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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Vincere

Escrita porHatakesaturn
Revisada por Lelen

Capítulo 37

%Matteo% Perroni

  — A auditoria finalmente terminou.
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  Minha voz saiu baixa, controlada, do jeito que um Don aprende a usar quando não quer que a emoção contamine o conteúdo. Filippo assentiu uma única vez, abrindo a pasta à sua frente. Papéis organizados demais para a gravidade do que representavam.
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  O escritório estava fechado havia mais de uma hora quando Filippo começou a falar. Não porque precisasse desse tempo para se preparar, ele nunca precisava, mas porque certas informações exigem silêncio antes de serem ditas. O tipo de silêncio que filtra qualquer ruído desnecessário e lembra a todos onde estão sentados. Eu ocupava o meu lugar de sempre, %Pietra% sentada à minha frente à direita e Filippo sentado à minha frente na poltrona da esquerda. A Vincere em sua forma mais pura, éramos nós três no comando.
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  — A auditoria cruzou cinco anos de movimentações — Filippo começou, a voz calma demais para o que carregava. — Contabilidade oficial, paralela, rotas logísticas, fornecedores secundários e cadeias de comando informais. — Ele deslizou alguns documentos pela mesa, mas ninguém se apressou em tocá-los. Não era uma reunião para leitura e sim para entendimento. — O padrão se repete — continuou. — Pequenos desvios, sempre abaixo do radar, nunca grandes somas. Nunca ações isoladas e sempre o suficiente para parecer erro humano.
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  %Pietra% inclinou levemente a cabeça antes de falar:
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  — Fragmentação deliberada — ela disse. — Para não ter rastro.
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  — Exato — Filippo concordou. — Cada setor sabia apenas o necessário para executar sua parte, nenhum deles tinha visão do todo.
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  Eu apoiei as mãos sobre a mesa, estava irritado pra caralho, como meu pai não tinha visto nada disso? Tinha gente da Itália metida nisso e ele estava lá, resolvendo sabe lá Deus o quê, ele sabia e foi resolver ou queria ver se nós éramos eficientes o suficiente pra descobrir e resolver por nós mesmos? Eu não sabia, já não entendia as ações de Otelo e, sinceramente, não fazia mais muita questão. A Itália nunca foi um lugar em que tinha boas memórias, pra mim, a Espanha, minhas irmãs e %Pietra% eram o meu lar.
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  — Quantos sabiam que estavam traindo? — perguntei e Filippo não respondeu de imediato.
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  — Menos do que gostaríamos de acreditar — ele disse, por fim. — E mais do que podemos tolerar.
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  Isso era o que mais me incomodava, não o número, mas a lógica por trás dele. Tantos anos se infiltrando na Vincere, Luca tinha uma rede muito bem planejada, informantes em todos os lugares, achou nossos pontos fracos e nos atingiu exatamente neles. A raiva chegava a se apossar do meu corpo, mas então eu lembrava que fui eu a tirar sua vida, aquilo dava uma certa tranquilidade.
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  — Eles não se viam como traidores — %Pietra% falou. — Se viam como peças substituíveis em um sistema maior, pessoas fazendo ajustes…
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  — Ajustes que beneficiavam sempre o mesmo eixo — Filippo completou. — Informações vazadas com atraso calculado, rotas alteradas minutos antes do carregamento e auditorias externas avisadas com antecedência.
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  — E ninguém falhou grande demais para levantar suspeita — eu disse.
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  O silêncio que se seguiu foi pesado, mas estável. Não havia choque, nem indignação, só confirmação, finalmente recebíamos todas as respostas depois de tanto sofrimento e problemas na máfia.
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  — Os responsáveis diretos já foram retirados da estrutura — Filippo continuou. — Três cargos médios, dois operacionais e dois estratégicos. Nenhuma ausência chamou atenção pública, as substituições já estavam mapeadas antes mesmo da remoção.
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  Isso era eficiência e também eu sabia que era %Pietra%, ela estava fazendo um excelente trabalho.
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  — As famílias ligadas a eles? — perguntei.
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  — Monitoradas — respondeu ela. — Nenhuma reação fora do esperado, a maioria nem sabia onde estava pisando.
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  Assenti devagar.
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  — Então o problema não era um levante — eu disse. — Era corrosão interna.
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  — Exatamente — Filippo confirmou. — Não queriam tomar a Vincere. Queriam usá-la para ganho próprio enquanto se mantinham invisíveis.
