Capítulo 1
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%Pietra% Alonso Perroni
Sempre gostei da ideia de sermos a continuação da Cosa Nostra, afinal, sempre foi uma facção admirada em muitos países, e ter toda essa fama era bom, ajudou a Vincere a ser o novo símbolo da máfia na Itália e a ter reconhecimento por onde passava, mas isso também atraía muitos inimigos antigos. Meu pai, Otelo Perroni, era um ótimo Don, nunca foi questionado a sua autoridade desde que assumiu quando meu avô morreu.
A Vincere funcionava como qualquer outra máfia, muitos negócios ilegais e muitos outros que à primeira vista eram legais, mas a venda de drogas e a lavagem de dinheiro era feita através deles. Tínhamos também a Victoria Ink, em homenagem à minha Tia Victoria que morreu há alguns anos pelas mãos dos nossos inimigos espanhóis. Essa era a única empresa que era completamente legal, uma fábrica de produtos têxtil e que também tinha suas lojas de roupas exclusivas.
Foi a vingança pela morte da minha tia que enxotamos os Delanteras da Espanha e conquistamos o espaço. Meu pai ainda ficava mais na Itália à frente dos negócios no país, mas lá tudo já era muito bem esquematizado e consolidado, então Otelo queria que os seus filhos dessem continuidade ao legado da Vincere na Espanha, e foi assim que Madri se tornou a nossa casa.
Meu nome é %Pietra% Alonso para o mundo, já que sou dona de uma das boates mais badaladas de Madri, e %Pietra% Perroni dentro da máfia, meu sobrenome de
famiglia. Eu sou uma pessoa que gosta de coisas simples e caminhar pelos corredores da mansão de madrugada estava no meu top cinco coisas que eu fazia para driblar a minha insônia.
Morar em um lugar onde você tem tudo pode parecer tentador para muitos, mas a que custo, não é? Ouvir aqueles gritos sofridos que vinham do porão, lugar onde torturavam inimigos quando tinham que ser rápidos em algumas noites, fazia com que eu acordasse no susto, e eu ficava ansiosa até ver os primeiros raios de sol aparecerem no horizonte.
Não que eu não fosse acostumada com isso, mas era incômodo acordar no meio da noite com gritos aterrorizados de homens sendo levados ao limite pela dor extrema. Então, quando isso acontecia, eu colocava meu
headphone e saía pelos corredores apenas curtindo a paz que a música me dava, reverberando em minha mente, e mexia meu corpo com a melodia, era divertido e libertador, além de me fazer sair da realidade por algum tempo.
A casa era enorme e eu acreditava que o porão era longe o suficiente dos nossos quartos, mesmo assim, minha audição me traía toda maldita vez. Fechei os olhos e aproveitei o auge da música, que saía alto pelos
headphones, para rodopiar no largo corredor, eu amava aquela parte da casa, era o lado onde ficavam os quartos de hóspedes e a parede do lado contrário dos quartos era feita de vidro, dando vista para o jardim.
Eu mexia minhas mãos, ao mesmo tempo que remexia o quadril e sorria aproveitando as batidas que faziam eu me sentir viva. Girei bem no meio do corredor, porém caí no chão ao esbarrar em uma silhueta, fazendo meus fones caírem ao meu lado e desamarrar meus cabelos ruivos, que estavam em um nó frouxo.
— Ai! — Olhei para cima vendo alguém, o que me fez engolir em seco, porém, a aproximação veio, ele lentamente se abaixou e o sorriso ladino que eu conhecia apareceu. — %Matteo%!
— Não deveria estar tão tarde fora de seu quarto. — Ele me pegou pelo braço e pela cintura e me pôs de pé como se eu fosse uma pena. — Podia ser algum homem mau, o que ele faria com você? — Vi seus olhos negros me medirem de cima a baixo. — Ainda mais com esses trajes.
— Primeiro, sei me defender. — Peguei os fones do chão e olhei para ele novamente. — Segundo, não teria nenhum homem mau, a casa é bem protegida, graças a você, suponho. E eu estou de pijama... — Revirei os olhos e quando me dei conta de que ele ainda segurava meu braço, fiz questão de me soltar e me afastar. — E que bom que é só o meu meio irmão idiota! — Estirei o dedo do meio para ele e virei as costas para seguir o caminho de volta ao meu quarto.
