para ver ela… Se bem que ela disse para Beatrice que não queria ver os amigos.
Pensar em uma forma de ajuda era uma tortura, eu estava com cansaço mental há tantas semanas. Estava sendo muito complicado para todos nós passar por isso. Meu pai fingia que nada estava acontecendo, mas eu percebia as mudanças de humor, no comportamento, as madrugadas sem dormir, sem falar que faziam dias que ele nem sequer saía dessa casa. Além dele mesmo ter ido atrás do melhor psicólogo para tratar ela.
Ele estava morrendo de preocupação, no entanto, era nítido que ele não sabia lidar, pois não foi nenhuma vez vê-la.
— Está com uma cara péssima, primo. — A voz de Filippo me tirou dos meus pensamentos. — Já te vi pior, mas você tinha levado uma surra no treinamento. — Ele riu enquanto se sentava na cadeira à minha frente.
— Engraçadinho.
— Meu tio não teve uma reação previsível, por mais imprevisível que ele seja.
— Ele está apavorado, mas não admite.
— Minha prima não está bem, não é? — Ele uniu as sobrancelhas, demonstrando preocupação.
— Ela teve outro surto. Não sei mais o que fazer…
— Ela está sendo bem cuidada pelo psicólogo e tomando os remédios, . Ela precisa de tempo agora.
— Não aguento mais vê-la dessa forma.
— Fale com o psicólogo dela, talvez ele te dando uma opinião profissional do que fazer você consiga ajudar.
— Você é um gênio, Filippo. — Pela primeira vez em semanas eu sorri e senti aquela ponta de esperança que eu precisava para me manter são.
Capítulo 22
Perroni
— Bom dia, doutor.
— Senhor Perroni — falou o psicólogo, surpreso.
Eu poderia ter ido até o consultório dele, mas eu mal tinha conseguido dormir, então fui até a padaria que eu sabia que ele costumava tomar café. Claro que eu investiguei a vida inteira dele antes de deixá-lo se aproximar de , mesmo meu pai falando que ele era o melhor psicólogo do país. Jamais deixaria alguém se tornar tão íntimo dela sem saber cada minuto da vida dele desde que ele começou a respirar no mundo.
Abordei ele de uma maneira meio invasiva, mas eu não estava me importando com isso. Eu sentia uma angústia interna e um desespero que não era tão conhecido por mim, porém eu sabia que a única coisa que me movia ultimamente era tirar a da escuridão, nem que para isso eu me fodesse no processo.
— Podemos conversar? — Indiquei a mesa vazia um pouco à frente.
— Claro.
Nunca tinha entrado em contato direto com um psicólogo ou psiquiatra, eu não era daqueles que não acreditava, mas também não via como algo imprescindível, porém, quando vi daquela forma, eu tinha certeza que ela precisaria de um. Então sentamos na cafeteria e ele me explicou que o estresse pós-traumático era um transtorno de ansiedade que pode se desenvolver em pessoas que presenciaram eventos traumáticos. O TEPT pode causar distúrbios do sono, humor deprimido, hiper vigilância, alucinações, esquiva de lembranças do trauma entre outros. Era tudo muito complexo, mas tudo fazia muito sentido, eu havia presenciado muitos desses episódios. Era frustrante não saber o que fazer para ajudar.
Depois de muito debater com o Dr. Martin e tentar entender a abordagem que deveríamos ter, não só eu como a família toda, eu fui para casa com um objetivo na cabeça: pesquisar. Entrei no meu quarto e busquei meu notebook, sentei na poltrona da varanda e fiquei horas ali sentado em busca de uma resposta ou um milagre, talvez o todo poderoso fosse bonzinho comigo uma única vez. Estávamos em uma situação muito delicada e depois da conversa com o doutor Martin, fiquei ainda mais preocupado, porém, também fiquei esperançoso. Ele me disse que eu estar me dedicando tanto assim a ajudá-la era imprescindível para uma melhora na condição dela. estar cercada de pessoas que cuidam dela era algo bastante positivo na condição atual do seu psicológico.
Eu estava lendo incontáveis artigos sobre estresse pós-traumático, o que ajudava, o que não ajudava, o que as pessoas próximas poderiam fazer ou não fazer para ajudar. Eu já tinha fumado quase duas carteiras de cigarro enquanto corria meus olhos pelos artigos variados. Quando eu finalmente achei um artigo falando sobre o quanto cães podiam ser um ótimo apoio emocional para quem tem algum transtorno psicológico ou até mesmo o próprio estresse pós-traumático, eu sorri de felicidade.
— É isso! — Podia não ser a solução, mas toda ajuda era bem-vinda.
Ouvi batidas na porta e liberei a entrada, Filippo entrou com uma expressão esquisita em seu rosto, da qual eu não gostei nem um pouco. Franzi o cenho, estava meio em alerta para ouvir o que ele tinha a dizer. Tirei o notebook do meu colo e o coloquei na mesa lateral.
— Seu pai quer que você interrogue um capitão…
Levantei de supetão e perguntei animado:
— Acharam o outro capitão dos Delantera?
Vi meu primo engolir em seco e a sua reação chegou a me assustar, nunca vi ele daquele jeito.
— Um capitão nosso, …
— Como? — perguntei, atordoado.
— Eu sinto muito.
— Quem é, Filippo? — Ele desviou o olhar e eu dei passos apressados em direção a ele, ficando perto o suficiente para obrigá-lo a olhar em meus olhos. — Quem é?! — berrei.
— Nero.
Arregalei meus olhos dando dois passos para trás e balancei a cabeça em negativo, aquilo não podia estar acontecendo. Nero cresceu comigo, com a gente, Nero era meu braço direito e tinha toda a minha confiança. Passei a mão pelo cabelo, ansioso, nervoso, sentindo meu coração batendo acelerado em meu peito.
Por que meu pai queria interrogá-lo?
Tentei respirar fundo, eu não poderia, eu não conseguiria interrogar ele, não ele. Nero era como um irmão para mim, assim como Filippo, sempre fomos nós três. Olhei para meu primo, que mantinha a cabeça abaixada, ele deveria estar tão mal quanto eu. No entanto, conhecendo meu pai, eu sei que ele não deu escolha para ninguém. Apenas ordens.
Saí do meu quarto ouvindo Filippo chamar meu nome, mas não me importei, desci a escada com pressa e entrei no único lugar que meu pai poderia estar. Abri a porta do escritório e Otelo olhou para mim com aquela expressão despreocupada. Percebi que deveria estar parecendo um lunático, a camisa aberta, pés descalços, cabelos bagunçados e o rosto cansado de quem não dormiu e passou o dia em frente ao computador.
— Precisa de ajuda com algo?
— Por quê? Me dê um bom motivo e eu não vou questionar.
Ele se recostou na cadeira, deu um gole em seu whisky e suspirou antes de falar:
— Sua irmã vai lhe mostrar.
Eu estava tão desorientado que nem mesmo vi Giulia ali, ela deu alguns passos enquanto mexia no tablet e o colocou apoiado na mesa, com a tela virada para mim. Minha irmã mexeu os lábios dizendo que sentia muito e assim que o vídeo começou, eu nem conseguia acreditar no que via. Meu corpo foi perdendo as forças até encontrar a poltrona, assim como minha boca entreabriu, chocado com o que meus olhos viam.
Nero e Carolyn conversavam de maneira incriminatória e de repente, começavam a se beijar e foi daí para pior. Abaixei o tablet, sem querer ver o restante.
— Como?
— Acreditamos que ele não sabia que tinha uma câmera no quarto de visitas e a noite ele ia até lá pra poder… — Giulia pigarreou e antes que conseguisse continuar, meu pai interrompeu.
— Comer a vadia.
Passei a mão pelo rosto, aquilo não podia estar acontecendo, ele não.
— Nem eu lembrava que tínhamos câmera no quarto em que Carolyn estava, mas nosso pai me pediu para acessar.
— E agora precisamos interrogar esse filho da puta!
— Eu não posso…
— Se não for você, será eu — ditou Otelo, fazendo eu arregalar os olhos ao olhar pra ele. — A escolha é sua.
— Preciso me recompor.
— Eu quero saber onde está aquele cretino! — Meu pai alterou o tom de voz. — Então aja como um Perroni, entre lá e descubra. Agora.
Engoli em seco minha frustração e acenei com a cabeça antes de deixar o escritório. Eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo, quando eu achava que essa família não podia ficar pior. Encontrei Filippo no corredor e eu apenas acenei, e ele entendeu, claro. Abotoei minha camisa enquanto caminhava até o bar e servi uma dose dupla de whisky, virei garganta abaixo e comecei a dobrar as mangas indo em direção ao porão com meu primo em meu encalço.
Desci cada degrau sentindo a lajota fria em meu pé, a cada passo que eu dava sentia que meu corpo pesava ainda mais. Quando vi Nero amarrado e elevado pelo gancho onde costumavam ficar homens que ele me ajudava a interrogar, senti uma pontada no peito.
Aquele tipo de traição deveria ser proibido.
— Você me conhece o suficiente pra saber que isso não vai funcionar — disse, ainda de cabeça baixa.
Eu precisava me desligar, precisava desligar a parte do com coração, aquele que ainda olhava para Nero como alguém da família. Ele sabia de tudo, mesmo assim deixou essa mulher entrar na nossa casa e fazer tudo que fez. está aos pedaços por ter matado aquela mulher que merecia estar morta.
— Pelo jeito não o suficiente. — Dei mais alguns passos e levantei sua cabeça pelos cabelos, para poder olhar em seus olhos. — Achei que jamais me trairia, principalmente por uma boceta!
A raiva começou a subir pelo meu corpo, tomando cada pedaço e trazendo à tona o monstro que eu era dentro de uma sala de tortura.
— Carolyn era mais do que isso.
— Não fale o nome daquela vagabunda dentro da minha casa! — Soquei seu estômago com força, fazendo ele tossir.
O primeiro soco foi prazeroso. Esse foi por você, , o homem que a gente confiava nossa vida nos traiu e ajudou a te deixar como está agora e eu jamais vou perdoá-lo por isso.
— Você não vai aguentar quatro horas comigo, .
— Prefere meu pai? — Vi ele arregalar os olhos.
Por mais que não esperasse essa traição, eu conhecia ele muito bem para saber como deixá-lo aterrorizado. Nero pediu para sair do grupo de interrogatório do meu pai, aparentemente ele amava as torturas, mas não tanto assim, já que Otelo era um monstro bem pior do que eu quando ele queria descobrir algo. Meu pai tinha estômago para muita coisa e quase ninguém estava preparado para ver o que ele fazia. Se fosse uma tortura por vingança, com certeza ele era o melhor, sanguinário como nenhum outro, mas se fosse pra arrancar informações, eu com certeza sabia conduzir melhor para o inimigo abrir a boca.
Fui até a mesa onde ficavam os bisturis, facas, alicates e tantas outras ferramentas que serviam para torturar da pior forma que podíamos.
— Você está blefando.
Virei devagar, meus olhos ardiam, não sabia se de raiva ou se eu queria mesmo chorar e não queria fazê-lo.
— Carolyn fez um inferno na nossa família, eu mesmo a mataria se ela estivesse viva.
— Claro, a morte dela causou tanto a sua irmãzinha querida, não é mesmo?
Eu tentava entender de onde vinha aquele comportamento completamente oposto, parecia outra pessoa no corpo do meu fiel soldado, fiquei em choque com aquilo, mas meu primo não. Ouvi barulho de ossos quebrando quando Filippo acertou a costela de Nero com uma corrente enrolada em sua mão.
— Não ouse falar sobre minha prima, seu merda!
Aquela atitude completamente diferente da pessoa que eu conhecia me ajudou a tomar distância da relação que tínhamos. Não era ele, aquela pessoa que viveu tantos anos ao nosso lado não existia. Eu estava cansado demais, fechei os olhos por alguns segundos e respirei fundo. Eu precisava descobrir logo para dar a informação ao meu pai e sair dali.
— Poupe meu trabalho, Nero, e abre o bico. Onde está Carlos Diaz, Delantera, seja lá qual o nome desse infeliz?
— Não faço ideia. Meu sogro é um homem que some e volta quando quer.
Sogro?
Peguei o martelo e bati na lateral do joelho direito, o grito veio em seguida, mas não esperei ele se recuperar, acertei o osso do quadril ouvindo mais um berro sofrido sair de sua boca.
— Onde ele tem casa na Espanha?
Nero começou a rir, rir. Isso me deixou puto e ele sabia que me deixaria, ele conhecia todos os meus truques e cartas na manga. Talvez eu devesse deixar meu pai fazer isso, ele iria levá-lo à exaustão em 15 minutos e tudo seria descoberto. Entretanto, a verdade era que eu estava com pena, estava magoado, traído e me sentindo um idiota por ter confiado em alguém que estava me fodendo pelas costas há sabe lá quanto tempo.
— Melhor me matar logo, , eu não vou falar nada.
Eu não queria usar isso, não queria colocar ela nessa merda toda que Nero resolveu fazer. Ele tinha sido o pior tipo de gente comigo, um traidor da Vincere, mas ela não tinha nada a ver com essa história e nem muito menos com a vida dele. Só que eu sabia que ela era o único ponto fraco dele, a mulher que ele decidiu não amar para mantê-la em segurança.
— Nem que eu mate a Ginevra?
Ele ficou louco, o barulho da corrente que o segurava no gancho foi alto, demonstrando o quanto ele tinha ficado transtornado. Ginevra era o seu amor de infância, eles namoraram por algum tempo na adolescência, mas quando Nero entrou de cabeça na parte violenta da máfia, a melhor decisão foi dar um fim e se afastar da moça. Estar nesse meio era perigoso e alguém que você ama sempre vai ser algo que pode ser usado contra você, na máfia você não pode ter um ponto fraco.
— Não ouse! — Um grito gutural saiu de sua boca.
— Então abra a porra da boca!
Um silêncio pairou o ambiente, olhei de soslaio para Filippo que sentia a mesma dor que eu, era nítido o quanto estávamos odiando aquilo tudo.
— Ele deve estar em Sevilha — disse, simples, deixando sua cabeça pender.
Larguei o martelo no chão e me aproximei dele, esperando que me olhasse antes de dizer:
— Espero que tenha valido a pena. — Olhei para o meu primo e ditei: — Descubra o resto ou eu mesmo matarei a amada dele.
Saí do porão sem esperar por Filippo, eu não estava em condições mentais de fazer nada além de cumprir uma ordem. Dei passos largos até o escritório do meu pai para informar o que descobri e que Filippo descobriria o restante. Nem mesmo esperei sua resposta, subi a escada e me tranquei em meu quarto, tirei minha roupa a caminho do banheiro e entrei embaixo do chuveiro, abri a torneira no máximo e senti os pingos grossos baterem em minha pele, então pendi a cabeça pra trás deixando a água penetrar em meus cabelos.
Aquilo doía, ser traído, perder a confiança que você construiu durante anos, uma amizade que era uma irmandade; aquilo destruiu um pedaço de mim. Gritei, gritei com tudo que podia e soquei a parede. Apoiei meu braço na parede lateral e encostei minha cabeça, respirei fundo diversas vezes e resolvi que empurraria essa dor pra algum lugar.
Eu precisava cuidar da .
[...]
Alonso Perroni
Os dias eram sempre iguais, eram raros os dias em que eu tinha vontade de descer para fazer as refeições, então Marta trazia meu café da manhã, meu almoço e meu jantar. Ao mesmo tempo que me sentia um estorvo para todo mundo, eu dava o meu máximo todos os dias, mesmo que não fosse muito. Era pedir demais que em apenas 29 dias eu conseguisse me reerguer completamente. Não ia ser tão ingrata assim, eu tinha melhorado, meus episódios de surto tinham passado, meus pesadelos tinham me deixado e eu tinha voltado a ler. A leitura me ajudava bastante, já que me dava a oportunidade de sair um pouco da realidade dolorosa.
Eu não aguentava mais tudo aquilo, queria que em um passe de mágica eu estivesse bem.
Ouvi batidas na porta e às vezes eu desconfiava se era coisa da minha cabeça ou se realmente era real. Eu me questionava sobre coisas básicas e era difícil viver sem conseguir acreditar completamente nos meus próprios sentidos.
— , posso entrar?
— Pode.
Vi surgir pela porta, ele estava com uma caixa quadrada grande e baixa em mãos e aquilo me fez franzir o cenho. Ele empurrou a porta para fechar com o pé e caminhou até a beirada da cama, fazendo com que eu me sentasse, curiosa. Esse era um sentimento que eu gostava, mas que com o TEPT tinha se tornado pura ansiedade. Contudo, quando eu estava com ele eu não me sentia ansiosa.
Não do jeito que me paralisava.
— O que é isso? — perguntei.
— Um presente pra você.
Ele colocou a caixa em cima da cama com cuidado e sorriu pequeno, olhando para mim parecendo esperar minha reação ao ver o presente, franzi o cenho achando tudo muito suspeito. De repente a caixa se mexeu, dei um sobressalto e fiquei de joelhos na cama.
— Eu juro que se for uma brincadeira…
— Abra logo. — Ele riu, divertido.
Abri a caixa devagar e quando vi aquela pequena bolinha de pelo, senti meus olhos encherem de lágrimas, puxei ele de dentro da caixa e pude ver melhor. Seu pêlo baixo, preto e marrom, os olhos castanhos e um lacinho roxo no pescoço. Abracei ele e senti as lágrimas escorrerem.
— Eu sei que o nosso pai nunca quis te dar um cachorro e também sei o quanto você sempre quis ter um.
— … — olhei pra ele e, sem saber o que dizer, me estiquei, ainda de joelhos no colchão, para abraçá-lo — obrigada.
— Não precisa agradecer. — Senti sua mão apertar a minha cintura. — Eu vou fazer tudo pra te ver bem.
Eu sabia o quanto estava tentando me ajudar, eu tinha noção que ele estava se desdobrando para me ver melhor, tinha certeza que fazia coisas que eu nem mesmo tomava conhecimento do seu esforço. Toda nossa relação mudou da água para o vinho ano passado, foi uma montanha russa de emoções e eu ainda lutava com elas. Lutava todos os dias que acordava e o via dormindo todo torto no sofá do meu quarto, ou quando ele me repreendia por querer beber, ou quando ele tentava me tirar do quarto ou só me arrancar um sorriso.
Era difícil lutar contra isso.
Fui me afastando devagar e levantei meus olhos até os dele, senti meu coração pulsar tamanha era minha vontade de beijá-lo. Entreabri meus lábios, nossos olhos se mantiveram presos um no outro, senti aquele impulso maluco depois de tanto tempo. Sua mão queimava em minha cintura, que estava aparente devido a minha posição, e então o cachorro latiu, nos tirando daquela atmosfera carregada e deliciosamente proibida.
Meu corpo desabou em meus calcanhares e curvei os lábios tentando disfarçar, tentando fugir daquele momento constrangedor, e soltei o pequeno filhote no colchão e ele latiu de novo, como se me chamasse a atenção.
pigarreou e passou a mão pelo cabelo, ele sempre fazia aquilo quando ficava nervoso, franzi o cenho ao notar sua mão enfaixada.
— O que foi isso? — Tentei pegar na mão dele, mas ele a colocou atrás do corpo.
— Nada, me machuquei interrogando um Delantera. — Por que eu sentia que tinha mais que isso? — Tem que escolher um nome pra ele. — mudou de assunto.
— É macho?
— Sim, achei que combinaria mais com você.
— Théo seria um ótimo nome pra ele, não acha?
— Não temos mais 16 anos, .
— Mas a piada tem a mesma graça. — Olhei para o cachorro e perguntei: — Você gosta de Théo? — Ele latiu e sentou, me encarando, fazendo com que eu risse. — Viu? — Voltei meu olhar para novamente e ele estava sorrindo de um jeito tão genuíno. — O que você tem?
— Nada. Só… combina com ele. — Arqueei uma sobrancelha, estranhando aquele comportamento.
— Você vai ter que comprar coisas pra ele, — falei, preocupada.
— Não se preocupe, já comprei tudo que ele precisa por enquanto e, caso queira algo, podemos sair para comprar. — Eu sabia que era ele tentando me tirar de casa, e eu sentia que eu estava cada dia mais próxima de querer tentar, mas não agora.
— Eu não… — Engoli em seco.
— Ou você pode pedir pela internet. — Ele me interrompeu antes que eu pudesse continuar.
— Essa parece ser uma boa opção. — Curvei os lábios.
— Mas você vai precisar levar ele pra passear no jardim pelo menos.
— Tudo bem, isso eu posso fazer. — Peguei o cachorro no colo novamente e beijei o focinho. — Ele é tão lindo! — Quando olhei para , ele já estava na porta.
— Falei que combina com você. — Ele piscou o olho, sorrindo antes de sair e fechar a porta.
— Idiota — falei baixo, rindo, enquanto acariciava o focinho de Theo.
[...]
Os primeiros dias de Theo comigo foram cansativos, ele chorava querendo subir na cama de madrugada. Ele mijou no meu edredom 3 vezes, derrubou a água no carpete 6 vezes, mijou no tapetinho do banheiro 7 vezes, duas delas no tapetinho certo, além de ter me mordido e arranhado diversas vezes. No entanto, eu estava sentindo uma felicidade que me faltou em tantos outros dias.
Na primeira vez que levei ele no jardim eu vi Filippo conversando de um jeito esquisito com , mas sempre existiram segredos naquela casa, então eu nem me importei. Eu finalmente estava me sentindo bem depois de um bom tempo e não ocuparia minha cabeça com as merdas da Vincere. Brinquei com o bichinho todos os dias, Theo adorava uma bolinha e morder meus cabelos, se eu deixava meu cabelo solto, Theo lutava contra meus fios ruivos puxando-os com toda a força.
Hoje, quando acordei, tomei café da manhã no jardim, fazia tanto tempo que eu não fazia as mínimas coisas que eu gostava por estar tão mal. Theo pedia atenção quase 24 horas e o jardim era o lugar favorito dele, então eu fui obrigada a passar mais tempo ali e eu nem reclamava, isso era um ponto positivo na minha recuperação. sentou à mesa, logo em minha frente e deu bom dia, fez carinho no cachorro e se serviu de café. Continuei comendo e de olho no filhote, ele aprontava quando eu o perdia de vista.
— Ele está se comportando?
— É apenas um filhote, vai aprender com o tempo a ser um bom menino. — Passei a mão em Theo, que tentava puxar a toalha da mesa. — Não é, Theo? — Ele latiu, como se confirmasse.
— Para alguns isso funciona. — bebericou o café e me olhou com um sorriso despretensioso.
— Alguns não querem ser, é diferente. — Revirei os olhos.
— Com a dona certa eles aprendem.
Soprei o ar pelo nariz e dei um gole em meu suco, chamei Theo e fui sentar na grama próxima da piscina. Eu não iria acabar com meu dia discutindo com ele, mas não entendeu que eu queria ficar longe dele e se juntou a nós. Entretanto, ficou calado, o que foi inusitado, ele brincou um pouco com o filhote, porém parecia que não estava presente, e podia ser impulsivo, mas nunca foi avoado ou desligado dessa forma.
Algo estava acontecendo.
Eu até iria perguntar, mas Marta apareceu me chamando, dizendo que eu tinha visita. Engoli em seco e minha respiração ficou descompassada, senti minha garganta fechando e meu peito doía, crise de ansiedade instantânea. Eu odiava aquilo.
— Ei. — Foquei minha vista em , que segurava meu ombro e sorria minimamente. — Está tudo bem. Quer que eu vá com você?
— Sim. — Nem mesmo pensei se era uma boa ideia, mas peguei Theo no colo e levantei. Olhei para e respirei fundo, fechei os olhos e puxei o ar devagar pelo nariz uma, duas, três vezes e soltei pela boca.
— Eu vou estar aqui. — Abri os olhos acenando com a cabeça e caminhamos para dentro de casa devagar.
— ! — Meu coração se acalmou assim que vi Giovanna, ela correu e me abraçou. — Que bom que está bem. — Ela se afastou e bufou antes de continuar: — Por que não queria me ver? Eu estava preocupada!
— Eu… eu… — Engoli em seco e olhei para em um pedido de ajuda mudo.
— E essa coisinha linda! — Gio acariciou o filhote e sorriu.
— Giovanna, tente ser menos… — repreendeu a minha melhor amiga que o olhou de cenho franzido, então ele continuou: — você.
— Como é? — Ela cruzou os braços, irritada.
foi me empurrando para subir a escada e Giovanna veio atrás, reclamando um monte, céus, desde que ela finalmente caiu na real que amava o Vince, se tornou um qualquer. Entramos em meu quarto e a loira ainda esperava uma explicação. Eu nem sabia por onde começar, eu não deveria ter protelado tanto para conversar com a minha melhor amiga. No entanto, eu não conseguia conversar com ninguém, nem mesmo minhas irmãs entendiam muito bem como eu estava.
Era complicado.
— está passando por um momento que…
— Não quero ouvir de você, . — Ela se voltou para mim e sentou ao meu lado na cama, assim que ela tentou acariciar meu ombro, eu me afastei por reflexo. — O que houve?
— Quando foi que a minha autoridade nessa máfia deixou de existir? — Ela encarou como se nada que ele dissesse pudesse frear sua língua e ele suspirou. — Se você deixar eu falar, Coppola… está me tirando do sério. — Gio respirou fundo e cruzou os braços em frente ao peito. — está em recuperação, ela precisa do tempo dela.
— Recuperação do quê? — Gi me olhou com os olhos saltados e perguntou: — Você se machucou?
— Eu machuquei alguém, Gi.
— Quer que eu saia, ? — indagou e eu balancei a cabeça em negativo. — Talvez seja bom conversar um pouco com a Giovanna…
— Não sei se… consigo.
— Consegue sim… Eu… — Ele pareceu procurar uma desculpa — vou fumar ali na varanda, estarei ali, é só me chamar… — sorriu solícito antes de nos deixar a sós.
Tomei fôlego, larguei Theo no chão e comecei desde o momento que Beatrice descobriu que Carolyn era uma infiltrada, de quando surtei com a mulher que apareceu na boate dizendo ser minha mãe, ocultei algumas informações já que eu não estava preparada para ouvir as perguntas sobre elas. No entanto, a parte em que tinha me ajudado e que seguia ao meu lado eu não podia deixar de fora. Ele tinha sido e continuava sendo uma parte importante da minha recuperação, no entanto, era só isso que eu diria sobre ele.
— Eu não sei o que dizer, .
— Não tem muito o que falar, Gi, eu estou fazendo o que posso pra ficar bem. — Acariciei minhas mãos e olhei para a porta da varanda, vendo encostado no parapeito, fumando. — Tenho tido a ajuda necessária… — Voltei a olhar para Giovanna, que mantinha um semblante de afago.
— Estou um pouco surpresa de o ser quem esteja te ajudando… — sussurrou ela.
— Eu também fiquei…
— Você sabe que pode contar comigo e com o Vince. Ele também queria ver você.
— Diga pra ele que vou ficar bem e que logo ele estará fazendo martinis pra mim.
— Falando nisso… Quando você volta?
— Não sei, Gi, não me sinto pronta pra sair de casa ainda. — Mordi o lábio, baixando os olhos e voltei a olhar pra ela tentando sorrir. — Mas me conte, como está tudo?
— Estou pra jogar tudo pra cima. Beatrice precisou voltar pro laboratório, os cozinheiros estão me enlouquecendo e fiquei uma semana com um barman a menos, Juan pediu alguns dias de folga…
— Mas ele já voltou?
— Sim, foi só uma semana, mas estou sem você, não é?
— Não sei quando volto, Gi, consegue dar conta?
— Sempre.
Sorri pensando que eu sempre teria pessoas ao meu redor que fariam tudo por mim, sou sortuda por isso.
Capítulo 23
Alonso Perroni
Eu ainda tinha uma certa dificuldade com interações sociais no geral e a única pessoa que eu conseguia conversar e me sentir minimamente confortável era , o que eu achava bem estranho, afinal, a última pessoa que eu gostaria de ver era ele, ou deveria ser, a essa altura do campeonato eu nem sabia se ainda o odiava. Contudo, eu sabia que odiava o quanto ele era insistente quando queria, já que depois de muito encher o meu saco, conseguiu me arrastar para a nossa casa de campo. Fiquei os primeiros dois dias sem sair de dentro da casa, conseguiu me tirar dela com a desculpa de que Theo precisava de ar livre. Por mais que eu soubesse que era uma desculpa, ele estava certo.
Theo se divertiu correndo atrás dos coelhos pelo caminho até a cachoeira, aquela que tinha um significado enorme para mim e lembranças infinitas das férias de verão com minhas irmãs. Era nostálgico e me fez esquecer por alguns momentos toda aquela merda. Tomamos banho na água gelada, comemos frutas da cesta que a cozinheira tinha preparado e conversamos sobre coisas irrelevantes, tinha se tornado confortável conversar com ele. Quem diria que eu estaria assim com , nem em meus piores pesadelos a gente se daria tão bem e se meu pai visse isso, era capaz de achar que era uma miragem ou alucinação.
Ele estendeu duas toalhas na grama fofa e sentou encostado na árvore, e eu me deitei na outra toalha, apoiando minha cabeça em sua coxa. Olhei para cima, admirando o topo das árvores balançando com o vento, os raios de sol que passavam entre as folhas; ouvir o barulho de água corrente era um calmante natural. Respirei fundo fechando os olhos, aproveitando aquele minuto de paz diante do caos que estava minha vida.
— Queria que as coisas se resolvessem, mas não tenho certeza se vão — disse com pesar, olhando para ele, que acendia um cigarro.
— E tá tudo bem não ter certeza, . — Fechei os olhos novamente e respirei devagar, sentindo os dedos de deslizando pelos meus fios molhados. — Um dia de cada vez.
— Odeio não ter o controle da minha vida, da minha própria mente… — Suspirei.
— Não seja tão rígida com você mesma. — Ele colocou o cigarro que fumava em meus lábios e o segurei com os dedos, abrindo os olhos, puxei a fumaça para os pulmões, sentindo a nicotina me dar uma rápida sensação de relaxamento. — Você está fazendo terapia, tá tomando os remédios, você vai ficar bem.
— Mas eu nunca vou esquecer o que eu fiz.
— Precisa ressignificar o que fez, lidar com esse sentimento de negação, está feito e não foi algo ruim. Protegeu a família.
Ri sem qualquer humor e olhei para cima, vendo o olhar soturno sobre mim, era nítido o quanto ele me queria, o quanto tínhamos nos aproximado de novo depois de tudo que aconteceu. era o único que me passava segurança naquele momento de fragilidade, ele era a pessoa com quem me sentia bem em conversar e não sabia bem o motivo, mas ele me entendia, tinha a sensação de que ele podia tirar dia após dia um pouco da dor que eu sentia.
— É tão difícil lidar. — Traguei o cigarro mais uma vez.
— Eu sei, mas você está tentando e isso é o que importa. — Sua mão seguia acariciando minha cabeça.
— Você tem me ajudado também, fazia muito tempo que não sabia o que era não ficar tensa.
— Tenho algumas ideias pra você relaxar…
Senti seus dedos descerem pelo meu pescoço, passarem pela lateral do meu seio, lento, raspando em minha pele de maneira libidinosa, fechei os olhos e puxei o ar de maneira pesada, aproveitando o toque em minhas costelas, onde ele virou a mão, tomando posse da minha barriga com sua palma. Senti o cigarro escorregar dos meus dedos caindo na terra e olhei para baixo, vendo as tatuagens, os aneis que ele sempre usava nos dedos, e senti algo que não deveria bem no meio das minhas pernas.
Segurei a mão dele.
Fechei os olhos e soltei o ar.
— Não podemos. — Levantei do colo dele e virei meu tronco para encará-lo. — Você sabe que não.
— Estamos só nós dois aqui, . — Ele olhou para os lados, mostrando todo aquele lugar. Ele se aproximou de mim, segurando a minha nuca, agarrando alguns fios de cabelo, e um arrepio percorreu minha espinha fazendo eu engolir em seco. — Vamos esquecer quem somos por um momento — sussurrou em meu ouvido.
Estávamos ali naquela cachoeira onde eu aproveitei tanto quando era criança e que agora eu e ele, estávamos ali, tomando banho e curtindo o dia a sós, algo que nunca imaginei fazer. Os quilômetros de terra que nos pertenciam não apareceria ninguém naquele momento, e olhando àqueles olhos negros eu tomei a decisão idiota de beijá-lo.
De me afundar ainda mais naquele desconhecido que a cada momento parecia tão certo.
De me arriscar na profundeza que seria aquele problema caso alguém descobrisse.
De me buscar novamente, àquela parte de mim que o apreciava de uma forma que não deveria.
— Não podemos nos entregar a isso, é perigoso, — falei com meus lábios entre os dele, de olhos fechados, sentindo aquele turbilhão de sensações que corria sem parar pelo meu corpo inteiro.
Os lábios ainda encostados, as mãos acariciando meu rosto e a respiração calma, como se eu buscasse um autocontrole que eu já tinha ignorado completamente.
— Perigoso sou eu viver sem você, cariño.
Ele me puxou pela cintura, me colocando em seu colo, fazendo com que eu sentisse sua ereção bem na minha entrada, que mesmo pelo calção dele e meu biquíni eu sentia o volume. Aquilo era errado de tantas formas, mas ao mesmo tempo meu corpo reagia aos toques dele como se fosse a coisa certa. Gemi jogando a cabeça para trás enquanto ele apertava minha bunda e lambia meu pescoço. Arranhei suas costas, em um pedido mudo para que aplacasse meu tesão, então senti o laço da parte de cima do biquíni ser desfeito e liberar meus seios, ele chupou meu mamilo direito, e sua mão apertava o esquerdo na medida certa pra me enlouquecer.
Gemi mais alto quando senti seus dentes em meu seio, ele me pegou pela cintura e me deitou na toalha como se eu não pesasse nada. Beijou meu pescoço, meu colo e desceu para minha barriga, então eu segurei ele, que me olhou confuso. voltou devagar ao meu pescoço, beijando e mordendo de uma maneira que me deixava inebriada. A minha respiração era cada vez mais rápida, minha boca entreabriu, eu gemia sem controle algum, mas então eu abri os olhos de repente e minha razão me atingiu. Espalmei minha mão em seu peito, minha respiração descompassada e sentindo minha língua inquieta, querendo tanto continuar a beijá-lo. Então ele olhou nos meus olhos, engoli em seco tendo as íris escuras lendo a minha alma através das minhas íris e virei minha cabeça, mordendo o lábio, sentindo que eu estava completamente entregue a ele ao mesmo tempo que a sobriedade tinha retornado e colocado juízo em mim antes que fosse tarde.
Acreditava que ele tinha entendido, pois ele apoiou a testa em meu peito, respirou algumas vezes, como se estivesse tentando se acalmar. Mordi meu lábio com ainda mais força e meu coração estava aos poucos desacelerando. soltou o ar com força e saiu de cima de mim, levantando, deu alguns passos e mergulhou na água gelada. Coloquei o braço sobre meus olhos e fiquei ali deitada, tentando absorver o que quase fizemos. Senti vontade de chorar, senti até uma lágrima deixando meu olho, mas eu não queria tentar entender o porquê, pelo menos não ali, não naquele momento.
[...]
5 meses depois
Eu estava sentada na cama de Beatrice, tentando ouvir o que ela falava, mas era difícil me concentrar com aquela merda daquela cena voltando à minha mente diante do lugar em que ela aconteceu. Depois de tanto tempo sem um gatilho, aquilo foi o suficiente para me desestabilizar momentaneamente.
— Fecha a porta, por favor. — Virei o rosto para a varanda.
— O quê?
— A porta do closet, Beatrice!
Ela levantou e fechou as portas duplas, virou para mim e suspirou antes de falar:
— Desculpe, eu deveria ter ido até o seu quarto. Quer ir pra lá?
— Não, tudo bem, preciso superar isso, já fazem quase 6 meses. — Ela sentou ao meu lado e segurou minha mão.
— Não se force a superar algo no tempo dos outros, , vá no seu. — O olhar carinhoso da minha irmã me deixava menos nervosa e eu agradecia pelo cuidado que todas elas tinham comigo.
— Apesar de estar me sentindo melhor, Bea, isso ainda me atormenta em alguns momentos… — Respirei fundo.
— E tá tudo bem, não se cobre tanto — minha irmã acariciou meu braço —, a terapia tem te ajudado a passar por tudo isso. — Ela soltou o ar e sua voz se tornou um pouco mais incisiva. — Você tem que colocar na sua cabeça que você nos protegeu. Ela poderia ter matado uma de nós!
— Eu sei, agora eu sei. — Soltei meu corpo na cama e encarei o teto, Beatrice fez o mesmo e entrelaçou seus dedos nos meus.
Ficamos em um silêncio confortável, todo o trauma tinha sido um baque para mim, me ajudou muito, ele me passava segurança e fazia com que eu me sentisse compreendida. Eu não sabia exatamente o porquê, mas deveria ser pelo fato de ele ter me salvado quando fui atacada por aqueles homens e também tinha sido ele a me encontrar no pior momento da minha vida, naquele mesmo quarto, ele me protegeu e foi o meu alicerce nos meus momentos de fragilidade.
Acho que ele se tornou meu amparo, mesmo que eu odiasse admitir isso.
A verdade era que durante o início, que foi o momento mais crítico, o único que conseguia interagir comigo era o , as minhas irmãs não souberam muito como lidar comigo, apesar de elas tentarem, foi muito sofrimento para todas nós. Eu estava assustada, tendo ataques de pânico, surtos psicóticos e alucinações. Com o tempo eu fui melhorando, meu psicólogo disse que eu estava progredindo rápido, talvez seja porque estou acostumada com a morte, afinal, eu era da máfia. Então por mais que isso tudo tenha me gerado um trauma por causa de como eu penso, a afinidade com a violência me fez superar mais rápido de alguma forma.
Theo também teve um papel imenso nos últimos tempos, ele cresceu tão rápido, segue sendo um filhote levado de 4 meses, mas ele está enorme. pediu para um adestrador treinar ele, tanto para ser obediente quanto para me proteger também. Isso tem feito eu me sentir mais segura para sair de casa.
— Então, você aceita? — Olhei para o lado e vi minha irmã com a expressão mais meiga que ela conseguia exibir.
Beatrice tinha aquele jeito durão, a mania de ocultar algumas coisas, a forma de olhar irritada e ser o suficiente para entendermos que ela não está pra conversa. Contudo, ela seguia tendo um coração enorme e continuava sendo a irmã mais protetora de nós. Tão parecida comigo e ao mesmo tempo tão diferente, se não fôssemos irmãs eu ficaria tão abalada.
— Claro que eu aceito ser sua madrinha de casamento, Beatrice. — Ela me abraçou forte e eu me senti tão… em casa.
[...]
Era difícil voltar para a rotina, meu psicólogo tinha me aconselhado a voltar para o trabalho aos poucos, então eu estava indo para a Fascino no máximo duas vezes na semana e mesmo assim, só ia nos dias de pouco movimento e quando me sentia bem e segura para sair de casa, e claro, com Théo ao meu lado.
Ainda não tinha voltado a dirigir, eu estava indo com Beatrice, que insistiu para voltar à Fascino para cuidar de mim, ou, quando ela precisava ir para o laboratório, Ettore e Austin me levavam. Era estranho, mas ao mesmo tempo isso me deixava mais confiante para sair novamente e encarar tudo que poderia servir de gatilho. Ainda não estava 100%, mas estava me dedicando para ficar e, claro, a terapia me ajudava.
— Chefe. — Olhei e vi Cristian fazendo continência para mim.
— Pode parar, Cris… Em breve seremos família. — Fiz o movimento com o indicador e Theo sentou ao meu lado.
— Isso me dá direitos, é? — Ele debruçou no balcão e colocou meu martini de costume em sua frente. Sorri revirando os olhos e sentei na banqueta. — De quais direitos estamos falando? — Ele me olhou de cima a baixo com um sorrisinho safado no rosto.
— Não abusa, Cristian — repreendi ele com o olhar, pegando minha taça.
Cris olhou para o cachorro e se esticou para passar a mão nele, perguntando:
— Como tá, garotão?
— Impressionante como ele adora você.
— Ele sabe que eu já sou da família. — Cristian sorriu com falsa arrogância.
Dei um gole em minha bebida e fechei os olhos saboreando o líquido em minha língua e senti ele descendo pela minha garganta. Eu não podia estar bebendo, aquilo me daria um mal estar ou faria eu ficar extremamente dopada, mas enfrentaria qualquer coisa com o maior prazer, pelo simples motivo que eu não bebia nada alcoólico há quase seis meses.
— Fazia tempo que não te via fazendo isso…
— Isso o quê? — Franzi o cenho para o ruivo.
— Sua forma de degustar a bebida, . — Ele sorriu e se endireitou.
— Tempo demais sem meu martini.
— Aproveite. — Ele piscou e virou as costas indo até o fundo do bar.
Cristian tinha essa característica afetuosa, ele sempre me fazia sentir como uma pessoa especial, acho que ele acabou ficando com essa característica no seu comportamento para sua irmã se sentir melhor, já que ele era a única família que ela tinha. Os Garcia, pais de Anita e Cristian, eram nossa fonte de informações na Espanha, eles ajudaram a trazer a Vincere pro país, meu pai sabia o quanto devia a eles por tudo que fizeram e morreram fazendo.
Cristian e Anita eram muito jovens quando ficaram órfãos, outro problema de ser da máfia, e ele cuidou da irmã como ninguém. Otelo os abraçou na famiglia após seus pais morrerem em confronto com os Delantera, o que os ajudou a ter alguém os amparando, mas claro que não era o mesmo que ter o irmão ao seu lado e esse conforto que um deu ao outro os fez construir uma relação linda; eu os admirava. Era bonito ver a relação dos dois e eu estava feliz que iríamos ser oficialmente família.
Girei na banqueta e vi Anita sentada no palco e Beatrice em pé entre suas pernas, as duas conversavam, riam e se beijavam. Era tão bom ver minha irmã feliz.
— Boa noite, chefe. — Olhei para frente e vi Juan, sorri pra ele, cumprimentando-o.
— Vamos ao trabalho, sorella?
— Sim! — Ela se afastou de Anita e pareceu meio perdida, parecia uma criança que foi pega fazendo algo errado. Ela pegou a bolsa e veio caminhando em minha direção. — Vamos! — Eu ri com o susto de Bea e apenas segui caminho, chamando Theo para andar ao meu lado.
— Precisamos finalizar o novo cardápio, Cristian está louco para saber se os drinks que ele sugeriu vão ser bem recebidos pelo público.
— Meu cunhado é um fofo, não é?
Subimos para o escritório e começamos a fazer a parte administrativa da boate e essa parte da reorganização estética, de vez em quando eu olhava para Beatrice, que mantinha um sorriso no rosto. Eu sorri, achando graça da felicidade genuína que ela estava transparecendo sem nem mesmo se importar. Faltavam poucos dias até o casamento, então eu achava que ela deveria estar mais preocupada, mas não, ela só estava feliz.
Meu celular despertou e meu filhote me olhou em alerta, balancei a mão dizendo para ele deitar novamente. Desliguei o alarme e então abri a gaveta para pegar um dos remédios que eu estava tomando para ansiedade, engoli e respirei fundo. Nunca imaginei que eu estaria naquela situação, era difícil me ver tão fragilizada, logo eu que gostava de não precisar de ninguém para me defender ou lutar as minhas batalhas.
Era frustrante.
— Ei… — Olhei para minha irmã que sorria de maneira gentil. — Isso vai passar.
Meus lábios se curvaram, Bea me conhecia bem demais para não notar o quanto eu estava odiando aquele momento da minha vida, no entanto, isso não queria dizer que eu iria desistir ou parar o tratamento.
— Eu sei. Obrigada por estar ao meu lado. — Ela acariciou minha mão que estava apoiada na mesa.
— Lembra quando a gente caiu do gira-gira na quinta série?
— E você ralou os joelhos? — Ela assentiu. — Acho que foi a primeira vez que vi você chorar.
— Você também se machucou feio, bateu a testa no ferro do balanço.
— Nossa, fiquei com aquele galo por dias… — Comecei a rir.
— E mesmo assim você continuou com a mesma postura e ainda cuidou de mim. — Olhei para ela tentando entender onde ela queria chegar. — Foi ali que comecei a me espelhar em você.
— Bea… — Senti um amor imenso me tomar e uma lágrima teimosa deixou meu olho, fazendo com que eu limpasse rapidamente.
— Não importa o que aconteça, , você sempre dá conta. — Ela sorriu e eu agradeci imensamente por aquele gesto. Eu estava frágil, mas isso não queria dizer que eu deixei de ser forte. Aquilo tudo iria passar e eu ficaria bem.
Com ou sem remédios.
[...]
Eu voltei a treinar, agora sozinha, e de manhã cedo eu tentava meditar no jardim, no começo Theo não deixava, puxava meu rabo de cavalo, latia para eu jogar a bolinha para ele, mas agora ele entendia que era um momento de relaxamento e deitava com a cabeça na minha coxa para esperar eu terminar. Era fofo. Ele virou meu companheiro para todos os momentos, me protegia de tudo e de todos, mesmo que ainda fosse tão jovem. O treinamento dele era rígido, mas era necessário, eu entendia que pegou um doberman justamente para que também fosse meu segurança.
De novo ele querendo me proteger a todo custo.
Levantei e entrei na academia, coloquei as luvas e comecei a acertar o saco de areia, naquele dia eu acordei animada, o que já era um marco naquele ponto da minha vida. Nos últimos dias eu sentia que eu estava mais próxima de ser eu mesma novamente e aquela sensação era tão boa. Olhei para fora da academia, vendo a piscina que ficava na parte de trás da casa e sorri. Encarei o Theo e ele deu um rosnadinho como se soubesse o que eu estava aprontando em minha cabeça.
— O que você acha… — comecei a tirar as luvas — de pular naquela piscina? — Tirei os tênis e as meias com pressa, e meu cachorro, esperto do jeito que era, já levantou e ficou a postos para meu próximo passo. — Vamos, Theo!
Saí correndo em direção à piscina e pulei, meu filhote veio pra cima de mim e eu segurei ele em meu colo.
— Eu não queria me molhar… — Olhei para a beirada da piscina e vi de braços abertos. Ele estava apenas de short e óculos escuros, deitado em uma das espreguiçadeiras, eu nem mesmo vi que ele estava ali.
— Desculpe…
Théo latiu duas vezes e foi para a parte que cobria apenas até a metade de suas patinhas, onde estava, e ele começou a se sacudir. Eu comecei a gargalhar quando vi meu cachorro molhar ele ainda mais e quando menos esperei ouvi o barulho de água. Olhei para os lados e de repente senti ser erguida da água.
— Ah! — gritei com o susto. — Me solta, ! — Eu continuava rindo e batia no ombro dele.
— Não estava achando graça?
— Não fiz de propósito… — Fiz bico enquanto me equilibrava em seus ombros.
— Mas o seu sarnento fez, com quem será que ele aprendeu a ser tão… — ele pareceu ponderar e eu espremi meus olhos, esperando o xingamento — cheio de personalidade.
— Esperava mais da sua criatividade — falei com falsa arrogância.
— Não me provoque, cariño.
Ele mantinha os braços em volta das minhas pernas e foi me descendo pra água novamente, eu ia escorregando rente ao seu corpo bem devagar, ele olhava fundo dentro dos meus olhos e sua boca ficava cada vez mais próxima da minha. Lembrei da cachoeira, dos toques, do beijo e senti meu corpo esmaecer.
Aquilo era uma tortura.
Assim que nossos olhos ficaram na mesma altura, senti minha respiração falhar e minha mão apertou seu ombro involuntariamente, como se eu tentasse lutar ao máximo pra não findar aquela distância infeliz de nossas bocas. Senti como se meu corpo se movesse sozinho em direção ao dele, quase que como dois imãs prestes a se chocar, e talvez nós fôssemos mesmo, parecia inevitável lutar contra a força magnética que nos puxava um para o outro. Entretanto, precisávamos ter o controle dos nossos próprios corpos, eu sabia que não podíamos, mas antes que eu fizesse qualquer coisa ouvimos o grito.
— !
Olhamos ao mesmo tempo para o lado, vendo nosso primo Filippo parado, olhando a gente com tamanho julgamento estampado em sua cara. me soltou no mesmo momento e foi até a borda para sair da piscina, enquanto eu nadei até onde Théo estava e fiquei ali sentada com os joelhos dobrados, acariciando meu cachorro e vendo os dois se distanciando até entrar na mansão.
Aquilo tudo era uma merda, essa atração que eu tinha por , que claramente não era só da minha parte, não dava para ser explicada, e sim sentida. Todos esses meses conversamos sobre outras coisas com o elefante no meio da sala. Eu sentia que era algo maior que nós dois, uma coisa sem explicação, não podia ser só atração, mas era nisso que eu tinha escolhido acreditar.
Perroni
— Você perdeu o juízo?!
Entrei em meu quarto pingando água da piscina e meu primo gritando em meu ouvido, eu sabia, tinha sido displicente pra caralho, mas porra, estava me levando à loucura com aqueles olhos me dizendo mais do que sua boca poderia dizer.
Ela ia me beijar!
Por mais que depois do que aconteceu na casa de campo nós simplesmente seguimos como se nada tivesse acontecido, o que sentíamos ainda estava ali, nos rondando, como se fosse uma raposa prestes a atacar sua presa.
— Não sei do que está falando. — Entrei embaixo do chuveiro e Filippo me seguiu.
— Vocês estavam quase se beijando, , e se fosse Otelo a aparecer?!
— Nada aconteceu.
— Por que eu cheguei! — berrou o óbvio, ele estava certo, mais dois segundos eu tinha beijado ela, nem sei há quanto tempo eu queria beijá-la de novo. Nem sei como estava tendo tanto autocontrole. — Está tentando perder a cabeça?
— Talvez fosse melhor.
— Não fale bobagens, distancie-se dela, ela está bem agora. — Continuei lavando meu cabelo de olhos fechados até que ouvi a batida no box, fazendo eu arregalar os olhos. — Olhe pra mim! — Meu primo estava puto de verdade, eu nunca vi ele daquela maneira e tinha um motivo, eu sabia que ele estava certo, mas meu corpo não queria ser racional. — Enterre esse sentimento dentro de você como fez na adolescência, é o melhor pra vocês dois.
Engoli em seco e o vi saindo do banheiro, respirei fundo e apoiei minha mão na parede tentando controlar toda aquela energia elétrica que parecia correr pelas minhas veias. Era assim que me deixava, completamente alucinado por ela. Contudo, ia tentar fazer o que era certo, precisava proteger não só ela, mas a mim também.
Desci a escada após me vestir apropriadamente e encontrei todos já sentados à mesa, o almoço estava sendo esquisito, meu pai olhava pra mim como se soubesse de algo e aquilo alarmou todos os meus sentidos. Olhei para , que mantinha seus olhos no filhote deitado ao seu lado. Os cabelos molhados escondiam seu rosto levemente queimado do sol, as sardas mais evidentes ficavam lindas contrastando com os olhos verdes. Fechei os olhos me repreendendo por estar admirando ela em plena mesa de almoço e continuei comendo, ela ia acabar com minha sanidade, eu precisava parar de olhá-la dessa forma.
Virei para o lado e vi que Otelo mal olhava para , eu não entendia o porquê de ele não dar o apoio que ela precisava, ele sempre foi distante, mas nunca deixou de ser carinhoso com as filhas. Fazia quase 6 meses que ele não saía da Espanha, estava sempre por perto, isso era um recorde pessoal, mas ao mesmo tempo parecia que nem estava ali. Tudo que me vinha na cabeça era que ele queria ficar perto de , mas não se atrevia ou não sabia como conversar com ela sobre o ocorrido.
[...]
Eu estava sentado naquela mesa do Monteros bebendo whisky por tempo demais. Os soldados jogavam qualquer jogo de baralho na mesa ao lado e eu analisava cada um deles, qualquer um poderia ser suspeito, e meu primo mexia no notebook em frente a mim. Eu não tinha mais paciência pra caçar um filho da puta traíra dentro da minha própria casa. Eu queria achá-lo e acabar com a raça dele da forma mais devagar possível, ninguém entra na minha famiglia dessa forma e sai impune.
— Giu me enviou algumas imagens, mas não vi nada de estranho.
