Capítulo 5
Enquanto me dirigia para a sala do diretor repassei mentalmente todas as merdas que tinha feito desde... bem desde ontem! Afinal, ontem foi meu primeiro dia de aula depois do verão! Pelo amor de Deus! Se é que ele existe. Essa sou eu, falo “pelo amor de Deus” mesmo não sendo católica ou se quer acreditando em Deus. A única coisa que eu tinha feito de errado era... Ah,merda! Matei aula da Caroline pra ficar com Louis e Harry! Aquela vaca. Mas quando cheguei lá percebi que a merda era bem maior. Pois minha mãe estava lá. E Zayn Mailk também? WTF é isso produção?
Cheguei e percebi que Zayn estava de pé e me observava. Só agora percebia como ele parecia triste e cansado debaixo de toda aquela beleza exuberante dele. Nick Taylor estava sentado na poltrona ao lado dele. Nick era um homem corpulento, de cabelos negros, porém ficando grisalhos, e muito bonito. Tinha a impressão de estar beirando os 50, mas muito bem conservado. Com certeza devia ter sido um homem bonito quando mais jovem. Como diria Bailey, um tiozão.
Minha mãe me olhava com um olhar tristonho, e só agora percebi que Liam estava lá, sentado. Tá, bom, agora eu não entendi nada. Alguém me explica, produção?
– Hum, olá? – falei, todos na sala se mexeram desconfortáveis, menos Zayn, que me observava intensamente.
– Olá, Maria Isabella, que bom que veio rápido. – Nick Taylor foi o primeiro a falar. Ele se levantou e estendeu a mão. – Prazer em conhecê-la, senhorita, meu nome é Nick Taylor.
Eu peguei na mão dele esperando por apertá-la, mas ele pegou minha mão e a levou aos lábios, dando um beijo. Tá, isso foi chocante. Acho que é o jeito inglês de cumprimentar. Mim gostar. Sorri desajeitadamente para ele. Mas ainda queria saber o porquê de todas aquelas pessoas estarem ali reunidas.
– Tá, pode falar. Fiz alguma merda? – disse e todos sorriram, menos Zayn. Putz, pense num menino sem senso de humor. Ou senso de nada, né?
– Claro que não criança, só precisamos tratar de um assunto com você. Um assunto muito, muito importante. E é particular. – Nick disse, apertando meus ombros.
– Então, porque minha mãe e meu irmão estão aqui também? – perguntei, desconfiada.
Nick riu e disse:
– Oras, porque digamos que esse é um assunto... Da família. – minha mãe virou a cara e resmungou alguma coisa. – Porque não se senta? Zayn...
Nick me sentou num sofá e Zayn (pela primeira vez desde quando eu entrei na sala) se moveu e se sentou ao meu lado fazendo uma careta de quem está um tanto quanto entediado. Agora eu via como ele parecia arrogante.
O assessor de imprensa se sentou em nossa frente, junto com o Sr. Morgan, que me encarava com os olhos arregalados.
– Tá, podem me falar o que está acontecendo agora. – disse, incomodada com o fato de ninguém ter me contado nada. Eu estava muito, mas muito nervosa.
– Ah, Nick, isso é mesmo necessário? – Debbie falou. Ela parecia desesperada. – Eu tenho medo de como ela vai lidar com tudo isso.
– Relaxa, Deb, pode deixar comigo. – O fato de que Nick Taylor tinha acabado de chamar minha mãe pelo seu apelido mais íntimo me deixou, ao mesmo tempo, nervosa, assustada e curiosa.
– O que está havendo? – perguntei. Olhando para Liam, em desespero. Liam só desviou o olhar e seu rosto demonstrava que ele estava aflito.
– O que está havendo, senhorita, é que você não é quem você pensa que é.
A sala inteira parecia não respirar. Minha mãe desviava o olhar toda vez que eu a encarava, assim como Liam. O Sr. Morgan continuava a me encarar com seus olhos arregalados, como se não acreditasse em alguma coisa. Nick me observava cuidadosamente. Como um pai preocupado. E Zayn simplesmente encostou a cabeça no sofá e fechou os olhos, como quem descansa de um dia muito exaustivo. Tive pena dele. Devia ser difícil.
