Capítulo 9
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%Matteo% Perroni
Otelo nunca colocou a família acima do trabalho. Não que ele tivesse sido um pai ruim, criou as meninas muito bem e fez da minha adolescência a mais traumática possível. Não que fosse culpa dele, crescer como o primogênito da máfia não era assim a melhor das experiências. Entretanto, eu estava ali presenciando que, quando era importante para a
Vincere, ele não só colocava a família em segundo lugar, como passava por cima dela. Eu estava incrédulo que ele tinha me feito pegar um avião para me apresentar à filha de um dos nossos associados em Paris.
Puta que pariu; isso tinha ido longe demais até para o meu pai.
Eu nunca tinha ficado tão desconfortável na minha vida, aquele jantar parecia que tinha me transportado para 1940. Antigamente as máfias faziam acordo através de casamentos arranjados, mas isso já não era uma realidade há alguns anos. Tentei ser compreensível com meu pai, afinal, eu sabia da preocupação dele com a minha idade, filhos, herdeiros da família… para ele eu tinha que ter um filho homem com urgência. Depois do jantar eu saí para fumar um cigarro na varanda da casa do nosso associado. Eu tentava manter a calma diante da situação ridícula que meu pai me fez passar e eu esperava de verdade que aquilo não fosse real.
— Desculpe pelo meu pai… — Ouvi a voz feminina, que mal ouvi durante o jantar, e me virei.
— Teria que pedir desculpas pelo meu também.
— Eles estão velhos, pode ser só preocupação. — Ela se aproximou e se encostou no guarda corpo ao meu lado, um pouco distante. — Você aceitou isso?
— Descobri quando cheguei aqui.
— Então você não sabe que voltarei com vocês para Madri. — Olhei para ela incrédulo de que o plano do meu pai poderia ficar ainda mais sem noção. — Pela sua cara, eu estou certa.
— Desculpe, Carolyn… — Soltei a fumaça no ar e suspirei olhando para o horizonte. — Isso é informação demais para assimilar.
— Eu também. — Voltei o olhar para ela com uma certa piedade, pois eu até poderia dizer não e brigar por isso, ela talvez não tivesse escolha.
Eu e Otelo nos despedimos dos anfitriões e entramos no carro com o nosso motorista, um dos seguranças diretor do meu pai. Assim que chegamos no hotel, ele me chamou para ir até o bar, eu já sabia que aquela conversa aconteceria em algum momento, porém, queria evitá-la. Sentamos em uma mesa distante das pessoas, uma mais reservada, e o garçom nos serviu duas doses de whisky. Acendi um cigarro e meu pai começou:
— Ela é uma ótima garota, %Matteo%.
— Que ótimo para ela, não é, pai? — disse, irônico.
— Não se faça de desentendido. — A voz grossa saiu austera. — Ela voltará com a gente para Madri, quero que vocês dois se conheçam melhor e, com sorte, o casamento sai ainda esse ano. — Ele tomou um gole do whisky, calmamente.
— Você está louco… — Soltei uma risada descrente.
— Olhe como fala comigo, moleque — apontou o dedo pra mim —, esqueceu que não sou só seu pai?
Engoli em seco pois eu realmente tinha passado dos limites, mesmo assim, continuei, aquilo estava fora de controle. Meu estômago embrulhou com tamanho desrespeito a mim com essa loucura de casamento arranjado.
— Vai pagar algum dote pela moça? — falei, irritado. — O que o pai dela ofereceu a você?
— Escuta aqui, %Matteo%… — seu tom saiu mais alto do que ele gostaria, eu sabia, conheci meu pai. Então ele baixou a voz e entre dentes continuou: — O seu papel é procriar e dar um futuro para a Vincere. — Ele bateu o copo meda com força. — Sabia disso desde o momento que entrou na minha casa, então aja como a porra do primogênito e herdeiro dessa família!
— Eu tenho irmãs, elas podem casar e ter filhos…
— Sabe que você é o homem da família e é o
prossimo! Não me tire do sério, %Matteo% — Otelo disse olhando para mim com fúria em seus olhos.