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  Inspirei fundo pelo nariz.
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  — Invisibilidade é um luxo que não se concede duas vezes.
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  %Pietra% descruzou as mãos e falou com a tranquilidade de quem já aceitou o peso do cargo:
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  — A partir de agora, toda decisão estratégica passa por dupla validação. Nenhum chefe de célula opera sem espelhamento, nenhuma rota muda sem registro cruzado. Quem reclamar de controle… já está se denunciando.
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  Filippo deslizou mais uma pasta sobre a mesa antes de falar, o gesto lento, calculado.
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  — Sobre o detetive… Estevam.
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  Levantei os olhos por um segundo, depois voltei à leitura.
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  — Continue.
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  — Ele não agia sozinho e sim por comando de Luca, já sabíamos disso, mas ele também era só um fantoche que nem sabia que estava sendo usado. — Filippo cruzou as mãos à frente do corpo. — Tudo o que fez foi por orientação indireta. Pagamentos fragmentados, ordens quebradas, sempre repassadas por terceiros.
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  %Pietra% soltou uma risada curta, sem humor.
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  — Um cachorro achando que era lobo.
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  — Exatamente. — Filippo assentiu. — Quando a fonte secou, ele perdeu o chão.
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  — E correu — completei, fechando a pasta. — Sempre correm quando percebem que não passam de ferramenta.
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  — Tentou negociar — Filippo continuou. — Informação em troca de proteção.
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  Olhei para %Pietra% por um instante antes de responder:
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  — Tarde demais.
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  — Foi resolvido — ela disse, firme, como se estivesse falando de um problema administrativo. — Não existe mais risco vindo dele.
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  Apoiei os cotovelos na mesa.
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  — Então fica registrado assim: Estevam foi um erro de avaliação. Um nome que não se repete. — Olhei para os dois. — A Vincere não tolera peças que se acham maiores do que a mão que as move.
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  — Auditoria concluída. — Filippo assentiu, fechando a pasta e naquele silêncio que se seguiu, eu soube: aquela parte da história estava enterrada. — Em termos práticos — ele disse —, a Vincere está estável. Mais do que isso: está consciente das próprias falhas.
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  Levantei o olhar para os dois.
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  — Isso não volta — eu disse. — Não porque somos infalíveis, mas porque agora sabemos exatamente onde rachamos.
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  %Pietra% sustentou seu olhar no meu.
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  — E porque ninguém aqui confunde lealdade com silêncio — ela respondeu.
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  Ali, naquela frase curta, estava tudo. A reunião terminou sem formalidades, não precisávamos, antes de qualquer coisa, éramos família. Quando nos levantamos, tive a certeza que um Don só tem poucas vezes na vida: a Vincere não estava apenas funcionando, ela estava alinhada e estruturas alinhadas não desmoronam, elas resistem.
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[...]

  Entrei em casa e ao jogar as chaves na mesa principal do hall de entrada, vi um envelope que estava ali, deslocado, papel grosso, bege, sem remetente no verso, apenas um nome escrito com cuidado excessivo, como se cada letra tivesse sido pensada antes de existir.
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  %Pietra% Perroni.
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  Fiquei alguns segundos parado, observando aquilo que eu sabia exatamente de quem era, como se fosse um objeto perigoso, não por mim, mas por ela. %Pietra% estava na sala, sentada no braço do sofá com as pernas no assento, velha mania de quando ela estava ansiosa e procurava algo pra fazer, estava folheando distraidamente um catálogo sobre arranjos de casamento sem realmente ver nada, eu a conhecia.
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  — Conseguiu conferir o carregamento? — ela perguntou, sem levantar os olhos.
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  — Sim, tudo certo. — Pigarreei. — Chegou uma carta pra você.
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  Ela olhou pra mim no instante seguinte, o corpo dela mudou, não foi brusco, foi quase imperceptível, mas eu conhecia cada sinal dela. Se %Pietra% respirasse diferente eu sabia, passei tempo demais a observando e protegendo pra não saber.
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  — De quem?
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  Caminhei devagar até o sofá em que ela estava.
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  — Acredito que seja da sua mãe — disse e ela riu, uma risada curta, incrédula.
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  — Você está brincando. — Estendi o envelope e %Pietra% não pegou.
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  — É sério isso? — A voz saiu mais alta agora. — O que essa mulher acha que está fazendo?
