Capítulo 30
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%Pietra% Perroni
— Acho tudo isso muito… — abaixei a cabeça para entrar na limusine logo depois de Beatrice — demais.
—
Sorellina, é uma nova era da Vincere, você e %Matteo% vão assumir juntos…
— E aparentemente devemos esperar que isso funcione — Giulia cortou a irmã enquanto entrava e se acomodava no banco da lateral do carro.
— A fé que você tem em mim é fantástica — falei revirando os olhos.
— O problema não é você, %Tita%, é a combinação explosiva — Giu continuou.
— Certo, podemos ir em silêncio até o destino, não é? Ótimo — Bea falou de maneira mandona enquanto se arrumava ao lado da esposa e eu agradeci, o silêncio cairia bem naquela noite extremamente tensa e ridícula.
Tinham algumas tradições que me irritavam na máfia, como essa, a passagem de cargo do
capo e do
sottocappo. Uma festa espalhafatosa para mostrar poder e dinheiro apenas para repassar o cargo de dono da porra toda. Claro que meu pai não abriria mão disso, ele adorava mostrar poder. Finalmente o carro parou em frente ao hotel
Palacio de Los Duques a porta foi aberta e eu vi a mão estendida para me ajudar a sair. Coloquei a perna para fora, deixando-a exposta já que meu vestido tinha uma fenda que ia quase até o meu quadril.
Peguei na mão misteriosa, e assim que saí do carro dei de cara com %Matteo%. Ele curvou o canto dos lábios e eu respirei devagar, tendo os olhos dele tão compenetrados nos meus. Era inegável que tinha algo ali, algo extremamente perigoso que nos rodeava toda vez que nos olhávamos o tempo suficiente para sentir meu coração bater mais forte contra meu peito. Pigarreei e me aprumei ao lado dele, não iria fazer cena na frente de toda aquela gente, então apenas forcei um sorriso.
— Posso te acompanhar? — perguntou, divertido.
A resposta dele foi apenas um sorriso contido, então caminhamos pela calçada da entrada de braços dados, cumprimentando todos os associados e soldados ali presentes. Sentia meu coração cada vez batendo mais forte no meu peito, era impressionante como ele conseguia mexer comigo apenas por estar caminhando ao meu lado. Entramos pelos portões pretos de ferro fundido, onde era a entrada do jardim interno e fomos recebidos pelos olhos atentos de Otelo, que já estava sentado à mesa principal. Respirei fundo pensando que eu precisava me conter ao máximo pra passar por aquela noite intacta,
por mais que eu tivesse deixado de sentir muita coisa, %Matteo% ainda me fazia sentir outras tantas. %Matteo% afastou a cadeira pra eu sentar, agradeci com um sorriso singelo e sentei na cadeira ao lado esquerdo do meu pai e %Matteo% sentou do outro lado dele. Minhas irmãs, Anita e Cristian vinham logo atrás e tomaram seus lugares junto a nós. Otelo levou o copo de whisky à boca e deu um generoso gole antes de chamar o garçom, pediu champanhe para as mulheres e whisky para os homens. Clássico. Suspirei audivelmente e Beatrice me olhou de canto de olho.
— Pelo menos tente parecer feliz — sussurrou Bea se aproximando de mim.
— Estaria feliz sem todo esse circo, Bea — sussurrei de volta.
— É seu dia, vai assumir como
sottocappo.
— E o
prossimo como
cappo,
sorella — falei com desgosto.
— Ainda não entendi por que vocês dois não se resolveram.
— Coisas demais para lidar e essa não é uma prioridade. — Olhei em direção a %Matteo% que estava conversando com Otelo, desviei os olhos e virei o restante do champanhe.
Por mais que fosse uma questão que sondava a minha mente a todo maldito tempo e eu tentava ao máximo manter afogada com álcool, não era com isso que eu precisava me preocupar no momento. Virei para trás e ao avistar quem eu queria, acenei chamando o garçom, pedi uma dose dupla de whisky e continuei olhando toda aquela gente ali esperando o pronunciamento do Don. Foi então que vi Giovanna e Vincenzo no bar e agradeci mentalmente por meus melhores amigos fazerem parte da máfia. Assim que o garçom depositou meu copo na mesa, eu o peguei pedindo licença e avisei que já voltava.
Dei longos passos pelo jardim todo iluminado e decorado para a festa, estava tudo muito bonito. O verde das árvores e o colorido das flores davam um charme quase italiano, talvez tenha sido por isso que meu pai tinha escolhido aquele hotel. Cheguei ao lado dos meus melhores amigos e sorri dando um gole em minha bebida em seguida.
