Capítulo 27
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%Matteo% Perroni
— O responsável pela paciente %Pietra% Alonso, por favor, me acompanhe.
Caminhei até a enfermeira e ela me levou até o quarto onde %Pietra% estava, disse que o médico logo estaria ali para me explicar tudo. Então sentei na cadeira ao lado da cama e a vi ali, serena, dormindo. Peguei em sua mão e acariciei, fechei os olhos e abaixei a cabeça, pensava no quanto eu poderia ter evitado tudo aquilo. Eu não sabia exatamente o que fazer, se era melhor eu sumir da vida dela ou ficar ao seu lado, porém, sabia que essa decisão teria que ser dela.
— Boa noite, senhor Perroni. — Virei para trás e vi o médico.
— Boa noite, doutor Andrea. — O médico que sempre nos atendia no hospital em que mantínhamos o controle entrou pela porta.
— Senhor Perroni, a senhorita %Pietra% sofreu alguns arranhões, deslocou o ombro, mas isso já foi resolvido. Ela também bateu a cabeça, por isso perdeu a consciência, mas de acordo com os exames está tudo normal. — Ele virou uma folha da prancheta e continuou: — O que me preocupou foi a porcentagem de álcool no sangue dela.
— Está tudo bem com a cabeça dela, doutor?
— Sim, fizemos exames de imagem e não houve nenhum trauma significativo — ele falava calmamente. — Ela costuma beber muito?
%Pietra% costumava beber uma quantidade considerável de álcool, mas eu também, então não era algo tão relevante assim. Ainda por cima, estávamos no casamento e ela estava bebendo mais do que o normal devido a toda a situação.
— Estávamos no casamento da minha irmã, doutor.
— Entendi. — Ele anotou algo.
— Quanto tempo pra ela se recuperar?
— Ela precisa ficar em observação nessas primeiras 24 horas. É importante que quando ela acorde tenha alguém em quem ela confie ao lado dela, pois pode ser que as memórias estejam um pouco embaralhadas.
— Obrigado, doutor Andrea. Não sairei do lado dela.
— Qualquer dúvida, estou à disposição.
O médico saiu, deixando-me a sós com %Pietra%, eu nem sabia exatamente o que fazer, talvez agora o abismo entre nós tenha se criado novamente. Nossa família era complicada e todos nós fazíamos o melhor que podíamos, mas os segredos existiam mesmo entre nós, parecia fazer parte de nossas personalidades mesmo sendo tão diferentes. Senti meu celular vibrar no meu bolso e o peguei, vendo a mensagem do meu primo, ele estava na cafeteria do hospital me esperando.
Respirei fundo e fui até lá. Se fosse pra escutar sermão, que fosse logo.
Cheguei na lanchonete e vi ele sentado à uma mesa, assim que ele me olhou, apontou para a cadeira à sua frente. Caminhei até ele e sentei, vendo aquele café horroroso em um copo de papelão, mas talvez eu estivesse precisando disso. Sentei em silêncio e dei um longo gole na bebida quente, suspirei e me recostei na cadeira.
Levantei a cabeça devagar para olhar para o meu primo e disse:
— Bem, não foi nada grave. Ela deslocou o ombro, mas os médicos já resolveram.
— Ótimo. Ela vai precisar de você quando acordar.
— Não sei se ela vai me querer lá, Filippo. — Soltei o ar de maneira exausta.
— Uma hora ela vai entender que não foi escolha sua.
— Não vai ser assim tão simples. — Dei mais um gole em meu café.
— Não disse que seria simples, mas se você a ama, deveria tentar.
— Por favor, %Matteo% — ele me interrompeu e revirou os olhos —, eu e você sabemos que mesmo que vocês fossem de fato meio-irmãos isso não impediria.
— Claro que impediria, você está louco? — exclamei sussurrado.
— Impediu de vocês se apaixonarem? — disse como se fosse óbvio.
