Capítulo 26
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%Matteo% Perroni
Saber e não poder dizer me doía tanto, pois agora eu sabia que nada mais nos privava de ficar juntos e ela jamais saberia. Eu odiava ter que mentir pra ela, entretanto, não podia contar, não só porque meu pai havia pedido, mas também por lembrar o quanto ela ficou aterrorizada que aquilo fosse real. Eu não podia fazer isso, principalmente se a amava, vê-la feliz era mais importante do que ficarmos juntos.
Eu sentia muito, mas teria que ser assim.
O casamento de Beatrice era no dia seguinte e na última semana eu tentava a todo custo engolir tudo que meu pai me disse. Era informação demais para lidar em minha cabeça e era mais uma madrugada em claro naquela varanda. Por mais que eu tentasse, só conseguia dormir por algumas poucas horas, com ajuda de muita bebida, claro. Eu precisava estar bem, era o dia da minha irmã e eu precisava focar nisso.
Acordei depois de quase uma noite inteira em claro, era difícil sentir essa culpa, mas eu tentava me convencer de que era o certo a se fazer. Deixar %Pietra% no escuro nem era a melhor opção, porém, talvez fosse a única que não a deixaria infeliz. Desci a escada e vi o caos pela casa, pessoas desconhecidas andando por todos os lugares, carregando flores, comidas, bebidas e muitas outras coisas que não consegui identificar.
Peguei uma xícara de café na cozinha e caminhei até o jardim, peguei um cigarro do meu bolso e o acendi. Olhei para longe e vi %Pietra% sentada no chão de olhos fechados, o pulguento estava deitado com a cabeça na perna dela, apenas esperando. Era nítido o quanto os dois tinham uma conexão além do compreensível. Finalmente ela tinha saído daquela escuridão e sua vida aos poucos voltava ao normal. Sempre haveria sequelas, gatilhos, traumas, porém, o principal estava sendo recuperado: o brilho em seu olhar. Nada me deixava tão satisfeito quanto ter dado o Théo de presente pra ela, vê-la sorrindo e feliz não tinha preço.
Sorri com meus pensamentos.
— Está muito sorridente pro meu gosto. — Olhei para o lado vendo Giulia. — Está preparado pra casar nossa irmã?
— Estou preparado para vê-la feliz sendo quem ela é.
— Você está tão diferente…
— Sempre fui assim, Giu, a diferença era que eu não compartilhava meus pensamentos tão abertamente. — Voltei a olhar para %Pietra% e a vi levantar e começar a brincar com o cachorro dela. — Aconteceram muitas coisas, talvez algo tenha mudado realmente. — Voltei a encarar minha irmã e ela parecia tentar desmistificar o que tinha por trás do que eu falava. — Pare de me analisar. — Dei alguns passos até a mesa e apaguei o cigarro no cinzeiro.
— É muito divertido analisar vocês… — Ela riu divertido e eu reprovei sua fala com o olhar, fazendo com que ela virasse o rosto e voltasse para a porta de entrada. — O que eu vim dizer na verdade é que a Beatrice pediu para chamar você.
— No quarto dela… — falou já sumindo para dentro de casa.
Subi a escada e caminhei pelo corredor extenso até chegar no quarto de minha irmã, não sabia bem o que ela queria, mas pelo que eu conhecia dela, estava insegura. Bati na porta e logo recebi permissão para entrar, girei a maçaneta e então vi a ruiva sentada no chão, com várias joias em volta dela e mais quatro pares de sapatos brancos. Eu ri daquela cena, fechei a porta e dei alguns passos.
— No quesito moda feminina eu não sou tão bom, Bee.
— Nem eu seria louca de pedir ajuda a você.
— Não sou tão ruim assim também, vai… — Ela revirou os olhos e encostou na cama. — O que aconteceu?
— Será que não estou sendo egoísta, %Teo%?
— Eu tenho percebido a %Tita% estranha, eu sinto que ela não está bem… Me sinto mal de fazer uma festa com ela desse jeito.
— Beatrice, %Pietra% está feliz por você e ficaria chateada se você cancelasse tudo, principalmente por causa dela. — Sentei no chão ao lado de minha irmã e a abracei. — Não existe egoísmo no amor, Bee, você ama a Anita e finalmente tá assumindo a moça. — Eu ri com humor e ela me olhou de cara feia, fazendo eu rir ainda mais e ela me socar na costela. — Ai, quer que seu irmão esteja no hospital no seu casamento?