– C-Como assim? – perguntei, assustada.
– Me diga, Maria Isabella, o que sabe sobre você mesmo? – perguntou Nick.
– Hum, eu me chamo Maria Isabella Payne, eu tenho 16 anos. Moro em Los Angeles, Califórnia, Estados Unidos. Meu irmão se chama Liam James Payne. Minha mãe, Deborah Kaleah Ginger Payne. Meu pai se chamava... Eu... Eu não sei como meu pai se chamava.
– Seu pai se chamava Edward James Payne, Maria Isabella. – Nick me interrompeu. Pude ver os olhos de minha mãe se enchendo de lágrimas e ela se virando de costas para mim, enquanto Liam tentava pegar em sua mão para acalmá-la. Isso Liam, você sempre fez isso por mim. O choque em mim foi inevitável. Finalmente saber o nome de meu pai. Depois de 16 anos. E pela boca de um completo estranho. Edward James Payne. Que nome bonito, pai. Que orgulho. Meu pai tinha o nome mais bonito do mundo. Senti o nó na garganta começar a se formar, mas forcei as lágrimas a continuarem onde estavam, pois, como já disse, eu nunca choro. – Por favor, continue.
– Eu... Eu estudo na West Middle High School California. Eu nasci no dia 30 de maio de 1995. Eu trabalho... Meu sonho é ir para Paris, morar em Paris. Meu melhor amigo se chama Niall Horan e eu... Não sei mais nada sobre mim... – não conseguia falar mais nada. Simplesmente, os fatos e histórias sobre mim desapareceram da minha cabeça.
– O fato de que é uma princesa não faz parte disso? – Nick perguntou. Não consegui não dar uma gargalhada. Princesa? Aquelas pessoas estavam zuando com a minha cara? O que é isso, produção? Enquanto gargalhava, pude ver que Zayn olhava para mim, com a cabeça ainda recostada no sofá e esboçava um sorriso. Logo que me viu observando-o, ele fechou os olhos novamente e voltou a ficar sério.
– Desculpa, o que? – tive que perguntar. Não conseguia parar de rir. Princesa? Isso era sério?
– Você é uma princesa, Maria Isabella. – ri ainda mais alto e percebi que Liam me olhava com certa preocupação, assim como minha mãe, Nick, Sr. Morgan... Menos Zayn, que continuava com aquele meio-sorrisinho sedutor.
– Bem, obrigada.- fiz menção de quem segura o vestido e abaixa-se, como as princesas de filmes fazem. Ninguém entendeu a piada e eu comecei a me preocupar de que eles não estivessem brincando. Aos poucos, a graça foi acabando e eu percebi que eles falavam sério. – Desculpa mas, isso é sério?
– Sérissimo. Não estamos brincando Maria Isabella. – O Sr. Morgan disse de um jeito desaprovador.
– Quero dizer, eu não posso ser uma princesa. Eu, eu sou pobre. Desculpa mãe, mas é verdade. E minha mãe não é rainha! – disse.
– Tem razão. De tudo o que disse. Sua mãe não é rainha. Seu pai é. Ou era. – Nick disse. – Edward James Payne era o filho mais velho de Charles James Payne II, rei de BrokenHood. Quando ele morreu, Charles decidiu dar a coroa para seu filho mais novo, Henry. Porém, agora, está na hora de Henry passar a coroa à diante. Mas, há um problema. A Inglaterra está em guerra com BrokenHood há séculos. 3 deles, para ser mais exato. E BrokenHood é muito tradicional para um acordo político. A Rainha já havia tentado isso antes, sem sucesso é claro. Os prejuízos para ambos os lados nessa guerra são enormes, sem falar na perda de mais de 30.000 pessoas durante esse combate. Posso continuar, está se sentindo bem?