Engoli em seco e o olhei sem ter o que dizer, era visível em meu rosto que eu estava atordoado com aquela observação do meu primo. Nada impediria de nos amarmos, mas jamais ficaríamos juntos se tivéssemos uma ligação sanguínea.
— Eu vou voltar... — Levantei da cadeira devagar.
— Primo… — Olhei pra ele. — Seja forte e persistente, ambos conhecemos o gênio da %Pietra%, sabemos que vai ser difícil, mas ela precisa de você, agora, mais do que nunca.
Assenti e respirei fundo antes de dizer:
Entrei naquele quarto escuro e me sentei no sofá que tinha ali, suspirei olhando-a deitada ali, tão frágil. Poderia ter acontecido algo pior e eu não consigo deixar de trazer essa culpa pra dentro de mim. Era desesperador pensar em como seria dali pra frente, será que o melhor seria mesmo eu me mudar? Talvez a vida de %Pietra% fosse mais leve sem eu estar no mesmo ambiente que ela.
— Onde eu tô? — Não sabia quando eu tinha pegado no sono, mas acordei ouvindo a voz dela soar irritada.
Abri os olhos lentamente, me arrumei no sofá. Ela tinha acordado, então eu estiquei o braço pra acender o abajur ao meu lado apesar de que pela claridade já estava amanhecendo. Esperei para que ela se acostumasse com a nova luminosidade. Vi seus olhos verdes me medirem e olharem para o outro lado do quarto, ótimo, ela já demonstrava que não me queria ali.
— Percebi. — Ela se ajeitou na cama, gemendo baixo, acreditava que deveria estar dolorida.
— Você quer que eu pegue algo pra você? — Levantei, prontamente.
Talvez fosse mais difícil do que previa, ela nem sequer me olhava, e eu entendia, aceitaria o que viesse pela frente. Podia até ser minha culpa toda essa merda ter acontecido, inclusive a gente ter se apaixonado, fui eu que provoquei, eu que toquei e beijei. Passei muitos anos precisando enterrar aquele sentimento que eu já sabia que existia, afastá-la de mim, manter e alimentar seu ódio por mim,
porém, agora, não tinha nada que impedia. Nada me impedia de sentir, de demonstrar, de viver esse amor maluco que sempre existiu em mim e que também foi crescendo dentro dela nesses meses. Se ela me amava realmente, ela iria me perdoar em um momento ou outro, pelo menos assim eu esperava, então eu não iria desistir dela.
Não sem tentar todas as alternativas possíveis.
— Vamos focar em você, como você está? — comecei perguntando o óbvio.
Se ela não queria conversar agora, sem problemas, eu também poderia ignorar o elefante no meio do quarto.
— Ótimo, vou voltar a dormir então. — Sentei no sofá novamente e tirei o blazer.
— Eu não sei como pode dormir depois de tudo que aconteceu… depois de tudo que você fez, na verdade, deixou de fazer. — Ela riu, debochada, e eu suspirei.
— %Pietra%, não vou discutir com você.
— Não existe discussão quando tudo está claro, %Matteo%! — Ela gesticulava como podia, já que um dos seus braços estava com uma tipoia.
— Você vai querer me ouvir em algum momento pra entender?
— Não quero, obrigada. — Ela fechou a cara, emburrada.
Aquilo seria impossível. Se eu não falasse naquele momento, quando seria? O abismo iria aumentar cada vez mais entre nós, mais distantes do que antes e ela nunca entenderia ou me perdoaria. Não era o melhor momento, mas quando seria?
— Bom, você não pode ir a lugar nenhum, então você não tem muita escolha, não é? Terá que me ouvir. — Dei alguns passos até o pé da cama, ficando próximo dela, que manteve o cenho franzido. — Eu não sabia, como você supôs. Otelo me contou faz alguns dias e eu nem sequer conseguia olhar pra você.
— Você teve dias e nem ao menos teve a coragem de me falar a verdade. — Ela estava visivelmente magoada.