— Idiota! — Ela se afastou e me encarou com uma expressão de carinho. — Achei que nunca diria algo assim, mas cuide dela do jeito que tem feito nos últimos meses, por mais que tenha sido muito esquisito, tenho certeza que você foi importante pra recuperação dela.
Abracei minha irmã e curvei os lábios, dessa vez com menos felicidade do que gostaria. Sabia que por mais que eu tivesse ajudado a %Pietra%, também fui um dos causadores do seu sofrimento. Eu sabia que ela estava esquisita por minha causa, sabia que ela deveria ter percebido que não olho mais pra ela, além de estar mais recluso que o normal. Eu esperava que ela achasse que era porque decidimos manter distância pela nossa paixão desenfreada, mas o que eu esperava era que ela não percebesse que tinha muito mais que eu pretendia manter em segredo.
Por mais que me doesse todos os dias, até o dia da minha morte, se não doesse nela já valeria a pena o sacrifício.[...]
Tinha gente demais naquela capela. Eu ajeitei minha gravata e pigarreei quando vi %Pietra% de costas, em pé, dentro de um vestido de seda vinho, exatamente da cor do meu terno. Ela estava deslumbrante, tentei não olhar demais, porém, meus olhos sempre me traíam. Acordei do transe em que eu estava quando a cerimonialista me puxou pelo braço.
— Seu lugar é aqui com seu par — a mulher falou e seguiu caminho arrumando os outros casais.
Olhei para o lado e vi Giovanna, logo na frente estavam %Pietra% e Vincenzo, em seguida Luna com Leo e Giulia com Filippo. Estávamos todos em fila, aguardando a liberação para os casais de padrinhos entrarem antes das noivas fazerem sua entrada triunfal. A música começou e fizemos tudo o que a moça do cerimonial tinha falado minutos antes. Giovanna entrelaçou o braço no meu e caminhamos em direção ao altar até nos separarmos e ficarmos homens de um lado e mulheres do outro.
Primeiro veio Anita, sendo levada pelo seu irmão, Cristian, ela estava lindíssima e dava pra ver nos olhos de Cris o quanto ele estava feliz por ela. Assim que a música mudou, Beatrice entrou de braço dado com meu pai. Ela estava radiante e Otelo tentava disfarçar, mas era inútil, a carranca usual deu lugar a um sorriso no canto dos lábios. Sua primeira filha a se casar, era um marco importante na família. Não existia nada que meu pai desse mais importância do que a
famiglia.
%Pietra% Alonso Perroni
Era um dia de comemoração, de felicidade, então por que eu estava tão na merda? Não tinha outra palavra pra usar, eu estava mal, só de pensar que teria que ver %Matteo% todo lindo de terno se exibindo para as filhas dos nossos associados eu já ficava irritada. O que me deixava com raiva era o fato de me sentir assim, eu estava com ciúmes dele. Como era possível? Meu trauma tinha me deixado louca, só podia ser isso. Não, eu já tinha enlouquecido bem antes disso. Estava naquela banheira há umas duas horas, tentava melhorar meu humor e os meus pensamentos, que por mais que eu tentasse não pensar, sempre me levavam a ele.
Manter distância dentro da mansão era fácil, o problema era que no casamento da minha irmã seria impossível. Somos família, sentaríamos à mesma mesa, tiraríamos fotos juntos, isso tudo me manteria perto dele hoje e perceber isso me deixava em pânico. Saí da banheira nua e peguei a garrafa de champanhe dentro do balde de gelo e coloquei o restante na taça que estava em cima da bancada de mármore, bebendo em seguida. Levantei a cabeça e olhei meu reflexo, respirei fundo e tive pena de mim mesma, estava me sentindo patética. Além de tudo, sabia que precisava parar, senão chegaria na cerimônia bêbada.
A grande realidade era que a bebida me dava a coragem que faltava em muitas situações, essa era uma delas. Como esconder o que eu estava sentindo há tanto tempo e que estava me deixando angustiada e tomada por uma vontade enorme de mandar todos à merda e beijar aquele homem que eu já tinha odiado antes na mesma proporção? Era uma sensação muito esquisita amar alguém que você odiou por tantos anos.
Olhei para o meu reflexo no espelho novamente e tentei me convencer de que estava tudo bem, quando na verdade já fazia alguns meses que tudo estava um caos. Peguei a toalha para me enxugar, coloquei a calcinha e olhei o vestido vinho de madrinha pendurado no cabide. O vestido era lindo, todo de seda, costas nuas com apenas umas fitas para amarração e o decote soltinho. Peguei ele do cabide e o vesti, coloquei a sandália nude com brilhos nas tiras e fui até o quarto de Beatrice, onde eu e minhas irmãs tínhamos combinado de nos arrumar juntas com os cabeleireiros e maquiadores.