— Está lindíssima, senhorita Perroni — falou Vince apoiando a mão em minha cintura e depositou um beijo em minha bochecha.
— Obrigada. — Sorri simpática e me afastei dando um abraço na minha amiga.
— Vestido vermelho, imponente… — comentou meu melhor amigo.
— Gosto da cor… — Beberiquei o whisky.
— Definitivamente é a sua cor — pontuou Giovanna e eu fiz uma careta fazendo ela revirar os olhos. Ela bem sabia do meu problema com o meu cabelo, que eu achava que ele chamava muita atenção e que eu não conseguia usar roupas coloridas por causa dele. — E esse pingente? É lindo.
— Foi meu pai que me deu de Natal. — Passei a mão pelas cobras envolvendo a peônia e sorri.
— Bela forma de dizer que você seria a subchefe da
famiglia — comentou Vincenzo.
— Talvez fosse isso… — constatei e ficamos conversando. Sabia que ir até eles me faria relaxar, era algo que só melhores amigos conseguem em momentos tensos. Não demorou muito para Ettore aparecer ao meu lado e me informar que meu pai pedia que eu voltasse à mesa.
Assim que sentei novamente em minha cadeira, ouvi o tilintar da faca na taça e levei meu olhar ao meu pai, tinha chegado a hora. Sentia meu coração acelerado, eu estava nervosa, claro, nunca tinha presenciado uma cerimônia de passagem de cargo e muito menos tinha sido parte importante dela. Otelo levantou e eu respirei fundo fechando os olhos, abri eles novamente quando senti uma mão apertando a minha e sorri ao ver que era de Beatrice.
— Como vocês bem sabem, estamos reunidos para a passagem de título, meu filho — Otelo colocou a mão no ombro de %Matteo% e eu engoli em seco — vai assumir como
capo e a minha filha — ele colocou a mão em meu ombro e eu sorri de leve — assumirá como
sottocapo da Vincere. Nas últimas semanas eles já têm feito um trabalho maravilhoso em minha ausência devido aos meus afazeres na Itália. Então, eu posso garantir aos senhores que a liderança da
famiglia está em ótimas mãos. — Todos aplaudiram sorridentes e então desviei os olhos por alguns segundos para olhar para %Matteo% que também olhava pra mim.
— Vai ficar tudo bem… — Ele mexeu apenas os lábios e me olhou com carinho. Eu senti aquele calor em meu peito e mesmo ficando incomodada por ele me conhecer e me ler tão bem, eu sentia que saber que poderia contar com ele fazia eu me sentir mais leve.
— Um brinde à nova era. — Otelo levantou o copo e todos o seguiram com as taças de champanhe que foram colocadas pelos garçons. — Vamos começar com o juramento…
Mal consegui terminar meu gole quando ouvi um tiro e em seguida gritos e mais tiros. olhei para os lados tentando achar de onde vinham ao mesmo tempo que abaixava atrás da mesa, meu pai abaixou e seus seguranças o levaram para um lugar seguro. Minhas irmãs correram junto aos seguranças delas e gritaram meu nome, mas antes que pudesse olhar em direção a elas, senti uma mão em meu pulso me puxando. %Matteo% me levava em direção à parte interna do hotel me cobrindo com o corpo dele, olhei para trás e vi nossos soldados trocarem tiros, quando paramos senti as mãos dele segurar meu rosto fazendo com que eu o olhasse.
— Você está bem? Está ferida? — Ele olhava para o meu corpo preocupado.
— Estou bem, mas… — ele largou meu rosto e tirou a arma do coldre, conferiu o pente e colocou de volta, engatilhando — o que está acontecendo?
— Alguém deu com a língua nos dentes, isso aconteceu. — Ele seguia olhando para o jardim, atento, eu estava encostada na parede, de costas para onde estávamos.
— %Matteo%! — Olhamos para o lado no corredor extenso e vimos Filippo. — O hotel está cercado de soldados, acredito que sejam os Delantera.
— Chame reforços, vamos acabar com esses filhos da puta!
— De novo… — Enrolei o cabelo em um coque e levantei a perna que ficava escondida pelo vestido e peguei minha pistola do meu coldre de coxa. Engatilhei e destravei a arma, respirei fundo e olhei para o meu primo. — Se você achar o Luca, ele é meu…
— Sim, senhorita Perroni.