— Ele exigiu sigilo, %Pietra%, você esquece que o nosso pai não é só pai, ele é o Don e se não seguirmos as regras…
— Seu pai, aparentemente. — Vi que ela falou em um tom ácido, mesmo que fosse nítido que aquilo doía nela.
— Por favor, %Tita%… — Pressionei os olhos com o polegar e indicador antes de olhar para ela novamente e continuei: — Eu estava em agonia tentando entender o que era melhor, se você saber a verdade não iria piorar as coisas.
— Bom, definitivamente não ter me falado piorou bem mais, não é? — Ela apontou para si mesma mostrando o estado em que se encontrava.
— Você não tem ideia o quanto foi um inferno na minha mente — dei mais alguns passos falando de maneira firme e ela engoliu em seco —, o quanto eu odiava ter que sentar à mesma mesa que você e saber que eu estava mentindo pra mulher que eu amo. — Ela foi mudando de expressão, ela parecia ter ficado surpresa e seus olhos foram marejando, mas não me importei, eu falaria tudo. — Eu faria qualquer coisa pra te ver bem, mesmo que isso significasse omitir algo de você, mesmo que isso me consumisse e me levasse à insanidade. — Franzi o cenho abaixando o olhar e sacudi a cabeça em negativo. — É claro que não foi uma aventura e você sabe disso tanto quanto eu. — Respirei fundo, sentindo cada peso daquelas palavras na minha língua e voltei meus olhos a ela.
“Só que eu precisava te manter longe pra sustentar a mentira. Eu não sabia como você reagiria caso contasse, por mais que fosse minha vontade te falar, te beijar e dizer que tudo ficaria bem, tive medo de você entrar naquele escuro de novo e não sair mais… Tive medo de perder você mais uma vez e mesmo que perdesse a oportunidade de viver o amor que eu sinto por você por omitir que nada mais impede a gente, o que me consolaria era eu saber que você estava bem. Eu ainda estaria por perto para garantir que você estivesse bem…”
— %Matteo%… — ela soprou meu nome, claramente balançada com tudo que eu disse.
— Eu só espero que possa me perdoar um dia… — Resolvi me afastar e findar aquela conversa.
Tirei minha arma do coldre e coloquei em cima da mesa lateral. Percebi, de canto de olho, que %Pietra% analisava o que eu fazia de longe. Estava decidido em tentar dormir, então deitei no sofá, era o melhor a se fazer, não tinha mais nada que eu pudesse dizer que iria melhorar a situação.
— Eu vou pensar sobre tudo… — Sua voz baixa me fez voltar o olhar para ela. — Tá tudo muito confuso na minha cabeça, mas uma coisa é certa. — Vi ela molhar os lábios com a língua, antes de pressionar um contra o outro e continuar: — Eu não quero voltar para a mansão quando sair do hospital.
[...]
%Pietra% Perroni
Acordei sentindo meu corpo dolorido, por mais que tivesse acordado com o sol nascendo e recebido aquela avalanche de informação do %Matteo%, parecia que eu estava mais pesada e cansada. Talvez fosse o esforço mental que eu fiz pra tentar entender, tentar encaixar as peças de algo que eu nem sabia se precisava ser encaixado. Era claro como a luz do dia de que meu pai, quer dizer, Otelo, escondeu de mim uma parte importantíssima da minha vida.
No fundo, acho que sempre soube.
No fundo eu me sentia aquela garota perdida. Desde a adolescência eu buscava uma forma de me encaixar. Administrar a
Fascino foi algo que me trouxe um lugar, um sentimento de pertencimento, além das minhas irmãs, claro, sempre senti uma conexão com elas. Saber que elas não eram minhas irmãs era o que me deixava triste, mas nada apagaria o amor que eu sentia por elas. Eu queria estar com mais raiva, mas parecia que eu estava sendo complacente. Não conseguia entender como que meu pai fez aquilo comigo, era cruel demais esconder algo tão grave de alguém que você diz que ama, mas ao mesmo tempo, parecia que eu já tinha passado pelo choque quando Alessia me contou.