Entrei no quarto e vi elas rindo, conversando besteira e tudo girando em torno da nossa noivinha. Era o dia dela, eu tinha que apenas engolir tudo que eu estava sentindo e manter adormecido até o dia acabar. Sorri, fechei a porta e uma das empregadas me deu uma taça de champanhe, eu só conseguia pensar no quanto seria problemático negar uma taça naquele momento, então eu apenas peguei e agradeci.
— Chegou quem faltava! — Beatrice me abraçou de lado e me empurrou até próximo das minhas irmãs.
Mantive o sorriso no rosto.
— Vamos brindar a você, Bea! — Luna sorriu, animada, erguendo sua taça.
—
Auguri,
Sorellina.
(Felicidades, irmã.). — Sorri, dessa vez me sentindo mais feliz vendo o quanto Beatrice estava radiante.
Eu estava genuinamente feliz por ela.
[...]
Sentia o champanhe descer borbulhante pela minha garganta, tentava a todo custo disfarçar o quanto eu estava aos pedaços e nada melhor pra me ajudar nessa tarefa do que beber e dançar. Sentia a música reverberar dentro de mim, mantinha meus olhos fechados e aproveitava aquele momento em que eu consegui esquecer de tudo e apenas aproveitar a noite. Senti uma mão em meu pulso e abri os olhos, vendo Luna sorrindo pra mim, logo vi minhas duas outras irmãs ao nosso lado e elas também sorriram pra mim.
Olhei pra elas e agradeci por tê-las, por mais que eu não pudesse contar o quanto meu coração doía, só por elas existirem na minha vida, já fazia com que me sentisse um pouco melhor. Eu as amava, e eu queria tanto, de verdade, sentir esse mesmo amor por %Matteo%, mas infelizmente, o amor que sentia por ele não era nada fraternal. Abracei minhas irmãs, buscando ali um pouco de afago, mesmo elas não sabendo o motivo que eu precisava tanto desse abraço.
— Obrigada por serem minhas madrinhas — Bea falou.
— Obrigada por serem minhas irmãs — falei, sem pensar, apenas me apeguei àquilo que estava sentindo.
— Essa é novidade… — Giulia se afastou rindo. — O que deu em você?
— Deve ter bebido demais… — Luna deu risada.
— Bebida é pouco, cê tá drogada? — Beatrice, sem papas na língua como era, bêbada então.
— Tá louca, Beatrice? — Revirei os olhos.
— Para de ser puritana, um lisérgico de vez em quando é agradável — disse Beatrice, rindo.
— Vocês saem melhor que a encomenda… — disse, rindo com ela.
Um garçom parou entre nós e ofereceu as taças com champanhe, todas nós pegamos uma e brindamos novamente. Eu estava decidida a não beber nada muito forte, mas não adiantava nada não beber algo forte e me afogar em algo fraco. No entanto, só tinha essa saída, além de não olhar demais pras pessoas para não acabar vendo quem eu não queria, pois nesse estado, não saberia me controlar.
Cada dia que passava se tornava um tormento só de saber que estava embaixo do mesmo teto que ele. Respirei fundo e sentei na cadeira da mesa que tinha sido separada para as madrinhas. Cruzei as pernas e massageei minha panturrilha, horas de salto alto também servia de motivo para beber, pelo menos adormecia o corpo e ficava um pouco menos desgastante. Giulia sentou ao meu lado de repente e me encarou com aquele olhar analítico.
— Você não quer externalizar, tudo bem, eu entendo. — Franzi o cenho tentando entender onde ela queria chegar. — Vocês dois claramente se gostam, %Tita%, por que não tenta? — Arregalei os olhos. — Não adianta me olhar desse jeito, você acha mesmo que passam despercebidos?
— Giu, não tem o que tentar… — falei o óbvio franzindo o cenho indignada com as loucuras dela.
— Vocês são meio irmãos, %Tita%, não é como se fosse o maior incesto do mundo. — Giulia revirou os olhos. — Já tiveram casos piores na história da humanidade…
— Não diga bobagens, Giulia! — Minha voz saiu mais esganiçada do que deveria.
— Eu tô vendo e não tô gostando, vocês estão em sofrimento, cada vez mais se afundando… — Ela acariciou minha mão enquanto falava com preocupação.
— E iremos continuar até isso passar — ditei séria.
Engoli em seco e senti um amargor tomar conta da minha boca, mordi o lábio e desviei os olhos dos dela. Eu não queria pensar naquilo, todo o meu trabalho mental de manter isso no fundo da minha mente tinha ido para o espaço. Se Giulia tinha percebido, será que meu pai o tinha também?