—
Per l'amor di Dio, %Pietra%, solo %Pietra%! (Pelo amor de Deus, %Pietra%, apenas %Pietra%!). O som dos tiros começaram a se aproximar de nós, vi uns cruzarem por nós e outro arrancar um pedaço de reboco da parede em que eu estava encostada fazendo com que eu me encolhesse e levantasse meu braço pra me proteger dos estilhaços. Então nos olhamos assentindo e começamos a correr.
— Você é a subchefe agora, prima.
—
Al diavolo questo! (Para o inferno com isso!). — Depois vocês discutem sobre pronomes de tratamento, caralho! — disse %Matteo% irritado. — Vamos para cima, precisamos de uma visão do que está acontecendo.
— Cadê minhas irmãs, Filippo? — perguntei alarmada.
— Otelo e as garotas estão seguros na adega do subsolo e vocês deveriam ir para lá também. — Filippo passou por uma porta fazendo com que passássemos também e em seguida ele a fechou, trancando-a.
%Matteo% foi o primeiro a ver se não tinha alguém no quarto e então foi até a janela para olhar lá pra baixo. Por mais que fosse um pouco assustador, eu estava bem acompanhada e se fosse o caso, apertaria o gatilho sem pensar duas vezes. Para proteger a minha família eu faria qualquer coisa.
— E perder toda a ação? — Estávamos em um dos quartos do hotel, então fui atrás de uma tesoura e achei uma pequena em um kit de costura de emergência no banheiro.
— Você realmente adora se colocar em perigo, nunca assumiu, mas sempre provou ser verdade — disse %Matteo% com indignação.
Voltei até o quarto com a tesoura em mãos, larguei a arma em cima da cômoda e antes que eu pudesse dizer algo, o vidro da janela estilhaçou com o tiro que o acertou. Abaixei de imediato atrás da cômoda, Filippo e %Matteo% também abaixaram com as armas em punho. Meu primo seguia escrevendo algo no telefone e eu peguei a tesoura, cortei um furo no vestido, na altura dos joelhos, e puxei o resto do tecido para fazer ele ficar curto.
— O que está fazendo? — perguntou %Matteo% franzindo o cenho.
— Pano demais iria me atrapalhar. — Peguei a arma novamente e me coloquei em posição.
— Nossos homens estão vindo… — avisou meu primo.
— Pouca vigilância na enorme festa? — debochei.
— Tínhamos o suficiente para proteção e a quantidade ideal para não chamar atenção, porém, ninguém imaginou um ataque — comentou Filippo.
— O erro foi esse. — Revirei os olhos.
— Vocês deveriam ir para a adega — falou Filippo repreensivo.
— Não vou ficar escondida enquanto nossos soldados são dizimados! — falei irritada.
— Preciso concordar com ela — falou %Teo%.
A porta de repente foi arrombada, mas foi tempo suficiente para eu atirar duas vezes no peito do homem e %Matteo% atirar no segundo que estava atrás. Tínhamos perdido o esconderijo, precisávamos ganhar tempo para que os nossos homens chegassem e pudéssemos estar em vantagem. Saímos em disparada pelo corredor, atirando em tudo que se mexia e não era conhecido. Descemos a escada principal e muitos dos nossos estavam no chão, quando avistei Austin caído, encostado no balcão da recepção, eu perdi a compostura e corri até ele, me ajoelhando no chão.
— Estou, senhorita, foi só de raspão… — Ele sorriu tentando me mostrar que ficaria tudo bem, e ficaria, já que não tinha sido atingido em nenhum órgão ou artéria.
— Você vai ser segurança da
subchefe agora, não ache que vai se livrar da responsabilidade… — falei rindo para tirar o peso daquela situação.
— Será uma honra, senhorita %Pietra%.
— Cadê a %Pietra%? — Ouvi ao longe %Matteo% perguntando e olhei na direção dele, que estava próximo da janela, quando ia chamá-lo eu ouvi um barulho.
Virei o rosto para o outro lado rapidamente, um extintor estava rolando no chão e vi um dos inimigos vindo em minha direção pelo corredor que vinha do restaurante. Peguei minha arma no chão, mas não fui rápida o bastante e o assisti apertar o gatilho antes de mim. Tudo ficou em câmera lenta. Então era assim que acontecia quando você ia morrer? Tudo à sua volta parava? O som dos tiros parecia abafado e os batimentos do meu coração estavam em alto e bom som em meus tímpanos. Era assim que eu iria morrer, quando finalmente cheguei onde queria, minha vida terminaria e eu seria lembrada como a subchefe da
Vincere a morrer em sua própria festa de iniciação.