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  — %Pietra%…
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  — Não. — Ela levantou do sofá. — Não, %Matteo%. Isso não, ela não tem esse direito.
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  — Eu sei.
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  — Não, você não sabe. — Ela passou a mão pelos cabelos, inquieta. — Ela me abandonou, sumiu minha vida inteira, fica indo na minha boate querendo que eu a ouça e agora manda uma carta? Como se fosse… como se fosse normal?
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  Aproximei-me um pouco mais.
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  — Você não precisa ler.
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  — Então por que me mostrou? — Ela apontou para o envelope, os olhos brilhando de raiva. — Joga isso fora. Agora.
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  — Não vou decidir isso por você.
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  — Eu já decidi. — Ela cruzou os braços. — Isso é lixo.
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  — %Pietra%.
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  — %Matteo%, não… — a voz dela vacilou — não abre isso. Não deixa essa mulher entrar aqui.
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  Olhei em volta, a nossa casa, o lugar que ela cresceu, que ela se sente segura, amada, um lugar que ela, com tanto esforço, conseguiu chamar de lar.
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  — Ela já entrou — eu disse, baixo. — Não pela porta, mas na sua cabeça. — Ela ficou em silêncio. — Você não precisa perdoar — continuei. — Nem entender e nem aceitar, mas fingir que isso não existe… — balancei levemente o envelope — isso também é uma escolha e uma que te cobra caro.
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  — E se eu não quiser saber? — sussurrou. — E se… for só mais uma desculpa?
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  — Então você vai saber também. — Dei um passo à frente. — Mas vai ser sua conclusão. Não uma dúvida que te acompanha pelo resto da vida.
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  Ela desviou o olhar.
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  — Eu passei anos me convencendo de que ela não importava.
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  — E passou todos esses anos falando dela como se ainda doesse. — Silêncio, vi seus olhos desviarem para qualquer lugar que não fosse a mim, ela mordeu o lábio inferior e eu sabia que ela estava pensando e tentando tomar uma decisão. — Você não precisa abrir agora — disse, mais suave —, mas também não precisa destruir algo que pode te dar um encerramento. Mesmo que seja um encerramento de que não goste. — Ela estendeu a mão, hesitou, recolheu.
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  — Se eu abrir… — a voz falhou — eu não vou conseguir terminar. — Sentei no sofá e bati levemente ao meu lado com a mão.
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  — Então não termina sozinha.
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  Ela se sentou devagar e encostou o corpo no meu, mas não me olhou.
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  — Você lê.
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  — Tem certeza? — Ela assentiu uma vez.
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  — Se for pra doer… que doa inteiro.
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  Abri o envelope com cuidado, a carta era simples, uma única folha dobrada duas vezes. A caligrafia era firme demais para alguém que escrevia sem peso. Limpei a garganta antes de começar.
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  %Pietra%,

  Se você estiver lendo isso, é porque eu não consegui chegar até você, por escolha sua ou minha.
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  Ela fechou os olhos no instante em que ouviu o seu nome.
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  Não escrevo para pedir perdão. Sei que há coisas que não se consertam com palavras e muito menos com explicações. Escrevo porque você merece saber que a decisão que tomei não foi feita sem medo, foi feita por ele.
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  Senti o corpo de %Pietra% enrijecer.
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  Quando engravidei, eu já estava presa a escolhas que não eram mais só minhas. Eu devia mais do que podia pagar, devia a homens que não negociam com promessas, e cada dia que você crescia dentro de mim, eu entendia que não conseguiria protegê-la.
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  A mão de %Pietra% apertou o tecido do vestido então parei por um segundo, deixando que ela absorvesse as palavras, respirei fundo e então continuei:
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  Otelo era muitas coisas. Frio, calculista, perigoso, don da máfia, mas era poderoso e naquele momento, poder significava sobrevivência. Eu fiquei diante de uma escolha que nenhuma mãe deveria enfrentar: manter você comigo, mesmo entregando Beatrice, e condenar nós duas, ou te entregar a um homem que poderia garantir que você crescesse viva, segura, intocável e com sua irmã.
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  Minha voz saiu mais baixa.
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  Eu não fui forte, fui covarde. Escolhi viver sabendo que você me odiaria, porque o ódio ainda significava que você estava aqui, que sentiria algo por mim.
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  Senti o peso daquelas palavras se espalhar pelo ambiente.