— Talvez tenha chegado a hora de mudar como as coisas funcionam, Otelo. — Apaguei o cigarro no cinzeiro para me levantar, mas antes que pudesse fazer qualquer movimento para me dirigir ao meu quarto, fui segurado pelo braço de forma agressiva e meu pai me fez ficar estático onde estava.
— Não brinque comigo, %Matteo%, acaso esqueceu com quem está falando? — Meu corpo simplesmente esqueceu como se respirava. Fazia anos que não via esse Otelo, esse homem que me treinou à exaustão, que me fez matar o primeiro homem aos 16 anos e que me manteve em rédea curta para saber bem onde seria o meu lugar. —
Se fui capaz de te dar a vida, também sou capaz de tirá-la. Não brinque com a sorte.[...]
Três dias, três dias longe de casa foram o suficiente para me desestabilizar com essa loucura que o meu pai inventou. Às vezes eu pensava que era melhor pegar uma mulher e pagar para ela engravidar como ele fez com as mães das garotas, contudo, não achava isso uma coisa legal de se fazer com uma criança. Que pelo menos fosse que nem com a minha mãe, um casamento, um amor que durou alguns anos e que ficou pesado demais para a minha mãe aguentar.
Fui direto até o meu quarto, coloquei um short e uma regata, desci para a academia, eu precisava descontar a minha raiva em alguma coisa.
O que eu não esperava era encontrar um ser pequeno batendo no boneco de borracha. Luna parecia estar empenhada no que fazia, eu não sabia que ela ainda treinava.
— Sua base pode ser melhor — falei, ainda encostado no pilar próximo da porta.
— Credo, %Matteo%! — A morena puxou o ar para recuperar o fôlego e eu ri do susto que ela levou. — Não estava viajando?
— Resolvi encurtar a viagem. — Caminhei até a mesa de canto e larguei meu celular. — Vamos lá, vamos melhorar essa base, maninha.
Ajudei Luna a treinar, o que me ajudou um pouco a esquecer a loucura que foi essa viagem, depois tomei um bom banho e desci para o jantar. Só estávamos eu, Beatrice e Luna, a Giulia e %Pietra% sempre chegavam tarde dos seus afazeres. Bom, não era como se Giu não estivesse fora de casa, mas estava trabalhando. Quando terminei de comer, fui até o
deck perto da piscina para fumar um cigarro.
Eu não conseguia manter minha cabeça o tempo inteiro distraída com outras coisas, então sempre acabava pensando no que fazer para impedir que meu pai colocasse esse casamento arranjado em prática. Não sabia ao certo se ele seria capaz de me obrigar a isso, porém, sabia que ele poderia caso quisesse, e isso me preocupava. Aquele Otelo que eu vi em Paris era o mesmo que me obrigou a começar a torturar homens aos 17, e fazia tempo demais que eu não o via, tempo suficiente para esquecer da existência desse lado do meu pai.
— Ainda pensando sobre Paris. — Olhei para trás e vi Filippo.
— Apenas com muitas coisas na cabeça, acabei pensando alto. — Vi ele se aproximar e também acender um cigarro.
— As coisas estão se complicando, %Matteo%.
— Como assim? — Olhei para ele com o cenho franzido.
— Enquanto estávamos fora, os Delantera atacaram uma das nossas cargas ao leste.
— Você tá de sacanagem! — Amassei o cigarro no cinzeiro antes de levantar e caminhar para dentro de casa. Fui até a biblioteca e comecei a mexer nos documentos do computador, segundos depois, Filippo entrou. — Qual foi a carga, Filippo? — Vi o pomo de adão do meu capitão subir e descer.
— Os produtos que a Beatrice precisa para o mês.
— Puta que pariu! — Joguei meu corpo na cadeira, abismado com aquilo. — Por que ninguém ligou para mim ou para o Otelo?
— Aconteceu ontem, Nero tentou entrar em contato com a gente, mas acho que estávamos voando.
— Sem sinal. — Respirei fundo e apertei meus olhos.
— Caralho! — Joguei a primeira coisa que estava à minha frente e o cinzeiro de vidro se espatifou em mil pedaços. — Fale com o capitão Mattia e peça para ele mandar seus homens para investigar isso. Barcelona está mais próximo do local.