— Madrinhas e padrinhos se juntem na pista de dança! — Anita e Beatrice falaram em conjunto no microfone.
Olhei para Giulia que apenas deu de ombros e levantou. As pessoas saíram da pista de dança para dar espaço para nós, levantei e respirei fundo, então vi uma mão à minha frente e olhei para cima, vendo Vincenzo sorrindo. Era bom tê-lo de volta, era bom tê-lo como melhor amigo e eu deveria contar pra ele e pra Giovana tudo que tem acontecido e tudo que tenho sentido, talvez isso me deixasse menos mal, mas eu simplesmente tinha medo, vergonha e talvez um pouco de receio.
Agarrei sua mão curvando os lábios e fomos para a pista de dança onde todos os padrinhos e madrinhas seguiam as noivas. Começamos a dançar e ele me encarava pensativo. Vince sempre foi na dele, observador como todo bom barman que ouvia tudo, porém, guardava as informações para si. Ele era extremamente inteligente, sagaz e com um humor leve e engraçado. Estar perto dele era um sinônimo de paz e tranquilidade, ele passava isso no modo que falava e que agia, era confortável.
— O que está acontecendo, %Tita%?
— Como assim? — Franzi o cenho, ele me girou e voltei a ficar frente a frente com ele.
— Sabe que não precisa mentir pra mim.
— Não tem sobre o que mentir, você não me perguntou nada — brinquei com ele que riu.
— Tem razão. Vou ser mais direto então… — Antes que ele pudesse falar algo, ele me girou e trocamos de casal, agora estava com Cristian.
— Está lindíssima, cunhada.
Dançamos mais um pouco e fui girada de volta para Vincenzo, que colocou os lábios próximos do meu ouvido e disse:
— Qual o nome do homem que está tirando seu sono e seu brilho nos olhos, %Tita%?
Afastei-me dele com os olhos arregalados, como diabos ele sabia disso? Podia até ser algum tipo de poder de barman que eu desconhecia, mas não, era apenas meu melhor amigo preocupado comigo. Ainda lembro quando gostei de um menino da escola e Vince foi o primeiro a notar que eu estava chateada por ter sido rejeitada. Eu podia até esconder bem as minhas emoções e decepções, mas nada passava batido por ele.
Quando vi Giovana se aproximando eu apenas girei, fugindo daquela conversa desconfortável e que eu não queria falar. Chega, chega de todos me cercando e me cobrando algum tipo de explicação. Nem sofrer em paz eu podia? Olhei para o meu par da vez e claro, o motivo do meu problema estava agarrando minha cintura e segurando a minha mão.
— Impressionante como sempre acabamos juntos.
%Matteo% Perroni
Depois de toda a cerimônia, os convidados se acomodaram nas mesas e cadeiras, a bebida começou a ser servida e todos se divertiam, até que chegou o momento. Os casais de padrinhos seguiram as noivas para abrir a pista de dança. Achava que era a primeira vez que eu me sentia tão nervoso por algo tão simples. A música começou e de tempos em tempos os casais trocavam, finalmente, depois de tantos dias, olhei nos olhos verdes mais uma vez, por mais que eu estivesse fugindo deles ultimamente, eu adorava olhar pra eles. Vi ela respirar fundo, coloquei minha mão em suas costas sentindo a pele dela queimar em minhas digitais.
Era impossível desviar meus olhos dos dela, porém, precisava disfarçar, afinal, todos estavam prestando atenção nos padrinhos e madrinhas. Mantive meu olhar em qualquer lugar que não fosse seu rosto, minha mão suava na dela, que não estava tão diferente assim da minha.
— Impressionante como sempre acabamos juntos. — Ela me encarava séria.
— Parece até destino — brinquei, queria tirar o peso que rondava a gente a cada minuto que passávamos tão próximos.
— Não acredito nessas coisas — vi seus olhos rolarem —, talvez se a gente tivesse vindo em famílias diferentes. — Cheguei a tremer apenas pelo comentário dela. — No fundo, no silêncio do meu quarto de madrugada, desejei isso algumas vezes. — Meus olhos ficaram estáticos olhando para os verdes dela, ela não podia falar isso pra mim, não agora, sabendo o que eu sei e da força que faço para me manter em silêncio. — Desculpe, não deveria falar isso. Estamos conseguindo resistir, até diria que estamos indo bem… — Estendi meu braço segurando sua mão para que ela fosse e voltasse rodopiando até encontrar meu corpo. — Devo ter tomado champanhe demais.