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  Otelo me deu dinheiro, sim, mas mais do que isso, me deu distância. Um acordo que me mantinha longe, que me proibia de te procurar, de te ver, de sequer pronunciar seu nome perto de quem não deveria saber. Eu aceitei. Não porque você valia pouco, mas porque você valia tudo.
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  Fechei os olhos por um instante antes de terminar.
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  Se algum dia você quiser me ouvir, estarei onde sempre estive: esperando. Se nunca quiser, entenderei. Essa também é uma consequência da minha escolha.
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Alessia

  Quando terminei, dobrei o papel devagar e coloquei a carta sobre a mesa. %Pietra% não chorou, não gritou, apenas ficou ali, imóvel, absorvendo cada palavra.
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  — Ela escolheu me deixar — disse, por fim.
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  — Sim.
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  — E chamou isso de amor.
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  — Chamou isso de sobrevivência.
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  Ela respirou fundo e se aconchegou no meu peito ainda mais, passei meu braço por sua cintura e a envolvi comigo.
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  — Não é a mesma coisa.
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  — Não é.
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  — Eu não sei o que fazer com isso.
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  — Você não precisa saber agora. — Acariciei seus cabelos. — O encerramento não é decidir algo, às vezes é só parar de fugir da pergunta.
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  Ela ficou ali, quieta, e naquele momento eu entendi, não era sobre Alessia, nunca foi. Era sobre %Pietra% finalmente ter todas as peças da própria história nas mãos e decidir o que fazer com elas. Ficamos assim por um tempo que eu não soube medir, aprendi cedo que existem silêncios que não pedem resposta, apenas espaço. %Pietra% sempre foi intensa demais para o mundo, mas naquele instante estava estranhamente quieta, como se estivesse organizando algo que ficou desalinhado por tempo demais.
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  — Você acha que ela acreditou nisso? — ela perguntou de repente, ainda sem me olhar.
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  — No quê?
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  — Que me salvou.
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  Pensei antes de responder. Não porque não soubesse, mas porque respostas apressadas costumam ser cruéis.
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  — Acho que ela acreditou que fez a única coisa que conseguia fazer sem se destruir por completo. — Ela soltou um suspiro curto.
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  — Então ela escolheu ela mesma.
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  — Sim.
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  — Todo mundo escolhe a si mesmo no fim — murmurou. — Até quem diz que não.
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  Aquela frase não era só sobre Alessia, era sobre Otelo, sobre Luca, na verdade, sobre todos nós.
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  — A diferença — eu disse — é o que fazemos depois de escolher. — Ela finalmente ergueu o rosto e me encarou.
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  — E o que eu faço agora?
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  Passei o polegar pelo maxilar dela, um gesto pequeno, íntimo, quase automático, mas ainda assim admirando sua beleza e observando sua expressão, como sempre.
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  — Agora você sabe. — Inclinei a testa até tocar a dela. — Saber muda tudo, mesmo quando não muda nada. — Ela ficou em silêncio outra vez, mas o corpo dela já não estava mais rígido. Havia tensão, sim, mas não peso e aquilo importava. Levantei-me devagar, puxando-a comigo. — Vem — murmurei.
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  — Pra onde?
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  — Pra longe desse sofá. — Toquei o envelope sobre a mesa antes de pegá-lo e colocar no bolso da calça. — A carta não vai fugir e você também não.
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  Ela hesitou, mas depois assentiu. Subimos para o quarto sem dizer mais nada. O corredor estava em penumbra, a casa silenciosa como só fica quando tudo está no lugar. Era irônico pensar que aquele espaço, construído em cima de tantas decisões violentas, era onde %Pietra% finalmente se permitia sentir sem precisar se defender. Ela se sentou na beira da cama e tirou os sapatos, um de cada vez, como se precisasse desse ritual para se ancorar.
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  Fiquei observando por um instante antes de falar:
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  — Você não precisa responder a essa carta.
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  — Eu sei.
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  — Não precisa procurar, nem perdoar e nem confrontar.
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  — Eu sei — repetiu, mas agora havia algo diferente na voz.
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  — Mas também não precisa fingir que nada disso te toca. — Ela ergueu o olhar.
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  — Isso é o mais difícil.
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  — Eu sei. — Sentei ao lado dela a abraçando de lado.
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  — Sabe o que mais ninguém te contou? — perguntei.
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  — O quê?
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  — Que encerramento não é fechar uma porta. — Apoiei os antebraços nas pernas. — Às vezes é só parar de empurrar a mesma parede todos os dias. — Ela soltou um riso fraco.