– Não pare. Estou bem – disse. É claro que eu não estava bem. Não conseguia assimilar tudo aquilo. Então toda a minha vida, tudo o que vivi, tudo o que passei, tudo o que aprendi... Era mentira? Nick continuou.
– Pois muito bem. Com todas essas perdas e essas mortes, a Inglaterra decidiu acabar com isso. Mas ela não pode parar uma guerra sozinha. Ambos tem que parar. E então a decisão estava tomada, ambos, tanto BrokenHood quando a Inglaterra estavam decididas a parar, mas como, sendo que a constituição de BrokenHood não aceita termos políticos? À dezesseis anos atrás, seu pai, Edward, tinha esse problema nas mãos. Depois de muito debater, e considerar, Edward decidiu que o melhor a se fazer era que um de seus herdeiros se casasse com um dos herdeiros de William Malik, o sucessor do trono da Inglaterra. E no dia 12 de janeiro, Kate deu a luz a seu único filho, Zayn. O que coincidiu com o posterior nascimento de Liam, dois anos depois. Mas é claro que Liam não poderia se casar com Zayn, então Edward tinha outro problema nas mãos. Ele estava quase desistindo de seu plano inicial quando recebeu uma notícia. Sua mulher estava grávida novamente. – Nick fez uma pequena pausa para olhar para Debbie, que ainda chorava. Percebi que Zayn agora estava completamente despertado e olhava atentamente de mim a Nick, como se medisse minhas reações. Nick abraçou Debbie pelos ombros e lhe limpou as lágrimas. – E em maio de 1995 você nasceu. A esperança de que todos precisavam. A luz no fim do túnel. A nossa solução. William e Edward assinaram papéis e apertaram as mãos para firmar a salvação da Inglaterra e de BrokenHood.
– O meu casamento. – finalizei por ele. Eu não conseguia acreditar. Tudo o que pensei sobre meu pai, tudo aquilo. Tudo o que tinha vivido. Era mentira. Eu nem sabia que eu mesma era! Nem me conhecia. Percebi que todos ali eram estranhos. Até minha própria mãe e próprio irmão eram estranhos. Não conhecia ninguém ali, não confiava em ninguém.
– Porque eu nunca ouvi falar da guerra de BrokenHood e Inglaterra antes? – eu já havia ouvido falar de BrokenHood antes, havia estudado sua história. Sabia que eles eram uma nação independente e estavam fora de qualquer mercado, relação ou economia internacional. Eles tinham seu próprio mercado, própria economia e eram à par do resto do mundo. Completos antissociais. Não gostava deles. Achava-os arrogantes. E agora eu, subitamente, havia me tornado a princesa deles. Não fazia sentido.
– A guerra é em sigilo para não atrair a mídia e a imprensa. E também porque é puramente política. BrokenHood é digamos muito... Tradicional. Eles tratam tudo em sigilo. É por isso que você nunca soube de nada. É por isso que você nunca ouviu falar de BrokenHood. Você talvez já deva ter ouvido a história da “princesa perdida de BrokenHood”, não é mesmo Isabella? – Nick disse e eu instantaneamente me lembrei de uma história contada pelo meu professor de história sobre a princesa de BrokenHood que simplesmente sumiu de seu berço no meio da noite junto com seu irmão e a rainha. Por vários e vários anos, a nação é inteira iluminada por velas no dia 02 de fevereiro em homenagem à “princesa perdida” e existe uma oração dedicada só à essa princesa na religião dos “brokaneiros” como eram chamados. Oh.meu.deus. Agora tudo fazia sentido. Era por isso que minha mãe me criou sem uma religião! É por isso que eu não acredito em Deus!
– Sim, eu já... Ouvi falar. – disse. Sem querer acreditar que eu aprendi minha própria lenda sem saber que se tratava de mim!