— Estou cansado, Filippo. Cansado de procurar agulha em um palheiro. — Bebi o último gole do meu copo e levantei, recebendo olhares atentos dos outros. — Podem descansar, eu vou pra casa.
Estávamos no subsolo do nosso restaurante há longas horas, eu queria aproveitar o sol lá fora e ter um pouco de paz, coisa que ultimamente não fazia parte da minha rotina. Subi a escada com meu primo em meu encalço e passei pelo restaurante, acenei para os funcionários e saí pela porta da frente sentindo o sol em meu rosto.
— Primo, deveríamos tentar olhar os mais antigos também. — Filippo abriu a porta do carro e eu parei para olhar para ele.
— Você desconfia de alguém?
— Não, mas… nunca se sabe, todo mundo tem um preço. — Suspirei e vi ele dando a volta no carro para entrar pela outra porta.
— Não quero pensar nisso agora, vamos pra casa, Túlio — falei para o novo motorista, assim que meu primo entrou, e o soldado deu partida no carro.
Entrei em casa pela porta principal e vi através das portas de vidro do fundo o cabelo vermelho reluzente. A Beatrice também tinha o cabelo vermelho, mas sempre estava preso, além de ela ter compulsão por deixá-lo liso e o de , bom, quase sempre solto e com algumas ondas nos fios, quase sempre ela usava ele natural. Além de que, aquelas tatuagens eu reconheceria a quilômetros. Caminhei mais um pouco pelo salão principal, até chegar à varanda, vi ela deitada na espreguiçadeira e Théo deitado ao lado dela. Sorri, feliz por ela estar ali, vivendo e fazendo coisas que ela gostava, vi a mão dela afagar os pêlos marrons do cachorro e ele sacudir o rabinho, mesmo sem sair de sua posição.
Corri os olhos pelo jardim e vi Carlo e Angelo, soldados nossos que faziam a segurança da casa, conversando, franzi o cenho e vi eles olharem diretamente para ela com aquele olhar que qualquer homem saberia interpretar. Automaticamente meu sangue ferveu dentro das minhas veias, mantive minhas mãos dentro dos bolsos da calça e caminhei lentamente até o outro lado do jardim, perto da entrada pra cozinha e assim que eles me viram, ficaram sérios e se endireitaram.
— Não querem me contar sobre o que estavam conversando? — Sentia minha raiva bombear muito sangue e meu corpo pegar fogo.
— Não era nada importante, chefe. — Os dois olharam para o chão.
— Sei bem o que vi… Vocês têm sorte que não estou podendo matar homens de confiança no momento — dei dois passos, aproximando-me dos dois e falei baixo entredentes: —, mas caso façam o que estavam fazendo de novo, será um prazer arrancar os olhos e a língua dos dois.
— Sim, senhor — responderam em uníssono.
Olhei para trás e vi que estava alheia ao que estava acontecendo e que se mantivesse assim, afinal, ela não gostava quando eu era impulsivo.
Capítulo 24
Perroni
Eu só queria um vestido florido pra combinar com o calor que estava fazendo lá fora, mas claro, eu não tinha nenhum, todos os verões era a mesma coisa: eu roubava do closet de uma das minhas irmãs. Normalmente era o de Beatrice, ela tinha um coração duro, mas sempre gostou de roupas estampadas, por mais que eu achasse que não combinava muito comigo por causa do cabelo vermelho, ela dizia que era por isso mesmo que ela gostava. Passei vários cabides de forma rápida, queria sair logo dali, achei um preto com umas flores azuis esverdeadas. Puxei de dentro do armário e coloquei em frente ao corpo olhando meu reflexo no espelho, virei a cabeça de lado pensando se combinava.
— Talvez se eu prender o cabelo… — pensei em voz alta.
Ouvi um barulho de celular vibrando e olhei para o meu em cima do gaveteiro de joias e ele estava com a tela apagada. Dei alguns passos e destravei a tela, nada. Segui o som e abri uma gaveta vendo um celular tocando com um número desconhecido, franzi o cenho e o peguei, atendendo.
— Carol, ¿dónde estás? He estado buscándote durante semanas! (Carol, onde está? Estou te procurando há semanas!).
— O que… — ouvi a voz de Beatrice e desliguei a chamada — está fazendo no meu closet?
— Beatrice… — Olhei pra ela com os olhos arregalados e ela estranhou.
— O que houve? — perguntou com rugas na testa.
— Eu atendi… — mostrei o aparelho pra ela — eu reconheci a voz, sorella.
— Não me diga que…
— Como fui burra, Beatrice!
— Ei! Não faça isso
— Não faça o quê? — Andei até o quarto, quase relinchando, parecia uma égua selvagem de tanta raiva que estava. — tinha razão e eu fui uma idiota!
— Bom ouvir que eu tenho razão… Principalmente vindo da sua boca. — Olhei pra porta do quarto aberta e estava no corredor e deu alguns passos para dentro do quarto. — Pode me falar em que eu tinha razão?
— Eu… — Fiquei sem reação, eu não esperava ele ali naquele momento, porra.
— , só fale, foi por omitir de que deu essa merda do caralho. — Beatrice suspirou jogando as mãos pra cima.
— Eu reconheci a voz. — Levantei o celular e ele viu a foto da megera.
Ele arregalou os olhos e deu mais alguns passos até mim antes de falar:
— Quem? Quem, !?
— Tô preocupada de estar errada, será que eu não posso ter confundido?
— Duvido muito… — comentou Beatrice sentando na cama. — Você é boa nisso, daquela vez reconheceu a voz de um soldado na gravação que você tinha visto três vezes na vida.
— Foi pura sorte.
— Ah, por favor, , nós não contamos com a sorte por aqui.
— Podemos fazer uma armadilha para confirmar? — perguntei, receosa.
— Armadilha pra quem? — Giulia entrou no quarto sorrindo enquanto bebia água de uma garrafa. — Adoro criar armadilhas.
— Pronto, virou reunião no meu quarto. — Bea cruzou os braços e revirou os olhos.
— Juan Alvarez.
Os três arregalaram os olhos sem acreditar, principalmente Giulia, ela deveria estar se sentindo ultrajada, como ele tinha passado pelo pente fino dela? Engoli em seco e olhei para , que parecia querer explodir de raiva devido a veia pulsante em sua têmpora, mas estava se controlando e dava pra perceber que a qualquer momento ele podia berrar comigo, dizendo o quanto eu fui displicente e o pior de tudo, ele tinha todo o direito.
— Eu sei, ok? — falei baixo, olhando pra ele antes de abaixar o olhar.
— Ótimo — disse sério me encarando e voltou seus olhos para Giulia. — Vamos estudar como faremos isso…
Giulia e saíram do quarto conversando e eu sentei na cama desanimada, Beatrice sentou ao meu lado e colocou o braço no meu ombro. Eu estava me sentindo uma idiota, só queria ser boa com alguém e consegui isso: uma bela facada nas costas. Suspirei, cansada de tudo sempre dar errado, eu odiava ser traída e nesse caso quem me traiu fui eu mesma.
— Eu transei com ele, Beatrice.
— Santa merda! Tinha esquecido disso!
Soltei o ar com força e fiquei ali, encarando o chão, com a minha irmã me amparando também em silêncio. Longos minutos para me fazer perceber que eu precisava parar de me vitimizar e tomar uma atitude. Eu era a porra de uma Perroni, já estava na hora de agir como tal. Quando me dei conta, com tantos pensamentos e lembranças rodando em minha mente, a raiva já tinha tomado meu corpo e então levantei da cama olhando pra minha irmã.
— Eu coloquei todos nós em risco, Beatrice, coloquei você em risco, coloquei a mim mesma em risco… — falava gesticulando, irritada com tudo aquilo, andava de um lado para o outro tentando me acalmar. — Un figlio di puttana sotto il mio naso. Fanculo! Come ho potuto essere così stupido? (Um filho da puta bem debaixo do meu nariz. Foda-se! Como pude ser tão estúpida?)
— Calmati, …
— Como? — Parei para encarar Bea e respirei fundo. — tinha razão, fui ingênua e coloquei um Delantera dentro da porra da minha boate, Beatrice!
— Nós vamos conseguir pegá-lo, é isso que importa… — Ela segurou meus ombros e olhou nos meus olhos, ela tinha aquele olhar empático. Ela estava tentando fazer com que eu me sentisse melhor, eu conhecia a minha irmã, mas naquele momento eu precisava ficar sozinha.
— Eu preciso de um tempo… — Sacudi a cabeça em negativo me afastando dela e saí dali a passos largos pelo corredor, entrei em meu quarto e bati a porta. — Merda! Merda! — Peguei a primeira coisa que vi em minha frente e me virei jogando na parede, fazendo o vaso quebrar em pedaços. Fechei os olhos e passei as mãos pelo meu rosto.
— Entendo que esteja com raiva, mas não precisa me matar no processo. — Abri os olhos de supetão e vi encostado na porta da varanda me encarando, bem próximo de onde joguei o objeto.
— Veio gritar comigo? Ótimo, tudo que eu precisava… — Caminhei até minha mesa de cabeceira, abri a gaveta e peguei uma carteira de cigarro pegando e acendendo um deles a caminho da varanda.
— Não vim gritar com você, vim ver como está…
— Me sinto uma imbecil, se você quer saber… — Ri sem humor e virei me encostando no parapeito para olhá-lo. — Veio se vangloriar e me mostrar o quanto você estava certo? — Revirei os olhos.
— Aí é que se engana, …
Ele se aproximou devagar, sem deixar de ter contato visual comigo, cada passo que ele dava eu me remexia. Engoli em seco e a boca dele veio diretamente em meus dedos que seguravam o cigarro. Ele o pegou com os lábios, puxou a fumaça pelo canto da boca, soprou para o lado assim que segurou o cilindro branco em seus dedos e sua outra mão se apoiou no parapeito atrás de mim. Seu rosto cada vez mais próximo do meu. Senti o ar pesar e seus olhos vidrados nos meus me deixavam eufórica de uma forma silenciosa.
Aquilo era perigoso.
— Nunca quis tanto estar errado. — Mordi o lábio tentando afastar os pensamentos e vontades que me acometiam com tanta força com tão próximo a mim. — O problema não é você… — Ele levantou a outra mão devagar, e, como se lesse meus pensamentos, querendo me deixar ainda mais nervosa, colocou uma mecha de cabelo atrás da minha orelha. — São as pessoas que se aproveitam do seu bom coração.
— Você me vê de uma forma muito bonita, , eu não sou essa imagem que você criou. — Olhei bem em seus olhos e senti um arrepio cruzar pela minha coluna pela forma que suas íris me encaravam.
— Eu vejo o que você é, , mas ao contrário de você, eu não vejo só os defeitos. — Engoli em seco quando achei que estávamos tempo demais com o olhar preso um no outro.
— O que faremos agora? — Mudei de assunto, desviando o olhar.
— Vamos pegá-lo…
— Não quero participar disso… — Fechei os olhos apertando-os e abaixei a cabeça me sentindo uma idiota.
Seu indicador e polegar pousaram em meu queixo, levantando minha cabeça para encará-lo antes dele falar:
— Você não precisa, não pediria que fizesse isso… — Ele deu mais um trago em meu cigarro e o depositou em meus lábios. — Quando voltar para a boate ele não estará mais lá, eu prometo.
se afastou com aquele sorrisinho sorrateiro dançando em seus lábios e virou de costas, dei um trago e peguei o cigarro entre os dedos, soprando a fumaça.
— O que fará com ele? — perguntei incerta.
— É melhor você não saber… — Ouvi sua voz mais grossa que o normal e ao olhar para baixo, vi suas mãos se fecharem em punho.
Senti um arrepio esquisito cruzar meu corpo enquanto ele seguiu andando até deixar meu quarto, respirei fundo e tentei não pensar no que ele faria com o homem que confiei e acreditei ser mais um dos meus. Era difícil lidar com aquilo, mas se ele era o infiltrado, teria que pagar e eu não queria estar presente pra ver quando o pegasse.
[...]
Bati na porta e escutei Giulia dizer que eu podia entrar, então entrei na sala de vigilância e fechei a porta atrás de mim. Caminhei a passos lentos e vi a imagem do meu escritório na Fascino, sabia que aquilo era novidade pois não tinha câmera lá, senão minhas irmãs teriam visto muito mais que apenas um beijo entre mim e . Olhei para Giulia que sorriu pequeno pra mim e eu apenas respirei fundo, vi pela televisão Beatrice entrar pela porta e sentar-se na minha mesa.
— Qual foi a armadilha que vocês prepararam? — perguntei.
— Bea vai pedir para o Juan imprimir os novos cardápios dos drinks enquanto ela vai até o laboratório.
— Entendi…
— Ela vai deixar planilhas da contabilidade abertas, e Filippo estão do lado de fora esperando o meu sinal… — Abaixei a cabeça e voltei a olhar para ela que viu que eu não estava bem, era nítido diante daquela merda toda. — Sinto muito, .
— Eu também, sorellina… Eu também.
Parecia fácil demais, tudo tinha acontecido como previsto, Juan copiou todos os arquivos do computador e não só as planilhas, mas claro, Giulia disse que era tudo falso, não eram as planilhas ou documentos originais. Quando minha irmã avisou , ouvi ele pelo viva voz dizendo que Filippo iria esperar ele sair da boate após o expediente e iria o seguir. Precisávamos saber com quem estávamos lidando, agora que já sabíamos quem era o infiltrado, ficaria mais fácil de achar o resto dos Delanteras.
Por mais que não gostasse de ficar ali naquela sala fria cheia de computadores, eu queria saber o que estava acontecendo, então sentei na poltrona com meu livro e fiquei lendo enquanto as horas passavam. Giulia de vez em quando me atualizava do que estava acontecendo e eu apenas balançava a cabeça.
[...]
— Não quero saber, siga ele até o fim… Não confio em mais ninguém pra isso, Filippo. — A raiva era nítida na voz dele.
Acordei desorientada, ouvindo a voz de , quando ele tinha chegado? E o mais importante, quando eu tinha dormido? Segurei o livro que estava em minha barriga e me ajeitei na poltrona, respirei fundo tentando voltar a mim. Olhei para Giulia e ela estava concentrada nas câmeras da Fascino, algo tinha saído errado? Levantei devagar e me aproximei dos dois.
— O que houve?
— Juan entregou o pendrive para um homem e Filippo está seguindo ele — Giu me respondeu sem tirar os olhos das TVs.
— Estamos cuidando de tudo, não se preocupe. — se voltou para mim e colocou a mão no meu ombro, acariciando-o. — Nem era para você estar aqui…
— A culpa foi minha, coloquei o infiltrado dentro da Vincere, tenho que pelo menos estar presente. — Exalei o ar em frustração.
— Não tinha como você saber… — Ele me olhou com compreensão.
— Está me eximindo da culpa muito facilmente, esperava que brigasse comigo… — Acabei rindo com essa nova versão de sendo tão cuidadoso com as palavras.
— Acho que já passamos dessa fase.
Meus olhos não conseguiam desgrudar dos dele, meus dedos pinicavam querendo tocar o rosto bonito, sentir aquela barba por fazer raspar em meus dedos e a medida que a vontade se intensificava, meu coração batia ainda mais forte. Molhei os lábios, pois minha boca estava secando com tamanho nervosismo e pelo seu rosto, eu sabia que ele não estava assim tão diferente, mas Giulia estava ali, presente, não podíamos sequer demonstrar qualquer rastro de desejo.
No entanto, minha irmã pigarreou, então fechei os olhos me amaldiçoando por ter sido tão descuidada, ela tinha percebido, claro. Minha irmã não era burra, muito pelo contrário, foi ela que descobriu que algo estava acontecendo, ela era observadora demais pra não notar. Virei as costas e fui saindo da sala de segurança.
— Vou dar um tempo disso aqui… — Comecei a caminhar em direção à porta.
— Filippo chegou no galpão, — alertou Giulia.
— Diga para ele chamar 20 soldados para vigiar o lugar, assim que acharmos uma brecha, invadimos. — Ouvi enquanto ainda fechava a porta atrás de mim: — , espere!
Freei meus pés ainda no corredor e respirei fundo antes de virar e ver seus olhos negros me encarando gentilmente.
— Parece que não podemos ficar no mesmo lugar por muito tempo.
— É uma merda se você quer saber. — Ele riu, sem humor. — Antes era pelo ódio e agora é…
— Não quero falar sobre isso… — interrompi sua fala abraçando o livro em meus braços e desviei os olhos dos dele. — Precisa de mim pra algo?
— Juan alguma vez mencionou a família?
— Não… — falei diretamente, mas então um lampejo de memória passou pela minha mente — quer dizer, quando ele pediu alguns dias de folga disse que sua avó estava mal no hospital.
— Ele pode ter mentido.
— O que é bem provável, já que mentiu esse tempo todo… — Tensionei o maxilar enquanto apertava o livro em minhas mãos e ele tinha sentido a tensão que eu exalava.
Eu estava com raiva.
— Vá descansar, está tarde.
Virei as costas e saí andando, mas sentia que seus olhos queimavam em minhas costas, controlei a minha vontade de olhar para trás e fui direto para o meu quarto. Théo estava em sua caminha e então eu sorri, deitei na cama e dei batidinhas no colchão, chamando para ele deitar. Assim que ele subiu, eu o abracei e me permiti descansar.
[...]
Acordei no outro dia ainda cansada, parecia que não tinha dormido nada, desci até a cozinha, tomei café da manhã e resolvi que tomaria um banho gelado pra acordar e ver se resolvia o cansaço. Caminhei a passos lentos até a escada e comecei a subir para o meu quarto, senti uma tontura e meu corpo ficando sem forças, mas senti alguém me segurar, olhei para o lado e vi me encarando sério, como se estivesse bravo. Ele me pegou no colo, fazendo com que eu me assustasse e me agarrasse em seu pescoço. Ele caminhou até meu quarto e me colocou sentada na minha cama.
— Está tentando se matar?
— Só senti uma tontura estranha… Acho que são os remédios — menti, acariciando as mãos.
— Vou falar com o doutor pra saber se já pode parar com eles.
— Na verdade eu… — Não sabia exatamente como dizer aquilo, mas vi os olhos negros profundos me olhando, esperando por uma explicação, porém, ela não existia, então me restava dizer a verdade. — Eu parei de tomar.
— Como? — Ele franziu o cenho. — Sem falar com o médico, ?
— Estou cansada, não posso beber tomando os malditos remédios!
— ! — ele me censurou. — Quanta irresponsabilidade, você não pode parar com remédios controlados sem… — Ouvi ele parar sua fala quando me viu abaixar a cabeça, bufou e apertou a ponte do nariz. Ele me olhou novamente, dessa vez com um olhar compreensivo. — Desculpe, deve estar sendo horrível pra você.
— Entediante… — Revirei os olhos.
— Não brinque com isso… — Ele se aproximou de mim e me olhou com piedade. Aquele olhar eu não queria.
— Brincar é o que me resta, ! — Levantei, irritada, e fui até a porta do closet. — Senão eu volto para o fundo do poço onde eu estava.
— … — Ele colocou a mão no meu ombro e subiu para o meu rosto, acariciando-o. O jeito que ele me tocava me fazia lembrar aquele acontecimento na casa de campo e o olhar dele sobre mim fazia com que eu tivesse a certeza que aquilo iria ficar gravado em nossa mente para sempre, mas ele precisava ser esquecido.
— Não comece, não quero discutir… — Balancei a cabeça em negativo e me afastei, mas sua mão seguia me buscando e ela estacionou em minha bochecha. — E não me toque desse jeito…
— Não quero começar nada, eu só estou preocupado com você.
— Eu estou preocupada comigo, … — olhei nos olhos dele e mordi o lábio tentando não mostrar o quanto aquilo ainda mexia comigo — mas estou fazendo o que está ao meu alcance. — Me desvinculei dele indo em direção ao banheiro e veio ao meu encalço. — Talvez eu não seja tudo isso que meu pai espera que eu seja.
— Você é uma mulher foda, — vi ele se apoiar com as duas mãos na esquadria da porta — assim como também é o elo que une as suas irmãs. Sabe que elas vêem uma líder em você.
— Não se esqueça que quem vai assumir a Vincere é você, não eu. — Fechei a porta do banheiro e suspirei, agora eu tomaria um banho para me acalmar já que o sono tinha me deixado e a raiva se instaurado.
Perroni
Eu deveria saber que tudo que achei daquele cretino era de fachada, não tinha como alguém ser tão certinho assim. Sem uma multa de trânsito, uma briga nas festas de faculdade ou matéria reprovada. Se achava que era culpada, eu também deveria, afinal, não cavei fundo o suficiente a vida desse filho da puta. Acendi o cigarro e me sentei na varanda do meu quarto, em 24 horas saberíamos quem estava naquele galpão e eu iria poder interrogar aquele desgraçado. Soprei a fumaça para o alto e olhei para o céu, a imagem dela me olhando, daquele jeito que até um idiota perceberia o quanto a gente queria se tocar.
Aquilo era enlouquecedor.
Eu tinha que mudar o foco do meu pensamento, então dei a ordem para Filippo que assim que invadissem o galpão, pegassem também Juan. Expliquei tudo para meu pai e ele mandou todos os capitães caçar os Delantera, todos eles. Iríamos limpar a Espanha de uma vez por todas, não sobraria ninguém para contar a história ou criar uma vingança.
Esse seria o fim.
Assim que os soldados invadiram o galpão comandado por Filippo, eles encontraram o ouro que precisávamos. Estávamos eu e meu pai sentados no escritório quando Filippo ligou.
— Só um segundo, vou colocar no viva voz.
— Parla, Filippo
— Don, encontramos Guillermo, novo consegliere dos Delantera.
— Magnífico! Traga-o para mim, e aquele rato que ousou chegar perto da minha filha fica aos cuidados de . — Meu pai sorriu perverso para mim, ele iria adorar arrancar cada informação do maldito que ousou tramar contra nós.
— Filippo… — falei — já pegaram o Juan?
— Sim, os soldados levaram para casa de campo, como pediu.
— Perfeito, te encontro lá. — Sorri satisfeito. — Ciao.
Desliguei o celular e olhei para o meu pai, ele estava radiante.
— Uma bebida para comemorar? — perguntou ele e eu assenti levantando, indo até o carrinho de bebidas e servindo duas doses do seu whisky favorito. Brindamos e viramos o líquido âmbar, era maravilhosa aquela sensação de dever cumprido. — Vamos à segunda batalha, , e essa eu tenho certeza que ganharemos.
— Tenho certeza que a guerra já é nossa, pai.
[...]
Respirei fundo e caminhei entre as árvores, vi que Filippo me aguardava na porta do galpão atrás da casa de campo. Eu precisava me controlar, mas tudo que vinha na minha cabeça era sendo gentil com ele, acolheu-o na Fascino e ainda brigou comigo pra manter ele ali. Além de tudo, ele a tocou, ele conviveu com ela por meses sendo o inimigo, além de tudo, eles se beijaram na minha frente.
Aquilo estava longe de não ser pessoal e eu sabia plenamente que não deveria fazer aquele interrogatório, mas seria um desperdício do meu ódio não fazê-lo. Juan merecia sentir cada dor e sofrimento que eu causaria a ele. Meu coração batia forte contra meu peito e minha respiração se tornava pesada a cada passo que eu dava em direção àquele galpão.
— Tem certeza que quer fazer isso? — perguntou meu primo, incerto.
— Não, mas eu preciso. — Puxei um cigarro da carteira que tinha tirado do bolso e coloquei nos lábios, acendi e traguei profundamente.
— Você sabe que não deveria fazer esse interrogatório, , está envolvido emocionalmente.
— Não fale bobagem! Se eu passar do limite você me avisa, simples assim.
— Você acha que é capaz de ser parado?
— Veremos… — Soltei a fumaça e marchei em direção ao alçapão com meu primo em meu encalço.
Desci os degraus devagar, assim que o vi com o capuz vermelho na cabeça, amarrado em uma cadeira, meu sangue ferveu, porém, tentei manter o controle respirando fundo antes de dar outro trago em meu cigarro. Filippo balançou a cabeça pra mim em uma pergunta muda e eu acenei que sim, que poderia tirar o capuz. Franzi o cenho ao olhá-lo, me aproximei ainda mais daquele homem e o ódio me tomou por completo.
— Esse não é o Juan, Filippo!
Meu primo veio para o meu lado e olhou bem o rosto do homem, ele realmente parecia muito, mas não era ele. Aquele filho da puta enganou a gente mais uma vez? Puxei a arma do meu coldre e dei três tiros no peito do homem, eu precisava extravasar meu ódio de alguma forma.
— O que está fazendo?! — perguntou Filippo exaltado. — Ele era uma fonte de informação, !
— Meu pai está com o consigliere, ele tem as informações, esse daí devia só ser um capacho para se passar pelo filhinho dele.
— Não importa… — Ele se desesperou. — Céus, seu pai vai enlouquecer.
— Quem foi que pegou esse homem? — perguntei baixo, meus dentes pressionados um no outro, eu tentava controlar minha irritação o máximo que podia.
— Alguns soldados. — Meu primo ainda olhava o homem caído e parecia tentar pensar em uma desculpa para o meu pai.
— Quero eles aqui na minha frente — disse sério, olhando para o homem no chão.
— O que está pretendendo fazer? — perguntou Filippo ressabiado.
— Desde quando começou a questionar as ordens do seu sottocapo, Filippo? — Olhei pra ele com a testa franzida.
— Desde que você começou a não pensar com a cabeça. — Senti meu maxilar tensionar e respirei fundo.
— Saia da minha frente e faça o que mandei… — Ouvi gemidos e dei dois passos em direção ao corpo caído no chão e apertei o gatilho mais uma vez, dessa vez direcionando o cano em sua cabeça. — Não quero mais ter incompetentes dentro da Vincere.
[...]
Filippo dirigia o carro em absoluto silêncio, eu entendia, também não gostava de ter que bater nos meus, ou dar um esporro e colocar de castigo como crianças. Só que a incompetência deles tinha me tirado do sério e me custado caro, serviço básico: confirme quem você está levando. Juan seguia por aí, sabe-se lá onde, o que eu diria a ? Suspirei audivelmente e meu primo me encarou por segundos. Ele estava bem possesso comigo, os homens estavam sob o comando dele, caso não fosse meu primo quem teria levado punição seria ele.
E ele sabia disso.
Chegamos na mansão e fui direto para o meu quarto, e, pra minha surpresa, estava lá, na minha varanda. Ela não ouviu a porta abrir, estava tudo escuro, apenas a luz da lua a iluminava, era visível o cigarro em sua mão e o copo baixo com os cotovelos apoiados no parapeito. Coloquei minha arma em cima da escrivaninha, tirei meu blazer, o coldre e desabotoei os dois primeiros botões da minha camisa. Dei alguns passos e me encostei no batente da porta, admirando o corpo da ruiva à minha frente apenas de robe de seda e um pijama por baixo, assim esperava. Era perceptível que sua mente estava longe, já que os olhos focavam no horizonte, além do fato dela não ter notado minha presença ainda.
— Cariño…
— Credo, ! — Ela se sobressaltou e virou assustada colocando a mão no peito.
— Sua varanda estava te entediando?
— Acordei e vi o sofá vazio… — disse ela sem graça.
— Faz semanas que não durmo lá.
— Eu sei. Só… — disse sem jeito — queria uma companhia.
— E queria logo a minha? — Sorri indo até o lado dela, pegando um cigarro da carteira no meu bolso. — Não parece estar em seu juízo perfeito. — Debrucei no parapeito e acendi meu cigarro.
— Talvez não esteja mesmo… — disse soprando a fumaça para o alto. — Então…
— O quê?
— Pegaram o Juan?
Engoli em seco e falei:
— Não, ele escapou.
Ela me olhou com a testa enrugada, estranhando a minha calmaria, mal sabia ela que dentro de mim estava o próprio caos e a fúria dos 12 Deuses do Olimpo. Aquele cretino nos enganou duas vezes, eu não iria descansar até encontrá-lo e matá-lo com minhas próprias mãos. Não restaria um só Delantera para contar a história, dessa vez eu garantiria isso.
— Você deve estar irritado, entendo que tente esconder isso de mim, mas eu tô bem, , pode explodir se quiser.
A única coisa que eu queria explodir era a cabeça de Luca. Tentei curvar os lábios em uma forma de mostrar a ela que estava tudo bem e olhei para frente. Ficamos os dois ali, em silêncio, fumando e apenas servindo de companhia um ao outro. Há um ano esse acontecimento seria impossível, mas tantas coisas aconteceram de lá pra cá que eu nem sabia ao certo para que caminho estávamos indo. Principalmente eu e , não conseguia ver uma forma de encaixar nossa relação na famiglia sem a gente acabar na cama um do outro.
O nosso autocontrole parecia não funcionar muito bem em certos momentos.
No dia seguinte, meu pai anunciou uma nova reunião em três dias, ele tinha tirado todas as informações necessárias do consiglieri, por mais difícil que tivesse sido. Os nossos homens tinham achado a casa do Carlos Diaz na Sevilha. Giulia fez a investigação de compra de imóveis nos últimos 5 anos já que na Sevilha era cultural as famílias passarem as casas de geração em geração. Minha irmã conseguiu encontrar apenas três casas que não eram de família antiga, foi meio óbvio supor que eles mudavam de local com frequência para não ter nada que comprovasse sua estadia na Espanha. Nossos soldados já tinham cercado a casa e estavam esperando as ordens de Otelo para saber como proceder.
— Gian, dê a ordem para pegar esse stronzzo, mas quero que levem para Guadalajara — Meu pai disse, firme. — Eu mesmo vou interrogar ele.
— Sim, don Otelo.
— … — Olhei para meu pai esperando o que ele diria. — Cuide da casa em minha ausência. — Meneei a cabeça, concordando, mesmo que achasse aquele pedido muito repentino.
Otelo levantou de sua cadeira, bebeu o restante do seu whisky e fez sinal para os soldados e seguranças o seguirem. Então todos saíram da sala atrás de meu pai, restando apenas eu e Filippo. Nos entreolhamos de cenho franzido, ele também tinha achado estranho a forma como meu pai falou?
— O que meu tio quis dizer com isso?
— Não faço a mínima ideia.
— Foi esquisito, ele nunca pediu isso pra você.
— Ah não ser que ele… — Meu coração deu um solavanco.
— Ele acha que pode ser uma armadilha, !
Fiquei alguns segundos parado encarando o nada, sim, ele estava certo, meu pai pensava que poderia ser uma armadilha, talvez por isso também quis fazer o interrogatório o mais longe possível de nós, pensar que ele poderia morrer me deixou atônito. Nunca tinha chegado nesse momento de idealizar a morte de Otelo e agora, o fazendo, eu vejo o quanto que meu pai, por mais rígido que fosse, era meu pai e eu o amava.
— Não podemos pensar nisso, meu pai vai voltar. Vamos focar no que importa, continuar atrás daquele filho da puta do Luca.
— Vou falar com a Giulia pra saber se ela conseguiu localizá-lo. — Ele saiu do escritório em direção à sala de segurança, enquanto eu tentava assimilar o que tinha acabado de cair no meu colo.
Apoiei a cabeça em minhas mãos, era difícil quando o lado que poderia perder era o nosso, quando algo ruim poderia acontecer à minha família. Meu pai era durão, ele não fazia despedidas dramáticas e nem choraria por ter que deixar suas filhas, ele foi sucinto e disse o que era necessário. Que eu tomasse conta da casa em sua ausência, porém, não disse se essa ausência seria permanente.
Senti uma lambida em meu braço e logo outra em meu rosto, abri os olhos vendo o sarnento de em minha frente. Ele sentou e ficou me encarando, virou a cabeça de lado e latiu, ele sempre parecia que queria falar com a gente, ou de alguma forma pudesse sentir e saber o que estávamos sentindo. Passei a mão em sua cabeça e afaguei sua orelha.
— Está tudo bem? — Virei o rosto vendo encostada na porta de madeira do escritório.
— Está.
— Você já mentiu melhor, .
Suspirei e vi ela cruzar o ambiente até chegar no carrinho onde ficavam as bebidas, encheu dois copos de whisky e os pegou, entregando um para mim e sentou na mesa. Cruzou as pernas com a maior calma enquanto acariciava Théo e voltou a olhar pra mim.
— Eu sei que parou os remédios, mas deveria mesmo beber essa quantidade? — falei em tom de repreensão.
— , se eu não beber eu vou voltar a ficar reclusa, é isso que quer?
— Claro que não!
— Então bebe seu whisky e deixa eu beber o meu. — Ela deu um gole em seu copo e saboreou a bebida daquele jeito que eu adorava admirar. — O que aconteceu?
— Eu realmente não quero falar sobre isso, .
— Você precisa parar de esconder as coisas de mim, … — falou, irritada, fazendo eu fechar os olhos momentaneamente. — Eu estou bem.
— Você quer saber, pois bem, vamos lá… — Mirei seus olhos atentos e comecei: — Tudo que passamos desde o que aconteceu… você sabe. — Desviei meus olhos dos dela suspirando e ela apenas assentiu. — Foi muito doloroso ver você daquele jeito e não poder fazer nada, . Foi… horrível me sentir impotente e ao mesmo tempo talvez um pouco culpado por isso... — Soltei o ar e balancei a cabeça em negativo.
— Você não teve culpa…
— Isso não vem ao caso… — Nem deixei ela continuar, eu não queria o discurso de benevolência. — E como se já não bastasse tudo isso… — falei, rindo sem qualquer humor — Nero me traiu e eu tive que interrogá-lo. — Ela me olhou com os olhos saltados.
— Como?
— Sim, , Nero está preso, estava trabalhando junto com a… — ela fez careta e eu nem continuei para falar o nome Carolyn — e Otelo, provavelmente, saiu em uma missão suicida.
— Espera, onde o papai foi?
— Interrogar Carlos Diaz ou seja lá qual for o nome dele.
— E você deixou?! — disse ela sobressaltada, endireitando-se na mesa, colocando o copo na madeira e descruzando as pernas.
— Eu não tenho o controle de tudo, ! — gritei antes de virar o whisky garganta abaixo, levantei da poltrona colocando o copo em cima da mesa. — Nossa vida é assim! — falei próximo do rosto dela. — Nossa família é assim, afundada em desgraça!
Eu estava farto, coisas demais nas minhas costas, preocupações demais na minha cabeça, eu estava prestes a explodir e acabei explodindo com ela. Não queria falar mais nada, pois acabaria saindo algo da minha boca que não deveria e ela não merecia isso de mim. Tentei me virar para sair dali, mas ela segurou meu pulso, senti aquele tremor pelo meu corpo e tentei me manter calmo.
— Não fuja… — ela acariciou minha pele com o polegar e me peguei fechando os olhos, apreciando aquele toque singelo, pequeno, mas que era tão bem-vindo — do mesmo jeito que cuidou de mim, eu quero cuidar de você.
Girei meu corpo ficando de frente com ela, dei dois passos e respirei fundo, sentindo aquele cheiro adocicado que ela exalava me acalmar de uma forma única. Suspirei olhando pra ela que mantinha uma expressão serena, de acalento. Eu me sentia bem pra caralho com ela, parecia tão certo eu e ela, mas ao mesmo tempo sabíamos que aquilo não podia acontecer. Era cruel demais. Olhei em seus olhos e não pude deixar de notar sua boca entreabrir.
Perto demais, meu lado racional gritava, porém não o suficiente, meu desejo falava.
— Eu não consigo mais, … — Fui baixando a cabeça e a apoiei no ombro dela enquanto minhas mãos estavam espalmadas na mesa, uma em cada lado do seu corpo. — Mais isso pra dar conta, é demais pra mim…
— Eu sei… — Senti sua mão em meus cabelos, seus dedos se infiltrando entre os fios da minha nuca e me deixando ainda mais ansioso e sem controle. — Eu também não…
— O que faremos?
— Manter distância?
— Já sabemos que isso não funciona. — Levantei a cabeça, ficando bem próximo de seus lábios, voltei a encarar os olhos verdes, brilhantes como uma pedra preciosa, eles eram lindos; ela era linda. — Não vou me controlar por muito tempo.
— Eu quero cuidar de você, mas também não sei se consigo… — Ela fechou os olhos e encostou a testa na minha, uma proximidade tão perigosa, nossos lábios quase se unindo em um beijo que eu ansiava há tanto tempo. — Mas não podemos mais ultrapassar esse limite…
— Desculpe — pedi, de olhos fechados, nossos narizes roçando um no outro, sentia meu coração batendo acelerado no meio do peito. Apertei a madeira da mesa e me afastei, tomando uma distância segura.
Aquilo era uma tortura.
— Não peça, é culpa minha também. — Ela levantou da mesa, colocou a mão no meu peito, empurrando meu corpo devagar e foi caminhando até a porta. — É melhor ficarmos longe, dessa vez, de verdade… — Ela virou o rosto pra olhar pra mim, seus olhos diziam tanto, um adeus, um sinto muito e uma vontade de ficar que eu conseguia sentir de onde estava. Eu não estava preparado para tê-la longe de mim mais uma vez. — Vamos, Théo — chamou o cachorro e ele a acompanhou para fora.
Estava me sentindo um estúpido, não deveria ter feito isso, não deveria ter deixado meus sentimentos tão à flor da pele a ponto de me controlarem. Saber que é recíproco me deixava ainda mais fora de controle e isso era um problema.
Capítulo 25
Alonso Perroni
Eu me mantive segura e forte na frente dele por nós dois, mas assim que saí daquele escritório eu me encostei na parede do corredor pois a dor e o choro me invadiram e não consegui dar mais nem um passo. Eu me abracei com uma mão e a outra tampou minha boca para manter aquele choro mudo. Me sobressaltei quando ouvi barulho de algo de vidro quebrando vindo de dentro da biblioteca, apertei ainda mais meu corpo devido ao meu choro se intensificar, pois sabia que não era só eu que sofria.
Lutamos tanto para aquilo não acontecer, mas o que sentíamos um pelo outro nos tomou de uma forma que não dava mais para esconder. Não dava mais pra sequer controlar, era doloroso, era algo que nos matava ao mesmo tempo que era o que nos manteve vivo durante todas essas merdas que aconteceram. Nós éramos a força um do outro, mas também éramos nossa maior fraqueza.
Nos odiar era mais fácil.
Deveríamos ter mantido assim.
Théo sentou do lado do meu pé e olhou pra mim com os olhos tristes e eu mordi o meu lábio, estendi minha mão e acariciei a cabeça dele recebendo lambidas de afago.
Eu precisava sair dali.
Caminhei a passos rápidos até meu quarto com meu cachorro em meu encalço, fechei a porta e respirei fundo sentindo que minhas pernas iam aos poucos perdendo as forças, sentei no chão. Théo veio e se deitou encostado em mim e enquanto as lágrimas escorriam, eu acariciava meu cachorro buscando algum afago. Sentir aquilo era horrível, era sufocante, eu não conseguia controlar meu choro e meu peito doía tanto. Eu não entendia como os anos de ódio se transformaram nisso, como eu cheguei até ali?
era o homem que eu mais odiava na vida, o moleque que tomou meu lugar, que me enchia o saco e me provocava de maneiras que me fazia querer gritar. Conforme eu crescia, vi o homem sanguinário que ele estava se tornando, abominava o que ele fazia na Vincere, mas eu era hipócrita demais por julgá-lo dessa forma. Por mais que minhas mãos não estivessem fazendo o serviço, eu era conivente; além de sempre negar meus pensamentos maldosos, as ações maldosas que eu tomava por impulso, mas que faziam parte da minha personalidade. Sempre tive um lado meu que eu tentava manter na escuridão, porém eu sabia que ele estava ali, rondando minha mente, buscando uma oportunidade pra sair.
Eu fazia parte de tudo e era tão culpada quanto ele.
Aquela era a minha vida também.
Talvez as pessoas não estivessem assim tão erradas.
O ódio e o amor sempre andavam juntos.
[...]
Meus dias eram preenchidos pelo trabalho na boate, fazia questão de dedicar cada minuto do meu dia a Fascino. Antes fosse só pelo esforço que sempre dei para ter tudo funcionando, mas eu estava tão quebrada que só queria chegar em casa exausta o suficiente para apagar e de preferência não ver . Eu não podia falar com ninguém sobre o assunto e isso me consumia ainda mais, então fiz o que sempre fazia quando queria fugir, me afundar no trabalho. O que me preocupava era que Beatrice estava suspeitando que algo tinha acontecido, porém, tentava colocar a culpa na recuperação do trauma.
Joguei meu corpo na cadeira do meu escritório naquela noite e respirei fundo fechando os olhos, os dias estavam difíceis. Contudo, eu tinha superado algo que me fez deixar de ser aquela , então eu também superaria uma paixão indevida. Por mais que eu soubesse que não era só isso, por mais que sentisse dentro de mim que aquilo tinha virado algo que nem eu esperava. Algo que me engoliu por completo e que me fez ficar perdida. Eu sabia o que era, mas estava tentando não pensar e nem mesmo falar em voz alta.
Ouvi batidas na porta então ajeitei meu corpo na cadeira ao liberar a entrada.
— Com licença, senhorita Perroni — disse Austin ao fechar a porta, balancei a cabeça para que ele continuasse. — O Don voltou e pede a presença de todos no jantar.
— Agora?
— Sim, ele pediu que a levássemos.
— Cadê a Beatrice?
— Ela saiu faz algum tempo para ir até o laboratório, acredito que Mario tenha ido buscá-la.
Mario era um dos soldados que fazia a segurança de Beatrice.
— Então vamos…
Suspirei, juntei minhas coisas e peguei meu celular de cima da mesa antes de levantar. Eu só esperava que não fosse outra notícia ruim. Caminhamos para fora da boate e entrei em meu carro, vendo Austin se juntar a Ettore no outro carro e me seguir até em casa. Fazia quase uma semana que não chegava em casa antes das 3 horas da manhã, um jantar em família era tudo que eu menos precisava no momento.
Entrei pelas portas e larguei minha bolsa no hall de entrada, olhei para a sala de jantar e a mesa estava posta. Levei meus olhos até a porta dos fundos que dava para o quintal e vi uma silhueta, a ponta do cigarro acesa denunciava que era quem eu não deveria encontrar. Então sabia que aquele não era um caminho a se seguir, girei meus pés e fui andando em direção ao bar.
— ! — Virei o rosto para a escada parando na metade do caminho e vi Giulia. — Parece que fazem meses que não te vejo… — Ela me abraçou e se afastou olhando para mim preocupada. — Papai está com ferimentos.
— Como? — perguntei, desorientada.
— Era uma armadilha, não conseguiram interrogar o Carlos Diaz por muito tempo, papai matou ele quando alguns soldados da máfia espanhola invadiram o galpão.
— Mio dio, Giu! — Cobri minha boca.
— Ele está bem, apesar dos machucados. — A voz masculina se fez presente.
Virei para o lado e vi , ele não me olhava, mantinha seu foco no chão, senti meu coração palpitar e minha boca secar. Segui com os olhos sua movimentação, ele passou por nós e foi direto ao bar.
— Ele está estranho depois que se trancou algumas horas com o papai no escritório… — sussurrou Giulia, fazendo com que eu olhasse para ela novamente. — E você? Está diferente… — Ela franziu o cenho.
— Estou tentando absorver as informações, Giulia. — Fui ríspida. — Nunca consigo chegar em casa sem uma avalanche de merdas que aconteceram! — Ela arregalou os olhos e eu subi a escada pisando duro. — Giornata di merda! (Dia de merda!).
Entrei em meu quarto e bati a porta, soltei o ar com força e vi Théo, deitado no canto do quarto, levantar a cabeça e virar ela para o lado me olhando.
— Não é com você que estou irritada… — Ele respondeu com um chorinho como se me perguntasse o que estava acontecendo. — Nem sei por onde começar, Théo… — Caminhei até o closet e tirei a roupa, fui até o banheiro e entrei no box para tomar banho.
Eu sabia que eu tinha ficado irritada com a pergunta da minha irmã, não pela pergunta em si, mas pelo que ela representava. Eu estava esquisita sim, mas era por ele, era o meu novo normal ficar mexida com por perto. A decisão mais difícil que tomei foi ficar longe dele, mas a gente precisava ser racional, ou nossas cabeças rolariam. Depois que entendi que eu tinha me apaixonado, também entendi que não podia deixar passar disso. Paixão uma hora passa, não é?
Assim eu esperava.
Desci e vi meu pai no bar, servindo um copo de whisky. Fui até ele e o abracei, nem precisei falar nada, seu braço livre da tipóia me circulou e senti sua mão acariciar minhas costas, eu queria chorar, mas contive minhas lágrimas.
— Está tudo bem, minha princesa?
— Eu que deveria perguntar, papai. — Afastei-me dele. — No que estava pensando colocando-se em risco dessa forma?
— Eu precisava descobrir o que aquele filho da puta estava armando…
— Sem se matar no processo, de preferência…
— Estou aqui, não estou? — Ele riu divertido e eu torci os lábios. — Desculpe, minha princesa.
— Tudo bem…
— Não… — Otelo acariciou minha bochecha. — Desculpe pela minha ausência. Você precisava de mim e eu não sabia lidar com… a situação…
— Tudo bem, pai, eu tive a ajuda necessária. Eu sei que você sempre vai me proteger com tudo que tem. — Ele beijou minha testa. — Sei também que você que mandava a Marta levar minhas refeições, mesmo quando eu não queria e também foi você que contratou o melhor psicólogo do país. Você fez o que pôde…
— Nunca vai ser o suficiente. — Ele curvou os lábios afagando meus cabelos como fazia quando eu era criança. — Te amo, figlia mia. (Te amo, minha filha.).
— Anche, papà. (Eu também, papai.).
Nos sentamos à mesa de jantar e logo minhas irmãs, e Filippo se juntaram a nós. O jantar foi servido e aquela sensação de que uma simples troca de olhares nos faria ceder me tomou, mantive meus olhos no meu prato, assim como imaginava que estivesse fazendo o mesmo. Quando terminamos de comer, meu pai pediu para que os empregados se retirassem. Achei tudo muito estranho e dramático, coisa que Otelo não era, ele sempre ia direto ao ponto, sem rodeios.
— Pedi para que todos estivessem presentes hoje no jantar pois… — Otelo respirou fundo e continuou: — Assim que exterminarmos o restante dos Delantera, assumirá como Don.
— O quê?! — Eu e minhas irmãs exclamamos.
— Não se preocupem, ficarei presente, tudo vai seguir seu curso.
— É muito cedo para o assumir, papai! — falei sem pestanejar. Precisava entender o motivo. — O senhor está doente?
— Claro que não, minha princesa. Apenas chegou o momento…
— Não acho que seja o momento. — Olhei para à minha frente que seguia encarando o prato e eu não entendia o que estava acontecendo. — Eu… com licença. — Levantei da mesa e segui para o jardim, vi a carteira de cigarro em cima da mesa e peguei um pra mim o acendendo.
Puxei a fumaça para os meus pulmões, soltando em seguida, no fundo eu ainda tinha uma esperança de assumir aquele lugar, era por isso que eu estava tão irritada com o anúncio do meu pai. Mais irritada ainda pela reação de , o que tinha acontecido pra ele estar tão indiferente? Esperava uma reação arrogante dele por finalmente estar mais perto do que nunca do topo da famiglia, mas ele parecia estar recebendo algo trivial e isso me deixava com uma pulga atrás da orelha.
Algo acendeu dentro de mim, aquele anúncio me colocou em alerta para não deixar acontecer. Eu não percebi o quanto estava perto de ser o Don, eu acabei me deixando levar pelas emoções e esqueci do que realmente importava. Eu precisava me mostrar mais forte, eu queria um lugar na Vincere e eu faria o que fosse para merecer um. Meu pai podia ter anunciado o que faria, mas ainda não era oficialmente o Don.
Perroni
Sempre tentei me manter longe de tudo que envolvia amor, amor te deixa exposto, vulnerável, se você ama alguém, esse alguém se torna a sua fraqueza. Contudo, percebi que esse alguém também pode ser o seu alicerce, quem te mantém centrado, forte e resistente para enfrentar qualquer coisa. Eu faria qualquer coisa por ela e se ela decidiu que nos manteríamos longe, seria exatamente isso que eu faria. Joguei o copo baixo de vidro com força na parede.
Minha vontade era de matar o primeiro que cruzasse o meu caminho, mas eu precisava ser racional dessa vez.
Eu nunca tinha me apaixonado por mais ninguém, talvez por ter sempre em algum lugar do meu peito, mas era minha função manter esse sentimento escondido. Não era uma escolha, era uma necessidade. Eu cresci sendo criado para matar, para aguentar torturas, para mentir, pra sobreviver, mas ela, me apaixonar por ela e não poder estar com ela foi a pior das torturas. Seguir com aquilo, morando embaixo do mesmo teto, era um sacrifício toda porra de dia, eu estava enlouquecendo.
Dia após dia tendo que lidar com tudo que envolvia a Vincere, contrabandos para organizar e fiscalizar, segurança da família, acordos com os associados e mais um amor proibido era quase que impossível. Eu sabia que deveria me manter forte, racional e impassível como meu pai sempre ensinou, porém, era alguém que eu não conseguia controlar minhas reações ou minhas emoções, elas simplesmente chegavam sem aviso prévio e varriam qualquer rastro de racionalidade. Amá-la me tornava um filho da puta asqueroso ao mesmo tempo que me sentia menos longe da minha humanidade. Amar era uma dádiva, mas também uma maldição.
[...]
No dia seguinte, Gian me mantinha informado de tudo e de como seguia a viagem. Era óbvio que eles tinham um plano, mas meu pai era metódico demais e os únicos que sabiam eram os que fariam parte dele. Sempre foi assim. Fui até a academia naquela tarde, precisava extravasar aquela raiva que me possuía. Era injusto demais nascer na mesma família que a mulher que você ama.
Deveria ser um castigo.
— Resolveu voltar aos exercícios? — Olhei para a porta da academia vendo a Beatrice sorrindo.
— Acho que estou meio fora de forma… — Sorri pra ela e voltei a lutar contra o boneco de borracha.
— Preciso te contar algo… — Ela se aproximou de mim e eu parei o que fazia e tirei as luvas, indo em direção ao frigobar. — Eu conversei com o papai.
— Sobre? — Dei um gole na garrafa de água que peguei.
— Meu casamento.
Quase me engasguei, porém tossi e falei: — E como foi?
— Bom, foi menos ruim do que imaginei. — Ela deu de ombros.
— E como imaginou? — Levantei uma das sobrancelhas com curiosidade.
— Sei lá, talvez ele chamando você pra me torturar até eu desistir da ideia.
— Não seja maluca, eu jamais faria isso.
— E você acha que o papai seria? — perguntou espantada.
— Não dúvido. — Dei outro gole na garrafa de água, querendo rir do bico que a minha irmã fez, porém ela me socou no braço. — Ai…
— Cuidado, Perroni, não sabe com quem está mexendo.
— Desembucha, Bee. — Comecei a rir da seriedade dela, mas logo seu rosto mudou de expressão, seus olhos pareciam marejados, fazendo com que eu franzisse o cenho. — O que houve?
— Papai fez aquela expressão sinistra que ele costuma fazer quando algo não sai como planejado… — vi ela tremer o corpo, claramente com medo da carranca do meu pai —, mas depois ele fechou os olhos e respirou fundo antes de dizer que se Anita era quem iria me fazer feliz, que então eu tinha a benção dele.
— Estou realmente feliz que ele tenha te abraçado nessa, Bee. — Sorri com ternura pra ela, que já tinha derramado algumas lágrimas.
— Tenho algo para te pedir.
— Sabia que você queria algo do seu pobre irmão — falei em tom dramático.
Ela revirou os olhos suspirando antes de me olhar com seriedade e carinho: — Quer ser meu padrinho de casamento?
Sorri bobo com aquele pedido, então puxei a ruiva pra um abraço forte. Meus olhos encheram d'água. Eu estava mole ou era a idade? Beatrice sempre foi muito fechada e eu sempre tentei perfurar a armadura que ela colocava em volta dela, no começo da juventude nós finalmente nos aproximamos quando descobri que ela gostava de garotas. Então, eu era o único com quem ela conversava sobre o assunto e claro, acobertava as fugidas dela.
Além de irmã, ela sempre foi uma grande amiga e esse pedido me tocou.
