Capítulo 18
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%Pietra% Alonso Perroni
Acordei com batidas fortes na porta e com muito esforço consegui abrir os olhos, ergui meu corpo e olhei para os lados vendo uma garrafa de whisky quase na metade. Ouvi as batidas novamente e levei a mão até a cabeça, a dor estava presente, latejante. Desci da cama e peguei um robe. Fui até a porta e abri ela devagar, vi %Matteo% transtornado, me olhando daquele jeito possesso, mas sem perder a pose que só ele conseguia, e então respirei fundo já sabendo o que viria, dei as costas e caminhei em direção ao banheiro.
— Por que faz tão pouco da minha autoridade, %Pietra%?! — Ele entrou no quarto e bateu a porta atrás de si. Entrei no banheiro, ignorando sua pergunta, e comecei a escovar os dentes com a escova que o hotel dava de brinde, logo vi ele no reflexo do espelho. — Falei para não deixar a mansão.
— Não sei se já se deu conta em que século estamos — virei e apontei a escova de dente para ele enquanto falava —, mas eu sou uma mulher livre, %Matteo%. — Voltei para a pia cuspindo a pasta e lavei a boca, me enxugando na toalha e virando novamente para encará-lo. — Não obedeço homem nenhum.
— %Pietra%… — alertou, passando a mão no rosto, claramente indignado. — Você sumiu!
— Eu estava com meus seguranças, que tenho certeza que você ligou para saber onde eu estava, já que está aqui.
— É óbvio que liguei! — gritou, e eu apenas ignorei minha cabeça latejando por causa da ressaca e caminhei até o quarto com ele em meu encalço. — Você some por uma noite inteira logo depois… — ele não continuou, apenas suspirou e mexeu no cabelo, nervoso. — Me escute dessa vez, sim?
— Conseguiu alguma informação? — falei sentando na cama e cruzando as pernas, vi seus olhos serem indiscretos em minhas coxas, que escapavam do pano do robe, e revirei os olhos. — Aqui, %Matteo% — indiquei meus olhos com o indicador e ele logo subiu o olhar, pigarreando. — Com os Delantera, talvez?
— Não importa — cortei o que ele iria dizer. — Você deveria ter me comunicado… — Levantei e virei de costas, peguei minha calça e a coloquei passando por baixo do robe, abotoei e fechei o zíper me virando para ele novamente. — Isso é importante, nós também precisamos estar em alerta caso eles estejam pensando em nos atacar.
— Tem um infiltrado na
Vincere,
cazzo, por isso mandei ficar em casa.
— E esse foi o problema, você não quis me informar pois acha que manda em mim. — Tirei o robe e joguei em cima da cama.
— %Pietra%! — Peguei minha blusa que estava nas costas de uma poltrona e vesti. — Não fode, porra, você sabe o que passamos. — Ele se aproximou de mim.
— Por isso mesmo! — Encarei-o com raiva e bati o indicador no peito dele, irritada por achar que eu sou uma donzela em perigo que precisava ser protegida a todo custo. — Não sou idiota, você sabe melhor do que eu que devemos seguir com a rotina… — Peguei meu blazer, bolsa e saí andando para fora do quarto. — Bom dia, Austin, Ettore. — Sorri para eles, que apenas balançaram a cabeça me cumprimentando. — Não podemos deixar eles desconfiarem que sabemos… — %Matteo% vinha logo atrás de mim e meus seguranças na sequência, tomando uma certa distância respeitosa, continuamos a caminhar pelo corredor em direção ao elevador. — Acaso não sabe como o inimigo pressente essas coisas? Sem falar que pode ser alguém em qualquer lugar na
Vincere, até na Itália.
— Você sempre minimizando o fato de que pode ser alguém próximo e que você pode estar em risco…
Parei em meio ao corredor e virei para ele, pendendo a cabeça para o lado antes de falar:
— Acha mesmo que só eu corro riscos, %Matteo%?
— Não ache que um sobrenome falso te mantém em segurança, %Pietra% — sussurrou ele entre dentes, aproximando-se de mim, aqueles olhos sempre parecendo me desafiar, aquilo sempre me deixava possessa.
— Então não me conteste, vá direto para casa e fique lá…
— Infelizmente… — Olhei para o meu relógio de pulso e busquei seus olhos — a
Fascino abre em algumas horas. — Dei de ombros olhando para ele.
