Capítulo 7
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Algumas semanas atrás
%Matteo% Perroni
Giulia tinha conseguido finalmente identificar o maldito que esfaqueou %Pietra%, eu estava com o sangue fervilhando para achar esse puto e acabar com a raça dele. No entanto, não seria tão fácil assim, eu sabia, o verme deveria estar se escondendo depois do que aconteceu na Fascino, mas eu era muito paciente quando precisava, mandei os meus melhores soldados para caçá-lo e tinha certeza que o achariam.
Levantei da cama e coloquei minha roupa de treino, era o primeiro dia que eu e %Pietra% estaríamos juntos, no mesmo ambiente, trabalhando em um só objetivo: manter ela segura. Desci a escada, caminhei até a cozinha e a vi tomando café sentada na banqueta da ilha.
Passei pela bancada e me servi de café, peguei um prato com ovos e bacon que já estavam me esperando, não sabia se ela tinha pedido para a Marta preparar ou se já fazia parte da percepção da nossa cozinheira. Comi em pé mesmo, em um silêncio ensurdecedor, %Pietra% mexia no celular dela freneticamente. Eu sabia que faziam algumas semanas que ela estava longe da boate e deveria ser bem frustrante, a Fascino era a vida dela.
— Está pronta? — perguntei e os olhos verdes me encararam por segundos, antes de ela assentir e levantar. Minha boca entreabriu quando ela caminhou para fora da cozinha, %Pietra% usava um short de malha curto e um top. — Eu vou para o inferno… — Soltei o ar com força e murchei os ombros antes de fazer o mesmo caminho que ela até nossa academia. — Vamos começar com o básico, acredito que se lembra. — Ela me olhou com os braços cruzados e uma cara de tédio, como se eu estivesse falando besteiras.
Avancei para cima dela sem aviso, desferindo um soco, ela desviou e armou a guarda. Pelo menos os reflexos estavam bons, mas isso eu já sabia, caso contrário, ela teria saído pior do que saiu da luta com aqueles dois. Ela me olhou com atenção, os pulsos na altura do rosto, entretanto, a base das pernas não estava muito bem montada, então dei uma rasteira e ela caiu no chão, soltando um gemido de dor.
— Achei que sabia tudo… — Parei ao lado dela, olhando-a de cima. %Pietra% olhou para mim com raiva, apoiou-se nas mãos, girou o corpo e enfiou as duas pernas entre as minhas canelas, derrubando-me também, fazendo eu soltar uma lufada de ar. — Ok, não está tão ruim assim…
— Não duvide da minha capacidade, %Matteo%. — Ela levantou do chão e me olhou de cima, tive que virar o rosto para vê-la, já que caí com o peito para baixo. — Quando quiser treinar sério, avisa. — Ela saiu da academia pisando duro.
Eu não estava tentando menosprezar a sabedoria ou o treino dela, mas entendia o motivo de ela entender como se eu estivesse a provocando, nossa relação era assim afinal. Respirei fundo e levantei, teria que melhorar nossa comunicação e convivência, prometi a mim mesmo que isso iria mudar e seríamos próximos depois do ataque, mesmo que em troca eu recebesse apenas o desprezo e nojo dela por perceber que eu era um monstro.
[...]
Nossos treinos melhoraram com o passar do tempo, eu comecei a perguntar a ela o que estava em falta na sua luta corpo a corpo e isso ajudou na nossa comunicação, apesar das farpas ainda existirem. Eu estava de acordo em manter uma distância segura na nossa relação, mesmo que esse acordo fosse feito de forma silenciosa.
— %Matteo%! De novo? — %Pietra% me deu a mão para eu levantar, eu estava especialmente aéreo naquele dia. Meus soldados tinham conseguido uma pista e estavam perseguindo o desgraçado que invadiu a Fascino, eu estava o tempo todo olhando para o meu celular em cima da mesa de canto, esperando notícia. — Você está desligado hoje… Aconteceu alguma coisa?