— , me solta! Você está suado… — Agarrei ela ainda mais e balancei a cabeça para as gotas de suor do meu cabelo caírem. — Ai, que nojo!
Soltei ela e a encarei antes de dizer:
— Claro que eu quero, com o maior prazer. — Sorri largo, uma coisa que era bem rara de eu fazer e minha irmã terminou de se emocionar, já que as lágrimas escorreram pelo seu rosto. Ela se virou com pressa e eu ri da reação dela.
— Compre um smoking novo e tem que ser vinho!
— Sim, senhora.
[...]
Eu escutava o recado do meu pai na minha caixa de mensagens pela terceira vez, aquilo me assustou, entrei em contato com Gian e não obtive resposta. Pela primeira vez eu estava preocupado que meu pai não fosse retornar para casa. O casamento de Beatrice era em duas semanas, ele precisava estar presente. Bea ficou tão feliz que meu pai aceitou o casamento e a Anita como nora, ela estava com tanto medo que quando ele disse que jamais pediria que ela fosse diferente, ela desabou em choro.
Ele precisava estar presente.
Caminhei em círculos pela varanda, já era o quinto cigarro que fumava em questão de minutos, eu estava ansioso pra caralho. Tinha ligado para Gian no mínimo umas 15 vezes e mais algumas para todos os soldados que estavam junto ao meu pai.
— Ninguém atende o caralho do telefone! — berrei.
— O que tá acontecendo, ? — Virei e vi Filippo com um vinco no meio da testa.
— Meu pai mandou uma mensagem muito estranha, parecia estar se despedindo, e ninguém atende a merda do telefone! — Passei a mão pelo cabelo, nervoso. — Gian não dá notícia faz três dias!
— Seu pai está a caminho de casa, …
— Como você…
— Era uma armadilha, como ele previu, mas estávamos um passo à frente.
— E ele achou que ia morrer?! Por que essa mensagem pareceu uma despedida, Filippo…
— Aconteceram alguns embates.
— O quão arriscado foi isso?
— Bastante, mas caso…
— Eu nem quero saber… — interrompi ele indo em direção ao banheiro lavar o rosto e quando levantei a cabeça vi meu primo pelo reflexo.
— Ele pediu que você esperasse no escritório.
Suspirei, olhando de soslaio para Filippo que deu de ombros, tudo aquilo não podia ser boa coisa. Meu pai escondia muitas coisas, coisas que eu nem sequer deveria sonhar e eu não sabia se estava preparado pra saber. Tomei um banho, troquei de roupa e desci para o escritório. Abri bem a janela grande que ficava na lateral da sala, acendi um cigarro e servi uma dose de whisky. Talvez eu fosse precisar.
— Vejo que atendeu meu pedido.
Ouvi a voz grossa e mesmo antes que pudesse virar, respondi:
— Eu tinha escolha? — Olhei meu pai e arregalei os olhos, ele estava com o braço esquerdo enfaixado e alguns cortes no rosto, desencostei da janela de prontidão. — O que aconteceu?!
— Ossos do ofício. — Ele caminhou e sentou em sua poltrona, enquanto eu seguia o encarando abismado, eu nunca vi meu pai machucado e aquilo me assustava. — Sirva uma bebida pro seu velho pai.
Caminhei até o bar e abri a garrafa de cristal onde ficava seu whisky favorito. Tudo que eu conseguia pensar era o medo do que viria a seguir. Ver meu pai daquela forma me fazia pensar no quanto somos frágeis. Sempre vi Otelo como invencível, imbatível e muitos outros adjetivos fortes, jamais imaginei que algum dia meu pai chegaria em casa tão abatido. Apaguei o cigarro no cinzeiro e coloquei o copo baixo em frente a ele, assim como o que servi para mim à minha frente, sentei na poltrona do outro lado da mesa e suspirei aguardando o que viria.
— Precisamos conversar… — Engoli em seco, a expressão do meu pai não era a das melhores e nem o peso em sua voz. — Você precisa assumir, .
— O que disse? — Pisquei algumas vezes.
— Chegou a hora de você assumir e pra isso preciso contar algumas coisas. — Respirei fundo e dei um generoso gole na bebida, fazendo uma careta em seguida, não sabia se o que tinha descido rasgando a minha garganta tinha sido o whisky ou a informação.
— Você está bem e vivo, pai…
— , não se preocupe, eu continuarei presente.
— Por que isso de repente? — Passei a mão em meu cabelo, nervoso.
— Algumas coisas aconteceram. Vou assumir a frente da Vick Inc e os negócios na Itália depois que exterminarmos de uma vez por todas os Delantera.
— Que coisas, pai?
— Um segredo antigo veio à tona, sabia que esse dia podia chegar, porém, eu contava com a sorte, que sempre esteve ao meu lado. — Fiquei em silêncio, esperando meu pai continuar, apesar do meu coração estar batendo acelerado no peito. — Sempre quis fazer algo diferente quando colocasse o prossimo, por mais que sigamos regras, meu sonho era colocar você e a como dons da Vincere. — Arregalei os olhos, não sabia onde ele queria chegar com aquilo tudo. — Só que o que eu mais temia aconteceu… A mãe de entrou em contato com ela.
Meus lábios entre abriram e o vinco na minha testa apareceu, então ele sabia. Oras, claro que sabia, o que meu pai não sabia? Ele tem ouvidos e olhos em todos os lugares, na Fascino não seria diferente e por mais que eu sempre soubesse disso, nos beijamos e quase fodemos naquela boate.
— Pela sua cara você já sabia disso…
— Ela… me contou.
— Pois bem, ela deve ter contado o que a Alessia disse. — Aquilo estava indo por um caminho que eu já sabia onde ia dar e não estava gostando nada. — É verdade, … não é minha filha.
Senti como se o teto desabasse sobre a minha cabeça e eu conseguia escutar as batidas do meu coração em meu tímpano, aquilo não podia ser verdade. Aquilo ia acabar com , ela mesma me confessou que não suportaria não ser da família.
— Não pode ser…
— Por isso que não posso colocá-la como Don, agora os soldados ouviram o que Alessia disse e por mais que eles não saibam a verdade, sempre vai existir a dúvida e a vontade de dar um jeito de descobrir. — Meu pai suspirou abaixando a cabeça e pegou seu copo, bebericando o líquido âmbar. Eu estava perdido, seguia olhando o chão embaixo dos meus pés para ter a certeza que ele continuava alí. — Isso fica entre nós, isso nunca pode sair daqui, entendeu? — Voltei a encará-lo sem acreditar no que estava ouvindo, ele estava pedindo pra eu mentir para ? — Nunca trate ela como alguém que não é da famiglia, , è mia figlia e lo sarà sempre! ( é minha filha e sempre será!).
— Eu nunca a trataria diferente por isso.
— Você está cuidando muito bem dela, eu vejo isso. — Minha garganta chegou a fechar minimamente com o comentário de Otelo. — É por isso que precisa assumir. Eles não podem desconfiar que o prossimo será outro além do meu filho de sangue, entendeu?
— Si signore.
— Não podemos deixar a solidez da Vincere se esvair agora, precisamos estar mais fortes do que nunca. Temos uma batalha pra vencer.
— E venceremos.
Capítulo 26
Perroni
Saber e não poder dizer me doía tanto, pois agora eu sabia que nada mais nos privava de ficar juntos e ela jamais saberia. Eu odiava ter que mentir pra ela, entretanto, não podia contar, não só porque meu pai havia pedido, mas também por lembrar o quanto ela ficou aterrorizada que aquilo fosse real. Eu não podia fazer isso, principalmente se a amava, vê-la feliz era mais importante do que ficarmos juntos.
Eu sentia muito, mas teria que ser assim.
O casamento de Beatrice era no dia seguinte e na última semana eu tentava a todo custo engolir tudo que meu pai me disse. Era informação demais para lidar em minha cabeça e era mais uma madrugada em claro naquela varanda. Por mais que eu tentasse, só conseguia dormir por algumas poucas horas, com ajuda de muita bebida, claro. Eu precisava estar bem, era o dia da minha irmã e eu precisava focar nisso.
Acordei depois de quase uma noite inteira em claro, era difícil sentir essa culpa, mas eu tentava me convencer de que era o certo a se fazer. Deixar no escuro nem era a melhor opção, porém, talvez fosse a única que não a deixaria infeliz. Desci a escada e vi o caos pela casa, pessoas desconhecidas andando por todos os lugares, carregando flores, comidas, bebidas e muitas outras coisas que não consegui identificar.
Peguei uma xícara de café na cozinha e caminhei até o jardim, peguei um cigarro do meu bolso e o acendi. Olhei para longe e vi sentada no chão de olhos fechados, o pulguento estava deitado com a cabeça na perna dela, apenas esperando. Era nítido o quanto os dois tinham uma conexão além do compreensível. Finalmente ela tinha saído daquela escuridão e sua vida aos poucos voltava ao normal. Sempre haveria sequelas, gatilhos, traumas, porém, o principal estava sendo recuperado: o brilho em seu olhar. Nada me deixava tão satisfeito quanto ter dado o Théo de presente pra ela, vê-la sorrindo e feliz não tinha preço.
Sorri com meus pensamentos.
— Está muito sorridente pro meu gosto. — Olhei para o lado vendo Giulia. — Está preparado pra casar nossa irmã?
— Estou preparado para vê-la feliz sendo quem ela é.
— Você está tão diferente…
— Sempre fui assim, Giu, a diferença era que eu não compartilhava meus pensamentos tão abertamente. — Voltei a olhar para e a vi levantar e começar a brincar com o cachorro dela. — Aconteceram muitas coisas, talvez algo tenha mudado realmente. — Voltei a encarar minha irmã e ela parecia tentar desmistificar o que tinha por trás do que eu falava. — Pare de me analisar. — Dei alguns passos até a mesa e apaguei o cigarro no cinzeiro.
— É muito divertido analisar vocês… — Ela riu divertido e eu reprovei sua fala com o olhar, fazendo com que ela virasse o rosto e voltasse para a porta de entrada. — O que eu vim dizer na verdade é que a Beatrice pediu para chamar você.
— Onde ela está?
— No quarto dela… — falou já sumindo para dentro de casa.
Subi a escada e caminhei pelo corredor extenso até chegar no quarto de minha irmã, não sabia bem o que ela queria, mas pelo que eu conhecia dela, estava insegura. Bati na porta e logo recebi permissão para entrar, girei a maçaneta e então vi a ruiva sentada no chão, com várias joias em volta dela e mais quatro pares de sapatos brancos. Eu ri daquela cena, fechei a porta e dei alguns passos.
— No quesito moda feminina eu não sou tão bom, Bee.
— Nem eu seria louca de pedir ajuda a você.
— Não sou tão ruim assim também, vai… — Ela revirou os olhos e encostou na cama. — O que aconteceu?
— Será que não estou sendo egoísta, ?
— Egoísta?
— Eu tenho percebido a estranha, eu sinto que ela não está bem… Me sinto mal de fazer uma festa com ela desse jeito.
— Beatrice, está feliz por você e ficaria chateada se você cancelasse tudo, principalmente por causa dela. — Sentei no chão ao lado de minha irmã e a abracei. — Não existe egoísmo no amor, Bee, você ama a Anita e finalmente tá assumindo a moça. — Eu ri com humor e ela me olhou de cara feia, fazendo eu rir ainda mais e ela me socar na costela. — Ai, quer que seu irmão esteja no hospital no seu casamento?
— Idiota! — Ela se afastou e me encarou com uma expressão de carinho. — Achei que nunca diria algo assim, mas cuide dela do jeito que tem feito nos últimos meses, por mais que tenha sido muito esquisito, tenho certeza que você foi importante pra recuperação dela.
Abracei minha irmã e curvei os lábios, dessa vez com menos felicidade do que gostaria. Sabia que por mais que eu tivesse ajudado a , também fui um dos causadores do seu sofrimento. Eu sabia que ela estava esquisita por minha causa, sabia que ela deveria ter percebido que não olho mais pra ela, além de estar mais recluso que o normal. Eu esperava que ela achasse que era porque decidimos manter distância pela nossa paixão desenfreada, mas o que eu esperava era que ela não percebesse que tinha muito mais que eu pretendia manter em segredo. Por mais que me doesse todos os dias, até o dia da minha morte, se não doesse nela já valeria a pena o sacrifício.
[...]
Tinha gente demais naquela capela. Eu ajeitei minha gravata e pigarreei quando vi de costas, em pé, dentro de um vestido de seda vinho, exatamente da cor do meu terno. Ela estava deslumbrante, tentei não olhar demais, porém, meus olhos sempre me traíam. Acordei do transe em que eu estava quando a cerimonialista me puxou pelo braço.
— Seu lugar é aqui com seu par — a mulher falou e seguiu caminho arrumando os outros casais.
Olhei para o lado e vi Giovanna, logo na frente estavam e Vincenzo, em seguida Luna com Leo e Giulia com Filippo. Estávamos todos em fila, aguardando a liberação para os casais de padrinhos entrarem antes das noivas fazerem sua entrada triunfal. A música começou e fizemos tudo o que a moça do cerimonial tinha falado minutos antes. Giovanna entrelaçou o braço no meu e caminhamos em direção ao altar até nos separarmos e ficarmos homens de um lado e mulheres do outro.
Primeiro veio Anita, sendo levada pelo seu irmão, Cristian, ela estava lindíssima e dava pra ver nos olhos de Cris o quanto ele estava feliz por ela. Assim que a música mudou, Beatrice entrou de braço dado com meu pai. Ela estava radiante e Otelo tentava disfarçar, mas era inútil, a carranca usual deu lugar a um sorriso no canto dos lábios. Sua primeira filha a se casar, era um marco importante na família. Não existia nada que meu pai desse mais importância do que a famiglia.
Assim eu pensava.
Alonso Perroni
Era um dia de comemoração, de felicidade, então por que eu estava tão na merda? Não tinha outra palavra pra usar, eu estava mal, só de pensar que teria que ver todo lindo de terno se exibindo para as filhas dos nossos associados eu já ficava irritada. O que me deixava com raiva era o fato de me sentir assim, eu estava com ciúmes dele. Como era possível? Meu trauma tinha me deixado louca, só podia ser isso. Não, eu já tinha enlouquecido bem antes disso. Estava naquela banheira há umas duas horas, tentava melhorar meu humor e os meus pensamentos, que por mais que eu tentasse não pensar, sempre me levavam a ele.
Manter distância dentro da mansão era fácil, o problema era que no casamento da minha irmã seria impossível. Somos família, sentaríamos à mesma mesa, tiraríamos fotos juntos, isso tudo me manteria perto dele hoje e perceber isso me deixava em pânico. Saí da banheira nua e peguei a garrafa de champanhe dentro do balde de gelo e coloquei o restante na taça que estava em cima da bancada de mármore, bebendo em seguida. Levantei a cabeça e olhei meu reflexo, respirei fundo e tive pena de mim mesma, estava me sentindo patética. Além de tudo, sabia que precisava parar, senão chegaria na cerimônia bêbada.
A grande realidade era que a bebida me dava a coragem que faltava em muitas situações, essa era uma delas. Como esconder o que eu estava sentindo há tanto tempo e que estava me deixando angustiada e tomada por uma vontade enorme de mandar todos à merda e beijar aquele homem que eu já tinha odiado antes na mesma proporção? Era uma sensação muito esquisita amar alguém que você odiou por tantos anos.
Olhei para o meu reflexo no espelho novamente e tentei me convencer de que estava tudo bem, quando na verdade já fazia alguns meses que tudo estava um caos. Peguei a toalha para me enxugar, coloquei a calcinha e olhei o vestido vinho de madrinha pendurado no cabide. O vestido era lindo, todo de seda, costas nuas com apenas umas fitas para amarração e o decote soltinho. Peguei ele do cabide e o vesti, coloquei a sandália nude com brilhos nas tiras e fui até o quarto de Beatrice, onde eu e minhas irmãs tínhamos combinado de nos arrumar juntas com os cabeleireiros e maquiadores.
Entrei no quarto e vi elas rindo, conversando besteira e tudo girando em torno da nossa noivinha. Era o dia dela, eu tinha que apenas engolir tudo que eu estava sentindo e manter adormecido até o dia acabar. Sorri, fechei a porta e uma das empregadas me deu uma taça de champanhe, eu só conseguia pensar no quanto seria problemático negar uma taça naquele momento, então eu apenas peguei e agradeci.
— Chegou quem faltava! — Beatrice me abraçou de lado e me empurrou até próximo das minhas irmãs.
Mantive o sorriso no rosto.
— Vamos brindar a você, Bea! — Luna sorriu, animada, erguendo sua taça.
— Auguri, Sorellina. (Felicidades, irmã.). — Sorri, dessa vez me sentindo mais feliz vendo o quanto Beatrice estava radiante.
Eu estava genuinamente feliz por ela.
[...]
Sentia o champanhe descer borbulhante pela minha garganta, tentava a todo custo disfarçar o quanto eu estava aos pedaços e nada melhor pra me ajudar nessa tarefa do que beber e dançar. Sentia a música reverberar dentro de mim, mantinha meus olhos fechados e aproveitava aquele momento em que eu consegui esquecer de tudo e apenas aproveitar a noite. Senti uma mão em meu pulso e abri os olhos, vendo Luna sorrindo pra mim, logo vi minhas duas outras irmãs ao nosso lado e elas também sorriram pra mim.
Olhei pra elas e agradeci por tê-las, por mais que eu não pudesse contar o quanto meu coração doía, só por elas existirem na minha vida, já fazia com que me sentisse um pouco melhor. Eu as amava, e eu queria tanto, de verdade, sentir esse mesmo amor por , mas infelizmente, o amor que sentia por ele não era nada fraternal. Abracei minhas irmãs, buscando ali um pouco de afago, mesmo elas não sabendo o motivo que eu precisava tanto desse abraço.
— Obrigada por serem minhas madrinhas — Bea falou.
— Obrigada por serem minhas irmãs — falei, sem pensar, apenas me apeguei àquilo que estava sentindo.
— Essa é novidade… — Giulia se afastou rindo. — O que deu em você?
— Deve ter bebido demais… — Luna deu risada.
— Bebida é pouco, cê tá drogada? — Beatrice, sem papas na língua como era, bêbada então.
— Tá louca, Beatrice? — Revirei os olhos.
— Para de ser puritana, um lisérgico de vez em quando é agradável — disse Beatrice, rindo.
— Vocês saem melhor que a encomenda… — disse, rindo com ela.
Um garçom parou entre nós e ofereceu as taças com champanhe, todas nós pegamos uma e brindamos novamente. Eu estava decidida a não beber nada muito forte, mas não adiantava nada não beber algo forte e me afogar em algo fraco. No entanto, só tinha essa saída, além de não olhar demais pras pessoas para não acabar vendo quem eu não queria, pois nesse estado, não saberia me controlar.
Estava tão difícil.
Cada dia que passava se tornava um tormento só de saber que estava embaixo do mesmo teto que ele. Respirei fundo e sentei na cadeira da mesa que tinha sido separada para as madrinhas. Cruzei as pernas e massageei minha panturrilha, horas de salto alto também servia de motivo para beber, pelo menos adormecia o corpo e ficava um pouco menos desgastante. Giulia sentou ao meu lado de repente e me encarou com aquele olhar analítico.
— O que foi?
— Você não quer externalizar, tudo bem, eu entendo. — Franzi o cenho tentando entender onde ela queria chegar. — Vocês dois claramente se gostam, , por que não tenta? — Arregalei os olhos. — Não adianta me olhar desse jeito, você acha mesmo que passam despercebidos?
— Giu, não tem o que tentar… — falei o óbvio franzindo o cenho indignada com as loucuras dela.
— Vocês são meio irmãos, , não é como se fosse o maior incesto do mundo. — Giulia revirou os olhos. — Já tiveram casos piores na história da humanidade…
— Não diga bobagens, Giulia! — Minha voz saiu mais esganiçada do que deveria.
— Eu tô vendo e não tô gostando, vocês estão em sofrimento, cada vez mais se afundando… — Ela acariciou minha mão enquanto falava com preocupação.
— E iremos continuar até isso passar — ditei séria.
— E se não passar?
Engoli em seco e senti um amargor tomar conta da minha boca, mordi o lábio e desviei os olhos dos dela. Eu não queria pensar naquilo, todo o meu trabalho mental de manter isso no fundo da minha mente tinha ido para o espaço. Se Giulia tinha percebido, será que meu pai o tinha também?
— Madrinhas e padrinhos se juntem na pista de dança! — Anita e Beatrice falaram em conjunto no microfone.
Olhei para Giulia que apenas deu de ombros e levantou. As pessoas saíram da pista de dança para dar espaço para nós, levantei e respirei fundo, então vi uma mão à minha frente e olhei para cima, vendo Vincenzo sorrindo. Era bom tê-lo de volta, era bom tê-lo como melhor amigo e eu deveria contar pra ele e pra Giovana tudo que tem acontecido e tudo que tenho sentido, talvez isso me deixasse menos mal, mas eu simplesmente tinha medo, vergonha e talvez um pouco de receio.
Agarrei sua mão curvando os lábios e fomos para a pista de dança onde todos os padrinhos e madrinhas seguiam as noivas. Começamos a dançar e ele me encarava pensativo. Vince sempre foi na dele, observador como todo bom barman que ouvia tudo, porém, guardava as informações para si. Ele era extremamente inteligente, sagaz e com um humor leve e engraçado. Estar perto dele era um sinônimo de paz e tranquilidade, ele passava isso no modo que falava e que agia, era confortável.
— O que está acontecendo, ?
— Como assim? — Franzi o cenho, ele me girou e voltei a ficar frente a frente com ele.
— Sabe que não precisa mentir pra mim.
— Não tem sobre o que mentir, você não me perguntou nada — brinquei com ele que riu.
— Tem razão. Vou ser mais direto então… — Antes que ele pudesse falar algo, ele me girou e trocamos de casal, agora estava com Cristian.
— Está lindíssima, cunhada.
— Muito obrigada…
Dançamos mais um pouco e fui girada de volta para Vincenzo, que colocou os lábios próximos do meu ouvido e disse:
— Qual o nome do homem que está tirando seu sono e seu brilho nos olhos, ?
Afastei-me dele com os olhos arregalados, como diabos ele sabia disso? Podia até ser algum tipo de poder de barman que eu desconhecia, mas não, era apenas meu melhor amigo preocupado comigo. Ainda lembro quando gostei de um menino da escola e Vince foi o primeiro a notar que eu estava chateada por ter sido rejeitada. Eu podia até esconder bem as minhas emoções e decepções, mas nada passava batido por ele.
Quando vi Giovana se aproximando eu apenas girei, fugindo daquela conversa desconfortável e que eu não queria falar. Chega, chega de todos me cercando e me cobrando algum tipo de explicação. Nem sofrer em paz eu podia? Olhei para o meu par da vez e claro, o motivo do meu problema estava agarrando minha cintura e segurando a minha mão.
— Impressionante como sempre acabamos juntos.
Perroni
Depois de toda a cerimônia, os convidados se acomodaram nas mesas e cadeiras, a bebida começou a ser servida e todos se divertiam, até que chegou o momento. Os casais de padrinhos seguiram as noivas para abrir a pista de dança. Achava que era a primeira vez que eu me sentia tão nervoso por algo tão simples. A música começou e de tempos em tempos os casais trocavam, finalmente, depois de tantos dias, olhei nos olhos verdes mais uma vez, por mais que eu estivesse fugindo deles ultimamente, eu adorava olhar pra eles. Vi ela respirar fundo, coloquei minha mão em suas costas sentindo a pele dela queimar em minhas digitais.
Era impossível desviar meus olhos dos dela, porém, precisava disfarçar, afinal, todos estavam prestando atenção nos padrinhos e madrinhas. Mantive meu olhar em qualquer lugar que não fosse seu rosto, minha mão suava na dela, que não estava tão diferente assim da minha.
— Impressionante como sempre acabamos juntos. — Ela me encarava séria.
— Parece até destino — brinquei, queria tirar o peso que rondava a gente a cada minuto que passávamos tão próximos.
— Não acredito nessas coisas — vi seus olhos rolarem —, talvez se a gente tivesse vindo em famílias diferentes. — Cheguei a tremer apenas pelo comentário dela. — No fundo, no silêncio do meu quarto de madrugada, desejei isso algumas vezes. — Meus olhos ficaram estáticos olhando para os verdes dela, ela não podia falar isso pra mim, não agora, sabendo o que eu sei e da força que faço para me manter em silêncio. — Desculpe, não deveria falar isso. Estamos conseguindo resistir, até diria que estamos indo bem… — Estendi meu braço segurando sua mão para que ela fosse e voltasse rodopiando até encontrar meu corpo. — Devo ter tomado champanhe demais.
— Precisa beber com cautela, …
— Todo mundo resolveu escolher o único dia que queria esquecer de tudo pra me lembrar do quanto minha vida está um caos? — ela me interrompeu, sua mão agarrou o meu ombro e estávamos frente a frente novamente.
— Estou te lembrando que ainda está em recuperação.
— Eu estou ótima, .
— Por que está tão arredia?
— Achei que tínhamos combinado de ficar longe e evitar os nossos costumeiros contatos…
— Não precisa voltar a me odiar pra podermos conviver.
— Antes fosse tão fácil assim, , eu só preciso beber porque algo tem que servir pra adormecer essa vontade de beijar sua boca.
A música acabou naquele momento, engoli em seco e fiquei estático com o que ela tinha falado. Aquilo não era uma coisa que ela diria e se já estava assim naquele momento, o que ela era capaz de falar pra alguém? Eu precisava fazê-la ficar sóbria de novo antes que algo que não devesse saísse da boca dela.
— Ok, chega, você bebeu demais — sussurrei.
— Não estou bêbada! — Ela bufou ao me empurrar.
Agarrei o pulso dela e a puxei para perto novamente e sussurrei:
— Não faça cena, .
— Não se atreva. — Ela puxou o pulso do meu aperto e saiu andando para longe.
Respirei fundo e quando olhei ao redor, Luna me encarava com uma interrogação em sua face. Giulia chegou ao meu lado e disse:
— Vá consertar seja lá qual foi a burrada que fez, .
— Por que você acha que a culpa é minha, cazzo?
— Não é óbvio?
— Não! Nossa relação sempre foi complicada, mas resolvemos essa questão. — Giulia me encarou surpresa por eu ter estourado, porém, era impossível não sentir raiva naquele momento. — Chega de me colocar como culpado, espero que isso tenha acabado aqui.
Por mais que eu já estivesse irritado com essa coisa da Giulia sempre achar que eu fiz algo para , quem eu queria enganar? Eu estava preocupado com ela. Então saí em direção à porta do jardim, que foi por onde ela passou, no caminho peguei um copo de whisky da bandeja de algum garçom e virei garganta abaixo, deixando o copo em uma mesa qualquer. Cheguei ao lado de fora e olhei para os lados, passei os olhos pelo jardim e então vi a sua silhueta no meio do gramado, ela se abraçava e olhava para o céu. Caminhei devagar e assim que estava atrás dela, ouvi o choro baixo e fechei os olhos compartilhando a dor que ela sentia.
Estava se tornando difícil viver sob o mesmo teto.
— Quer que eu me mude daqui? — Ela virou de repente me encarando, sua expressão era de surpresa e confusão. — Não posso deixar que sofra dessa forma.
— Pare… pare de só olhar por mim. — Ela passou a mão pelo rosto tentando limpar as lágrimas e me encarava com raiva. — Não minta pra mim… — ela cutucou meu peito com o indicador — está tão em sofrimento quanto eu.
— Eu preciso agir assim, preciso proteger você.
— Por que, ? Por que você acha que me deve algo? Pelos anos de ódio que tivemos um pelo outro ou porque você me maltratou durante a adolescência?
— Não é isso, … — Eu balancei a cabeça em negativo.
— Então me diga! — ela gritou em prantos. — Pare de esconder tudo aí dentro!
Era difícil vê-la daquela forma, mas ela estava bêbada, eu não iria discutir aquilo ali, não assim. Sóbria, ela tomou uma decisão há semanas e esse foi o posicionamento que escolhemos ter sobre como a nossa relação se seguiria. Eu precisava ser frio, por mais que a magoasse ainda mais.
— Alguém tem que pensar de forma racional, . — Talvez eu me arrependesse do que iria falar, mas eu sabia que ela estava fragilizada, já tínhamos decidido o que fazer e alguém tinha que agir feito um imbecil para nada sair do controle e esse alguém tinha que ser eu, afinal, eu já estava acostumado. — Temos que ignorar essa aventura que resolvemos viver.
— Aventura? — Ela riu sem humor enquanto lágrimas caíam de seus olhos e nem em uma tortura eu me sentiria tão mal quanto naquele momento. — Você é um figlio de puttana! Eu te amo, seu idiota! Como você tem a coragem de me dizer isso?
Arregalei meus olhos e senti como se tivesse perdido o chão, aquele frio no estômago chegou com tanta força que eu sentia uma leve vontade de vomitar. Eu não tinha a mínima noção de que ela sentia o mesmo que eu. Óbvio que eu sabia que o desejo entre eu e ela era recíproco, mas amor era algo tão palpável. Ela realmente me amava? Então a dor que eu sentia era a mesma que a dela e viveríamos o resto de nossas vidas com essa pedra em nossos corações?
— Eu estou vivendo o pior dos meus dilemas… — Ela me puxou dos meus pensamentos. — Por um momento eu queria que a Alessia estivesse certa. — me olhou com uma angústia em seus olhos, o pedido mudo para alguém salvá-la do buraco em que estava se enfiando mais uma vez e dessa vez seria culpa minha.
Ela passou por mim e começou a andar para longe, mas assim que retomei o controle do meu corpo, eu corri atrás dela e segurei seu pulso, fazendo-a virar para mim.
— Me solta, .
— Não.
— Me solta! — disse mais alto.
me olhou irritada e começou a me bater no peito. Seus socos pareciam mais um pedido de socorro e o meu lado racional lutava, trabalhando a todo custo tentando me convencer a não dizer o que minha emoção queria gritar, depois de ouvir a confissão dela, tudo que eu planejei foi por água abaixo.
Eu só queria beijá-la.
Abraçá-la e dizer que tudo ficaria bem.
— Por favor… — Ela foi parando de me bater assim que escutou minha voz soar suplicante, e me olhou nos olhos. — Me diz que isso não é verdade… Que você queria que não fôssemos irmãos… — Ela mordeu o lábio e seus olhos brilhavam das lágrimas. — Diga, ! — Sacudi ela tentando trazer bom senso para nós dois.
— Nunca amei ninguém como eu amo você.
Entreabri os lábios olhando para ela, eu estava incrédulo de que aquilo tinha saído de seus lábios.
Queria tanto beijá-los.
— ! — Olhei por cima da cabeça dela e vi Filippo. — O Don quer falar com você.
Eu simplesmente travei, eu não sabia o que fazer, estávamos tão perto e ao mesmo tempo tudo ao nosso redor dizia para ficarmos longe. Respirei fundo. E se eu apenas ignorasse tudo e a beijasse, e dissesse que eu a amo e que podemos ficar juntos? Ela me odiaria por dizer esse segredo pra ela?
— Papai precisa de você, .
— Eu preciso de você, …
— Você não pode precisar de mim e nem eu de você, sempre soubemos disso. — Ela recolheu o braço, fazendo eu soltar seu pulso, abraçou seu próprio corpo e saiu andando, passando pelo nosso primo, sem nem mesmo o olhar, e entrou na mansão pela cozinha.
Passei a mão pelo cabelo, nervoso, respirei fundo e olhei para o lado tentando me acalmar para não cometer uma loucura. Dei alguns passos e acompanhei Filippo até o interior da mansão. Chegamos no escritório e não vi ninguém, virei para meu primo e já sabia onde aquilo ia dar, tudo que eu não precisava: um sermão. Dei alguns passos até a garrafa de whisky e servi meio copo. Filippo me encarava com uma carranca, esperei ele abrir a boca e ele parecia esperar eu ficar confortável, então sentei na cadeira do meu pai.
— Ótimo, sentou na cadeira que vai te fazer lembrar do seu lugar. — Ele cruzou os braços e me encarou, sério.
— Vai me dar lição de moral no casamento da Bea?
— Se for preciso…
— Não fode, Filippo, eu tô na merda faz semanas… — Soltei o ar com força antes de dar um gole em meu copo.
— Eu não sei o que seu pai te disse aqui dentro, mas vejo o peso que colocou nos ombros.
— Caso queira saber, posso contar… — Dei de ombros enquanto dava outro gole na bebida.
— Você sabe que não pode…
— Esse fardo é pesado demais pra eu carregar sozinho. — Balancei a cabeça em negativo, queria arrancar aquela informação da minha cabeça.
— Imagino que seja.
— Não, você não imagina nada, Filippo! — Bati o copo de vidro na mesa de madeira. — Ver a mulher que eu amo em sofrimento e saber que posso acabar com ele e ainda assim colocá-la em outro está me tirando o juízo!
— Precisa saber que todo Don tem seu fardo, .
— Eu não posso assistir isso sem poder fazer nada, ela disse que me ama! — Soquei a mesa com força e olhei pra baixo sentindo uma lágrima deixar meu olho.
— Então temos uma pretendente? — Arregalei os olhos e senti meu corpo gelar, não precisei olhar pra frente para saber que era meu pai. — Quem é a felizarda?
— Otelo… — Meu primo tentou contornar a situação, por mais que ele estivesse tão nervoso quanto eu. — Estávamos falando sobre algo do passado.
— Quieto, Filippo. — Meu pai deu dois passos em minha direção e eu senti meu corpo retesar, eram raro as vezes em que ele falava daquela forma com Filippo. — Vamos, , conte-me.
— Não podemos ficar juntos, Otelo, então não precisa se preocupar.
— Eu me preocupo que você ainda não tenha uma esposa, precisa de herdeiros. — Ele estava sério demais, falando baixo, naquele tom de comando que eu odiava, mas que sabia que era um momento delicado.
— Estamos no casamento da Bea, vamos conversar sobre isso outro dia. — Filippo tentou apaziguar, olhava pra mim desesperado e eu entendia, mas eu já estava sufocado com toda aquela história.
— Não vou me casar sem amor, já tentamos ir por esse caminho, pai. — Peguei o copo e virei o restante do líquido antes de depositá-lo novamente na mesa.
— Essa moça que te ama… Você também a ama?
— Isso não vem ao caso, vamos voltar para a festa. — Contornei a mesa e fui em direção à porta do escritório, mas meu pai colocou a mão em meu ombro levemente, apenas em tom de aviso, para eu ficar ciente que não estava permitido sair dali. — Por favor, pai, vamos deixar essa conversa para depois — falei sem olhá-lo, sentia meu corpo rígido e aquela situação só tinha um caminho e eu não queria ir por ele.
— Se eu contar para ela a verdade vocês podem ficar juntos?
Se existisse uma forma de sentir o coração ser arrancado do peito e continuar vivo, talvez eu tivesse sentido naquele exato momento. Afastei-me olhando para o meu pai, ultrajado com aquilo, como ele podia ter feito isso comigo? Com ela!
— Achava que eu não sabia? — Aquele olhar arrogante de quem estava se divertindo com a miséria dos outros dominou sua face.
— Por que… — Olhei para ele. — Por qual motivo me torturou me contando que ela não era sua filha e pedindo pra eu guardar segredo?
— Você vai ser o Don, , não pode se mover pela emoção.
— Esse não pode ter sido o real motivo, estou em sofrimento pra você me provar um ponto?
— Não, estamos nesse momento discutindo o futuro da Vincere, você é o futuro da famiglia.
— Eu sou adulto, mais de 20 anos depois e você segue sendo um treinador e não um pai. — Ri, passando a mão no rosto sem acreditar que aquilo estivesse acontecendo.
— O treinamento nunca acaba. — Ele contornou a mesa e sentou em sua poltrona. — Todo dia você vai aprender algo novo, vai sofrer por uma decisão que precisou ser tomada e vai ter que matar alguém que você não queria que fosse pra vala.
— Eu sou seu filho! — Soquei a madeira da mesa com as duas mãos ao encarar meu pai.
— E também é o prossimo. — Otelo alterou o tom de voz, colocando toda sua autoridade em suas palavras. —Recomponha-se e saiba o seu lugar, saiba que você não é a única pessoa que sofre as consequências das suas ações.
— E pra isso precisou colocar seus dois filhos em agonia? — Sentia meu peito doer, eu não era mais aquele frio, eu não conseguia ser, não quando se tratava dela. — Se isso for ser Don, eu não quero esse cargo.
— Não fale insanidades! — ele berrou, socando a mesa, o que fez eu e Filippo nos sobressaltarmos. — Sempre soube qual era o peso desse lugar.
Balancei a cabeça em negativo, como ele conseguia ser tão sangue frio dessa forma?
— Agora eu entendo por que minha mãe fugiu disso…
— Ela me deixou pelo mesmo motivo que te odiou durante tantos anos, — falou, jogando seu corpo na poltrona.
— Não, eu não sou igual a você, jamais faria isso com uma filha. merece saber a verdade…
— Só estou te falando que amor nenhum sobrevive a pessoas como nós ou acha que esse é o único empecilho? Que vai viver feliz com você só por saber que não são irmãos?
— Não somos… irmãos? — Virei a cabeça com rapidez e vi parada na porta do escritório.
Arregalei os olhos.
Aqueles minutos encarando ela pareciam horas, meu pai nem sequer tentou falar algo, parecíamos um espetáculo acontecendo bem à sua frente e ele queria ver qual seria o final da grande tragédia romântica. estava claramente em choque, parecia que ela tinha acabado de se recompor e lágrimas já escorriam pela sua face novamente.
Dei dois passos em direção a ela e disse baixo:
— …
Ela saiu a passos rápidos dali.
— ! — gritei.
Eu saí atrás dela, cheguei no salão e tinha gente demais, corri os olhos por todos os lados e vi seu cabelo ruivo e o vestido vinho passando rapidamente pelas pessoas. Dei mais alguns passos me esgueirando pelos convidados e consegui tocar em seu braço, ela se virou pra mim com um olhar que carregava um rancor e uma mágoa muito grande.
— Você sabia esse tempo todo?
— Não…
— Não minta pra mim! — ela gritou e algumas pessoas em volta olharam para nós, por mais que a música estivesse alta, foi possível ouvir. — Você já escondeu coisas demais de mim, mas isso…
— Vamos conversar em outro lugar,
— Não tenho nada pra falar com você, … — Ela olhou para o chão e voltou a olhar pra mim, tentando segurar aquelas benditas lágrimas que estavam quase transbordando pelos seus olhos. — Eu realmente queria que eu tivesse continuado te odiando.
Arregalei os olhos e entreabri os lábios, fiquei tão desnorteado que acabei afrouxando minha mão em seu pulso e ela se soltou de mim andando mais rápido. Eu a seguiria não importando para onde, ela estava bêbada, não a deixaria sair das minhas vistas. No entanto, senti meu braço ser agarrado antes que pudesse dar mais um passo e olhei de supetão vendo Luna me olhando com o cenho franzido.
— O que tá acontecendo?
— Agora não, Luna! — Soltei meu braço e continuei andando.
Sabia que tinha sido muito ríspido, mas eu não tinha tempo, continuei desviando das pessoas e cheguei na porta da frente. Olhei para os lados e me subiu uma angústia, procurei por Ettore ou Austin para chamá-los para me ajudar a ir atrás dela, mas no portão só tinham seguranças. Corri o mais rápido que pude e vi que Théo latiu e tentou morder os homens no portão, que tentaram segurar ele, mas foi em vão. O cachorro saiu como se sua vida dependesse disso, ele tinha sido treinado para protegê-la e seu instinto iria falar mais alto sempre, então naquele momento eu soube que tinha deixado a propriedade.
Cheguei na rua e vi o pulguento já longe de mim, no fim da rua e então virou a esquerda, ele estava pelo instinto e pelo cheiro dela. Théo era mais ágil que eu, afinal, corria em quatro patas. Eu fiz o mesmo caminho e corri já sentindo meus pulmões arderem. sempre soube correr. Assim que consegui alcançar o suficiente para vê-la atravessar a avenida, eu gritei:
— !
Théo também latiu da calçada e foi aí que ela parou, quando ouviu o latido do seu cachorro, agradecia mentalmente por ela ter parado, mas assim que ela virou completamente o corpo, Théo correu em sua direção, porém uma moto estava em alta velocidade e tentou frear. Eu comecei a caminhar mais rápido em direção a eles, mas não hesitou um segundo ao entrar na frente de Théo.
Vi as faíscas da moto sendo arrastada no asfalto e caiu para o outro lado.
— Não!
Cheguei o mais rápido possível até ela e ajoelhei, tentando ver onde ela tinha se machucado. Ela estava de olhos fechados, mas se mexia fazendo uma careta de dor, respirei aliviado por ela estar respirando e se mexendo.
— Da onde surgiu essa maluca?! — Ouvi a voz do homem que dirigia a moto ao se aproximar e aquilo me irritou profundamente.
Levantei já tirando minha arma do coldre, virei meu corpo de lado e apenas meu braço foi em direção ao homem, apertei o gatilho sem nem mesmo pensar e guardei a minha pistola novamente. Foi só aí que olhei em volta, pois as pessoas gritaram depois que eu atirei e o motoqueiro caiu morto no chão. Não estava preocupado com isso, então apenas me agachei e peguei no colo, caminhei devagar os quarteirões até em casa com Théo nos seguindo. franzia o cenho e segurava o braço, eu falava com ela, mas nada de resposta, acreditava que ela podia estar desmaiada.
Então assim que cheguei na mansão, os seguranças abriram para a gente passar, fui até meu carro e a coloquei no banco do passageiro, transpassei o cinto de segurança e afivelei. Olhei para a porta da mansão e vi Otelo olhando tudo atento, como se assistisse a um espetáculo, Filippo estava mais atrás, uma expressão de desespero, mas de quem não podia fazer nada para me ajudar. Liguei para Ettore e Austin para nos encontrar no hospital para fazer a segurança e dei partida no carro para sair dali o mais rápido possível.
Capítulo 27
Perroni
— O responsável pela paciente Alonso, por favor, me acompanhe.
Caminhei até a enfermeira e ela me levou até o quarto onde estava, disse que o médico logo estaria ali para me explicar tudo. Então sentei na cadeira ao lado da cama e a vi ali, serena, dormindo. Peguei em sua mão e acariciei, fechei os olhos e abaixei a cabeça, pensava no quanto eu poderia ter evitado tudo aquilo. Eu não sabia exatamente o que fazer, se era melhor eu sumir da vida dela ou ficar ao seu lado, porém, sabia que essa decisão teria que ser dela.
— Boa noite, senhor Perroni. — Virei para trás e vi o médico.
— Boa noite, doutor Andrea. — O médico que sempre nos atendia no hospital em que mantínhamos o controle entrou pela porta.
— Senhor Perroni, a senhorita sofreu alguns arranhões, deslocou o ombro, mas isso já foi resolvido. Ela também bateu a cabeça, por isso perdeu a consciência, mas de acordo com os exames está tudo normal. — Ele virou uma folha da prancheta e continuou: — O que me preocupou foi a porcentagem de álcool no sangue dela.
— Está tudo bem com a cabeça dela, doutor?
— Sim, fizemos exames de imagem e não houve nenhum trauma significativo — ele falava calmamente. — Ela costuma beber muito?
costumava beber uma quantidade considerável de álcool, mas eu também, então não era algo tão relevante assim. Ainda por cima, estávamos no casamento e ela estava bebendo mais do que o normal devido a toda a situação.
— Estávamos no casamento da minha irmã, doutor.
— Entendi. — Ele anotou algo.
— Quanto tempo pra ela se recuperar?
— Ela precisa ficar em observação nessas primeiras 24 horas. É importante que quando ela acorde tenha alguém em quem ela confie ao lado dela, pois pode ser que as memórias estejam um pouco embaralhadas.
— Obrigado, doutor Andrea. Não sairei do lado dela.
— Qualquer dúvida, estou à disposição.
O médico saiu, deixando-me a sós com , eu nem sabia exatamente o que fazer, talvez agora o abismo entre nós tenha se criado novamente. Nossa família era complicada e todos nós fazíamos o melhor que podíamos, mas os segredos existiam mesmo entre nós, parecia fazer parte de nossas personalidades mesmo sendo tão diferentes. Senti meu celular vibrar no meu bolso e o peguei, vendo a mensagem do meu primo, ele estava na cafeteria do hospital me esperando.
Respirei fundo e fui até lá. Se fosse pra escutar sermão, que fosse logo.
Cheguei na lanchonete e vi ele sentado à uma mesa, assim que ele me olhou, apontou para a cadeira à sua frente. Caminhei até ele e sentei, vendo aquele café horroroso em um copo de papelão, mas talvez eu estivesse precisando disso. Sentei em silêncio e dei um longo gole na bebida quente, suspirei e me recostei na cadeira.
— Como ela está?
Levantei a cabeça devagar para olhar para o meu primo e disse:
— Bem, não foi nada grave. Ela deslocou o ombro, mas os médicos já resolveram.
— Ótimo. Ela vai precisar de você quando acordar.
— Não sei se ela vai me querer lá, Filippo. — Soltei o ar de maneira exausta.
— Uma hora ela vai entender que não foi escolha sua.
— Não vai ser assim tão simples. — Dei mais um gole em meu café.
— Não disse que seria simples, mas se você a ama, deveria tentar.
— Achei que não deveria…
— Por favor, — ele me interrompeu e revirou os olhos —, eu e você sabemos que mesmo que vocês fossem de fato meio-irmãos isso não impediria.
— Claro que impediria, você está louco? — exclamei sussurrado.
— Impediu de vocês se apaixonarem? — disse como se fosse óbvio.
Engoli em seco e o olhei sem ter o que dizer, era visível em meu rosto que eu estava atordoado com aquela observação do meu primo. Nada impediria de nos amarmos, mas jamais ficaríamos juntos se tivéssemos uma ligação sanguínea.
Disso eu tinha certeza.
— Eu vou voltar... — Levantei da cadeira devagar.
— Primo… — Olhei pra ele. — Seja forte e persistente, ambos conhecemos o gênio da , sabemos que vai ser difícil, mas ela precisa de você, agora, mais do que nunca.
Assenti e respirei fundo antes de dizer:
— Obrigado pelo café.
Entrei naquele quarto escuro e me sentei no sofá que tinha ali, suspirei olhando-a deitada ali, tão frágil. Poderia ter acontecido algo pior e eu não consigo deixar de trazer essa culpa pra dentro de mim. Era desesperador pensar em como seria dali pra frente, será que o melhor seria mesmo eu me mudar? Talvez a vida de fosse mais leve sem eu estar no mesmo ambiente que ela.
— Onde eu tô? — Não sabia quando eu tinha pegado no sono, mas acordei ouvindo a voz dela soar irritada.
Abri os olhos lentamente, me arrumei no sofá. Ela tinha acordado, então eu estiquei o braço pra acender o abajur ao meu lado apesar de que pela claridade já estava amanhecendo. Esperei para que ela se acostumasse com a nova luminosidade. Vi seus olhos verdes me medirem e olharem para o outro lado do quarto, ótimo, ela já demonstrava que não me queria ali.
— Estamos no hospital.
— Percebi. — Ela se ajeitou na cama, gemendo baixo, acreditava que deveria estar dolorida.
— Você quer que eu pegue algo pra você? — Levantei, prontamente.
— Não preciso de nada.
Talvez fosse mais difícil do que previa, ela nem sequer me olhava, e eu entendia, aceitaria o que viesse pela frente. Podia até ser minha culpa toda essa merda ter acontecido, inclusive a gente ter se apaixonado, fui eu que provoquei, eu que toquei e beijei. Passei muitos anos precisando enterrar aquele sentimento que eu já sabia que existia, afastá-la de mim, manter e alimentar seu ódio por mim, porém, agora, não tinha nada que impedia.
Nada me impedia de sentir, de demonstrar, de viver esse amor maluco que sempre existiu em mim e que também foi crescendo dentro dela nesses meses. Se ela me amava realmente, ela iria me perdoar em um momento ou outro, pelo menos assim eu esperava, então eu não iria desistir dela.
Não sem tentar todas as alternativas possíveis.
— Vamos focar em você, como você está? — comecei perguntando o óbvio.
— Ótima.
Se ela não queria conversar agora, sem problemas, eu também poderia ignorar o elefante no meio do quarto.
— Ótimo, vou voltar a dormir então. — Sentei no sofá novamente e tirei o blazer.
— Eu não sei como pode dormir depois de tudo que aconteceu… depois de tudo que você fez, na verdade, deixou de fazer. — Ela riu, debochada, e eu suspirei.
Inacreditável.
— , não vou discutir com você.
— Não existe discussão quando tudo está claro, ! — Ela gesticulava como podia, já que um dos seus braços estava com uma tipoia.
— Você vai querer me ouvir em algum momento pra entender?
— Não quero, obrigada. — Ela fechou a cara, emburrada.
Aquilo seria impossível. Se eu não falasse naquele momento, quando seria? O abismo iria aumentar cada vez mais entre nós, mais distantes do que antes e ela nunca entenderia ou me perdoaria. Não era o melhor momento, mas quando seria?
— Bom, você não pode ir a lugar nenhum, então você não tem muita escolha, não é? Terá que me ouvir. — Dei alguns passos até o pé da cama, ficando próximo dela, que manteve o cenho franzido. — Eu não sabia, como você supôs. Otelo me contou faz alguns dias e eu nem sequer conseguia olhar pra você.
— Você teve dias e nem ao menos teve a coragem de me falar a verdade. — Ela estava visivelmente magoada.
— Ele exigiu sigilo, , você esquece que o nosso pai não é só pai, ele é o Don e se não seguirmos as regras…
— Seu pai, aparentemente. — Vi que ela falou em um tom ácido, mesmo que fosse nítido que aquilo doía nela.
— Por favor, … — Pressionei os olhos com o polegar e indicador antes de olhar para ela novamente e continuei: — Eu estava em agonia tentando entender o que era melhor, se você saber a verdade não iria piorar as coisas.
— Bom, definitivamente não ter me falado piorou bem mais, não é? — Ela apontou para si mesma mostrando o estado em que se encontrava.
— Você não tem ideia o quanto foi um inferno na minha mente — dei mais alguns passos falando de maneira firme e ela engoliu em seco —, o quanto eu odiava ter que sentar à mesma mesa que você e saber que eu estava mentindo pra mulher que eu amo. — Ela foi mudando de expressão, ela parecia ter ficado surpresa e seus olhos foram marejando, mas não me importei, eu falaria tudo. — Eu faria qualquer coisa pra te ver bem, mesmo que isso significasse omitir algo de você, mesmo que isso me consumisse e me levasse à insanidade. — Franzi o cenho abaixando o olhar e sacudi a cabeça em negativo. — É claro que não foi uma aventura e você sabe disso tanto quanto eu. — Respirei fundo, sentindo cada peso daquelas palavras na minha língua e voltei meus olhos a ela.
“Só que eu precisava te manter longe pra sustentar a mentira. Eu não sabia como você reagiria caso contasse, por mais que fosse minha vontade te falar, te beijar e dizer que tudo ficaria bem, tive medo de você entrar naquele escuro de novo e não sair mais… Tive medo de perder você mais uma vez e mesmo que perdesse a oportunidade de viver o amor que eu sinto por você por omitir que nada mais impede a gente, o que me consolaria era eu saber que você estava bem. Eu ainda estaria por perto para garantir que você estivesse bem…”
— … — ela soprou meu nome, claramente balançada com tudo que eu disse.
— Eu só espero que possa me perdoar um dia… — Resolvi me afastar e findar aquela conversa.
Tirei minha arma do coldre e coloquei em cima da mesa lateral. Percebi, de canto de olho, que analisava o que eu fazia de longe. Estava decidido em tentar dormir, então deitei no sofá, era o melhor a se fazer, não tinha mais nada que eu pudesse dizer que iria melhorar a situação.
— Eu vou pensar sobre tudo… — Sua voz baixa me fez voltar o olhar para ela. — Tá tudo muito confuso na minha cabeça, mas uma coisa é certa. — Vi ela molhar os lábios com a língua, antes de pressionar um contra o outro e continuar: — Eu não quero voltar para a mansão quando sair do hospital.
Isso não era bom.
[...]