— Precisa beber com cautela, %Tita%…
— Todo mundo resolveu escolher o único dia que queria esquecer de tudo pra me lembrar do quanto minha vida está um caos? — ela me interrompeu, sua mão agarrou o meu ombro e estávamos frente a frente novamente.
— Estou te lembrando que ainda está em recuperação.
— Eu estou ótima, %Matteo%.
— Por que está tão arredia?
— Achei que tínhamos combinado de ficar longe e evitar os nossos costumeiros contatos…
— Não precisa voltar a me odiar pra podermos conviver.
— Antes fosse tão fácil assim, %Matteo%, eu só preciso beber porque algo tem que servir pra adormecer essa vontade de beijar sua boca.
A música acabou naquele momento, engoli em seco e fiquei estático com o que ela tinha falado. Aquilo não era uma coisa que ela diria e se já estava assim naquele momento, o que ela era capaz de falar pra alguém? Eu precisava fazê-la ficar sóbria de novo antes que algo que não devesse saísse da boca dela.
— Ok, chega, você bebeu demais — sussurrei.
— Não estou bêbada! — Ela bufou ao me empurrar.
Agarrei o pulso dela e a puxei para perto novamente e sussurrei:
— Não faça cena, %Pietra%.
— Não se atreva. — Ela puxou o pulso do meu aperto e saiu andando para longe.
Respirei fundo e quando olhei ao redor, Luna me encarava com uma interrogação em sua face. Giulia chegou ao meu lado e disse:
— Vá consertar seja lá qual foi a burrada que fez, %Matteo%.
— Por que você acha que a culpa é minha,
cazzo?
— Não! Nossa relação sempre foi complicada, mas resolvemos essa questão. — Giulia me encarou surpresa por eu ter estourado, porém, era impossível não sentir raiva naquele momento. — Chega de me colocar como culpado, espero que isso tenha acabado aqui.
Por mais que eu já estivesse irritado com essa coisa da Giulia sempre achar que eu fiz algo para %Pietra%, quem eu queria enganar? Eu estava preocupado com ela. Então saí em direção à porta do jardim, que foi por onde ela passou, no caminho peguei um copo de whisky da bandeja de algum garçom e virei garganta abaixo, deixando o copo em uma mesa qualquer. Cheguei ao lado de fora e olhei para os lados, passei os olhos pelo jardim e então vi a sua silhueta no meio do gramado, ela se abraçava e olhava para o céu. Caminhei devagar e assim que estava atrás dela, ouvi o choro baixo e fechei os olhos compartilhando a dor que ela sentia.
Estava se tornando difícil viver sob o mesmo teto.
— Quer que eu me mude daqui? — Ela virou de repente me encarando, sua expressão era de surpresa e confusão. — Não posso deixar que sofra dessa forma.
— Pare… pare de só olhar por mim. — Ela passou a mão pelo rosto tentando limpar as lágrimas e me encarava com raiva. — Não minta pra mim… — ela cutucou meu peito com o indicador — está tão em sofrimento quanto eu.
— Eu preciso agir assim, preciso proteger você.
— Por que, %Matteo%? Por que você acha que me deve algo? Pelos anos de ódio que tivemos um pelo outro ou porque você me maltratou durante a adolescência?
— Não é isso, %Pietra%… — Eu balancei a cabeça em negativo.
— Então me diga! — ela gritou em prantos. — Pare de esconder tudo aí dentro!
Era difícil vê-la daquela forma, mas ela estava bêbada, eu não iria discutir aquilo ali, não assim. Sóbria, ela tomou uma decisão há semanas e esse foi o posicionamento que escolhemos ter sobre como a nossa relação se seguiria. Eu precisava ser frio, por mais que a magoasse ainda mais.
— Alguém tem que pensar de forma racional, %Pietra%. — Talvez eu me arrependesse do que iria falar, mas eu sabia que ela estava fragilizada, já tínhamos decidido o que fazer e alguém tinha que agir feito um imbecil para nada sair do controle e esse alguém tinha que ser eu, afinal, eu já estava acostumado. — Temos que ignorar essa aventura que resolvemos viver.
— Aventura? — Ela riu sem humor enquanto lágrimas caíam de seus olhos e nem em uma tortura eu me sentiria tão mal quanto naquele momento. — Você é um
figlio de puttana! Eu te amo, seu idiota! Como você tem a coragem de me dizer isso?