Ela caminhou até o frigobar e pegou uma garrafa de água. Meus olhos acompanharam toda sua movimentação, mas senti minha garganta secar de repente, quando ela deu um gole e uma gota escapou pelo canto de seus lábios, descendo pelo maxilar, escorregando pelo pescoço e sumindo pelo vale dos seios.
Ma che cazzo! (Que porra é essa!) Desviei os olhos para qualquer lugar e os fechei, me repreendendo mentalmente. Eu precisava parar de olhar para ela dessa forma, uma péssima ideia ter falado em treiná-la, eu era um filho da puta.
— Ouviu o que eu disse? — Ela virou para me encarar e eu virei de costas o mais rápido que pude. — O que deu em você, hein?
— Nada, só lembrei que preciso encontrar um dos nossos associados em 1 hora. — Peguei meu celular e saí dali o mais rápido possível. Subi a escada, entrei no meu quarto e tranquei a porta. Suspirei aliviado, quer dizer… nem tanto assim, olhei para baixo e vi minha ereção. — Porra.
Dias se passaram e não tinha uma manhã em que eu não desejasse %Pietra%. O que eu estava fazendo? Passei anos conseguindo evitar a tentação do diabo, porém, parecia que tinha caído exatamente onde ele queria.
Entrei na academia mais cedo naquele dia, não consegui dormir direito depois de ter que matar um dos Delantera na madrugada. Coloquei minhas luvas de boxe e comecei a bater no boneco que estava ali apenas para isso, ser saco de pancadas.
O trabalho na
Vincere era difícil, algumas coisas me consumiam e eu tinha que guardar para mim, era complicado. Parecia confortável matar a sangue frio na frente dos meus soldados, eu era o grande herói deles, todos queriam aprender as minhas técnicas de tortura e fazer de forma ágil tudo aquilo. A verdade era que fingir que nada me afligia era fácil, os sentimentos humanos eram fáceis de mascarar, pelo menos para mim. Tirei a camiseta, eu já estava pingando de suor, sequei um pouco meu rosto e a joguei no canto da sala.
Respirei fundo e continuei socando e chutando o pobre boneco, toda a minha raiva estava sendo descontada ali. Minha boca estava seca, eu já sentia que iria tossir a qualquer momento pela garganta estar do mesmo jeito. Virei para ir até o frigobar e vi %Pietra% parada, como se tivesse visto um fantasma, no arco da porta, o que me fez frear meus pés e olhá-la surpreso. Vi os olhos verdes descerem pelas minhas contas até meu short e subirem até os meus olhos, e quando ela percebeu ter sido pega por mim, suas bochechas ganharam tons de rosa.
Eu estava mesmo vendo aquilo?
— Bom dia… — Ela entrou e foi em direção à mesa, ficando de costas para mim.
Eu sorri em descrença indo em direção ao frigobar, ela sentia o mesmo que eu? Não, %Pietra% me odiava, não conseguíamos estar no mesmo ambiente sem discutir ou se alfinetar, era impossível. Pensar com a cabeça de baixo estava me fazendo ver coisas, porém, aquilo me colocou uma pulga atrás da orelha. Contudo, até chegar a festa de aniversário do meu pai, eu achava que tinha tudo sob controle; achava…
Eu aproveitava o início da festa do meu pai degustando minha dose dupla de whisky, quando vi %Pietra% descendo a escada principal da nossa casa. Virei o líquido âmbar e assisti ela pegar o champanhe, ela caminhou pelo salão cumprimentando aqueles abutres que a olhavam como um pedaço de carne, aquilo estava me irritando. Olhei para o barman e pedi outra dose de whisky, engolindo tudo assim que ele a colocou no balcão.
Voltei a olhar para o salão e foi nesse momento que vi um grupo de homens comendo-a com os olhos enquanto ela cruzava a pista de dança. Um deles olhou para ela, ajeitou-se e traçou seu caminho para alcançá-la, como se colocasse um alvo sobre sua cabeça. Fiquei ali parado, apenas vendo até onde aquilo ia dar, quando vi Simon, um dos empresários com uma lista longa o suficiente de assédios para ficar preso até seu último dia de vida, colocar a mão na cintura dela e ficar perto demais, minha mão fechou em punho. Dei alguns passos até eles e coloquei a mão na cintura de %Pietra%. Seria bom ele entender que se aproximar da filha do Don estava fora de cogitação.