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  — Você fala bonito quando quer.
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  — Falo de maneira prática — corrigi. — Bonito é consequência. — Ela se deitou, puxando o travesseiro contra o peito e eu deitei ao seu lado, sem invadir, apenas estando ali caso ela precisasse de mim, afinal, eu sempre estaria.
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  — Quando eu era pequena — ela disse, de repente e entendi que estávamos entrando em um território que eu nunca tinha pisado. As lembranças de infância de %Pietra% as quais eu tinha acesso era o quanto ela me odiava e o quanto eu fui um imbecil com ela —, eu achava que minha mãe tinha morrido. — Meu peito apertou.
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  — Era mais fácil.
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  — Sim. — Ela respirou fundo. — Mortos não escolhem ir embora. — Passei o braço por cima dela, puxando-a com cuidado para se encaixar em meu corpo.
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  — Agora você sabe que ela escolheu.
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  — E isso dói mais.
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  — Dói — concordei. — Mas também te devolve algo que você nunca teve.
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  — O quê?
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  — Verdade. — Ela ficou quieta por alguns segundos.
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  — Eu sempre achei que tinha algo errado comigo — confessou. — Que eu não tinha sido suficiente pra alguém ficar. — Apertei-a com mais força pra mostrar que eu tinha escolhido ficar, todos os dias da minha vida eu escolheria ficar ao lado dessa mulher.
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  — %Pietra%… — Minha voz saiu baixa. — Nunca foi sobre você.
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  — Eu sei disso racionalmente, mas é difícil…
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  — Então guarda essa carta como prova. — Toquei de leve o braço dela. — Não da ausência dela, mas do fato de que o erro nunca esteve em você. — Ela fechou os olhos.
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  — Eu não vou procurar ela agora.
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  — Não precisa.
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  — Talvez nunca.
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  — Tá tudo bem também se não quiser.
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  — Mas também não vou fingir que isso não existe.
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  — Isso já é mais do que suficiente. — Ela virou o rosto para mim.
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  — Obrigada por não jogar fora.
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  — Obrigado por confiar em mim pra ler.
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  O silêncio que veio depois foi diferente, não era pesado, apenas quieto, suave, um silêncio de conforto. Depois de um tempo, ela murmurou:
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  — A reunião foi pesada?
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  — Foi necessária.
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  — Você parece… — ela franziu a testa — diferente.
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  — Porque estou.
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  — Como assim?
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  — Pela primeira vez desde que assumi, eu não sinto que estou tapando buracos deixados por outros. — Olhei para o teto. — A Vincere agora é o que nós construímos. Com erros corrigidos, não herdados. — Ela sorriu de leve se virando de frente pra mim agora e fazendo carinho em meu peito.
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  — Você fala da máfia como se fosse uma casa.
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  — Porque é.
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  — E eu? — Virei o rosto para ela enquanto a envolvia em meu braço.
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  — Você é o alicerce que impede tudo de afundar quando o peso aumenta. — Ela respirou fundo.
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  — Às vezes eu tenho medo de tudo isso desmoronar.
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  — Vai — respondi sem hesitar e ela arregalou os olhos.
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  — Vai?
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  — Alguma coisa sempre cai. — Passei a mão pelo cabelo dela. — A diferença é que agora sabemos reconstruir sem repetir o mesmo erro. — Ela assentiu lentamente como se entendesse o que eu queria dizer.
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  — O casamento é daqui a alguns dias…
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  — Vai acontecer, a gente merece depois de tudo que aconteceu. — Ela se aproximou mais, encaixando a cabeça em meu ombro e seu corpo no meu.
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  — Promete que não vai me proteger de mim mesma? — Sorri de canto.
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  — Prometo caminhar do seu lado enquanto você decide quem quer ser. — Ela fechou os olhos outra vez.
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  Ficamos ali até a respiração dela desacelerar, não dormindo ainda, mas descansando, e naquele instante eu tive certeza de algo que nenhum relatório, auditoria ou aliança poderia garantir: a Vincere sobreviveria porque estava organizada, mas nós sobreviveríamos porque finalmente não estávamos mais fugindo, e isso, era mais do que poder, era o que sustentava um império.
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Ai, pelo menos um pouco do drama mãe-filha foi sanado. Eu ainda entendo o Alessia.
E EU AINDA TENHO MEDO PORQUE NÃO CHEGAMOS NO “FIM” AINDA KKKKKKKKKKKKKKKRYING

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