Arregalei meus olhos e senti como se tivesse perdido o chão, aquele frio no estômago chegou com tanta força que eu sentia uma leve vontade de vomitar. Eu não tinha a mínima noção de que ela sentia o mesmo que eu. Óbvio que eu sabia que o desejo entre eu e ela era recíproco, mas amor era algo tão palpável. Ela realmente me amava? Então a dor que eu sentia era a mesma que a dela e viveríamos o resto de nossas vidas com essa pedra em nossos corações?
— Eu estou vivendo o pior dos meus dilemas… — Ela me puxou dos meus pensamentos. — Por um momento eu queria que a Alessia estivesse certa. — %Pietra% me olhou com uma angústia em seus olhos, o pedido mudo para alguém salvá-la do buraco em que estava se enfiando mais uma vez e dessa vez seria culpa minha.
Ela passou por mim e começou a andar para longe, mas assim que retomei o controle do meu corpo, eu corri atrás dela e segurei seu pulso, fazendo-a virar para mim.
— Me solta! — disse mais alto.
%Pietra% me olhou irritada e começou a me bater no peito. Seus socos pareciam mais um pedido de socorro e o meu lado racional lutava, trabalhando a todo custo tentando me convencer a não dizer o que minha emoção queria gritar, depois de ouvir a confissão dela, tudo que eu planejei foi por água abaixo.
Abraçá-la e dizer que tudo ficaria bem.
— Por favor… — Ela foi parando de me bater assim que escutou minha voz soar suplicante, e me olhou nos olhos. — Me diz que isso não é verdade… Que você queria que não fôssemos irmãos… — Ela mordeu o lábio e seus olhos brilhavam das lágrimas. — Diga, %Pietra%! — Sacudi ela tentando trazer bom senso para nós dois.
— Nunca amei ninguém como eu amo você.
Entreabri os lábios olhando para ela, eu estava incrédulo de que aquilo tinha saído de seus lábios.
— %Matteo%! — Olhei por cima da cabeça dela e vi Filippo. — O Don quer falar com você.
Eu simplesmente travei, eu não sabia o que fazer, estávamos tão perto e ao mesmo tempo tudo ao nosso redor dizia para ficarmos longe. Respirei fundo. E se eu apenas ignorasse tudo e a beijasse, e dissesse que eu a amo e que podemos ficar juntos? Ela me odiaria por dizer esse segredo pra ela?
— Papai precisa de você, %Matteo%.
— Eu preciso de você, %Tita%…
— Você não pode precisar de mim e nem eu de você, sempre soubemos disso. — Ela recolheu o braço, fazendo eu soltar seu pulso, abraçou seu próprio corpo e saiu andando, passando pelo nosso primo, sem nem mesmo o olhar, e entrou na mansão pela cozinha.
Passei a mão pelo cabelo, nervoso, respirei fundo e olhei para o lado tentando me acalmar para não cometer uma loucura. Dei alguns passos e acompanhei Filippo até o interior da mansão. Chegamos no escritório e não vi ninguém, virei para meu primo e já sabia onde aquilo ia dar, tudo que eu não precisava: um sermão. Dei alguns passos até a garrafa de whisky e servi meio copo. Filippo me encarava com uma carranca, esperei ele abrir a boca e ele parecia esperar eu ficar confortável, então sentei na cadeira do meu pai.
— Ótimo, sentou na cadeira que vai te fazer lembrar do seu lugar. — Ele cruzou os braços e me encarou, sério.
— Vai me dar lição de moral no casamento da Bea?
— Não fode, Filippo, eu tô na merda faz semanas… — Soltei o ar com força antes de dar um gole em meu copo.
— Eu não sei o que seu pai te disse aqui dentro, mas vejo o peso que colocou nos ombros.
— Caso queira saber, posso contar… — Dei de ombros enquanto dava outro gole na bebida.
— Você sabe que não pode…
— Esse fardo é pesado demais pra eu carregar sozinho. — Balancei a cabeça em negativo, queria arrancar aquela informação da minha cabeça.
— Não, você não imagina nada, Filippo! — Bati o copo de vidro na mesa de madeira. — Ver a mulher que eu amo em sofrimento e saber que posso acabar com ele e ainda assim colocá-la em outro está me tirando o juízo!
— Precisa saber que todo Don tem seu fardo, %Matteo%.
— Eu não posso assistir isso sem poder fazer nada, ela disse que me ama! — Soquei a mesa com força e olhei pra baixo sentindo uma lágrima deixar meu olho.
— Então temos uma pretendente? — Arregalei os olhos e senti meu corpo gelar, não precisei olhar pra frente para saber que era meu pai. — Quem é a felizarda?