Perroni
Acordei sentindo meu corpo dolorido, por mais que tivesse acordado com o sol nascendo e recebido aquela avalanche de informação do , parecia que eu estava mais pesada e cansada. Talvez fosse o esforço mental que eu fiz pra tentar entender, tentar encaixar as peças de algo que eu nem sabia se precisava ser encaixado. Era claro como a luz do dia de que meu pai, quer dizer, Otelo, escondeu de mim uma parte importantíssima da minha vida.
No fundo, acho que sempre soube.
No fundo eu me sentia aquela garota perdida. Desde a adolescência eu buscava uma forma de me encaixar. Administrar a Fascino foi algo que me trouxe um lugar, um sentimento de pertencimento, além das minhas irmãs, claro, sempre senti uma conexão com elas. Saber que elas não eram minhas irmãs era o que me deixava triste, mas nada apagaria o amor que eu sentia por elas. Eu queria estar com mais raiva, mas parecia que eu estava sendo complacente. Não conseguia entender como que meu pai fez aquilo comigo, era cruel demais esconder algo tão grave de alguém que você diz que ama, mas ao mesmo tempo, parecia que eu já tinha passado pelo choque quando Alessia me contou.
Também estava chateada e magoada por ter escondido isso de mim, por mais que ele tivesse razão, que uma ordem do Don você apenas acata, era a minha vida, eu tinha o direito de saber. No entanto, fazer parte da Máfia era ter o seu dia indo de 0 a 100 muito rápido, uma coisa com a qual eu estava acostumada. Talvez tivesse sido a terapia que me preparou para lidar com tudo isso, porém, também sinto que quebrou algo importante dentro de mim. Como se uma parte minha estivesse morrendo devagar desde quando matei a Carolyn.
— Chegamos. — A voz de me tirou dos pensamentos.
Olhei pela janela do carro e vi o prédio de cinco andares de arquitetura antiga. Era bonito, ficava em um bairro calmo que ainda possuía rua de paralelepípedo. Era em um lugar da cidade que quase nunca tinha ido, a parte mais histórica, porém residencial, de Madri.
Desci do carro e vi ele abrir o porta-malas para pegar uma bolsa que tinha algumas roupas minhas, depois ele ou umas das minhas irmãs me traria o resto das minhas coisas. Naquele momento, eu não queria voltar pra casa, se é que poderia chamar assim ainda.
Subimos as escadas. O lado ruim de prédio antigo era não ter elevador ou pelo menos não um que funcionasse.
— Pode ficar o tempo que quiser — falou ao abrir a porta e me deixar passar.
— Só estou aceitando ficar aqui porque, como você disse, Otelo pode ir atrás de mim na boate.
Ao contrário do que pensava, o interior do apartamento era bem moderno, com certeza ele tinha feito uma reforma. A entrada dava diretamente na cozinha, dois degraus abaixo para o lado esquerdo, uma sala de estar e uma porta para a pequena varanda. Caminhei mais um pouco e olhei para o lado direito. Depois da cozinha tinha uma porta dupla estilo celeiro que imaginei ser o quarto. Olhei para trás e vi pegando whisky no balcão da cozinha.
— Era aqui que trazia as vagabundas que você comia?
— Nunca levei mulher nenhuma para casa ou para os meus apartamentos.
— Até os piores têm escrúpulos, afinal. — Sorri soltando o ar pelo nariz.
— Mais tarde eu trago o Théo. — Ele virou a dose de whisky ignorando o que eu tinha falado e se serviu de mais. — Agora vou enfrentar meu pai, caso eu desapareça, já sabe… — Eu engoli em seco com a insinuação dele.
— Não seja exagerado, está falando isso para que eu tenha piedade de você…
— Não quero piedade, , quero compreensão… quando você estiver pronta pra dar.
— Você está sendo bem dramático…
Ele suspirou e bateu o copo contra o balcão.
— Quer me tratar mal? Quer jogar tudo que eu já fiz de ruim pra você na minha cara? Fique à vontade, , isso não vai me fazer arredar o pé. — Ele deu alguns passos em minha direção e eu cruzei o único braço que tinha disponível junto do outro que estava preso pela tipoia e soltei o ar pelo nariz. — Estou aqui porque eu quero, porque eu te amo e você querendo ou não, nada — ele olhou fundo nos meus olhos e eu senti meu coração apertar —, nada vai mudar isso. Sinta-se em casa. — Ele jogou o chaveiro em cima da mesa ao meu lado, virou as costas e foi embora fechando a porta.
Mordi o lábio com força e as lágrimas deixaram meus olhos, apertei-os tentando fazer com que elas parassem de escorrer. Minha vontade era de gritar, minha vida estava virada de cabeça pra baixo mais uma vez e agora eu estava sem casa também. Peguei a pequena mala e arrastei junto comigo, coloquei em cima da cama e olhei o quarto bem arrumado. deveria ter mandado alguém limpar e arrumar tudo.
Olha onde eu estava, sozinha, em um apartamento que não era meu, com medo de enfrentar meus pesadelos e assustada demais para lidar com o homem que me criou. Virei o rosto dando de cara com meu reflexo em um espelho de chão, eu estava patética. Eu precisava parar de fazer todos se movimentarem por causa de mim, precisava agir como uma maldita Perroni. Até podia não ter o sangue de Otelo, mas cresci como se tivesse e nada apagava o meu treinamento.
Respirei fundo e passei as mãos de forma bruta nas minhas bochechas tirando as lágrimas que restavam ali. Era um ótimo momento para engolir tudo e transformar em algo que me movesse adiante, que me fizesse esquecer a minha parte frágil e agisse mais como a que eu fui criada pra ser. Trouxe o ar para os meus pulmões enquanto me aproximava do espelho, levantei o queixo e me encarei nos olhos. A partir dali eu seria mais como uma mafiosa digna de causar medo. Vi minha expressão mudando no reflexo e era essa que eu passei tanto tempo rejeitando.
Eu sabia dos lapsos de pensamentos que eu tinha no decorrer da minha vida, alguns que eu sufocava por querer manter os princípios idôneos. Se eu já tivesse assumido esse meu lado eu não teria ficado tão fragilizada, não teria ficado doente por ter matado aquela vagabunda. Agora eu entendia, eu deveria ter me tornado assim há muito tempo, aceitar o meu lado obscuro não era opção, era necessidade. Não importava que eu não fosse filha de sangue de Otelo, eu fui registrada e criada como tal e se agora não houvesse um lugar pra mim na Vincere, eu criaria um.
Perroni
Eu sabia o que ela estava fazendo, pois eu passei boa parte da minha vida fazendo isso. Ela quer me afastar pra não ter que lidar com a batalha interna que ela vai ter que travar, batalha essa que eu mesmo estava tendo que enfrentar. Era difícil entender que agora podíamos ficar juntos, mas ao mesmo tempo tudo estava bagunçado demais. Só conhecíamos o ódio e o desejo que tínhamos um pelo outro, amor era muito mais profundo que isso e entender até onde estávamos dispostos a ir pra lutar por ele era um mistério.
Entrei na mansão e tudo estava silencioso, subi a escada e assim que abri a porta do quarto de , vi Théo me olhar triste. Era incrível como ele sentia e sabia tudo que estava acontecendo. Assim que peguei a bolsa grande, Théo começou a me cheirar e me rondar.
— Calma, garotão, eu vou te levar pra ela.
Continuei juntando as coisas e vi o livro que estava na mesa de cabeceira dela e peguei também. Avistei a coleira e coloquei em Théo, saí andando com ele me seguindo pelo corredor, desci a escada e tentava pensar em algo para levar pra ela, mas nada me vinha à mente. Então peguei a chave do carro em cima da mesa do Hall para continuar meu caminho.
Quando dobrei a rua do meu apartamento vi três carros parados em frente ao prédio, meu pai sentado nos degraus fumando e eu bati a mão no volante amaldiçoando quem quer que fosse. Aquele era o único imóvel que eu tinha que meu pai não tinha conhecimento, ou eu achava que não tinha. Como fui ingênuo. Respirei fundo e estacionei o carro, desci batendo a porta e meu pai levantou assim que me viu. Parei em frente a ele e a mais 5 soldados diretos dele.
— Como ela está?
— Está bem.
— Então por que não a levou para casa?
— Ela não quer voltar para a mansão.
— Não me importa, o lugar dela é em casa, leve-a. — Ele foi virar as costas para entrar no carro.
— Não posso levar ela a força, Otelo. — Ele voltou a me encarar com uma expressão neutra e essa era a que mais me deixava em pânico, deixava qualquer um na verdade.
— Vão. — Ele só fez sinal com a mão e três homens subiram me fazendo murchar, tudo tinha ido por água abaixo. — Achei que seria melhor você levar, mas já que não quer… Nós nos vemos em casa. — Engoli em seco e ele entrou em um dos carros que um dos soldados segurava a porta aberta.
Olhei em direção ao meu carro e Théo estava sentado no banco de trás me olhando através do parabrisa, de repente ele começou a latir e quando olhei para o lado, eu entendi. estava saindo de cabeça baixa, escoltada pelos soldados, e me olhou de baixo por segundos antes de desviar os olhos e entrar no carro da frente. Eu não tinha gostado nada do brilho que estava em seus olhos, aquele olhar eu não conhecia e nem muito menos entendia. Fiquei ali plantado, apenas olhando os carros irem embora, até sumirem das minhas vistas.
O que meu pai estava planejando?
Assim que cheguei em casa vi os carros dos capitães que respondiam diretamente ao meu pai enfileirados. Liberei Théo do banco de trás e ele correu para dentro da mansão, devia estar querendo achar a todo custo. Nem precisei entrar pela porta pra saber que os capitães tinham trazido todas para casa, mas assim que o fiz, minhas irmãs estavam ainda no hall de entrada conversando completamente perdidas com tudo aquilo.
— , finalmente! — Beatrice começou. — O que está acontecendo?
— Eu estava dormindo, morrendo de ressaca… — Luna reclamou.
— Se não tivesse ido pra boate depois de encher a cara no dia anterior ao casamento não estaria com tanta ressaca.
— Não venha com falso moralismo que ontem eu vi você usando cocaína! — Luna apontou o dedo na cara da irmã, que foi murchando.
— Eu estava na minha lua de mel, tem coisa pior do que ser tirada da cama com a Anita? — Ela fez bico.
— Silêncio — falei, sério. — Aguardem as ordens do Don.
— … — Olhei para o final do corredor e vi Filippo. — Escritório. — Acenei com a cabeça e fui andando para o que parecia ser a minha inquisição.
Minha cabeça estava uma merda, ao mesmo tempo que tudo passava por ela, também parecia um grande vazio. Eu não sabia o que esperar de tudo aquilo, meu pai era uma grande incógnita e essa era a pior característica dele. Eu odiava não saber o próximo passo, pois eu teria que ter reações espontâneas e nem sempre isso era uma boa ideia com Otelo. Entrei pela porta e a fechei atrás de mim, meu pai estava sentado em sua poltrona, fumando um charuto e com uma dose de whisky a sua frente em cima da mesa.
— Está preparado para falar o que tem que falar?
— Eu?
— Sim, você. — Ele puxou a fumaça e em seguida soltou. — É o prossimo, você vai dar andamento na reunião da famiglia hoje.Vai contar a suas irmãs que não é filha minha de sangue.
— Achei que…
— Você não queria tanto que ela soubesse? Pois bem, agora ela sabe — ele me interrompeu. — Porte-se como o Don, pois em breve esse será o seu cargo.
— Si, signore. — Abaixei a cabeça e obedeci. Pelo tom de voz e pela sua expressão, ele não queria nada além de obediência.
— Filippo, coloque suas primas na sala de jantar, quero resolver isso o quanto antes.
— Sim, Don Otelo.
Talvez eu tivesse que assumir aquele lado que não sente, que não teme e que faz tudo calculado. Agradecia por já saber a verdade, pois se tivesse que falar pra ela nesse momento pela primeira vez, talvez eu não conseguisse. Ia ser difícil demais fazer aquilo, mas se meu pai queria me provar um ponto, de que ser Don é ter que falar mesmo quando você está querendo se fechar; mesmo que tudo que você queira é se enfiar em um quarto e nunca mais sair, você precisa enfrentar seja lá o que apareça, tudo bem, eu faria o que ele queria.
— Vamos, ?
Meu pai se levantou e então saímos do escritório, entrei na sala de jantar e faltava apenas , que logo apareceu acompanhada do meu primo. Ela sentou em seu lugar de sempre, porém eu e meu pai estávamos de pé do outro lado da mesa. Vi me olhar como se já esperasse o que viria e aquela situação seria foda de engolir.
Alonso Perroni
Sentei na cadeira de costume e aguardei, eu não sabia o que Otelo pretendia, mas tinha uma ideia. Eu sentia uma raiva e um bolo no meu estômago se formando, era irritante ver tomando aquele lugar, pois eu sabia que em breve seria ele, seria a ele que eu responderia e acataria qualquer ordem. Se eu quisesse reivindicar meu lugar na família, mesmo não sendo parte dela, eu teria que ser mais forte do que tenho sido e agora eu entendia, tenho que ser mais como para o meu suposto pai me olhar como alguém digna de poder na Vincere.
Cansei de ser passional.
— precisa anunciar algo a vocês, minhas princesas. — Minhas irmãs olharam ansiosas para ele, que parecia receoso de falar.
— Não tem um jeito fácil de dizer isso, mas precisamos manter esse segredo em famiglia. — Vi ele olhar pra mim de uma forma preocupada e por mais que agora eu soubesse que o amava, aquela proteção exagerada ainda me irritava. — não é filha legítima do Don.
Vi minhas irmãs arregalarem os olhos e suas bocas entreabrirem. Entendia o choque, afinal, essa revelação tinha quebrado o restinho que ainda existia da antiga . A partir dali eu trilharia um novo caminho. Fui criada para ser alguém forte, racional, impiedosa e destemida. Já passei por tanta merda que ter a certeza de que não sou filha legítima de Otelo me fez querer ainda mais provar que eu posso ser melhor que .
Sempre foi sobre isso, não foi? Disputa. Então agora eu provaria que mesmo sem o sangue de Otelo eu poderia ser melhor.
— Isso não pode ser verdade… — Beatrice foi a primeira a reagir. — , isso é uma brincadeira? — Ela olhou pra mim em desespero.
— Não é. — Otelo respondeu. — A sua mãe, Beatrice, já tinha quando peguei você e Alessia me implorou para que ficasse com ela, já que não tinha condições de criá-la.
Beatrice me olhou carinhosamente segurando minha mão. As três eram minhas irmãs, não importava pra mim se de sangue ou não, nada mudaria isso.
— Você escondeu isso durante todos esses anos? — Giulia perguntou e Otelo apenas assentiu.
— Papai, isso é horrível — Luna disse, chorosa.
— Mas nada apaga os anos, minha princesa — Otelo olhou diretamente para mim —, você segue sendo mia figlia.
— Poderia começar a me tratar como tal, então, Don Otelo — respondi, firme. — Como ter me contado desde o início que não sou sua filha, assim como contou para .
— Você não estava pronta.
— Pronta pra quê exatamente?
— Para carregar alguns fardos. Eles eram meus para carregar na solidão de ser o Don e, logo, serem passados para o prossimo.
Ri sem humor, balançando a cabeça em negativo antes de falar:
— Agora, graças a você, estou quebrada o suficiente para estar pronta pra qualquer fardo e vou provar… Nem que seja a última coisa que eu faça.
— … — Bea me olhou preocupada.
— Tem certeza que está? — Vi Otelo me olhar com altivez, um olhar que nunca tinha recebido antes. Apenas, balancei a cabeça em positivo com o queixo ereto. — Vá até o porão, depois conversamos. — Vi ele sentar na cadeira e olhou para ele de maneira exaltada, preocupado com o que ele tinha preparado, mas eu não mudaria minha decisão.
Por mais que estivesse sentindo minhas pernas amolecidas, levantei da cadeira e caminhei devagar até o corredor que levava ao porão, senti minhas mãos formigarem, meu maxilar tensionado, pressionando os dentes contra os outros e o nervosismo latente. Eu estava petrificada, mas eu ia pegar esse medo e transformar em raiva. Desci os degraus devagar, abri a porta e vi um homem amarrado em uma cadeira com um capuz cobrindo a sua cabeça. A luz era precária, apenas um pendente com uma luz amarela fraca, devia fazer parte das torturas.
Dei alguns passos para dentro do cômodo depois de soltar a fechadura, olhei para o lado e vi um balcão com algumas armas. Uma corda, um fio de nylon, um revólver, um machado, uma marreta e uma pistola semi automática que sempre foi minha preferida. Sorri ao constatar isso e fui em direção a ela tirando a tipóia do meu braço para poder pegá-la.
— Finalmente veio me matar, …
Travei com a mão no ar. Se fosse um inimigo ele não saberia nomes, quem era aquela pessoa? Peguei a pistola e a segurei junto ao corpo, voltei até a frente do homem e fiquei encarando aquele corpo, até então, sem rosto. Respirei fundo e estava decidindo se eu iria tirar o capuz ou não. Se meu pai quisesse que eu provasse algo matando uma pessoa, talvez fosse melhor nem saber quem era. Contudo, ele saber o nome de me deixou curiosa e, além disso, também me deixou confusa.
Quem seria a pessoa conhecida que meu pai queria que eu matasse?
Levantei a mão até a cabeça dele, respirei fundo e engoli o bolo de saliva que se formou em minha boca, eu estava ansiosa pra caralho, mas nada me pararia, não agora. Levantei o capuz vermelho e meus olhos arregalaram. Tamanho foi o choque que eu dei dois passos para trás.
— Sério que mandaram a princesinha pra isso?
— Nero… — Meu coração acelerou.
— Veio terminar o serviço para o seu futuro marido, ?
Ele me chamou pelo apelido e aquilo trazia uma proximidade que eu não queria, eu precisava me recompor, precisava manter aquilo longe do meu emocional. Então comecei a repassar na minha mente tudo que ele fez de ruim. Por causa dele Carolyn veio parar aqui, por causa dele eu matei ela, ele traiu , a mim e a Vincere. Engatilhei a arma e eu estava pronta para acabar com aquilo de uma vez, se esse fosse o teste, eu passaria com louvor.
— Você está me confundindo com aquela vagabunda.
— O que houve? Está com ciúmes, docinho?
Sorri, perversa.
Dei dois passos, coloquei a perna esquerda ao lado da sua coxa direita e fiz o mesmo com a direita do outro lado sentando em seu colo.
Sua expressão foi de deboche para surpresa.
— Não esperava te encontrar aqui, só isso…
Levei minha mão até o colar bonito que ele sempre carregava, era uma cruz envolta por uma rosa vermelha. Passei os dedos no pingente e olhei em seus olhos que estavam em alerta.
— O que está fazendo?
Puxei seu cabelo, levando sua cabeça para trás e levei meus lábios até o seu ouvido:
— Te dando esperança… — Afastei-me, ainda segurando seu cabelo — Para então acabar com ela. — Encaixei o cano da arma na parte de baixo do seu maxilar e puxei o gatilho.
Soltei seu cabelo e sua cabeça continuou pendida para trás e então levantei, fiquei encarando o corpo sem vida, o sangue pingando no chão e aquele som aumentando cada vez mais. Veio a imagem de Carolyn morta em minha mente e pela primeira vez, eu não senti nada, nem mesmo remorso, e por Nero, o mesmo, nada. Se restava alguma dúvida, ali, naquele porão, sozinha com o homem que eu tinha acabado de matar, naquele momento, não restava mais. A que conheciam tinha morrido.
Encarei o colar em seu pescoço e o agarrei, puxando em seguida, arrebentando-o. Levantei até a altura dos meus olhos, encarando o pingente que eu vi durante muitos anos. Virei o corpo, abri a porta e comecei a subir os degraus. Cheguei na sala de jantar e todos estavam sentados esperando, levantei a mão e deixei o colar escorregar para cima da mesa. Levantei os olhos e vi Otelo sorrir satisfeito, enquanto parecia incrédulo que eu tinha matado alguém e seguia firme e forte, principalmente alguém que cresceu com a gente e para ele ter certeza, coloquei a pistola em cima da mesa também.
— Parece que temos a nossa sottocapo.
Capítulo 28
Perroni
Eu vi o colar escorregar de dentro da mão dela em câmera lenta, eu estava sem acreditar que aquilo tinha acontecido. Ela não tinha que provar nada, ela já passou por tanto. Eu não notei que ela estava se perdendo? Que ela estava virando alguém que ela mesma há alguns meses não gostaria de ser. Tudo isso porque meu pai queria ver algo que ele mesmo já devia ter decidido, ver se ela seria capaz de ser sanguinária o suficiente pra ser a subchefe da Vincere.
Aquilo era tortura psicológica!
simplesmente virou as costas e saiu andando. Eu estava pasmo, o que seria do seu psicológico agora? Virei para Otelo, olhando para ele de forma reprovativa por sua atitude.
— Esse colar é… do Nero? — Luna perguntou incerta, olhando mais atentamente o cordão.
— Sim, filha, e agora o traidor está morto. Como já deveria estar há muito tempo… — Ele olhou pra mim como se minha decisão de ter deixado ele preso tivesse sido a pior das ideias.
— Isso é loucura — falou Giulia, olhando para os próprios pés. — Como pôde fazer isso com ela?
— Eu não pedi que ela fizesse nada, ele apenas estava no porão.
— Para bom entendedor meia palavra basta. — Beatrice levantou irritada. — Você foi longe demais dessa vez, papai.
As três saíram da sala de jantar e eu nem sabia como reagir, o que porra tinha acontecido? Essa família estava cada vez mais quebrada e meu pai era um dos grandes motivos disso. Ele nos tratava como peões, soldados em sua máfia. Éramos seus filhos em primeiro lugar, caralho. Quando ele iria agir como um pai? Levantei, pronto para sair dali, mas meu pai pigarreou fazendo eu olhar para ele.
— Não pedi que ela fizesse nada, deixei tudo a escolha dela.
— Tenho certeza que soube manipular a escolha dela mesmo à distância, Don Otelo, você é ótimo nisso. — Virei as costas e saí dali antes que eu fizesse alguma besteira.
Subi a escada e caminhei pelo corredor, olhei no quarto de e ela não estava lá. Eu só esperava que ela estivesse bem, mas eu precisava achá-la para ter certeza disso. Assim que olhei através da vidraça eu vi ela sentada na beira da piscina com Théo sentado ao seu lado. Respirei fundo, aliviado, pelo menos ela estava bem fisicamente. Desci novamente e então caminhei pela grama até chegar próximo dela. Não sabia se deveria falar algo ou talvez perguntar, ela estava se tornando cada vez mais uma pessoa imprevisível pra mim.
— Tem um cigarro? — Foi ela que quebrou o silêncio.
Tirei a carteira do bolso, tirei um pra mim e outro pra ela, acendi os dois e alcancei um pra ela que pegou imediatamente.
— Eu estou bem, , antes que pergunte. — deu um longo trago em seu cigarro.
— Tem certeza? — perguntei tanto por mim quanto por ela, eu precisava saber se deveria ficar em alerta.
— Pra dizer bem a verdade, nunca me senti melhor. — Ela seguia olhando para um ponto qualquer do jardim, do outro lado da piscina. — Agora talvez eu finalmente seja uma mafiosa de verdade, que nem você… — Ela olhou pra mim com um sorriso altivo — O que acha?
— Não queria que fosse igual a mim, .
— Claro, não quer que eu roube o seu grande espaço na Vincere. — Ela levantou da borda, ficando em minha frente.
— Não é isso…
— Então é o quê? — perguntou irritada. — Não estou à sua altura? — falou em tom de escárnio.
— Eu que não estou à sua, , nem nunca vou estar — falei calmo, de forma amena e vi sua postura desarmar. — Você é a mulher mais foda que eu conheço.
— Não ouse… — ela soprou as palavras.
— Eu falei sério, não vou desistir de você. — Dei alguns passos em direção a ela, tentando decorar cada feição de seu rosto, era a mulher mais linda que eu já conheci. — Agora podemos…
— Não consigo perdoar o que você fez…
— Eu quis te proteger, cazzo!
— Mesmo assim… A raiva ainda está aqui, … — Ela colocou a palma no próprio peito.
— O amor também está? — perguntei, sentindo uma angústia tomar meu coração, mas ela fugiu dos meus olhos e então peguei em seu queixo e obriguei ela a me olhar. — Você disse que me amava…
— Talvez eu tenha me equivocado… — Ela deu dois passos para trás, desviando os olhos novamente.
— Não faça isso, , não me afaste.
— Isso que me tornei é o fardo que eu preciso carregar. — Franzi o cenho. — Agora eu sou assim, , apertar o gatilho se tornou algo fácil. — Ela jogou metade do cigarro no chão e pisou em cima. — A partir de agora eu vivo pela Vincere.
Passei a mão pelo rosto, nervoso. Alguma chavinha girou no cérebro de e eu não poderia reverter isso, pois eu, melhor do que ninguém, sabia que quando o remorso deixa de fazer parte do seu caráter, é um caminho sem volta.
— Não vou deixar você ir… — Segurei o pulso dela assim que ela fez menção de se afastar.
— Eu preciso de espaço…
— Não vou deixar você me afastar… — Não deixei ela continuar. — Quer espaço pra me perdoar? Eu dou, mas não vou a lugar nenhum, .
— Como você quer dar início a algo desse jeito? — falou magoada. — Vai mentir pra mim na primeira oportunidade de novo a mando do seu pai!
Era palpável o ressentimento que ela tinha e eu não a culpava, muito pelo contrário, aquilo era consequência das minhas péssimas escolhas. Contudo, eu não desistiria, não agora que eu sabia que nada me impedia, que o sentimento era mútuo, por mais raiva que ela sentisse de mim, o amor era algo que não apagava assim de repente e ele ainda estava ali em algum lugar. O que eu sentia por era muito mais forte do que qualquer outro sentimento, passei tantos anos escondendo ele que nem eu mesmo sabia da proporção que tinha chegado.
— Se você quer uma promessa, eu te prometo que eu vou fazer de tudo para conquistar sua confiança, e, principalmente, vou ser leal a apenas você.
— Eu que deveria falar isso, , serei sua sottocapo. — Ela estava inconformada, como se eu estivesse falando coisas sem sentido, mas eu nunca tinha sido tão honesto na minha vida.
— Não haja como se eu estivesse falando absurdos. — Puxei a mão dela e espalmei em meu peito. — Meu coração sempre foi seu.
Acariciei sua mão e olhei nos verdes esmeraldas. Ela parecia ter perdido a fala, estava surpresa, os olhos dela estavam compenetrados em me analisar e eu sabia que seria difícil ela acreditar em mim depois do que eu fiz, porém, eu jamais deixaria de tentar.
— Ainda dói, …
— Eu sei.
— Preciso de um tempo.
— Vou esperar o tempo que for… — Soltei a mão dela devagar e a vi olhar pra baixo se abraçando e voltou a me olhar como se pedisse desculpa antes de virar as costas e entrar na mansão.
Acendi outro cigarro e puxei a fumaça para os meus pulmões fechando os olhos e expelindo a mesma. Olhei para o céu respirando fundo tentando pedir forças pra aguentar o que viria, não seria fácil. Agora eu e ela estaríamos juntos até o fim de nossas vidas como capo e sottocapo da Vincere, de qualquer forma, estávamos acorrentados um ao outro.
[...]
Joguei na mesa um royal flush e Filippo me olhou indignado, sorri de leve, vitorioso. Os outros cappi nem sequer me olharam, apenas separaram as cartas para um novo jogo. Meu primo me atualizou sobre como faríamos para dar um jeito definitivo naquele detetive insuportável que seguia na cola de , ainda mais agora que ela resolveu ser uma “mafiosa de verdade”, como ela gostava de dizer. Estevam tinha uma obsessão por boates ou por ela, esperava realmente que fosse por boates.
Já fazia alguns dias que meu pai e tiveram a primeira reunião, eu não sabia sobre o que, mas tinha certeza que não tinha sido algo bom. Caso fosse igual o que ele passava pra mim, eu tinha uma certa preocupação, porém eu também sabia que eu precisava parar de ser tão protetor com ela.
Por mais que não estivesse acostumada com esse lado da Vincere, ultimamente ela estava me saindo melhor que a encomenda, completamente diferente da mulher que eu conhecia. Esperava realmente que tivéssemos uma melhor comunicação, afinal, em seis meses eu assumiria oficialmente como cappo e ela, como sottocappo, uma vez que o Don escolhe o subchefe não há volta, só se o escolhido morrer e nem quero pensar nessa possibilidade.
— , tivemos que molhar a mão de muita gente e nada adiantou. Precisamos descobrir pra quem ele trabalha por baixo dos panos…
— Temos também que achar aquele cretino do Luca e não tô vendo sinal de pistas.
— O filho da puta desapareceu!
— Ele não pode ter ido tão longe, tenho certeza que ele ainda está aqui na Espanha.
— Se ele estiver nós vamos achar, te garanto isso.
— Dê logo as cartas, Giovanni — falei irritado com aqueles tópicos, dois assuntos que estavam me tirando o sono e que precisavam ser resolvidos imediatamente.
Naquela noite eu só queria esquecer um pouco das minhas responsabilidades, beber e jogar me pareciam um ótimo passatempo, sempre foi. Então eu não queria ouvir sobre Luca ou o detetive medíocre, queria relaxar e me embriagar em paz.
Perroni
Minhas irmãs eram as únicas em quem eu confiava no momento, depois daquela conversa com que me desarmou inteira e quase fez eu desistir dos meus planos, elas foram até meu quarto. Conversamos durante muito tempo e acabamos dormindo na minha cama. Era confortável estar com elas, elas entendiam melhor do que ninguém o que era você ter apenas um pai e sua mãe ser uma qualquer. Uma mulher que entregou a filha pra um mafioso em troca de dinheiro e a minha tinha sido a pior, tinha entregue duas a ele, sem nem mesmo saber se ele cuidaria de mim ou não, afinal, eu não era filha dele.
Otelo poderia simplesmente ter me colocado junto com as garotas que ficam nas boates, ela não sabia como o coração dele poderia ser e nem iria saber, já que me entregou de bom grado e foi embora sem olhar pra trás. Doía entender tudo isso, eu não conseguia aceitar uma mulher que poderia ser tão sem alma a ponto de fazer algo tão egoísta. Eu tive sorte e agora vou aproveitá-la e me dedicar apenas a Vincere, que era o que eu deveria ter feito desde o início.
No dia seguinte eu fui chamada ao escritório, desci me sentindo zonza, eu estava nervosa, ansiosa e até com um pouco de raiva também, eu era racional, porém nada te preparava pra tudo que aconteceu na minha vida no último ano. Estar entrando ali sabendo que agora eu seria a sottocapo me deixava meio perdida, o que viria pela frente? Entrei na biblioteca devagar, dando passos calculados, sentia minhas mãos suando e meu coração martelava em meu peito. Eu estava decidida, mas minhas emoções ainda estavam muito à flor da pele.
— Sente, filha. — Ouvi a voz grossa de Otelo e respirei fundo antes de sentar defronte a ele. — Te chamei aqui pra podermos conversar melhor… — Apenas me mantive quieta, respirando e aguardando o que o Don diria. — Eu deveria ter sido honesto com você antes, mas achei que esse era um segredo que levaria para o túmulo.
— Quando outras pessoas sabem sobre o segredo é bom sempre garantir que ele não seja descoberto. — Tentei não soar ríspida, mas era impossível tamanho era o meu rancor.
— Gostaria que me perdoasse, princesa.
— Talvez demore um pouco, pa… — pigarrei e me corrigi a tempo. — Otelo.
— Não faça isso, filglia mia, você ainda é minha filha e será sempre.
Suspirei e abaixei a cabeça. Eu estava tão magoada. Mas a verdade era que ele tinha sido meu pai durante todos esses anos e se fosse de sangue ou não, era bobagem perto de tudo que Otelo fez por mim. Seria difícil perdoá-lo, mas algum dia aconteceria, eu sabia disso, porém, não era o momento. Era doloroso demais sentir essa dor constante no peito, no entanto, eu transformaria isso em força pra seguir.
— Quais são as minhas tarefas a partir de agora? — perguntei friamente, trocando de assunto.
— Será responsável pela segurança da família, como seu irmão fez durante tanto tempo…
— não é meu irmão — cuspi as palavras e Otelo apenas assentiu.
— Você fará algumas missões como investigar pessoas que estejam interferindo nos nossos negócios, ficará de olho nas remessas que vêm de outros países e também resolver algumas questões burocráticas. — Ele respirou fundo e me olhou com atenção antes de continuar: — Vou perguntar apenas uma vez, , entenda que daqui pra frente não tem mais volta. — Anuí com a cabeça. — Tem certeza de que é isso que quer?
— Me escolheu como sottocapo, Don, pretendo cumprir meu papel como tal.
— Fico satisfeito com a sua determinação. — Ele recostou no encosto da cadeira e cruzou os braços. — Quero que volte a treinar no nosso stand de tiro.
— Sim, Don.
— Precisa ser uma exímia atiradora e muito boa em luta corpo a corpo.
— Vou seguir meu treinamento, não se preocupe.
— Entenda que você vai abrir mão de muita coisa, , inclusive da sua boate. Não terá mais tanto tempo pra se dedicar a ela…
— Já tenho um plano B pra isso. — Imediatamente pensei em Giovanna, não era algo novo que eu pensava, a Gi estava mais do que pronta pra assumir o meu lugar no comando e ser minha sócia.
— Parece que pensou muito sobre este assunto… — Ele pegou um charuto e acendeu, soltando a fumaça logo em seguida.
— Sempre esperei que meu lugar na Vincere fosse esse, mesmo sabendo agora que não sou sua filha, serei eternamente leal à máfia.
— Entendo que demore pra me perdoar, , mas eu te criei, sou seu pai — ditou firme. — Sempre admirei sua racionalidade, mas não perca seu lado emotivo pro racional, os dois te fazem ser quem é.
Olhei pra ele séria e respirei calmamente antes de falar:
— Tarde demais, eu já perdi. Precisa de mais alguma coisa, Don?
Vi ele suspirar cansado. Otelo me conhecia, sabia do meu gênio, da minha personalidade e de como lido com as coisas. Ele moldou cada um de nós para sermos peões nessa máfia, ele podia achar que eu não notava isso, mas eu não era tonta. Então, ele saberia como liderar conversas com cada um de nós e também sabia quando não insistir.
— Filippo que vai te passar as instruções de tudo, eu vou precisar ir para a Itália. — Assenti e levantei me virando para sair. — … — Parei e olhei para trás. — Eu amo você, filha, não esqueça disso.
Respirei fundo para não ser acometida por um choro que insistia em sair, mas prometi a mim mesma que não cederia mais a isso. Curvei levemente os lábios e saí do escritório sentindo meu corpo pesar toneladas. Que inferno que eu não conseguia desligar minha humanidade de vez. Eu queria parar de me sentir tão fodida emocionalmente, queria parar de sentir e eu faria o que fosse pra isso. Peguei um café na cozinha e fui caminhando para o jardim, sentei em uma das espreguiçadeiras próximas da piscina e senti uma lambida em meu braço.
— Théo… — Sorri e afaguei sua orelha, ele me olhou triste e soltou um chorinho baixo. — É, eu estou tentando, garoto… — Respirei fundo e olhei para o céu. — Vai passar…
— Você está bem? — Virei para o lado e vi Beatrice também segurando uma xícara.
— Estou, não se preocupe comigo. Você deveria voltar pra sua esposa…
— Anita tá dormindo, ela está bem… — Bea sentou na espreguiçadeira ao lado da que eu estava.
— Cris vai vir morar aqui também?
— O papai disse que seria necessário, agora ele é família e o lugar dele é em casa…
— Ele deve estar adorando essa intimação. — Ri baixo e tomei mais um gole do meu café.
— Amando… — Beatrice revirou os olhos. — Como foi a reunião?
— Difícil? Esquisita? — Fiz uma careta. — Não sei que adjetivo usar… — Suspirei me deitando.
— É, agora você vai se manter ocupada… — ela comentou olhando para o jardim.
— Tendo que receber ordens do . — Soltei o ar com exagero.
— , vocês realmente precisam trabalhar juntos, o futuro da famiglia depende de vocês agora.
— Tudo vai se encaixar, Bea… — disse olhando pra ela e então direcionei meu olhar ao céu azul. — Assim eu espero.
[...]
— Me diz que é a última caixa, Cristian… — Ouvi a reclamação de Anita e me apoiei no arco da porta tomando meu suco de laranja.
— Queria saber por que vocês não pediram para os soldados levarem pra cima. — Sorri brincalhona.
— Não quero dar trabalho para os outros… — Cris entrou com a caixa, passando por mim.
— Anita, diga pra ele que agora ele está dentro da família e ele terá que dar ordens aos empregados, por favor?
— Já falei, , mas ele não me escuta… Quer fazer ele mesmo, você não conhece o meu irmão?
— Mais até do que gostaria.
— Eca. — Anita entrou fazendo careta e eu gargalhei.
Aquela casa estava cheia, gostava da sensação de ter os dois com a gente agora, eles eram família, queria que a Giovanna e o Vince tivessem aceitado quando papai ofereceu a eles para morarem na mansão quando vieram da Itália. Contudo, eles queriam se virar sozinhos, eu até entendia, também não gostaria de ficar aos olhares atentos do Don tão de perto. Caminhei até a cozinha, deixei o copo dentro da pia e peguei minha bolsa para ir até o stand de tiro.
O que eu não esperava era ver através do vidro que estava em um dos boxes. Era tudo que eu precisava em uma bela manhã de quarta-feira. Revirei os olhos. Entrei no corredor e passei por ele sem nem olhar, ele estava bem focado no que fazia, pulei alguns boxes pra ficar longe dele e respirei fundo. Tirei minha pistola da minha bolsa, coloquei a arma em cima da mesa e a bolsa embaixo dela. Coloquei os protetores de ouvido, conferi o cartucho da minha arma e o coloquei de novo, destravando a arma em seguida para poder começar meu treino de tiro.
— Precisa de ajuda?
Respirei fundo sem olhar para trás, eu sabia quem era. Não queria ter que olhá-lo, tinha a impressão que meus olhos entregariam tudo, afinal, ele sempre me leu tão bem. Eu precisava treinar meu lado racional para assumir de vez, principalmente nesses momentos.
— Não, estou bem, obrigada — falei ríspida, dando a entender que queria ele fora dali.
— Faz tempo que não atira… — Senti sua voz calma e suave, como nunca tinha ouvido antes. Eu sabia que ele estava tentando, mas estava muito cedo pra isso.
— … — falei, resiliente. — Só peço que respeite meu espaço.
— Tudo bem, você tem razão, me desculpe.
Vi pelo reflexo do vidro de proteção ele abaixar a cabeça e aquilo doía, eu estava irritada com ele, mas destratá-lo não me fazia sentir melhor, muito pelo contrário, sentia-me mais irritada ainda.
Ouvi os passos dele indo para longe e soltei o ar fechando os olhos. Eu estava com raiva, magoada e mesmo assim, meu maldito coração batia acelerado no peito apenas por ouvir a voz dele. era minha ruína ao mesmo tempo que era minha força, eu sabia disso. Não era o melhor momento para amá-lo quando tanto ódio rondava meu coração ainda, seria difícil essa nova configuração na famiglia, porém, seria assim e eu teria que lidar com isso querendo ou não. Nem sei se um dia iria perdoá-lo, mas parecia que tínhamos voltado como tudo era no início: dois estranhos convivendo debaixo do mesmo teto.
Capítulo 29
6 meses depois
Perroni
— Esses 6 meses foram cansativos, Gi.
— Você mal tem vindo à boate, , e quando aparece está exausta. Eu entendo que agora você vai assumir como sottocapo, mas a Fascino sempre foi sua prioridade.
— E vai continuar sendo, depois da Vincere, agora eu preciso me preocupar com outras coisas, Giovanna.
— Eu só… Sinto sua falta, todos nós sentimos…
— Desculpe não estar tão presente e é sobre isso mesmo que quero conversar com você. — Dei um gole em meu martini aos olhos azuis atentos da minha melhor amiga. — Quero que seja oficialmente minha sócia. — Ela abriu a boca em absoluto choque. — Não fique tão surpresa, já tínhamos conversado sobre isso…
— Sempre foi na base da brincadeira, . Você tá falando sério? — perguntou surpresa.
— Claro que estou. Já pedi pro advogado fazer os papéis, assinamos se você topar mais essa aventura ao meu lado. — Sorri largo pra ela que tampou o rosto com as mãos.
— Eu não estava… esperando por isso.
— Você tá chorando? — Levantei e dei a volta na mesa do meu escritório para abraçá-la, afastei-me ajoelhando no chão para ficar da altura dela que estava sentada na cadeira. — Você é minha melhor amiga, ninguém melhor do que você pra mandar nisso aqui na minha ausência que será mais frequente agora.
— Obrigada, , obrigada por confiar em mim.
— Pare de chorar que temos uma boate pra administrar. — Passei o dedo pela bochecha dela para limpar as lágrimas insistentes e ela sorriu. — Vamos, precisamos brindar essa sociedade.
Descemos para o bar e disse para Vince servir uma dose de tequila para todos. Contei ao meu melhor amigo o que estávamos comemorando e ele ficou super feliz, deu um beijo em Giovanna e um abraço em mim. Juntamos nossos copos em um brinde, olhei para os dois e sorri, eles eram o meu alicerce naquela boate, além de serem uma parte boa de mim, a parte boa da antiga . Ela já não se encontrava mais ali, mas acreditava que eles faziam eu me lembrar de manter um pouco do que restava das minhas emoções na superfície.
Agora era quase impossível, meu trabalho na máfia pedia cada vez mais para o meu racional tomar o total controle. Eram reuniões e mais reuniões sobre o quanto era importante o subchefe ser frio e calculista. Se era isso que meu pai queria, era isso que eu seria. Nesses últimos 3 meses muita coisa aconteceu, decidi ser fiel aos mandamentos de Otelo e deixar a minha boate em boas mãos. Eu nunca abandonaria a Fascino, mas outras coisas pediam minha atenção no momento.
— E você vai ajudar, Vince, será o gerente.
— Mais trabalho pelo mesmo salário… Que maravilha. — Suspirou audivelmente.
— Não fale essas idiotices na frente da sua chefe armada.
— Credo, você tá pior que o .
— Pior não, amor, melhor — falei, virando mais uma dose de tequila. — E pra sua informação o seu salário vai aumentar sim.
— Ele acha que eu ganho o mesmo que ele — Giovanna falou depois de tomar sua dose e eu gargalhei pegando meu celular que tinha vibrado.
— Aparentemente era isso que você queria que eu pensasse. — Ele cruzou os braços em frente ao peito.
— Vocês homens se sentem com ego ferido se a namorada ganha mais que vocês, não quis complicar as coisas. — A loira revirou os olhos.
— Namorada? — Vincenzo arqueou a sobrancelha.
— Não quero participar desse papo, bom dia pra vocês. — Peguei a chave do carro e saí de fininho daquela conversa desconfortável que se seguiria.
Entrei no meu carro e fui até o nosso restaurante, Filippo tinha mandado uma mensagem pra mim pedindo a minha presença, eu só não esperava que estivesse lá. Meu primo explicou o que eu deveria fazer, aparentemente estavam fazendo corrida de carros ilegais, não que isso fosse da nossa jurisdição, mas havia um dealer vendendo droga nessas corridas. Eu deveria ir averiguar, identificar quem era pra Giulia poder rastrear de onde estava vindo e quem era o fornecedor.
Na Itália sempre fomos o único fornecedor que vendia drogas, tanto diretamente para os clientes quanto para os dealers e não era diferente na Espanha. Filippo falava comigo em uma mesa logo no começo da sala do subsolo onde ficavam os cappis e soldados aguardando ordens. estava em uma mesa mais ao fundo, fumando, bebendo e jogando cartas com os cappis. Eu não conseguia deixar de desviar meus olhos em alguns momentos para olhar pra ele. Era como se o maldito ímã não perdesse o magnetismo, mesmo com todas as merdas que aconteceram.
Meu coração ainda batia mais rápido quando ele estava perto de mim, mas eu não conseguia deixar de lado o rancor que eu guardava por ele ter mentido. Ele ouviu todas as minhas lamentações, inseguranças e medos, e mesmo sabendo de tudo isso, escolheu omitir que Otelo não era meu pai, como iria confiar nele? Eu sei que quando o Don dá uma ordem você não pode contestar, mas era a porra da minha vida. Seus olhos negros cruzaram com os meus e eu engoli em seco, ele ainda provocava coisas demais dentro de mim e eu não queria ter que lidar com aquilo, não quando tudo parecia estar se encaixando. Chega de bagunça na minha vida!
— Ouviu, ? — Meu olhar voltou a focar em meu primo.
— Desculpe, o quê?
— Hoje à noite vai ter outra corrida, precisa ir até lá, leve Ettore e Austin.
— Pode deixar. — Levantei e logo Filippo também. — Mais alguma coisa?
— Tenha cuidado, .
— Em 6 meses fiz algumas tarefas dessas, primo, não se preocupe. É um bando de mauricinho achando que tem poder de alguma coisa.
— Você pode achar que é um tempo considerável, mas eu sei que nem sempre as pessoas são quem aparentam ser.
— Estou bem armada e bem treinada, tá tudo sob controle. — Sorri pra ele e pisquei o olho direito, virei as costas e dei dois passos para sair dali.
— … — Olhei para trás e vi olhando pra mim, nosso olhos chegavam a soltar faíscas ao se encontrar, mas voltei a encarar Filippo, que foi quem me chamou. — Temos a informação de que o dealer adora uma confusão.
— Eu consigo ser pior, primo. — Sorri divertida e subi a escada, passei pelo salão do restaurante cumprimentando os atendentes e entrei no meu carro.
Respirei fundo e sentia meu coração pulsando em minhas costelas, bati com a mão duas vezes no volante e encostei a cabeça no banco. Esses meses têm sido assim, difíceis, tenta me dar espaço, mas sempre que pode demonstra cuidado comigo e me sinto até um pouco culpada por não conseguir retribuir com o mesmo carinho. Eu sabia que o amava, mas a raiva não deixava mais eu aceitar isso com tanta facilidade. Contudo, mesmo com o amargo do rancor inundando a minha boca, eu sentia tanta coisa apenas por estar perto dele.
Eu sentia que ainda era o homem que eu queria na minha cama e na minha vida, e lidar com esses sentimentos e pensamentos controvérsos era pra deixar qualquer um maluco. Eu não sabia como prosseguir em relação a ele, não sabia se ficaríamos juntos e nem muito menos se isso era uma boa ideia.
Dirigi até em casa com o volume da música no máximo pra ver se abafava meus pensamentos, assim que desci do meu carro fui até os meus seguranças.
— Hoje nós vamos até uma corrida de carros ilegal. Preciso ir bem disfarçada…
— Senhorita Perroni, se me permite a indelicadeza… — Assenti e ele continuou: — As mulheres normalmente vão com uma roupa sexy, beirando o vulgar.
— Entendi.
[...]
Ettore dirigia e Austin estava no banco do passageiro enquanto eu ocupava o banco traseiro. Fomos em uma Ferrari 612 scaglietti azul, presente de algum dos associados pro meu pai, ela vivia na garagem, de vez em quando Giulia pegava para dar uma volta. Íamos para uma corrida, então nada melhor do que ir em um carro esporte. Eu tinha colocado um microtop com uma calça jeans bem justa, coloquei uma jaqueta por cima pois precisava guardar a arma em algum lugar. Coloquei uma bota de salto grosso pra me dar vantagem caso eu precisasse lutar corpo a corpo.
Chegamos no que parecia um show de uma banda de rock famosa, muitas pessoas gritando, bebendo e fumando nas arquibancadas de uma antiga pista de corrida. Olhei para os meus seguranças e dei a ordem de eles ficarem de olho em todos os movimentos estranhos para tentar encontrar o dealer. Então nos separamos, cheguei à beirada do guarda-corpo e vi os carros correndo a toda velocidade lá embaixo, olhei para os lados buscando ver algo, porém, nada saltava aos olhos.
Comecei a caminhar até uma espécie de bar que tinha ali e pedi um copo de cerveja, não era minha bebida preferida, mas eu precisava me misturar. Paguei em dinheiro e dando o primeiro gole caminhei entre as pessoas, avistei Ettore conversando com uma mulher que parecia estar bem atirada pra cima dele. Ótimo, mulheres com tesão tendem a falar com facilidade. Corri os olhos atrás de Austin e ele já se pegava com uma morena que usava uma micro saia, se é que eu podia chamar aquilo de roupa.
— Carne nova no pedaço, Mario…
Olhei para trás e vi um grupo de rapazes olhando para o meu traseiro, homens eram tão previsíveis. Sorri de maneira libidinosa para o moreno alto que se aproximou de mim, deixando os amigos para trás.
— Nunca te vi aqui, docinho, pode me dar a honra de saber seu nome? — Ele me olhava com desejo, passeou os olhos pelo meu corpo enquanto falava.
— , e o seu? — Virei de frente pra ele me escorando no guarda-corpo de ferro deixando minha barriga à mostra e como eu já esperava, os olhos do homem foram diretamente nela.
— Ângelo, ao seu dispor. — Ele fez uma meia reverência, fazendo eu rir internamente, patético.
— Que maravilha saber disso, Ângelo. Preciso de algo mais forte, já que essa cerveja está longe de me ajudar no serviço. — Pisquei o olho esquerdo pra ele enquanto levantava o copo em minha mão.
— Conheço a pessoa perfeita pra isso…
Ele acenou com a cabeça para eu seguir ele e foi o que fiz, mas não antes de ter certeza que Austin ou Ettore estavam de olho em mim para saberem onde eu estava indo. Andamos por alguns minutos até chegar em uma parte coberta, tinham algumas poltronas velhas com pessoas sentadas nelas, umas luzes coloridas e, pra onde eu olhava, havia mesinhas com cinzeiros abarrotados de bitucas de cigarro e ponta de baseados. Definitivamente eles não estavam se importando em chamar atenção.
— Chiara, tenho uma nova cliente pra você…
Corri os olhos pelas pessoas ali presentes estudando minhas opções de fuga ou de ataque. Ao ouvir o nome feminino olhei diretamente pra loira atirada em uma poltrona com piercings em todos os lugares onde dava pra se colocar, roupas largas e uma expressão de poucos amigos. O dealer era mulher…
— O que a patricinha tá procurando? — a mulher falou com desdém e aquilo já me irritou, ela tinha errado a abordagem e isso era um erro grave comigo.
— Quero três gramas…
— Faço 150 euros. — Jogou o pequeno pacotinho com o pó branco em cima da mesinha como se eu fosse uma qualquer.
Que asco dessa mulher sem classe, porém, se ela queria ser nojenta, eu seria 3 vezes pior. Cruzei os braços e arqueei a sobrancelha antes de dizer:
— Como vou saber se é realmente boa?
— Tá tirando com a minha cara, boneca? — A dealer levantou e andou com desleixo um pouco mais à frente. — A minha droga é a melhor da cidade.
Travei meu maxilar. A melhor da cidade era a minha irmã que fazia, 100% pura e quase sem sequelas. Sorri cínica.
— Não sei… — Dei alguns passos até a mesinha e peguei o saquinho em minha mão, analisando de perto para então jogar novamente no tampo improvisado. — Não me parece tão pura quanto a que provei em uma boate no centro.
A mulher gargalhou olhando para as pessoas ao redor, como se quisesse me intimidar. Se fosse com outra com certeza funcionaria, já que todos me olhavam com deboche. Só que eu era a porra de uma Perroni, ela errou desde o início e daí pra frente meu sangue ferveu mais a cada minuto.
— A princesa aqui acabou de chegar e quer arrumar briga logo comigo? — Ela pegou uma mecha do meu cabelo e levantou. — É tão pura quanto o vermelho desse teu cabelo.
— Certamente você não sabe identificar uma ruiva natural, Chiara, mas eu consigo ver a quilômetros que o seu loiro é tão falsificado quanto a sua cocaína.
Eu vi a expressão de ódio no rosto dela e sua mão foi rápida até as costas puxando uma arma e colocando na lateral da minha cabeça. Eu ri debochada com aquela palhaçada. Nem segurar uma arma direito ela sabia, não duvidava dela nunca ter atirado em alguém.