—
Cariño… — Escutei aquele apelido que ele usava apenas para me irritar, eu tinha certeza que era pra isso, e virei para encará-lo. %Matteo% mantinha seu ombro escorado na parede, os braços cruzados ressaltavam os músculos definidos dentro da camisa social vinho e os lábios puxados para o lado evidenciavam que vinha uma gracinha. — Esse comportamento não faz jus a uma mulher Perroni. — Resolvi apenas ignorá-lo, não estava muito a fim de continuar com aquela discussão no meio da madrugada, só segui meu caminho até estar em um local seguro: minha cama.
[...]
Levantei naquela manhã ensolarada e troquei de roupa ouvindo as conversas ecoando pelo corredor, sabia que minhas irmãs deveriam estar no nosso "spa", como nós gostávamos de chamar o nosso banheiro compartilhado. Apesar de termos um banheiro individual em nossos quartos, no fim do nosso corredor tínhamos um banheiro imenso, com tudo que tínhamos direito.
Quatro pias em uma ilha central e espelhos suspensos, uma banheira que incendiava a cor vermelha na parte de fora, dois chuveiros dentro de um box grande o suficiente para ter um banco e, finalmente, uma bancada estilo camarim. Era exagero demais, mas a gente amava passar muito tempo ali dentro, cuidando da nossa pele e fofocando sobre os mais variados temas desde a adolescência.
Entrei pela porta e vi Beatrice no chuveiro, Luna estava de roupão em frente ao espelho passando algo no rosto, devia ser algum dos mil cremes que ela tinha, Giulia estava dentro da banheira, que transbordava espuma, mexendo no celular. Fechei a porta atrás de mim e caminhei até a minha pia com uma cara de poucos amigos.
— Bom dia, mal-humorada… — Beatrice sorriu enquanto massageava seu couro cabeludo. — Acordou com o pé esquerdo?
— Tenho motivos para isso…
— Não importa o motivo de estar com essa cara, vai ficar com rugas mais cedo. — Luna pontuou.
— Vocês não ouviram ontem? — As três balançaram a cabeça em negativo e eu apenas revirei os olhos e comecei a escovar os dentes.
— Você tem o sono muito leve, irmã — Giu comentou. — 28 anos e ainda não aprendeu a ignorar os gritos?
— Não deveríamos ter que nos acostumar, nosso pai deveria ter noção. Se quer matar alguém, que mate longe da nossa casa. — Cuspi a pasta e lavei a boca, secando na toalha em seguida. — Sem falar que encontrei %Matteo% no corredor de madrugada, o que já piorou meu humor consideravelmente.
— Ah, ele finalmente voltou? — Luna perguntou.
— Deve ter sido ele que trouxe o… Bom, agora, provavelmente morto. — Beatrice riu, saindo do box e pegando o roupão do gancho para se enrolar. — Vocês dois têm que aprender a conviver.
— Já tenho que morar debaixo do mesmo teto que ele, uma boa convivência seria pedir demais da minha boa vontade. — Virei as costas e fui em direção à porta. — Espero vocês na mesa para tomar café. — Antes de poder fechar a porta ouvi Beatrice rindo, ela adorava tirar sarro da minha inimizade com %Matteo%, se é que eu poderia chamar assim.
%Matteo% era o primogênito do nosso pai, o único de uma mulher que ele passou alguns poucos anos casado, %Matteo% era aquele que ia assumir o grande trono da Vincere. Era cansativo escutar sempre aquele papo, eu era a primogênita antes dele chegar ali do absoluto nada, e desde criança eu achei que iria revolucionar a história da
famiglia sendo a primeira mulher no comando da Vincere.
Desci a escada e caminhei pelo
hall de entrada, passei pela sala de estar e finalmente cheguei na mesa, que estava vazia; agradeci mentalmente por isso. Sentei em meu lugar de costume e respirei fundo, parecia que seria uma manhã de paz, até o momento em que escutei meu nome soando naquela voz irritantemente grossa e encorpada.
— %Pietra%, bom dia. — %Matteo% sentou do outro lado da mesa em seu lugar, bem em frente a mim.