— Achei que era a hora para a nossa dança… — Sorri para ela de uma forma que nem eu mesmo esperava. — Com licença, Simon. — Puxei %Pietra% pela cintura e a levei para o mais longe possível do homem. — Fazem alguns anos que você evita a dança dos primogênitos.
— Não se matem… — Beatrice piscou o olho direito ao passar por nós enquanto dançava com meu pai.
Voltei a encarar a indomável arredia e seus olhos não negavam que estava confusa com meu comportamento, mas apenas estava tentando ser um bom protetor e mantendo aqueles homens nojentos longe dela. Ao mesmo tempo, me corroía saber que acabei trazendo ela para perto de mim, eu não era tão diferente assim deles, se não fosse pior, pelo menos aqueles engomadinhos não sujavam as mãos de sangue. Afastei ela de mim segurando sua mão, apenas para poder admirá-la por completo, ela estava sexy para um caralho. Voltamos a unir nossos corpos frente a frente, fazia mesmo alguns anos que não ficávamos tão próximos de uma forma amigável.
— Parece estar aproveitando. — Eu nem mesmo tinha me dado conta de que eu acariciava as costas de %Pietra%, com cautela, como se sentisse cada toque de um jeito único, cada deslize da minha digital em sua pele e vi o quanto ela estava arrepiada. Aquilo me fez sorrir de forma involuntária, olhei o colo dela, que ostentava um colar com uma safira entre suas clavículas, o que me fez lembrar dela na porra daquela banheira, coberta com nada além de bolhas. — Está muito bonita,
cariño. — Eu podia ter parado aí, mas não, meu cérebro parecia ter dado defeito ou era a quantidade de álcool que eu tinha ingerido. — Arrisco a dizer que está mais sexy do que quando te vi em meio às bolhas na banheira.
Seus olhos arregalaram e encararam os meus com fixação, e por um breve momento senti a tensão entre nós ficar palpável, minha mão na cintura dela a puxou para mais perto como num reflexo. E quando seus olhos desceram para a minha boca, os meus foram direto para a dela, que estava sendo molhada pela ponta de sua língua.
Filha da puta, ela sabia o que estava fazendo comigo?
— Preciso falar com a Lu… — Ela saiu quase correndo dos meus braços, então pigarreei arrumando meu smoking e olhei para os lados, parecendo alguém suspeito e eu nem sabia exatamente do que.
— Presta atenção em mim antes que pareça ainda mais culpado, %Matteo%. — Fui pego de surpresa por Giulia me puxando para dançar.
— Corta a enrolação, eu sei, ok? — Engoli em seco e meu coração disparou pensando no que exatamente ela sabia. — Exatamente isso que você está pensando. — Preferi ficar em silêncio naquele momento, se fosse a respeito de %Pietra%, contava com a descrição da minha irmã. — %Pietra% estava em apuros e você foi ser o benfeitor. Tá querendo ganhar pontos depois de tudo?
— O que posso dizer? — Dei de ombros pensando no quão aliviado eu estava. — Estou querendo manter a paz.
— Tenta convencer outro, %Matteo%. — Ela revirou os olhos. — Vamos ao que interessa, dois homens e uma mulher tentaram burlar a segurança e entrar na festa. — Franzi o cenho. — Exatamente, estranho e ousado. Eles estão cada dia mais tomando decisões para desestabilizar o nosso pai, %Matteo%.
— Eles não vão querer Otelo descontrolado, maninha.
— Guillermo conhece o nosso pai, %Teo%, talvez seja exatamente isso que ele queira.
Se Giulia estivesse certa, o plano dele nos deixava ainda mais no escuro, tínhamos que descobrir o que esse homem estava planejando antes do nosso pai se irritar e tomar medidas drásticas.