Era inacreditável, tínhamos perdido o carregamento do mês e não tinha ninguém aqui para ordenar uma resolução por causa dos caprichos do meu pai. Eu precisava espairecer, então liguei para Ettore e Austin, os seguranças pessoais de %Pietra%, e eles disseram que ela ainda estava na boate. Que se fodesse, se ela achasse ruim ver a minha cara por lá, a gente brigaria, sem problemas.
Troquei de roupa e pedi para que Nero fosse de motorista dessa vez, entraria sozinho na
Fascino, beberia, veria algumas mulheres dançando, talvez comesse alguma para relaxar e voltaria para casa.
Entrei na boate cumprimentando os seguranças e fui até o balcão, pedi um drink para Vincenzo, que me atendeu solícito como sempre, mas aquela carinha de bom moço nunca me conquistou. Virei para o salão e vi Isabela dançando no pole dance, a mulher era boa no que fazia. Aproveitei o show enquanto bebia minha terceira dose de whisky, era disso que eu precisava: uma distração dos meus problemas. Nada se resolveria tão cedo, a investigação poderia levar dias, e ter esperança de achar a carga roubada era pura perda de tempo.
Virei mais uma vez pedindo que Pelegrini completasse meu copo, foi quando vi um sujeito que eu não conhecia recolhendo os copos do balcão. Uni as sobrancelhas e pensei que talvez eu não pudesse me lembrar dele, então só tinha um jeito de descobrir. Perguntei para o barman, que me contou a história. Era um homem que apareceu ali pedindo emprego, %Pietra% achou uma boa ideia colocar um desconhecido dentro da porra da boate onde ela já foi quase morta uma vez.
— Lá em cima… — ele disse meio incerto se deveria falar, virei a dose que ele tinha acabado de servir.
— Obrigado. — Levantei, desviei das pessoas andando naquela multidão, cumprimentei os dois soldados que ficavam no corredor que levava até a escada, e subi cada degrau pisando duro.
Onde diabos %Pietra% estava com a cabeça? Talvez não tenha sido o suficiente dois homens terem conseguido driblar a segurança e quase matá-la. Aquilo estava me dando nos nervos, ou ela era muito ingênua ou gostava de se colocar em perigo de graça! Abri a porta e vi os olhos verdes saltarem com o barulho, fechei a porta e a encarei irritado.
— O que tá acontecendo?! — Ela levantou no ímpeto.
—
Você tá acontecendo, %Pietra%. — Soltei o ar com força apontando para ela.
— Espera, você não tava viajando? — Ela me olhou confusa.
— Esperou eu sair do país para aceitar um estranho para trabalhar na sua boate? — falei, irritado.
— Ah, não, %Matteo%. — Ela revirou os olhos e olhou para o lado, em puro descaso. — Sério?
— Seríssimo, %Pietra%. Você quase foi morta… morta! — berrei. — Além de transar com o barman, colocou um estranho aqui dentro?
— O que o Vincenzo tem a ver com isso? — Ela cruzou os braços.
— Não gosto dele. — Ela revirou os olhos mais uma vez e eu dei passos até ela. — Pare de fazer pouco caso da sua segurança!
— Pouco caso? — Ela riu sem humor. — Você encheu minha boate de soldados, %Matteo%!
— Não quer dizer que esteja confortável com isso. — Ela bufou e eu trinquei os dentes.
— Não vou demitir porra nenhuma, %Matteo% — ela falou alto, com raiva e exalando o poder que tinha. — Quem manda nessa boate sou eu — disse baixo, com confiança.
— E quem manda na segurança da
famiglia sou eu! — Dei mais alguns passos e a olhei de cima, enquanto ela levantava o máximo de sua cabeça para me alcançar. Nem com os saltos que %Pietra% usava ficávamos da mesma altura, porém ainda perto o suficiente para que eu sentisse o hálito quente dela em meu rosto.
Ela empurrou a cadeira com o pé e puxou a famosa pistola que meu pai tinha dado para ela de aniversário de 18 anos de baixo da mesa, colocando-a em cima da madeira.
— Estou segura, obrigada — disse, ainda me enfrentando; perto demais.