— Dia. — Era um dia, mas já estava ruim por tê-lo que ver na minha frente pela segunda vez. Um dos empregados apareceu com dois pratos de ovos mexidos, o de %Matteo% tinha algumas tiras de bacon e logo em seguida minha taça com frutas e granola foi deixada a minha frente. — Obrigada, Mario.
O homem deu um sorrisinho tímido em agradecimento, quase que com medo do idiota o assassinar na mesa do café da manhã, e saiu para a cozinha, voltei a olhar para %Matteo%, que me olhava com o cenho franzido, claramente julgando meu comportamento.
— Nosso pai já falou para não ser assim com os empregados — reclamou, e voltou os olhos ao prato dele, continuando a comer, eu odiava esse jeito autoritário e prepotente.
Se já era assim agora, imagine quando fosse o chefe dessa merda toda.
— Assim como? — questionei, e vi ele direcionar os olhos para mim mais uma vez. — Educada? — completei com um sorriso irônico e as sobrancelhas arqueadas, antes que ele pudesse falar algo eu o vi apenas soltar o ar pelo nariz e voltar a comer. — Caso queira ser babaca com os empregados é sua escolha, %Matteo%. — Ele ia me refutar, mas a voz da nossa irmã nos interrompeu.
— Lá estão os dois brigando. — Beatrice sentou ao meu lado, e Luna e Giulia nas próximas cadeiras. — São nem 10 horas da manhã. — Eu e ele bufamos.
— %Teo%, eu preciso te mostrar algumas filmagens da Rules.
— A boate perto da faculdade? — Ela anuiu com a cabeça. — Irei até sua sala depois, Giu. — Ele sorriu e eu revirei os olhos.
Aparentemente ele só tinha educação com as minhas irmãs.
%Matteo% morava com a mãe no mesmo país que a gente quando ainda morávamos na Itália, e nosso pai não achou que, talvez, seria pertinente mencionar que tinha outro filho, mas tomou o cuidado de enviar um dos seus capitães de confiança para treinar seu primogênito desde os 12 anos. Não sabíamos muito de Aurora, %Matteo% também não falava muito dela, achava que a pedido da mãe. Vi uma foto dela com Otelo uma vez, aparentemente no casamento deles, pareciam felizes. Acreditava que meu pai tivesse amado ela e por isso tenha deixado ela ir embora com o filho.
Papai deixou Aurora criar %Matteo% até ele ter idade suficiente para ser treinado para a parte burocrática e o treinamento mais pesado da Vincere, então nosso pai exigiu que ele viesse morar na mansão quando fizesse 16 anos. Bom, ele veio, e nós 4 ficamos sem entender absolutamente nada, não que não soubéssemos que cada uma de nós éramos filhas de uma mulher diferente e que não conhecíamos nenhuma delas; nem mesmo a mãe de %Matteo%. Entretanto, nosso pai nunca falou que tínhamos outros irmãos, então foi um choque para nós, porém, ele explicou tudo e fomos forçadas a engolir ele como parte da família.
Os primeiros meses foram bem, mas depois que %Matteo% passou pela iniciação ele ficou esquisito. Começou a implicar e ser desprezível comigo. Depois dos dois primeiros anos, não sabia exatamente o porquê, mas comecei a imaginar que seria pelo lugar do
prossimo, isso fez com que o ódio fosse mútuo.
— Tá tudo bem? — Fui atraída pelo som da voz de Luna, que me olhava com o cenho franzido, tirando-me dos meus pensamentos.
— Sim, está — respondi sem mais, peguei a taça de frutas e um croissant para matar a minha fome e saí dali.
Odiava ser ríspida com minhas irmãs, nos amávamos e éramos não só irmãs, mas também melhores amigas. Nós estávamos bem durante esses meses sem %Matteo% por aqui; era ótimo não ter que olhar para a cara arrogante dele todo dia pela manhã, ou esbarrar com ele no corredor, como foi o caso de ontem à noite, ou escutar as gracinhas dele e tentar não me irritar com o jeito que ele fala comigo desde a adolescência. Eu não estava disposta a ceder para uma boa convivência, e ele muito menos, nós sabíamos disso, mesmo que nunca tenha sido dito uma só palavra a respeito.