Seria patético, se não tivesse sido pra defender a
famiglia. Fechei os olhos e respirei fundo, se fosse pra ser assim, então eu iria em paz. Ouvi outro tiro e um estrondo, ao abrir os olhos vi %Matteo% caindo próximo a mim. Fiquei em choque, olhei pra frente e o inimigo que atirou já não estava mais em pé. Andei de joelhos rapidamente para ir até %Matteo% e fiquei sem acreditar, o tiro atingiu a lateral do seu tronco e estava saindo muito sangue.
— Não, não, não… — Meu mundo pareceu ruir naquele momento, mexi a cabeça em negativo sem parar e tentava apertar o ferimento para tentar conter o sangue. — Por que fez isso? — Meu estômago revirou e senti minha boca secar de nervosismo. — Por quê!? — gritei tomada pelo desespero.
Eu estava em pânico, até ali eu nunca tinha pensado que algum dia ele morreria, que algum dia eu o veria fragilizado ou muito menos que ele levaria um tiro por mim. %Matteo% era o forte, o durão e o que protegia a
famiglia. Fechei os olhos com força sentindo as lágrimas transbordarem. Ele me irritava profundamente na mesma medida em que eu o amava, eu sabia disso, principalmente ali, naquele momento. Olhei para os lados desesperada, mas Filippo estava longe e ocupado dando cobertura a outros soldados. Voltei a olhar para ele e o medo de perdê-lo era maior do que qualquer coisa. A angústia de não saber se ele sobreviveria por causa daquele tiro, que seria pra mim, era demais.
—
Prefiro que viva a sua vida do que eu viver a minha sem você. — Não! — gritei puxando-o para o meu colo. — Não ouse me deixar…
Sua mão veio lentamente em direção ao meu rosto e seu polegar captou uma lágrima, seu carinho me deixou atônita por finalmente perceber que eu queria mais dele, eu queria ele, queria tê-lo em minha vida todos os dias e perdi tanto tempo guardando esse rancor, essa raiva por causa de algo que nem estava sob o controle dele. Queria recuperar todos os meses, semanas e dias que eu deixei de aproveitar a sua companhia e o seu amor.
— Você… precisa decidir,
cariño. — Ele esboçou um sorrisinho arteiro como se o estado em que ele se encontrava não fosse desesperador.
— Pare de brincar em uma hora como essa! — exclamei irritada.
Estava mantendo o aperto no ferimento mesmo que minha esperança estivesse se esvaindo tão rápido quanto o sangue que deixava seu corpo.
— Sabia que o cérebro fica vivo durante 7 minutos após a morte para lembrar das melhores memórias? — As lágrimas seguiam deixando os meus olhos, era angustiante estar naquela situação, o homem que eu amava estava morrendo em meus braços e eu me sentia tão impotente. — Você, %Tita%… vai estar em quase todas elas.
— Você não vai morrer… — Vi seus olhos se fechando e meu desespero aumentou. — Não, por favor, não feche os olhos! %Matteo%! — Virei a cabeça ouvindo Filippo gritar com vários soldados nossos que entravam pela porta principal do hotel, dando ordens para exterminar todos que estavam nos atacando. — Filippo, chame uma ambulância! — berrei em aflição.
— %Pietra%… — Meu primo veio correndo até nós enquanto pegava o celular e discava o número. — Céus, continue pressionando!
— Não se esforce, vai ficar tudo bem — falei olhando para %Matteo% novamente.
— Talvez tenha que ser assim… — disse sonolento, abrindo levemente os olhos.
— Cala a boca, idiota, você vai ficar bem. — Eu tentava parar de chorar, mas era inútil. Seus olhos fecharam novamente e eu encostei a cabeça em seu peito. — Fica… por favor, fica…
Vi Filippo se afastar um pouco para poder dar as coordenadas para o hospital que obviamente era comandado por nós. Voltei a olhar para %Matteo% mordendo o meu lábio inferior com força e meu choro cada vez mais me tomava. Por que eu tinha que ficar alimentando tanto esse rancor? Eu deveria ser grata a tudo que ele fez por mim, todos os dias que ele dormiu no meu quarto, ser grata pelo Théo, pelo cuidado, pelas conversas e pela proteção.
%Matteo% sempre pensou em mim.