— Tá rindo do que, sua vadia? — Ela empurrou minha cabeça com o cano da arma e isso fez eu perder o resto da minha paciência. — Vem no meu espaço me desrespeitar como se fosse dona do lugar!
— Em uma coisa você tá certa, Chiara, eu sou a dona da porra do lugar. — Roubei a arma dela em segundos e apontei bem entre seus olhos, fazendo-a cambalear pra trás. Todos ao redor se afastaram, surpresos com a minha desenvoltura. — Perroni, muito prazer.
— Pe-perroni? — Ângelo disse alarmado, os olhos arregalados. Era maravilhoso sentir o medo que apenas meu sobrenome causava nas pessoas, antes eu não usava para proteção e agora eu uso pra opressão. — Como…
— Sim, Ângelo, como a famiglia Perroni. Dona da porra do comércio ilegal da Espanha. — Voltei o olhar para a loira falsificada na minha frente e era nítido o medo em seus olhos. — Agora, gracinha, me diz… quem te fornece essas drogas?
— Eu não… — ela gaguejou, sem conseguir terminar a frase.
— Cadê a fodona que eu vi há pouco? — perguntei incisiva.
— Não conheço o fornecedor, ele apenas envia pra minha casa…
— Que ótimo… Quem mais trabalha com você? — Vi ela engolir em seco. — Vamos, Chiara, eu te garanto que você não vai querer me ver mais irritada do que já estou.
— Eu trabalho sozi… — Dei um tiro no pé dela e escutei o grito sair alto da sua garganta.
— A próxima é na sua cabeça — disse baixo em seu ouvido.
— Ângelo e… Mario.
— Ótimo! — Virei animada para os dois rapazes do meu lado direito. — Vocês têm duas semanas pra descobrir o fornecedor. — Tirei foto dos rostos deles e mandei para Giulia seguido de um áudio: — Sorelina, Voglio tutte le informazioni. (Irmãzinha, quero todas as informações.).
— Como vamos descobrir? — Mario perguntou preocupado. — Nunca entramos em contato com eles cara a cara.
— Isso é com vocês.
Perroni
Otelo estava na Itália, ele passava mais tempo lá do que em casa e em breve achava que isso seria permanente. Eu tentava não pensar muito nas decisões atuais do meu pai, pois achava que algo estava esquisito, porém não queria segurar mais essa carga.
Estava no escritório com dois cappis, um de cada lado, aguardando ordens, estávamos revendo o caminho percorrido por Luca na noite da emboscada no galpão. Filippo me informava das últimas atualizações, que eram quase nulas, quando entrou pela biblioteca feito um furacão.
Nos últimos meses era difícil nos falarmos, mas quando nossos olhos se encontravam não era preciso palavras. O desejo, o amor e a atração estavam em cada segundo que meus olhos ficavam presos aos dela. Não sabia mais o que fazer, mas estava dando o espaço e tempo que ela falou que precisava. Quando ela sentou na cadeira à minha frente pedi para que os cappis deixassem o escritório, ficando apenas eu, ela e Filippo. Ela começou a falar e a cada palavra eu me emputecia ainda mais, como que ela foi tão displicente?
Eu ainda estava atônito com tudo que aconteceu na madrugada quando o silêncio pareceu durar tempo demais. Filippo serviu uma dose de whisky para cada um de nós e eu beberiquei o líquido e acendi um cigarro. Era a primeira vez que algo assim acontecia, era racional, mas deixou suas emoções a controlarem. Era óbvio que aquela mulher tinha tirado ela do sério, senão ela não teria vindo até mim pessoalmente para passar o relatório da missão.
— São praticamente adolescentes, — comecei.
— Filippo pediu pra eu identificar o dealer e descobrir os fornecedores.
— E como vamos descobrir agora?! — Bati na mesa em um rompante. — Você atirou nela!
— Ela colocou a arma na minha cabeça, acha que eu ia deixar isso passar? — Ela também se alterou.
— Você vai ser a sottocapo, cazzo. — Levantei, irritado. — Aja como tal.
— Impressionada. — Ela bateu palmas de forma encenada. — Cada vez mais parecido com o papai. — Ela sorriu debochada e aquilo me quebrou, não deveria estar agindo dessa forma, não com ela.
Suspirei e sentei na cadeira atrás da mesa grande de madeira do escritório. Passei a mão pelo cabelo, ela me deixava completamente fora de mim. Seis meses e eu estava surtando, cada dia que passava e eu não a tinha em meus braços. Além de não ter pegado o filho da puta do Luca que enganou a Vincere duas vezes, maldito. O estresse estava tomando conta de mim, era isso. Eu precisava me acalmar e falar com calma com ela.
— Desculpe, não era pra ter ficado tão irritado, mas não se deixe levar pelas suas emoções nas missões, .
Eu precisava seguir mais os meus próprios conselhos, já que estava deixando a raiva me corroer por dentro.
— Otelo diz o mesmo, estou tentando ser fria e calculista como vocês gostam de dizer — falou dando de ombros.
— Sabe que não acho que tem que ser assim.
— Está me mostrando exatamente isso, — falou impassível. Fazia pouco tempo que ela assumia esse comportamento e por mais que eu soubesse do grande traço de racionalidade que ela possuía, ela nunca foi tão apática.
— … — Olhei para o lado. — Filippo, nos dê um minuto. — Nosso primo saiu nos deixando a sós e a vi mudar para uma postura defensiva. — , não quero que seja assim, eu deixei bem claro há meses, nunca vou pedir isso de você.
— Então não peça, é difícil controlar os nervos quando aquela filha da puta tentou me matar…
— Ela não iria atirar em você, e sabe disso… Não use isso de desculpa. — Ela soltou o ar com força pelo nariz e pegou o copo deixado por Filippo em sua frente e entornou o líquido. — Você… está tudo bem?
— Sim, está. — Ela cruzou os braços, deixando claro que não entraríamos em uma conversa pessoal.
— Vamos fazer do seu jeito, então. — Puxei a fumaça e me recostei na cadeira, vi o olhar dela reluzir em desconfiança, mas eu não me importei, fazia meses que ela me olhava assim. — Mantenha-me atualizado…
— Sim, Don. — levantou.
— Ainda não…
— Já estou treinando, afinal, falta pouco — falou debochada e saiu do escritório a passos lentos.
em poucos meses tinha se reerguido sozinha. No primeiro mês eu mal a via, ela estava no escritório com Otelo ou enfiada no quarto. Depois de algumas reuniões, ela voltou a treinar luta e tiro, começou também a receber tarefas fora de casa com o intuito de treiná-la para certos tipos de trabalho, coisas que eu costumava fazer. Agora meu pai me deixou no comando e foi para a Itália fazer sabe-se lá o quê, disse que iria transferir o cargo pra mim e que eu me acostumasse com o peso, pois ele só iria piorar.
O peso do legado eu já carregava há tanto tempo, eu já era acostumado a sentir meus ombros tensos. Nada daquilo era novo pra mim, meu pai tinha me colocado em situações delicadas e com muita pressão desde a minha adolescência. Eu era preparado para aquilo, por mais que não estivesse pronto para ter como meu braço direito, principalmente com ela estando com tanta raiva de mim. O que mais me deixava frustrado era o fato de eu não ter conseguido fazer nada para ter a confiança de novamente e muito menos provar que a amava. Eu fazia o que podia, mas não parecia ser o suficiente.
Filippo entrou no escritório novamente e se colocou ao meu lado, eu sabia que talvez ele falasse algo, mas o silêncio perdurou tantos minutos que achei que teria a graça do silêncio. Ledo engano.
— Eu sei que quer reconquistá-la, mas não pode dar aberturas que não daria a você mesmo. Você é o Don, .
— Ainda não…
— Sabe que é só por questões burocráticas, Otelo deixou claro quando saiu por aquela porta pra voltar pra Itália que agora você que manda.
— Eu não posso afastá-la ainda mais, Filippo.
— Sei que não, assim como eu sei também que ela ama você e que o dia do perdão irá chegar.
— Esse dia está demorando tempo demais…
Capítulo 30
Perroni
— Acho tudo isso muito… — abaixei a cabeça para entrar na limusine logo depois de Beatrice — demais.
— Sorellina, é uma nova era da Vincere, você e vão assumir juntos…
— E aparentemente devemos esperar que isso funcione — Giulia cortou a irmã enquanto entrava e se acomodava no banco da lateral do carro.
— A fé que você tem em mim é fantástica — falei revirando os olhos.
— O problema não é você, , é a combinação explosiva — Giu continuou.
— Certo, podemos ir em silêncio até o destino, não é? Ótimo — Bea falou de maneira mandona enquanto se arrumava ao lado da esposa e eu agradeci, o silêncio cairia bem naquela noite extremamente tensa e ridícula.
Tinham algumas tradições que me irritavam na máfia, como essa, a passagem de cargo do capo e do sottocappo. Uma festa espalhafatosa para mostrar poder e dinheiro apenas para repassar o cargo de dono da porra toda. Claro que meu pai não abriria mão disso, ele adorava mostrar poder. Finalmente o carro parou em frente ao hotel Palacio de Los Duques a porta foi aberta e eu vi a mão estendida para me ajudar a sair. Coloquei a perna para fora, deixando-a exposta já que meu vestido tinha uma fenda que ia quase até o meu quadril.
Peguei na mão misteriosa, e assim que saí do carro dei de cara com . Ele curvou o canto dos lábios e eu respirei devagar, tendo os olhos dele tão compenetrados nos meus. Era inegável que tinha algo ali, algo extremamente perigoso que nos rodeava toda vez que nos olhávamos o tempo suficiente para sentir meu coração bater mais forte contra meu peito. Pigarreei e me aprumei ao lado dele, não iria fazer cena na frente de toda aquela gente, então apenas forcei um sorriso.
— Posso te acompanhar? — perguntou, divertido.
— Tenho escolha?
A resposta dele foi apenas um sorriso contido, então caminhamos pela calçada da entrada de braços dados, cumprimentando todos os associados e soldados ali presentes. Sentia meu coração cada vez batendo mais forte no meu peito, era impressionante como ele conseguia mexer comigo apenas por estar caminhando ao meu lado. Entramos pelos portões pretos de ferro fundido, onde era a entrada do jardim interno e fomos recebidos pelos olhos atentos de Otelo, que já estava sentado à mesa principal. Respirei fundo pensando que eu precisava me conter ao máximo pra passar por aquela noite intacta, por mais que eu tivesse deixado de sentir muita coisa, ainda me fazia sentir outras tantas.
afastou a cadeira pra eu sentar, agradeci com um sorriso singelo e sentei na cadeira ao lado esquerdo do meu pai e sentou do outro lado dele. Minhas irmãs, Anita e Cristian vinham logo atrás e tomaram seus lugares junto a nós. Otelo levou o copo de whisky à boca e deu um generoso gole antes de chamar o garçom, pediu champanhe para as mulheres e whisky para os homens. Clássico. Suspirei audivelmente e Beatrice me olhou de canto de olho.
— Pelo menos tente parecer feliz — sussurrou Bea se aproximando de mim.
— Estaria feliz sem todo esse circo, Bea — sussurrei de volta.
— É seu dia, vai assumir como sottocappo.
— E o prossimo como cappo, sorella — falei com desgosto.
— Ainda não entendi por que vocês dois não se resolveram.
— Coisas demais para lidar e essa não é uma prioridade. — Olhei em direção a que estava conversando com Otelo, desviei os olhos e virei o restante do champanhe.
Por mais que fosse uma questão que sondava a minha mente a todo maldito tempo e eu tentava ao máximo manter afogada com álcool, não era com isso que eu precisava me preocupar no momento. Virei para trás e ao avistar quem eu queria, acenei chamando o garçom, pedi uma dose dupla de whisky e continuei olhando toda aquela gente ali esperando o pronunciamento do Don. Foi então que vi Giovanna e Vincenzo no bar e agradeci mentalmente por meus melhores amigos fazerem parte da máfia. Assim que o garçom depositou meu copo na mesa, eu o peguei pedindo licença e avisei que já voltava.
Dei longos passos pelo jardim todo iluminado e decorado para a festa, estava tudo muito bonito. O verde das árvores e o colorido das flores davam um charme quase italiano, talvez tenha sido por isso que meu pai tinha escolhido aquele hotel. Cheguei ao lado dos meus melhores amigos e sorri dando um gole em minha bebida em seguida.
— Está lindíssima, senhorita Perroni — falou Vince apoiando a mão em minha cintura e depositou um beijo em minha bochecha.
— Obrigada. — Sorri simpática e me afastei dando um abraço na minha amiga.
— Vestido vermelho, imponente… — comentou meu melhor amigo.
— Gosto da cor… — Beberiquei o whisky.
— Definitivamente é a sua cor — pontuou Giovanna e eu fiz uma careta fazendo ela revirar os olhos. Ela bem sabia do meu problema com o meu cabelo, que eu achava que ele chamava muita atenção e que eu não conseguia usar roupas coloridas por causa dele. — E esse pingente? É lindo.
— Foi meu pai que me deu de Natal. — Passei a mão pelas cobras envolvendo a peônia e sorri.
— Bela forma de dizer que você seria a subchefe da famiglia — comentou Vincenzo.
— Talvez fosse isso… — constatei e ficamos conversando. Sabia que ir até eles me faria relaxar, era algo que só melhores amigos conseguem em momentos tensos. Não demorou muito para Ettore aparecer ao meu lado e me informar que meu pai pedia que eu voltasse à mesa.
Assim que sentei novamente em minha cadeira, ouvi o tilintar da faca na taça e levei meu olhar ao meu pai, tinha chegado a hora. Sentia meu coração acelerado, eu estava nervosa, claro, nunca tinha presenciado uma cerimônia de passagem de cargo e muito menos tinha sido parte importante dela. Otelo levantou e eu respirei fundo fechando os olhos, abri eles novamente quando senti uma mão apertando a minha e sorri ao ver que era de Beatrice.
— Como vocês bem sabem, estamos reunidos para a passagem de título, meu filho — Otelo colocou a mão no ombro de e eu engoli em seco — vai assumir como capo e a minha filha — ele colocou a mão em meu ombro e eu sorri de leve — assumirá como sottocapo da Vincere. Nas últimas semanas eles já têm feito um trabalho maravilhoso em minha ausência devido aos meus afazeres na Itália. Então, eu posso garantir aos senhores que a liderança da famiglia está em ótimas mãos. — Todos aplaudiram sorridentes e então desviei os olhos por alguns segundos para olhar para que também olhava pra mim.
— Vai ficar tudo bem… — Ele mexeu apenas os lábios e me olhou com carinho. Eu senti aquele calor em meu peito e mesmo ficando incomodada por ele me conhecer e me ler tão bem, eu sentia que saber que poderia contar com ele fazia eu me sentir mais leve.
— Um brinde à nova era. — Otelo levantou o copo e todos o seguiram com as taças de champanhe que foram colocadas pelos garçons. — Vamos começar com o juramento…
Mal consegui terminar meu gole quando ouvi um tiro e em seguida gritos e mais tiros. olhei para os lados tentando achar de onde vinham ao mesmo tempo que abaixava atrás da mesa, meu pai abaixou e seus seguranças o levaram para um lugar seguro. Minhas irmãs correram junto aos seguranças delas e gritaram meu nome, mas antes que pudesse olhar em direção a elas, senti uma mão em meu pulso me puxando. me levava em direção à parte interna do hotel me cobrindo com o corpo dele, olhei para trás e vi nossos soldados trocarem tiros, quando paramos senti as mãos dele segurar meu rosto fazendo com que eu o olhasse.
— Você está bem? Está ferida? — Ele olhava para o meu corpo preocupado.
— Estou bem, mas… — ele largou meu rosto e tirou a arma do coldre, conferiu o pente e colocou de volta, engatilhando — o que está acontecendo?
— Alguém deu com a língua nos dentes, isso aconteceu. — Ele seguia olhando para o jardim, atento, eu estava encostada na parede, de costas para onde estávamos.
— ! — Olhamos para o lado no corredor extenso e vimos Filippo. — O hotel está cercado de soldados, acredito que sejam os Delantera.
— Chame reforços, vamos acabar com esses filhos da puta!
— De novo… — Enrolei o cabelo em um coque e levantei a perna que ficava escondida pelo vestido e peguei minha pistola do meu coldre de coxa. Engatilhei e destravei a arma, respirei fundo e olhei para o meu primo. — Se você achar o Luca, ele é meu…
— Sim, senhorita Perroni.
— Per l'amor di Dio, , solo ! (Pelo amor de Deus, , apenas !).
O som dos tiros começaram a se aproximar de nós, vi uns cruzarem por nós e outro arrancar um pedaço de reboco da parede em que eu estava encostada fazendo com que eu me encolhesse e levantasse meu braço pra me proteger dos estilhaços. Então nos olhamos assentindo e começamos a correr.
— Você é a subchefe agora, prima.
— Al diavolo questo! (Para o inferno com isso!).
— Depois vocês discutem sobre pronomes de tratamento, caralho! — disse irritado. — Vamos para cima, precisamos de uma visão do que está acontecendo.
— Cadê minhas irmãs, Filippo? — perguntei alarmada.
— Otelo e as garotas estão seguros na adega do subsolo e vocês deveriam ir para lá também. — Filippo passou por uma porta fazendo com que passássemos também e em seguida ele a fechou, trancando-a.
foi o primeiro a ver se não tinha alguém no quarto e então foi até a janela para olhar lá pra baixo. Por mais que fosse um pouco assustador, eu estava bem acompanhada e se fosse o caso, apertaria o gatilho sem pensar duas vezes. Para proteger a minha família eu faria qualquer coisa.
— E perder toda a ação? — Estávamos em um dos quartos do hotel, então fui atrás de uma tesoura e achei uma pequena em um kit de costura de emergência no banheiro.
— Você realmente adora se colocar em perigo, nunca assumiu, mas sempre provou ser verdade — disse com indignação.
Voltei até o quarto com a tesoura em mãos, larguei a arma em cima da cômoda e antes que eu pudesse dizer algo, o vidro da janela estilhaçou com o tiro que o acertou. Abaixei de imediato atrás da cômoda, Filippo e também abaixaram com as armas em punho. Meu primo seguia escrevendo algo no telefone e eu peguei a tesoura, cortei um furo no vestido, na altura dos joelhos, e puxei o resto do tecido para fazer ele ficar curto.
— O que está fazendo? — perguntou franzindo o cenho.
— Pano demais iria me atrapalhar. — Peguei a arma novamente e me coloquei em posição.
— Nossos homens estão vindo… — avisou meu primo.
— Pouca vigilância na enorme festa? — debochei.
— Tínhamos o suficiente para proteção e a quantidade ideal para não chamar atenção, porém, ninguém imaginou um ataque — comentou Filippo.
— O erro foi esse. — Revirei os olhos.
— Vocês deveriam ir para a adega — falou Filippo repreensivo.
— Não vou ficar escondida enquanto nossos soldados são dizimados! — falei irritada.
— Preciso concordar com ela — falou .
A porta de repente foi arrombada, mas foi tempo suficiente para eu atirar duas vezes no peito do homem e atirar no segundo que estava atrás. Tínhamos perdido o esconderijo, precisávamos ganhar tempo para que os nossos homens chegassem e pudéssemos estar em vantagem. Saímos em disparada pelo corredor, atirando em tudo que se mexia e não era conhecido. Descemos a escada principal e muitos dos nossos estavam no chão, quando avistei Austin caído, encostado no balcão da recepção, eu perdi a compostura e corri até ele, me ajoelhando no chão.
— Me diga que está bem…
— Estou, senhorita, foi só de raspão… — Ele sorriu tentando me mostrar que ficaria tudo bem, e ficaria, já que não tinha sido atingido em nenhum órgão ou artéria.
— Você vai ser segurança da subchefe agora, não ache que vai se livrar da responsabilidade… — falei rindo para tirar o peso daquela situação.
— Será uma honra, senhorita .
— Cadê a ? — Ouvi ao longe perguntando e olhei na direção dele, que estava próximo da janela, quando ia chamá-lo eu ouvi um barulho.
Virei o rosto para o outro lado rapidamente, um extintor estava rolando no chão e vi um dos inimigos vindo em minha direção pelo corredor que vinha do restaurante. Peguei minha arma no chão, mas não fui rápida o bastante e o assisti apertar o gatilho antes de mim. Tudo ficou em câmera lenta. Então era assim que acontecia quando você ia morrer? Tudo à sua volta parava? O som dos tiros parecia abafado e os batimentos do meu coração estavam em alto e bom som em meus tímpanos. Era assim que eu iria morrer, quando finalmente cheguei onde queria, minha vida terminaria e eu seria lembrada como a subchefe da Vincere a morrer em sua própria festa de iniciação.
Seria patético, se não tivesse sido pra defender a famiglia.
Fechei os olhos e respirei fundo, se fosse pra ser assim, então eu iria em paz. Ouvi outro tiro e um estrondo, ao abrir os olhos vi caindo próximo a mim. Fiquei em choque, olhei pra frente e o inimigo que atirou já não estava mais em pé. Andei de joelhos rapidamente para ir até e fiquei sem acreditar, o tiro atingiu a lateral do seu tronco e estava saindo muito sangue.
— Não, não, não… — Meu mundo pareceu ruir naquele momento, mexi a cabeça em negativo sem parar e tentava apertar o ferimento para tentar conter o sangue. — Por que fez isso? — Meu estômago revirou e senti minha boca secar de nervosismo. — Por quê!? — gritei tomada pelo desespero.
Eu estava em pânico, até ali eu nunca tinha pensado que algum dia ele morreria, que algum dia eu o veria fragilizado ou muito menos que ele levaria um tiro por mim. era o forte, o durão e o que protegia a famiglia. Fechei os olhos com força sentindo as lágrimas transbordarem. Ele me irritava profundamente na mesma medida em que eu o amava, eu sabia disso, principalmente ali, naquele momento. Olhei para os lados desesperada, mas Filippo estava longe e ocupado dando cobertura a outros soldados. Voltei a olhar para ele e o medo de perdê-lo era maior do que qualquer coisa. A angústia de não saber se ele sobreviveria por causa daquele tiro, que seria pra mim, era demais.
— Prefiro que viva a sua vida do que eu viver a minha sem você.
— Não! — gritei puxando-o para o meu colo. — Não ouse me deixar…
Sua mão veio lentamente em direção ao meu rosto e seu polegar captou uma lágrima, seu carinho me deixou atônita por finalmente perceber que eu queria mais dele, eu queria ele, queria tê-lo em minha vida todos os dias e perdi tanto tempo guardando esse rancor, essa raiva por causa de algo que nem estava sob o controle dele. Queria recuperar todos os meses, semanas e dias que eu deixei de aproveitar a sua companhia e o seu amor.
— Você… precisa decidir, cariño. — Ele esboçou um sorrisinho arteiro como se o estado em que ele se encontrava não fosse desesperador.
— Pare de brincar em uma hora como essa! — exclamei irritada.
Estava mantendo o aperto no ferimento mesmo que minha esperança estivesse se esvaindo tão rápido quanto o sangue que deixava seu corpo.
— Sabia que o cérebro fica vivo durante 7 minutos após a morte para lembrar das melhores memórias? — As lágrimas seguiam deixando os meus olhos, era angustiante estar naquela situação, o homem que eu amava estava morrendo em meus braços e eu me sentia tão impotente. — Você, … vai estar em quase todas elas.
— Você não vai morrer… — Vi seus olhos se fechando e meu desespero aumentou. — Não, por favor, não feche os olhos! ! — Virei a cabeça ouvindo Filippo gritar com vários soldados nossos que entravam pela porta principal do hotel, dando ordens para exterminar todos que estavam nos atacando. — Filippo, chame uma ambulância! — berrei em aflição.
— … — Meu primo veio correndo até nós enquanto pegava o celular e discava o número. — Céus, continue pressionando!
— Não se esforce, vai ficar tudo bem — falei olhando para novamente.
— Talvez tenha que ser assim… — disse sonolento, abrindo levemente os olhos.
— Cala a boca, idiota, você vai ficar bem. — Eu tentava parar de chorar, mas era inútil. Seus olhos fecharam novamente e eu encostei a cabeça em seu peito. — Fica… por favor, fica…
Vi Filippo se afastar um pouco para poder dar as coordenadas para o hospital que obviamente era comandado por nós. Voltei a olhar para mordendo o meu lábio inferior com força e meu choro cada vez mais me tomava. Por que eu tinha que ficar alimentando tanto esse rancor? Eu deveria ser grata a tudo que ele fez por mim, todos os dias que ele dormiu no meu quarto, ser grata pelo Théo, pelo cuidado, pelas conversas e pela proteção.
sempre pensou em mim.
Abaixei a cabeça em direção ao seu rosto e encostei meus lábios nos dele sem me importar em sermos vistos, fechei os olhos aproveitando aquele contato que eu queria durante tanto tempo. Quis todos os dias que o meu amor por ele fosse maior que o meu rancor e me permitisse sentir ele em mim novamente, mas foi o amor dele que me salvou de morrer e que me fez perdoá-lo. Talvez a gente pudesse tentar fazer dar certo, por mais que a combinação fosse explosiva, como Giu disse. Eu me afastei um pouco e colei nossas testas, seus olhos se abriram devagar, olhando fundo nos meus e eu gostaria de poder me perder mais vezes dentro daqueles olhos soturnos.
— Poderia ter falado que eu só precisava tomar um tiro pra você me perdoar, teria feito antes.
— Idiota! — Beijei ele novamente sentindo as lágrimas salgadas entre nossos lábios, só me afastei, pois ouvi a sirene da ambulância e logo vi os paramédicos trazendo uma maca.
Eu mal tinha percebido, mas o barulho dos tiros já tinha parado há algum tempo e então me levantei, enquanto os enfermeiros o pegavam para colocar na maca, indiquei ao outro rapaz da ambulância, Austin do outro lado que também estava ferido e precisava de cuidados. Peguei minha arma e coloquei no coldre, vi meu primo caminhar até mim e então ele me abraçou forte.
— Vá com ele… — ele se afastou e olhou pra mim com carinho. — Está tudo sob controle por aqui. — Apenas balancei a cabeça e segui até a ambulância entrando atrás da maca onde estava e sentando no banco na lateral do carro, sem deixar de olhar para Filippo que me encorajava com um leve curvar de lábios.
A porta foi fechada e saímos em alta velocidade. Apoiei a cabeça em minhas mãos e suspirei, por mais que eu tivesse odiando tudo aquilo, aquela festa escandalosa e a cerimônia ultrapassada, eu entendia que era necessário. A Vincere era uma máfia conhecida por toda a Europa graças a Otelo, mas era por causa dessa festa que eu não sabia se iria sobreviver. Senti sua mão acariciando meu pulso, levantei a cabeça e o olhei, me aproximando. Segurei sua mão e apertei, tentando passar apoio e o sentimento de que tudo ficaria bem. Ele largou minha mão e pegou no pingente pendurado em meu pescoço e sorriu, tirando a máscara de oxigênio.
— Está usando o presente que eu te dei… — Cheguei a prender a respiração ao abrir mais os olhos surpresa com aquela informação, nunca agradeci ao meu pai, no entanto, supus que tinha sido ele.
— Foi… você?
— Tente não se esforçar, senhor Perroni. — O enfermeiro voltou a colocar a máscara de oxigênio nele.
— Quem mais seria? — Ouvi ele falando abafado.
A ambulância parou e as portas foram abertas de supetão, os enfermeiros tiraram a maca e o levaram pra dentro com rapidez. Levei alguns segundos para voltar a mim e sair dali para acompanhá-lo até o interior do hospital. Um dos enfermeiros me informou que levariam ele para a cirurgia, precisavam remover a bala e que em breve eu poderia vê-lo. Apenas concordei e uma enfermeira perguntou se eu estava ferida, depois que eu disse que não, ela me levou para lavar as mãos e braços para tirar o sangue. Caminhei até a cafeteria do hospital, pedi um café e sentei em uma das cadeiras dali, eu estava anestesiada. Parecia que eu não sentia meu corpo, não sabia como reagir e nem o que eu estava sentindo.
estava machucado, um dos meus seguranças também, além dos vários soldados que perdemos. Que noite infernal. Meu celular começou a vibrar e então eu peguei ele, que também estava preso ao coldre em minha coxa, e o atendi.
— Alô?
— Achou mesmo que eu iria apenas sumir? — Levantei da cadeira em um pulo olhando ao redor. — Espero que tenha gostado do presente que deixei em sua festa, senhorita Perroni.
— Seu cretino! — gritei atraindo olhares para mim, mas eu não estava ligando pra isso.
— Tenho muitas ideias ainda para lembrá-los de que matar o meu pai foi a pior escolha que a Vincere poderia ter feito.
— Eu vou te achar nem que seja no quinto dos infernos, está ouvindo? Eu vou te matar devagar, Luca… bem devagar.
— Estou contando com isso…
Fui apenas capaz de ouvir sua risada baixa antes do som da chamada sendo desligada. Respirei fundo e fechei os olhos tentando me conter, era muita ousadia me ligar pra dizer que foi ele que causou tudo isso. Se não sobrevivesse isso não seria apenas vingança, seria guerra.
Capítulo 31
Perroni
Senti-la de novo foi como estar no paraíso, ao mesmo tempo que a dor daquele tiro me fazia ter a certeza que eu morreria e nunca mais a teria em meus braços. Eu não tinha escolha, não ali, no chão, baleado e completamente incapaz de qualquer coisa. Morreria feliz se fosse pra ela viver, até porque, jamais conseguiria continuar vivo sem ela. Minha vida não valeria nada se eu não pudesse vê-la todos os dias, mesmo que me odiasse, mas agora com os lábios dela nos meus, eu sabia que eu tinha ganhado o seu perdão. Pelo menos morreria em paz sabendo que ela ainda sentia amor por mim.
Abri os olhos devagar, que nem mesmo tinha notado fechá-los, e vi o cabelo vermelho. Levei minha mão até a sua e ela me olhou segurando a minha. Ela era a mulher da minha vida, eu tinha certeza disso, porém agora, teríamos que nos encontrar em uma próxima. Sorri ao ver que ela estava usando o colar que eu tinha dado a ela, peguei no pingente e disse que isso me deixava feliz. Ela pareceu surpresa, mas quem mais teria dado aquele presente a ela?
Fechei os olhos por instantes e quando os abri vi a luz forte me cegar e senti aquela máscara incômoda no meu rosto. O barulho de bip era ensurdecedor, martelando em meus ouvidos e tinham muitas vozes que eu não conhecia à minha volta. Olhei para os lados lentamente e vi os paramédicos levando bandejas pra lá e pra cá e andando pela sala em que eu estava deitado.
— Ele ainda está acordado… — Vi uma enfermeira se aproximar de mim.
— Vou sedá-lo, Doutor Andrea.
Ah, sim, era o Doutor Andrea que estava ali, ele era bom, nosso médico de confiança saberia o que fazer para me salvar caso eu tivesse salvação, eu estava em boas mãos, afinal. Senti minhas pálpebras pesarem, o som de bip, que deveria ser os meus batimentos, ficavam cada vez mais longe e depois disso tudo virou escuro.
[...]
Respirei fundo e agradeci pelo oxigênio entrar em meus pulmões, não sabia quanto tempo havia passado, mas meu corpo estava pesado, assim como meus olhos, não conseguia abri-los. Tentei mexer minha mão, constatei que estava acordado pois senti o lençol em meus dedos. Deveria ser o efeito da anestesia, se fosse, logo passaria. Tentei dormir mais um pouco e então, quando finalmente acordei novamente, consegui abrir meus olhos. Demorei um tempo para focar a visão, mas a primeira coisa que vi foi o vermelho fogo incendiando em minha frente. Ousei sorrir. estava com os braços dobrados em cima do colchão, próximo dos meus joelhos, e a cabeça apoiada neles, dormindo. Alguns fios ruivos cobriam seu rosto, mas eu ainda podia ver aquelas sardas estampadas em suas bochechas.
Levantei minha mão e com as costas dos dedos acariciei sua bochecha, retirando uma mecha da frente do seu rosto. Ela franziu o cenho e apertou os olhos antes de os abrir lentamente. Sua cabeça levantou devagar e sua expressão mudando de sonolenta para felicidade, e logo algumas lágrimas tomaram a face dela. Eu estava sem palavras pra definir o quanto aquilo tinha sido a coisa mais maravilhosa que eu já tinha visto. Deveria ser a primeira vez que vi sorrindo dessa forma pra mim, aquilo era novo, assim como essa sensação no meu peito também era.
— !
Senti seus braços em volta do meu pescoço e sorri fechando os olhos, aquela era uma sensação melhor ainda. me ensinaria que mesmo com 33 anos eu conheceria novas emoções. Ela se afastou lentamente e olhou em meus olhos, suas esmeraldas brilhavam e eu amava aquilo. Seus lábios se uniram aos meus em um movimento completamente inesperado. No começo fiquei surpreso, contudo, levei minha mão até sua nuca e retribuí. Foi diferente de todas as outras vezes que nos beijamos, foi um selar de lábios cuidadoso, saudoso e arriscava a dizer que com amor. Consegui sentir algo incendiando em meu peito e foi tão gostoso aquilo, chegava a ser irreal que algum dia eu sentiria algo parecido. Ela se afastou, desconcertada, parecia que ela também não sabia que iria ter aquela reação.
— Isso vai ser recorrente? — perguntei, curvando levemente o canto da boca.
— Eu… — Ela mordeu o lábio inferior, olhou para o chão e voltou a me encarar com uma expressão completamente diferente. — Foi um lapso. — Ela empinou o nariz, pigarreando.
Por um momento eu vi um rastro da antiga em seu olhar, era nítido o quanto ela tinha mudado nos últimos meses. Eu estava feliz pelo amadurecimento dela, mas também me culpava pela parte obscura que tomou seu coração. Era horrível pensar que eu não pude evitar ela se tornar uma pessoa tão amarga quanto eu. Contudo, talvez pudéssemos curar um ao outro nessa parte. Seria um novo começo.
— Achei que ia morrer… — ela sussurrou, engolindo em seco.
— Eu também.
— Agora que os pombinhos se resolveram, podemos falar sobre esse cretino? — revirou os olhos e cruzou os braços se afastando um pouco de mim. — Sorella, não precisa disfarçar… — Giulia riu e se aproximou de nós com o tablet em mãos. — Ele está em Barcelona.
— Em que lugar de Barcelona? — trincou os dentes e puxou o tablet para as suas mãos. Era novidade aquela raiva que eu via em seus olhos.
— O que eu perdi? — perguntei, desorientado.
— Luca… foi ele que… — vi a ruiva tentar medir as palavras — atacou a cerimônia…
— Como você sabe disso? — Franzi o cenho e respirou fundo desviando o olhar.
— Ele ligou para nossa querida irmã enquanto você ainda estava em cirurgia — disse Giulia de uma vez e eu senti a raiva me consumir por completo.
— Ele fez o quê?! — Acabei me exaltando e o monitor cardíaco começou a apitar, já que a minha respiração começou a acelerar e meus batimentos cardíacos também.
— … — empurrou o tablet para Giu e se aproximou de mim colocando uma mão em meu braço e a outra em meu peito. — Fique calmo…
Uma enfermeira apareceu na porta alarmada, mas Giulia disse que ela não precisava se preocupar, mandou ela embora e fechou a porta do quarto. Fechei os olhos e tentei controlar minha respiração até o monitor voltar a ficar verde.
— Explique isso direito… — Abri os olhos e falei mais calmo.
— Só se prometer não se exaltar.
— Farei o possível. — Ela me olhou reprovando minha resposta e eu soltei o ar pelo nariz. — Vou tentar, …
Quando ela me contou o que ele disse no telefone eu juro que tentei controlar cada músculo para não sair dali e andar até o maldito e acabar com a vida dele. Como ele se atreveu a isso? estava claramente abalada e não de uma forma fragilizada, mas no nível de querer colocar fogo na cidade. Ela realmente tinha mudado bastante e eu admirava seu crescimento como mafiosa, não queria que tivesse sido tão traumático, porém, tudo aconteceu como tinha que ser.
[...]
— A partir de agora vocês vão se virar bem sem mim — começou meu pai.
Estávamos apenas eu, , Filippo e meu pai no escritório. Depois de receber alta do hospital, meu pai fez diversas reuniões exaustivas, eu e precisávamos ficar a par de tudo, segundo ele. No dia de sua viagem, ele nos chamou para uma última reunião, era algo que eu já esperava, mas era difícil imaginar nossas vidas sem Otelo. Você saber que um dia vai ter que se virar sozinho, é bem diferente de estar passando por isso. Aliás, ele mesmo disse que estaria ali para nos ajudar, porém, os negócios chamaram.
— Tinha em mente que estaria presente — falei sentido.
— Preciso ir pra Itália, filho, você já sabe de tudo isso.
— Pai, precisamos de um consegliere — comentou .
— Acho que seu irm… — Vi fazer uma careta. — já tem algo em mente quanto a isso — Otelo se corrigiu e olhou para mim, fazendo eu respirar fundo.
— Vou dar meu veredito na reunião com minhas irmãs.
— E não conversou comigo? — perguntou chateada.
— Não conversei pois sei que irá concordar comigo… — Vi ela arquear uma das sobrancelhas. — Confie em mim, sim?
— Tenho escolha? — Balancei a cabeça em negativo.
— Ótimo, vejo que estão se dando melhor do que o esperado. A Vincere está em ótimas mãos… — Meu pai falou sorrindo e olhou para o relógio. — Agora, Filippo, chame as garotas, vou me despedir delas e preciso ir, senão perco meu avião.
— Peça pra elas virem até o escritório depois, primo — pedi e ele apenas assentiu.
— Obrigada, Don. — sorriu, grata.
— Não mais… — Otelo sorriu e se aproximou de nós dois, deu um beijo na testa de , que sorriu e o abraçou. — Até breve, princesa. — Seus olhos se voltaram a mim antes dele falar: — Acho que o amor pode encontrar até alguém como nós, filho. — Ele piscou o olho direito pra mim e eu franzi o cenho.
Ele estava nos dando permissão?
olhou pra mim com uma expressão confusa e eu apenas dei de ombros, disfarçando minha clara surpresa. Dei a volta na mesa e sentei na poltrona que meu pai estava antes e respirei fundo. Dali em diante seríamos apenas nós. Confesso que era um pouco assustador. Levantei os olhos até minha subchefe e percebi que precisava pelo menos transparecer que sabia o que estava fazendo, afinal, se eu não soubesse, quem saberia?
Passei anos da minha vida sendo treinado pra isso, virar o Don na teoria seria fácil, mas quando você encarava aquilo de frente era uma sensação completamente diferente e nova. Acreditava que faríamos um bom trabalho, porém, agora tudo estava em nossas mãos.
— Vou chamar minhas irmãs. — deu as costas e começou a andar.
— . — Ela virou pra mim novamente. — Seu lugar é aqui… — Olhei para o meu lado e em seguida de volta para ela. — Filippo já foi fazer isso.
— Hm. — Ela parecia inquieta e incomodada.
— Está desconfortável com sua posição?
— Não é isso, eu só… — Ela soltou o ar pelo nariz com força e cruzou os braços. — Não gosto dessa hierarquia entre nós, Filippo é meu primo… Acho indelicado. — Ela marchou até o meu lado e ali ficou.
— Você sempre soube da necessidade da hierarquia no comando da famiglia, .
— Isso não quer dizer que eu concordava com ela, somos família, por que temos que nos tratar como desiguais? — disse, frustrada.
— Você foi treinada dessa forma desde criança, assim como eu, achei que já estava acostumada… — Continuei olhando para ela que estava prestes a responder, mas sua atenção se voltou para a porta.
— Achei que parariam de brigar a partir de agora… — falou Beatrice atraindo a minha atenção também.
— Não estamos brigando, estamos… — pigarreei ao notar o tamanho da tromba que estava em sua cara — resolvendo algumas pendências.
— Claro — falou Giulia debochada e sentou em uma das poltronas, assim como Beatrice, Luna se apoiou em um dos braços da poltrona em que Giu estava e Filippo se manteve em pé ao lado das garotas.
— Posso iniciar a primeira reunião da Vincere como Don?
— Não deveria perguntar, … — falou Luna baixo.
Suspirei e então continuei:
— Primeiro eu queria agradecer por confiarem em mim para ser o Don, assim como em para ser nossa sottocapo. — Olhei para que mantinha um leve sorriso nos lábios. — Como já sabem, Otelo foi para Itália cuidar dos negócios por lá e também da Victoria inc e como ele deixou claro, agora está nas nossas mãos. Nosso pai vai voltar a morar na Itália. — Todas elas prestavam atenção no que eu falava e isso me deixava feliz. — Agora a Vincere vai ser um pouco diferente, por mais que eu seja o Capo, vocês fazem parte da famiglia. Então, queria dizer que tomei uma decisão e quero consultar vocês se concordam com ela.
— , não deveria nos consultar seja lá qual decisão tomar, o Don tem…
— Eu sei de tudo isso, mas de agora em diante as coisas serão do nosso jeito — cortei seu raciocínio, pois sabia onde iria chegar e olhei para , que me olhava surpresa, mas com uma nuance de admiração, aquilo me aqueceu o peito, pois eu nem sabia até aquele momento que era isso que eu queria dela.
— Você está de acordo com isso, ? — questionou Giu.
Senti a mão da minha subchefe em meu ombro e seus olhos cruzaram com os meus antes dela apenas sorrir e balançar a cabeça em positivo.
— O que eu quero a opinião de vocês é que, por mais que nosso pai nunca quis outro consigliere, eu e sentimos que precisamos de um. — Sorri e respirei fundo antes de olhar para o meu primo e dizer: — Quero indicar Filippo Perroni ao cargo de consigliere.
Minhas irmãs sorriram e olharam para o nosso primo que parecia completamente surpreso com o meu anúncio. Nunca tinha falado nada sobre isso pra ele, mas ele sempre foi meu braço direito, e eu o queria como meu conselheiro, principalmente naquele momento. apertou meu ombro como se dissesse que não só concordava como apoiava a minha decisão. Luna foi a primeira a dizer que estava de acordo, animada e sorridente como eu esperava. Beatrice levantou e abraçou Filippo, dando um soco fraco em seu braço dizendo parabéns. Giulia apenas acenou positivamente e disse que não esperava menos que isso, que era a decisão mais sensata que eu já tinha tomado. Giu não pôde perder a oportunidade de soltar uma alfinetada em um de nós.
— Você aceita, Filippo? — perguntou .
— Claro, será uma honra pra mim, senhorita .
Minha sottocapo fechou a cara e deu alguns passos até ficar em frente a Filippo e disse:
— A primeira ordem vai ser tirar o senhorita, sou sua prima, idiota. — Os dois riram e ela o abraçou. — Eu sei que me respeita, mas não quero formalidades entre nós, tudo bem?
— Como queira, prima.
— Bem melhor… — Soltou o ar de forma exagerada.
— Perfeito! Estão liberados… — Todos começaram a dar as costas para sair do escritório e freou seus pés se voltando a mim após todos deixarem o ambiente.
— Se for assim que vai liderar a Vincere, você tem total o meu apoio.
— Achei que eu sendo o Don você me apoiaria seja lá qual fosse a minha conduta.
— Oh, não se engane, se você fizer algo que eu ache dúbio, não vou medir esforços para fazer algo a respeito. — Ela virou as costas e saiu tranquilamente do escritório.
— Indomável… — Sorri desacreditado, ela continuava a mesma de sempre, agora com mais ímpeto e uma pontinha de perversidade. Eu respirei fundo olhando ao meu redor, aquele dia estava esquisito, mas achava que era o primeiro dia de um novo começo.
5 meses depois
Perroni
Eu estava irada, não achávamos Luca em lugar algum, aquele filho da puta tinha virado fumaça, mas eu iria achá-lo, nem que fosse a última coisa que eu fizesse na vida. Os Delanteira estavam quase todos exterminados, faltando alguns meros soldados, meu pai nem se importou em deixar o país quando faltava tão pouco. Era ínfimo o nosso trabalho, mas Luca, ele era o meu objetivo, eu queria matá-lo com as minhas próprias mãos. Ele ousou entrar no meu espaço seguro, me foder, quase matar e ainda sair pela porta da frente, desgraçado! Bati com a mão na mesa do escritório da boate, irritada com meus pensamentos.
Eu tinha ido pra boate depois de discutir com sobre uma abordagem com os políticos influentes, os quais precisávamos da cooperação. Era claro que seria melhor eu ir falar com eles, afinal, eu era uma mulher atraente, e convencer homens enquanto eles estão pensando com o pau é o melhor negócio. No entanto, claro que ele ficaria com ciúmes, apesar de não admitir que era isso. Não estávamos juntos, nem chegamos a conversar sobre o que aconteceu na cerimônia ou no hospital, afinal, nem saberia por onde começar. Além de Otelo não ter nos dado sossego nem um dia sequer depois que voltou do hospital, depois disso papai foi para Itália e foi só trabalho atrás de trabalho.
Eu entendia que sempre teria aquela mania chata de querer me proteger a todo custo, mas uma reunião com um grupo de homens influentes na política não era exatamente algo perigoso. Revirei os olhos com o meu pensamento. Ele sempre com aquela idiotice de dizer que eu gostava de me colocar em perigo.
— Me colocar em perigo uma ova! — falei irritada.
— Deu pra falar sozinha agora? — Olhei para o lado e vi Giovanna me olhando com o cenho franzido.
— Apenas pensando alto…
— Entendi… — Ela mexeu em seu celular e o empurrou pra mim. — Veja isso aqui. — Quando vi, era uma foto de Luca, ou Juan, como ele se denominou quando chegou aqui na boate.
— Onde!? — Levantei da cadeira olhando para ela.
— Vincenzo viu ele no cemitério agora a pouco quando foi visitar a mãe, . Ele está na cidade!
— Eu vou matar esse desgraçado! — Peguei minha arma, coloquei na cintura, minha bolsa e saí em disparada pelo corredor.
— , espere, você deveria chamar o … — Ouvi seus passos rápidos no chão de madeira.
Virei dura e séria olhando para minha melhor amiga e disse:
— Esse problema é meu e eu que vou resolver.
— Ainda continua orgulhosa. — Gio cruzou os braços e torceu os lábios.
— Ele já me salvou mais vezes do que posso contar, Gio… — Abaixei a cabeça, respirando fundo.
— Você pode sempre pedir ajuda, isso não é nenhuma vergonha.
— Sei que não, mas agora eu não preciso que ninguém aperte o gatilho por mim. — Olhei bem pra ela antes de dar as costas e sair quase correndo.
Cheguei no estacionamento e olhei para os meus seguranças e assenti de maneira séria, fazendo eles entenderem meu sinal de saída estratégica, porém perigosa. Entrei em meu carro e dei a partida, sendo seguida por Ettore e Austin. Corri o mais rápido que pude, eu nem sabia se ele ainda estaria lá, mas eu arriscaria. Sentia meu coração batendo forte no peito, estava ansiosa e nervosa. Se eu o achasse, seria tão gratificante poder fazer com que ele sofresse o máximo possível. Ele só merece o pior por ter feito eu me sentir como uma idiota, além de ter tocado no meu corpo intimamente. Bati no volante me lembrando de quando transei com ele. Arrependia-me amargamente.
Assim que dobrei a esquina e avistei a entrada do cemitério, já estava cercado de carros; nossos carros. Suspirei audivelmente quando, ao passar pelos portões, avistei discutindo com alguns dos soldados. Estacionei o carro e desci batendo a porta, cruzei os braços em frente ao peito e encostei no capô da minha BMW enquanto olhava o Don cuspir ordens. Ele me viu algum tempo depois e vi sua carranca amenizar, mas logo ele franziu o cenho novamente, gesticulou para os soldados em sua frente e eles abaixaram a cabeça e saíram apressados. Então ele veio andando em minha direção, já esperava o que vinha pela frente, olhei para o lado torcendo os lábios.
— Quem te avisou? — questionou de maneira irritada.
Levantei a cabeça de maneira desleixada e ri descrente.
— Deveria ter sido você, não? — Levantei as sobrancelhas.
— Não quero que veja esse cara.
— Que pena, eu não quero só vê-lo, quero matá-lo, e não vai ser você que vai me impedir.
— Escuta aqui, — ele deu mais dois passos aproximando nossos corpos, me remexi, ainda encostada no carro e olhei para os lados preocupada —, eu sou o cappo agora e você a Sottocapo, cumpra as malditas regras, cazzo — falou entre dentes.
— Achei que seríamos diferentes, que as coisas seriam do nosso jeito agora. — Cobrei o que ele tinha dito em reunião.
— Eu sei o que disse e pretendo cumprir, porém, quero te proteger disso.
— Eu sou sua sottocapo… — Me endireitei e olhei bem em seus olhos, que se mantinham presos aos meus — Não me venha com esse papo.
— Isso não quer dizer que deixei de querer sua segurança — ele falou baixo, olhando-me com preocupação.
— Algo um pouco impossível… — Revirei os olhos. — Às vezes acho que você esquece do que fazemos parte.
— Sei muito bem quem somos, mas onde eu ainda puder te proteger, eu vou, sabe disso… — Vi ele levantar a mão em minha direção, mas me afastei.
— Precisamos trabalhar juntos, ! — Mantive meus braços rente ao meu corpo, irritada.
— Se isso realmente fosse o que você queria, teria me ligado quando soube que Luca esteve aqui, posso saber o porquê não o fez? — Foi a vez dele cruzar os braços e me olhar altivo.
— Imaginei que já estaria aqui. — Desviei os olhos com a mentira deslavada que eu falei e ele riu soltando o ar com descaso.
Idiota.
Ele passou por mim e abriu a porta do motorista antes de falar:
— Entre no carro. — Desencostei do capô e virei pra ele o encarando confusa. — Vamos, , entre no maldito carro. — Soltei o ar pelo nariz, entrei e sentei atrás do volante, ele bateu a porta com força e fez a volta pela frente do carro falando algo que não ouvi para um dos capitães e entrou no banco do passageiro em seguida. — Dirija.
— Acha que eu sou sua chofer?
— Vamos pra casa, preciso te mostrar algo.
— Agora quer me falar o que está acontecendo? — falei com descaso dando a partida no carro e ele me olhou com uma carranca, apenas ignorei dando de ombros. — Coloque o cinto. — Acelerei para sair dali e peguei o caminho mais rápido pra casa.
Eu não sabia o que ele estava pretendendo, mas apenas fiz o que pediu, dirigi tranquila para mansão com Austin e Ettore ainda fazendo a segurança no carro atrás de nós. Eu só conseguia pensar em como achar o Luca, eu não pensava em mais nada há alguns meses, esse era o meu foco e por mais que Giulia estivesse de olho, não me parecia ser o suficiente. Aquilo me incomodava. Ainda me sentia responsável, já que a culpa dele ter se esgueirado para o nosso ambiente seguro foi minha. Assim que estacionei o carro em frente a casa, desceu e pediu para que eu o seguisse. Andamos pelo corredor lateral do andar térreo de maneira calma, ele estava mais a frente e eu atrás dele. Olhei para a minha esquerda vendo a porta da despensa onde nos beijamos pela primeira vez e aquilo me trouxe lembranças.
— Você primeiro… — Quando olhei pra frente devido ao som da sua voz, vi que ele estava segurando a porta do porão, franzi o cenho e entrei descendo as escadas.
O lugar estava completamente diferente. Quando que tinham feito aquela reforma que eu não tinha visto nada? O ambiente estava bem iluminado, o piso foi trocado, assim como as paredes pintadas de um azul acinzentado. Agora havia uma mesa ali com um notebook em cima e alguns papeis, também um pequeno aparador com bebidas e copos e foi para onde se direcionou para se servir. Olhei para a parede do lado direito mais ao fundo e vi um quadro enorme na parede com vários documentos, um mapa no centro com locais circulados em vermelho e algumas fotos, a maioria de Luca em alguns lugares da Espanha. Dei alguns passos para me aproximar e olhei tudo aquilo, era quase um quadro de detetive.
— O que é tudo isso? — falei sem procurar o olhar do Don, ainda focada nas informações à minha frente.
— Eu sei o quanto é importante pra você achá-lo. — Vi o copo de whisky surgir na minha frente e o peguei, virando meu corpo para encarar tão perto. Levei o copo até meus lábios sem tirar meus olhos dos dele. — Eu vou achar ele pra você e poderá fazer o que tiver vontade.