Caminhei até o jardim e sentei em uma das mesas com guarda-sol, comi na tranquilidade da minha companhia aproveitando a brisa fresca da Espanha naquela época do ano; eu gostava de ficar sozinha.
Entrei pela porta da cozinha para deixar a louça que usei, peguei um copo de água e fui até a biblioteca. Sentei na poltrona me acomodando com as pernas dobradas e abri o livro que estava lendo naquela semana. Apesar de não ter feito faculdade como Luna ou Beatrice, eu adorava ler sobre tudo.
— Bom dia, %Pietra%. — Abri um sorriso ao ouvir a voz grave.
— Não estava na mesa do café da manhã, filha. — Senti o beijo no topo da minha cabeça e olhei para cima.
— Queria comer lá fora. — Fechei o livro, mantendo meu dedo na página em que estava, e dei atenção ao meu pai.
— Sabe que precisa avisar aos empregados, eles teriam servido o café no jardim. — Assisti ele sentar à mesa de madeira maciça, que ficava na sala adjacente à biblioteca, onde era seu escritório. — Como está? Não tenho visto você.
— Está sempre viajando e a boate tem me tomado a maior parte do meu tempo — comentei.
— Você quis um negócio, eu lhe dei. Não pode reclamar agora… — ele disse de forma séria enquanto olhava alguns papéis.
— Estou feliz com o trabalho, reclamei da sua ausência.
Ele suspirou e parou o que estava fazendo para olhar pra mim e responder:
— Infelizmente estamos com alguns problemas e preciso resolvê-los, filha. — Ele voltou a escrever em alguns papéis e ler outros.
Acredito que cuidar do cartel de drogas e armas em dois países seja um trabalho exaustivo, além da empresa têxtil que temos em homenagem à minha tia Victoria. No entanto, desde muito nova lembro do meu pai dar importância à família e tentar ao máximo estar presente nas ocasiões importantes como aniversários e datas comemorativas.
— Poderia visitar a
Fascino para espairecer um pouco. — Curvei os lábios e pendi a cabeça para o lado, tentando fazer uma expressão pidona. Meu pai não tinha ido na boate desde que eu comecei a administrá-la.
Eu estava sempre lendo, tomei gosto na adolescência, era como um refúgio pra mim e seguia sendo. Um belo dia, ainda na transição de morar na Espanha, eu comecei a ler um livro sobre um romance entre um dono de boate e uma menina da faculdade, eu me interessei mais pela parte da boate do que pelo romance em si. Então, comecei a pesquisar os estabelecimentos do tipo em Madri, e como quem não quer nada, eu pedi pro meu pai uma boate, mas não era qualquer uma, eu queria a
Fascino.
A
Fascino era uma boate enorme no centro de Madri, ela tinha todo o potencial de se tornar a melhor casa noturna da cidade, porém o administrador era um idiota. No começo meu pai achou que era apenas uma vontade infantil, eu sentia isso dele, e talvez tenha sido essa falta de crédito que me moveu a estudar e fazer tudo pra tornar a Fascino o que ela era hoje. Uma boate renomada, com dançarinas desejadas pelos empresários de todo o país, com darkroom para os mais libertinos e um dos negócios da
Vincere que mais faturava.
Ele levantou apenas os olhos até mim antes de dizer:
— Não quero que minha filha veja eu me divertindo com suas empregadas, %Pietra%. — Ele me olhou com uma expressão séria.
O chefe da
Vincere tinha uma fraqueza, afinal?
— Papai… Sei que se diverte, afinal, tem 5 filhos. — Sorri, doce. — Que eu saiba, não é mesmo? — debochei.
— Não seja malcriada, mocinha. — Ele torceu os lábios e eu dei uma risada baixa.
— Ela sempre foi malcriada. — Olhei para trás e vi %Matteo% perto da porta de entrada.
Respirei fundo e levantei da poltrona seguindo o caminho para outro lugar. Assim que estava ao lado dele, %Matteo% soltou baixo:
— Pode deixar que vou visitar a boate, %Tita%.
— O convite era para o papai. — Sorri sonsa. — Não faço questão da sua presença.
— Por favor, os dois podem ser civilizados? — Nosso pai reclamou.