— Otelo… — Meu primo tentou contornar a situação, por mais que ele estivesse tão nervoso quanto eu. — Estávamos falando sobre algo do passado.
— Quieto, Filippo. — Meu pai deu dois passos em minha direção e eu senti meu corpo retesar, eram raro as vezes em que ele falava daquela forma com Filippo. — Vamos, %Matteo%, conte-me.
— Não podemos ficar juntos, Otelo, então não precisa se preocupar.
— Eu me preocupo que você ainda não tenha uma esposa, precisa de herdeiros. — Ele estava sério demais, falando baixo, naquele tom de comando que eu odiava, mas que sabia que era um momento delicado.
— Estamos no casamento da Bea, vamos conversar sobre isso outro dia. — Filippo tentou apaziguar, olhava pra mim desesperado e eu entendia, mas eu já estava sufocado com toda aquela história.
— Não vou me casar sem amor, já tentamos ir por esse caminho, pai. — Peguei o copo e virei o restante do líquido antes de depositá-lo novamente na mesa.
— Essa moça que te ama… Você também a ama?
— Isso não vem ao caso, vamos voltar para a festa. — Contornei a mesa e fui em direção à porta do escritório, mas meu pai colocou a mão em meu ombro levemente, apenas em tom de aviso, para eu ficar ciente que não estava permitido sair dali. — Por favor, pai, vamos deixar essa conversa para depois — falei sem olhá-lo, sentia meu corpo rígido e aquela situação só tinha um caminho e eu não queria ir por ele.
— Se eu contar para ela a verdade vocês podem ficar juntos?
Se existisse uma forma de sentir o coração ser arrancado do peito e continuar vivo, talvez eu tivesse sentido naquele exato momento. Afastei-me olhando para o meu pai, ultrajado com aquilo, como ele podia ter feito isso comigo? Com ela!
— Achava que eu não sabia? — Aquele olhar arrogante de quem estava se divertindo com a miséria dos outros dominou sua face.
— Por que… — Olhei para ele. — Por qual motivo me torturou me contando que ela não era sua filha e pedindo pra eu guardar segredo?
— Você vai ser o Don, %Matteo%, não pode se mover pela emoção.
— Esse não pode ter sido o real motivo, estou em sofrimento pra você me provar um ponto?
— Não, estamos nesse momento discutindo o futuro da
Vincere, você é o futuro da
famiglia.
— Eu sou adulto, mais de 20 anos depois e você segue sendo um treinador e não um pai. — Ri, passando a mão no rosto sem acreditar que aquilo estivesse acontecendo.
— O treinamento nunca acaba. — Ele contornou a mesa e sentou em sua poltrona. — Todo dia você vai aprender algo novo, vai sofrer por uma decisão que precisou ser tomada e vai ter que matar alguém que você não queria que fosse pra vala.
— Eu sou seu filho! — Soquei a madeira da mesa com as duas mãos ao encarar meu pai.
— E também é o
prossimo. — Otelo alterou o tom de voz, colocando toda sua autoridade em suas palavras. —Recomponha-se e saiba o seu lugar, saiba que você não é a única pessoa que sofre as consequências das suas ações.
— E pra isso precisou colocar seus dois filhos em agonia? — Sentia meu peito doer, eu não era mais aquele %Matteo% frio, eu não conseguia ser, não quando se tratava dela. — Se isso for ser Don, eu não quero esse cargo.
— Não fale insanidades! — ele berrou, socando a mesa, o que fez eu e Filippo nos sobressaltarmos. — Sempre soube qual era o peso desse lugar.
Balancei a cabeça em negativo, como ele conseguia ser tão sangue frio dessa forma?
— Agora eu entendo por que minha mãe fugiu disso…
— Ela me deixou pelo mesmo motivo que %Pietra% te odiou durante tantos anos, %Matteo% — falou, jogando seu corpo na poltrona.
— Não, eu não sou igual a você, jamais faria isso com uma filha. %Pietra% merece saber a verdade…
— Só estou te falando que amor nenhum sobrevive a pessoas como nós ou acha que esse é o único empecilho? Que %Pietra% vai viver feliz com você só por saber que não são irmãos?
— Não somos… irmãos? — Virei a cabeça com rapidez e vi %Pietra% parada na porta do escritório.
Aqueles minutos encarando ela pareciam horas, meu pai nem sequer tentou falar algo, parecíamos um espetáculo acontecendo bem à sua frente e ele queria ver qual seria o final da grande tragédia romântica. %Pietra% estava claramente em choque, parecia que ela tinha acabado de se recompor e lágrimas já escorriam pela sua face novamente.