— Por que não me falou? — Abaixei a mão que segurava o copo e coloquei ele em cima da mesa à minha direita, voltando a olhá-lo apreensiva. — Podemos trabalhar juntos, por que não me deixa te ajudar?
— Esse assunto ainda te perturba, vejo em seus olhos, . — Ele levou a mão em meu rosto e acariciou minha bochecha, o que fez eu engolir em seco e fechar os olhos. — Tudo que eu faço, eu faço pensando em você, sabe disso.
— … — Meus olhos marejaram ao abri-los e ver como ele me olhava, o carinho transbordava em seu olhar, me deixando completamente à mercê dele. Ele também largou o copo em cima da mesa e se voltou a mim, segurando firme em minha cintura.
— Ainda não conversamos sobre, bom, você sabe… — Nossos olhos conectados diziam mais do que as palavras que saíam de nossas bocas, respirei fundo, a mão dele em meu rosto desceu para o meu pescoço e seu polegar acariciou meu maxilar. Senti o carinho em minha pele, aproveitei aquela sensação que deixava meu coração batendo acelerado e ao mesmo tempo fazia meu peito aquecer.
Abaixei meus olhos, assim como meu rosto e falei:
— O que Otelo vai achar disso? As garotas? A máfia? — Eu estava receosa, por mais que ninguém fosse contrariar a decisão de um Don, era arriscado. — Nós éramos irmãos até pouco tempo.
— Você sabe tão bem quanto eu que nunca fomos… — Ele levantou meu rosto segurando meu queixo e olhando pra mim com aqueles olhos negros que me liam tão minuciosamente, senti meu corpo retesar. Seu rosto chegava cada vez mais perto do meu, sua respiração chegava a fazer cosquinha em meus lábios e por mais que meu lado racional parecia ter desaparecido, lutei para trazê-lo à minha mente.
— Então por que ainda parece tão errado? — Passei a língua pelos lábios, sentindo minha boca seca e mordi o inferior. Eu estava ressabiada enquanto eu sentia que ele já tinha tomado uma decisão e eu queria tanto me juntar a ele.
— Porque não nos ensinaram a amar, nos ensinaram a matar, . — Seu polegar se arrastava em meu pescoço e eu respirava devagar, absorvendo cada olhar, toque e palavra que ele direcionava a mim. — Nunca tivemos um vislumbre do que é o amor, mas eu estou aqui pra te mostrar e mesmo que você ache que não mereça, eu vou te amar todos os dias até que meu coração pare de bater, cariño.
— … — Olhei bem em seus olhos.
— Não me diz que…
— Me beija.
Senti a pressão da sua mão em minha nuca para me puxar para ele, seus lábios foram pressionados nos meus e o nosso beijo se intensificou de maneira lenta, desejosa. O toque dele na minha pele era quente e fazia correr um calafrio por todo o meu corpo, um choque elétrico que arrepiava todos os meus pelos. Ele me puxou pela cintura, colando ainda mais nossos corpos, senti meu coração bater mais forte, como se constatasse que ali, em seus braços, fosse o lugar que eu deveria estar. me passava a sensação de ser amada pelo que eu era, meu melhor lado, mas também o meu pior e naquele momento, me senti feliz como há muito tempo não me sentia. Era com ele que eu queria conhecer como era ser amada, era o amor dele que eu queria sentir e era com ele que eu queria continuar a trilhar a minha vida.
Ali eu descobri que uma pessoa também podia ser o meu lugar no mundo.
Capítulo 32
Perroni
Senti a parede gelada em minhas costas ao ter me empurrando nela, sua boca entreaberta, assim como a minha, estávamos ofegantes pelos beijos necessitados que tínhamos dado, não deixávamos o contato visual por nada e eu sentia o tesão me consumindo. Ele segurava meu pescoço e eu passei a língua pelos meus lábios, mordendo o inferior em seguida. acompanhou o movimento antes de os atacar, continuando aquele beijo que me fazia delirar apenas por ser ele. Eu me sentia inquieta, meu corpo chamava o dele, gemi ao sentir sua mão em meu seio e seus beijos desceram pelo meu pescoço, então fechei os olhos aproveitando os toques urgentes.
— … — gemi seu nome, completamente entregue. Quanto tempo eu desejava ter suas mãos no meu corpo do jeito que eu sentia naquele momento? — Alguém pode… — Não consegui nem terminar a frase, minha mente nublou completamente com sua mão apertando minha bunda de maneira rude.
— Ninguém vem aqui… — Seguiu beijando meu colo e massageando meu seio enquanto apertava meu quadril com a outra mão. — Nem mesmo Filippo. É meu escritório particular. — Ele segurou meu rosto e me olhou nos olhos. — A não ser que não queira…
— Você só pode estar brincando… — Ele me pegou pelas pernas ao ouvir minha afirmação e me colocou em seu colo enquanto nos beijávamos fervorosamente, fazendo com que eu circulasse seu pescoço com meus braços.
Vi seu sorriso arteiro entre um beijo e outro, puxei os fios castanhos, tentando aplacar tamanha vontade de me fundir a ele. Era a nossa primeira vez e meu Deus, como eu estava querendo aquilo. A vontade era tamanha que meu corpo chegava a tremer em expectativa. me colocou sentada na mesa de madeira e comecei a desabotoar sua camisa com pressa, deslizei minhas mãos pelo peitoral, ombros e fui tirando o tecido do seu corpo. Lambi os lábios ao ver seu abdômen definido, voltei os meus olhos aos seus, que me encaravam com lasciva. Ele pegou em meu rosto e acariciou a bochecha, desceu até minha nuca e me puxou para outro beijo, esse mais bruto, desejoso, luxurioso; era tudo que eu queria.
Suas mãos desceram para as minhas pernas e ele enfiou os dedos entre o tecido do vestido e minhas coxas, subindo, retirando a peça de roupa do caminho e eu ergui o quadril me apoiando na mesa. Ele apertou minhas nádegas com força enquanto me puxava pra beirada da mesa pra sentir sua ereção rígida dentro das calças. Não pensei duas vezes, desci as mãos ligeiro para seu cinto, desafivelando-o e segui abrindo sua calça. Eu tinha pressa, mas ao mesmo tempo queria que fosse devagar, matando o tesão aos poucos, queria me lembrar de cada mínimo detalhe daquele momento. Queria sentir tudo que pudesse e tudo que viesse, estava tão aberta a receber o que ele tinha pra me dar que eu sentia meu fluído escorrer, minha calcinha já estava pesando no meio das minhas pernas.
Joguei a cabeça pra trás e abri a boca ao ter sua mão me enforcando, logo senti seu dedão invadir minha boca e o chupei olhando dentro de seus olhos. Eu tinha perdido completamente qualquer pudor, qualquer medo ou dúvidas; era ele, tinha que ser ele. Sua língua encontrou a minha mais uma vez antes de ganhar uma mordida em meu lábio inferior e o gosto de sangue inundar meu paladar. Rebolei involuntariamente em cima daquela mesa, tentando friccionar meu clitóris que já implorava por atenção.
Senti seus lábios nos meus, requisitando minha entrega, acariciei seu peitoral e subi até sua nuca, puxava ele pra mim querendo mais e então senti sua mão na parte interna da minha coxa. Gemi baixo, contida, mas não pude aguentar quando seus dedos invadiram minha calcinha, fazendo eu dar um gemido agudo. Ele mordeu meu queixo e logo o meu pescoço, levei minha mão até sua calça, já aberta, e enfiei em sua cueca fazendo movimentos de vai e vem pra estimular seu pau. Sorri vitoriosa quando recebi sua voz rouca gemendo em minha orelha, eu tinha acabado de descobrir um som que eu nem sabia que amava.
— Está dificultando pra mim, cariño — falou de maneira arrastada.
— Estou? — Seus dedos pressionaram meu clitóris fazendo movimentos circulares. — Oh, céus…
— Não vou deixar você sair daqui sem estar com dificuldade para sentar — falou rouco passando o nariz em meu pescoço até chegar em minha orelha e lambe-la.
— Essa era sua única opção… — Senti seus dedos entrarem em mim sem aviso, fazendo eu gemer espremendo os olhos, completamente desorientada com tamanho prazer.
Ouvi o barulho de tecido se rasgando ao mesmo tempo que senti o elástico da minha calcinha chicotear minha pele, foi uma dor gostosa, que me fez gemer em êxtase. Mal tive tempo de raciocinar o que tinha acontecido e já fui puxada pelo quadril, vi se enfiar entre minhas pernas e foi tão sensacional sentir sua língua na minha boceta que precisei me deitar na mesa, levando tudo que estava no caminho ao chão. Fechei os olhos e aproveitei as ondulações de prazer pelo meu corpo, aquele calor que me tomava pedacinho por pedacinho ao sentir as lambidas precisas que ele dava em meus lábios.
Levei a mão até seu cabelo e puxei, gemendo em alto e bom som, não estava mais me preocupando se alguém iria ouvir, que se fodesse, eu finalmente estava completamente entregue àquele homem e nada me impediria de ser amada naquele momento. Nada mais nos impedia de ficarmos juntos e nada era mais importante do que a gente foder ali. Minhas pernas começaram a ter espasmos e aquela chama queimava tudo por onde passava até se concentrar em meu baixo ventre e eu gritar gozando como nunca antes. Apertei tão forte a madeira que a ponta dos meus dedos doeram. Ao abrir os olhos vi os dele bem na minha frente. Puxei pela nuca e o beijei, sentindo meu gosto em sua boca.
— Você é realmente uma delícia — falou baixo entre nossos lábios.
— Queria poder dizer o mesmo… — Sorri, devassa.
— Agora eu preciso me enterrar em você, cariño.
— Por favor… — implorei.
Abracei seu tronco com minhas pernas, beijando-o novamente, aprofundando aquele contato, sua mão apertou minha coxa e ele me puxou junto a ele, me deixando sentada com meu corpo ereto novamente. Assisti ele pegar o preservativo na gaveta e assim que tirou seu pau da cueca, senti minha saliva desaguar em minha boca; aquilo era tortura. Levantei o rosto e percebi que fui pega desejando-o em minha boca, ele agarrou meu pescoço, o que fez eu morder o lábio com força, senti minha lubrificação aumentar apenas por ele ter feito isso. me puxou para um beijo sedento, queria tanto senti-lo que chegava a doer, nada me preparou para o momento, porém, era tão gostoso deixar fluir. Estávamos nos conhecendo intimamente, ao mesmo tempo que parecia que sabíamos muito do corpo um do outro.
Ele subiu a mão pela minha cintura e puxou de vez o vestido que eu usava, levantei os braços pra ajudar no processo e assim eu estava nua em frente a ele, e não em relação apenas às roupas, meu eu estava exposto, tudo que eu sentia estava sendo demonstrado. Coloquei a mão pra trás pra me apoiar na mesa e a outra circulou seu pescoço enquanto ele melava seu pau em minha lubrificação, devagar, ameaçando me penetrar e aquilo estava me ensandecendo. uniu nossas testas e nossas respirações e gemidos se misturaram, encontrei os olhos dele nos meus e remexi o quadril pedindo mudo pra ele me preencher.
— Está tão afoita, cariño.
— Quero sentir você, me fode, … com vontade.
— Se eu te foder com a vontade que eu estou, tenho medo de te machucar. — Ele colocou uma das suas mãos no meu quadril, então senti um arrepio gelado cruzar a minha espinha e uma excitação fora do normal me tomar, no entanto, não consegui raciocinar, apenas gritar quando seu pau me preencheu de maneira bruta, bem do jeitinho que eu gostava. — Você gosta assim, não é? — Sua voz saiu encorpada de prazer enquanto entrava e saía de mim sem nenhuma piedade. O máximo que consegui foi afirmar com a cabeça, inebriada demais com o prazer que me dominava.
Senti sua mão em meu pescoço novamente e cada vez que ele apertava mais, minha boceta se contorcia em prazer e desejo. Minha garganta doía para tentar deixar os gritos incontroláveis saírem, eu estava indo rápido demais ao ápice e sequer demonstrava estar perto de gozar. Sentia meu corpo estremecer por inteiro, uma onda de calor se apossou de mim e os gemidos roucos e sussurrados dele me deixavam ainda mais à mercê de suas investidas.
— Eu vou gozar com você me apertando desse jeito… — falou entre dentes, rouco, próximo ao meu rosto.
Então sua boca buscou a minha e o beijo foi sedento, molhado, quente. Seus dedos apertaram ainda mais meu pescoço e eu gozei, gozei forte de uma maneira que eu nunca tinha gozado.
estava inesquecivelmente me fodendo.
— Caralho… — falou baixo, rouco, como se estivesse se controlando para não ir mais fundo, eu nem sabia se ele tinha percebido que eu tinha gozado, mas ele continuava os movimentos e eu comecei a sentir ainda mais prazer.
Eu remexia meu quadril à medida que nossos quadris se chocavam, meus gemidos viraram gritos de satisfação e ele me beijou capturando cada som que deixava minha garganta, sem parar seus movimentos calculados pra me enlouquecer. Sentia meu corpo pegando fogo, meu coração batia cada vez mais acelerado e o suor escorria pelo meu pescoço, descia pelo vale dos seios e se unia a nós. Ele não estava diferente, o cabelo médio, que ele resolveu adotar, já estava ficando molhado devido ao calor naquele escritório do porão. Seus olhos sempre buscavam os meus e eu tentava manter eles abertos, queria vê-lo, queria manter esse contato visual pra minha mente entender que finalmente éramos um do outro.
Minha cabeça pendeu para trás quando ele se enfiou mais fundo em mim e um gemido sôfrego escapou da minha garganta, cravei minhas unhas no ombro de sentindo mais um orgasmo tomar conta de mim e meu corpo inteiro se enrijeceu. Parecia que eu não estava mais dentro do meu corpo, aquela sensação era surreal. Fechei os olhos e respirei fundo, experimentando essa coisa completamente nova. Minha pele vibrava em cada parte e meu coração parecia que sairia pela minha boca. Ele me beijou, reivindicando todos os meus sentidos, ao mesmo tempo que aumentou a velocidade dos movimentos, espremi os olhos quando senti meu canal sugando-o e acreditava que aquilo tinha sido o estopim.
Remexi ainda mais meu quadril e ouvi o gemido rouco preencher a sala junto com o agudo que me escapou. Sorri satisfeita, ouvi-lo gemer era meu mais novo prazer. Ele parou, ofegante, assim como eu, sentia seu pau latejando dentro de mim. Tentávamos recuperar o fôlego, eu curtia o momento, sentindo meu corpo extasiado ao mesmo tempo que se recuperava do sexo gostoso e necessitado que tínhamos feito. Abri os olhos e ele ainda estava de cabeça baixa, os cabelos caídos em frente ao rosto, então passei a mão em seus fios, levando-os para trás, o que fez ele elevar os olhos até mim.
— … — Sua mão subiu até minha nuca, seu polegar desenhou meu queixo, passou pelos meus lábios e foi em direção ao maxilar, segurando meu rosto. Eu senti e entendi tudo que ele queria me dizer apenas pelo seu olhar fixado ao meu. — Baciami come se ti mancassi (Me beije como se você sentisse minha falta.).
— Mi manchi ogni dannato minuto che passa lontano da me. (Sinto sua falta a cada maldito minuto que passa longe de mim.). — Ele acariciou minha bochecha e selou meus lábios com carinho.
Senti meu peito esquentar, algo em mim tinha se acendido, algo em mim tinha voltado a superfície e eu abracei esse sentimento, abracei tudo que ele me fazia sentir e desejar, naquele momento, eu me senti transbordar. Era isso que era o amor? Se fosse, eu queria sentir todo dia, toda hora, todo minuto e precisava ser ele; Perroni.
— Ti amo, … — Uma lágrima solitária desceu do meu olho e ele me olhou com ternura com um leve sorriso antes de beijar bem em cima dela.
— Quando pensavo di essere al mio ultimo respiro di vita, ho capito che ti avrei amato in questo e in tutti gli altri. (Quando achei que estava em meu último suspiro de vida, percebi que te amaria nessa e em todas as outras.).
[...]
— Gi, tem que sair tudo perfeito! — falei enquanto andava pelo salão da mansão onde fazíamos as festas. — É a primeira festa aberta aos associados com como Cappo.
— E você como sottocapo, já entendi, .— Apenas segui andando dando ordens aos empregados enquanto Giovanna me seguia pela mansão.
— Essas flores não são aí… — Revirei os olhos. — Perto daquela janela, já tinha deixado tudo pré-ordenado. — Apontei para a janela que dava vista para o jardim.
— Nunca vi você nervosa desse jeito.
Giovanna tinha razão, eu estava uma pilha de nervos, aquela festa iria me enlouquecer, precisava dar um tempo. Seria a primeira festa formal depois do desastre que foi a nossa festa de cerimônia de passagem de título. Talvez isso também estivesse me deixando ansiosa, a última vez eu quase o perdi. Fechei os olhos e respirei fundo.
— Acredite, é involuntário.
De meses em meses a família principal organizava festas para união dos associados, além de consolidar a hierarquia e o poder da famiglia. Otelo amava essas festas, mostrava o quanto tínhamos dinheiro e poder, e também deixava claro que ninguém conseguiria comparar-se à família principal. Era uma forma de manter todo mundo na linha e obedecendo a quem deveriam. Contudo, essa festa tinha algo a mais, algo que me deixava extremamente ansiosa.
— Vince vai poder vir ficar no bar? — Dei mais alguns passos e virei para encarar Giovanna esperando a resposta.
— Sim, ele disse que já combinou com o Cris.
— Quem combinou o que comigo? — Ouvi a voz masculina e virei para trás vendo Cristian apenas de calção de banho e uma toalha no ombro.
— Já se acostumou com a vida na família real, né? — Giovanna brincou.
— Não exagere, Gi… — Soltei o ar olhando para a loira e virei para o ruivo novamente. — Você vai ficar na Fascino e o Vince vem pra cá.
— Fico triste de perder a festa — forçou um beiço de choro, mas logo voltou a sua expressão normal —, mas sim, já combinamos dessa forma.
— Você odeia as festas formais da máfia, não se faça… — Ri e então meu celular tocou fazendo com que eu me distanciasse um pouco deles, que ficaram conversando. — Alô? Não, eu disse champanhe! Claro que não, se você acha que é a mesma coisa não deveria trabalhar com bebidas! — Desliguei o telefone e bufei alto, queria gritar.
— Calma, … — Giovanna tentou me acalmar. — Eu sei o quanto você fica estressada quando tem muita responsabilidade, precisa ir com calma.
— Eu sei, eu sei…
— Loirinha, me dá uma carona pra Fascino? — Cris perguntou e Gio assentiu.
— Qualquer coisa me liga, tá bom? — Acenei positivamente e recebi um beijo na bochecha antes da minha melhor amiga sair andando com Cristian.
— Preciso de uma bebida… — Andei até a sala de jantar e me servi uma dose de whisky.
— São 11:30 da manhã! — Olhei para trás e vi Giulia, apenas revirei os olhos e dei um gole generoso na bebida. — Você realmente não tem mais jeito.
— Ótimo, já que chegou a essa conclusão, pare de encher o saco. — Mostrei a língua pra ela em um comportamento infantil e ela apenas seguiu caminho para cozinha bufando.
Fui até o escritório a passos lentos, passei pela biblioteca e então cheguei às portas duplas que separavam os ambientes e encostei no arco da porta admirando o homem que recentemente aceitei que era o meu homem.
— Gostando da visão? — ele perguntou sem nem mesmo tirar os olhos dos papeis e eu ri contida dando mais um gole em meu whisky. — Cariño, se quer alguma coisa, basta pedir.
— Não quero nada, estou apenas respirando, sei que normalmente só você e Filippo frequentam o escritório. — Suspirei de maneira audível. — Preciso de um tempo de tudo que tem a ver com a grande festa…
Ele finalmente olhou para mim com um sorrisinho no canto dos lábios e se recostou na cadeira falando:
— Vem aqui…
Caminhei devagar, olhando pra ele de forma sedutora, coloquei o copo na ponta da mesa e passei os dedos pela madeira até chegar próximo dele. Encostei na mesa, ficando perto o suficiente do corpo de , ansiando por um toque dele, mas sem movimentar-me nem mais um centímetro. Sempre gostava dessa nossa brincadeira de provocação, jamais me cansaria disso, provocá-lo estava no meu sangue. Sua mão veio até minha cintura e me puxou para ele, fazendo-me sentar de lado em seu colo. Sorri de canto e passei a mão pelo seu cabelo, já fazia alguns meses que ele deixava o cabelo crescer. Estava mais sexy, se é que isso era possível. Irritantemente tentador.
Ele corria seus olhos pelo meu rosto e busto, eu sabia que pensava o que gostaria de fazer com meu corpo apenas pela forma cobiçada que me olhava. Senti seus dedos deslizarem em meu pescoço até sua mão estar o envolvendo. Fechei os olhos e ele devagar aproximou seu rosto do meu, sabia apenas pela sua respiração cada vez mais perto e então senti seus lábios nos meus. Minha língua já ficava agitada pra encontrar a dele e quando elas se uniram, eu fiquei completamente zonza, entregue às sensações. Meu corpo automaticamente se inclinou pra mais próximo dele, ouvi a cadeira ranger com o peso do meu corpo se movimentando em cima dele.
Circulei seu pescoço com os braços, sempre buscando cada vez mais aprofundar o nosso contato. Estávamos completamente envoltos naquela esfera sensual que se instaurou quase que instantaneamente no ambiente, eu não ouvia mais nada, a não ser nossas respirações e meu coração batendo forte em meus tímpanos. Seus lábios desceram até meu pescoço e pendi a cabeça pra trás aproveitando o calor abraçando meu corpo por completo. Senti sua mão em meu joelho, gemi ao receber uma mordida no ombro e a outra mão dele apertar forte meu quadril.
— … — disse, em um fio de voz. Ao me ouvir, tinha a certeza que eu estava integralmente imersa naquele momento, ouvindo minha respiração afoita e desordenada. — Alguém pode entrar…
— Ninguém vai nos atrapalhar… — ele sussurrou em meu ouvido e eu fechei os olhos, aproveitando o toque singelo de seus dedos na parte interna da minha coxa, que subiam perigosamente em direção ao meio das minhas pernas. — Eu estou tão louco pra te foder, cariño.
— Não assim… — Rebolei sentindo sua ereção em minha bunda, eu estava quase cedendo tudo de uma vez, tamanho era o meu tesão naquele momento, sentia minha lubrificação me molhar cada vez mais.
— Com certeza não aqui, não assim, você merece o melhor que eu posso te dar… — Sua voz rouca em minha orelha junto ao seu hálito quente em minha pele me fazia sentir coisas que eu não teria palavras pra descrever. — Mas posso fazer você gozar, hun?
— Hm… — gemi sentindo seus dedos pressionarem meu clitóris.
— Você está tão molhada… — Sua língua desenhou em minha orelha e desceu pelo meu pescoço, fazendo eu respirar mais ofegante. — Eu queria tanto enterrar meu pau em você agora. — Dois de seus dedos me penetraram, fazendo eu gritar um pouco mais alto. — Xiu… — Ele segurou meu maxilar me obrigando a olhá-lo. — Não queremos atrair a atenção de ninguém, não é?
— … — implorei.
— Tsc tsc tsc… — Ele subiu até meu clitóris novamente, lambuzando meus lábios com minha lubrificação, friccionando seus dedos no meu ponto inchado, fazendo eu revirar os olhos de tanto prazer. — Não se entregue à luxúria, cariño.
Os movimentos circulares foram certeiros pra me fazer virar os olhos e gemer arrastado sentindo o orgasmo chegando devagar, a dormência subiu pelas minhas pernas, tornando tudo mais quente. Eu me contorcia em seu colo, puxei seus cabelos e trouxe sua boca até a minha, altamente inebriada pelo prazer, meu gemido era abafado devido ao nosso beijo intenso. Eu mal conseguia entender o que estava acontecendo, minha mente já tinha nublado por inteira, eu estava agindo por instinto. Rebolei em seus dedos e com minha bunda pude sentir sua ereção pulsante. As ondas de prazer chegaram arrebatando o que restava de sobriedade em meu corpo, fazendo eu esmaecer no colo de , sentindo meu corpo tremer em espasmos.
— Tinha esquecido o quanto é delicioso ver você gozando… — Olhei para ele, ainda extasiada, tentando retomar minha respiração normal, e o vi chupando seus dedos como se estivesse provando o melhor doce do mundo.
— Podemos subir…
— … — Ouvi a voz do meu primo e abracei , me escondendo em seu peito, senti que ele havia feito algum sinal para Filippo. — Vou… providenciar. — Ouvi os passos se distanciando.
— Por pouco… — Ele riu e eu acabei rindo também. — Não posso subir, cariño. — Afastei pra poder olhar pra ele. — E acredite, eu quero muito… — Ele colocou a mão em minha nuca e enfiou os dedos entre meus fios e os puxou, fazendo eu fechar os olhos e molhar os lábios. — Principalmente agora pelo seu cheiro nos meus dedos pelo resto do dia.
— Te espero no meu quarto à noite. — Sorri, arteira, e beijei seus lábios.
Minhas irmãs sabiam, Filippo sabia, seguranças da mansão sabiam, mas nós queríamos anunciar a todos oficialmente que agora éramos um casal e que manteríamos a Vincere em ordem dessa maneira, era sério e não uma aventura qualquer. Era assustador pensar que pessoas que nem sequer conhecem você a fundo achem que tem a liberdade de opinar sobre sua vida e relacionamentos. No entanto, éramos quem estava no comando e o alicerce da máfia era a famiglia. Tudo precisava funcionar perfeitamente bem. Então sim, o verdadeiro motivo daquela festa era anunciar a nossa relação e que ela seria o alicerce da Vincere. Eu estava ansiosa e nervosa, Otelo viria da Itália, o que ele falaria?
Era aterrorizante imaginar que ele poderia simplesmente nos punir por isso. Eu conhecia o lado amável do meu suposto pai, conhecia os dois, aquele que torturava com prazer os inimigos, e esse eu não estava preparada para ver. Apesar de continuar achando que festas grandiosas são um desperdício de dinheiro e de energia, como sempre, meus gostos não são levados em consideração. Sempre fazemos o que é melhor para a famiglia e a máfia.
— Eu também preciso finalizar tudo, a festa é em dois dias… — falei e ele puxou meu rosto, fazendo com que eu o olhasse nos olhos. — Não diga o que estou pensando.
— Vai tudo correr bem… — Ele me deu um selinho e eu levantei do seu colo, arrumando meu vestido que tinha subido. — Já falei que esses vestidos que você usa me deixam irritados? — Ele passou a mão pelo rosto e desceu pelo queixo.
Olhei pra ele com o cenho franzido e perguntei:
— Não, por que isso?
— Muita carne à mostra, e agora, cariño, você é minha. — Ri em descrença e ele levantou, ficando rente em meu corpo, olhando no fundo dos meus olhos, então eu o olhava de baixo, devido à sua altura. — Estou falando sério.
— , não sou um pedaço de carne e muito menos um objeto para ser seu. Me conhece e me quis assim, então segure seus impulsos de macho alfa. — Dei dois tapinhas no rosto dele e virei as costas, porém, meu braço foi puxado e em segundos estávamos com os corpos grudados com sua mão firme em minha cintura. — Só aceito ser espancada na cama, Don. — Sorri perversa.
— Você testa minha paciência demais, . — Ele me beijou como se eu fosse fugir dele, mas mal sabia ele que tinha razão, eu era completamente sua, mas ele jamais ouviria isso sair dos meus lábios.
Capítulo 33
Perroni
Era um dia importante, não podia negar, por mais que eu tentasse transparecer calmaria para , eu estava completamente nervoso por dentro. É, minhas irmãs sabiam e eu até duvidava que meu pai já não soubesse, ele conseguia saber de tudo que acontecia mesmo estando em outro país. Queríamos anunciar na festa, como uma grande novidade, mas eu e a indomável estávamos fazendo um péssimo trabalho em esconder nossa relação, afinal, depois que decidimos ficar juntos, não nos preocupávamos em sermos discretos. Ajeitei a gravata em meu pescoço enquanto me olhava no espelho e pude sentir até um certo desconforto em minha garganta, por mais que ela não estivesse assim tão apertada.
— Está bonitão, primo. — Vi Filippo atrás de mim pelo reflexo. — Otelo está lá embaixo conversando com os associados já que o Don resolveu atrasar.
— Não achei que estaria em pânico.
— Eu entendo…
— Não, você não entende… — Virei para encará-lo. — É a mulher da minha vida, Filippo, e se…
— Pare de colocar minhocas na cabeça, vamos logo antes que quem venha chamar você seja a própria.
— já está lá embaixo? — perguntei, exasperado.
— Há longos minutos. — Ele foi me empurrando para fora do meu quarto. — Vamos logo!
Respirei fundo ao chegar no topo da escada, desci devagar, como se o tempo passasse de maneira diferente por causa disso, sequei as mãos na calça ao notá-las molhadas, era a primeira vez na minha vida que ficava tão nervoso daquele jeito. Entrei no salão vendo ele lotado, todos queriam me cumprimentar e à medida que andava, apertava a mão de alguém e trocava algumas palavras. Como meu pai sempre me ensinou: seja simpático e dê atenção a todos, eles gostam de se sentirem especiais por conhecerem o Don. Distribuí sorrisos e no meio do caminho vi de longe, usando um vestido verde musgo colado no corpo, as pontas dele desencontradas, um tecido brilhoso e lisinho, parecia seda e me dava ainda mais vontade de tocá-la. Engoli em seco e desviei minha atenção para outro associado que me puxou para um aperto de mão.
Respirei fundo mais uma vez, o controle da respiração parecia me ajudar e finalmente consegui chegar à mesa da famiglia, sentei e logo vi meu pai se aproximando. Chamei o garçom e pedi duas doses de whisky, precisava beber, minha garganta estava seca e a maldita gravata seguia me incomodando. Passei dois dedos entre ela e o meu pescoço, por mais que tivesse a certeza que o problema não era ela.
— Boa noite, meu filho! — Otelo sentou na cadeira ao meu lado e deu um tapinha no meu ombro, sorrindo satisfeito. — Bela festa, organizou tudo?
— Como você sabe, ela adora.
— Sei. — O garçom chegou e colocou os dois copos na mesa, meu pai foi o primeiro a pegar e dar um gole. — Só tenho ouvido coisas boas sobre você dos nossos associados, vocês têm feito um ótimo trabalho nos últimos meses.
— Fico feliz em saber que eles reconhecem nossos esforços. — Peguei o copo e dei um gole generoso ao ver vindo em minha direção, não tínhamos combinado nada, não sabia como ela iria se portar.
— Papai, Don… — A filha da puta sorriu de maneira libidinosa pra mim, o que me fez na metade do gole decidir entornar todo o líquido e chamar o garçom pedindo mais. — Traga um pra mim também — disse ao garçom.
— Como está o caso das drogas nas corridas? — Otelo perguntou.
— Então, parece que os dois idiotas que trabalham com a dealer estão seguindo as pistas pra descobrir quem é o verdadeiro dealer — explicou e o garçom chegou com mais três copos. — Foi fácil conseguir que eles colaborassem.
— Depois de você atirar na garota… — comentei, pegando um dos copos baixos para levar à boca.
Ela me encarou com uma carranca e virou para Otelo antes de falar:
— Ossos do ofício, papai.
— Imagino que sim, querida — meu pai falou com os lábios curvados e eu revirei os olhos.
Não tínhamos estabelecido o momento exato que íamos fazer o comunicado, mas também não sabia o que eu planejava por conta própria. Só quem sabia era Filippo e a Beatrice, ela me ajudou na escolha. Mexi na minha gravata novamente tentando afrouxar, engoli em seco e virei mais aquele copo de whisky, vendo minhas irmãs se aproximarem e sentarem à mesa junto a nós. Respirei devagar, porém, não adiantou muito, meu coração batia acelerado dentro do meu peito. Chegava a ser surreal que eu estivesse parecendo um adolescente apaixonado com tamanho nervosismo.
Olhei para Beatrice, que acenou positivamente com a cabeça, me encorajando a fazer o que eu queria e desejava já há algum tempo. Alguns poderiam pensar que era uma decisão precipitada, mas pra mim era uma eternidade, cada minuto que eu passava longe dela parecia durar tempo demais. Queria deixar aquele sofrimento pra trás, nós dois passamos por tanto, fisicamente e dentro de nossas próprias mentes. Merecíamos a tranquilidade de uma relação estável. Pedi para o garçom avisar a todos os outros garçons que servissem taças de champanhe para todos, queria que tudo estivesse perfeito. Assim que notei que todos os convidados tinham a bebida especial para isso, levantei, atraindo os olhos de todos da mesa, inclusive os verdes que me encaravam atentamente. Peguei a taça e bati a faca nela, pedindo a atenção de todos.
Pigarreei e iniciei meu discurso:
— Primeiramente, quero agradecer a presença de todos, nossa cerimônia foi um belo de um desastre, como todos sabem. — Ouvi algumas risadas contidas, o que ajudou a trazer uma certa leveza para o momento. — Então, e eu, decidimos fazer essa festa para comemorarmos apropriadamente. — Virei para o meu pai. — Quero agradecer a Otelo, que confiou em mim para sucedê-lo, e agradeço a por aceitar o cargo ao meu lado para darmos continuidade a Vincere. — Engoli em seco e respirei fundo. — Preciso dizer também que… — eram tantas pessoas me olhando. Respirei uma, duas, três vezes e então senti minha mão ser agarrada, olhei para o lado e ela sorria pra mim, o que me acalmou um pouco, então continuei: — que agora trabalharemos como um pra manter o sucesso e a hegemonia da máfia.
levantou, ficando de pé ao meu lado e sorriu ao dizer:
— Agradecemos a todos pelo voto de confiança e faremos sempre o nosso melhor, pois a Vincere é o nosso propósito de vida.
— E falando sobre propósito… — comecei, olhei os olhos verdes brilhantes e virei para todos novamente, enfiei a mão no bolso e larguei a taça na mesa. — Queria aproveitar o momento para dizer que agora não será apenas minha sottocapo — afastei a cadeira e me ajoelhei de frente para , que automaticamente cobriu a boca com as duas mãos —, se ela aceitar, será também a minha companheira de vida. Perroni, aceita se casar comigo? — Vi lágrimas tomarem o rosto dela e logo senti seu corpo em meus braços, sorri, pois aquilo era mais do que o sim que eu queria.
— Sim, sim! — ela disse ao se afastar, ficamos de pé e então eu tirei o anel de diamante da pequena caixa de veludo e encaixei em seu anelar esquerdo ao som dos aplausos de todos os presentes. Ela me abraçou e selou nossos lábios, o que me fez sorrir, nós afastamos, mas ainda a mantinha junto do meu corpo, segurando em sua cintura.
— Salute! — Novamente peguei e ergui a taça, e todos repetiram a palavra erguendo suas taças antes de beber.
Filippo bateu em meu ombro sorrindo largo, eu sorri para o meu primo e o abracei enquanto vi meu pai abraçando e beijando sua testa, logo depois me abraçou também e olhei para a minha noiva, vendo ela distraída recebendo abraços das minhas irmãs, de Filippo e de Giovanna. Então eu tive que perguntar ao meu pai:
— Ninguém vai contrariar minha decisão?
— Esse é o poder de um Don, , ninguém vai contra suas decisões, mesmo que ainda achem que vocês são meio irmãos, esse era outro motivo pra você assumir.
— Como? — Franzi o cenho.
— Se vocês dois ficassem juntos antes de você ser o Don, teríamos pessoas contra mim por… você sabe. — Sim, eu sabia, incesto entre primos ou meio irmãos era algo permitido na máfia há algumas décadas, mas naquele momento não era mais algo tão apropriado.
— Você planejou isso?
— Eu só percebi o que se passava embaixo do meu teto, entre os meus filhos, só preferi dar uma ajudinha, mesmo que trazer outra mulher pra dentro de casa tenha me causado alguns prejuízos.
— Carolyn? Desde quando sabe que… — Eu estava atônito, mas em um passe de mágica tudo fez sentido na minha cabeça, meu pai sempre soube. Ri desacreditado. É claro que ele sabia esse tempo todo, meu pai era o Don, nada passava despercebido por ele. Quanta ingenuidade minha achar que estávamos nos escondendo ou que ninguém veria nada.
— Vamos deixar o passado enterrado e olhar pra frente, filho, olha pra ela — meu pai apoiou a mão em meu ombro e eu olhei para , que sorria largo junto das minhas irmãs, aquilo fez eu me sentir bem pra caralho —, ela é seu futuro agora.
Olhei novamente para meu pai e assenti, guardava um sorriso no canto da boca, pela primeira vez me sentia completo. Fui puxado pelas minhas irmãs que também vieram me abraçar, parabenizando pelo noivado, então meu pai se distanciou, pegando seu copo de bebida já engatando uma conversa com um amigo que o parabenizou, e foi quando se aproximou novamente. Ela me abraçou, fazendo eu segurar firme em sua cintura e respirar o cheiro adocicado do seu perfume e algum produto de cabelo que a fazia ser a mulher mais cheirosa do mundo. Ela sorriu pra mim ao se afastar, olhou para a mão dela, admirando o anel e voltou seus olhos aos meus.
— Achei que só iríamos comunicar que estávamos juntos…
— Acha muito cedo pra casar? Podemos ficar noivos por alguns anos.
— Tá maluco? — Ela agarrou meu colarinho e me aproximou de seu rosto. — Já fiquei longe de você por tempo demais. — Seus lábios cobriram os meus e eu sorri contido, feliz de verdade que estávamos caminhando para uma nova era de nossas vidas.
— Bom saber que concordamos em algo. — Recebi um tapa no ombro e ri do bico que ela ficou, algo que não durou muito tempo, já que ela passava o dedão em meus lábios, limpando o batom que ela deixou. Puxei-a pelo maxilar e depositei outro beijo em sua boca. — Preciso ir ao banheiro, acho que fiquei muito nervoso.
— Nervoso pelo quê? — Ela cruzou os braços e arqueou uma sobrancelha. — Achou que eu ia dizer não?
— Se você dissesse não, eu iria te obrigar a casar comigo nem que fosse amarrada. — Comecei a rir e vi a carranca que ela fazia, bati o indicador em seu nariz de leve e beijei sua testa. — Já volto.
Saí caminhando em direção ao corredor, queria ir ao banheiro dos fundos, perto da biblioteca, já que me daria um tempo a mais para ver se precisava resolver algo. Dei passos lentos e fui mexendo em meu celular, me atualizei de algumas demandas e das rondas dos soldados noturnos. Entrei no banheiro, fiz o que tinha que fazer e saí, assim que dobrei o corredor, vi Vincenzo olhando para os lados de maneira incriminatória e descer para o porão pela escada dos fundos, onde ficava a adega. Ele podia estar indo pegar bebidas para abastecer o bar, porém, a forma como ele estava agindo era esquisita.
Eu sei, eu não deveria desconfiar de um dos melhores amigos de , mas ele tinha motivos. Então franzi o cenho e fui atrás dele, desci os degraus devagar, olhei para os lados ao chegar lá embaixo, dei mais alguns passos e entrei na adega, ninguém. Se aquele idiota ousasse nos trair, eu iria torturá-lo das piores maneiras possíveis antes de matá-lo.
— Você é realmente previsível. — Virei ao escutar a voz masculina e a madeira em minha direção foi a última coisa que vi antes de apagar.
[...]
Perroni
Nunca quis casar, não era um sonho que eu tinha desde pequena como a Luna ou a Beatrice. Nunca foi um big deal pra mim me apaixonar, amar alguém incondicionalmente e dizer em frente a todos que aceitaria passar o resto da vida com esse alguém. Nunca imaginei esse conto de fadas. Claro, desenhos infantis de princesas encontrando seu príncipe encantado no cavalo branco me fizeram delirar quando criança. Já na adolescência, já tinha consciência de quem era a minha família, de onde eu tinha vindo e pra onde estava indo. Ser da máfia te dá outro panorama geral da vida, casar não era algo que me apetecia a partir dali e encontrar um príncipe encantado ficou lá na mente da de 8 anos. Como eu disse, um delírio.
Com a história de como eu vim ao mundo muito bem fixada em minha mente, repassada e remoída durante anos em minha cabeça, talvez tenha sido o suficiente pra quando cheguei à fase adulta me fazer ver os homens apenas como um atrativo sexual, nada mais. Era bom ver sexo como necessidade básica e não como obrigação em uma relação selada por matrimônio. Eu me divertia, eles também e eu não precisava dar satisfação da minha vida ou me preocupar se eles iriam ter a chance de colocar as mãos em meu corpo novamente ou não. Era fácil não me apegar quando eu não tive uma relação de exemplo, quando eu não sabia se uma relação entre duas pessoas precisava ter amor pra acontecer, já que eu vim da forma que vim. Um contrato, nada mais.
tinha razão, não fomos ensinados a amar e durante algum tempo isso fez todo o sentido pra mim. No entanto, naquele momento em que ele me beijou dizendo que me amaria foi quando tudo em que acreditava caiu por terra. Percebi que ele era muito mais do que desejo, muito mais do que sexo ou atração, me acendia de uma forma que nenhum outro homem sequer chegou perto de conseguir. Não falo apenas de sexo, mas meu peito se aquecia apenas por ter ele por perto, meu corpo respondia a cada bendito olhar que ele me direcionava, meus pelos se arrepiavam a cada palavra com paixão que saía de sua boca, cada toque seu em minha pele era extasiante e o beijo, algo tão subestimado por nós seres humanos, era tão cheio de significado.
Beijar era como sentir o primeiro raio de sol da manhã tocar meu rosto na primavera, ou como o primeiro banho de mar do verão, ou como colocar um casaco quentinho nos primeiros dias de outono, ou até mesmo se aquecer em frente a lareira enquanto tomo um chocolate quente no frio do inverno. era as melhores coisas de cada estação, eu o amava e esperava que ele continuasse sendo o calor do meu verão, o aconchego do meu inverno, as cores da primavera e a brisa leve do outono. Esperava que ele seguisse comigo, pelas estações, pelos dias, meses e anos que se seguiriam. Eu realmente queria casar com ele e quando o vi de joelhos, segurando aquela caixinha aberta, uma felicidade genuína me preencheu por completo e eu me joguei em seus braços. Não tinha nenhuma outra palavra que eu quisesse dizer a não ser:
— Sim, sim!
Eu fiquei tão absorta naquele momento, meu pai me abraçou, minhas irmãs me abraçaram e disseram o quanto desejavam que fôssemos felizes, era tão importante a benção delas e de Otelo. Filippo também me abraçou desejando que fôssemos felizes, assim como Giovanna, minha melhor amiga, ainda falou que estava um pouco chocada e que esperava que eu contasse os detalhes. Fiquei aliviada que não houve ninguém que se opôs naquele salão, mas era muito cedo pra comemorar, não sabíamos como seria dali pra frente, e se tinha algo que sempre fui ensinada era que: sempre desconfie das pessoas até que elas provem o contrário.
Afinal, eu não sabia se era verdade aquilo que sempre me falavam de ninguém poder contrariar o Don, mas eu não queria pensar em traições naquela hora tão importante, já tivemos traições demais nos últimos tempos. Peguei mais uma taça de champanhe após dizer que iria até o banheiro. Era uma noite especial e tínhamos algo pra comemorar, sorri quando Beatrice disse que não seria mais a única casada de nós. Era verdade, faltava apenas Giulia, que duvido muito que iria casar, mas tudo pode acontecer, não é mesmo? E Luna teria que se decidir entre meus seguranças, afinal, poligamia acho que já seria demais para meu pai aceitar.
— Você está radiante, ! — Giovanna me abraçou e beijou minha bochecha.
— Esse anel é lindo. — Eu olhava ainda admirada para o diamante em meu dedo.
— De nada. — Beatrice fechou os olhos e arrebitou o nariz, me fazendo franzir o cenho.
— Não estraga as coisas… — Vi Anita dar um beliscão em Bea, que gemeu em reclamação.
— Foi você que escolheu? — perguntei um pouco ressentida.
— que escolheu, ele só pediu minha opinião.
— Certeza?
— Sim, , eu só estava enchendo o saco. — Ela me abraçou de lado e bateu a taça dela na minha de leve. — Vamos comemorar a nova noivinha da família e de que data estamos pensando em fazer a festa.
— Calma, sorellina, acabamos de sair de um casamento. — Giulia revirou os olhos.
— Sempre é um bom dia pra planejar casamentos. — Luna deu um gole em seu champanhe e deu de ombros.
— Às vezes eles estão com pressa de oficializar — Bea pontuou.
— Vamos todas nos acalmar, acabei de ser pedida em casamento e aceitar… — enfatizei a última parte e virei a taça bebendo todo o líquido. — Posso digerir a ideia de algo que achei que nunca faria?
— Isso é medo que estou vendo em seus olhos? — Giu me olhou rindo.
— Mio Dio, non sono fidanzata nemmeno da un'ora e vogliono già organizzare il mio matrimonio (Meu deus, faz nem 1 hora que estou noiva e já querem organizar meu casamento.) — falei em desabafo.
— Va tutto bene, sorella. (Está tudo bem, irmã.). — Beatrice acariciou meu ombro em busca de me acalmar enquanto pegava a taça vazia da minha mão, colocando-a em cima da mesa.
— Ela começa a falar nossa língua, vocês já sabem, né? — Olhei de soslaio pra Giulia, irritada. — O olhar já está evidente.
— Parem de chatear a , é um dia especial e estão estragando tudo — Luna ralhou com as irmãs.
— Você e têm todo o direito de decidirem sem a interseção dessas malucas — Giovanna comentou sorrindo.
— Obrigada, Gio. — Sorri para ela e peguei outra taça de champanhe da bandeja de um garçom que passava, o que fez com que eu olhasse ao redor, notando que já fazia algum tempo que havia saído. — Eu vou até o banheiro — avisei dando um gole em meu champanhe e largando a taça pela metade em cima da nossa mesa antes de seguir caminho para o corredor.
Caminhei devagar, cumprimentando alguns associados que me parabenizavam pelo noivado. Eu sorria enquanto tentava fazer uma leitura corporal se estavam mentindo seus votos ou tramando uma traição contra mim e o Don. Ser mafiosa era estar sempre com um pé atrás, demorei pra levar isso mais a sério, porém, depois do Juan ou Luca, me policiava o dobro sobre todos. Era exaustivo, então comecei a entender um pouco mais do por que ficava tão aflito e estressado. Dei alguns passos e vi os banheiros vazios, respirei fundo e olhei para os lados em busca de vê-lo, então me lembrei que ele poderia ter ido ao banheiro perto da biblioteca. Fiz a volta e entrei no corredor da parte de trás do primeiro andar da mansão, dei uma rápida olhada na biblioteca e no escritório, pois trabalho é o segundo nome do meu, agora, noivo, mas nada dele.
Parei na porta e peguei meu celular no meu coldre de coxa, era sempre útil quando tinha que usar vestido. Desbloqueei a tela e fui caminhando em direção a cozinha enquanto abria o aplicativo de mensagens e então esbarrei em alguém.
— Céus, Vince. — Abaixei para pegar o meu celular que tinha caído no chão e olhei de volta para o meu melhor amigo, que segurava duas garrafas de vinho tinto.
— Está bem, ?
— Sim, mas levei um susto, não achei que teria alguém aqui atrás. — Passei a mão pelo tecido do vestido e suspirei.
— Vim pegar algumas garrafas, aliás, parabéns pelo noivado. — Vincenzo sorriu e me abraçou.
— Obrigada, Vince.
— Dá pra ver que está feliz.
— Por incrível que pareça, eu estou exatamente onde gostaria de estar. Você já suspeitava que tinha alguém na minha cabeça, não sei como faz isso, mas é coisa de vidente… — Soltei uma risada.
— O que posso dizer? — Ele deu de ombros. — Estava estampado em seu rosto que estava apaixonada.
— Você viu o ?
— Ele estava discutindo com alguém no telefone, já olhou lá fora?
— Ele não consegue mesmo ficar longe do trabalho. — Revirei os olhos. — Obrigada. — Bati a mão em seu ombro e segui caminho até as portas duplas da cozinha que davam para o jardim, corri os olhos pelo terreno e nada além dos dois soldados que ficavam fazendo a segurança daquele lado da casa. — Boa noite, Ângelo, Carlo, viram o Don?
— Não, senhorita Perroni.
Bufei em reclamação, eu não o perdoaria se ele tivesse saído para resolver algo fora da mansão logo naquele momento, naquele dia e na nossa festa que eu passei tanto tempo planejando. Se ele queria me ver irritada, ele conseguiu.
Capítulo 34
Perroni
— Vincenzo? O que faz aqui? — perguntei ao vê-lo.
Franzi o cenho sem entender nada, acordei amarrado, as mãos junto às minhas pernas e meu corpo preso ao cano grosso de ferro da parede no porão atrás da adega refrigerada, sabia a localização daquele porão pela porta reforçada que tínhamos colocado ali. Tínhamos alguns túneis por baixo da mansão, interligados com porões que ficavam espalhados pelo nosso terreno. Quando compramos a casa aquilo já existia, claro que era útil, poderíamos usar para fuga caso a mansão fosse invadida por inimigos, por isso a porta nova. No entanto, era algo que nunca foi usado, mas aparentemente era usado por alguém sem o nosso consentimento.
— Eu poderia perguntar a mesma coisa.
— Mas foi você que… — Fechei os olhos sentindo uma dor aguda na lateral da minha cabeça, abaixei a cabeça para conseguir levar minha mão até a testa e respirei fundo.
— Não só não fui eu, como estou puto que esse cretino conseguiu se passar por mim por tanto tempo. — Eu sentia a raiva intrínseca em cada palavra que ele falava.
— Então ele é… Mio dio, ! — Comecei a me remexer e tentar soltar minhas mãos da corda, eu estava em pânico, se ele conseguiu se passar por Vincenzo, ele conseguiria se passar por mim?
— Não adianta, eu já tentei. — Ele soltou o ar e encostou a cabeça na parede de tijolos. — Faz quase um mês que estou aqui, , eu tinha esperança que alguém notasse, mas ele é perito em disfarces.
— Como você sabe? — questionei, inquieto.
— Ele vem me dar comida e fica falando, um insuportável se você quer saber, principalmente por parecer que estou me olhando no espelho. — Ele revirou os olhos. — Imagine a minha surpresa quando fui preso por mim mesmo.
— Se ele se passou por você, ele pode muito bem se passar por mim.
— Luca me estudou, trabalhou na Fascino pra aprender como eu me portava, ele me contou tudo! — Vi ele travar o maxilar. — Não acho que ele vá assumir seu lugar, ele não teve tempo pra isso.
— Mas nada me garante que ele não quer tomar a Vincere de dentro, como as garotas ouviram a Carolyn falando no telefone.
— Pelo que ele falou, ele e essa Carolyn estavam trabalhando juntos, são primos ou eram, já que a fez o favor de dar cabo nela.
— Se ele planeja mesmo tomar a Vincere de dentro… Porra! — Trinquei os dentes, eu estava possesso, eu ia desmembrar aquele filho da puta quando saísse dali. Puxei com mais força a corda que me prendia às minhas pernas uma, duas, três vezes, antes de gritar soltando a raiva que me acometia.
— Eu sinto muito, tentei muito sair daqui, gritar pra ver se alguém me ouvia, mas nada aconteceu… Sigo aqui preso e servindo de ouvinte pras idiotices desse imbecille. — Ele bufou e fechou os olhos, assumindo uma pose de derrotado, mas eu não iria desistir tão fácil assim.
— Ideias do meu pai, aqui dentro é a prova de som, inclusive ele colocou até um microfone na adega pra poder escutar daqui de dentro — expliquei.
— Nossa, achei que seu pai odiasse artimanhas policiais. — Ele riu estranhando.
— Na verdade, foi algo que eu disse quando era criança em uma de suas visitas.
— Foi útil em algum momento?
— Nunca usamos… — Dei de ombros. — Mas tem que ter algum jeito, somos dois agora, precisamos pensar, ele tá perto da e eu… não vou deixar ele encostar nela — falei baixo, irritado e sentindo meu sangue ferver nas veias.
— Imagina o quanto estou feliz que eu esteja aqui enquanto ele está com a minha namorada!