— Ele não sabe ser civilizado, papai. — Virei para Otelo. — Ainda acho que foi criado com lobos. — Meu pai apenas levantou as mãos em rendição e nos ignorou, voltando aos seus papéis, ele já tinha aprendido com os anos que era inútil tentar apaziguar qualquer desentendimento entre mim e %Matteo%.
Então eu virei para encarar %Matteo% com um sorriso debochado, dei alguns passos, mas não fui muito longe ao sentir meu braço ser agarrado, fazendo eu voltar a olhá-lo em surpresa.
— Cuidado para o lobo aqui não te morder… — sussurrou batendo os dentes um no outro e me soltou.
Olhei para ele e entreabri a boca, fiquei tão chocada que nem consegui dizer nada, até porque, ele saiu caminhando até a mesa onde estava nosso pai. Saí pisando duro, mas não pude ignorar o sorriso divertido que estava desenhado nos lábios do idiota que infelizmente dividia metade do sangue comigo.
[...]
Cheguei na boate e Giovanna estava ajudando Vincenzo a organizar as bebidas que tinham sido reabastecidas. Giovanna Coppola, meu braço direito, melhor amiga e gerente da boate, quando eu não estou ela que manda, a loira sabia impor sua autoridade como eu. Crescemos juntas, seus pais eram grandes amigos de Otelo e também fazem parte dos associados da Vincere. Depois de alguns meses em que eu tinha chegado na Espanha, ela me ligou dizendo que não sabia viver sem mim na Itália, pegou o primeiro trem e veio me encontrar.
Vincenzo era nosso melhor amigo, nos conhecemos no ensino médio, já que seu pai foi transferido para capitão direto de Otelo, subiu para
consigliere em pouco tempo, ele morreu na mesma operação que o meu tio Lorenzo, que era o
sottocapo da Vincere.
Cumprimentei os dois e subi para o escritório. Vi qual seria a atração principal, os lucros da noite anterior, pagamentos a serem feitos e quanto do dinheiro que entrou no caixa eu precisava mandar para o restaurante para ser lavado, bem como as contas de quantas horas eu tinha até a casa estar lotada.
Era uma sexta-feira, com apresentação especial da nossa melhor dançarina, Isabel. Os homens iam à loucura quando aquela mulher subia no palco, era bonito de ver, até eu descia e sentava no bar para vê-la de vez em quando. Fiz meu planejamento do fim de semana, que eram os dias mais caóticos. Precisava pegar as drogas com Beatrice antes da abertura da boate e revisar o livro caixa da semana.
Eu aprendi muita coisa comandando o lugar, fazia apenas 9 meses que estava à frente da
Fascino, mas quando temos que nos virar a gente aprende rápido, além de ter tido a minha melhor amiga para ajudar, Giovanna era formada em gestão, isso fez toda a diferença. Eu me dediquei dia e noite para dar o melhor de mim, principalmente porque era isso que meu pai esperava de mim, e isso eu tinha certeza de que fiz e fazia todos os dias naquele lugar.
Fui até o nosso laboratório, onde eram feitas as drogas, minha irmã Beatrice era a que comandava, tudo tinha sido milimetricamente montado por ela, escolheu a dedo os químicos e físicos que trabalhariam ali, tudo tinha que funcionar do jeito dela. Ele se localizava em um ponto estratégico entre o porto, por onde chegavam os carregamentos do material, a minha boate e o nosso restaurante onde ficavam a maioria dos soldados aguardando ordens. Tudo era calculado de forma a facilitar nosso dia a dia e que tudo fosse feito de forma segura e longe do olhar do detetive insuportável que sempre ficava no meu pé.
Eu sabia que algo estava rolando pois quando ela pedia pra eu ir buscar a entrega, como falávamos no telefone, algum motivo tinha. Só conseguia pensar que antes eu tivesse negado o pedido dela e mandado algum dos soldados buscar as drogas, mas a verdade era que eu gostava de fazer eu mesma, do meu jeito.
Só que quando eu cheguei e Beatrice me alugou durante 20 minutos para falar o quanto eu deveria praticamente assinar um tratado de paz com %Matteo%, eu me arrependi amargamente de ter ido até lá. Achei que as minhas irmãs já tinham desistido disso há uns 10 anos, mas pelo visto seguiam tentando dar uma de Estados Unidos e se meter onde não deviam.
