Capítulo 6
– ACORDA! ACORDA MENINA!Por favor, fala que você não morreu! – ouvi uma voz dizendo. Dizendo, não. Gritando. – ACORDA! VAI, ACORDA POR FAVOR!
Estava com tanto sono. Queria dormir. Me sentia cansada. Me deixa dormir, pensava. Pára de gritar. Me deixa dormir. Vá embora. Mas a pessoa não parava.
– ACORDA! Vamos, acorde! – a pessoa me dava leve tapas na cara, na esperança que eu acordasse, mas eu queria dormir.
Me deixa dormir, me deixa dormir.
– VOCÊ NÃO VAI MORRER! Não morra!
Me deixa dormir, me deixa... Senti um par de mãos pressionando meus pulmões e comecei a tossir a água dentro de mim. Só aí lembrei de tudo o que tinha acontecido. Que eu tinha me afogado. Que eu tinha tentado me matar. Comecei a tossir e pude sentir a pessoa se aliviando. Mas ainda não conseguia ver quem era, a minha visão estava toda embaçada.
– POR QUE DIABOS FEZ ISSO? VOCÊ É LOUCA? TAVA TENTANDO SE MATAR? – um sotaque forte inglês perguntou. “Putz, que voz sexy hein amigo?”, pensei. PÉRA AÍ!? Voz sexy? Só pode ser...
– Zayn, o que tá fazendo aqui? – perguntei a ele.
– Eu vim te salvar, oras. Não que eu tenha gostado da experiência. Você é louca? Por que fez aquilo? – ele perguntou. Suas roupas todas encharcadas e o cabelo grudado no rosto. Eu não sabia o que responder à ele. Nem eu sabia porque tinha feito aquilo.
– Eu... Não sei.
– Bem, de qualquer jeito, não importa mais. Meu trabalho tá feito. – Ele se levantou, ajeitou as roupas encharcadas, e estendeu a mão. – Você vem, Maria Isabella?
Peguei a mão dele e disse:
– Só Bella, por favor.
– Claro, só Bella, você me agradece depois. – ele disse. Arrogante. Mas me fez sorrir.
– Obrigada. Sério, de verdade. – disse, olhando dentro dos olhos dele. A química entre mim e ele me fez arrepiar. Ele era bem mais alto que eu, mas eu sabia que meu olhar era bem mais superior que o dele.
– Só fiz o que qualquer um faria. – ele deu de ombros. Virou-se e saiu andando. Só aí percebi que eu parecia um monstro. Meu cabelo tava todo emaranhado e parecendo um ninho de rato cheio de areia, minha costa inteira estava cheia de areia. Meu rímel e delineador haviam borrado, e eu estava parecendo a guriazinha de “O Grito”. Credo. Fora que eu estava encharcada.
– Ei, suicida, você vem ou não? – Zayn chamou de novo. O que me pegou de surpresa, pois achei que ele fosse seguir sozinho.
Ele estava com a mão estendida, como se eu fosse pegar para andar de mãos dadas com ele. Pensei e decidi seguir com ele, seria mais seguro e no caminho eu teria a chance de agradecer mais algumas vezes. Quando nossas mãos se tocaram, a ligação foi instantânea, e eu percebi que ele também sentiu. Pois no momento que eu encostei minha mão na dele, ele olhou para a própria mão como se tivesse levado um choque e depois me olhou com os olhos verdes (hoje estavam verdes) confusos. Ele tirou a mão da minha, como se meu toque o queimasse, colocou a mão no bolso e se virou de costas para mim. Arrogante, como eu tinha dito. Louis nunca faria isso com uma garota. Nossa, que egoísta eu. O menino tinha acabado de salvar minha vida, né?
Dei uma leve corridinha para alcançá-lo e segui ao seu lado. Nenhum dos dois falou nada quase pelo caminho inteiro. Até que quando estávamos quase chegando à escola ele se virou para o sentido contrário que estávamos andando e resmungou: “De novo, não.” Percebi que ele falava sobre um bando de garotas que corriam em direção à nós dois, provavelmente tentando agarrá-lo ou tirar um pedaço dele, vai saber. E dessa vez, quemfoi o salva-vidas? Eu, óbvio. Peguei-o pelo braço e saí correndo em direção á única entrada “secreta” da escola, o portão de descarga.