— Meu Deus, Vince, sinto muito.
— Tento não pensar tanto nisso, senão já teria enlouquecido. — Ele suspirou e voltou o seu olhar para mim. — Alguém está esperando o seu retorno?
— Está acontecendo uma festa acima da gente, Vincenzo, eu acabei de pedir a em casamento. — Soltei o ar em lamentação.
— Então ela vai notar a sua ausência e vai te procurar! — ele falou animado com a hipótese. — Espera, casamento? — Sua testa enrugada demonstrava sua estranheza.
— Esse assunto não vem ao caso agora. A confia em você, se ele inventar alguma desculpa pra ela sobre onde estou, ela vai acreditar.
— Merda! Estamos fodidos.
— Eu vou sair daqui… nem que eu tenha que arrancar minhas mãos do corpo, Vince.
Perroni
Estava possessa, deveria ter saído pra resolver seja lá o que fosse da Vincere, sabia a importância do Don, assim como eu como sottocapo, mas ele não poderia ter esperado ou ao menos me avisado? Entrei no salão novamente bufando e peguei uma taça de champanhe da primeira bandeja que passou por mim. Caminhei até minhas irmãs e elas me olharam de soslaio.
— Era brincadeira, , não precisa ficar tão irritada. — Giu cruzou os braços e torceu o lábio.
— Que se foda isso, Giulia — esbravejei. — sumiu, deve ter ido resolver alguma merda… logo agora.
— Ele não faria isso… — Beatrice me olhou com a testa enrugada. — , ele estava esperando semanas por essa festa, até a Vincere fica em segundo plano quando se trata de você.
— Vince disse que ele estava discutindo com alguém no telefone.
— Viram o Don? — Olhei pra trás vendo Filippo e uni as sobrancelhas.
— Achei que ele estaria com você. — Senti meu coração vacilar e eu engoli em seco, voltando meu olhar às minhas irmãs.
— Calma, vou descobrir onde ele está. — Giulia tirou o celular do decote e começou a mexer nele, seus dedos mexiam sem parar e seus olhos também. Eu estava começando a ficar inquieta, tomei o restante do líquido em minha taça e a larguei em cima da mesa. — Última vez que ele passou pelas câmeras foi indo para o corredor da biblioteca. Não temos câmeras a partir dali por questões de sigilo.
— Filippo, sem alarde, eu, você, a Bea e a Luna vamos a procura dele. Giulia e Anita fiquem de olho em tudo, inclusive nas câmeras, estou com meu celular, qualquer coisa me avise. — Virei de costas pra começar a andar, porém voltei a olhar minha irmã. — Giu, não deixe o papai saber.
— Deixa comigo.
— Eu dei uma rápida olhada no escritório quando vim a procura dele. Tem alguma passagem secreta na biblioteca? — perguntei ao meu primo enquanto andávamos em direção ao corredor dos fundos.
— Não que eu saiba, a não ser que seja algo que só o Don tem acesso — respondeu Filippo.
— Isso tá estranho — Luna comentou. — Eu vou procurar lá em cima, ele pode ter subido pela escada dos fundos.
— Eu vou procurar no jardim — Beatrice falou.
— Vou verificar na biblioteca mais uma vez e então resta o porão das torturas, verei lá também — o consigliere ditou.
— Certo, vou descer até a adega.
Fomos cada um para um lado, desci as escadas segurando meu vestido longo para não cair. Dei passos pelo corredor no subsolo, olhei o armário onde tinham mantimentos não perecíveis em grande quantidade, passei pela segunda porta, onde ficavam as armas de grande calibre, que estava trancada com cadeado. Entrei na adega e não tinha nada fora do lugar, respirei fundo e me encostei na pequena ilha de madeira que tinha no centro com algumas taças e suspirei. Eu não queria pensar o pior, mas aquilo estava muito estranho. Beatrice tinha razão, ele não sairia dessa forma, mudou muito nos últimos meses, e se tem uma coisa que ele não faz é ser omisso. Dei dois passos e senti algo embaixo da minha sandália, levantei o pé e vi algo reluzir, agachei para ver o que era e arregalei os olhos ao ver o pequeno broche. Era o broche de !
— ? — Escondi o broche em minha mão e fingi estar afivelando a sandália e me levantei devagar ao ouvir a voz masculina. — O que está fazendo aqui? — Olhei para cima e vi Vincenzo.
— Eu estava enlouquecendo com tanta gente falando comigo, você sabe como eu sou. Precisava respirar. — Sorri e soltei o ar de forma teatral.
— Mas é melhor voltar, seu pai estava te procurando.
— Nossa, tem razão… — comecei a caminhar em direção a porta, mas travei onde estava ao ver minha irmã.
— , eu não achei o ! — Arregalei os olhos quando Beatrice invadiu a adega, claramente preocupada.
— Você não achou ele, ? — Engoli em seco e virei para Vince. — Eu ajudo vocês a procurá-lo, tenho certeza que ele deve estar resolvendo algo importante.
— Nada é tão importante quanto nesse momento — Bea falou, irritada.
— Imagino que não. — Vi Vincenzo sorrir de uma forma que eu nunca presenciei. — Vamos, . — Ele tentou me tocar nas costas para me direcionar para fora dali e se ele queria tanto ir embora, algo estava errado, então me afastei dele e vi Beatrice franzir o cenho. — O que houve?
— Bea, corre! — gritei e tentei pegar a minha arma do coldre de coxa, mas Vincenzo foi mais rápido, ele me empurrou em uma das estantes de bebida fazendo com que eu batesse contra ela e minha arma caísse do outro lado da adega. Tonteei, fechando os olhos e ao abri-los vi ele segurando Beatrice pelos cabelos.
— Você deveria ter ficado lá em cima, para o seu próprio bem…
— Vince, por quê? — Senti um aperto em meu peito, eu estava incrédula que ele realmente estava do lado de lá. — Por que me traiu?
— Muita coisa acontece na vida e acabamos mudando de ideia, sabe como é, né?
— Não, não sei. — Senti meus olhos encherem de lágrimas, balancei a cabeça em negativo sem acreditar que aquilo estava acontecendo. — Você é meu melhor amigo desde o ensino médio, o que deu em você?
— Não tô a fim de papo nostálgico que não vale de nada.
— Como você ousa falar essa estupidez?! — berrei, inconformada, sentindo as lágrimas escorrerem. — Sempre foi eu, você e a Giovanna!
— Chega de escândalo, céus… — Ele revirou os olhos. — Seria maravilhoso se eu tivesse conseguido matar o Don antes de você perceber… — Ele riu diabolicamente e então vi minha arma a poucos metros de mim e fiz menção a me mover, mas ele tirou uma faca do bolso e colocou no pescoço de Beatrice, fazendo eu congelar onde estava.
— Tsc tsc tsc… Diria que é arriscado você fazer movimentos bruscos.
— Se você machucar minha irmã eu juro que…
— Jura o quê? — ele me interrompeu, passando a faca deitada no pescoço de Beatrice enquanto segurava ela pelos cabelos. Ele cheirou o pescoço dela e vi minha irmã apertar os olhos em total desespero. — Será que ela trepa tão gostoso quanto você, ?
— Nem que você fosse o último homem do planeta — Beatrice falou entre dentes.
— O temperamento é bem parecido com o seu. — Ele deu risada.
Primeiro é traído por Nero, o homem que sentou à nossa mesa, que era considerado parte da família, e agora isso. Eu nem sequer reconhecia quem era aquela pessoa à minha frente. Eu sentia cada veia do meu corpo pulsar, não conseguia tirar os olhos dos dois, eu precisava tirar ela dali. Eu tentava controlar a minha respiração, minha cabeça pensava em tantas coisas ao mesmo tempo que nem sequer conseguia identificar uma delas. Eu precisava ganhar tempo para Filippo poder chegar ali, ou eu precisava agir. Talvez eu pudesse fazer um pouco dos dois.
— Se você soltar ela, eu garanto que você deixa a mansão intacto, Vince.
Ele pareceu ponderar, mas logo riu antes de falar:
— Quem está em desvantagem é você. Então agora eu que dou as ordens por aqui.
Perroni
Pra mim tinham se passado horas, aquilo estava me tirando do sério, eu estava completamente impotente, preso ali e sem poder evitar o pior. Aquele canalha não ia se safar dessa, eu precisava me libertar. Me remexi novamente e tentava respirar fundo ou iria enlouquecer. Olhei para Vincenzo e ele mantinha o olhar fixo no espelho que tinha na parede em frente a gente, mais uma invenção do meu pai. Um espelho que dava para ver o outro lado, porém, na altura em que estávamos não era possível ver quase nada, já que o espelho ficava no alto e no fundo de uma das prateleiras de bebidas. Tentei me acomodar sentando melhor e dobrei minhas pernas fazendo com que meu isqueiro caísse do meu bolso.
— Eu não acredito… — Vincenzo olhava para o objeto de metal no chão e me encarou sorrindo. — Parece que ele não é tão esperto assim…
— Inacreditável… — falei, incrédulo. Continuei tentando tirar minhas mãos das minhas pernas, eu puxava e mexia de uma lado pro outro e sentia a corda apertar em meus pulsos, mas a outra corda que prendia meus pés às minhas mãos parecia estar se soltando. — Agora eu preciso conseguir pegar ele.
— Você vai conseguir.
Continuei puxando, remexendo minhas pernas e as mãos e finalmente as soltei, porém ainda estavam presas uma na outra. Respirei fundo e soltei:
— Merda. — Fiz um esforço absurdo para conseguir pegar ele no chão, mas consegui o isqueiro zippo, presente do meu pai quando fiz 21 anos e ele seria o que me salvaria. Abri o isqueiro e girei e pedra, faísca, girei novamente, mais faísca e nada de fogo. — Porra, você nunca me deixou na mão, não faça isso agora. — Tentei uma, duas, três vezes e nada. — Cazzo!
Respirei fundo fechando os olhos e peguei o zippo novamente, abri e coloquei ele na altura dos meus olhos riscando a pedra em seguida e a chama azul e amarela apareceu. Comemorei e olhei para o meu companheiro de cela que balançava a cabeça em positivo, me apoiando. Eu não conseguiria queimar a corda em um lugar que não pegasse a minha mão, mas nada faria eu desistir. Coloquei o isqueiro aceso entre meus joelhos, peguei a gravata e enrolei o que pude do tecido colocando entre meus dentes.
— Vai dar certo, .
E ouvindo a frase de encorajamento de Vince, coloquei minha mão em cima da chama onde estava a corda amarrada. Ela começou a queimar devagar, derretendo cada linha encerada, cada vez mais próximo do meu pulso. Senti o calor piorar a cada segundo, até começar a sentir o cheiro de pelo queimado. Fechei os olhos e mordi o tecido em minha boca com força. Acabei afrouxando o aperto dos meus joelhos no zippo e ele caiu fazendo com que eu tentasse imediatamente tê-lo em minha posse de novo, só não esperava que eu pegasse na chama.
— Porra! — gritei de dor fechando os olhos, fazendo a gravata sair da minha boca
— Puta que pariu! — Vincenzo xingou. — Respira fundo e se concentra, .
Respirei algumas vezes e me concentrei, estiquei meus braços até onde eu conseguia, me esforçando mais para conseguir pegar o isqueiro com dois dedos. Coloquei entre meus joelhos novamente, ergui os pulsos em cima da chama de novo e minha pele começou a arder, o cheiro de carne queimada invadiu o porão, porém senti a corda deixar meus pulsos e então me distanciei do fogo imediatamente. Respirei aliviado ao encostar a cabeça na parede, meus pulsos estavam doendo pra caralho, mas eu não tinha o luxo do tempo. Desfiz o nó das minhas pernas e logo em seguida o que estava em minha cintura me prendendo ao encanamento da parede. Levantei depressa e corri até o outro lado do porão e desamarrei Vincenzo.
— … — Ele segurou meu ombro assim que eu iria me levantar. — Algo me diz que nada disso estava nos planos dele. Por tudo que ele me contou, ele é extremamente meticuloso. Nada está planejado, então temos o elemento surpresa.
— Vá pelo túnel — apontei a saída no fim do porão —, dobre à direita e à direita de novo, você vai sair na casa da piscina, lá tem um quadro de guerra acima da escrivaninha, afasta o quadro e você vai ver a arma escondida.
— O que você vai fazer? — perguntou, preocupado.
— Vou matar aquele filho da puta com minhas próprias mãos e se tivermos sorte, você vai chegar aqui com a arma pra garantir que ele continue morto.
Vi Vince acenar e correr pelo túnel, respirei fundo e olhei pelo espelho, o desgraçado estava com a minha irmã Beatrice como refém. Olhei para o canto e vi parada, petrificada, sem saber o que fazer. Aquilo não era nada bom, que merda. Vi a caixinha na parede onde ficava o botão para poder ouvir o que se passava na adega, apertei e o som que saiu foi péssimo, quase como se ouvisse algo robótico, era quase inútil. Precisava pensar como resolver aquela merda toda, cada minuto era importante em uma situação como aquela, pensa, pensa.
Perroni
Engoli em seco e mordi o lábio, eu estava a beira de cometer uma loucura, mas eu não podia deixar ele machucar Beatrice. Foi quando ouvi passos de salto alto e eu não tinha sido a única, Vincenzo se afastou da porta ainda segurando Bea com seu braço esquerdo, circulando o pescoço dela e olhou pra mim colocando o indicador em frente aos lábios, dizendo mudo para eu não gritar. Assim que Luna chegou na porta, ele a olhou, aproveitei sua distração e me joguei no chão pegando a minha arma. Levantei em posição, apontando a arma para a cabeça daquele em que confiei durante tantos anos da minha vida.
— Ótimo momento para uma reunião familiar. — Vicenzo riu, enquanto forçava a faca devagar no pescoço de Beatrice, que apertava os olhos em dor e mantinha a arma apontada para Luna.
— Você não vai atirar — minha mão estava tremendo, que merda —, tem uma festa aqui em cima, você acha que depois de um tiro você vai conseguir escapar?
— Quem te garante que não tenho soldados ao meu lado?
Eu estava perdida, uma faca cortava devagar o pescoço da Beatrice, eu estava vendo a gota de sangue escorrendo, eu e a Luna estávamos de mãos atadas. Tensionei meu maxilar, era arriscado tentar acertar a cabeça dele com a cabeça de Bea tão próximo, ainda mais levando em consideração o quanto estava nervosa e trêmula. Eu sei do meu treinamento, nunca errei uma bala sequer, mas era a minha irmã, não era simplesmente um papel na parede. Se eu errasse, eu jamais iria me perdoar. Eu seguia com a arma em punho, atenta a eles, minha respiração estava pesada, sentia meu estômago embrulhado como nunca senti antes. Caralho!
— Então, tive uma ideia maravilhosa! — Ele sorriu, destravando a arma. — Vou te dar a chance da escolha, . — Franzi o cenho tentando entender onde ele queria chegar. — Qual das duas irmãs você quer perder primeiro?
— Quem é você? — Senti meus olhos arderem e algumas lágrimas escorrerem novamente. — Fingiu por tantos anos me amar, amar minha família, ser o meu melhor amigo e agora se comporta como uma pessoa completamente diferente!
— As pessoas mudam, , acontecem coisas na vida que mudam a nossa visão das coisas.
— Você — minha mão tremeu e eu senti um aperto no peito enquanto lágrimas deixavam meus olhos — foi a pior pessoa que eu já conheci.
— Vamos, … não mude o assunto, escolha uma das duas, sempre temos uma favorita, pode falar, ninguém aqui vai te julgar. — Ele riu, se divertindo com o meu desespero. — Alguém vai ficar com raiva, mas talvez quando vocês se encontrarem no inferno façam as pazes.
Eu precisava me acalmar. Fechei os olhos e respirei profundamente, a mafiosa sem coração precisava entrar em cena. Nunca esperei uma facada tão forte em minhas costas. Vincenzo era meu melhor amigo e ele simplesmente me traiu e queria matar as minhas irmãs. Eu precisava pensar com clareza. Olhei para Luna, que olhou para Beatrice, que voltou seus olhos para mim e assentiu discretamente. Atirei na mão de Vince que segurava a arma, fazendo com que ele a soltasse e berrasse em dor. Bea aplicou um golpe de arte marcial, ippon seoi nage¹, derrubando-o de costas no chão, então ela correu para o meu lado e eu estiquei o braço para trazê-la mais rapidamente ao meu encontro.
Vi Luna puxar sua faca das costas, e ir em direção a Vince, que estava deitado e indefeso. Quando de repente ouvimos um tiro e nos abaixamos por impulso atrás da ilha que havia ali, quando eu ia me levantar, ouvi um estrondo e olhei para trás vendo a porta que dava acesso ao porão abrir, vi passando por ela correndo, ele passou por cima de nós, assim como da ilha. Me levantei rapidamente e vi ele segurar a cabeça de Vincenzo e levar de encontro a parede atrás dele, jurei ter ouvido ossos se quebrando. Cobri a boca assustada ao olhar para o lado e ver Luna cambaleando para trás, sua mão estava do lado esquerdo de sua barriga.
— Luna! — Bea gritou e se moveu, foi quando minha irmã virou de frente, ela tirou a mão do abdômen olhando para a mesma e olhou para mim, franzindo o cenho.
— Não… — falei desorientada ao ver Luna caindo lentamente no chão, sendo segurada por Beatrice, que teve uma reação mais rápida que a minha. Retomei as forças do meu corpo e fui até elas rapidamente e era nítido o sangue escorrendo por seu vestido, então Luna levou a mão até o ferimento novamente. — Não, não… Luna, olha pra mim. — Segurei seu rosto e vi seus olhos me encarando, brilhantes como sempre foram. — Sorellina, per favore… — Levei a mão até a dela e outra foi sobre a minha, olhei para Beatrice, que estava ajoelhada ao meu lado, também chorando.
— Eu esperava ser a próxima a casar… — Ela sorriu e senti sua respiração pesada. — Acho que o papai não iria gostar da ideia… — sua voz falhou — de um trisal…
— Não se esforce, vamos conseguir um médico e você vai casar com quantos soldados quiser. — Nós três rimos com lágrimas escorrendo pelos nossos rostos. Foi então que percebi o som da lâmina cortando a carne, olhei para o lado, vendo enfiar a faca em Vince diversas vezes, ele já estava morto, tinha certeza disso pela quantidade de sangue. Filippo apareceu na porta da adega e arregalou os olhos, vi ele já pegando o celular e colocando no ouvido, nem sequer precisei pedir nada.
— Precisamos de uma ambulância na mansão Perroni, agora! — Ele desligou e o vi ligando para mais alguém. — Giulia, desce na adega, corra.
Não levou nem 5 minutos para Giulia chegar na porta acompanhada de Anita, que cobriu a boca em choque ao ver do que se tratava.
— Luna! — Giulia ajoelhou no chão ao nosso lado a abraçando. — Me diga que ela vai sobreviver! — ela berrava e olhava sua gêmea, acariciando seu rosto. — Sorellina, me responde, por favor… — Giu acariciava os cabelos dela e sorria à medida que chorava copiosamente. — Temos tanto para realizar, lembra da promessa que fizemos? Precisamos cumpri-la. Eu e você contra o mundo, Lu, sem você eu não consigo. — Ela encostou a testa na de sua gêmea e as lágrimas não paravam de escorrer de seus olhos.
— Sempre vai ser… — Luna tossiu cuspindo sangue — nós contra o mundo. — Ela olhou para Beatrice e sorriu: — Parece que… — olhei pra minha irmã novamente e ela sorria levemente — eu não sou uma péssima mafiosa afinal, Bea. — Vi o último sorriso dela antes de sua cabeça pender lentamente para o lado e seus olhos permaneceram estáticos.
— Não! — Giulia berrou, e sentindo a dor que aquele grito emanava, a abracei, assim como Bea nos abraçou. — Não, não… isso… volta, Luna! — Seu choro era desesperador.
Filippo ajoelhou no chão olhando para nós e eu chorava copiosamente junto com Beatrice e Giulia, que levou a mão até os olhos da nossa irmã e os fechou, tornando tudo aquilo ainda mais real. Eu não queria, não queria acreditar que tínhamos perdido o coração da nossa família, ela era a luz em meio a tanta escuridão, Luna era o lado doce que precisávamos para não perder de vez a nossa humanidade. Abracei ela ainda mais forte, sentindo a dor em meu peito forte e irremediável.
— ? — Outra voz masculina, que eu conhecia bem, se fez presente.
Virei para trás de supetão e vi Vincenzo, franzi o cenho completamente perdida, me desprendi de minhas irmãs e levantei. Eu estava apavorada, olhei para o corpo desfigurado do outro lado da adega, estava sentado no chão, coberto de sangue, respirando ofegante e voltei a olhar Vincenzo em minha frente, bem e vivo.
— Como você… — Eu estava em choque.
— , não era eu — Vincenzo falou e meu choro se intensificou novamente, cobri minha boca com minha mão e pendi os ombros, ele veio até mim e me abraçou, acariciando meus cabelos. — Nunca foi… — disse baixo.
Meu verdadeiro melhor amigo estava ali, ao mesmo tempo que minha irmã não estava mais.
Luna estava morta.
Perroni
Perder minha irmã ali, na minha frente, pelo ato corajoso que ela fez ao enfiar a faca em Luca para salvar todos nós, era uma sensação dúbia. Orgulho por Luna ter feito o que fez, mas um sofrimento irreparável me abraçava à medida que o tempo passava. Sentia que tinha falhado com minha família, como irmão, falhado com a Vincere, como Don e falhado comigo mesmo. Eu não fui rápido o suficiente para salvar todos, não podia acreditar que aquilo realmente estava acontecendo.
Eu perdi completamente a minha racionalidade, quando acompanhei tudo através do espelho falso, sabia que era a oportunidade pra eu alcançar Luca. Eu tinha transformado o corpo dele em trapos, eu estava com tanto ódio que enfiei a faca em seu corpo mais vezes do que poderia contar, eu só parei porque cansei. Eu seguia tentando recuperar o fôlego e assistia e minhas irmãs em um sofrimento compartilhado, não só entre elas, mas também comigo. Luna se foi, e mesmo que eu tivesse matado o Luca, isso não a traria de volta. Meu coração estava em agonia, jamais achei que perderia uma delas.
Senti as lágrimas transbordarem dos meus olhos e os fechei por um momento, abaixando a cabeça. Senti duas mãos em meus ombros e então levantei o rosto, vendo a minha frente, ela acariciou meu rosto, com tantas lágrimas quanto eu em suas bochechas e se jogou em meus braços. Estávamos aos pedaços, aquilo iria nos deixar uma ferida que demoraria muito a cicatrizar, se é que fosse.
Capítulo 35
Perroni
O cheiro era de terra úmida, eu olhava para a sepultura que tinha sido cavada, o céu estava nublado, nuvens carregadas de chuva acima de nós apenas esperando o seu momento para derramar água. Parecia que o universo também lamentava a morte de Luna, assim como eu e minhas irmãs que seguíamos de mãos dadas, esperando o padre terminar de falar e aguardando o momento do enterro. Eu nem sequer estava ouvindo o que ele falava, meu corpo parecia fraco demais, anestesiado era a palavra, tinha a sensação que a qualquer momento eu desmaiaria. Nós três dormimos juntas nos últimos dois dias, sempre com ajuda de um remédio para dormir, foi o único jeito de descansarmos. Mal tínhamos comido, apenas ficamos juntos durante todo o tempo, compartilhando aquela dor que parecia rasgar o peito. Luna tinha uma vida inteira pela frente e pela minha falta de confiança em acertar aquele tiro, sua vida foi ceifada em minha frente.
Acordei dos meus pensamentos quando me abraçou de lado e beijou minha têmpora. Levantei a cabeça percebendo que o silêncio se fazia presente e através das lentes dos meus óculos escuros, vi meu pai deixar a rosa vermelha, característica em nossos funerais, em cima do caixão. Vi Beatrice beijar a rosa em sua mão e também deixar na madeira, em seguida Giulia fez o mesmo, tirando também o anel que ela e Luna usavam como símbolo de sua irmandade e deixou junto da flor. Dei dois passos chegando em frente ao caixão e fechei os olhos sentindo as lágrimas descerem sem qualquer dificuldade. Beijei a rosa e coloquei na madeira, passando a palma em cima dele também.
— Mi dispiace, sorellina (Me desculpe, irmãzinha) — disse baixo, com pesar.
também deixou sua rosa e então me puxou pela mão, caminhamos lentamente em direção ao nosso carro, onde o soldado já estava no volante, aguardando. Durante todo o caminho pra casa eu mantive meus olhos na janela, eu nem queria pensar, queria simplesmente voltar no tempo e fazer diferente. Era sufocante sentir aquela culpa. Assim que o carro estacionou em frente à mansão eu desci, entrei em casa e o silêncio me abraçou. Segui caminho para o meu quarto, assim que passei pela porta sentei na minha cama e joguei os óculos escuros em cima do edredom. Respirei fundo e soltei o ar com força, como se aquilo fosse tirar o peso dos meus ombros. Cruzei as pernas e tirei meu sapato, fazendo o mesmo com o outro e então vi escorado no batente da porta.
— Você está bem?
— Impossível estar bem…
— Eu sei, só queria ter a certeza de que não há nada que eu possa fazer.
— Se você não tem uma máquina do tempo, não, não tem nada que você possa fazer. — Levantei da cama e caminhei até o meu banheiro, me pus diante do espelho e peguei um disco de algodão, colocando demaquilante nele para poder tirar a maquiagem que fiz pra esconder as olheiras fundas em meus olhos.
— Fizemos o que podíamos, , não faça o que eu sei que está fazendo. — Ele se aproximou de mim e massageou meus ombros, fazendo eu parar de passar o algodão em meu rosto e fechar os olhos. — Eu sei que dói, eu, mais do que ninguém, sei disso. Falhei com todas vocês.
— Eu podia ter evitado… Eu podia… — Minha voz embargou com o choro que insistia em querer sair.
— Essa dor vai passar, eu prometo. — segurou na minha cintura e me virou para si, olhando em meus olhos com carinho.
A pior parte era ter que seguir minha vida sem ela. Quando perdemos alguém nos damos conta de que não somos nada perante o mundo. Os dias ainda vão passar, sua família ainda vai trabalhar pela manhã, assim como os anos passarão e você será esquecido em algum momento. Todos choram a nossa morte, mas ninguém morre com a gente. A grande verdade era que eu sabia que passaria e talvez esse fosse o meu maior medo, eu não queria esquecer minha irmã, não queria esquecer seu rosto, seu sorriso, suas manias e a sua voz. Luna era vida, deveria ser proibido termos que lidar com sua morte.
— Engraçado é que nunca me preocupei, sempre achei que morreria primeiro. — Ri sem qualquer humor abaixando a cabeça.
afastou meu cabelo para trás da orelha e então levantou meu rosto pelo queixo para encará-lo. Senti seus lábios nos meus, macios e leves, um beijo carinhoso, que fez com que eu me sentisse um pouco melhor. Fechei os olhos e uma lágrima teimosa rolou por minha bochecha, fazendo eu limpá-la rapidamente.
— Presenciar o que eu presenciei só me fez ver o quanto eu não posso garantir que nada aconteça, mas se depender de mim, vou sempre proteger vocês com a minha vida. — Virei pro espelho novamente e o encarei séria pelo reflexo.
— Você já fez isso antes e eu não gostei da sensação. — Segui retirando a maquiagem do meu rosto.
— Me desculpe, cariño.
— Temos soldados o suficiente para nos proteger, agora você é o Don, aja como tal.
— Logo você dizendo isso pra mim?
— É a realidade, não? Temos que seguir com as obrigações. — Engoli o choro mais uma vez e mantive minha expressão impassível. — Alguma novidade de como Luca se infiltrou na mansão?
— Estou dando tempo ao tempo, Giulia precisa respirar um pouco.
— Precisamos descobrir se tem mais algum traidor.
— Nós também precisamos respirar um pouco… — Ele me abraçou por trás e beijou meu pescoço colocando a cabeça apoiada em meu ombro e em seguida olhando em meus olhos pelo reflexo do espelho. — Sinta o luto, , faz parte da vida aceitarmos que às vezes precisamos apenas sofrer.
— Não me parece algo útil ficar sofrendo no meu quarto enquanto não matarmos todos os responsáveis pela morte da Luna. — Senti minha voz embargar, eu não queria chorar, não queria mais ser fraca.
— Seja paciente. — Ele se colocou ao meu lado e me virou pra ele, senti seu polegar acariciar minha bochecha, mordi meu lábio com força, fechando os olhos me controlando pra não cair em prantos. — Eu não quero que você se sinta no dever de ficar forte, perdemos nossa irmã, está tudo bem cair… eu estarei aqui todas as vezes pra te levantar. — Abri os olhos e o encarei com ternura.
— Eu… a verdade é que eu não sei seguir faltando um pedaço meu, , minhas irmãs são meu mundo e me sinto incompleta sem a Luna. — Lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto e então ele me puxou para seu peito, fazendo com que eu me entregasse àquele choro angustiante e segurasse com força em sua camisa. — Dói tanto…
— Eu sei…
[...]
Eu simplesmente deitei ali na grama, sozinha, apreciando a lua cheia no céu e tentando lidar com aquele espaço vazio que ainda parecia estar presente em meu peito. Théo deitou logo em seguida com a cabeça em minha coxa, ele era um companheiro e tanto, não tinha me deixado sozinha em nenhum momento que fosse, então realmente, eu nunca estava sozinha. Seria até desrespeitoso falar isso quando tinha a companhia do meu cachorro leal que estava sempre presente. Respirei fundo e fechei os olhos, aproveitei a brisa fresca que corria pelo meu corpo e arrepiava cada poro meu, não chegava a estar frio, mas a temperatura já dava indício de baixar nos primeiros dias do outono. Senti que algo se aproximava e virei a cabeça de lado, vendo Beatrice me olhando esquisito.
— Tá tudo bem, ?
— Sim, só aproveitando o jardim. — Ela pareceu pensar um pouco e sentou-se antes de se deitar também, mantendo a cabeça perto da minha. — O que está fazendo?
— O mesmo que você. — Senti ela buscar minha mão e apenas entrelaçamos os dedos. — O céu tá lindo.
— Estaria mais se não tivesse tantas luzes. — Passou-se alguns minutos e as luzes do jardim se apagaram. — Mas o que… — Olhei pra cima e vi mais uma cabeça.
— Ouvi o seu pedido. — Giulia curvou os lábios com o celular na mão. Fazia algumas semanas que não via ela sorrir.
— Obrigada, Sorella. — Sorri e assisti ela deitar junto com a gente, nossas cabeças perto uma das outras e os nossos corpos um pra cada lado. — Posso ser sincera sem julgamento?
— Sim — as duas responderam em uníssono.
— Eu estou feliz, mas ao mesmo tempo não me sinto no direito de estar.
— Não diga isso, — Bea foi a primeira a se manifestar. — Eu tenho certeza que a Luna, de onde ela está, quer o seu bem e não ficaria satisfeita com você se proibindo de curtir sua felicidade. Você e merecem isso depois de tanto, , se permita.
— Preciso concordar com a Bea, ela sempre quis o melhor pra todas nós, morreu nos protegendo, não faça ter sido em vão.
— Ainda sinto um buraco em meu peito — disse, sentindo uma lágrima escorrer do meu olho.
— Esse vazio vamos sempre sentir, nada vai preenchê-lo, esse lugar é dela, devemos apenas nos acostumar com ele. — Giulia pareceu fria, mas eu entendia o que ela queria dizer, ela mais do que ninguém sentia esse vazio com propriedade. As duas sempre foram conectadas além do que podia ser considerado algo normal, gêmeos tinham esse poder quase sobrenatural. — Temos que seguir, precisamos seguir.
— Eu amo vocês, com todo o meu coração. — Busquei a mão da Giulia, que também entrelacei nossos dedos e ela apertou a minha.
— Eu também — as duas falaram juntas.
Eu precisava parar de pensar no que me faltava e sim no que eu tinha, Bea e Giulia estavam ali, estavam tão em sofrimento quanto eu, porém, ainda estávamos juntas e isso deveria importar ainda mais. Todos estavam sentindo o luto de uma forma, mas seguíamos juntos, apoiando um ao outro.
[...]
Acordei em um rompante, meu peito subia e descia pelo pesadelo que já durava algumas semanas, meu cérebro estava me punindo me fazendo ver Luna morrer várias e várias vezes em pesadelos. Olhei para o lado e vi dormindo tranquilamente, respirei fundo e me sentei na cama. Passei a mão pelo rosto antes de levantar e pegar meu robe para vestir. Abri a gaveta da mesa de cabeceira com cuidado para não fazer barulho e peguei a carteira de cigarro e o isqueiro. Assim que cheguei na varanda, peguei um da caixa e o acendi, puxando a fumaça para os meus pulmões. Cruzei os braços em frente ao peito e olhei longe, vendo algumas luzes da cidade ainda acesas.
Fechei os olhos e senti algumas lágrimas brotarem, aquela dor conhecida inundava meu peito mais uma vez. Mais uma festa nossa que terminou em tragédia, eu estava começando a odiar festas, principalmente as da máfia. Os dias já tinham se tornado semanas, o clima na mansão estava péssimo, meu pai tinha decidido ficar na Espanha por algum tempo, mas não saía do escritório, nem as refeições que ele tanto prezava por todos na mesa, estava fazendo conosco. Estávamos em um luto doloroso demais pra conseguirmos fazer algo além de sofrer. Nosso inimigo estava morto, era verdade, mas minha irmã também, então era impossível comemorar ou sentir algo além de dor, tristeza e ódio. Doía tanto. Traguei o cigarro novamente enquanto sentia mais lágrimas escorrerem pelo meu rosto.
— Cariño… — Virei para trás ao ouvir a voz sonolenta de , ele vestia apenas uma calça fina de tecido e seus cabelos medianos estavam bagunçados. Sorri minimamente olhando para ele, o único que conseguia me deixar melhor durante toda essa tempestade nas nossas vidas. — O que está fazendo aqui fora?
— Perdi o sono… — Virei para frente novamente e segui olhando o horizonte. Apaguei o cigarro no cinzeiro que sempre estava ali à disposição e acendi outro cigarro.
Senti seus braços em volta do meu corpo e seu nariz em minha nuca, fechei os olhos apreciando o carinho das suas mãos acariciando-me e seus lábios em meu pescoço.
— Pesadelo de novo? — perguntou me abraçando de maneira firme e eu apenas assenti. — Já disse pra me acordar quando isso acontecer.
— Você estava dormindo tão bem…
— Impossível dormir bem sem você ao meu lado. — Ele me virou e me olhou nos olhos, seus dedos deslizaram pela minha bochecha descendo para o maxilar e então seu polegar secou minhas lágrimas. Senti meus lábios serem selados pelos seus logo em seguida, arrancando um curvar de lábios meu.
Seus olhos negros voltaram a me olhar com carinho, era incrível estar com alguém que te ama até com os olhos. Ele roubou o cigarro de mim e o tragou, ele deu dois passos em direção ao guarda corpo e virou pra me olhar. Eu sentia uma mistura de emoções, eu e finalmente juntos, assumidos e noivos. Ter ele por inteiro, principalmente na minha cama, era algo que me deixava feliz, nem sabia da capacidade que eu tinha em me sentir tão bem assim. Aquilo era novo. No entanto, sentia que era errado eu estar feliz ou me sentir bem, já que minha irmã estava morta. Eu tentava me libertar da culpa, mas toda vez que eu sentia o mínimo de felicidade, minha mente me repreendia.
— É difícil entender tudo que passa aqui dentro. — Passei a mão pelo peito desviando os olhos dos dele.
— Quer tentar me contar?
— Eu e as garotas tivemos uma conversa reveladora há alguns dias, mesmo que racionalmente eu entenda que eu posso ser feliz, algo em mim ainda me diz que não.
— Você acha realmente que a Luna ia querer que você estivesse se culpando? Ela fez o que achou que deveria, poderia ter sido qualquer um de nós.
— Eu sei, mas…
— Não, … — me interrompeu — você não teve culpa, nem você, nem eu e nem Beatrice. — Ele me entregou o cigarro e eu me aproximei para pegá-lo, puxei a fumaça e a soltei em seguida. — Luca matou nossa irmã, a culpa é toda dele, e ele vai ter toda a eternidade no inferno pra pagar por isso.
— A morte me parece uma opção boa demais pra ele. — Dei mais um trago no cigarro e soltei a fumaça.
— Talvez você tenha razão.
— Só queria que essa dor passasse. — Puxei a fumaça novamente, fechando os olhos e então soltei, tentando dissipar aquele sentimento que ainda me perseguia.
— O que eu posso fazer pra ajudar?
— Queria sentir algo além disso… — não finalizei minha frase ao sentir sua mão acariciar meu braço e descer para a minha mão.
— Venha, vamos entrar. — Ele me puxou com carinho.
Assenti apagando o cigarro no cinzeiro, foi me guiando e assim que estávamos do lado de dentro, ele se manteve às minhas costas e começou a tirar meu robe enquanto beijava meu ombro, clavícula, pescoço, fechei os olhos sentindo seus lábios descerem mais um pouco enquanto o tecido escorregava pelos meus braços.
— Não sei se… — Não fui capaz de terminar a frase com sua mão apertando meu seio, fazendo com que eu fechasse os olhos, aproveitando a sensação gostosa que se instaurava no meu corpo.
— Se quiser que eu pare é só pedir, cariño.
— …
— Hm…? — murmurou enquanto beijava meu pescoço.
— Me ama.
Encostei a cabeça em seu ombro enquanto suas mãos desciam devagar pela minha barriga, resvalando os dedos de maneira sensual, assim que ele chegou ao final da minha camisola, senti sua mão na parte interna da minha coxa. Ele me virou para si e seus beijos voltaram a subir, pendi a cabeça para trás enquanto seus lábios traçaram um caminho até minha boca, fazendo nossas línguas se encontrarem lentamente, saboreando o gosto um do outro. Eu estava completamente extasiada, não conseguia fazer nada além de respirar e ficar ansiosa pra saber o próximo lugar que ele me tocaria. Sua mão invadiu minha calcinha por trás, devagar, apertando minha nádega, seus dedos resvalaram em minha entrada, mas ele sabia pra onde estava indo, soube disso quando senti a pressão em meu ponto inchado, fazendo com que eu soltasse um gemido.
Minhas duas mãos foram para o seu peitoral, acariciando-o com desejo, passei a língua entre meus lábios antes de morder o inferior ao tê-lo me masturbando devagar; torturante. Puxei alguns fios de sua nuca com a mão direita e ele me levantou, colocando-me em seu colo fazendo eu suspirar em seu ouvido. Afastei o rosto para olhá-lo e então o beijei, dessa vez mais afoita, com voracidade, senti o colchão em minhas costas quando caímos na cama sem parar os beijos sedentos. Abracei seu tronco com minhas pernas, minha coxa foi agarrada com força e eu senti sua ereção roçar em meu monte de vênus. Seus lábios desceram para o meu peito e logo ele puxou minha camisola fazendo eu erguer o corpo e os braços para ajudá-lo a tirar. Sua boca voltou ao meu seio, onde ele deixou uma mordida, arqueei a coluna com a mistura de dor e prazer que ondulou em meu corpo.
— … — gemi seu nome e vi ele me olhar com sede de algo que só eu poderia dar, mordi o lábio inferior sorrindo.
Seus lábios desceram pela minha barriga enquanto uma de suas mãos ainda massageava meu seio esquerdo. Ele lambeu e mordeu minha buceta por cima do tecido, eu me remexia buscando aplacar todo aquele tesão acumulado. Olhei pra baixo e vi ele olhando pra mim enquanto estimulava meu clitóris ainda com a calcinha no meio do caminho e mesmo assim ele me levava à loucura toda maldita vez. Foi assim que gozei, na minha calcinha e eu via pelo sorriso libidinoso que ele adorava o poder que tinha sobre meu corpo, mas eu iria mostrar quem tinha o controle sobre quem.
Puxei ele para mim e o beijei, senti meu peito esquentar como nunca antes, cheguei a sorrir entre nossos lábios da felicidade que senti me preencher apenas por estarmos juntos. Rebolei meu quadril, me esfregando contra ele, levei a mão até sua calça do pijama, incitando que o queria dentro de mim. Invertemos nossas posições na cama, sentei bem em cima dele e o vi sorrir de maneira arteira. Eu me apoiava em seu peito e o olhei por completo, aquele homem que eu neguei durante tantos anos, agora era meu noivo, o homem que eu tinha absoluta certeza de que eu queria envelhecer ao lado. Nunca acreditei que fosse possível, mas com ele, eu queria o até que a morte nos separe.
Voltei a beijá-lo, as pontas de seus dedos deslizaram pelas minhas costas e suas mãos apertaram minhas nádegas, mordi o lábio dele e sorri arranhando seu peitoral com minhas unhas. Levantei apenas para puxar a calcinha de lado, assim como tirar a calça dele da frente, e a próxima coisa que me atingiu foi um prazer extasiante quando escorreguei em seu pau, que se enterrou em mim, pulsante. Soltei um gemido sussurrado e encarei o teto respirando fundo, sentindo seu pênis latejar dentro de mim. Comecei a rebolar devagar, torturando tanto ele quanto a mim mesma, mas uma tortura gostosa demais para ser interrompida.
— Céus, … — Ele apertou minhas coxas que estavam rentes na lateral de seu quadril.
Subi e desci uma vez, e ouvir o gemido rouco dele me tirava a sanidade, era tentador demais, eu queria ouvi-lo mais vezes. Subi e desci novamente e dessa vez olhei pra ele e sua expressão sentindo prazer me deixava ainda mais extasiada. Continuei subindo e descendo, mantendo um ritmo lento, gostoso e inebriante. Senti sua mão em minha barriga, logo apertando meu seio e então ele agarrou o meu pescoço. Queria vê-lo, mas o prazer me obrigava a fechar os olhos e soltar gemidos agudos com os movimentos luxuriosos. Sentia meu interior fervendo, os dedos de afundavam em minha carne e eu comecei a aumentar a velocidade, assim como minhas unhas fincaram no peito dele.
— , eu vou… — apertei os olhos sentindo meu corpo inteiro retesar — oh, santa madre!
— Não para, … — Ele também começou a mexer o quadril, fazendo com que nossos quadris se chocassem com ainda mais força. Sua mão deixou meu pescoço e as duas agarraram meu quadril, cada vez que eu descia ele forçava ainda mais quando eu sentava, empurrando meu quadril pra baixo. — Hmm… — Ouvi seu grunhido e sua expressão de prazer extremo tomar conta e aquilo pra mim foi o estopim, gritei jogando a cabeça para trás ao atingir o orgasmo novamente.
Sentia meu corpo quente demais, eu respirava pela boca para conseguir voltar ao normal mais rapidamente, olhei para ele, que estava com os olhos fechados, então deitei em seu peito em seguida. Nossos corações estavam batendo acelerados, sincronizados, ainda tentávamos recuperar o fôlego, senti sua mão acariciando minha nuca, tirando os cabelos das minhas costas suadas para poder passar a ponta de seus dedos também ali. Sorri me sentindo segura, cuidada e principalmente amada. Depois de semanas eu conseguia me sentir bem pela primeira vez.
— Eu amo tanto você, , você não sabe o quanto. — Seus dedos deslizavam para cima e para baixo em minhas costas e eu sorri fazendo carinho em seu peito.
— Eu sei, você tomou um tiro por mim, esqueceu? — falei, brincando.
— Tem razão, acho que mostrei o quanto. — Ele riu e beijou o topo da minha cabeça.
— Eu também te amo muito… — Olhei pra ele e sorri, pensando no quanto eu era sortuda por tê-lo, até mesmo quando o odiava. — Mas não vou tomar um tiro por você pra provar. — Soltei uma risada e ele me abraçou forte.
— Fique comigo para sempre que será prova o suficiente.
— Definitivamente esse era o meu plano.
[...]
Perroni
— Qual é a do sorrisinho na cara? — Virei para o lado ao ouvir a voz do meu primo.
— Não sabia dessa sua nova característica.
— Qual? — Ele franziu o cenho.
— Fofoqueiro. — Ele fez careta e cruzou os braços. — Vamos ao trabalho? — Sentei na minha cadeira do escritório e suspirei.
— Nosso informante me passou as fotos do mandante por trás do Estevan… O problema é que… bom, veja você mesmo. — Ele colocou o tablet em cima da mesa e então eu vi a foto de Luca.
Arregalei os olhos, como aquele desgraçado estava controlando tudo por todos os lados e nós não sabíamos? Depois de alguns meses procurando alguma pista de quem mandava a droga pra aqueles quase ainda adolescentes, descobrimos que era o Luca, mais essa agora. Ele estava nos rondando há bastante tempo, Estevan estava na cola da quase que desde que ela assumiu a direção da Fascino, aquilo era ultrajante.
— Como ele conseguiu estar tão perto da gente e ninguém saber de nada, Filippo? — Bufei e dei um gole no copo baixo de whisky que eu já estava bebendo. — Carolyn estava dentro da nossa casa, aquela cadela que transava com o cara que confiei minha vida, quase casou comigo! — Alterei meu tom de voz, irritado.
— Ele foi astuto, soube manejar tudo para nos tirar o foco do que realmente importava. — Filippo sentou na poltrona do outro lado da mesa. — O importante agora, é saber comemorar a vitória.
— Estou me sentindo um idiota, isso sim!
— Ter alguém que seja um pouco mais inteligente não é motivo pra nos sentirmos idiotas, afinal, você mesmo matou ele, não?
— Sim, mas…
— Não tem “mas”, primo — ele me interrompeu e deu um sorriso presunçoso —, saiba o momento de parar e aceitar, no fim, os Perroni ganharam a guerra.
Comemorar a vitória parecia algo tão errado depois que perdemos a Luna, essa vitória tinha um gosto amargo, que inundava a minha boca com arrependimentos. Eu podia ter agido mais rápido, eu deveria ter percebido, insistido para demitir aquele homem. Contudo, agora, não adiantava pensar no que poderia ter sido, Filippo tinha razão, mas então por que parecia tão difícil de engolir?
Quando eu estava com muita raiva eu me imaginava matando o Luca novamente, rever em minha mente dava até uma sensação de dever cumprido, porém, logo me dava conta de que eu não teria mais a chance de escutar Luna chamando meu nome ou me pedindo pra ajudar nos treinos, e isso tudo me deixava possesso. Eu tinha ficado triste e sofrido nos primeiros dias, depois a raiva vinha vez ou outra me visitar. era a única pessoa que me acalmava, que me mantinha são, até porque, eu queria ser o porto seguro dela, assim como ela era o meu.
Passamos muito tempo separados, brigas, ódio, remorso, decepção, nós tivemos os piores sentimentos rondando a gente, porém agora, tudo era bom, o amor estava sempre presente quando estávamos juntos. O carinho com que ela me olhava, a alegria que seus olhos transpareciam e os abraços que duravam minutos, tudo isso me deixava transbordando felicidade. Jamais imaginei esse momento em minha vida, nunca achei que era possível sentir um amor tão genuíno como o que eu sentia por ela.
Por mais que toda a tragédia que aconteceu na festa tenha nos colocado em um lugar escuro, precisávamos nos agarrar ao que tínhamos de bom. Nossa família sempre estava em uma montanha russa, quando chegávamos no nosso auge, caíamos em um buraco sem fundo de desgraças. Contudo, eu queria mudar isso, queria mudar, seja lá que maldição que nos acompanhava, minhas irmãs precisavam de uma vida estável e feliz. merecia isso também, mais do que ninguém, ela passou por tanto. Posso dizer que até eu preciso de um pouco de paz, não seria de todo mau.
— Filippo, chame , preciso conversar com ela.
— Acho que ela está na boate, .
— Não importa onde ela esteja, quero ela aqui.
— Si signore.
Vi ele sair do escritório, peguei meu copo e virei o líquido antes de ir até o carrinho de bebidas me servir de mais. Mantive meus olhos na paisagem além da janela, o jardim da mansão sempre muito bem cuidado, eu gostava da sensação de calmaria que a natureza me passava. Era relaxante.
Capítulo 36
Perroni
Com o passar do tempo as coisas foram se ajeitando, de vez em quando a saudade vinha, logo a raiva e em seguida a culpa. Tentava afogar todos eles com meu bom e velho martini, porém, não era assim tão simples. Já deveria ter aprendido que é impossível afogar as emoções e sentimentos devido ao meu histórico, porém, a teimosia também fazia parte de mim, por mais que eu detestasse admitir. Trabalhar era a única coisa que me mantinha em meu juízo perfeito e já que eu estava com tempo sobrando, estava na boate me atualizando de tudo, apesar de ser difícil me concentrar no notebook com os dois pares de olhos me analisando do outro lado do balcão.
— Estou vendo planilhas, mas consigo sentir vocês, estão sem trabalho? — Levantei o olhar para Givoanna e Vincenzo, que logo fingiram estar fazendo alguma coisa ali no bar. Voltei meus olhos para o computador. — Posso arranjar mais alguns afazeres.
— Desculpe, , é que… você parece estar… — Givoanna pigarreou e levantei meus olhos pra ela — está com um mundo em sua cabeça.
— Como não estar? Ainda não descobrimos quem estava controlando a idiota da dealer nas corridas. Pode ter mais alguns traidores dentro da Vincere, assim como o insuportável do Estevam que sumiu, então ele deve estar aprontando alguma, e claro, não vamos esquecer, minha irmã está morta.
— Não foi o que eu…
— O que ela está querendo dizer, , é que estamos preocupados. — Vincenzo se aproximou dela a abraçando e interrompendo seu raciocínio. — A gente te ama, , estamos com você, sabe disso.
Soltei o ar pelo nariz e apoiei minha testa com uma mão antes de falar:
— Desculpa, eu… estou cansada, não deveria descontar em vocês. — Meu celular começou a vibrar em cima do balcão e eu o peguei, vendo que era meu primo, então me distanciei um pouco. — Oi, Filippo.
— pediu sua presença, precisa conversar com você.
— Precisa mesmo ser agora?
— Aparentemente sim.
— Qual o humor que vou precisar lidar?
— Um não tão ruim.
— O que está fazendo aqui?! — gritei ao ver aquela mulher em minha frente novamente.
— Com quem está falando, ? — ouvi a voz exaltada do meu primo pelo telefone que estava um pouco afastado da minha orelha.
— Eu preciso conversar com você, .
— Não tenho nada pra conversar com você, Alessia.
— Alessia? Sua mãe? — A voz de Filippo pareceu ainda mais preocupada.
— Seguranças! — gritei.
— , me responda!
— Tirem essa mulher daqui — ordenei aos seguranças. — Estou indo pra casa, Filippo. — Desliguei o telefone e voltei ao balcão apenas para pegar minha bolsa e olhei bem para os meus melhores amigos. — Não quero essa mulher aqui, nem perto da Fascino.
— Não acha que deveria ouvi-la? — Giovana perguntou.
— O que eu teria pra ouvir da mulher que me abandonou com um homem que nem sequer era meu pai? — Saí pisando duro e entrei em meu carro jogando a bolsa no banco do passageiro. — Merda! — Soquei o volante com força.
Achei que meu pai tinha matado aquela mulher apenas por ter violado o contrato de distanciamento, mas não, ela estava viva e seguia com essa ideia idiota de falar comigo, eu jamais escutaria algo de bom grado vindo da boca dela. Não importava se era o sangue dela que corria em minhas veias, ela não era minha mãe e nem nunca seria. Pra Alessia eu era apenas uma mercadoria que ela trocou por dinheiro, uma coisa sem emoção ou sentimento. Nunca pensou em como eu me sentiria depois de adulta descobrindo que fui abandonada por míseros qualquer mil euros. Ela estava enganada se achava que eu daria uma chance para ouvir sua explicação, pois nada que ela falasse serviria de desculpa pra tamanha atrocidade.
Saí do estacionamento e vi Alessia ainda lutando com meus seguranças para poder entrar na propriedade da boate; minha boate. Queria saber por que meu pai não mandou matá-la, seria algo que eu perguntaria a ele na próxima visita.
Em poucos minutos eu estava cruzando o portão de entrada da mansão, desci do meu carro e entrei pela porta da frente. Filippo estava na varanda dos fundos fumando e apenas acenou para mim, larguei minha bolsa na mesa do hall e me encaminhei à biblioteca para então ver em pé, fumando em frente à janela aberta do escritório. Respirei fundo e me joguei na poltrona, cruzando as pernas em seguida.