— Não foi capaz de atirar, do que adianta? — ditei as palavras bem próximo do seu rosto.
Eu estava irritado com tudo que aconteceu. A viagem, o casamento, o jeito que meu pai me tratou em Paris, a carga roubada… como se já não bastasse tudo isso, %Pietra% precisava continuar se colocando em perigo e me deixando ainda mais puto.
— Agora eu farei se for preciso.
— Você me tira do sério… — Respirei fundo e fechei os olhos, espalmando a mesa dela.
— É simples. Não se meta no que não deve.
— Ande com essa merda na cintura — ordenei e dei as costas para ela para me retirar dali, meu corpo estava esquentando de um jeito que eu não queria externalizar.
— Não está falando com seus soldados, %Matteo%.
— Não, não estou, %Pietra%! — Voltei apressado, dessa vez nossos narizes quase encostaram quando cheguei até ela, que arregalou os olhos pela aproximação repentina. Minha voz soou baixa, rouca, quase como se não quisesse sair por conta da raiva que me possuía, agarrei seu braço e a balancei levemente. — Seria mais fácil com eles, meus soldados me obedecem, ao contrário de você.
Nossos olhos estavam conectados por uma raiva insana, que irradiava dos nossos corpos de maneira palpável, sem deixar que nenhum de nós dois cedesse nem vacilasse, fosse mentalmente ou fisicamente. Eu consegui ver nos olhos verdes esmeraldas que algo cada vez mais crescia dentro dela, algo que nenhuma de nós tinha a explicação naquele momento.
— Merda! — ela xingou alto, irritada, se rendendo a aquilo que nós dois estávamos lutando contra.
Senti seus lábios macios nos meus logo em seguida e levei um susto com o ato, porém, desci minhas mãos arrastadas até chegar em sua cintura. Seu corpo estava tão quente quanto o meu, e acreditava ser pelo mesmo motivo. O beijo de %Pietra% estava diferente do da primeira vez, ela reivindicou minha boca com posse. Sua língua deslizava pela minha de uma forma obscena, ao mesmo tempo que ela sugava meu lábio inferior antes de deixar uma mordida provocante. Sua mão me puxou pela nuca com vontade, como se implorasse para eu tocá-la mais, e eu não consegui pensar em mais nada.
Peguei-a pelas coxas e a coloquei em cima da mesa, derrubando o que tinha pela frente. Agarrei sua cintura e a trouxe para a ponta da mesa, colando minha pélvis na dela; puta merda. Acreditava nunca ter ficado tão duro do jeito que eu estava ali, com ela. %Pietra% gemeu abafado quando mordi seu pescoço, minha sanidade já tinha ido para o inferno, que era para onde cada vez mais eu e ela estávamos com passagem garantida.
Meu celular tocou alto no meu bolso.
— Porra! — xinguei, amaldiçoando até a quinta geração do filho da puta que estava me ligando naquele momento. Que pena que a geração nesse caso era a minha, e eu tinha a certeza que já estava amaldiçoado pelo jeito que %Pietra% me olhava. Atendi o telefone e falei: — Oi, pai. — Ela cobriu a boca com as duas mãos e arregalou os olhos, consegui ler a mente dela apenas pelos olhos verdes escuros, ainda exalando tesão e luxúria: nós estávamos fodidos.
[...]
Cheguei em casa com um misto de sensações, eu nem sequer sabia direito o que estava sentindo, minha mente estava embaralhada com tantas perguntas sem respostas. Meu pai tinha ligado para perguntar da carga roubada, claro, para isso ele engoliria o orgulho e falaria com seu primogênito, mesmo depois do terrorismo que ele fez comigo em Paris. Otelo disse que estaria de volta no dia seguinte, pareceu bem irritado, claro, até eu fiquei. Isso foi um golpe e tanto nos nossos negócios, eu queria acabar com os Delantera, de novo. Sentei na poltrona que ficava na varanda do meu quarto, e acendi um cigarro junto ao meu bom e velho companheiro: whisky.