– Por aqui, elas não sabem que esse lugar existe. – Zayn ainda tinha um olhar apavorado no rosto, que o deixava engraçadinho e fofo. O que, obviamente, me fez sorrir.
– E você sabe como? – ele disse, quando percebeu que eu estava sorrindo, reclamou – Por que, diabos, você está sorrindo assim pra mim?
– Você fica engraçado quando tá com medo. Sabia disso?
– Eu não to com medo. – ele disse. Orgulhoso, o que me fez sorrir ainda mais. Ele era realmente uma gracinha.
– Tá bom, machão, vamos entrar. – abri o portão com cuidado para não fazer muito barulho e entramos no colégio.
– Como você sabe desse lugar? – ele perguntou e eu ri com a minha própria resposta.
– Eu costumava sair por aqui quando matava aula com Niall. – pelo canto dos olhos pude ver Zayn abrindo um sorriso enorme.
– Uma princesinha que mata aula, hein? Que feio... – eu fui dando risada até a sala do diretor. Quando chegamos lá, as almas presentes só faltaram convocar o papa pra ver se estávamos bem.
– Você tá bem? Não se machucou? Está ferida? Precisa ir para o hospital? O que aconteceu com vocês? Por que estão todos molhados? O que você foi fazer no mar, Maria Isabella? Você sabe nadar, por acaso? Você agradeceu ao Zayn? Ele está ferido? Precisam de alguma coisa? – foi algumas das milhares de perguntas que minha mãe me fez quando chegamos. Olhei para Zayn e vi que Nick o atormentava do mesmo jeitinho, e dei risada quando Zayn olhou para mim e revirou os olhos, como quem diz “Ninguém merece...”. Percebi que Nick era mais pai de Zayn do que William, seu verdadeiro pai. Percebi também, como Zayn parecia se sentir à vontade com Nick por perto.
– Calma gente, eu estava correndo, acidentalmente fui parar no mar. As ondas quebraram sobre mim e eu perdi os sentidos, graças à Deus que Zayn estava lá para me salvar. Ele entrou na água e me salvou. Foi isso. – olhei para Zayn esperando que ele percebesse que eu estava omitindo a parte que eu “tentei me matar” de propósito e não acidentalmente. Nick percebeu que Zayn parecia confuso e não deixou passar.
– Foi isso mesmo? – perguntou à Zayn, que olhou pra mim e disse:
– É, foi basicamente isso.
– Basicamente? – Nick perguntou de novo. Ele olhava atentamente de mim para Zayn, como um policial interrogando dois jovens sobre maconha.
– Ah, ela não contou que... – ele olhou pra mim e eu fiz vários sinais de “não, não, pelo amor de Deus, minha mãe vai ter um ataque!” e dei um dos meus “olhares mortais” como diria Liam. – Que ela é muito pesada e pra subir ela da superfície demorou um século. – ah legal, ele estava só tirando o sarro da minha cara. De novo.
As pessoas na sala pareceram respirar mais aliviadamente, inclusive eu e Zayn, mas o olhar de Nick caiu sobre mim e quando olhei de volta, percebi que ele não tinha caído na conversa afiada de Zayn sobre eu ser pesada. Mas que percebeu que eu não queria que contasse o que realmente tinha acontecido. Bom, ele estava totalmente certo. Totalmente mesmo, porque eu não era pesada mesmo. Todo mundo dizia isso.
– Bom, nós vamos embora. Bella Maria tem que se trocar, e temos muito que conversar. – minha mãe disse. E eu me apavorei quando ouvi “temos muito que conversar”. Aquela conversa de casamento já me deixava enjoada só de pensar.
Depois de chegar em casa e ouvir todas aquelas perguntas de novo, me senti meio enjoada quando minha mãe disse:
– E então? Muito difícil de aceitar tudo isso?
– Difícil é aceitar que você nunca me contou tudo isso, mãe. – respondi, encarando-a.
Ela respirou fundo e desviou o olhar. Eu sabia como ela odiava me encarar. Ela dizia que meus olhos “a penetravam”.
– Sente-se aqui, Isabella. Vamos ter uma longa conversa. – ela disse, sentando-se no sofá e fazendo sinal para que eu me sentasse também.
– Ah, vamos mesmo.