— Vocês precisam aprender a conviver, papai espera isso de vocês — ela ralhou comigo. — Precisam trabalhar juntos na
famiglia,
sorella.
— Beatrice, eu faço o que eu tenho que fazer, cumpro meu papel e ponto final. — Alterei meu tom de voz, estava cansada, eu estava perfeitamente amando os meses que %Matteo% passou fora resolvendo seja lá que merda tenha acontecido na Itália.
— Vai chegar o dia que precisará dele. — O tom de sobreaviso me irritou.
— Espero estar morta até lá. — Caminhei rapidamente e abri a porta, dando a entender que a conversa tinha se encerrado, e eu nem precisava virar para vê-la, tinha certeza de que mantinha a boca em uma linha, as mãos na cintura e a irritação evidente em sua testa franzida. —
Ciao. Assim que coloquei os pés na calçada, respirei fundo. Olhei para o carro estacionado atrás do meu e sorri fazendo um aceno de cabeça discreto, meus dois fiéis escudeiros sempre se mantinham alertas para a minha proteção. Entrei no meu carro e fui em direção à boate, já estava atrasada, faltava apenas 1 hora para abrirmos, e até distribuir aos nossos funcionários demandava um certo tempo.
Corri o máximo que pude, entrei na
Fascino e ainda no corredor do hall de entrada, pude ver pela parte envidraçada da parede que %Matteo% estava na porra do bar da minha boate, bebendo e conversando com Gi, claro, ela era caidinha por ele.
Respirei uma, duas, três vezes antes de entrar de vez no salão, caminhei até o bar e dei a bolsa com as drogas para Coppola.
— Já estão nos pacotes, distribua para os funcionários.
— Sim, %Pietra%. — A loira sumiu para dentro da boate.
Olhei para %Matteo% que mantinha um sorriso presunçoso nos lábios, o qual eu queria tirar na base do tapa. Ele me olhou com os olhos baixos e passou a mão nos fios negros, o cabelo curto dava um ar de matador de aluguel, porém ele parecia ter deixado crescer alguns centímetros já que alguns fios pareciam descer um pouco mais até suas orelhas. Logo a mão desceu até a lapela, e ele ajeitou o tecido, o terno preto era recortado exatamente para o corpo dele, era notável quantos euros ele tinha pagado naquela peça.
— O que está fazendo aqui? — Joguei minha bolsa e chaves do carro em cima do balcão, irritada por vê-lo ali tão confortável, como se ele fosse o dono do lugar.
— Disse que vinha te visitar.
— E eu achei que tinha sido clara quando disse que não queria.
— Você não tem escolha,
cariño… — Ele bebeu do copo baixo, que, pela cor do líquido e tipo de louça, deveria ser whisky. — Sabia que um dia a boate será minha e você vai ter que me obedecer?
— Só por cima do meu cadáver, seu cretino — aproximei-me dele e olhei bem no fundo daqueles olhos pretos enigmáticos —, papai fez questão de colocar a
Fascino no meu nome e se você ousar mexer nisso, eu mato você, %Matteo%. — Aquela boate significava muito para mim, foi nela que descobri o quanto era boa com números, com a logística e administração. Eu transformei ela na boate mais famosa de Madri, e tudo isso me deu confiança e orgulho de mim mesma.
— Não precisa ficar nervosinha — aquele sorriso perverso de quem adora me tirar a paciência brotou em seus lábios —, você pode estar certa quanto a boate ser sua, mas eu ainda tenho direito de entrar nela.
— Ah, definitivamente — falei de modo irônico revirando os olhos. — Fique à vontade… mas não se sinta em casa. — Peguei minhas coisas e subi para o escritório.
%Matteo% queria me foder, era isso, não era possível, ele resolveu vir encher o meu saco no dia que a cidade inteira está eufórica demais para pensar com clareza. Sexta-feira, todo mundo aguarda por ela, o dia mais esperado da semana, as pessoas anseiam tanto pela sexta-feira que acredito que o universo sente a energia que elas emanam e tudo se resume a festa, curtição e caos. A boate fica tão lotada que a fila dá a volta no quarteirão, mas claro, ele pensou exatamente quando seria o melhor dia pra vir me atrapalhar e me tirar do sério.