Por mais que eu precisasse pensar no que fazer a respeito do que aconteceu com %Pietra%, eu tentava empurrar essa questão para um lugar obscuro da minha mente. Respirei fundo e olhei para o céu estrelado, sentia que cada vez mais a gente estava se entregando a algo inconcebível. Era para eu ver ela como minha irmã, por que eu não conseguia? A gente se odiava, sempre garanti que ela ficasse longe o suficiente de mim para não termos nenhum laço, nunca tivemos o amor fraternal, minha relação com ela era completamente diferente da que eu tinha com as minhas meias irmãs. Contudo, não deixava de ser completamente errado, e ao mesmo tempo, eu sentia que era tão certo.
— Porra! — xinguei para o silêncio da noite que me engolia devagar.
Bebi o suficiente para apagar, acordei no dia seguinte com a maior dor de cabeça e não vamos esquecer da ressaca moral, que nem sequer poderia colocar a culpa na bebida, quase transei com a %Pietra% e apesar das doses que bebi no bar estava sóbrio. Levantei devagar, com os olhos ainda fechados massageando minha cabeça, que parecia pesar toneladas. Tomei um banho gelado, olhei no relógio constatando que eram quase 13 horas da tarde. Desci, passei pela mesa do almoço que já estava posta, e fui até a cozinha tomar uma aspirina, seria isso e comer muito carboidrato no almoço para curar minha ressaca. A moral nem tanto, ainda teria que olhar aqueles olhos verdes bem em frente a mim.
Voltei à sala de jantar, Beatrice e Giu já estavam sentadas à mesa conversando baixo, ou seja, fofocando sobre alguma coisa. Sentei no meu lugar e aguardei, Luna foi a primeira a aparecer e nem notei que fiquei mais ansioso à medida que os minutos passavam, ou seriam segundos? Eu estava nervoso, tinha saído da boate na noite anterior dizendo para %Pietra% que não esqueceria aquilo, seria impossível ignorar pela segunda vez, precisávamos fazer algo a respeito; seja lá o que fosse aquilo. Ouvi barulho de saltos e olhei para frente vendo a última pessoa que faltava naquela mesa.
— Boa tarde. — %Pietra% sorriu sem olhar para ninguém, estava apenas sendo simpática, era perceptível. — Não precisavam me esperar. — Ela olhou para o empregado à nossa direita e falou: — Pode servir.
— Sim, senhorita Perroni. — O único lugar onde %Pietra% era chamada por Perroni era debaixo daquele teto, e ele a chamar assim me fez encará-la de forma culpada. Ela percebeu em meu semblante o que eu pensava, tinha certeza disso, tanto que apenas desviou seus olhos para seu prato, parecendo tão culpada quanto eu.
Começamos a comer, eu e %Pietra% em absoluto silêncio, enquanto as meninas conversavam e riam vez ou outra. Elas sempre foram assim, e eu gostava da companhia delas, nunca achei ruim uma família com mais mulheres do que homens, apesar de a casa ter soldados por todos os lados. Era bom ter um ar feminino, uma aura que trazia cor e leveza para a casa, que era palco de tantas atrocidades. Eram tantas coisas erradas naquela família que eu chegava a relevar o fato de estar desejando a mulher com a qual dividia metade do sangue.
— Boa tarde, meus filhos. — Olhei para frente e arregalei os olhos.
— Papai, finalmente voltou — Giulia falou e olhou para trás, estranhando a segunda presença na sala.
%Pietra% olhou para mim e estranhou minha expressão, seu rosto se contraiu e ela virou para trás.
— Essa é a Carolyn, futura noiva do irmão de vocês.
Otelo sorriu confiante e eu levantei de supetão, fazendo a cadeira arrastar no chão de mármore, atraindo a atenção de todos para mim. Eu não estava acreditando que ele iria seguir com aquilo, porra! Olhei para %Pietra%, que me olhou sem entender uma vírgula do que estava acontecendo. Ninguém estava. Fechei as mãos em punhos e respirei fundo.
— Carolyn, me desculpe. — Olhei para a moça que, coitada, não tinha nada a ver com as loucuras de dois velhos gagas. — Pai, não vou me casar. Nem com a Carolyn, nem com ninguém.