— Mandou me chamar, Don?
— Sim. — virou para mim com um olhar determinado, o que acendeu todos os meus instintos.
— O que aconteceu?
— Descobrimos que Luca era o mandante por trás do Estevam. — serviu dois copos de whisky e caminhou até mim, depositando um dos copos em minha frente.
— Cretino! O detetive seguia ordens dele?
— Aparentemente sim, Luca estava em todos os lugares e ao mesmo tempo em lugar nenhum. — Ele virou de costas e deu dois passos em direção ao outro lado da mesa virando novamente pra mim. — Parece que matando ele, acabamos com todos os nossos problemas de uma vez só.
Peguei o copo e virei a dose inteira, sentindo arder em minha garganta, fazendo eu fechar os olhos antes de abri-los e falar:
— Muita informação para engolir.
— Filippo disse que Alessia te procurou na boate de novo.
— Filippo virou o fofoqueiro da família agora? — Revirei os olhos. — Mandei os seguranças tirarem ela de lá, está tudo sob controle.
— Quer se livrar dela?
— Não tenho motivos pra isso.
— Sente que ela pode te dizer algo que seja importante?
Engoli em seco, eu nem sabia o que sentia em relação a ela, mas não era algo com o qual eu queria ter que lidar naquele momento, fazia apenas dois meses que tínhamos perdido Luna, ainda doía tanto. Não conseguiria nem que eu quisesse escutar de mente aberta seja lá o que Alessia tinha pra dizer. Vi se aproximando de mim com uma expressão de complacência.
— Cariño, está tudo bem se você quiser ouvi-la. — acariciou meu rosto e eu franzi o cenho.
— Não está nada bem! — Levantei, irritada, afastando-me dele. — O que faz você achar que eu gostaria de ouvir a mulher que me abandonou?
— …
— Não, achei que você melhor do que ninguém saberia.
— , me escuta. — Ele segurou minha mão e eu mordi o lábio virando a cabeça para o lado, meus olhos ardiam e eu não queria chorar por isso. — Eu sei o quanto isso te machuca, mas não acha que seria melhor saber o que tiver que saber do que ficar imaginando o que poderia ser? — Virei o rosto pra olhá-lo e senti as lágrimas descerem. — Não chore, cariño.
— Eu não… não sei se estou pronta pra isso.
— Quando estiver eu estarei ao seu lado. — Ele me puxou pela cintura e me abraçou, então o agarrei com força e me permiti chorar. Com ele, até no meu momento de maior fragilidade me sentia forte, esse era o poder que o amor tinha. Mesmo frágil, eu estava segura.
— Obrigada.
[...]
Se tinha uma coisa que eu amava na nova vida que tínhamos era o fato de acordar ao lado dele todos os dias. Às vezes eu odiava o quanto eu o amava, o quanto eu tinha adquirido novos hábitos, coisas favoritas, comidas especiais, beijos atrás da orelha e a mania dele puxar meu queixo pra olhá-lo nos olhos pretos enigmáticos. era a melhor coisa na minha vida e isso me dava um frio na barriga, sim, eu tinha medo, de perdê-lo, dele não me amar mais, de eu mesma deixar de amá-lo, eram tantos pensamentos que passavam em minha mente logo cedo olhando para seu rosto. Ele seguia dormindo, sereno e alheio ao turbilhão que me assombrava naquela manhã.
Respirei fundo e quando fui me levantar senti minha cintura ser agarrada, fui puxada para o seu aconchego e sorri.
— Bom dia — falei, sentindo ele me apertar ainda mais contra seu corpo. — Tenho um casamento para planejar, Don.
— Não me chame assim na cama, cariño — reclamou em um murmúrio.
— Sabia que isso ia fazer você falar… — Soltei uma risada baixa e me virei, acariciei seus cabelos e beijei seus lábios, seus olhos abriram devagar e olhar pra eles me trazia uma paz única. — Vamos tomar café no jardim…
— Você é um ótimo café da manhã… — Senti beijos em meu pescoço e fechei os olhos aproveitando o carinho.
— Tenho reunião com a cerimonialista em meia hora, …
— Ela pode esperar. — Ele seguiu deixando beijos pelo meu colo e mordeu meu seio, fazendo eu soltar um gritinho.
— Você é impossível. — Sorri e me desvencilhei dele, levantando da cama, senti seus olhos em meu corpo enquanto caminhava até o banheiro, eu estava nua devido a noite anterior agitada.
Reunião com a cerimonialista, escolha dos doces, coquetéis, entradas e pratos principais. queria um casamento com tudo que tinha direito, ele disse que queria fazer a melhor festa já feita naquela casa. Eu disse a ele que queria fazer o casamento em nossa casa, no jardim, algo intimista, com pessoas importantes pra nós e que fizeram a diferença durante toda a nossa vida. Por mais que ele fosse o capo e eu sua sottocapo, queria que a gente pudesse esquecer essa parte da nossa vida por pelo menos uma noite. Então sem associados ou qualquer um que lembrasse de nosso compromisso com a famiglia. Queria que a noite fosse sobre nós dois, nosso amor e a nossa união.
Vi saindo do escritório ainda falando no telefone, vi que ele estava se comunicando na nossa língua materna, não queria me meter, mas escutei o fim da sua fala, o que me preocupou um pouco. Não, eu não conhecia a mãe dele, ele nunca falou sobre e muito menos eu. Eu não sabia que lugar Aurora ocupava no coração dele, mas não entendia muito de relacionamento entre mãe e filhos, afinal, a minha decidiu me abandonar. enfim desligou e me notou no canto do ambiente, eu estava de biquíni indo para a piscina, quando nossos olhares se cruzaram eu continuei a andar e Théo me seguiu, travando logo em seguida ao ouvir o Don.
— Cariño…
— Vou pegar um sol.
— … — Ele veio até mim e me puxou pela cintura, pegou meu queixo e me obrigou a olhá-lo. — Não era pra você descobrir assim, iria conversar com você.
— Eu não sei nada sobre sua mãe, , me desculpe, mas não me parece de bom tom você me avisar em cima da hora.
— Nosso casamento é em duas semanas, minha mãe vem no sábado, vamos jantar juntos e você vai conhecê-la.
— Talvez ela não goste de mim… — Abaixei a cabeça, tentando evitar seus olhos que me conheciam tão bem.
— Ti amo, , ed è questo che conta. (Eu te amo, , e é isso que importa).
— Non so niente di tua madre, mi ritrovo perso nel buio. (Não sei nada sobre sua mãe, me vejo perdida no escuro).
— , eu não vivo com a minha mãe desde os 16 anos, eu também não sei muito sobre ela.
— Você visita ela todo ano.
— Não é como se tivéssemos muito assunto, minha mãe ainda tem mágoa por eu ter me tornado tão igual ao meu pai. — Ele revirou os olhos e eu soltei um riso dando um tapa em seu ombro. — Eu não poderia deixar de convidar a minha mãe para o nosso casamento.
— Eu não entendo, mas te respeito…
— Nosso pai estará presente, você deixaria de convidá-lo?
— Claro que não.
— Então você entende, cariño. — Ele selou seus lábios nos meus. — Eu sei que está estressada e nervosa com tudo, mas tudo vai correr bem.
— Acredito que sim. — Abracei e ele me levantou para o seu colo.
— Talvez eu devesse pegar um sol também. — Ele começou a caminhar para o jardim e eu comecei a rir.
— Você está de camisa e calça social, …
— Nada me impede de tirar. — Ele beijou meu pescoço, meu queixo e logo meus lábios.
— Podemos ir direto pra piscina então…
— Se é de sua vontade. — Ele sorriu travesso, tirou os sapatos, jogou o celular em cima da espreguiçadeira assim como eu fiz com o meu quando percebi o que faria e deu passos firmes até pular na piscina comigo em seu colo.
— Não iria tirar as roupas?
— Teria que me desprender de você pra isso. — Ele sorriu se aproximando e acariciando meu rosto, eu sorri sem conseguir tirar meus olhos dos dele. — E cada dia que passa tenho ainda mais certeza que não quero ficar mais nem um segundo longe de você.
Seria inútil dizer que não gosto das loucuras que faz por mim, ele me diverte, assim como também me protege, cuida e me ama de uma maneira que nunca fui amada. Eu me sinto estranhamente satisfeita e eu jamais poderia imaginar que um dia desejaria tê-lo pro resto da minha vida.
[...]
O som dos talheres sendo organizados na mesa chegava até mim antes mesmo de eu entrar na sala de jantar. Era um barulho baixo, metódico, quase ritualístico, daqueles que lembram que naquela casa nada era feito por acaso. Respirei fundo antes de atravessar a porta. Não era medo exatamente, mas uma inquietação incômoda, como se eu estivesse prestes a encarar algo que ainda não sabia nomear.
já estava ali, em pé, ajustando o punho da camisa. Quando nossos olhares se encontraram, ele ergueu uma sobrancelha e sorriu de canto, aquele sorriso que sempre tentava me tranquilizar, mesmo quando era ele quem parecia precisar disso.
— Ela já chegou — disse baixo e eu assenti, sentindo meu estômago se revirar.
Aurora Perroni entrou pelo arco do hall de entrada, usava um vestido caramelo, sóbrio, elegante e sem ostentação. O cabelo preso com cuidado, alguns fios prateados visíveis e assumidos. Havia algo nela que não era dureza, era contenção, como alguém que passou a vida inteira aprendendo a não transbordar. Ela olhou primeiro para , o abraço foi breve, mas real, não era mecânico ou distante, apenas cuidadoso.
— Você está bem — ela disse, tocando o rosto dele devagar.
— Estou — ele respondeu. — Agora estou. — Levou seus olhos pra mim.
Foi então que ela me encarou. Aurora me observou com atenção silenciosa, como quem tenta conhecer alguém apenas pelo que está à superfície, como se isso fosse o suficiente pra saber tudo sobre mim. Sustentei o olhar, não por desafio, mas por respeito, ela precisava saber que eu não desviaria ou abaixaria a cabeça, não era um traço da minha personalidade, seria bom que já ficasse ciente. Não queria ser inimiga de Autora, mas ela parecia estar disposta a me testar.
— — disse, com a voz suave, porém firme.
— Aurora — respondi.
O jantar começou com conversas mínimas, o tilintar dos talheres parecia alto demais e falava pouco e observava muito, principalmente a mim. Não era novidade pra mim o cuidado que ele tinha comigo e via sua inquietação sobre aquele momento em específico. Eu respirei fundo e segui comendo, devagar, tomei um gole do vinho e encontrei os olhos pretos em mim. Aurora bebia vinho devagar, como se medisse cada pensamento antes de deixá-lo escapar. Eu não esperava uma sogra que me recebesse de braços abertos, afinal, ela abandonou a máfia por não saber lidar com ela e eu, mesmo tendo a chance de fugir daquilo que me moldou ao descobrir que não era filha de Otelo, escolhi ficar.
— O lugar que ocupa não existe leveza, não é, ? — Levantei meus olhos até os dela, que me olhavam com um certo lamento. — Sottocappo, futura esposa do Don…
— Nunca quis leveza, eu escolhi esse lugar, aliás, lutei muito por ele.
— Não sente culpa?
— Sinto… — disse, sincera, eu sabia bem o que acontecia desde o início, a diferença era que naquele momento eu não me enganava achando que não participar não era ser conivente — por muita coisa, mas não deixo que defina minha vida.
— Eu não consegui. — Ela deu um gole em sua taça com um certo pesar. — Amar Otelo quase me destruiu.
— Aurora, eu amo com todo meu coração, o que me destruiria era não tê-lo em minha vida — falei firme, olhando para o meu noivo com um sorriso de canto, satisfeita e feliz pela escolha que tomei.
— Talvez seja isso que nos diferencie, pra amar é necessário coragem, eu não tive.
— Não seja tão dura, mãe, meu pai não é fácil.
— Eu também não.
O jantar seguiu com menos palavras e mais compreensão, não houve reconciliação, nem promessas, mas talvez eu tenha presenciado uma conversa com bastante honestidade e sem nenhum ataque. Algo que era raro nessa família.
Quando os pratos foram recolhidos, Aurora se levantou e respirou fundo. Eu sentia um peso a menos nas costas que eu nem sabia que carregava, mas entendia, era importante pra e ao mesmo tempo ele parecia ter entendido que seria o máximo que teria de sua mãe. Nós dois também nos levantamos, pois entendemos que ela iria embora, ela estava em um hotel, se recusou a ficar na casa de Otelo, mesmo dizendo que a casa agora era nossa.
— Eu não serei fácil. — Aurora olhou pra mim com atenção. — Mas não serei sua inimiga.
— Era tudo que eu precisava ouvir, Aurora.
— Obrigado, mãe. — deu um beijo rápido na bochecha dela.
— Até breve, — disse, olhando pra mim e eu sorri.
a levou até a porta da mansão e eu fui até o bar, peguei uma taça, uma azeitona e fiz meu precioso martini, eu precisava dele. Dei o primeiro gole e saboreei fechando os olhos e ao abri-los me olhava encostado na parede de braços cruzados. Sorri e caminhei até ele, senti sua mão em minha cintura e o beijo na minha boca.
— Saiu melhor do que eu esperava.
— Se você diz. — Soltei um riso dando outro gole em minha bebida.
— Acredite. — Ele passou por mim e foi até o bar, serviu-se de whisky em um copo baixo.
— Ela me parece alguém que tem muitos arrependimentos…
— Talvez sim. — Ele virou a dose no copo e serviu-se de mais.
— Talvez o maior deles seja a distância que colocou entre vocês.
— Não duvido, mas acho que só ela sabe sobre isso.
— Você nunca pensou em perguntar? — perguntei, aproximando-me dele.
— Não acho que esteja pronto pra escutar a resposta — falou soltando um riso sem humor.
— Acho que nós dois temos problemas com mãe. — Passei a mão pelo seu peito e o olhei de baixo. — Não acho que vamos resolvê-los tão cedo.
— Nem acho que quero.
— Então concordamos. — Bati minha taça em seu copo brindando e sorri bebendo um pouco do meu martini. Selei nossos lábios e respirei fundo olhando para meu noivo, o homem da minha vida, pensando que eu tinha feito a escolha certa e escolheria ele de novo quantas vezes fossem necessárias.
Capítulo 37
Perroni
— A auditoria finalmente terminou.
Minha voz saiu baixa, controlada, do jeito que um Don aprende a usar quando não quer que a emoção contamine o conteúdo. Filippo assentiu uma única vez, abrindo a pasta à sua frente. Papéis organizados demais para a gravidade do que representavam.
O escritório estava fechado havia mais de uma hora quando Filippo começou a falar. Não porque precisasse desse tempo para se preparar, ele nunca precisava, mas porque certas informações exigem silêncio antes de serem ditas. O tipo de silêncio que filtra qualquer ruído desnecessário e lembra a todos onde estão sentados. Eu ocupava o meu lugar de sempre, sentada à minha frente à direita e Filippo sentado à minha frente na poltrona da esquerda. A Vincere em sua forma mais pura, éramos nós três no comando.
— A auditoria cruzou cinco anos de movimentações — Filippo começou, a voz calma demais para o que carregava. — Contabilidade oficial, paralela, rotas logísticas, fornecedores secundários e cadeias de comando informais. — Ele deslizou alguns documentos pela mesa, mas ninguém se apressou em tocá-los. Não era uma reunião para leitura e sim para entendimento. — O padrão se repete — continuou. — Pequenos desvios, sempre abaixo do radar, nunca grandes somas. Nunca ações isoladas e sempre o suficiente para parecer erro humano.
inclinou levemente a cabeça antes de falar:
— Fragmentação deliberada — ela disse. — Para não ter rastro.
— Exato — Filippo concordou. — Cada setor sabia apenas o necessário para executar sua parte, nenhum deles tinha visão do todo.
Eu apoiei as mãos sobre a mesa, estava irritado pra caralho, como meu pai não tinha visto nada disso? Tinha gente da Itália metida nisso e ele estava lá, resolvendo sabe lá Deus o quê, ele sabia e foi resolver ou queria ver se nós éramos eficientes o suficiente pra descobrir e resolver por nós mesmos? Eu não sabia, já não entendia as ações de Otelo e, sinceramente, não fazia mais muita questão. A Itália nunca foi um lugar em que tinha boas memórias, pra mim, a Espanha, minhas irmãs e eram o meu lar.
— Quantos sabiam que estavam traindo? — perguntei e Filippo não respondeu de imediato.
— Menos do que gostaríamos de acreditar — ele disse, por fim. — E mais do que podemos tolerar.
Isso era o que mais me incomodava, não o número, mas a lógica por trás dele. Tantos anos se infiltrando na Vincere, Luca tinha uma rede muito bem planejada, informantes em todos os lugares, achou nossos pontos fracos e nos atingiu exatamente neles. A raiva chegava a se apossar do meu corpo, mas então eu lembrava que fui eu a tirar sua vida, aquilo dava uma certa tranquilidade.
— Eles não se viam como traidores — falou. — Se viam como peças substituíveis em um sistema maior, pessoas fazendo ajustes…
— Ajustes que beneficiavam sempre o mesmo eixo — Filippo completou. — Informações vazadas com atraso calculado, rotas alteradas minutos antes do carregamento e auditorias externas avisadas com antecedência.
— E ninguém falhou grande demais para levantar suspeita — eu disse.
O silêncio que se seguiu foi pesado, mas estável. Não havia choque, nem indignação, só confirmação, finalmente recebíamos todas as respostas depois de tanto sofrimento e problemas na máfia.
— Os responsáveis diretos já foram retirados da estrutura — Filippo continuou. — Três cargos médios, dois operacionais e dois estratégicos. Nenhuma ausência chamou atenção pública, as substituições já estavam mapeadas antes mesmo da remoção.
Isso era eficiência e também eu sabia que era , ela estava fazendo um excelente trabalho.
— As famílias ligadas a eles? — perguntei.
— Monitoradas — respondeu ela. — Nenhuma reação fora do esperado, a maioria nem sabia onde estava pisando.
Assenti devagar.
— Então o problema não era um levante — eu disse. — Era corrosão interna.
— Exatamente — Filippo confirmou. — Não queriam tomar a Vincere. Queriam usá-la para ganho próprio enquanto se mantinham invisíveis.
Inspirei fundo pelo nariz.
— Invisibilidade é um luxo que não se concede duas vezes.
descruzou as mãos e falou com a tranquilidade de quem já aceitou o peso do cargo:
— A partir de agora, toda decisão estratégica passa por dupla validação. Nenhum chefe de célula opera sem espelhamento, nenhuma rota muda sem registro cruzado. Quem reclamar de controle… já está se denunciando.
Filippo deslizou mais uma pasta sobre a mesa antes de falar, o gesto lento, calculado.
— Sobre o detetive… Estevam.
Levantei os olhos por um segundo, depois voltei à leitura.
— Continue.
— Ele não agia sozinho e sim por comando de Luca, já sabíamos disso, mas ele também era só um fantoche que nem sabia que estava sendo usado. — Filippo cruzou as mãos à frente do corpo. — Tudo o que fez foi por orientação indireta. Pagamentos fragmentados, ordens quebradas, sempre repassadas por terceiros.
soltou uma risada curta, sem humor.
— Um cachorro achando que era lobo.
— Exatamente. — Filippo assentiu. — Quando a fonte secou, ele perdeu o chão.
— E correu — completei, fechando a pasta. — Sempre correm quando percebem que não passam de ferramenta.
— Tentou negociar — Filippo continuou. — Informação em troca de proteção.
Olhei para por um instante antes de responder:
— Tarde demais.
— Foi resolvido — ela disse, firme, como se estivesse falando de um problema administrativo. — Não existe mais risco vindo dele.
Apoiei os cotovelos na mesa.
— Então fica registrado assim: Estevam foi um erro de avaliação. Um nome que não se repete. — Olhei para os dois. — A Vincere não tolera peças que se acham maiores do que a mão que as move.
— Auditoria concluída. — Filippo assentiu, fechando a pasta e naquele silêncio que se seguiu, eu soube: aquela parte da história estava enterrada. — Em termos práticos — ele disse —, a Vincere está estável. Mais do que isso: está consciente das próprias falhas.
Levantei o olhar para os dois.
— Isso não volta — eu disse. — Não porque somos infalíveis, mas porque agora sabemos exatamente onde rachamos.
sustentou seu olhar no meu.
— E porque ninguém aqui confunde lealdade com silêncio — ela respondeu.
Ali, naquela frase curta, estava tudo. A reunião terminou sem formalidades, não precisávamos, antes de qualquer coisa, éramos família. Quando nos levantamos, tive a certeza que um Don só tem poucas vezes na vida: a Vincere não estava apenas funcionando, ela estava alinhada e estruturas alinhadas não desmoronam, elas resistem.
[...]
Entrei em casa e ao jogar as chaves na mesa principal do hall de entrada, vi um envelope que estava ali, deslocado, papel grosso, bege, sem remetente no verso, apenas um nome escrito com cuidado excessivo, como se cada letra tivesse sido pensada antes de existir.
Perroni.
Fiquei alguns segundos parado, observando aquilo que eu sabia exatamente de quem era, como se fosse um objeto perigoso, não por mim, mas por ela. estava na sala, sentada no braço do sofá com as pernas no assento, velha mania de quando ela estava ansiosa e procurava algo pra fazer, estava folheando distraidamente um catálogo sobre arranjos de casamento sem realmente ver nada, eu a conhecia.
— Conseguiu conferir o carregamento? — ela perguntou, sem levantar os olhos.
— Sim, tudo certo. — Pigarreei. — Chegou uma carta pra você.
Ela olhou pra mim no instante seguinte, o corpo dela mudou, não foi brusco, foi quase imperceptível, mas eu conhecia cada sinal dela. Se respirasse diferente eu sabia, passei tempo demais a observando e protegendo pra não saber.
— De quem?
Caminhei devagar até o sofá em que ela estava.
— Acredito que seja da sua mãe — disse e ela riu, uma risada curta, incrédula.
— Você está brincando. — Estendi o envelope e não pegou.
— É sério isso? — A voz saiu mais alta agora. — O que essa mulher acha que está fazendo?
— …
— Não. — Ela levantou do sofá. — Não, . Isso não, ela não tem esse direito.
— Eu sei.
— Não, você não sabe. — Ela passou a mão pelos cabelos, inquieta. — Ela me abandonou, sumiu minha vida inteira, fica indo na minha boate querendo que eu a ouça e agora manda uma carta? Como se fosse… como se fosse normal?
Aproximei-me um pouco mais.
— Você não precisa ler.
— Então por que me mostrou? — Ela apontou para o envelope, os olhos brilhando de raiva. — Joga isso fora. Agora.
— Não vou decidir isso por você.
— Eu já decidi. — Ela cruzou os braços. — Isso é lixo.
— .
— , não… — a voz dela vacilou — não abre isso. Não deixa essa mulher entrar aqui.
Olhei em volta, a nossa casa, o lugar que ela cresceu, que ela se sente segura, amada, um lugar que ela, com tanto esforço, conseguiu chamar de lar.
— Ela já entrou — eu disse, baixo. — Não pela porta, mas na sua cabeça. — Ela ficou em silêncio. — Você não precisa perdoar — continuei. — Nem entender e nem aceitar, mas fingir que isso não existe… — balancei levemente o envelope — isso também é uma escolha e uma que te cobra caro.
— E se eu não quiser saber? — sussurrou. — E se… for só mais uma desculpa?
— Então você vai saber também. — Dei um passo à frente. — Mas vai ser sua conclusão. Não uma dúvida que te acompanha pelo resto da vida.
Ela desviou o olhar.
— Eu passei anos me convencendo de que ela não importava.
— E passou todos esses anos falando dela como se ainda doesse. — Silêncio, vi seus olhos desviarem para qualquer lugar que não fosse a mim, ela mordeu o lábio inferior e eu sabia que ela estava pensando e tentando tomar uma decisão. — Você não precisa abrir agora — disse, mais suave —, mas também não precisa destruir algo que pode te dar um encerramento. Mesmo que seja um encerramento de que não goste. — Ela estendeu a mão, hesitou, recolheu.
— Se eu abrir… — a voz falhou — eu não vou conseguir terminar. — Sentei no sofá e bati levemente ao meu lado com a mão.
— Então não termina sozinha.
Ela se sentou devagar e encostou o corpo no meu, mas não me olhou.
— Você lê.
— Tem certeza? — Ela assentiu uma vez.
— Se for pra doer… que doa inteiro.
Abri o envelope com cuidado, a carta era simples, uma única folha dobrada duas vezes. A caligrafia era firme demais para alguém que escrevia sem peso. Limpei a garganta antes de começar.
,
Se você estiver lendo isso, é porque eu não consegui chegar até você, por escolha sua ou minha.
Ela fechou os olhos no instante em que ouviu o seu nome.
Não escrevo para pedir perdão. Sei que há coisas que não se consertam com palavras e muito menos com explicações. Escrevo porque você merece saber que a decisão que tomei não foi feita sem medo, foi feita por ele.
Senti o corpo de enrijecer.
Quando engravidei, eu já estava presa a escolhas que não eram mais só minhas. Eu devia mais do que podia pagar, devia a homens que não negociam com promessas, e cada dia que você crescia dentro de mim, eu entendia que não conseguiria protegê-la.
A mão de apertou o tecido do vestido então parei por um segundo, deixando que ela absorvesse as palavras, respirei fundo e então continuei:
Otelo era muitas coisas. Frio, calculista, perigoso, don da máfia, mas era poderoso e naquele momento, poder significava sobrevivência. Eu fiquei diante de uma escolha que nenhuma mãe deveria enfrentar: manter você comigo, mesmo entregando Beatrice, e condenar nós duas, ou te entregar a um homem que poderia garantir que você crescesse viva, segura, intocável e com sua irmã.
Minha voz saiu mais baixa.
Eu não fui forte, fui covarde. Escolhi viver sabendo que você me odiaria, porque o ódio ainda significava que você estava aqui, que sentiria algo por mim.
Senti o peso daquelas palavras se espalhar pelo ambiente.
Otelo me deu dinheiro, sim, mas mais do que isso, me deu distância. Um acordo que me mantinha longe, que me proibia de te procurar, de te ver, de sequer pronunciar seu nome perto de quem não deveria saber. Eu aceitei. Não porque você valia pouco, mas porque você valia tudo.
Fechei os olhos por um instante antes de terminar.
Se algum dia você quiser me ouvir, estarei onde sempre estive: esperando. Se nunca quiser, entenderei. Essa também é uma consequência da minha escolha.
Alessia
Quando terminei, dobrei o papel devagar e coloquei a carta sobre a mesa. não chorou, não gritou, apenas ficou ali, imóvel, absorvendo cada palavra.
— Ela escolheu me deixar — disse, por fim.
— Sim.
— E chamou isso de amor.
— Chamou isso de sobrevivência.
Ela respirou fundo e se aconchegou no meu peito ainda mais, passei meu braço por sua cintura e a envolvi comigo.
— Não é a mesma coisa.
— Não é.
— Eu não sei o que fazer com isso.
— Você não precisa saber agora. — Acariciei seus cabelos. — O encerramento não é decidir algo, às vezes é só parar de fugir da pergunta.
Ela ficou ali, quieta, e naquele momento eu entendi, não era sobre Alessia, nunca foi. Era sobre finalmente ter todas as peças da própria história nas mãos e decidir o que fazer com elas. Ficamos assim por um tempo que eu não soube medir, aprendi cedo que existem silêncios que não pedem resposta, apenas espaço. sempre foi intensa demais para o mundo, mas naquele instante estava estranhamente quieta, como se estivesse organizando algo que ficou desalinhado por tempo demais.
— Você acha que ela acreditou nisso? — ela perguntou de repente, ainda sem me olhar.
— No quê?
— Que me salvou.
Pensei antes de responder. Não porque não soubesse, mas porque respostas apressadas costumam ser cruéis.
— Acho que ela acreditou que fez a única coisa que conseguia fazer sem se destruir por completo. — Ela soltou um suspiro curto.
— Então ela escolheu ela mesma.
— Sim.
— Todo mundo escolhe a si mesmo no fim — murmurou. — Até quem diz que não.
Aquela frase não era só sobre Alessia, era sobre Otelo, sobre Luca, na verdade, sobre todos nós.
— A diferença — eu disse — é o que fazemos depois de escolher. — Ela finalmente ergueu o rosto e me encarou.
— E o que eu faço agora?
Passei o polegar pelo maxilar dela, um gesto pequeno, íntimo, quase automático, mas ainda assim admirando sua beleza e observando sua expressão, como sempre.
— Agora você sabe. — Inclinei a testa até tocar a dela. — Saber muda tudo, mesmo quando não muda nada. — Ela ficou em silêncio outra vez, mas o corpo dela já não estava mais rígido. Havia tensão, sim, mas não peso e aquilo importava. Levantei-me devagar, puxando-a comigo. — Vem — murmurei.
— Pra onde?
— Pra longe desse sofá. — Toquei o envelope sobre a mesa antes de pegá-lo e colocar no bolso da calça. — A carta não vai fugir e você também não.
Ela hesitou, mas depois assentiu. Subimos para o quarto sem dizer mais nada. O corredor estava em penumbra, a casa silenciosa como só fica quando tudo está no lugar. Era irônico pensar que aquele espaço, construído em cima de tantas decisões violentas, era onde finalmente se permitia sentir sem precisar se defender. Ela se sentou na beira da cama e tirou os sapatos, um de cada vez, como se precisasse desse ritual para se ancorar.
Fiquei observando por um instante antes de falar:
— Você não precisa responder a essa carta.
— Eu sei.
— Não precisa procurar, nem perdoar e nem confrontar.
— Eu sei — repetiu, mas agora havia algo diferente na voz.
— Mas também não precisa fingir que nada disso te toca. — Ela ergueu o olhar.
— Isso é o mais difícil.
— Eu sei. — Sentei ao lado dela a abraçando de lado.
— Sabe o que mais ninguém te contou? — perguntei.
— O quê?
— Que encerramento não é fechar uma porta. — Apoiei os antebraços nas pernas. — Às vezes é só parar de empurrar a mesma parede todos os dias. — Ela soltou um riso fraco.
— Você fala bonito quando quer.
— Falo de maneira prática — corrigi. — Bonito é consequência. — Ela se deitou, puxando o travesseiro contra o peito e eu deitei ao seu lado, sem invadir, apenas estando ali caso ela precisasse de mim, afinal, eu sempre estaria.
— Quando eu era pequena — ela disse, de repente e entendi que estávamos entrando em um território que eu nunca tinha pisado. As lembranças de infância de as quais eu tinha acesso era o quanto ela me odiava e o quanto eu fui um imbecil com ela —, eu achava que minha mãe tinha morrido. — Meu peito apertou.
— Era mais fácil.
— Sim. — Ela respirou fundo. — Mortos não escolhem ir embora. — Passei o braço por cima dela, puxando-a com cuidado para se encaixar em meu corpo.
— Agora você sabe que ela escolheu.
— E isso dói mais.
— Dói — concordei. — Mas também te devolve algo que você nunca teve.
— O quê?
— Verdade. — Ela ficou quieta por alguns segundos.
— Eu sempre achei que tinha algo errado comigo — confessou. — Que eu não tinha sido suficiente pra alguém ficar. — Apertei-a com mais força pra mostrar que eu tinha escolhido ficar, todos os dias da minha vida eu escolheria ficar ao lado dessa mulher.
— … — Minha voz saiu baixa. — Nunca foi sobre você.
— Eu sei disso racionalmente, mas é difícil…
— Então guarda essa carta como prova. — Toquei de leve o braço dela. — Não da ausência dela, mas do fato de que o erro nunca esteve em você. — Ela fechou os olhos.
— Eu não vou procurar ela agora.
— Não precisa.
— Talvez nunca.
— Tá tudo bem também se não quiser.
— Mas também não vou fingir que isso não existe.
— Isso já é mais do que suficiente. — Ela virou o rosto para mim.
— Obrigada por não jogar fora.
— Obrigado por confiar em mim pra ler.
O silêncio que veio depois foi diferente, não era pesado, apenas quieto, suave, um silêncio de conforto. Depois de um tempo, ela murmurou:
— A reunião foi pesada?
— Foi necessária.
— Você parece… — ela franziu a testa — diferente.
— Porque estou.
— Como assim?
— Pela primeira vez desde que assumi, eu não sinto que estou tapando buracos deixados por outros. — Olhei para o teto. — A Vincere agora é o que nós construímos. Com erros corrigidos, não herdados. — Ela sorriu de leve se virando de frente pra mim agora e fazendo carinho em meu peito.
— Você fala da máfia como se fosse uma casa.
— Porque é.
— E eu? — Virei o rosto para ela enquanto a envolvia em meu braço.
— Você é o alicerce que impede tudo de afundar quando o peso aumenta. — Ela respirou fundo.
— Às vezes eu tenho medo de tudo isso desmoronar.
— Vai — respondi sem hesitar e ela arregalou os olhos.
— Vai?
— Alguma coisa sempre cai. — Passei a mão pelo cabelo dela. — A diferença é que agora sabemos reconstruir sem repetir o mesmo erro. — Ela assentiu lentamente como se entendesse o que eu queria dizer.
— O casamento é daqui a alguns dias…
— Vai acontecer, a gente merece depois de tudo que aconteceu. — Ela se aproximou mais, encaixando a cabeça em meu ombro e seu corpo no meu.
— Promete que não vai me proteger de mim mesma? — Sorri de canto.
— Prometo caminhar do seu lado enquanto você decide quem quer ser. — Ela fechou os olhos outra vez.
Ficamos ali até a respiração dela desacelerar, não dormindo ainda, mas descansando, e naquele instante eu tive certeza de algo que nenhum relatório, auditoria ou aliança poderia garantir: a Vincere sobreviveria porque estava organizada, mas nós sobreviveríamos porque finalmente não estávamos mais fugindo, e isso, era mais do que poder, era o que sustentava um império.
Capítulo 38
Perroni
O envelope estava sobre a penteadeira, ao lado de uma pequena caixa vermelha. Não deveria estar ali. Tudo naquele quarto tinha sido colocado com cuidado excessivo, cada objeto pensado para não pesar mais do que precisava. O envelope destoava porque não fazia parte de todo o cenário, ele estava ali, com meu nome, escrito com uma caligrafia firme, contida, elegante demais para ser impulsiva.
.
Abri primeiro o envelope e desdobrei a folha pequena.
,
Não estarei presente no casamento, não por desinteresse, nem por distância, mas porque aprendi tarde, que amar também é saber quando não ocupar um espaço.
Você ama meu filho com uma coragem que não se ensina. Não é o amor que protege apenas, é o amor que permanece mesmo quando conhece o peso, a sombra e as escolhas difíceis. nunca precisou de alguém que o salvasse. Precisava de alguém que o enxergasse.
Esse anel me acompanhou em anos em que eu precisei ser firme quando tudo à minha volta tentava me dobrar. A pedra azul não simboliza promessa, mas constância. É o lembrete de que dignidade não se negocia, mesmo quando o mundo exige concessões.
Minha ausência é um gesto de respeito. O futuro que vocês escolheram não precisa do meu passado observando. Seja feliz, seja inteira e saiba que, em silêncio, eu torço por vocês dois.
Aurora.
Fechei a carta devagar e só então abri a caixinha vermelha. O veludo guardava um anel de ouro simples, antigo, com uma pedra azul no centro. Não era grande, nem chamativo, era imponente ao seu jeito, um objeto feito para durar e não para ser exibido. Pensei que aquele anel não era um pedido de lugar, mas uma confirmação de respeito e aprovação da nossa união. Fechei a caixa respirando fundo, absorvendo as palavras sinceras de Aurora. Olhei no espelho e admirei meu vestido de noiva, branco, com rendas, mais estruturado no tronco, um corpete simples com decote meia taça. Toquei o tecido uma última vez enquanto me admirava antes de ouvir a porta se abrir atrás de mim. Não me virei, não precisei, Otelo nunca entrava em um lugar como quem pede licença. A presença dele ocupava o espaço antes do som.
— Você está pronta — ele disse, sem transformar em pergunta.
— Estou.
Vi o reflexo dele no espelho antes de vê-lo de frente, ao me virar. O mesmo homem que sempre decidiu tudo agora me observava em silêncio, como se estivesse diante de algo que não podia mover ou controlar. Naquele momento eu sentia que o tinha perdoado por tudo, Otelo me criou e ele sempre seria meu pai.
— Aurora mandou isso — eu disse, levantando a carta e a caixa. — Ela não vem ao casamento.
Otelo assentiu uma única vez.
— Eu sei, não esperava menos dela. — Ele se aproximou de mim e me deu um beijo na testa antes de se afastar novamente.
— Quanto a Alessia, ela enviou uma carta, infringiu o contrato mais de uma vez. Você sempre matou por menos. O que fez você não tomar essa decisão? — O olhar dele endureceu o suficiente para não ser confundido com indiferença.
Era meu casamento, eu sabia, mas eu precisava saber, sentia algo como depois do “sim” eu deixaria tudo pra trás. A partir daquele dia, depois de assinar o livro cerimonial da máfia, qualquer coisa que tivesse me quebrado ou me feito repensar decisões em minha vida ficariam no passado. Alessia ficaria no passado, eu estava satisfeita com a minha realidade.
— Eu já escolhi demais por você quando você não podia — respondeu. — Escolhi onde você viveria, quem te protegeria, quem te criaria e até talvez ajudei a você perceber o que você seria. — Deu um passo à frente, mas parou antes de invadir meu espaço. — Não faria isso de novo.
— Então deixou que ela vivesse — eu disse.
— Deixei que você decidisse o que fazer com isso. — Senti algo se acomodar dentro de mim.
— Você não fez isso por ela — falei.
— Não. — Ele foi honesto demais para mentir agora. — Fiz por você.
— Não significa que eu queira ela na minha vida.
— Não espero que queira — Otelo respondeu. — Esperar é coisa de quem ainda tenta controlar o resultado. — O silêncio se estendeu entre nós, não como ameaça, mas como encerramento. — está esperando — ele disse, por fim.
— Eu sei.
Deixei a carta e o anel sobre a penteadeira, não escondi, mas também não levei comigo. Algumas coisas pertencem ao passado, mesmo quando chegam no presente. Saímos do quarto e descemos a escada devagar, a cerimonialista nos esperava na porta que dava acesso ao jardim, que estava silencioso de um jeito diferente. As cadeiras estavam dispostas com precisão, mas nada ali parecia rígido. A luz do fim de tarde atravessava as árvores altas, dourando tudo com uma suavidade quase irreal. Como se até o lugar soubesse que aquele não era um casamento comum.
Minhas irmãs estavam à esquerda, juntas, alinhadas e inteiras, por mais que faltasse uma, eu tinha a certeza que ela estava comigo, sempre estaria. Olhei pra elas com um sorriso genuíno, não precisavam dizer nada, a presença delas era suficiente para me lembrar de quem eu fui antes de tudo isso, e de quem eu sobrevivi para ser. Giovanna estava logo atrás, postura impecável, olhar atento, como sempre. Vincenzo ao lado dela, sério, mas com algo diferente no rosto, orgulho, talvez, e Anita e Cristian mais à frente. Pessoas que não nasceram dentro da estrutura, mas que escolheram ficar. Pessoas que fizeram diferença quando ficar não era a opção mais segura.
Eu reconhecia cada rosto, não havia curiosos, apenas testemunhas. Otelo caminhava ao meu lado, não segurava meu braço como quem conduz algo frágil, a mão dele repousava firme, correta, quase cerimonial. Ele não estava me entregando, estava reconhecendo que aquele caminho não era mais dele.
Quando paramos diante de , senti o mundo se reorganizar, ele estava ali, imóvel, imponente sem esforço. O homem com quem briguei diversas vezes, aquele que odiei em alto e bom som e que talvez já amasse em silêncio, no fundo da minha mente. Quando me percebi apaixonada por ele, algo me corroeu por dentro, um conflito interminável dentro do meu ser, porém, resolvido com uma única verdade, ele realmente nunca foi meu irmão.
Como uma verdade pode mudar tudo, dentro de mim, dentro dele e em toda nossa família. A culpa de amar não existia mais e a partir disso, pude entregar meu coração a ele, pude entregar meu corpo a ele e que dia incrível foi o dia que nos entregamos de corpo e alma um ao outro. Mordi o lábio com todos os pensamentos que flutuavam em minha mente, levantei os olhos e vi o homem que escolhi, não por segurança, mas por verdade, o olhar dele encontrou o meu e por um segundo, tudo o que fomos, tudo o que enfrentamos, passou silencioso entre nós.
Otelo foi o primeiro a falar, baixo o suficiente para que apenas nós dois ouvíssemos:
— Eu a confiei ao mundo achando que podia moldá-la. — A pausa foi mínima. — Hoje, reconheço que ela se moldou sozinha. — Ele se virou para . — Cuide dela não como quem protege algo seu, mas como quem respeita quem ela é.
assentiu uma única vez, não prometeu, ele nunca prometia o que já era compromisso. Otelo soltou meu braço, beijou minha testa e sorriu para seu filho. O juiz de paz começou a falar sobre a família, sobre amor, sobre duas almas que se encontravam e que sentiam que estavam destinadas a caminhar juntas. Acreditava que era esse o nosso caso. Nossos olhos não se deixavam, era algo impossível de se fazer, aquela conexão, aquele dia, aquele momento na nossa vida seria único e seria o primeiro dia do resto das nossas vidas. Assim que o juiz passou a palavra pra mim, eu respirei fundo antes de abrir o papel dobrado em minhas mãos e levantei o olhar para antes de começar.
— — disse, e só ao ouvir o nome dele saindo da minha boca naquele momento foi emocionante. — Eu não te escolhi porque você era forte, te escolhi porque você nunca fingiu não ser. Porque nunca tentou ser menos sombrio para caber em mim e nem me pediu para ser menos para caber em você. — Alguns rostos foram molhados com lágrimas, outros permaneceram imóveis e então continuei: — Eu vi quem você é quando ninguém estava olhando. Vi suas escolhas difíceis, seus silêncios, sua forma de amar inteira, mesmo quando parecia dura. — Engoli em seco. — Amar você nunca foi confortável, foi consciente, constante… — Ergui o queixo. — Eu prometo caminhar ao seu lado sem tentar te salvar de si mesmo. Prometo te confrontar quando for necessário e permanecer quando for difícil. Prometo ser leal não apenas a você, mas à verdade que construímos juntos. — Dobrei o papel com cuidado. — Eu não quero um homem que me proteja do mundo, quero um parceiro que caminhe comigo dentro dele e é isso que escolho hoje e todos os dias enquanto eu viver.
segurou minha mão, não apertou, apenas ancorou e naquele jardim, diante de tudo o que fomos e de todos que importaram, eu soube: o que estávamos selando ali não era um final feliz, era um começo sólido. Então era a vez dele e eu já respirava fundo para não cair em lágrimas, ele não era de falar sobre sentimentos ou ser o cara mais romântico, porém, eu sabia pelos olhos dele que viria algo que me tocaria. não tirou os olhos de mim quando começou a falar, ele não precisou de papel, nunca foi homem de ensaios.
— — disse e meu nome na voz dele sempre soou como decisão. — Eu não sou um homem simples, nem leve, nunca fui e nem nunca aprendi a ser. — Alguns sorrisos contidos surgiram, outros permaneceram atentos. — Trago comigo escolhas que não cabem em promessas bonitas, um mundo que exige firmeza, silêncio e responsabilidade. — Ele respirou fundo, como quem mede o peso do que vai dizer. — Eu sei que você conhece tudo isso e mesmo assim, ficou. — A mão dele apertou a minha, apenas o suficiente. — Você nunca tentou me mudar, nunca me pediu explicações que eu não podia dar e em algum momento da nossa convivência confundiu controle com cuidado, hoje não mais, hoje você sabe o quanto tudo é proteção e amor. — O olhar dele não vacilou. — Você me enfrentou diversas vezes, você me peitou como ninguém pra alguém de 1,68 — soltei uma risada entre as lágrimas e os presentes me acompanharam —, e mesmo assim me escolheu. — Houve uma pausa pra respiração antes dele continuar.
“Eu prometo te respeitar mesmo quando discordar, te proteger sem te aprisionar e te ouvir quando o silêncio parecer mais fácil. — A voz dele baixou um tom. — Prometo não usar o mundo que carrego para diminuir o espaço que você ocupa nele. — Senti meu peito se contrair. — Eu não te prometo segurança absoluta, nem paz constante, nem poderia. — Ele foi honesto como sempre. — Prometo presença, lealdade e escolhas feitas ao seu lado, não por cima de você. — Ele inclinou a testa levemente, quase imperceptível. — Se você caminhar, eu caminho. Se você parar, eu paro. — Um leve sorriso, breve demais para ser chamado de sorriso. — E se o mundo cobrar demais, eu fico. — levou minha mão aos lábios, não para beijar, mas para encostar a testa por um segundo. — Eu te escolho, . Hoje, diante de todos, e amanhã, quando ninguém estiver olhando, assim como todos os dias enquanto eu respirar.
O silêncio que se seguiu não foi contido. Foi carregado, daqueles que mudam coisas por dentro e eu soube, com uma clareza quase assustadora, que aquele homem não estava me prometendo felicidade, estava me oferecendo verdade, estava se entregando por completo e daquele dia em diante, seríamos nós dois contra o mundo. O juiz de paz disse suas palavras finais e não fez cerimônia ao me puxar pela cintura e me beijar do jeito mais hollywoodiano que existia.
— Que se inicie a festa! — Otelo bateu palma sorrindo, fazendo todos baterem palmas e jogarem pétalas brancas sobre nós. Sorri com os olhos conectados aos dele e nossos lábios ainda perto o suficiente pra senti-los.
O jardim da mansão estava silencioso e ao mesmo tempo cheio de vida. Luzes baixas pendiam das árvores, pequenas constelações que iluminavam rostos conhecidos, sorrisos e olhares cúmplices. Não era a grandiosidade de uma festa que importava, mas cada presença, cada gesto carregava história e significado. manteve minha mão unida à dele, firme, como se fosse o eixo de todo aquele espaço e eu me deixei levar pela sensação de pertencimento.
Minhas irmãs chegaram primeiro, Giulia aproximou-se sem palavras, a única coisa que precisou foi um abraço que durou tempo suficiente para lembrarmos de Luna, presente em cada gesto silencioso. Enterrou o rosto no meu pescoço, respirando fundo e sussurrou:
— Ela estaria feliz e eu também estou.
Senti uma lágrima escapar, mas não era tristeza, era memória e amor. Beatrice veio logo depois, ao lado de Anita, a mão de Anita repousando na sua como se a amparasse antes mesmo de qualquer palavra sair da boca de sua esposa. Beatrice me olhou com intensidade, segurando minha mão.
— … você sempre escolheu o amor, mesmo quando ele era difícil. Estou feliz por você, por vocês dois. — A voz dela era calma, firme, mas carregava a história de todas as dores e desafios que superamos.
— Obrigada — respondi, apertando a mão dela. — E obrigada por sempre estar ao meu lado, mesmo quando não era fácil.
Anita sorriu, discretamente, apoiando a mão sobre a minha e a de Beatrice:
— Vocês dois merecem essa paz. — O olhar dela dizia mais do que palavras. — Não como prêmio, mas como consequência da coragem de amar.
Giulia respirou fundo e tocou minha face:
— Você encontrou quem mantém você inteira, . Não esquece isso.
— Jamais, Sorellina — respondi, sentindo o coração pulsar mais rápido.
Depois vieram Giovanna e Vincenzo, acompanhados de Cristian. O grupo, sólido, representava a rede de amor e escolha que nos sustentava.
Vincenzo ergueu a taça, silencioso por alguns segundos, e então disse:
— À mulher que aprendeu a se levantar mesmo depois de tudo… e ao homem que aprendeu a caminhar com ela, sem tentar segurá-la demais. — Ele piscou o olho direito para e jurei vê-lo sorrir antes de bater de leve seu copo de whisky a taça de Vince.
Cristian completou:
— Vocês construíram isso juntos. Não é sorte e nem destino, foi escolha.
— Sempre soube escolher homens e você escolheu muito bem, . — Giovanna sorriu e me puxou para um abraço breve, mas intenso.
As palavras de cada pessoa eram mais importantes do que joias, eram cuidadosamente distribuídas, significativas e cada gesto fazia o jardim parecer ainda mais nosso e então Otelo apareceu à nossa frente fazendo todo o grupo se dispersar. Sem aviso, apenas presença, como sempre, ele parou diante de nós, observando como se medisse cada detalhe do momento.
— — disse, com a voz firme —, você é inteira. Forte, livre, sempre foi, minha filha, nunca duvidei da sua capacidade e inteligência. Hoje você caminha com alguém que sabe respeitar isso.
— Obrigada, pai — respondi, apenas, sentindo que nenhuma palavra conseguiria expressar tudo que estava sentindo e o vi sorrir até os olhos por depois de tanto tempo eu chamá-lo de pai.
— Você recebeu uma mulher que não se curva, que carrega memórias e coragem. Caminhe ao lado dela, não à frente e terá tudo — ele falou direcionado para .
— Sei o que recebi — respondeu, com a voz baixa e firme. — E sei o que devo.
Otelo assentiu, satisfeito, e depois se afastou, deixando apenas silêncio e as luzes suaves no ar. O que se seguiu foi um momento só nosso. Minhas irmãs conversavam baixinho entre si, Giovanna e Vincenzo sorriram levantando as taças de longe, Cristian e Anita trocaram olhares cúmplices. Cada presença era testemunha de nossas escolhas, da coragem que cada um teve para estar ali de forma honesta e sem máscaras. O amor parecia mais simples ali do que nunca, não precisava de espetáculo e nem de aplausos. Ele precisava apenas ser visto, sentido e celebrado com quem realmente importava.
puxou minha mão e nos afastamos alguns passos da festa, apenas o suficiente para que o som das vozes virasse fundo e não centro. O jardim ainda respirava luz, mas ali, entre as árvores, éramos só nós dois. Ele parou diante de mim, segurando minhas mãos como se estivesse confirmando algo que já sabia.
— A vida inteira me ensinaram que tudo é disputa — ele disse, baixo. — Poder, território e controle. — Passou o polegar de leve sobre meus dedos. — Você foi a primeira coisa que não precisei vencer. — Meu peito apertou.
— Eu nunca quis ser um prêmio — respondi.
— Você é escolha… — Ele sustentou meu olhar. — Todos os dias.
Aproximei-me mais, sentindo a presença dele como sempre senti, firme, real e sem promessas vazias.
— Eu não sei o que o futuro espera de nós — confessei. — Mas sei que não tenho medo quando é com você.
Ele inclinou a testa até encostar na minha, um gesto pequeno, íntimo, que sempre foi mais forte do que qualquer declaração pública e que dispensava palavras.
— Medo eu tenho — admitiu. — Mas agora ele não decide mais por mim. — Sorri, sentindo os olhos arderem.
— Então estamos prontos.
— Estamos juntos — ele corrigiu e aquela diferença importava.
me envolveu pela cintura, não como quem protege, mas como quem compartilha peso. Apoiei a cabeça em seu peito e ouvi o coração dele bater, constante, no mesmo ritmo de sempre. Era ali que tudo fazia sentido. Ficamos ali por alguns minutos que não pediam pressa. A música voltou a crescer ao redor, as luzes tremulavam entre as folhas, risos ecoavam ao longe, mas nada nos puxava de volta imediatamente. Quando voltamos para a festa, não foi como noivos celebrando um evento, foi como duas pessoas que tinham finalmente parado de sobreviver. A música lenta começou a tocar e me puxou para dançar, lento, nossos olhos conectados, as nossas respirações leves e compartilhadas. Eu sorri e selei nossos lábios antes de olhá-lo novamente.
— Obrigada por ficar — murmurei e encostei minha cabeça em seu peito, enquanto dançávamos despreocupados com o tempo.
— Obrigado por não ir embora.
Naquela noite, entre mãos dadas, memórias compartilhadas e escolhas reafirmadas em silêncio, eu entendi que o amor não nos salvou de quem éramos, ele nos permitiu ser, inteiros, sem fuga, e isso, mais do que alianças, flores ou promessas, era o que sustentaria tudo o que ainda viria.

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