—
Imbecille, figlio di puttana! — Soquei a mesa com força e Giovanna entrou quase que ao mesmo tempo.
— Você está bem? — Ela me olhou com um certo receio de perguntar.
— Estaria melhor se aquele imbecil focasse na sujeira dele ao invés de vir me encher o saco! — falei alto, para passar a vontade de esganar alguém.
— %Pietra%, ele disse que veio curtir a noite aqui. — Giovanna tinha um péssimo julgamento das intenções de %Matteo% pela paixonite que ela mantinha por ele desde quando consigo lembrar, era claro o seu descontentamento já que ele nunca havia dado um mísero segundo do tempo dele a ela, pelo menos não do jeito que ela esperava. No entanto, seguia tentando cavar uma realidade onde ele era uma boa pessoa e só queria ser gentil e agradável; doce ilusão.
— Ele veio ver se conseguia me tirar do sério, foi isso que ele veio fazer — falei entredentes.
— Nunca entendi a inimizade de vocês, mas não vou me meter, vou apenas fazer o meu trabalho. — Ela caminhou até a mesa e deixou alguns papéis. — Esses são os contratos com os novos fornecedores de bebidas.
— Certo, vou olhar isso… — Peguei os papéis e os folheei. — Já fez a distribuição?
—
Si. — Assentiu. — Ajudo em mais alguma coisa?
— Não, pode começar a preparação pra abrir. — Peguei o primeiro contrato para começar a ler, mas tirei os olhos deles um segundo para voltar a encarar a loira. — Isabel já chegou?
— Ainda não, atrasada como sempre.
— Eu vou ter um colapso hoje... — Massageei a testa. — Peça para o Vince me trazer um martini, por favor.
Ela saiu da sala e eu dei continuidade ao que tinha que fazer, analisei os contratos, no meio tempo Vincenzo deixou meu drink e eu agradeci. Assinei o que tinha que assinar, fiz ligações para os fornecedores de alimentos, já que Santiago, chefe da cozinha, tinha me entregado uma lista de alguns ingredientes que estavam faltando na cozinha.
Levantei da minha mesa e fui até a janela fumê que me mantinha sã e salva ali no meu pequeno esconderijo, mas ninguém se escondia de mim, já que eu conseguia ver toda a boate dali. Já estávamos com bastante movimento, o show começava às 23 horas, Isabel sempre chegava atrasada e isso me irritava, porém, enquanto não irritasse os nossos clientes, eu não reclamaria.
Quando voltei a olhar para o salão, vi %Matteo% com três soldados nossos, todos bebendo, parecia realmente que ele estava ali apenas para se divertir. Eu esperava de verdade que Gi estivesse certa, queria acreditar nisso e que a minha sexta-feira fosse tranquila, na medida do possível. Olhei para trás ao ouvir as batidas na porta e liberei a entrada, vi Vincenzo entrar com mais um martini na bandeja e sorri.
— Achei que precisaria de mais um.
Olhei ele de maneira indecente, Vincenzo sempre foi um homem interessante. Os cabelos castanhos presos em um coque, os olhos também castanhos, quase um mel, profundo e soturnos, ele era esguio e ao mesmo tempo ostentava braços fortes, sempre usando um colete de cor diferente e isso era o seu charme, eu era a prova de que ele conseguiria o que quisesse vestido daquele jeito.
Quando eu assumi a
Fascino, eu não pensei em mais ninguém a não ser ele para me ajudar, Vince pensou em tudo para a parte do bar, de quantos barmen ele precisaria, de como seria melhor atender e organizar as bebidas, eu só precisei aprovar.
Inteligente e gostoso, não tinha melhor combinação que essa.
— Obrigada, Vince. — Sorri gentil para ele, que colocou a taça em cima da minha mesa.
— Posso ajudar em mais alguma coisa? — perguntou ao se virar com a bandeja cobrindo seu peito.
— Talvez no final do expediente. — Curvei o lábio de maneira libidinosa e ele prontamente entendeu.
— Aguardando suas ordens, senhorita Alonso. — Deixou meu escritório e eu mordi o lábio admirando aquela bunda durinha na calça jeans justa.