Também estava chateada e magoada por %Matteo% ter escondido isso de mim, por mais que ele tivesse razão, que uma ordem do Don você apenas acata, era a minha vida, eu tinha o direito de saber. No entanto, fazer parte da Máfia era ter o seu dia indo de 0 a 100 muito rápido, uma coisa com a qual eu estava acostumada. Talvez tivesse sido a terapia que me preparou para lidar com tudo isso, porém, também sinto que quebrou algo importante dentro de mim. Como se uma parte minha estivesse morrendo devagar desde quando matei a Carolyn.
— Chegamos. — A voz de %Matteo% me tirou dos pensamentos.
Olhei pela janela do carro e vi o prédio de cinco andares de arquitetura antiga. Era bonito, ficava em um bairro calmo que ainda possuía rua de paralelepípedo. Era em um lugar da cidade que quase nunca tinha ido, a parte mais histórica, porém residencial, de Madri.
Desci do carro e vi ele abrir o porta-malas para pegar uma bolsa que tinha algumas roupas minhas, depois ele ou umas das minhas irmãs me traria o resto das minhas coisas. Naquele momento, eu não queria voltar pra casa, se é que poderia chamar assim ainda.
Subimos as escadas. O lado ruim de prédio antigo era não ter elevador ou pelo menos não um que funcionasse.
— Pode ficar o tempo que quiser — %Matteo% falou ao abrir a porta e me deixar passar.
— Só estou aceitando ficar aqui porque, como você disse, Otelo pode ir atrás de mim na boate.
Ao contrário do que pensava, o interior do apartamento era bem moderno, com certeza ele tinha feito uma reforma. A entrada dava diretamente na cozinha, dois degraus abaixo para o lado esquerdo, uma sala de estar e uma porta para a pequena varanda. Caminhei mais um pouco e olhei para o lado direito. Depois da cozinha tinha uma porta dupla estilo celeiro que imaginei ser o quarto. Olhei para trás e vi %Matteo% pegando whisky no balcão da cozinha.
— Era aqui que trazia as vagabundas que você comia?
— Nunca levei mulher nenhuma para casa ou para os meus apartamentos.
— Até os piores têm escrúpulos, afinal. — Sorri soltando o ar pelo nariz.
— Mais tarde eu trago o Théo. — Ele virou a dose de whisky ignorando o que eu tinha falado e se serviu de mais. — Agora vou enfrentar meu pai, caso eu desapareça, já sabe… — Eu engoli em seco com a insinuação dele.
— Não seja exagerado, está falando isso para que eu tenha piedade de você…
— Não quero piedade, %Pietra%, quero compreensão… quando você estiver pronta pra dar.
— Você está sendo bem dramático…
Ele suspirou e bateu o copo contra o balcão.
— Quer me tratar mal? Quer jogar tudo que eu já fiz de ruim pra você na minha cara? Fique à vontade, %Pietra%, isso não vai me fazer arredar o pé. — Ele deu alguns passos em minha direção e eu cruzei o único braço que tinha disponível junto do outro que estava preso pela tipoia e soltei o ar pelo nariz. — Estou aqui porque eu quero, porque
eu te amo e você querendo ou não, nada — ele olhou fundo nos meus olhos e eu senti meu coração apertar —, nada vai mudar isso. Sinta-se em casa. — Ele jogou o chaveiro em cima da mesa ao meu lado, virou as costas e foi embora fechando a porta.
Mordi o lábio com força e as lágrimas deixaram meus olhos, apertei-os tentando fazer com que elas parassem de escorrer. Minha vontade era de gritar, minha vida estava virada de cabeça pra baixo mais uma vez e agora eu estava sem casa também. Peguei a pequena mala e arrastei junto comigo, coloquei em cima da cama e olhei o quarto bem arrumado. %Matteo% deveria ter mandado alguém limpar e arrumar tudo.