Vi sua expressão mudar e ele me empurrou na parede com força, arregalei os olhos e senti meu coração acelerar, assim como meus seguranças levaram um susto pela movimentação repentina e travaram onde estavam. Ninguém nunca tinha visto eu e %Matteo% brigarmos daquela forma, nem mesmo eu tinha visto ele perder a cabeça em um lugar público.
— Não me tire do sério — %Matteo% travou o maxilar —, sei que odeia quando eu ajo por impulso, %Pietra%. Então, caso não queira que eu mate cada filho da puta que ousar olhar errado pra você, fique em segurança.
Minha respiração estava descompassada, sentia meu corpo trêmulo, mas não era de medo, eu o conhecia, mais do que gostaria até. Aquela sensação era receio, receio do que eu estava sentido com %Matteo% tão perto de mim, falando de maneira tão protetiva, segurando meu ombro e minha cintura com possessividade. Aquilo era impróprio de tantas maneiras, e eu soube ali que nem toda a bebida do mundo poderia manter aqueles pensamentos sujos longe da minha cabeça.
— Ok — foi tudo que eu disse.
[...]
Soquei com mais força o Fred, nome que eu tinha dado para o boneco de borracha que era mais um saco de pancadas na nossa academia, estava descarregando a minha raiva de ter que ficar presa naquela casa. %Matteo% só podia ter surtado, ficou tanto tempo torturando homens que perdeu a habilidade de interpretar a realidade. Não era possível que ele estava pensando racionalmente prendendo todas nós em casa como se algum idiota fosse capaz de se aproximar de nós depois da segurança ter sido reforçada.
Eu tinha pedido para Cristian tomar conta da boate depois daquele ataque de %Matteo%, fazia 8 dias que eu estava trancada naquela casa e eu já não sabia mais o que fazer. Chutei mais uma vez o boneco, senti meu coração pulsar na minha garganta, fechei os olhos e respirei fundo. Eu já estava enlouquecendo antes mesmo de não ter que ficar sem distrações, eu precisava do meu trabalho para me manter longe dos pensamentos obscuros que rondavam a minha cabeça.
Eu estava entrando em pânico dentro daquela casa, eu precisava ir pra minha boate e naquele dia eu iria, não tinha um ser humano nessa terra que me fizesse mudar de ideia. Tomei um banho depois do almoço, me arrumei e sem ninguém me impedir, fui até a
Fascino. Com Ettore e Austin na minha cola, é claro. Entrei na boate, feliz apenas por estar ali, dei boa tarde aos meus barmans e pedi para que Christian fizesse um martini.
— Ontem veio uma mulher aqui querendo falar com você.
— Uma mulher… Não disse o nome ou o que queria comigo? — Franzi o cenho olhando para o ruivo que colocou a taça com minha bebida no balcão balançando a cabeça negativamente.
— Ela só disse que voltaria. — Assenti, dando de ombros. — O detetive veio de novo também… — Soltei o ar, revirando os olhos. — A sorte foi que os homens vieram recolher o que sobrou mais cedo.
— Eu queria que Estevan cuidasse de algo mais importante do que ficar enchendo a porra do meu saco.
— Acho que o cartel de drogas da Espanha é bem importante, %Tita%. — Ele riu e eu mostrei o dedo do meio para ele.
— Boa tarde. — Olhei para o lado, vendo Beatrice.
— Fugiu de casa também? — falei rindo.
— %Matteo% está insuportável. — Ela revirou os olhos e sentou ao meu lado. — Me dá um desse também, Cris.
— É pra já. — O barman virou e foi para o fundo do bar preparar o drink.
— Estava com saudade da namorada? — Peguei minha taça e dei um gole, rindo divertida.
— Vai me tirar pra brincadeira, %Pietra%?
— Só fiz uma pergunta… credo. — Levantei as mãos em rendição e ela revirou os olhos.
— Eu quero falar uma coisa com você… sobre aquele assunto. — Ela me encarou insinuando que eu soubesse qual era o assunto, e eu realmente sabia; Carolyn.
Ela me explicou como estava fazendo com a vadia francesa. Dava comida a ela, levava ela no banheiro para fazer as necessidades, amarrada é claro, e a diaba não abria o bico. Beatrice até tentava arrancar alguma coisa dela, porém, Carolyn parecia treinada para suportar aquilo e muito mais. No entanto, eu ainda achava que a gente estava pegando leve, então eu disse que depois do fim de semana de Natal a gente interrogaria ela de uma forma mais… eficaz.
