Capítulo 4
Acordei no dia seguinte como de costume. Com um travesseiro na minha cabeça e uma voz dizendo:
- Vamos, margarida. Tá na hora. – mas antes que ele pudesse ir eu o chamei.
– Liam! Volta aqui, eu... Preciso conversar com você. – ele escalou minha cama, e eu me sentei para que ele pudesse se sentar ao meu lado. Quando ele se sentou, eu me deitei em seu colo, esperando que ele se lembrasse de quando eu era criança e ele fazia isso para me acalmar depois de um pesadelo. Ele começou a brincar com meus cabelos cor-de-fogo, o que significava que ele se lembrava. Liam sempre dissera que a coisa que ele mais gostava em mim eram meus cabelos ruivos vermelho-escuro. Ele sempre me chamava de coisas do tipo “fósforo”, “vermelha” e “farol de trânsito”, mas eu sabia que ele gostava. A coisa que eu mais gostava em Liam, era que ele não tinha nenhuma vantagem física em relação às outras pessoas, ele tinha cabelos castanhos, olhos castanhos doces, e boca pequena, porém de um tom rosado que eu invejava. Porém, Liam era extremamente bonito. Ele era magro, esguio, mas imponente e elegante. Ele não tinha a cor de pele mais bonita do mundo, mas era incrível como a cor de pele dele o favorecia demais. Eu achava Liam a coisa mais linda.
– Liam, você sempre me ajudou. Sempre mesmo. Mesmo eu sendo uma idiota na maioria das vezes.
– Ah, isso é verdade, você é uma idiota. – Liam disse, o que me fez sorrir.
– Mas, eu preciso te perguntar uma coisa. Você nunca quis conhecer o papai? Nunca teve vontade de saber como ele era nem como ele se parecia? – outro fato sobre a minha família. Nós nunca falávamos sobre o meu pai. Era o chamado “o assunto proibido”. E de um certo modo, Liam nunca demonstrou carinho pelo meu pai, nem se quer curiosidade sobre ele.
– Eu conheci ele. Você também. – ele respondeu, friamente.
– Liam, eu falo sério. Nunca quis saber nada sobre ele? Nunca teve vontade, ou curiosidade?
Ele parou de brincar com meus cabelos e me olhou nos olhos. Aqueles olhos castanhos pareciam atravessar minha alma e olhar dentro do meu coração. Olhos que me conheciam. Me olhando igual Zayn me olhou ontem. Woah, o que foi isso?
– Bella, ele nos deixou quando mais precisávamos dele. Não quero saber nada sobre ele. Ele não merece.
– Mamãe disse que ele foi pra guerra. Nós sabemos que ele foi Liam. E ele não foi embora, ele morreu. Você sabe disso.
Os olhos de Liam se encheram de lágrimas. Isso me assustou, e muito. Eu nunca, em toda a minha vida, havia visto Liam chorar. Era sempre minha mãe que chorava. Nós dois crescemos assim. Aprendemos desde cedo que não devíamos chorar. Eu nunca chorava. Assim como Liam.
– Liam, você... Está chorando... – eu não tinha palavras. Não sabia o que fazer. Como não aprendi a chorar, nunca tive que aprender a consolar alguém que chora, isso sempre fora trabalho do Liam.
– Acha que eu nunca quis saber o nome dele? Acha que eu não me importo com ele? Que eu nunca imaginei o rosto dele? Acha que eu nunca me odiei por não conseguir lembrar o rosto do meu próprio pai? – as lágrimas escorriam pelo rosto dele.
– Não, Liam. Não acho nada disso. Me desculpa, Liam. Não é sua culpa, você era um bebê! – só aí percebi que eu também chorava. Era a primeira vez que um via ao outro chorar. Ele me abraçou forte, sussurrando “eu sei, me desculpa, eu sei, me desculpa” no meu ouvido e eu não conseguia parar de chorar.
Depois que tudo aquilo passou, eu me troquei e nós dois saímos para ir para a escola. Okay, esse era meu último dia como pessoa normal e eu não tinha a mínima noção disso.
- GATONA! – ouvi um sotaque irlandês chamar e logo abri um sorriso enorme. Depois de tudo aquilo com Liam, os estávamos bem mais próximos, mas Liam nunca seria tão próximo de mim como Niall.
Larguei a mochila no chão e corri para o abraço mais apertado do mundo, mas também o mais gostoso.
– Niaaaaaall! Tá. Me. Sufocando! – gargalhei quando ele me soltou. Meu ursinho bobão. Esse era Niall.
– Me diga, o que está te preocupando, princesa? – Viu? Eu falei que Niall me conhecia como ninguém. Nem minha própria mãe me conhecia como Niall. Esse era o dom dele. Entender as pessoas (eu) como ninguém.
Contei à ele tudo o que estava me preocupando. Tudo o que aconteceu com o Liam, meu sonho, e tudo mais.
– É, parece que esse inglês afetou você seriamente. Quero dizer, você até sonhou com ele. Uau! Que poção que esse cara toma hein? – Niall apontou em direção à um mar de garotas formando uma roda com Zayn no meio delas, dando autógrafos, tirando fotos e fôlegos das menininhas de West Middle High. – Não sei o que é, mas eu quero também!
Nós dois saímos dando risada. Quando cheguei no meu armário, como sempre Harry Styles estava lá. Mas dessa vez ele não estava sozinho.
– Oi Harry, ou Louis. Tudo bem com vocês? – Louis também estava lá. (respira, respira, respira)
Louis fez um dramazinho, colocando a mão sobre o coração e uma cara de dor falando:
– Louis, dói! Me chama de Lou, gatinha. – AAAAAAAAAAAH , LOUIS ME CHAMOU DE GATINHA. Você filmou isso, produção?
Dei risada sem graça, com medo que ele percebesse que eu estava gritando por dentro.
– E aí Nialler? Beleza cara? – Harry cumprimentou Niall e eles começaram a conversar intimamente, de uma modo que eu me senti traída e Louis, abandonado. Mas isso não abateu o rei da beleza, ele se virou pra mim como um perfeito gentleman e me ofereceu o braço, como Jack Dawson para Rose DeWitt Buckater.
– Me acompanha, senhorita? Te levarei até sua sala de aula. – eu ri, corando ferozmente, e tomei o braço dele. Nós caminhamos e conversamos normalmente como senhor e senhorita nos anos 20 pela escola até que chegamos na frente da minha sala de aula. E quando chegamos lá, meu mundo explodiu. Louis colocou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha, como nos filmes, e me deu um beijo na bochecha. Eu simplesmente não conseguia respirar. Ele era uma pessoa incrível, além de ser lindo. Eu não tinha como não estar loucamente apaixonada por ele.
– Até mais, Bella Margarida, te vejo depois. – e foi embora. E eu ainda não conseguia respirar. E eu ainda não conseguia acreditar no que tinha acontecido. E eu ainda queria que ele voltasse. E eu ainda... Ah, tá bom, parei.
Tudo estava perfeito. O lugar onde Louis tinha beijado ainda latejava e queimava, a mecha do meu cabelo que ele tinha mexido ainda estava do jeitinho que ele deixou. Mas, por algum motivo sobrenatural, tudo estava prestes à se transformar num pesadelo. Porque a próxima coisa que eu ouvi foi:
– Atenção, Maria Isabella Payne, favor se dirigir à sala do diretor.
E então eu pensei: Fudeu.