Olha onde eu estava, sozinha, em um apartamento que não era meu, com medo de enfrentar meus pesadelos e assustada demais para lidar com o homem que me criou. Virei o rosto dando de cara com meu reflexo em um espelho de chão, eu estava patética. Eu precisava parar de fazer todos se movimentarem por causa de mim, precisava agir como uma maldita Perroni. Até podia não ter o sangue de Otelo, mas cresci como se tivesse e nada apagava o meu treinamento.
Respirei fundo e passei as mãos de forma bruta nas minhas bochechas tirando as lágrimas que restavam ali. Era um ótimo momento para engolir tudo e transformar em algo que me movesse adiante, que me fizesse esquecer a minha parte frágil e agisse mais como a %Pietra% que eu fui criada pra ser. Trouxe o ar para os meus pulmões enquanto me aproximava do espelho, levantei o queixo e me encarei nos olhos. A partir dali eu seria mais como uma mafiosa digna de causar medo. Vi minha expressão mudando no reflexo e era essa %Pietra% que eu passei tanto tempo rejeitando.
Eu sabia dos lapsos de pensamentos que eu tinha no decorrer da minha vida, alguns que eu sufocava por querer manter os princípios idôneos. Se eu já tivesse assumido esse meu lado eu não teria ficado tão fragilizada, não teria ficado doente por ter matado aquela vagabunda. Agora eu entendia, eu deveria ter me tornado assim há muito tempo, aceitar o meu lado obscuro não era opção, era necessidade. Não importava que eu não fosse filha de sangue de Otelo, eu fui registrada e criada como tal e se agora não houvesse um lugar pra mim na Vincere, eu criaria um.
%Matteo% Perroni
Eu sabia o que ela estava fazendo, pois eu passei boa parte da minha vida fazendo isso. Ela quer me afastar pra não ter que lidar com a batalha interna que ela vai ter que travar, batalha essa que eu mesmo estava tendo que enfrentar. Era difícil entender que agora podíamos ficar juntos, mas ao mesmo tempo tudo estava bagunçado demais. Só conhecíamos o ódio e o desejo que tínhamos um pelo outro, amor era muito mais profundo que isso e entender até onde estávamos dispostos a ir pra lutar por ele era um mistério.
Entrei na mansão e tudo estava silencioso, subi a escada e assim que abri a porta do quarto de %Pietra%, vi Théo me olhar triste. Era incrível como ele sentia e sabia tudo que estava acontecendo. Assim que peguei a bolsa grande, Théo começou a me cheirar e me rondar.
— Calma, garotão, eu vou te levar pra ela.
Continuei juntando as coisas e vi o livro que estava na mesa de cabeceira dela e peguei também. Avistei a coleira e coloquei em Théo, saí andando com ele me seguindo pelo corredor, desci a escada e tentava pensar em algo para levar pra ela, mas nada me vinha à mente. Então peguei a chave do carro em cima da mesa do Hall para continuar meu caminho.
Quando dobrei a rua do meu apartamento vi três carros parados em frente ao prédio, meu pai sentado nos degraus fumando e eu bati a mão no volante amaldiçoando quem quer que fosse. Aquele era o único imóvel que eu tinha que meu pai não tinha conhecimento, ou eu achava que não tinha. Como fui ingênuo. Respirei fundo e estacionei o carro, desci batendo a porta e meu pai levantou assim que me viu. Parei em frente a ele e a mais 5 soldados diretos dele.
— Então por que não a levou para casa?
— Ela não quer voltar para a mansão.
— Não me importa, o lugar dela é em casa, leve-a. — Ele foi virar as costas para entrar no carro.
— Não posso levar ela a força, Otelo. — Ele voltou a me encarar com uma expressão neutra e essa era a que mais me deixava em pânico, deixava qualquer um na verdade.
— Vão. — Ele só fez sinal com a mão e três homens subiram me fazendo murchar, tudo tinha ido por água abaixo. — Achei que seria melhor você levar, mas já que não quer… Nós nos vemos em casa. — Engoli em seco e ele entrou em um dos carros que um dos soldados segurava a porta aberta.