Pensei até em um jeito de o papai e de %Matteo% não desconfiarem do sumiço dela, apesar dos dois estarem ocupados o suficiente para não ter dado falta da inconveniente. Falei para Beatrice pegar o celular de Carolyn e enviar uma mensagem para %Matteo% dizendo que passaria as festas com o pai dela em Paris. Seria a desculpa perfeita e isso nos daria tempo para arrancar dela tudo que precisávamos.
— E dá um jeito de calar a boca do Estevan, paga alguém na polícia pra tirar esse merda da nossa cola.
— Vou pedir para o Filippo resolver isso. — Beatrice levantou e olhou para mim. — Não esqueça que papai chega hoje e ele quer todos em casa para jantar.
— Alguma ocasião especial?
— Semana que vem é Natal, vai saber o que ele planeja. — Ela deu de ombros e saiu do escritório.
Soltei meu peso na cadeira e olhei para cima, encarei aquele teto como se fosse a salvação dos meus problemas, tudo estava tão confuso em minha cabeça, nunca fiquei tão perdida na minha vida. Era coisa demais para absorver, resolver e entender. Respirei fundo e peguei um cigarro, acendendo-o, puxei a fumaça para os meus pulmões fechando os olhos e agradecendo por aquilo estar me acalmando.
Eu precisava pensar com clareza.
%Matteo% Perroni
Quando cheguei em casa depois de descobrir que tínhamos um infiltrado, %Pietra% estava estranha, agachada no corredor como se estivesse sendo atormentada por algo ou alguém, tentei ler seus olhos, eles sempre me diziam o que eu queria saber. Entretanto, não gostei do que vi direcionado a mim, não entendi o que estava se passando, mas eu iria descobrir. Se ela quisesse sair de casa mesmo quando dei uma ordem direta, ela teria companhia e estaria sendo vigiada de perto.
Eu tinha uma informação que ninguém tinha, aquele soldado falando o nome dela antes de morrer ainda me assombrava, mas era exaustivo sentir essa necessidade de protegê-la, ela era a única que se revoltava comigo por querer cuidar dela. %Pietra% era como um cavalo selvagem, só queria liberdade e se alguém ousasse ir contra seus desejos, pagaria um preço. Eu não estava gostando do quanto eu estava tendo que pagar desde que o que eu sentia por ela tinha tomado todas as horas do meu maldito dia. Aquilo era preocupante e inadequado, mas eu não conseguia lutar contra, quanto mais eu tentava me distanciar, parecia que cada vez mais algo me possuía.
%Pietra% tinha se tornado um vício pior do que qualquer droga. Desci a escada devagar, sentindo bem o mármore sob meus pés, meu corpo parecia levemente retesado, a tensão tomava conta de mim a cada passo que eu dava. Fazia algum tempo que todos nós não fazíamos as refeições juntos. Meu pai estava na Itália, a verdade era que ele passava mais tempo lá do que na Espanha. Como ele mesmo dizia: quem deveria cuidar da Espanha eram os herdeiros da
Vincere, liderados por mim e por %Pietra%. Seria uma tarefa árdua já que não nos entendemos nem nas decisões banais.
— Como foi essa temporada sem o pai de vocês em casa? — perguntou Otelo enquanto levava um pedaço de carne de cordeiro à boca.
— Muito trabalho, papai — respondeu Luna, sorrindo.
— Quero propor umas férias pra vocês.
— Férias? — Giulia franziu o cenho olhando para o nosso pai.
— Sim, estão trabalhando muito… — Ele deu um gole em seu vinho e continuou: — O que não é algo ruim, estou orgulhoso dos meus filhos. Quero passar o Natal na Itália, com a família reunida na nossa antiga casa.
Vi %Pietra% arregalar os olhos e trocar olhares com minhas irmãs, o que achei estranho, o que elas estavam aprontando?
— Não vejo necessidade de deixarmos tudo aqui e irmos para a Itália, pai — argumentou Beatrice. — Podemos organizar uma festa maravilhosa de Natal aqui na mansão.
— Está na hora de voltarmos para a Itália para uma comemoração em família, Beatrice — insistiu Otelo.
— Papai, Vincenzo ainda está se recuperando, sabe que gosto que ele e a Giovanna passem o Natal com a gente.
Vi que meu pai ponderou, estava pensando, pisquei os olhos devagar, esperando o que ele resolveria, tudo com meu pai era assim. Se tivesse sido eu a falar, definitivamente já estaríamos brigando ou coisa pior. No entanto, minhas irmãs tinham um poder sobre Otelo que eu nunca entenderia. Olhei para %Pietra%, que conectou seu olhar ao meu por alguns instantes, gostaria de saber por que estava tão difícil ler seus olhos.