Dei dois passos em direção a ela e disse baixo:
Ela saiu a passos rápidos dali.
Eu saí atrás dela, cheguei no salão e tinha gente demais, corri os olhos por todos os lados e vi seu cabelo ruivo e o vestido vinho passando rapidamente pelas pessoas. Dei mais alguns passos me esgueirando pelos convidados e consegui tocar em seu braço, ela se virou pra mim com um olhar que carregava um rancor e uma mágoa muito grande.
— Você sabia esse tempo todo?
— Não minta pra mim! — ela gritou e algumas pessoas em volta olharam para nós, por mais que a música estivesse alta, foi possível ouvir. — Você já escondeu coisas demais de mim, mas isso…
— Vamos conversar em outro lugar, %Pietra%
— Não tenho nada pra falar com você, %Matteo%… — Ela olhou para o chão e voltou a olhar pra mim, tentando segurar aquelas benditas lágrimas que estavam quase transbordando pelos seus olhos. — Eu realmente queria que eu tivesse continuado te odiando.
Arregalei os olhos e entreabri os lábios, fiquei tão desnorteado que acabei afrouxando minha mão em seu pulso e ela se soltou de mim andando mais rápido. Eu a seguiria não importando para onde, ela estava bêbada, não a deixaria sair das minhas vistas. No entanto, senti meu braço ser agarrado antes que pudesse dar mais um passo e olhei de supetão vendo Luna me olhando com o cenho franzido.
— Agora não, Luna! — Soltei meu braço e continuei andando.
Sabia que tinha sido muito ríspido, mas eu não tinha tempo, continuei desviando das pessoas e cheguei na porta da frente. Olhei para os lados e me subiu uma angústia, procurei por Ettore ou Austin para chamá-los para me ajudar a ir atrás dela, mas no portão só tinham seguranças. Corri o mais rápido que pude e vi que Théo latiu e tentou morder os homens no portão, que tentaram segurar ele, mas foi em vão. O cachorro saiu como se sua vida dependesse disso, ele tinha sido treinado para protegê-la e seu instinto iria falar mais alto sempre, então naquele momento eu soube que %Pietra% tinha deixado a propriedade.
Cheguei na rua e vi o pulguento já longe de mim, no fim da rua e então virou a esquerda, ele estava pelo instinto e pelo cheiro dela. Théo era mais ágil que eu, afinal, corria em quatro patas. Eu fiz o mesmo caminho e corri já sentindo meus pulmões arderem. %Pietra% sempre soube correr. Assim que consegui alcançar o suficiente para vê-la atravessar a avenida, eu gritei:
Théo também latiu da calçada e foi aí que ela parou, quando ouviu o latido do seu cachorro, agradecia mentalmente por ela ter parado, mas assim que ela virou completamente o corpo, Théo correu em sua direção, porém uma moto estava em alta velocidade e tentou frear. Eu comecei a caminhar mais rápido em direção a eles, mas %Pietra% não hesitou um segundo ao entrar na frente de Théo.
Vi as faíscas da moto sendo arrastada no asfalto e %Pietra% caiu para o outro lado.
Cheguei o mais rápido possível até ela e ajoelhei, tentando ver onde ela tinha se machucado. Ela estava de olhos fechados, mas se mexia fazendo uma careta de dor, respirei aliviado por ela estar respirando e se mexendo.
— Da onde surgiu essa maluca?! — Ouvi a voz do homem que dirigia a moto ao se aproximar e aquilo me irritou profundamente.
Levantei já tirando minha arma do coldre, virei meu corpo de lado e apenas meu braço foi em direção ao homem, apertei o gatilho sem nem mesmo pensar e guardei a minha pistola novamente. Foi só aí que olhei em volta, pois as pessoas gritaram depois que eu atirei e o motoqueiro caiu morto no chão. Não estava preocupado com isso, então apenas me agachei e peguei %Pietra% no colo, caminhei devagar os quarteirões até em casa com Théo nos seguindo. %Pietra% franzia o cenho e segurava o braço, eu falava com ela, mas nada de resposta, acreditava que ela podia estar desmaiada.
Então assim que cheguei na mansão, os seguranças abriram para a gente passar, fui até meu carro e a coloquei no banco do passageiro, transpassei o cinto de segurança e afivelei. Olhei para a porta da mansão e vi Otelo olhando tudo atento, como se assistisse a um espetáculo, Filippo estava mais atrás, uma expressão de desespero, mas de quem não podia fazer nada para me ajudar. Liguei para Ettore e Austin para nos encontrar no hospital para fazer a segurança e dei partida no carro para sair dali o mais rápido possível.