– Pois bem, agora pode ter certeza de que ela é verdadeira. Sua mãe fugiu com seu irmão e com você na calada da noite e veio para os Estados Unidos com a ajuda de Henry e sua esposa, a jovem Laura. Só a família real sabe que você, na verdade, não foi sequestrada, e sim levada embora em segurança para ser criada sem a pressão da guerra que ainda há por lá. Sua mãe se recusou a viver com vocês dois por lá e ela estava coberta de razão. É você Isabella. Você é a princesa perdida.
– E por isso eu tenho que me casar com ele? – apontei para Zayn. Que reagiu, levantando a cabeça (que estava mergulhada em suas mãos).
– Sim, eu receio que sim. – Nick disse.
– Quando? – silêncio. Nick não respondeu.
– Quando Nick? – perguntei de novo.
– Nick, fala de uma vez. – Era a primeira vez que eu ouvia a voz de Zayn, o que me chocou bastante. Deus, eu tinha esquecido como a voz dele era sexy. Mas ela não estava mais do jeito que eu a ouvi pela primeira vez. Estava triste, cansada, acabada. Porém, sexy.
– Em 9 meses. Temos que estar em Londres em 6 meses. O casamento já está sendo todo programado e você não vai ter que se preocupar com nada.
Tá, aquilo era demais. Eu não conseguia ficar mais nenhum minuto naquela sala ou ia explodir. Saber que minha vida inteira tinha sido uma mentira? E que agora... AH!
6 MESES? 6 MESES? EU NUNCA TINHA SE QUER NAMORADO UM GAROTO. NEM AO MENOS BEIJADO UM GAROTO QUE NÃO FOSSE NIALL E EU TERIA QUE ME CASAR EM 9 MESES? PELO AMOR DE DEUS EU TINHA 16 ANOS! 16! NÃO PODIA ME CASAR! E não ia me casar. Não com alguém que eu não amava. Não com alguém que mal conhecia! Não com 16 anos! Não! Não!
– Vocês me dão licença. – e saí correndo. Minha vontade era nunca mais voltar. As lágrimas escorriam e eu não conseguia contê-las. Não conseguia pensar. Não conseguia enxergar. Não conseguia sentir nada a não ser a dor que sentia em meu peito por ter a liberdade roubada. Por ter a vida roubada. Sabia que tinha alguém correndo atrás de mim. Eu podia ouvi-lo. Talvez Liam. Talvez Debbie. Não me importava. Não me interessava. Eu só queria sair dali. Atravessei o portão da escola, mas continuei correndo. Correr era bom. Me acalmava. Precisava do mar. Precisava sentir o mar. Corri pelas ruas sem me importar com o que as pessoas pensavam. Até que o avistei. O mar. Lindo e sombrio como sempre. Continuei correndo, sentindo minhas pernas gritando contra o excesso de força que eu estava fazendo sobre elas. Atravessei a praia, o mar estava próximo. Na hora, nem pensei que eu não sabia nadar. Só pensei em fugir de tudo aquilo. Quando a maré atingiu meus pés eu não parei. Não sentia medo, pela primeira vez na vida. Não me sentia apavorada. A água já batia em meus joelhos. Não parei. Atingiu a cintura. Não parei. Minhas pernas não aguentavam mais o peso e a força que eu estava fazendo para andar dentro da água. Me soltei e deixei a água salgada do mar se misturar com minhas lágrimas também salgadas. A água invadiu meus ouvidos abalando meus sentidos e eu me senti afundando. Aquilo era bom. A água afastava tudo de ruim que tinha acontecido. Parecia que tudo o que me machucava tinha permanecido na superfície e que não restava mais nada de tudo aquilo. Até que percebi que eu estava bem no fundo. E não havia ar ali. E eu não respirava mais. Eu precisava respirar. Meus pulmões gritavam por ar que não existia ali aonde eu estava. Olhei para a superfície. Ela parecia estar tão longe. Meus olhos começaram a fechar. Eu não tinha mais força para me debater. Parecia que a cada segundo que passava, eu era arrastada mais para o fundo... fundo... fundo... Meus olhos se fecharam e a ultima coisa que eu vi foi um vulto me pegando pela cintura.