— Tudo bem, tem razão. Podemos fazer essa viagem ano que vem, com Vincenzo e Giovanna presentes.
— Obrigada, papai — agradeceu %Pietra% com um sorriso e uma expressão de felicidade genuína, ela… suspirei tentando manter meus pensamentos em silêncio.
[...]
Filippo tinha seguido o homem que vendia drogas nas boates da Espanha por alguns dias e descobriu tudo que podia. Parecia realmente ser apenas um moleque tentando ganhar a vida de uma forma não convencional, o problema é que quem vende as drogas no país somos nós, e ele não sairia impune. Um susto deveria ser o suficiente para amedrontar um jovem imprudente, meu primo cuidaria disso, pois naquele momento eu só conseguia enxergar %Pietra% na minha frente, com aquele vestido vermelho, minúsculo, rindo, bebendo e conversando com minhas irmãs e Giovanna.
Eu estava sem o menor espírito natalino, mas eu precisava estar ali presente ou Otelo me mataria pessoalmente. Meu pai levava as datas comemorativas a sério, diferente do pai de Carolyn, e o estranho foi ela me mandar mensagem na semana passada dizendo que tinha ido para Paris. Eu achei estranho, mas vai que o espírito natalino que me faltou tivesse surgido de forma inesperada no velho? Apesar das circunstâncias em que nós nos encontrávamos fossem complicadas, eu esperava de verdade que ela se divertisse com o pai e a tia. Otelo conversava animado com uns amigos próximos que ele convidou para passar o Natal com a gente.
Eu, desde que desci aquela escada, seguia sentado na mesma poltrona, e já estava com a minha terceira ou quarta dose de whisky. Minha cabeça não parava de pensar sobre o intruso, olhava para todos os soldados, desconfiado e procurando uma falha para interrogá-los. Vi Giulia se aproximando e troquei a perna que estava apoiada no joelho, dando um gole no whisky e esperando com o que o pingo de gente ia vir me perturbar agora. Ela sentou ao meu lado e ficou em silêncio, apenas bebericando o suco de uva em sua taça, sabia que era suco pois ela detestava bebida.
— Nada, só quis sentar um pouco… Elas já estão alteradas — apontou para as irmãs, revirando os olhos —, não sabem ficar dentro do limite.
— Talvez elas queiram cruzar o limite, Giulia. — Levei o copo à boca dando de ombros e a vi olhar para mim de um jeito inquisidor.
— Como cruzou com a %Pietra%, %Teo%? — Me engasguei com o whisky e quase cuspi tudo no tapete. — Guardanapo? — Vi o papel branco e quadrado em minha frente sendo balançado pelos dedos de Giu e o puxei de sua mão para secar minha boca. — É tão impulsivo assim que não soube controlar seu pinto dentro das calças?
— Você não sabe do que tá falando, Giulia.
— Ah, verdade — ela colocou o dedo no queixo, como se ponderasse algo —, vocês não transaram… — Seus olhos azuis me miraram e ela concluiu: — Ainda…
Giulia levantou e saiu em direção à cozinha, eu estava perplexo, o que ela quis dizer com “ainda”? Ela sabia de algo que eu não sabia? Olhei diretamente para %Pietra% que me olhava com a testa franzida, porém, logo tirou a atenção de mim e voltou a olhar para Beatrice. Fiquei completamente perdido com tudo aquilo, quando foi que a Giulia soube tanto? %Pietra% contou tudo que aconteceu para ela? Não era possível, mesmo que eu soubesse da confiabilidade que elas têm umas nas outras, ela não contaria.
Enquanto pensava na probabilidade de todas as minhas irmãs saberem de tudo e o quanto isso seria problemático em níveis que nem queria pensar, vi Filippo entrar na sala cumprimentando todos e vindo diretamente em minha direção com uma expressão que eu não estava gostando.
Acenei e levantei, deixando meu copo na mesa ao lado da poltrona em que estava, fomos até a biblioteca e então me sentei na cadeira de meu pai, esperando ele me contar a má notícia em plena véspera de Natal.
— Aquela transação deu errado, %Matteo%.
Fechei os olhos e suspirei. As mulheres trazidas para trabalhar em nossas boates pelo mediterrâneo sempre deram certo. Se os Delantera estivessem por trás disso também eu faria questão de matar o responsável com minhas próprias mãos.
— Mande Nero ir até lá e fazer dar certo.