Olhei em direção ao meu carro e Théo estava sentado no banco de trás me olhando através do parabrisa, de repente ele começou a latir e quando olhei para o lado, eu entendi. %Pietra% estava saindo de cabeça baixa, escoltada pelos soldados, e me olhou de baixo por segundos antes de desviar os olhos e entrar no carro da frente. Eu não tinha gostado nada do brilho que estava em seus olhos, aquele olhar eu não conhecia e nem muito menos entendia. Fiquei ali plantado, apenas olhando os carros irem embora, até sumirem das minhas vistas.
O que meu pai estava planejando?
Assim que cheguei em casa vi os carros dos capitães que respondiam diretamente ao meu pai enfileirados. Liberei Théo do banco de trás e ele correu para dentro da mansão, devia estar querendo achar %Pietra% a todo custo. Nem precisei entrar pela porta pra saber que os capitães tinham trazido todas para casa, mas assim que o fiz, minhas irmãs estavam ainda no hall de entrada conversando completamente perdidas com tudo aquilo.
— %Matteo%, finalmente! — Beatrice começou. — O que está acontecendo?
— Eu estava dormindo, morrendo de ressaca… — Luna reclamou.
— Se não tivesse ido pra boate depois de encher a cara no dia anterior ao casamento não estaria com tanta ressaca.
— Não venha com falso moralismo que ontem eu vi você usando cocaína! — Luna apontou o dedo na cara da irmã, que foi murchando.
— Eu estava na minha lua de mel, tem coisa pior do que ser tirada da cama com a Anita? — Ela fez bico.
— Silêncio — falei, sério. — Aguardem as ordens do Don.
— %Matteo%… — Olhei para o final do corredor e vi Filippo. — Escritório. — Acenei com a cabeça e fui andando para o que parecia ser a minha inquisição.
Minha cabeça estava uma merda, ao mesmo tempo que tudo passava por ela, também parecia um grande vazio. Eu não sabia o que esperar de tudo aquilo, meu pai era uma grande incógnita e essa era a pior característica dele. Eu odiava não saber o próximo passo, pois eu teria que ter reações espontâneas e nem sempre isso era uma boa ideia com Otelo. Entrei pela porta e a fechei atrás de mim, meu pai estava sentado em sua poltrona, fumando um charuto e com uma dose de whisky a sua frente em cima da mesa.
— Está preparado para falar o que tem que falar?
— Sim, você. — Ele puxou a fumaça e em seguida soltou. — É o
prossimo, você vai dar andamento na reunião da
famiglia hoje.Vai contar a suas irmãs que %Pietra% não é filha minha de sangue.
— Você não queria tanto que ela soubesse? Pois bem, agora ela sabe — ele me interrompeu. — Porte-se como o Don, pois em breve esse será o seu cargo.
—
Si, signore. — Abaixei a cabeça e obedeci. Pelo tom de voz e pela sua expressão, ele não queria nada além de obediência.
— Filippo, coloque suas primas na sala de jantar, quero resolver isso o quanto antes.
Talvez eu tivesse que assumir aquele lado que não sente, que não teme e que faz tudo calculado. Agradecia por %Pietra% já saber a verdade, pois se tivesse que falar pra ela nesse momento pela primeira vez, talvez eu não conseguisse. Ia ser difícil demais fazer aquilo, mas se meu pai queria me provar um ponto, de que ser Don é ter que falar mesmo quando você está querendo se fechar; mesmo que tudo que você queira é se enfiar em um quarto e nunca mais sair, você precisa enfrentar seja lá o que apareça, tudo bem, eu faria o que ele queria.
Meu pai se levantou e então saímos do escritório, entrei na sala de jantar e faltava apenas %Pietra%, que logo apareceu acompanhada do meu primo. Ela sentou em seu lugar de sempre, porém eu e meu pai estávamos de pé do outro lado da mesa. Vi %Pietra% me olhar como se já esperasse o que viria e aquela situação seria foda de engolir.