— %Matteo%, já conversamos sobre isso…
— Sim, conversamos — senti meu estômago embrulhado e meu coração batendo na garganta de tanta raiva que eu sentia —, e achei que tinha deixado bem claro que não concordava com esse insulto. — Era insuportável se sentir incapaz, era assim quando você tinha que seguir ordens sem poder refutar, mas dessa vez eu não aceitaria de bom grado.
— Veja bem, %Matteo%, não faça cena na frente da moça. — Eu vi que meu pai tentava segurar sua raiva, ele sempre tentava ser pacífico em frente as garotas.
— Deveria ter pensado nisso antes de trazê-la. — Saí pisando duro da sala de jantar, caso não saísse, era capaz de fazer uma besteira.
Andei de um lado para o outro no
deck da piscina, acendi um cigarro e passei a mão no cabelo, nervoso, enquanto tragava a fumaça. Como era possível, eu sabia, eu sentia que em algum momento a cobrança viria de uma forma mais incisiva, mas nunca imaginei nada disso. Empurrar uma mulher para mim já era demais, fiquei ainda mais preocupado em como Carolyn era pressionada pelo seu pai, de como foi fácil para ele vender a própria filha para um Don.
— %Matteo%… — Virei dando de cara com Beatrice andando a passos rápidos em minha direção. — O que merda tá acontecendo? Você engravidou a mulher?
—
Sei fottutamente pazzo? — Única explicação para o nosso pai querer te casar com uma completa desconhecida. — Ela foi subindo o tom de voz à medida que dizia as palavras.
— Ela é filha do Samuel Pinder, Beatrice, não seja ingênua. — Aquele homem era dono de metade de Paris, e é claro que meu pai sempre queria expandir os negócios. O que eu não achava errado, mas não no meio de uma guerra com nossos inimigos.
— Vai à merda, eu não sou ingênua, estou tentando entender o que tá rolando!
— Nosso pai é um Don e acha que a gente vive no tempo que era normal pagar um dote por uma mulher ou que casamentos eram arranjados, maninha, é isso que tá rolando!
— Ele tem quatro filhas em casa e tá fazendo isso? — A ruiva se irritou ainda mais e eu jurei que ela socaria o primeiro que cruzasse seu caminho. — Papai vai ter que se explicar…
— Não cutuca a onça com vara curta, Bee. — Dei o último trago no cigarro e joguei no chão, amassando a bituca com o pé. — Eu vou resolver isso.
Entrei em casa e perguntei para Giulia onde Otelo estava, então fui até a biblioteca, onde ela disse que ele estaria. Assim que entrei, fechei a porta e dei alguns passos até a mesa de madeira, ficando em frente ao meu pai. Ele tirou os olhos do papel e encostou as costas na cadeira, olhando para mim de forma impaciente. Eu precisava ir com cautela, tinha que manter a calma e conversar como dois adultos, se meu pai conseguisse pensar com a razão.
— Eu sei, eu insisti demais nisso. — Uni as sobrancelhas ouvindo aquilo, o jeito manso de Otelo falar, de como ele mudou seu discurso da água para o vinho. Tinha algo errado. — Só peço que se esforce em conhecê-la, quando a conheci achei que combinaria com você, filho.
— Precisou achar alguém em outro país?
— Não fui com esse intuito para lá, se é isso que está pensando. — Ele levantou e deu a volta na mesa, aproximando-se de mim e colocando a mão em meu ombro. — Estou pensando no seu futuro, olhe o que aconteceu comigo, %Matteo%. Fiquei infértil de repente, não quero que perca algo que nem sequer foi capaz de ter. — Fechei os olhos e entendi onde doía em meu pai, ele queria ter vários filhos e não pôde, ele amava cada um de nós, disso eu tinha certeza.
— Prometo me esforçar em conhecê-la, mas não force nada, foi extremamente desconfortável aquele jantar.
— Desculpe por aquilo, fiquei animado com a ideia.
— Tudo isso não foi só desrespeitoso comigo ou com Carolyn, foi com as suas filhas também, pai. — Ele me olhou sem entender. — Imagine que elas estão pensando que você faria o mesmo que o pai de Carolyn fez com ela.
— Jamais faria isso com suas irmãs. — Ele se afastou, chocado com a possibilidade.
— Então é melhor se desculpar com elas.