— Elas estão presas na polícia federal, %Matteo%. Provavelmente aquele detetive que não sai do nosso pé está lá se achando o melhor dos policiais por ter impedido a entrada de imigrantes ilegais.
— Mudaram o produtor de passaportes? — Ele balançou a cabeça em negativo. — Então por que pegaram elas, Filippo?! — falei mais alto, me levantando. — Espero saber detalhes do porquê isso deu errado depois de tantos anos.
Respirei fundo tentando controlar a minha raiva, meu humor estava péssimo, dias e mais dias torturando homens; %Pietra% me tirando do sério; minhas irmãs aprontando alguma coisa que eu ainda iria descobrir o que era e agora mais essa. Eu poderia ter paz pelo menos no Natal, mas não, como um feriado religioso seria bom com o preferido do príncipe do inferno?
Saí da biblioteca e olhei para a porta lateral que dava acesso à área da piscina, vendo uma silhueta e apenas o brilho da brasa de um cigarro. Andei lentamente já tirando minha carteira do bolso e colocando um cigarro nos lábios. Assim que estava do lado de fora vi o corpo encostado na parede, as pernas cruzadas, o vestido vermelho colado e os olhos verdes me encarando como se eu atrapalhasse seu silêncio. Apenas andei mais um pouco e acendi meu cigarro, ficando em silêncio, que era o que parecia que ela tinha ido buscar ali fora, longe de todos.
— Papai parece feliz. — Ela estava olhando para frente, encarando um ponto qualquer do jardim e eu olhei de soslaio em sua direção. — É realmente estranho vê-lo assim…
— Ele tem motivo pra isso…
— Sabe qual é? — %Pietra% sempre era pega pela curiosidade.
— A nossa empresa vai abrir uma filial de nossas lojas aqui na Espanha — falei, sem mais.
A empresa têxtil da
Vincere, que meu pai construiu em homenagem a minha tia, ia muito bem. O único negócio legal que a nossa família tinha e que não dava tanta dor de cabeça.
— Acreditava que a
Vittoria inc ficaria apenas na Itália para sempre.
— Talvez seja um jeito de Otelo mostrar que nossa tia conseguiu acabar com eles mesmo sendo assassinada. — Sorri sem humor.
— Ótima forma de enxergar as coisas. — Ela desencostou da parede e virou o corpo em minha direção, fazendo com que eu fizesse o mesmo.
— Não acho um jeito tão ruim de expandir os negócios, afinal, estamos aqui — expliquei.
— Não estou reclamando, gosto de pensar que vou ter uma loja nossa bem aqui para pegar as minhas roupas.
— Já sei que vou gostar da próxima coleção… — Dei um trago em meu cigarro dando um sorrisinho travesso e vi seus olhos cintilarem com o reflexo da luz verde do jardim ao me olhar. — Você está bem?
— Que tipo de pergunta é essa? — A vi dar alguns passos para frente enquanto tragava o seu cigarro.
— Está diferente, %Pietra%.
— Diferente? — Ela jogou o cigarro e pisou na bituca para apagá-la. Logo olhou pra mim e continuou: — Estou a mesma de sempre, %Matteo%, talvez você tenha se acostumado com uma versão minha que não existia até você trazer ela pra fora, mas fiz questão de afogá-la com muito álcool antes que fosse tarde. — Fiquei um pouco confuso com o que ela falou e meu impulso foi pegá-la pelo braço. — Não vamos mais fazer isso — disse ríspida, ainda de costas.
Ela já tinha deixado claro que nada do que aconteceu nos últimos meses voltaria a acontecer, além de ter dito com todas as letras que era para eu tentar de verdade com Carolyn. Tudo o que eu não esperava, fiquei frustrado, chateado e até um pouco surpreso com o que ela sugeriu. Contudo, eu sabia que uma das qualidades de %Pietra% era ser racional em qualquer momento, seja ele ruim ou não.
Fazia tanto tempo que eu não conseguia lê-la tão facilmente e isso me deixou em dúvida se ela realmente estava me afastando porque queria ou porque era preciso.
— %Tita%, me diz o que passou pela sua cabeça naquele dia… Que estava agachada no corredor. — Vi seus ombros penderem, como se ela fosse se arrepender de falar o que viria pela frente.
Senti um arrepio cruzar minha coluna e larguei seu braço, dando um passo para trás e vendo ela ir, distanciando-se cada vez mais de mim e, olhando sua nuca, um sentimento de amargura me atingiu e por mais que ela estivesse certa sobre tudo isso, a parte de mim que sentia algo por ela já não era mais possível afogar como ela fez.