%Pietra% Alonso Perroni
Sentei na cadeira de costume e aguardei, eu não sabia o que Otelo pretendia, mas tinha uma ideia. Eu sentia uma raiva e um bolo no meu estômago se formando, era irritante ver %Matteo% tomando aquele lugar, pois eu sabia que em breve seria ele, seria a ele que eu responderia e acataria qualquer ordem. Se eu quisesse reivindicar meu lugar na família, mesmo não sendo parte dela, eu teria que ser mais forte do que tenho sido e agora eu entendia, tenho que ser mais como %Matteo% para o meu suposto pai me olhar como alguém digna de poder na
Vincere.
— %Matteo% precisa anunciar algo a vocês, minhas princesas. — Minhas irmãs olharam ansiosas para ele, que parecia receoso de falar.
— Não tem um jeito fácil de dizer isso, mas precisamos manter esse segredo em
famiglia. — Vi ele olhar pra mim de uma forma preocupada e por mais que agora eu soubesse que o amava, aquela proteção exagerada ainda me irritava. — %Pietra% não é filha legítima do Don.
Vi minhas irmãs arregalarem os olhos e suas bocas entreabrirem. Entendia o choque, afinal, essa revelação tinha quebrado o restinho que ainda existia da antiga %Pietra%. A partir dali eu trilharia um novo caminho. Fui criada para ser alguém forte, racional, impiedosa e destemida. Já passei por tanta merda que ter a certeza de que não sou filha legítima de Otelo me fez querer ainda mais provar que eu posso ser melhor que %Matteo%.
Sempre foi sobre isso, não foi? Disputa. Então agora eu provaria que mesmo sem o sangue de Otelo eu poderia ser melhor.
— Isso não pode ser verdade… — Beatrice foi a primeira a reagir. — %Pietra%, isso é uma brincadeira? — Ela olhou pra mim em desespero.
— Não é. — Otelo respondeu. — A sua mãe, Beatrice, já tinha %Pietra% quando peguei você e Alessia me implorou para que ficasse com ela, já que não tinha condições de criá-la.
Beatrice me olhou carinhosamente segurando minha mão. As três eram minhas irmãs, não importava pra mim se de sangue ou não, nada mudaria isso.
— Você escondeu isso durante todos esses anos? — Giulia perguntou e Otelo apenas assentiu.
— Papai, isso é horrível — Luna disse, chorosa.
— Mas nada apaga os anos, minha princesa — Otelo olhou diretamente para mim —, você segue sendo
mia figlia. — Poderia começar a me tratar como tal, então, Don Otelo — respondi, firme. — Como ter me contado desde o início que não sou sua filha, assim como contou para %Matteo%.
— Você não estava pronta.
— Pronta pra quê exatamente?
— Para carregar alguns fardos. Eles eram meus para carregar na solidão de ser o Don e, logo, serem passados para o
prossimo. Ri sem humor, balançando a cabeça em negativo antes de falar:
— Agora, graças a você, estou quebrada o suficiente para estar pronta pra qualquer fardo e vou provar… Nem que seja a última coisa que eu faça.
— %Pietra%… — Bea me olhou preocupada.
— Tem certeza que está? — Vi Otelo me olhar com altivez, um olhar que nunca tinha recebido antes. Apenas, balancei a cabeça em positivo com o queixo ereto. — Vá até o porão, depois conversamos. — Vi ele sentar na cadeira e %Matteo% olhou para ele de maneira exaltada, preocupado com o que ele tinha preparado, mas eu não mudaria minha decisão.
Por mais que estivesse sentindo minhas pernas amolecidas, levantei da cadeira e caminhei devagar até o corredor que levava ao porão, senti minhas mãos formigarem, meu maxilar tensionado, pressionando os dentes contra os outros e o nervosismo latente. Eu estava petrificada, mas eu ia pegar esse medo e transformar em raiva. Desci os degraus devagar, abri a porta e vi um homem amarrado em uma cadeira com um capuz cobrindo a sua cabeça. A luz era precária, apenas um pendente com uma luz amarela fraca, devia fazer parte das torturas.