Abaixei a cabeça em direção ao seu rosto e encostei meus lábios nos dele sem me importar em sermos vistos, fechei os olhos aproveitando aquele contato que eu queria durante tanto tempo. Quis todos os dias que o meu amor por ele fosse maior que o meu rancor e me permitisse sentir ele em mim novamente, mas foi o amor dele que me salvou de morrer e que me fez perdoá-lo. Talvez a gente pudesse tentar fazer dar certo, por mais que a combinação fosse explosiva, como Giu disse. Eu me afastei um pouco e colei nossas testas, seus olhos se abriram devagar, olhando fundo nos meus e eu gostaria de poder me perder mais vezes dentro daqueles olhos soturnos.
— Poderia ter falado que eu só precisava tomar um tiro pra você me perdoar, teria feito antes.
— Idiota! — Beijei ele novamente sentindo as lágrimas salgadas entre nossos lábios, só me afastei, pois ouvi a sirene da ambulância e logo vi os paramédicos trazendo uma maca.
Eu mal tinha percebido, mas o barulho dos tiros já tinha parado há algum tempo e então me levantei, enquanto os enfermeiros o pegavam para colocar na maca, indiquei ao outro rapaz da ambulância, Austin do outro lado que também estava ferido e precisava de cuidados. Peguei minha arma e coloquei no coldre, vi meu primo caminhar até mim e então ele me abraçou forte.
— Vá com ele… — ele se afastou e olhou pra mim com carinho. — Está tudo sob controle por aqui. — Apenas balancei a cabeça e segui até a ambulância entrando atrás da maca onde %Matteo% estava e sentando no banco na lateral do carro, sem deixar de olhar para Filippo que me encorajava com um leve curvar de lábios.
A porta foi fechada e saímos em alta velocidade. Apoiei a cabeça em minhas mãos e suspirei, por mais que eu tivesse odiando tudo aquilo, aquela festa escandalosa e a cerimônia ultrapassada, eu entendia que era necessário. A
Vincere era uma máfia conhecida por toda a Europa graças a Otelo, mas era por causa dessa festa que eu não sabia se %Matteo% iria sobreviver. Senti sua mão acariciando meu pulso, levantei a cabeça e o olhei, me aproximando. Segurei sua mão e apertei, tentando passar apoio e o sentimento de que tudo ficaria bem. Ele largou minha mão e pegou no pingente pendurado em meu pescoço e sorriu, tirando a máscara de oxigênio.
— Está usando o presente que eu te dei… — Cheguei a prender a respiração ao abrir mais os olhos surpresa com aquela informação, nunca agradeci ao meu pai, no entanto, supus que tinha sido ele.
— Tente não se esforçar, senhor Perroni. — O enfermeiro voltou a colocar a máscara de oxigênio nele.
— Quem mais seria? — Ouvi ele falando abafado.
A ambulância parou e as portas foram abertas de supetão, os enfermeiros tiraram a maca e o levaram pra dentro com rapidez. Levei alguns segundos para voltar a mim e sair dali para acompanhá-lo até o interior do hospital. Um dos enfermeiros me informou que levariam ele para a cirurgia, precisavam remover a bala e que em breve eu poderia vê-lo. Apenas concordei e uma enfermeira perguntou se eu estava ferida, depois que eu disse que não, ela me levou para lavar as mãos e braços para tirar o sangue. Caminhei até a cafeteria do hospital, pedi um café e sentei em uma das cadeiras dali, eu estava anestesiada. Parecia que eu não sentia meu corpo, não sabia como reagir e nem o que eu estava sentindo.
%Matteo% estava machucado, um dos meus seguranças também, além dos vários soldados que perdemos. Que noite infernal. Meu celular começou a vibrar e então eu peguei ele, que também estava preso ao coldre em minha coxa, e o atendi.
—
Achou mesmo que eu iria apenas sumir? — Levantei da cadeira em um pulo olhando ao redor. —
Espero que tenha gostado do presente que deixei em sua festa, senhorita Perroni. — Seu cretino! — gritei atraindo olhares para mim, mas eu não estava ligando pra isso.
—
Tenho muitas ideias ainda para lembrá-los de que matar o meu pai foi a pior escolha que a Vincere poderia ter feito. — Eu vou te achar nem que seja no quinto dos infernos, está ouvindo? Eu vou te matar devagar, Luca… bem devagar.
—
Estou contando com isso… Fui apenas capaz de ouvir sua risada baixa antes do som da chamada sendo desligada. Respirei fundo e fechei os olhos tentando me conter, era muita ousadia me ligar pra dizer que foi ele que causou tudo isso. Se %Matteo% não sobrevivesse isso não seria apenas vingança, seria guerra.