Dei alguns passos para dentro do cômodo depois de soltar a fechadura, olhei para o lado e vi um balcão com algumas armas. Uma corda, um fio de nylon, um revólver, um machado, uma marreta e uma pistola semi automática que sempre foi minha preferida. Sorri ao constatar isso e fui em direção a ela tirando a tipóia do meu braço para poder pegá-la.
— Finalmente veio me matar, %Matteo%…
Travei com a mão no ar. Se fosse um inimigo ele não saberia nomes, quem era aquela pessoa? Peguei a pistola e a segurei junto ao corpo, voltei até a frente do homem e fiquei encarando aquele corpo, até então, sem rosto. Respirei fundo e estava decidindo se eu iria tirar o capuz ou não. Se meu pai quisesse que eu provasse algo matando uma pessoa, talvez fosse melhor nem saber quem era. Contudo, ele saber o nome de %Matteo% me deixou curiosa e, além disso, também me deixou confusa.
Quem seria a pessoa conhecida que meu pai queria que eu matasse?
Levantei a mão até a cabeça dele, respirei fundo e engoli o bolo de saliva que se formou em minha boca, eu estava ansiosa pra caralho, mas nada me pararia, não agora. Levantei o capuz vermelho e meus olhos arregalaram. Tamanho foi o choque que eu dei dois passos para trás.
— Sério que mandaram a princesinha pra isso?
— Nero… — Meu coração acelerou.
— Veio terminar o serviço para o seu futuro marido, %Tita%?
Ele me chamou pelo apelido e aquilo trazia uma proximidade que eu não queria, eu precisava me recompor, precisava manter aquilo longe do meu emocional. Então comecei a repassar na minha mente tudo que ele fez de ruim. Por causa dele Carolyn veio parar aqui, por causa dele eu matei ela, ele traiu %Matteo%, a mim e a
Vincere. Engatilhei a arma e eu estava pronta para acabar com aquilo de uma vez, se esse fosse o teste, eu passaria com louvor.
— Você está me confundindo com aquela vagabunda.
— O que houve? Está com ciúmes, docinho?
Dei dois passos, coloquei a perna esquerda ao lado da sua coxa direita e fiz o mesmo com a direita do outro lado sentando em seu colo.
Sua expressão foi de deboche para surpresa.
— Não esperava te encontrar aqui, só isso…
Levei minha mão até o colar bonito que ele sempre carregava, era uma cruz envolta por uma rosa vermelha. Passei os dedos no pingente e olhei em seus olhos que estavam em alerta.
Puxei seu cabelo, levando sua cabeça para trás e levei meus lábios até o seu ouvido:
— Te dando esperança… — Afastei-me, ainda segurando seu cabelo — Para então acabar com ela. — Encaixei o cano da arma na parte de baixo do seu maxilar e puxei o gatilho.
Soltei seu cabelo e sua cabeça continuou pendida para trás e então levantei, fiquei encarando o corpo sem vida, o sangue pingando no chão e aquele som aumentando cada vez mais. Veio a imagem de Carolyn morta em minha mente e pela primeira vez, eu não senti nada, nem mesmo remorso, e por Nero, o mesmo, nada. Se restava alguma dúvida, ali, naquele porão, sozinha com o homem que eu tinha acabado de matar, naquele momento, não restava mais.
A %Pietra% que conheciam tinha morrido. Encarei o colar em seu pescoço e o agarrei, puxando em seguida, arrebentando-o. Levantei até a altura dos meus olhos, encarando o pingente que eu vi durante muitos anos. Virei o corpo, abri a porta e comecei a subir os degraus. Cheguei na sala de jantar e todos estavam sentados esperando, levantei a mão e deixei o colar escorregar para cima da mesa. Levantei os olhos e vi Otelo sorrir satisfeito, enquanto %Matteo% parecia incrédulo que eu tinha matado alguém e seguia firme e forte, principalmente alguém que cresceu com a gente e para ele ter certeza, coloquei a pistola em cima da mesa também.
— Parece que temos a nossa
sottocapo.